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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Homem-Aranha - Um Novo Dia


 Em “A Brand New Day”, vemos  finalmente Peter Parker lidando com as complicadas circunstâncias nas quais foi colocado ao fim de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”: Desprovido de todo o repertório de utensílios e facilitadores tecnológicos que vinham lhe acompanhando desde “De Volta Ao Lar” – o que, na opinião de alguns fãs, não tinha muito a ver com o personagem – apagado da memória do mundo inteiro (graças a um feitiço do Dr. Estranho), incluindo seus entes mais próximos, a namoradinha M.J. (Zendaya) e o amigo Ned (Jacob Batalon), e tirado tragicamente da companhia de sua Tia May (Marisa Tomei). Em suma, completamente sozinho.

Hábil diretor de contos centrados na melancolia e em sentimentos menos falados e mais interiorizados (como atestam obras como “Temporário 12” e “O Castelo de Vidro”), Destin Daniel Cretton demonstrou alguma desenvoltura visual com a elaboração de belas e fluídas cenas de ação em “Shang-Chi e A Lenda dos Dez Anéis”, sua estréia na Marvel Studios. Agora, com este “A Brand New Day”, ele ganha uma espécie de promoção e assume, no lugar de Jon Watts (diretor dos três longas anteriores do Homem-Aranha), um personagem de maior estatura dentro do MCU.

E o resultado corre o sério risco de ser o melhor filme protagonizado pelo Homem-Aranha de Tom Holland até o momento.

Vivendo mais como Homem-Aranha do que como Peter Parker, o herói, agora quase sem nenhum vínculo afetivo, passa seus dias enfrentando as constantes dificuldades que se abatem sobre a cidade de Nova York. Todavia, lá no íntimo, ele não consegue esquecer M.J. e Ned que seguiram em frente, morando juntos, estudando e, agora, prestes a se formarem. Essa angústia parece se manifestar na fisiologia de Peter: Ele é acometido de dores de cabeça e do que parecem ser mutações nas quais o lado aracnídeo de seu organismo começa a se manifestar de maneira monstruosa sobre sua persona humana.

É a fim de inibir as consequências mais imprevisíveis desse processo que Peter acaba procurando pelo Dr. Bruce Banner (Mark Rufallo), certamente um especialista em conter o monstro dentro de si (o Hulk, no caso).

Paralelamente a essas mudanças – mas, servindo de perfeito reflexo a elas a partir de um determinado ponto – está  o mistério que ocupa boa parte do enredo do filme: Uma entidade – que parece ‘possuir’ pessoas por toda a Nova York com o nebuloso objetivo de invadir a fortificada sede do Controle de Danos – está à solta e, enquanto nem Peter, nem a polícia, compreende seus propósitos e suas motivações, essa ameaça precisa ser parada.

Mais disposto a enfatizar os dilemas de jovem adulto do protagonista do que Jon Watts (que deu prioridade à euforia juvenil), Destin Daniel Cretton salienta com mais evidência e minúcia a evolução do personagem rumo a um Homem-Aranha muito mais condizente com seu retrato nos quadrinhos, o que, em si, já é suficiente para eleger este filme como um provável favorito dos fãs, no entanto, ele ainda não está completamente livre de lapsos, em especial, no que diz respeito à condição sócio-econômica do herói (nunca fica claro, afinal, do quê Peter Parker vive e em que trabalha, visto que só o vemos atuar como Homem-Aranha) ao staff do Controle de Danos (uma herança que ainda repercute de “Vingadores” e das tantas manobras a incluir laços com o Universo Marvel) e a premissa assim esboçada da mutação aracnídea – que parecia ser central no trailers, mas que, aqui, embora muito pertinente no princípio vai dando gradualmente lugar a um outro plot twist até por fim perder completamente sua importância.

Felizmente, “A Brand New Day” é aquele tipo de filme que os acertos compensam amplamente seus erros: A dinâmica entre Peter, M.J. e Ned enfim rende emoções genuínas depois de quatro filmes, e a participação do Justiceiro é uma oportunidade e tanto para conferirmos a química sem igual entre Jon Bernthal e Tom Holland. Contudo – sem revelar spoilers – o nome que, aqui, aponta de forma promissora para o futuro da Marvel nos cinemas é a jovem Sadie Sink, compondo com excelência uma personagem cuja identidade foi aguardada às sete chaves até o lançamento do filme nos cinemas e que representa uma das tantas gratas surpresas da produção – e que, ao fim, deixa o público com um entusiasmado gostinho de quero mais.

domingo, 2 de agosto de 2026

A Odisseia


 O que fazer após a consagração? Essa dúvida talvez tenha passado na mente de Christopher Nolan após ele ter arrebatado o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 2024 com “Oppenheimer”, e a resposta que ele encontrou foi... voltar ao início de tudo!

Como contador de histórias, Nolan sentiu que havia chegado a hora de tentar contar no cinema uma das mais antigas histórias da civilização, uma estrutura referencial para todas as jornadas arquetípicas que vieram depois – “A Odisseia”.

O próprio cinema de Christopher Nolan deve muito a esse poema ancestral de Homero: Lá estão as idas e vindas temporais (por meio de memórias sistematicamente resgatadas) que dão à narrativa um sedutor formato não linear, tal e qual Nolan fez em “Amnésia”, em “Tenet” e outras obras mais. “A Odisseia” é, em si, um modelo que sempre exerceu forte impacto sobre ele enquanto cineasta.

Logo, diante da sensação de ter chegado ao topo, Nolan se viu na necessidade de regressar (assim como Odisseu) ao ponto em que sua verve como contador de histórias floresceu. Regressar à Odisseia.

Não que não houvessem tentado adaptá-la (e muito) antes: Além de um sem-fim de tentativas de adaptação em formato longa-metragem ou minissérie (a maioria delas ostentando valores característicos de Filme B), “A Odisseia” é também a fonte e a influência para diversas outras variações narrativas no cinema como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, e (há quem diga) “Interestelar”, do próprio Nolan.

Era hora de aventurar-se a adaptar a obra original de fato e tentar dar a ela uma roupagem cinematográfica definitiva. E o resultado, como costuma ser nos melhores trabalhos de Nolan é ambicioso, abrangente, épico e assombroso.

Antiguidade. Já conta mais de uma década dos feitos cantados aos quatro ventos durante a Guerra de Tróia vencida pelas forças de Agamenon (o também diretor Ben Safdie), todavia, Odisseu (Matt Damon), o rei de Ítaca e um dos homens de confiança de Agamenon naquele longo conflito ainda não retornou para casa, nem para o leito de sua devotada esposa Penelope (Anne Hathaway). Há quem diga que perdeu-se no mar. Há quem diga que morreu. Enquanto esse impasse não se resolve, e enquanto a esperança por seu retorno se mantém inabalável em Penelope, as dezenas (quase centenas) de pretendentes à mão dela e ao trono de Ítaca se amontoam no palácio esbanjando da hospitalidade grega, entre eles, o pérfido e ardiloso Antinous (Robert Pattinson). Em algum momento, Penelope haverá de terminar o sudário que passa os dias tecendo, e quando o fizer, será o momento em que terá por obrigação escolher um deles, a despeito da injúria de Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu que, como a mãe, ainda nutre esperanças pelo retorno do pai. Um pai que ele não conheceu.

É, no entanto, a conturbada jornada de Odisseu em seu esforço para voltar para casa que ocupa todo o centro da narrativa de Nolan.

Finda a Guerra de Tróia (com o episódio do Cavalo de Tróia mostrado num segmento espetacular em flashback), Odisseu junta seus homens e prepara-se para a viagem em regresso à Ítaca, entretanto, uma série de contratempos acaba comprometendo seu retorno. Farto dos desmandos de Agamenon, ele segue por uma outra rota marítima que o leva à uma ilha habitada por um gigantesco ciclope das cavernas – na primeira das inúmeras cenas que provam a desenvoltura sem igual (e até então desconhecida e inexplorada) de Christopher Nolan para moldar sequências do mais puro terror.

Somente com o monstro derrotado, Odisseu e seus homens se dão conta de que, como a criatura mitológica que é, ele tem como pai uma das divindades (Poseidon, no caso) que, agora, se encontra enfurecido com Odisseu e haverá de dificultar sua volta para casa. E serão esses percalços, de exaspero inacreditável que acrescentarão mais dez anos ao regresso do Odisseu – que a guerra já havia afastado por uma década de Ítaca. O confronto com os gigantes, seguido do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton, ótima), a sombria sequência do reencontro com os combatentes da Guerra de Tróia, agora mortos, e a aparição de outras criaturas sobrenaturais dos mares como as sereias, o monstro que sucede o redemoinho de Poseidon e a deusa Calypso (Charlize Theron) que, em sua afeição por Odisseu, o aprisiona em sua ilha, destituído de suas lembranças, por sete longos anos.

Não há um único membro do elenco que, sob a batuta de Christopher Nolan, não esteja excelente, contudo, no campo das atuações primorosas é necessário chamar à frente Matt Damon, Tom Holland e Robert Pattinson, estupendos interpretando o trio que representa o cerne de todo o embate moral e emocional da trama – o homem em regresso ao lar em permanente conflito com as escolhas atrozes que a guerra lhe obrigou a fazer; o menino pressionado a virar homem a fim de preservar intacta a herança e a memória do pai; e o vil interesseiro oportunista a tentar valer-se de trapaça e perfídia a fim de prevalecer em vantagem sobre essas duas circunstâncias.

A obra de Homero é e sempre foi um fundamento em torno do qual os mais diversos enredos foram construídos ao longo dos séculos, Nolan recriou essa jornada monumental a partir de suas mais recentes adaptações e traduções, buscando a conciliação de uma linguagem moderna com os paradigmas inestimáveis que o poema original plantou na cultura literária do ocidente. Seu filme é uma recriação majestosa, vibrante e, em alguns momentos, até comovente do esforço de seu protagonista em se manter relevante e digno ante um mundo em transformação e suas imponderáveis provações – só o tempo dirá o quão contundente vai ser sua marca na História do Cinema, mas desde já “A Odisséia”, de Christopher Nolan, é um dos melhores e mais brilhantes filmes de 2026.

domingo, 21 de junho de 2026

Imperdoável


 Produzido pela Netflix (assim como “Bird Box”, outro grande sucesso estrelado por Sandra Bullock), “Imperdoável” –ou “Unforgivable” é adaptado da série de TV inglesa, “Unforgiven”, inédita no Brasil, estrelada por Suranne Jones e dirigida por David Evans. De fato, nota-se o quanto o enredo de “Imperdoável” se ramifica em diversos outros personagens atrelados ao drama de sua protagonista, multiplicando suas sub-tramas num recurso que remete mesmo aos expedientes das séries de TV.

Contudo, a opção aqui, apesar desses despercebidos elementos narrativos, é dar uma solidez cinematográfica ao material, e nisso o trabalho da diretora Nora Fingscheidt acaba lembrando muito os contundentes dramas independentes norte-americanos.

Sandra interpreta (e muito bem) a protagonista, Ruth Slater que, quando a trama começa, está saindo da penitenciária na qual permaneceu encarcerada nos últimos vinte anos. Depois de tanto tempo presa, Ruth já não parece ser capaz de funcionar em sociedade. É uma pessoa calada, acuada e introspectiva. E para piorar, além das severas circunstâncias em que precisa se manter durante esse frágil período de liberdade condicional, existem as complicações do crime pelo qual ela foi condenada –do qual inicialmente, não sabemos muito, mas cujos elípticos flashbacks vão, aos poucos, tentando nos esclarecer.

Ruth matou um policial quando tinha vinte anos –um crime ao que tudo indica acidental, todavia, nada disso serve de atenuante para aqueles que se voltam contra ela, por pura simpatia à polícia.

Na árdua tentativa de se readaptar, Ruth vai morar num albergue suburbano, arruma emprego numa fábrica processadora de pescados (o único que ela obtém apesar de possuir referências melhores) e consegue uma segunda ocupação ao ajudar uma OMG na construção de um abrigo para sem-tetos. Enquanto se incumbe dessa rotina, ela recebe ocasionais visitas de seu rigoroso agente da condicional, Vincent Cross (o ótimo Rob Morgan, de “Não Olhe Para Cima” e “Confronto No Pavilhão 99”) e estabelece uma relutante amizade com o colega de trabalho Blake (Jon Bernthal).

Existem ainda os filhos do policial que ela matou, o irascível Keith (Tom Guiry, de “Tigerland-O Caminho da Guerra”) e o retraído Steve (Will Pullen) que eram crianças na ocasião do homicídio –mas que agora, diante da revoltante notícia da liberdade de Ruth, pensam seriamente em planejar um ato de justiça com as próprias mãos.

Há o casal, formado por Vincent D’Onofrio e Viola Davis, novos moradores da casa onde Ruth morou, e dentro da qual se sucedeu o tal crime; sendo advogado, John Ingram (personagem de D’Onofrio) é procurado por Ruth para que encontre meios legais, que não burlem as rígidas regras da condicional, a fim de estabelecer um contato entre Ruth e sua irmã pequena que, desde o nascimento Ruth havia criado, e desde que foi presa nunca mais teve notícias, apesar das milhares de cartas que, nesses anos todos, ela escreveu.

A irmã de Ruth, Katie (Aisling Franciosi, de “Drácula-A Última Viagem do Demeter”), agora com 25 anos, mal lembra dela e vive com seus pais adotivos, Michael e Rachel Malcolm (Richard Thomas, da versão televisiva de “It-A Coisa” e Linda Emond, de “Old Boy” e “Across The Universe”) e com sua irmã Emily (Emma Nelson).

Todos são fios narrativos que, de uma maneira ou de outra, convergem para a trama principal de Ruth, revelando já próximo do final algumas informações surpreendentes que podem alterar a percepção de alguns expectadores sobre muito do que vinha sendo mostrado no filme, ainda que dificilmente isso haveria de dissipar a excelente composição dramática de Sandra Bullock, provando pela enésima vez que é uma atriz muito mais versátil e capaz do que as bem-sucedidas comédias românticas levavam a crer. O filme cresce quando ela está acompanhada por bons parceiros de cena, caso de Rob Morgan, Vincent D’Onofrio, Viola Davis e –vá lá –Jon Bernthal, mas se percebe o ritmo moroso e o andamento desanimado da direção toda a vez que os membros mais frágeis do elenco dão as caras.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Ford Vs Ferrari

As 24 Horas de Le Mans representam a corrida mais desgastante, difícil e exigente do mundo. É como uma grande montanha: Nada é tão desafiador ou intransponível.
Uma disputa de motores, ânimos e estratégias que se inicia num dia para só se encerrar no dia seguinte, com suas equipes competidoras trituradas pelo cansaço, pelo stress, pela pressão psicológica e, não raro, pelos acidentes atrozes decorridos nas pistas.
Quando o todo poderoso magnata do automobilismo Henry Ford II teve sua proposta de aliança de negócios recusada pelo também poderoso Enzo Ferrari, ele compreendeu que a recém-descoberta rivalidade entre os dois só podia ser de fato resolvida nas pistas de Le Mans –onde a Ferrari havia vencido as quatro últimas disputas!
A Ferrari tinha uma tradição automobilística por meio da qual seu carro era visto como um oponente impossível de ser batido.
Ford enxergava nessa oportunidade um meio de mostrar que, em sua área, não estava para brincadeiras. Todos, entretanto, concordavam que a Ferrari, ao menos nas pistas de Le Mans, não era um adversário que deveria ser desafiado.
É em torno dos meandros por vezes espetaculares dessa richa que se debruça o filme magnífico dirigido por James Mangold.
Engana-se, contudo, quem julgar que torna central a sua trama os chefões Henry Ford II e Enzo Ferrari: Seus protagonistas de fato são o ex-piloto e líder de escuderia Carroll Shelby (vivido por Matt Damon) e o indomável piloto e mecánico Ken ‘Bulldogue’ Miles (vivido por Christian Bale).
Dessa forma, o trabalho de Mangold desvia-se o foco dos nomes lendários envolvidos na trama, e o concentra no esforço heróico de homens comuns, no primeiro de seus inúmeros acertos.
Outrora um vencedor habilidoso de Le Mans, Shelby é procurado por um executivo de Ford, Lee Iacocca (Jon Berthal) que o recruta para capitanear a empreitada de tentar superar a Ferrari.
Shelby compreende que para disputar Le Mans não apenas deve construir o melhor e mais rápido carro –tarefa esta que, ainda assim, se mostrava cheia de percalços inacreditáveis –mas, também deve conseguir o melhor piloto; alguém que compreenda a máquina num nível tão intuitivo que seja capaz, num improviso, de arrancar dela o máximo.
Essa pessoa, ele sabe, é Ken Miles.
E aí começam alguns problemas: De difícil temperamento, Ken não é habituado a seguir ordens e, embora obtenha resultados assombrosos nas pistas de corrida, ele também obtém a antipatia do executivo-sênior de Ford, o arrogante Beebe (Josh Lucas, de "Uma Mente Brilhante" e "Hulk", especializado nesses papéis).
Tanto Ken, quanto principalmente Shelby sofrem, portanto, pressão vindas de duas extremidades distintas: De um lado, são pressionados para que consigam o rendimento que garanta à Ford a improvável supremacia nas 24 Horas de Le Mans (e nisso, têm como obstáculos as próprias leis da Física!); de outro, são sabotados por seus próprios dirigentes –algo antecipado pelo próprio Ken Miles –que ignoram as habilidades e o conhecimento de sua equipe para impor suas próprias restrições na execução e confecção do carro, na escolha dos pilotos (onde prevalecia Ken, contra a vontade de Beebe) e nos procedimentos da equipe.
Munido de muito jogo de cintura, Shelby tem de fazer política para garantir em sua equipe o único talento que sabia ser essencial para a vitória: Ken Miles.
Semelhante em muitos aspectos ao brilhante “Rush-No Limite da Emoção”, o filme de Mangold vale-se do mesmo inteligente princípio narrativo, onde sua trama dá prioridade aos pormenores extraordinários que faziam desta uma história frequentemente inacreditável. Matt Damon está ótimo como Carroll Shelby, em cujo comportamento austero se deposita o ponto de equilíbrio do filme, mas quem rouba mesmo as cenas é Christian Bale, como Ken Miles, cuja interpretação une maneirismos de seu personagem no excelente “O Vencedor” com algumas nuances minimalistas de seu papel em “A Grande Aposta”.
Um filme envolvente no registro minucioso e orgânico que faz dos bastidores tumultuados das grandes corridas, e arrebatador na recriação raivosa e eletrizante da alta voltagem obtida pelos pilotos dentro das pistas.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Terra Selvagem

Aclamado roteirista de “Sicario” e “A Qualquer Custo”, Taylor Sheridan assume também a função de diretor neste novo roteiro que também reúne em cena os ótimos Jeremy Renner e Elizabeth Olsen, respectivamente, o Gavião Arqueiro e a Feiticeira Escarlate da Marvel Studios, no entanto, tão bons e talentosos eles são que não tarda ao expectador esquecer esse detalhe e reconhece-los pelos personagens que vivem aqui.
Jeremy é Cory Lambert, um caçador de predadores naturais que trabalha nas amplas e gélidas imediações selvagens de uma reserva indígena no Wyoming. Habilmente, os primeiros minutos de filme nos emergem na circunstância dramática do protagonista, um pai ainda a chorar pela morte da filha; marido incapaz de lidar com o luto da esposa (uma descendente dos nativos) e, portanto, dedicado de corpo e alma ao trabalho, ode parece encontrar uma espécie de harmonia.
Essa harmonia sofre um abalo quando Cory encontra o cadáver de uma jovem indígena –outrora amiga de sua filha –com marcas do que parece ter sido uma agressão; a jovem, contudo, morreu de aflições provocadas pelo frio extremo.
De uma postura obtusa em relação ao que se passa nas reservas indígenas, as autoridades enviam para o caso uma agente do FBI quase principiante, ainda que dedicada, Jane Banner (Elizabeth), que não demora a notar a habilidade nata de Cory para extrair pistas fundamentais dos indícios da neve.
Ao lado dele e do chefe de polícia tribal Ben (Graham Greene, de “Dança Com Lobos”) eles formam uma parceria na tentativa de elucidar o caso.
Com isso, a narrativa de Sheridan explora com riqueza as três facetas dramaticamente relevantes relacionadas aos protagonistas: A morte da garota que, para Cory, reflete as circunstâncias da morte da própria filha, e que o instigam, assim, a usar suas assombrosas capacidades de rastreamento para perseguir o assassino; a luta da jovem agente Banner (numa evocação à “O Silêncio dos Inocentes”) buscando se impor num ambiente rude que a ignora e a subestima; e o algo resignado chefe de polícia, a frente da investigação de um crime para o qual ele sabe que (como tantos outros) as autoridades viraram as costas –o filme de Taylor Sheridan, em sua observação cuidadosa e criteriosa aponta o dedo para o descaso experimentado pelos povoados nativos no âmbito da jurisdição penal.
Ainda que haja brilho e relevância nesse aspecto, “Terra Selvagem” jamais se acomoda nele: Prefere, em vez disso, exercitar sua própria excelência cinematográfica se fazendo eficaz em seu drama; tenso e palpitante em seu suspense; e elaborado e intrigante na medida certa em sua trama policial.
O resultado desse acerto em tantas instâncias é um filmaço.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Corações de Ferro


Quase não existem regras (ou seria melhor dizer clichês) que a realização de David Ayer (de “Esquadrão Suicida”) não segue dentro dos cânones dos filmes de guerra ambientados na Segunda Guerra Mundial.
Prova mais contundente de que o estilo de Ayer como diretor não exatamente prima pela forma sobre o conteúdo, mas pela caracterização antes da profundidade, “Corações de Ferro” parece preocupar-se mais com o figurino impecavelmente realista, com a direção de arte meticulosa (em meio à qual o tanque é o exemplo mais formidável) e com todas as caprichadas facetas técnicas e visuais do que propriamente com a coerência do que está sendo contado.
Fury é o nome do tanque de guerra capitaneado com mão de ferro pelo exigente e rude Sargento ‘Wardaddy’ Colliers (Brad Pitt, bastante à vontade num personagem autoritário e solene). Embora seja retratado durante a maior parte do tempo como alguém severo, Colliers é quem mantem sua equipe unida e segura ao longo de todas as incertezas da guerra.
Quando um de seus condutores morre, um novo membro se integra à já veterana equipe, o idealista e ingênuo Norman (o jovem Logan Lerman).
De imediato, a equipe –formada pelo crédulo Boyd (Shia LaBeouf, tentando e falhando como sempre), Grady (Jon Bernthal, uma boa presença) e Gordo (o ótimo Michael Peña), todos brutalizados pelo combate –rejeita seus modos civilizados e seu discurso de ética em meio à guerra.
As circunstâncias da guerra –ou melhor dizendo as circunstâncias de todo o filme hollywoodiano de guerra –irão modificar essas impressões: Colliers mostrará, na aridez do campo de batalha, que tem um coração; Norman descobrirá sua própria capacidade de matar (e com ela sua coragem); os outros soldados revelarão que são capazes de ser bons e leais amigos; e todos formarão uma espécie de família (ainda que esses laços padeçam de profundidade), cuja unidade será posta severamente à prova no desfecho.
Se há uma obra que parece orientar “Corações de Ferro” num nível mais onipresente do que se poderia esperar, é “O Resgate doSoldado Ryan”: Da pirotecnia empregada sem modéstia por David Ayer, ao estilo despojado de sua encenação, na estrutura de sua própria trama e até na proposta do filme como um todo, tudo remete ao trabalho de Spielberg que foi tão transgressor no fim dos anos 1990 quando foi lançado.
Da mesma forma. a premissa parece aproveitar um bocado a idéia central de um notável cult dos anos 1980, "A Fera da Guerra", de Kevin Reynolds, também ele quase todo ambientado dentro da tensão claustrofóbica de um tanque de guerra.
Alguém podia, no entanto, avisar David Ayer que muita gente conhece tais filmes: Gente o suficiente para perceber o quanto o trabalho dele acaba indo muito além da mera homenagem ou referência.
Da forma como é concebido, “Corações de Ferro” é tecnicamente bem feito o bastante para satisfazer plenamente àqueles expectadores que gostam de um filme de guerra que prima pela ação, sem importar-se tanto com a trama ou os personagens.
Quem esperar um capricho autoral que defina melhor a construção das cenas ou o rumo das atuações, ou mesmo um trabalho onde se possa identificar um esforço original de fato e não um arremedo de tudo que já foi feito antes, poderá acabar tendo que exercitar a paciência.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Em Ritmo de Fuga

Ao som de “Belbottoms”, de Jon Spencer Blues Explosion, cujas notas a montagem calibra com primor às seqüências de ação, vemos transcorrer o primeiro e vertiginoso assalto do filme. O motorista atende pelo nome de Baby (Ansel Elgort, demonstrando pleno potencial) e sua perícia hiperlativa para piloto de fuga é construída a partir de um repertório de estranhos e curiosos hábitos –entre eles, o de ouvir música durante os assaltos.
Consta que o diretor Edgar Wright (de “Todo Mundo Quase Morto”, “Chumbo Grosso” e “Scott Pilgrim Contra O Mundo”), um mestre em unir urgência, humor e empatia em narrativas dinâmicas, assistiu ao magnífico “Drive”, de Nicolas Winding Refn, e nele se inspirou tanto que a idéia de todo um novo filme aflorou.
Deveras, há muito em comum entre “Drive” e este “Baby Driver” –o título original –mas, a graça maior está em suas diferenças.
Tudo o que Baby quer é saldar sua dívida com Doc (Kevin Spacey, ameaçador). O quê, no caso, ele não está tão longe assim de fazê-lo: Basta mais um único serviço e ele estará livre para reforçar seu compromisso com a deliciosa garçonete Debora (Lily James, infinitamente mais interessante do que em “Cinderella”), e poder cuidar de seu pai adotivo Joe, que é surdo-mudo e, por isso mesmo, um dos responsáveis indiretos pelo imenso apreço de Baby pelo som e pela música.
Tendo completado a tarefa criminosa que julgava ser a última, Baby é confrontado, dias depois, por Doc –ele o quer de novo como piloto de fuga, aliás, ele o exige de novo como piloto de fuga: O crime, como em todo conto moral, é um pântano de areia movediça que só faz tragar.
O novo assalto reúne Baby com o casal Buddy (Jon Hamm) e Darling (Eiza Gonzalez) de seu penúltimo serviço, e com o traiçoeiro e instável Bats (Jamie Foxx), do último.
Entretanto, uma série de incidentes –somados à intenção de Baby de fazer deste realmente seu derradeiro trabalho –irão operar uma curiosa e engenhosa transformação na dinâmica entre os personagens, e estreitar ainda mais os perigos que ameaçam Baby e Debora.

Com um elenco soberbo, o diretor Wright subverte as expectativas do público em relação a quem serão os verdadeiros vilões e antagonistas e adiciona novas e pertinentes surpresas a esta muito bem executada aventura criminal impulsionada por uma das melhores trilhas sonoras do ano.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Sicario - Terra de Ninguém

Desde os primeiros takes já é possível perceber a força narrativa de Denis Villeneuve, o seu comprometimento singular com cada enquadramento, cada elemento que surgirá em cena, e o modo único como isso tudo fortalece seu registro cinematográfico à exemplo do que ele já fez nos poderosos “Incêndios” e “Os Suspeitos” (embora o “Homem Duplicado” também tenh alguns elementos admiráveis). 
Esse vigor é uma das muitas características notáveis que se percebe neste, e em todos os seus filmes. Aqui, acompanhamos uma jovem policial do departamento de narcóticos (Emily Blunt, maravilhosa no papel e no registro contido e sisudo que a personagem exige) tentando fazer a lei num território inóspito: as áreas fronteiriças dos EUA com o México. Logo na primeira cena a descoberta estarrecedora que ela faz não só determina os rumos da história, mas impõe o próprio tom do filme: Denso, cru, pesado e sem concessões. 
Na sequencia, a personagem de Emily é incluída em uma força-tarefa liderada por um oficial de objetivos e intenções ambíguas (Josh Brolin, administrando o tom exato de loquacidade e casualidade para ocultar suas facetas realmente perigosas). Mas o personagem verdadeiramente intrigante vem logo depois: Alejandro, interpretado com brilhantismo tétrico e sucintos tons de cinza por Benicio Del Toro. Misterioso, ele é quem catalisa as atenções da trama e do próprio expectador durante boa parte do filme. 

Para resumir, pode-se dizer que “Sicario” é um mergulho nas trevas sufocantes e escaldantes de um território sem lei e sem esperança, onde a violência surge como uma forma de expressão. O filme só empalidece nos momentos em que fica clara, às vezes explícita, a intenção de referenciar e até superar o que Steven Sodenbergh fez em “Traffic” não só em termos temáticos (e partindo disso, percebemos então o quanto é significativa a presença de Benicio Del Toro), mas também no tratamento de cena a cena, sobretudo o momento final que, tal como na obra de Sodenbergh, volta sua atenção para um jogo aleatória entre meninos. Não fosse esse fantasma a assombrar o filme de Villeneuve, ele teria feito um trabalho tão grande quanto os anteriores já citados.