Não confundir este filme de terror de 2026 com “The Paperboy”, filme de Lee Daniels, com Nicole Kidman, que no Brasil foi distribuído com esse mesmo título nacional.
Dirigido por Curry Barker, um youtuber
norte-americano conhecido por um canal de esquetes de comédia, “Obsessão” é um
título que soma-se à safra de surpreendentes e excelentes filmes de terror que
o cinema norte-americano (em especial, o cinema independente) tem entregado nos
últimos anos. Sua compreensão do macabro embutido nos expedientes narrativos do
gênero, bem como a precisão em conceber esses conceitos por meio de um prisma
de comentário sócio-comportamental, é algo sensacional.
Em princípio, “Obsessão” parte de um pretexto
que, inserido em outros gêneros (como romance ou comédia romântica), seria
absolutamente inofensivo: Um amor não correspondido.
É o amor que o pra lá de tímido Bear (Michael
Johnston) sente a cerca de sete anos pela amiga Nikki (a excelente Inde
Navarrette) sem, no entanto, jamais ser capaz de verbalizar. A cena que abre o
filme, por sinal, já estabelece todas as notáveis dinâmicas do roteiro – e
expõe o talento do diretor Barker: Bear está a ensaiar sua vã tentativa de
declarar-se para Nikki, em frente à outra amiga, Sarah (Megan Lawless),
ignorante de que é ela, por sua vez, quem tem interesse nele. A ouvi-lo com
ares de confidente, está Ian (Cooper Tomlinson, parceiro de Barker em seu canal
no Youtube), que também tem lá sua parcela de interesse em Nikki, embora isso
não o impeça de ser amigo de Bear. Todos esses quatro personagens – Nikki,
Bear, Sarah e Ian – trabalham numa mesma loja de aparelhos musicais. E todos se
reúnem no mesmo local para o happy hour,
quando, mais uma vez, Bear fracassa em revelar seus sentimentos à Nikki.
Entretanto, numa visita a uma lojinha de
produtos exotéricos, ele encontra um certo idem chamado One Wish Willow – consiste de um graveto de salgueiro que pode
realizar magicamente o pedido de um usuário que o quebrar ao meio, num feitiço
que lembra o mesmo procedimento mostrado no primoroso “A Hora do Mal”.
Sem muito acreditar nessa propaganda, Bear
compra o artefato mesmo assim, deseja que Nikki o ame mais que qualquer outra
pessoa no mundo, e o quebra. A partir daí uma mudança se opera em Nikki – ainda
mais perceptível e impressionante graças ao competente trabalho da atriz. Ela passa
a demonstrar um amor avassalador e irreprimível por Bear. Logo, eles estão
juntos, morando na mesma casa, dormindo na mesma cama, mas o conto de fadas de
Bear não dura muito: Numa continuidade distorcida de seu desejo, o amor de
Nikki se torna cada vez mais obcecado – ela não suporta mais suas ausências, ou
que ele dê um mínimo de atenção para outras pessoas, e quando estão junto de
outros conhecidos, ela simplesmente não consegue parar de fazer juras de amor
inconvenientes e fora de hora.
Mais do que expor uma faceta tóxica do amor
abusivo que só faz aumentar, o diretor Curry Barker usa dessas circunstâncias
para criar cenas que não apenas ilustram as consequências extremas de um pedido
atendido em sua totalidade, como também mostra sutilmente a crueldade inerente
de uma vontade unilateral – a verdadeira Nikki, aquela que se manifesta em
pequenos gestos na atuação quase psicótica de Inde Navarrette, ou cuja voz
ouvimos numa cena específica, triste e apavorante, não quer aquela situação, o
que faz de Bear, com todas as suas boas intenções amorosas, todo o seu jeito acanhado, hesitante e tímido, o
verdadeiro vilão da história.
Essa observação executada dentro da premissa de
terror vem adornada, em muitos momentos, com um senso de humor aguçado e
perverso (uma das especialidades do diretor), e sequências primordiais que
oscilam entre o constrangedor, o palpitante e o assustador, mas ele não deixa
de galgar os acontecimentos em direção a uma série de desenlaces que elevam
brutalmente o teor de barbárie à que “Obsessão” é capaz de chegar, tendo em
vista que vimos todo o enredo começar com um singelo amor não correspondido.

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