domingo, 21 de junho de 2026

Imperdoável


 Produzido pela Netflix (assim como “Bird Box”, outro grande sucesso estrelado por Sandra Bullock), “Imperdoável” –ou “Unforgivable” é adaptado da série de TV inglesa, “Unforgiven”, inédita no Brasil, estrelada por Suranne Jones e dirigida por David Evans. De fato, nota-se o quanto o enredo de “Imperdoável” se ramifica em diversos outros personagens atrelados ao drama de sua protagonista, multiplicando suas sub-tramas num recurso que remete mesmo aos expedientes das séries de TV.

Contudo, a opção aqui, apesar desses despercebidos elementos narrativos, é dar uma solidez cinematográfica ao material, e nisso o trabalho da diretora Nora Fingscheidt acaba lembrando muito os contundentes dramas independentes norte-americanos.

Sandra interpreta (e muito bem) a protagonista, Ruth Slater que, quando a trama começa, está saindo da penitenciária na qual permaneceu encarcerada nos últimos vinte anos. Depois de tanto tempo presa, Ruth já não parece ser capaz de funcionar em sociedade. É uma pessoa calada, acuada e introspectiva. E para piorar, além das severas circunstâncias em que precisa se manter durante esse frágil período de liberdade condicional, existem as complicações do crime pelo qual ela foi condenada –do qual inicialmente, não sabemos muito, mas cujos elípticos flashbacks vão, aos poucos, tentando nos esclarecer.

Ruth matou um policial quando tinha vinte anos –um crime ao que tudo indica acidental, todavia, nada disso serve de atenuante para aqueles que se voltam contra ela, por pura simpatia à polícia.

Na árdua tentativa de se readaptar, Ruth vai morar num albergue suburbano, arruma emprego numa fábrica processadora de pescados (o único que ela obtém apesar de possuir referências melhores) e consegue uma segunda ocupação ao ajudar uma OMG na construção de um abrigo para sem-tetos. Enquanto se incumbe dessa rotina, ela recebe ocasionais visitas de seu rigoroso agente da condicional, Vincent Cross (o ótimo Rob Morgan, de “Não Olhe Para Cima” e “Confronto No Pavilhão 99”) e estabelece uma relutante amizade com o colega de trabalho Blake (Jon Bernthal).

Existem ainda os filhos do policial que ela matou, o irascível Keith (Tom Guiry, de “Tigerland-O Caminho da Guerra”) e o retraído Steve (Will Pullen) que eram crianças na ocasião do homicídio –mas que agora, diante da revoltante notícia da liberdade de Ruth, pensam seriamente em planejar um ato de justiça com as próprias mãos.

Há o casal, formado por Vincent D’Onofrio e Viola Davis, novos moradores da casa onde Ruth morou, e dentro da qual se sucedeu o tal crime; sendo advogado, John Ingram (personagem de D’Onofrio) é procurado por Ruth para que encontre meios legais, que não burlem as rígidas regras da condicional, a fim de estabelecer um contato entre Ruth e sua irmã pequena que, desde o nascimento Ruth havia criado, e desde que foi presa nunca mais teve notícias, apesar das milhares de cartas que, nesses anos todos, ela escreveu.

A irmã de Ruth, Katie (Aisling Franciosi, de “Drácula-A Última Viagem do Demeter”), agora com 25 anos, mal lembra dela e vive com seus pais adotivos, Michael e Rachel Malcolm (Richard Thomas, da versão televisiva de “It-A Coisa” e Linda Emond, de “Old Boy” e “Across The Universe”) e com sua irmã Emily (Emma Nelson).

Todos são fios narrativos que, de uma maneira ou de outra, convergem para a trama principal de Ruth, revelando já próximo do final algumas informações surpreendentes que podem alterar a percepção de alguns expectadores sobre muito do que vinha sendo mostrado no filme, ainda que dificilmente isso haveria de dissipar a excelente composição dramática de Sandra Bullock, provando pela enésima vez que é uma atriz muito mais versátil e capaz do que as bem-sucedidas comédias românticas levavam a crer. O filme cresce quando ela está acompanhada por bons parceiros de cena, caso de Rob Morgan, Vincent D’Onofrio, Viola Davis e –vá lá –Jon Bernthal, mas se percebe o ritmo moroso e o andamento desanimado da direção toda a vez que os membros mais frágeis do elenco dão as caras.

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