sábado, 20 de junho de 2026

Risqué - A Vingança


 Desde os primeiros segundos se percebe algo de desavergonhado no filme que o diretor Tony Dean Smith está entregando com ares de quem quer fazer uma obra com status cult. Risqué é o nome da boate de strip-tease que aglomera praticamente todos os personagens da produção – e na qual a trama irá se ambientar em sua quase totalidade. No início, logo depois de créditos iniciais cafonas e um tanto suspeitos, vemos a protagonista Jess (a charmosa Leah Gibson) adentrando o lugar trajada com lingeries (!) e armada de uma escopeta (!!) – para então, retrocedermos alguns dias no tempo e elucidarmos, pouco e pouco, a história que a levou até aquele momento, que descobriremos mais tarde tratar-se do clímax da trama.

Para Jess, o trabalho de dançarina de stripper, que já não era nenhuma maravilha, começa a apresentar aborrecimentos incontornáveis: Além de suportar os clientes libidinosos (que, no geral, não costumam respeitar a regra de não tocá-las) e de aguentar a importunação do asqueroso Big Boy Billy (Andi Jashy), segurança do lugar, metido a besta por simplesmente ser primo do dono, Jess tem que ouvir do gerente local (Tomi May) que, aos quarenta anos, já não tem mais a idade das demais garotas, e que, portanto, deve se aposentar.

Quando acaba despedida, Jess mergulha nas neuroses e angústias de praxe que culminam, claro, em bebedeiras nos bares locais. Mas, é quando ela encontra Mike (David Newman), até então, o sempre ignorado e despercebido barman do Risqué. Mike tem um plano, e quer Jess como sua parceira na empreitada: No período em que esteve na prisão, ele conheceu dois entregadores que trabalharam levando e trazendo dinheiro de fontes ilícitas (leia-se, tráfico de drogas) no Risqué. Para Mike, eles contaram detalhadamente o procedimento com o qual levavam mochilas cheias de dinheiros (em torno de milhões!) e guardavam num cofre localizado embaixo da cadeira do escritório do cara com quem negociavam.

Após sair da cadeia, Mike passou alguns meses como barman no Risqué, tempo suficiente para confirmar todas as circunstâncias que seus colegas de cárcere tinham relatado. O plano dele é invadir do escritório do Risqué na noite de uma apresentação para os clientes inspirada em “De Olhos Bem Fechados”, quando todas as strippers estarão usando máscaras – e, portanto, não poderão ser identificadas – e roubar todo o dinheiro contido no cofre secreto. Para tanto, Mike precisa da ajuda de Jess e de outras strippers de confiança do lugar. Jess recruta suas quatro melhores amigas, Shelby (Eloise Lovell Anderson), uma quase evangélica um pouco sem noção (!), Carmem (Silvia Orduna), a latina do grupo, injuriada por sustentar o namorado com quem mora e que não deixa o sofá e o jogo de videogame por nada, Kiko (Julia Strowski), uma oriental cujo sotaque a faz soar, muitas vezes, incompreensível, e Bianka (Rex Adams), imigrante húngara com fama de ter assassinado tranquilamente alguns homens que a importunaram (!!).

O filme avança em meio aos usuais preparativos para o grande golpe como qualquer outra produção que se preze do gênero – e até com ininterruptas referências cinematográficas à “Golpe de Mestre”, “Onze Homens e Um Segredo” e tantos outros – mas, o diretor Tony Dean Smith, malandro, aproveita todas as chances possíveis, para despir o numeroso elenco feminino em cena, entregando sequências que oscilam entre o cômico, o vulgar e o erótico – fazendo, nesse sentido, lembrar o despudorado Paul Verhoeven e seu “Showgirls”.

Lá pelas tantas, surge uma complicação: Da forma mais aleatória e mais non-sense possível – estavam todas a treinar tiro ao alvo numa floresta... – Shelby acaba alvejando Mike sem querer com um tiro, e ele morre (!?!). Sem o seu mentor no golpe, as garotas resolvem dar continuidade ao plano mesmo assim, contudo, tanto Kiko quanto Bianka, comunicaram seus próprios conhecidos (a Yakuza e a Máfia Russa, respectivamente) para tentar burlar as comparsas e sair na vantagem.

“Risqué” é um filme que parece almejar um certo estilo de cinema como aquele muito reverenciado por Quentin Tarantino, e que urgiu realizações desiguais, tais como “Vingador Tóxico”, “Faster, Pussycat, Kill! Kill!” ou “Os Irmãos Cara-de-Pau”, um cinema de imediato reconhecimento visual, peculiar, mirabolante em suas inverossimilhanças e nem um pouco levado à sério – neste caso, com a imagem de strippers armadas até os dentes em mente – o objetivo só não termina totalmente alcançado devido ao insistente mau gosto do diretor que impõe um ritmo irregular,  concebe cenas inteiras de teor esdrúxulo (ainda que haja um bom desempenho da direção de fotografia), e não consegue extrair do elenco interpretações mais bem alinhadas à sua proposta – acabam se sobressaindo os atores a atrizes que, quando muito, tem um pouco mais de carisma.

Ele quis fazer um cult-movie, ignorando o fato de que não existe uma fórmula para fazer isso – cults nascem exatamente de circunstâncias incomuns nas quais contrariam qualquer fórmula.

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