quarta-feira, 24 de junho de 2026

O Chamado


 Lançado em 2002, pegando o gancho comercial de “O Sexto Sentido”, de 1999, que havia despertado no público o interesse por tramas macabras, sobrenaturais e pontuadas por guinadas surpreendentes, “O Chamado” atreveu-se a refilmar “Ringu”, de Hideo Nakata, que por sua vez tratava-se da adaptação de um mangá (quadrinho japonês) de terror da autoria de Koji Suzuki.

A década de 1990, no Japão, havia sido prolífica para que realizadores de cinema explorassem o medo por meio de uma emergente tecnologia que mudava irreversivelmente a vida e os relacionamentos modernos –o advento da internet e da telefonia móvel com os celulares –com isso, os japoneses observaram, antes de todo mundo, o viés pessimista até mesmo fatalista, que esses elementos poderiam acarretar como a alienação, o isolamento e a insegurança. Surgiram daí obras como as produções perpetradas por Kiyoshi Kurosawa, “Cure” e “Kairo” (este também refilmado nos EUA, como “Pulse”), e “Uma Chamada Perdida” (o original de Takashi Miike, sobre um celular amaldiçoado, também depois refilmado). Com “O Chamado”, Hollywood importou para os EUA essas inquietações que, concretizadas em bons e eficientes filmes, faziam sucesso no Japão e começavam a gerar cultuadores em todo o mundo.

Dirigido por Gore Verbinski (festejado diretor vindo da publicidade que viria a dirigir a primeira trilogia de filmes de “Piratas do Caribe”), “O Chamado” –ou “The Ring” –soube substituir o contexto japonês pelo norte-americano com uma sucessão de boas ideias e escolhas felizes que fizeram do projeto uma produção certeira e bem calibrada.

Na cidade de Seatle (ambientação norte-americana que substitui com exatidão apropriada os subúrbios de clima chuvoso do filme japonês), a jornalista Rachel Keller (a bela Naomi Watts, então recém-revelada no espetacular “Cidade dos Sonhos”) descobre durante o funeral de sua sobrinha um mistério que desperta sua curiosidade profissional: Uma adolescente saudável que morreu sem explicações dentro do próprio quarto.

Rachel descobre que não apenas sua sobrinha, mas outras três amigas também morreram misteriosamente, segundo constam os boatos, após assistir uma fita de VHS misteriosa cujo conteúdo ninguém sabe. Uma lenda urbana: Muitos afirmam à ela que toda pessoa que assistir tal fita morrerá em uma semana.

É claro que, em suas investigações, Rachel não irá demorar para encontrar a tal fita amaldiçoada e assisti-la –em princípio, uma série de estranha imagens que não parecem fazer sentido algum –e, no decorrer dos sete dias antes que a maldição se concretize (a estrutura básica da narrativa) ela tentará elucidar o mistério, descobrir de onde a fita vem, como surgiu, porque deflagra tal maldição aos incautos que têm acesso à ela e, o mais importante, procurar encontrar um meio de neutralizar seu efeito e tentar sobreviver.

Nesse percurso sombrio, onde desdobramentos inesperados ocorrem –não só seu ex-esposo (Martin Henderson) assiste a fita logo depois como também, inadvertidamente, o seu filho pequeno de sete anos, Aidan (David Dorfman, de “O Massacre da Serra Elétrica”), tornando a investigação ainda mais urgente e pessoal –Rachel se depara com a sinistra história de Samara (Daveigh Chase, de “Donnie Darko”), uma jovem paranormal morta décadas antes, diretamente relacionada à essa maldição.

Bem dirigido, bem interpretado e roteirizado com relativa satisfação (salvo algumas alterações microscópicas relacionadas à bem-amarrada trama principal), este remake norte-americano se sobressai em relação ao original japonês graças à direção sofisticada de Gore Verbinski, em comparação ao trabalho de Hideo Nakata, demasiadamente fiel aos expedientes do terror japonês dos anos 1990 (“Ringu” é de 1998).

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