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domingo, 9 de junho de 2024

Uma Secretária de Futuro


 O saudoso diretor Mike Nichols sempre teve uma versatilidade desigual, essa capacidade, somada ao talento para sintonizar as sutilezas da atuação (oriundo de sua formação teatral) ajudou a moldar inúmeros projetos singulares que compõem a sua filmografia. Nela, há de tudo um pouco. Das raras comédias a concorrer à prestigiada estatueta de Melhor Filme na cerimônia do Oscar 1989 (prática que infelizmente perdura até hoje), “Uma Secretária de Futuro” é um título que se destaca: Por sua simpatia perene junto ao público que tornou-o um sucesso de bilheteria; pela escolha espetacular, primorosa e espirituosa de intérpretes, todos perfeitos (algo no qual Nichols era craque); e pela junção adequada, funcional e certeira de elementos, tais como um bom roteiro, boas atuações e uma ótima direção.

Interpretada com fulgor fora do comum por Melanie Griffith (uma atriz com algo de alternativo que, na época, dificilmente seria uma escolha convencional para um papel como este), Tess McGill é uma das muitas assalariadas que luta por ter lugar ao sol na disputada (e machista) Nova York da década de 1980. Todos os dias, ela pega a balsa que a leva da suburbana Nova Jersey –onde tenta levar uma vida doméstica, pacata e pretensamente estabelecida ao lado do noivo (Alec Baldwin) –para a competitiva e inclemente Manhattan, onde estão os tubarões corporativistas da bolsa de valores que normalmente atuam como seus patrões; Tess é secretária.

Um deles (Oliver Platt) não tarda a lhe preparar uma armadilha: Julgando ser uma entrevista de emprego para um cargo melhor, Tess acaba na limusine de um executivo disposto à seduzí-la –uma ponta de um ainda desconhecido Kevin Spacey, da época em que atuava mais como comediante. Como pedir demissão na situação financeira de classe média-baixa em que vive é um risco e tanto, Tess tem consciência da urgência em arrumar outro ganha-pão. E ela julga que sua sorte pode finalmente mudar quando começa a trabalhar para a empoderada e discursivamente encorajadora Katharine Parker (Sigourney Weaver, afiadíssima) –afinal, com uma mulher como chefe, imagina Tess, as chances de crescer profissionalmente se tornam reais, longe da indulgência tipicamente masculina, não é mesmo?

Contudo, não é exatamente isso que acontece: Ao sugerir uma ideia bastante original e arguta que teve para Katharine –a de investir, não em emissoras de TV, no ramo de propaganda, mas em emissoras de rádio, por conta dos valores e das complexidades de negociações serem infinitamente mais razoáveis –Tess descobre que Katharine tentou lhe passar a perna. Durante uma tumultuada semana em que Katharine sofre uma fratura andando de esqui, Tess fica sabendo que ela lhe roubou a ideia e iniciou negociações preliminares com um tal de Jack Trasker (Harrison Ford, no auge de sua fase galã). Ao aproveitar-se da ausência de Katharine para passar-se por uma das acionistas a fim de conduzir a negociação, Tess inicia uma relação profissional promissora ao lado de Jack, que acaba progredindo para uma relação mais íntima também –e em ambos os casos, Tess sabe que terá a competição acirrada e desleal de Katharine.

A narrativa que Mike Nichols constrói em “Uma Secretária de Futuro” é, até hoje, pra lá de saborosa: Não apenas ele faz uso imodesto dos elementos de comédia romântica presentes na trama (os encontros e desencontros entre Tess e Jack são simultaneamente deliciosos de se acompanhar) como também se vale de um expediente muito comum em obras graciosas dos anos 1980, onde um, ou uma, protagonista finge, por razões até que nobres, guardadas as proporções, ser aquilo que não é, e cria toda uma farsa a um só tempo divertida e tensa com data de validade para terminar (pois, mentira, apesar dos pesares, ainda tem perna curta!), premissa que funcionou para as mais diversificadas produções como “Tootsie”, “Quase Igual Aos Outros”, “Um Príncipe Em Nova York”, “Tocaia” e tantas outras, aliado a isso, ele ainda elabora uma observação contundente, envolvente e cheia de propriedade, do competitivo mercado de trabalho yuppie dos anos 1980, amparada numa personagem principal cheia de iniciativa, pioneira das personagens femininas a se posicionar com independência e auto-afirmação perante os homens em um universo predominantemente masculino.

Em tempo: Já a adentrar os anos 1990, algum executivo da NBC teve a ideia de criar uma série de TV inspirada em “Uma Secretária de Futuro” –ou “Working Girl”, seu título original –e a atriz que interpretou Tess McGill nos oito episódios que essa série pouquíssimo lembrada durou foi uma ainda desconhecida Sandra Bullock!

domingo, 31 de dezembro de 2023

Tempo de Matar


 Em meados de 1996, o diretor Joel Schumacher, por incrível que possa parecer, se encontrava em destaque em Hollywood. Responsável por isso foi a dobradinha de filmes que ele lançou no período, sendo um deles a sua primeira incursão no universo do Homem-Morcego a substituir Tim Burton, “Batman Eternamente” (que embora tenha conquistado o descontentamento da crítica teve boa bilheteria, fracasso foi, de fato, o filme seguinte, “Batman & Robin”), e o outro, este mezzo suspense, mezzo filme de tribunal, “Tempo de Matar”, adaptado da obra de John Grisham (autor que estava em alta naqueles tempos tendo diversas produções adaptadas de seus livros).

É possível notar, através desse exemplo, que o fracasso, às vezes, ensina muito mais que o sucesso: Embora nunca tenha sido um grande diretor, foi depois desta produção relativamente aclamada que Schumacher perpetrou sua mais infame bizarrice cinematográfica, entretanto, foi logo depois do vexame incalculável de “Batman & Robin” que ele teve o bom senso de conduzir a carreira por meio de realizações menores, nas quais o controle do diretor era mais garantido, e o resultado qualitativo, mais certo de ser obtido. Mas, “Tempo de Matar” vale assim esse alarde que, à época, suscitou? Nem tanto.

No sempre segregado e sempre em polvorosa, Mississipi, no sul dos EUA, uma garotinha da comunidade negra é agredida e estuprada por dois rapazes brancos racistas que vão imediatamente à julgamento, sob a quase certeza de absolvição diante das impunes legislações sulistas. No entanto, o indignado pai da criança, Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson), se antecipa à qualquer sentença e metralha os dois criminosos dentro do tribunal, fazendo justiça com as próprias mãos.

É Carl Lee quem agora está no banco dos réus, prestes a ser condenado por homicídio. Sua defesa é assumida pelo jovem e idealista advogado Jake Brigance (Matthew McConaughey, no papel que o revelou à Hollywood após várias participações menores em produções pequenas) que não faz ideia –mas, fará! –de todas as imbricações e desdobramentos que acarretará sua decisão de defender um acusado negro numa comunidade como a do Condado de Canton.

Com a cidade em iminência de virar um barril de pólvora –de um lado os manifestantes negros exigindo veementemente absolvição, de outro, os asseclas da Ku Klux Klan, restaurada no lugar pelos esforços do vingativo irmão de um dos assassinados, vivido por Khiefer Sutherland –Brigance deve enfrentar, nos tribunais, a voracidade inescrupulosa do procurador Rufus Buckley (Kevin Spacey), a desvantajosa antipatia do Juiz Omar Noose (Patrick McGoohan, de “Coração Valente”) e a real ameaça que toda essa circunstância representa a ele e à sua família. Para auxiliá-lo, Brigance conta com o apoio do mentor Lucien Wilbanks (Donald Sutherland), do amigo e parceiro em advocacia Harry Rex Vonner (o histriônico Oliver Platt) e com a inteligência aguçada da jovem estudante Ellen Roark (Sandra Bullock, mais coadjuvante do que protagonista, embora tenha o nome em primeiro nos créditos).

É certamente uma trama urgida com a eficiência e a competência de quem compreendia esse gênero como ninguém –e provavelmente, ela deve funcionar melhor no livro original –ainda assim, apesar de seus bons momentos, o filme é pedante, dirigido com pieguice. Ficam patentes o descontrole de Schumacher para com emoções que deveriam ser mais contidas e a incapacidade dele em extrair atuações bem calibradas de seu elenco vasto e estelar: Em geral, bons atores, Sandra Bullock e Matthew McConaughey se contentam em ter suas belezas evidenciadas e seus egos massageados; quem salva a pátria, no fim das contas, é o sempre ótimo Samuel L. Jackson –grande ator, sua carreira merecia muito mais do que a única indicação ao Oscar (Melhor Coadjuvante por “Pulp Fiction”) que até hoje ele recebeu.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Os Suspeitos

“O grande truque do Diabo foi convencer o mundo de que ele não existia.”
“The Usual Suspects” revelou ao mundo, por meio da liberdade criativa plena do cinema independente, o diretor Brian Singer e o roteirista Christopher McQuarrie: O primeiro, um jovem cineasta depois estabelecido e reconhecido por sua contribuição aos filmes da saga “X-Men” que definiram o padrão de qualidade para as adaptações de quadrinhos no início dos anos 2000; o segundo, um escritor de hábil noção narrativa (e que, por este trabalho, levou o Oscar de Melhor Roteiro Original) muito famoso hoje por recuperar vários roteiros para a indústria: O trabalho de McQuarrie é notável, por exemplo, na série “Missão Impossível”, com Tom Cruise, cujo roteiro do 4º filme, “Protocolo Fantasma”, ele poliu até a perfeição, e o 5º (e melhor de todos), “Nação Secreta”, ele não só roteirizou como também dirigiu.
“The Usual Suspects” também deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante à Kevin Spacey, iniciando ali uma premiada carreira –pelo menos, até ele ser deixado de lado, devido à recentes denúncias de abuso sexual...
Muitos argumentam que Kevin merecia o Oscar de fato por “Seven-Os Sete Crimes Capitais” do mesmo ano, pelo qual ele não foi indicado porque seu personagem representava ao filme uma reviravolta que não devia ser divulgada.
Há também muitas reviravoltas aqui, porém, de outra natureza: O filme de Singer começa no cais de Nova York, quando a polícia se defronta com um barco transformado em palco de uma verdadeira chacina ocorrida entre criminosos. As cenas que abrem o filme –e que introduzem não só o protagonista Keaton (Gabriel Byrne) como também um importante e misterioso personagem –já deixam bem clara a referência noir que será fundamental ao filme, e a iminência de um flashback que haverá de rever aqueles fatos.
Movendo uma investigação imediata, o detetive Dave Kujan (Chazz Palminteri, sensacional) descobre, por meio da única testemunha sobrevivente, o manco e assustado Verbal (Kevin Spacey, magnífico), que o massacre pode estar relacionado com o lendário Keiser Soze.
Ele vem a ser o personagem misterioso que vislumbramos naquele início, e também fonte da grande questão que atravessa o filme. Quem é esse imperador do crime de características quase folclóricas que parece manipular todos os personagens? Quem é Keiser Soze?
Munidos dessas objetivas dúvidas –e atento a fazer delas o cerne em torno do qual toda a narrativa irá girar –Singer e McQuarrie não têm qualquer pudor em fazer desse personagem-fantasma um dos vilões mais intrigantes e memoráveis do cinema.
Nunca, contudo, a polícia esteve tão perto de decifrar a identidade de Keiser Soze; e para tanto, o depoimento do hesitante Verbal é imprescindível. Reconstituindo o modo como ele, Keaton e seus outros amigos (MacManus, vivido por Stephen Baldwin; Hoeney, interpretado por Kevin Pollak; Fenster, interpretado por Benicio Del Toro) se envolveram na situação, o detetive (e o público) desvenda uma trama movida por um grupo de trapaceiros que acabaram esbarrando onde não deviam.
O grande trunfo do filme é certamente seu argumento magistral, bem como a condução consciente e bem amarra do diretor conseguindo o mérito insuspeito de surpreender a cada cena, a cada nova informação e ainda reservando, ao final, uma revelação desconcertante que fez desta produção uma das mais comentadas nos anos 1990.

P/S: Não confundir este “Os Suspeitos” com o filme homônimo lançado em 2013, dirigido por Denis Vileneuve –e igualmente sensacional!

sábado, 27 de janeiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1996

O segundo trabalho do astro Mel Gibson na direção (o primeiro foi o drama “O Homem Sem Face”) tinha mesmo cara de filme premiável: Um épico histórico, suntuoso, grandiloqüente, romântico e solene. E de quebra, ainda era surpreendentemente bem dirigido.
Claro que muitos preferiam que o Oscar de Melhor Direção fosse para o chinês Ang Lee, pelo maravilhoso “Razão eSensibilidade” que nem estava entre os indicados –para compensar, o filme ganhou o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado para a atriz Emma Thompson.
Muito justa a vitória de Suzan Sarandon como Melhor Atriz, ainda que ela tivesse concorrentes espetaculares como Elizabeth Shue e a própria Emma Thompson, e também a de Nicolas Cage como Melhor Ator (uma lágrima para Massimo Troisi por sua indicação póstuma em “O Carteiro e OPoeta”).
O filme australiano “Babe-O PorquinhoAtrapalhado” surpreendeu tirando de “Apollo 13” o prêmio de Melhores Efeitos Especiais. Justo também.
Quanto ao Brasil, o mediano “O Quatrilho” perdeu o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro para o ótimo “A Excêntrica Família de Antonia”, o quê considero um grande acerto da Academia –a indicação para “O Quatrilho” já era, em si, um reconhecimento ao esforço da Retomada do Cinema Nacional.

MELHOR FILME

MELHOR DIREÇÃO
"Coração Valente", Mel Gibson

MELHOR ATRIZ

MELHOR ATOR
Nicolas Cage, "Despedida em Las Vegas"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Mira Sorvino, "Poderosa Afrodite"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kevin Spacey, "Os Suspeitos"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Coração Valente"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Anne Frank Remembered"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Our Survivor Remembers"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Excêntrica Família de Antonia" (Holanda)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Coração Valente"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Babe-O Porquinho Atrapalhado"

MELHOR MAQUIAGEM
"Coração Valente"

MELHOR FIGURINO
"O Outro Lado da Nobreza"

MELHOR SOM
"Apollo 13"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Outro Lado da Nobreza"

MELHOR TRILHA SONORA - DRAMA
"O Carteiro e O Poeta"

MELHOR TRILHA SONORA – MUSICAL OU COMÉDIA
“Pocahontas"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Colors of The Wind", de "Pocahontas"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Os Suspeitos"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Razão e Sensibilidade"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"A Close Shave"

MELHOR MONTAGEM
"Apollo 13"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Lieberman In Love”

sábado, 30 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2000

O novo século chegou com uma safra de produções que prometia uma renovação do cinema norte-americano, entretanto, títulos como “Clube da Luta”, “Quero Ser John Malkovich”, “Magnólia”, “Rushmore-Três ÉDemais” e “Matrix” pareciam ser desafiadores demais para o padrão tradicionalista do Oscar, que acabou lembrando todas essas grandes obras apenas com uma ou outra indicação –à exceção, claro, de “Matrix”, que fez uma bela campanha nas categorias técnicas ofuscando “Star Wars-Episódio 1-A AmeaçaFantasma”.
Ao menos, essa ousadia se refletiu ainda que de forma tímida entre os indicados a Melhor Filme com o questionamento de “BelezaAmericana” (o grande vencedor), a denúncia e a urgência de “O Informante” a revelação autoral de M. Night Shyamalan em “O Sexto Sentido", o peso dramático da pena de morte em “À Espera de Um Milagre”, e a bela metáfora do aborto em “Regras da Vida” –aliás, Michael Caine, que por esse filme venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, fez o mais belo e emocionante discurso que me lembro de ter visto na história do prêmio!

MELHOR FILME
"Beleza Americana"

MELHOR DIREÇÃO
"Beleza Americana", Sam Mendes

MELHOR ATRIZ
Hilary Swank, "Meninos Não Choram"

MELHOR ATOR
Kevin Spacey, "Beleza Americana"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Angelina Jolie, "Garota, Interrompida"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Michael Caine, "Regras da Vida"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Beleza Americana"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"One Day In September"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"King Gimp"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Tudo Sobre Minha Mãe" (Espanha)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Matrix"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Matrix"

MELHOR MAQUIAGEM
"Topsy Turvy-O Espetáculo"

MELHOR FIGURINO
"Topsy Turvy-O Espetáculo"

MELHOR SOM
"Matrix"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

MELHOR TRILHA SONORA
“O Violino Vermelho"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"You’ll Be In My Heart", de "Tarzan"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Beleza Americana"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Regras da Vida"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Old Man and The Sea"

MELHOR MONTAGEM
"Matrix"

MELHOR CURTA-METRAGEM

"My Mother Dreams the Satan’s Disciples in New York”

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Em Ritmo de Fuga

Ao som de “Belbottoms”, de Jon Spencer Blues Explosion, cujas notas a montagem calibra com primor às seqüências de ação, vemos transcorrer o primeiro e vertiginoso assalto do filme. O motorista atende pelo nome de Baby (Ansel Elgort, demonstrando pleno potencial) e sua perícia hiperlativa para piloto de fuga é construída a partir de um repertório de estranhos e curiosos hábitos –entre eles, o de ouvir música durante os assaltos.
Consta que o diretor Edgar Wright (de “Todo Mundo Quase Morto”, “Chumbo Grosso” e “Scott Pilgrim Contra O Mundo”), um mestre em unir urgência, humor e empatia em narrativas dinâmicas, assistiu ao magnífico “Drive”, de Nicolas Winding Refn, e nele se inspirou tanto que a idéia de todo um novo filme aflorou.
Deveras, há muito em comum entre “Drive” e este “Baby Driver” –o título original –mas, a graça maior está em suas diferenças.
Tudo o que Baby quer é saldar sua dívida com Doc (Kevin Spacey, ameaçador). O quê, no caso, ele não está tão longe assim de fazê-lo: Basta mais um único serviço e ele estará livre para reforçar seu compromisso com a deliciosa garçonete Debora (Lily James, infinitamente mais interessante do que em “Cinderella”), e poder cuidar de seu pai adotivo Joe, que é surdo-mudo e, por isso mesmo, um dos responsáveis indiretos pelo imenso apreço de Baby pelo som e pela música.
Tendo completado a tarefa criminosa que julgava ser a última, Baby é confrontado, dias depois, por Doc –ele o quer de novo como piloto de fuga, aliás, ele o exige de novo como piloto de fuga: O crime, como em todo conto moral, é um pântano de areia movediça que só faz tragar.
O novo assalto reúne Baby com o casal Buddy (Jon Hamm) e Darling (Eiza Gonzalez) de seu penúltimo serviço, e com o traiçoeiro e instável Bats (Jamie Foxx), do último.
Entretanto, uma série de incidentes –somados à intenção de Baby de fazer deste realmente seu derradeiro trabalho –irão operar uma curiosa e engenhosa transformação na dinâmica entre os personagens, e estreitar ainda mais os perigos que ameaçam Baby e Debora.

Com um elenco soberbo, o diretor Wright subverte as expectativas do público em relação a quem serão os verdadeiros vilões e antagonistas e adiciona novas e pertinentes surpresas a esta muito bem executada aventura criminal impulsionada por uma das melhores trilhas sonoras do ano.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Superman - O Retorno

Embora tenha sido um de seus maiores êxitos, o clássico “Superman-O Filme”, de Richard Donner, representou para a Warner Bros. um de seus maiores desafios. Como realizar um novo “Superman” e submeter-se à comparação com obra tão memorável? Como encontrar um ator que tivesse a mesma e espetacular identificação com o icônico personagem que o inglês Christopher Reeve?
Impossível, foi a resposta que essas perguntas tiveram durante algumas décadas (e, na verdade, continua sendo a resposta para a segunda pergunta...).
Mas, em meados de 2006, quando a febre de adaptações de histórias em quadrinhos para o cinema começava a se consolidar com sucessos freqüentes (já haviam sido lançados os dois primeiros e ótimos filmes dos “X-Men”, dirigidos por Bryan Singer, os dois primeiros filmes do “Homem-Aranha”, por Sam Raimi, e o incompreendido “Hulk”, de Ang Lee), o estúdio se dispôs a tentar. Para a missão foi chamado Bryan Singer, que em “X-Men” demonstrou um surpreendente talento para remodelar conceitos dos quadrinhos em elegantes embalagens cinematográficas (para substituí-lo na direção do terceiro “X-Men” foi chamado Brett Ratner, mas essa é outra história...).
Singer nutria uma devoção pelo filme original de Donner e enxergava o projeto com um sentimento algo romântico: Para ele, só funcionaria, se a trama levasse em consideração as histórias contadas nos dois primeiros (e genuinamente bons) filmes, onde conhecíamos a origem do herói, seu relacionamento com a repórter Lois Lane e seu antagonismo com Lex Luthor (no primeiro), além do embate espetacular contra três kriptonianos em plena Metrópolis (no segundo).
É a partir daí que Singer insere seu novo filme (que contava, inclusive, com a partitura e a mesma trilha sonora clássica empregada por John Williams, refeita desta vez por seu colaborador John Ottman), mostrando um mundo do qual o maior herói da humanidade (Brandon Routh, escolhido devido à uma indisfarçável semelhança física com Christopher Reeve) ausentou-se por alguns anos –motivado pela esperança, reacendida provavelmente nos acontecimentos do segundo filme, de que poderia voltar para os destroços de seu planeta natal Kripton, e encontrar sobreviventes.
Entretanto, Superman –ou Kal El, ou Clark Kent, como queira... –retorna só para descobrir que o mundo que o acolheu aprendeu a viver sem ele: Lois Lane (a estressada Kate Bosworth vivendo uma personagem mais bela, porém, menos graciosa que Margot Kidder), seu grande amor agora é mãe de um garotinho e possui um noivo, Richard (James Marsden), e Lex Luthor (Kevin Spacey substituindo Gene Hackman com empenho) saiu da prisão, além de herdar uma fortuna de milhões, e nutre planos megalomaníacos para enriquecer às custas das possíveis mortes de milhões.
Agora, o homem de aço precisa reencontrar seu lugar nessa nova humanidade e provar para os outros e para si próprio que é o maior herói de todos os tempos.
Talvez, fosse o tom excessivamente reverente do filme, ou a condução de Singer que valorizava cenas de suspense e expectativa em demasia –o quê quase lhe fez atingir as três horas de duração! –mas, “Superman-O Retorno” não encontrou seu público, amargando a indiferença do público e a incompreensão da crítica.

sábado, 9 de setembro de 2017

Margin Call - O Dia Antes do Fim

O cinema de J.C. Chandlor propositadamente não se revela um cinema fácil. Os poucos, mas incisivamente relevantes títulos de sua filmografia são esforços talentosos e implacáveis de radiografar, em suas tintas mais antropológicas, os lampejos selvagens do homem civilizado quando confrontado com uma situação à beira do desespero.
Nesse contexto, “Margin Call”, o filme que o revelou, é o mais perfeito exemplo dessa postura.
Seus personagens transitam num mundo asséptico, frio, quase mecânico e, dentro desses parâmetros de impressão, supostamente imutável. É isso, contudo, que a premissa, tão interessante ao seu diretor, revelará que eles perderão.
É um firma de corretores de Manhatan, e os executivos engravatados disputam entre si pela supremacia profissional. São meados de 2008 e, como sabe o expectador bem informado, é iminente a quebra na bolsa de valores que chacoalhou o sistema econômico mundial.
Os personagens que integram a fauna de “Margin Call”, entretanto, ainda não sabem disso. Ou melhor: A maior parte deles ainda não sabe; executivo júnior, dos muitos pressionados a demonstrar capacidade e eficiência em seu trabalho, Peter Sullivan (o ótimo Zachary Quinto, o Spok da nova versão de “Star Trek”), descobre, durante um extra no expediente, que alguns números nas estatísticas apontam algo incomum. Ou eles estão improvavelmente errados, ou eles sinalizam uma catástrofe em andamento. Algo que, por enquanto, só foi percebido por acaso: Em 24 horas, as ações imobiliárias que no dia anterior tinham preço elevado não terão valor algum. É madrugada, faltam algumas horas para o dia começar e, portanto, para que se inicie a jornada profissional em meio à qual todo o resto do mundo descobrirá aquilo que Sullivan antecipou.
Uma vantagem terrível da qual o executivo sênior Sam Rogers (o grande Kevin Spacey) tem lá seus escrúpulos em tirar proveito. Mas, não o executivo de alto escalão John Tuld (Jeremy Irons, brilhante e ameaçador), para ele a utilidade de tal dádiva é bastante clara: Os corretores têm cerca de oito horas para se desfazer das ações antes que a bolha na economia estoure. Em resumo, eles irão vendar os próprios olhos para o prejuízo alheio e garantir que escapem incólume à catástrofe, agindo como os predadores que são; se essa catástrofe é uma força irreprimível da natureza, então, eles irão se valer dos recursos que lhe caem a mão para sobreviver da única forma que a escola da vida, e o sistema capitalista lhes mostrou possível: A seleção natural.
É pois como uma grande, circunspecta e impiedosa análise comportamental e antropológica que o grande filme de Chandlor então se sustenta.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O Sucesso A Qualquer Preço

A origem teatral do projeto é imposta poderosamente na direção de James Foley que engessa a narrativa o tempo todo em um único ambiente. Existem, quando muito, pequenos lapsos do roteiro de David Mamet que esboçam situações em outros lugares, mas o cenário é essencialmente o escritório de vendas aonde a tensão vai ganhando corpo graças principalmente ao majestoso elenco masculino.
Glengarry Glen Ross é a firma de vendas imobiliárias em Chicago que se beneficia, sobretudo, da lábia tarimbada de seus corretores: O calejado Shelley (Jack Lemmon); o irascível Dave (Ed Harris); o titubeante George (Alan Arkin); além do gerente tentacular e impiedoso Williamson (Kevin Spacey) e do representante da empresa titular, Blake (Alec Baldwin).
Homens endividados de classe média nos idos dos anos 1990, eles precisam ofertar, enaltecer e vender seu produto de porta em porta. A comissão garante que o sucesso de suas vendas seja proporcional ao lucro que obtêm. Todavia, nenhum deles se mostra satisfeito com tal sistema, ao contrário, muitos deles vêem, desesperados, clientes que lhes consomem tempo precioso de conversa e terminam não comprando nada.
A única exceção é Ricky Roma (Al Pacino, formidável), o campeão de vendas absoluto do escritório.
A fim de incentivar o mesmo ímpeto nos outros desanimados vendedores, a empresa disponibiliza certos bônus que vão além da comissão, em troca de um aumento quase inumano no índice de vendas. Para pressioná-los, o fantasma da demissão paira sobre todos.
É quando alguns deles começam a elaborar planos mais ilícitos.
O ambiente parece uma panela de pressão onde os ânimos e os propósitos vão se somando até a tensão chegar a níveis notáveis. A direção de Foley e o roteiro de Mamet são perspicazes ao trabalhar um conto enxuto (menos de uma hora e meia de duração), objetivo e incisivo sobre as desesperanças da agitada vida moderna, a analogia implacável da seleção natural, as ironias do drama e a máxima de que nada é fácil para ninguém.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Los Angeles - Cidade Proibida

Uma pena que na cerimônia do Oscar de 1997, este espetacular “Los Angeles-Cidade Proibida” tenha batido de frente com um rolo compressor chamado “Titanic”, que acabou levando 11 estatuetas. “Los Angeles...” terminou a cerimônia com duas estatuetas (de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante para Kim Basinger), o quê não basta para premiar sua excelência: Em outros anos certamente seria esta produção requintadíssima a grande vencedora da noite.
Três detetives de polícia na Los Angeles dos anos 1930, o truculento e determinado Bud White (Russell Crowe, tão formidável quanto em seu filme seguinte, “Gladiador”), o recém-formado e meticuloso Ed Exley (Guy Pierce) e o ponderado e bom vivant Jack Vincennes (Kevin Spacey), se vêem, de diferentes formas, às voltas com uma conspiração criminosa que se estende até os núcleos de liderança do departamento de polícia.
Uma dissertação sobre a corrupção moldada pelo diretor Curtis Henson, travestida do mais charmoso cinema que a generosidade de um estúdio pode produzir, mas ainda assim preservada em todas as suas inflexões de intimismo e questionamento –seu protagonistas são tragados por aquilo que crêem enfrentar, como Bud White, notoriamente violento com homens que agridem mulheres, mas cujos meandros tentaculares e insidiosos da intriga em que está envolvido irão levá-lo a agredir Lynn (a personagem de Kim Basinger) por quem se apaixona.
Uma referência e uma reverência ao gênero film noir, concebida por Curtis Henson, que urge aqui sua mais perfeita obra: Em tudo e por tudo, este é um trabalho de absoluto primor cinematográfico, onde a perfeição de seu ritmo e de sua condução serve aos propósitos de um roteiro (elaborado em minúcias rocambolescas por Brian Helgeland e pelo próprio diretor Hanson) escrito com equilíbrio, desenvoltura e plena noção de atmosfera, mostrando também uma das mais prodigiosas utilizações do campo e contracampo vistas no cinema.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Beleza Americana

Sam Mendes era um renomado diretor de teatro britânico antes de aventurar-se, pela primeira vez, no cinema. Sua escolha para estrear na grande tela foi um roteiro incisivo de Alan Ball (mais tarde, o aclamado criador da série “A Sete Palmos”), envolto numa extraordinária névoa atemporal que buscava emular certos elementos do cinema de Douglas Sirk: Um exemplar dos dramas de costume americanos que insistem em desfraldar as podridões escondidas sob a fachada de tranqüilidade da classe média.
Essas pulsões inevitáveis de neurose surgem num subúrbio norte-americano quando um homem de classe média começa a relembrar o ano anterior à sua morte.
Na narração em off (recheada de uma pungente ironia), Lester Brunham (Kevin Spacey, brilhante), recorda em detalhes a relação incontornavelmente distante com a mulher (Annete Bening), a hostilidade da filha (Thora Birch), a inusitada amizade com um adolescente fornecedor de maconha apaixonado por sua filha (Wes Bentley),e sobretudo, a aparição da insinuante ninfeta Angela (Mena Suvari), cujo desejo por ela o levou a decisões que radicalizaram seu modo de vida.
Todos esses serão elementos fundamentais no desenlace trágico de sua história.
È curioso notarmos que “Beleza Americana” foi agraciado com o Oscar de Melhor Filme no ano 2000, quando ele tratava-se, justamente, de uma visão algo impiedosa e crítica de minúcias corrompidas e corrosivas da própria sociedade norte-americana –prova de que os críticos e membros da Academia se deixaram fascinar por outros elementos do filme que não sua postura inquisitiva.

Não é à toa: Realizado com extrema competência (a fotografia de Conrad L. Hall, premiada com os Oscar, é um detalhe à parte conferindo um viés analítico e antropológico à criteriosa encenação de Mendes), trás uma soberba atuação de Kevin Spacey –também ele premiado com um Oscar, o de Melhor Ator.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Seven - Os Sete Crimes Capitais

Neste que é, até hoje, um de seus trabalhos mais primorosos, David Fincher enreda os seus personagens num mundo de chuva e escuridão que é, ele próprio, um reflexo da alma negra do misterioso psicopata que os protagonistas perseguem.
Como no refrão da eletrizante música de David Bowie que encerra a obra, a psicose é, assim sendo, “algo dentro de nós mesmos” (Something In Ourselfs).
Desde o início este é, portanto, um jogo perdido, ainda que até seu desfecho, não faltem surpresas.
O extraordinário Morgan Freeman e o astro Brad Pitt (na primeira de, até então, três colaborações com Fincher) são dois detetives, um veterano e um novato, de natureza e estilos antagônicos, trabalhando juntos num caso assustador onde um psicopata desconhecido parece matar suas vítimas com base nos sete pecados capitais.
A encenação, concebida por Fincher para cada morte que se segue é um primor macabro que até hoje desafia os parâmetros dos fãs do gênero: Temos o homem obeso sufocado num prato de comida (gula); um advogado obrigado a dilacerar um pedaço da própria carne numa recriação macabra de “O Mercador de Veneza” (avareza); uma garota de programa morta por um hediondo instrumento sexual (luxúria); um mendigo confinado por meses em uma cama (preguiça); e a modelo que se suicida após a mutilação de seu rosto (vaidade).
As coisas se complicam de verdade quando o psicopata começa a jogar com os próprios detetives e se apresenta disposto a levar os dois policiais ao local fatídico de seus dois derradeiros crimes (a inveja e a ira).
Nesse momento, Fincher remove seus personagens do ambiente lúgubre e urbano, levando os dois protagonistas e seu desafiador antagonista (um magnífico Kevin Spacey) ao inusitado cenário de um campo aberto com sol, no qual ele parece sugerir subconscientemente ao expectador uma quebra nas pessimistas expectativas, mas o que ele fará é algo de uma ousadia e transgressão tamanhas que fez com que o final deste filme fosse um dos tópicos mais discutidos daqueles anos.
A excelência alcançada por “Seven” através da direção espetacular de Fincher –voltada muito para o esmero no quesito visual, no que encontra fabuloso respaldo na direção de fotografia de Darius Khonji –fez dele um marco do cinema independente dos anos 1990 que redefiniu o conceito de filmes sobre serial-killers e a percepção dos estúdios sobre trabalhos pesados e claustrofóbicos.