Em “A Brand New Day”, vemos finalmente Peter Parker lidando com as complicadas circunstâncias nas quais foi colocado ao fim de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”: Desprovido de todo o repertório de utensílios e facilitadores tecnológicos que vinham lhe acompanhando desde “De Volta Ao Lar” – o que, na opinião de alguns fãs, não tinha muito a ver com o personagem – apagado da memória do mundo inteiro (graças a um feitiço do Dr. Estranho), incluindo seus entes mais próximos, a namoradinha M.J. (Zendaya) e o amigo Ned (Jacob Batalon), e tirado tragicamente da companhia de sua Tia May (Marisa Tomei). Em suma, completamente sozinho.
Hábil diretor de contos centrados na melancolia
e em sentimentos menos falados e mais interiorizados (como atestam obras como
“Temporário 12” e “O Castelo de Vidro”), Destin Daniel Cretton demonstrou
alguma desenvoltura visual com a elaboração de belas e fluídas cenas de ação em
“Shang-Chi e A Lenda dos Dez Anéis”, sua estréia na Marvel Studios. Agora, com
este “A Brand New Day”, ele ganha uma espécie de promoção e assume, no lugar de
Jon Watts (diretor dos três longas anteriores do Homem-Aranha), um personagem
de maior estatura dentro do MCU.
E o resultado corre o sério risco de ser o
melhor filme protagonizado pelo Homem-Aranha de Tom Holland até o momento.
Vivendo mais como Homem-Aranha do que como
Peter Parker, o herói, agora quase sem nenhum vínculo afetivo, passa seus dias
enfrentando as constantes dificuldades que se abatem sobre a cidade de Nova
York. Todavia, lá no íntimo, ele não consegue esquecer M.J. e Ned que seguiram
em frente, morando juntos, estudando e, agora, prestes a se formarem. Essa
angústia parece se manifestar na fisiologia de Peter: Ele é acometido de dores
de cabeça e do que parecem ser mutações nas quais o lado aracnídeo de seu
organismo começa a se manifestar de maneira monstruosa sobre sua persona
humana.
É a fim de inibir as consequências mais
imprevisíveis desse processo que Peter acaba procurando pelo Dr. Bruce Banner
(Mark Rufallo), certamente um especialista em conter o monstro dentro de si (o
Hulk, no caso).
Paralelamente a essas mudanças – mas, servindo
de perfeito reflexo a elas a partir de um determinado ponto – está o mistério que ocupa boa parte do enredo do
filme: Uma entidade – que parece ‘possuir’ pessoas por toda a Nova York com o
nebuloso objetivo de invadir a fortificada sede do Controle de Danos – está à
solta e, enquanto nem Peter, nem a polícia, compreende seus propósitos e suas
motivações, essa ameaça precisa ser parada.
Mais disposto a enfatizar os dilemas de jovem
adulto do protagonista do que Jon Watts (que deu prioridade à euforia juvenil),
Destin Daniel Cretton salienta com mais evidência e minúcia a evolução do
personagem rumo a um Homem-Aranha muito mais condizente com seu retrato nos
quadrinhos, o que, em si, já é suficiente para eleger este filme como um
provável favorito dos fãs, no entanto, ele ainda não está completamente livre
de lapsos, em especial, no que diz respeito à condição sócio-econômica do herói
(nunca fica claro, afinal, do quê Peter Parker vive e em que trabalha, visto
que só o vemos atuar como Homem-Aranha) ao staff
do Controle de Danos (uma herança que ainda repercute de “Vingadores” e das
tantas manobras a incluir laços com o Universo Marvel) e a premissa assim
esboçada da mutação aracnídea – que parecia ser central no trailers, mas que,
aqui, embora muito pertinente no princípio vai dando gradualmente lugar a um
outro plot twist até por fim perder
completamente sua importância.







