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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A Proposta


São irônicos os caminhos encontrados por esta magnífica produção australiana conduzida pelo diretor John Hillcoat (do brilhante “A Estrada”): Ele começa num tiroteio infernal, onde um mero sossobrar de cabeça pode representar uma bala mortal na testa! Inquieto, explosivo e caótico, esse início vai de encontro às pressuposições que o público leigo tem do gênero faroeste em si, e –embora seja um faroeste com todas as letras –a partir dali, o filme de Hillcoat trata de se opor a essa primeira impressão impondo um poderoso intimismo.

À ele interessam menos os duelos romantizados e mais as condições tremendamente árduas às quais os homens e mulheres a viver naquele tempo foram submetidos. A Austrália é retratada como uma terra de ninguém, entretanto, em pequenos e obscuros vilarejos, ascendem homens querendo fazer valer a justiça e a lei. Como eles o fazem? Sendo ainda mais brutais que os bandidos que perseguem.

Esse é um dos paradoxos com os quais de depara o protagonista Cap. Stanley (Ray Winstone, de “A Lenda de Beowulf”), homem da lei vindo da Inglaterra, desejoso de impor a ordem naquele fim de mundo. Ou seria o protagonista o criminoso Charles Burns (Guy Pierce), colhido de surpresa ao lado do irmão mais novo, Mikey (Richard Wilson), naquele tiroteio do início?

Disposto a usar de um método mais elaborado para conseguir o que ninguém antes dele foi capaz –capturar todo o bando do perigoso Arthur Burns (Danny Huston), que perpetrou uma atrocidade contra uma família da região –o Cap. Stanley propõe um acordo à Charles, e com isso dá o estopim à trama: Ele enforcará Mikey dentro de nove dias –exatamente durante o Natal –contudo, dará liberdade à Charles. Se ele retornar com a cabeça de Arthur, o irmão mais velho, e certamente o líder por trás de todas as calamidades praticadas, então Charles terá em troca a vida salva do caçula e o perdão pelos crimes praticados.

Para Stanley não é fácil viver com o peso dessa escolha: Amargurado pela tragédia recente, o povoado de seu vilarejo –que inclui os próprios policiais ao seu comando e o almofadinha político vivido por David Wenham (de “Senhor dos Anéis-As Duas Torres”) –não aceita a presença de Mikey na cadeia sem exigir retaliação, e faz pressão para uma execução à céu aberto. Ou um castigo à chibatadas. Ou ambos. E nesse ínterim, quem sofre é também Martha (Emily Watson), a esposa de Stanley, que tem de aguentar os olhares de reprovação dos cidadãos.

Ainda menos fácil é para Charles: A árdua jornada em busca do irmão que não tem muita certeza se conseguirá trair o leva aos confins do ‘Outback’, o deserto australiano, nas montanhas outrora dominadas pelas tribos selvagens dos aborígines. Lá, como uma espécie de Coronel Kurtz, Arthur o aguarda com uma inusitada concepção de antagonismo: Em nada ele corresponde ao monstro que a narrativa o pintava, revelando-se contemplativo, absorto, filosófico e existencial. Ele admira o pôr-do-sol, e conhece de cor sentenças de famosos escritores. E compreende melhor que qualquer personagem no filme que o contexto no qual estão inseridos é um inferno inexpugnável onde todos estão condenados.

Dessa forma, o filme de Hillcoat toma nosso tempo, passeando por essas circunstâncias pesarosas, acompanhando os personagens diante de suas aflições, cercados pela precariedade atroz daquele meio de vida –não são raras as moscas a rodear todos os personagens, num reflexo da irremediável degradação moral de todos eles.

Durante muito tempo, nada parece acontecer. Mas, essa imutabilidade é a grande força dramática de “A Proposta”: Ela aprofunda o suspense, salienta as particularidades dúbias de seus personagens e das dinâmicas em que estão envolvidos, e intensifica gradualmente a sensação de inevitabilidade em sua atmosfera.

Roteirizado pelo músico Nick Cave (que, depois, também roteirizou outra obra de Hillcoat, “Os Infratores”), “A Proposta” poderia entrar na definição de faroeste revisionista, pela forma circunspecta com que abre mão dos reflexos tradicionais do gênero e abraça elementos despojados e naturalistas mais comuns da literatura, mas, sua realização é tão competente e seu resultado final, tão brilhante, que o eleva ao improvável status de obra única. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Sequestro No Espaço


 Uma pena que, nas últimas décadas, Luc Besson tenha sentado menos na cadeira de diretor para atuar em produções como produtor, argumentista ou roteirista, viabilizando com isso o trabalho de terceiros. Uma hora ou outra, porém, essa atividade revelaria talentos tão auspiciosos quanto o seu; e é, mais ou menos, o que ocorre aqui, nesta formidável ficção científica de ação.

Acelerado como poucas produções conseguem ser, mesmo no vertiginoso cinema comercial de hoje, o filme dirigido por Stephen Saint Leger e James Mather, a partir de uma ideia esboçada pelo próprio Besson (e roteirizado por ele e pela dupla de diretores), começa em altíssima voltagem quando seu debochado e intratável  protagonista, Snow (o sensacional Guy Pearce), se vê encurralado numa nebulosa situação: Agente da CIA, Snow deve fugir de inimigos que o incriminaram a fim de provar sua inocência e a de um amigo abatido. Tudo parece girar em torno de uma pasta com segredos, tida como perdida. E o filme não apenas começa em meio à ininterruptas cenas de ação, mas em meio à uma trama que acomoda, ela própria a ação; uma característica muito peculiar de Besson nesse cinema tão avesso ao conteúdo em detrimento do senso estético é justamente essa sua capacidade para fazer com que a própria história a ser contada adquira as nuances frenéticas inquietas das próprias sequências que emoldura.

E assim o filme segue implacável: Snow é condenado e sua sentença é um sono criogênico no espaço onde, em órbita da Terra, uma prisão espacial já abriga uma legião de condenados num sistema ainda experimental de carceragem.

Eventualmente a bordo dessa nave-prisão, a filha do presidente norte-americano, Emilie (a gracinha Maggie Grace, da série “Lost”), vai fazer uma inspeção protocolar a fim de apurar as informações que apontam efeitos colaterais como a demência entre os prisioneiros submetidos à criogenia. Um desses prisioneiros, Hydell (Joe Gilgun, de “Harry Brown” e a série “Preacher”), de altíssima periculosidade, despertado justamente para a entrevista com ela, consegue escapar espalhando o caos, e logo conseguindo libertar todos os outros, inclusive seu irmão Alex (Vincent Regan, de “300” e “Joana D’Arc”), menos psicótico e inconsequente que ele, e mais estrategista e manipulador –Alex não tarda a usar a vida dos reféns disponíveis (inclusive Emilie, que os criminosos ainda não sabem tratar-se da filha do presidente) como moeda de troca na negociação com as autoridades.

Nesse processo, Snow surge como um coringa em meio às cartas desse baralho: É hábil e eficaz o bastante para um missão suicida onde deve exclusivamente salvar Emilie, mas descartável o suficiente para protagonizar uma operação em tudo e por tudo insensata. Ele é enviado, de modo clandestino, na nave-prisão tendo pouco tempo para tirar sua refém de lá; pois a nave, sem as manutenções de rotina, irá cair em direção à Costa Leste norte-americana, isso se, antes disso, os conselheiros de defesa não passarem por cima da autoridade presidencial e conseguirem aprovar um ataque maciço contra o lugar.

Absolutamente indiferente à falta de originalidade de seu plot e ao fato de que, à grosso modo, sua premissa básica une elementos deliberadamente extraídos de “Fuga de Nova York”, “Duro de Matar” e “Alien-O 8º Passageiro”, a obra de Saint Leger e Mather é um exercício virtuosístico de ritmo e subtração de tempos mortos; tudo em “Sequestro No Espaço” depõe a favor da ação, sejam suas guinadas narrativas –elaboradas com primazia fulgurante e detalhamento –sejam os perigos incessantes que se abatem sobre os protagonistas da primeira à última cena, sejam as cenas de ação propriamente ditas, editadas com inquietação e realizadas com apaixonado esmero, de um entusiasmo tamanho que sua euforia passa por cima de circunstâncias prosaicas como a ocasional imperfeição de seus efeitos digitais, para moldar um trabalho exemplar dos mecanismos que determinam a narrativa desse gênero.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Mortos de Fome


Uma aventura que versa sobre as conseqüências até mesmo sobrenaturais do canibalismo, este é um filme para paladares muito específicos.
O Capitão John Boyd (vivido por Guy Pierce com uma concepção constante da angústia de existir) é um sobrevivente de uma chacina na qual se transformou uma batalha entre soldados americanos e mexicanos durante a Guerra Civil entre os EUA e o México, em meados do Século XIX.
Sobreviver, para ele representa um pesar que agrega inúmeros fardos a serem carregados –não só a lembrança dos companheiros que morreram, mas também a forma (para ele, hedionda) com a qual foi capaz de sobreviver: Alimentando-se do sangue e da carne dos mesmos amigos mortos, e disso se nutrindo para não sucumbir.
Ironicamente (e ironia é um fator que insiste em se manifestar neste filme), esse fato irá se opor a ele nos desdobramentos de sua próxima empreitada: Enviado para as longínquas montanhas na fronteira canadense, Boyd recebe uma missão quando uma assustada testemunha, Colqhoun (Robert Carlyle), alerta o destacamento onde está para uma expedição da qual só sobreviveu se alimentando da carne daqueles que morreram.
Boyd segue para lá e o quê descobre, junto de outros que não tardam a morrer, é um grupo que aderiu ao canibalismo, do qual Colqhoun é não somente membro como também líder.
E obviamente que Boyd e seus homens, na qualidade de vítimas de seu relato, são assim as presas em potencial do canibal.
Contudo, Boyd já experimentou a sanha por carne humana que os orienta –e compreende a força desigual que esse ato acaba roubando das pessoas devoradas.
De fato, Colqhoun e seu bando crêem que estão não apenas se alimentando, mas adquirindo para si a energia daqueles que matam, como um vampiro que suga o sangue e dele se fortalece.
Em contraponto a essa observação algo mística, mas pouco envolvente do ato do canibalismo, o personagem Boyd –com uma tristeza um pouco excessiva para o tipo de protagonista que precisa ser –nunca deixa de considerar as implicações morais de se devorar um ser da própria espécie, ainda que Colqhoun e o lugar tão distante da civilização em que o filme transcorre tentem oferecer diversos argumentos para deixar de lado tais empecilhos.
No elenco pouco usual (de atores mais comuns em coadjuvantes do que em protagonistas), na junção fatalista de tensão, drama e humor negro, e na narrativa deliberadamente lenta que se desenvolve, mesmo em meio ao seu clímax final, esta é uma produção que desperta estranheza no expectador em função da soma de suas incomuns características.
Foge completamente do óbvio e do escapista, mas não deixa muito claro no quê, afinal de contas, se propõe a ser.

terça-feira, 15 de maio de 2018

O Conde de Monte Cristo


No final da década de 1990, as coisas não pareciam nada bem para o diretor Kevin Reynolds depois que ele entregou o catastrófico “Waterworld-O Segredo das Águas”.
Foi necessário que quase uma década inteira se passasse para ele então entregar um projeto que, se não restabelecia por completo sua reputação, ao menos mostrava claramente que ele era capaz de realizar um trabalho equilibrado, eficiente e competente.
Em “O Conde de Monte Cristo”, Reynolds reconta a história de vingança narrada por Alexandre Dumas com afiada noção de ritmo e empatia, amparando-se, sobretudo, numa referência ao semi-clássico “Os Duelistas”, de Ridley Scott.
Amigos de índoles e classes sociais distintas, o humilde e satisfeito Edmond Dantes (Jim Cazievel, de “A Paixão de Cristo”) e o fidalgo e rancoroso Fernand (Guy Pierce, de “Amnésia”) encontram um desfecho de sua amizade quando Dantes cai numa terrível injustiça perpetrada por Fernand –que lhe cobiça a bela noiva –e mais um punhado de conspiradores.
Acusado de um crime que não cometeu, Dantes é enviado à prisão conhecida como Ilha do Diabo, onde um padre jesuíta (O grande Richard Harris), seu companheiro de cárcere, ensina-lhe as artes da esgrima e de como achar o tesouro desaparecido da Ilha de Monte Cristo.
De volta à civilização, Dantes usará desses novos recursos para combater os inimigos e o sistema corrupto do qual foi vítima.
Inteligente, Reynolds moldou o roteiro de sua adaptação despindo-se da inclinação romântica e clássica que impregnava a obra literária –recurso adotado em outras adaptações –e aproximando seu filme da percepção das aventuras contemporâneas enfatizando a boa-venturança na trajetória de seu carismático protagonista.
O resultado fica num meio termo ameno entre o convencional e o notável, mas, entrega assim mesmo um desfecho capaz de fazer o expectador vibrar.

sábado, 24 de junho de 2017

Amnésia

“Lembre-se de Sammy Jenkins!”
A sub-trama envolvendo o personagem (fantasma?) de Sammy Jenkins (Stephen Stobolowski) que acompanha a história deste filme é uma das muitas sacadas geniais, as quais o expectador descobrirá, no fim (ou seria no começo?), o quanto deveria ter prestado atenção, neste e em tantos outros detalhes.
Certos filmes representam uma experiência distinta para o expectador. “Amnésia”, de Christopher Nolan, com sua trama organizada em ordem inversa (cada segmento de cerca de 15 minutos corresponde à cena anterior daquela que virá em seguida) simula uma experiência assim: A de uma memória dissolvida no esquecimento que, aos poucos, regride à mente, uma recordação perdida que pouco a pouco vai voltando.
É uma maneira inteligente e incisiva que o diretor Nolan encontrou para fazer com que o expectador se sentisse na mesma condição do protagonista. Leonard Shelby (Guy Pierce, fabuloso), outrora um pacato investigador de seguros, sofre de um caso inusitado de perda de memória recente –esquece progressivamente tudo o que acontece desde que teve a mente avariada num ataque criminoso. O mesmo ataque onde teve sua esposa morta.
Sofrendo dessa patologia, ele tem um objetivo: Vingar-se dos bandidos que fizeram isso.
Mas, como mover uma investigação sendo que sua própria mente é incapaz de reter novas informações?
A saída, para Leonard, é deixar freqüentes recados para ele próprio em forma de tatuagens no próprio corpo, tirar ocasionais polaróides das coisas e das pessoas (e nelas escrever suas impressões) e encontrar subterfúgios para notificar a si mesmo.
Nessa jornada tortuosa, pontuada por elementos intrínsecos ao gênero noir, que lhe é tão precioso, o diretor Nolan confronta seu protagonista com personagens de invariável impressão dúbia, como a mulher interpretada pela bela Carrie Anne-Moss e o ex-policial petulante vivido por Joe Pantoliano (ambos no elenco do primeiro “Matrix” lançado dois anos antes).
Nolan –auxiliado pelo espetacular roteiro escrito em conjunto com seu irmão Jonathan –parece lançar uma pergunta ao público: Até que ponto é possível confiar nas outras pessoas, ou em si mesmo, quando sua própria memória lhe trai?
Os conseqüentes desdobramentos e respostas para essa pergunta são alguns dos elementos francamente geniais deste filme ocasionalmente inovador.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Prometheus

A idéia até que não era ruim: Dar um prólogo ao clássico “Alien” que explicasse as eternamente nebulosas circunstâncias em que a tripulação da nave Nostromo encontrou aquela nave alienígena destruída (com sua própria tripulação aparentemente aniquilada) e apinhada por ovas de alguma forma de vida alienígena –forma de vida esta que revela-se, mais tarde, o grande pesadelo dos personagens a medida que vai se metamorfoseando em uma máquina orgânica de matar. Melhor ainda se tal prólogo tiver também o mesmo diretor do filme original, Ridley Scott, cujo refinamento técnico fez falta, pelo menos, no último filme da série, o equivocado “Alien-A Ressureição”.
Deveras, a idéia era muito boa –e teria ela rendido um filme também muito bom se tivesse continuado nesse rumo. Porém, em algum momento da realização de “Prometheus”, essa premissa básica sofreu uma ligeira transformação; e penso que grande responsável por isso seja o roteirista, Damon Lindelof (famoso pelos intrincados roteiros da série “Lost”), chamado para trabalhar a versão final do roteiro: A sugestão de Lindelof para Scott foi alterar bruscamente o esboço básico da trama –que deveria terminar rigorosamente no ponto em que o “Alien”, de 1979, começava, tendo unido todas as pontas soltas –e, a partir daí, dar início a uma nova série de filmes, uma nova franquia. Por isso, elementos (oriundos certamente da primeira versão do roteiro) que parecem levar o filme a encaixar tão bem numa explicação de detalhes vistos no “Alien” original, são deixados gradativamente de lado conforme “Prometheus” vai enveredando por um novo (e estranho) caminho, afastando-se de sua proposta e adotando princípios que soam tão pretensiosos e ambiciosos (um das características negativas do trabalho de Lindelof) quanto equivocados e lamentáveis.
Após um prólogo solene no qual Scott sugere que a origem da vida na Terra pode ter sido a conseqüência acidental de uma tentativa de suicídio alienígena (pretensão, como se pode ver...), passamos então a acompanhar, já no ano 2093, a nave Prometheus cuja tripulação cruza o espaço em busca da pista para a origem da vida.
A bordo dela, um seleto grupo de pesquisadores –entre os quais a cientista Elizabeth Shaw (a sueca Noomi Rapace, da versão original de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”), além de outros personagens interpretados por um elenco que só um grande diretor como Scott é capaz de reunir –ruma a um planeta cujas coordenadas são achadas em diversos quadros arqueológicos encontrados na Terra. Eles crêem que a pista pode levá-los à raça alienígena (denominada ‘Engenheiros’) que originou a humanidade. Ao chegar no planeta, porém, e ao iniciar suas investigações, eles deparam-se com perigos que não puderam prever: Especialmente o andróide David (um bom trabalho de Michael Fassbender) revela-se de uma cruel ambigüidade moral para com seus colegas humanos –ele dá início às ocorrências trágicas ao tentar inocular um dos tripulantes com um hospedeiro alienígena para ser levado à Terra; sem falar que, a partir de determinado ponto, quando o roteiro já tiver se perdido em suas pretensões, David se mostrará também o gancho de um inesperado plot que, além de não acrescentar absolutamente nada ao filme, lhe tira muito da credibilidade.
Assim, o retorno de Ridley Scott ao gênero de ficção científica neste prelúdio de "Alien" (ambientando a trama cerca de 30 anos antes do filme original) confere à produção grande esplendor visual, mas, sua inclinação algo autoral e pouco disposta a arremates narrativos acaba deixando o filme até com mais perguntas do que respostas.
Falta à “Prometheus”, sobretudo, a coerência e a simplicidade que faziam de "Alien" uma experiência única.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Los Angeles - Cidade Proibida

Uma pena que na cerimônia do Oscar de 1997, este espetacular “Los Angeles-Cidade Proibida” tenha batido de frente com um rolo compressor chamado “Titanic”, que acabou levando 11 estatuetas. “Los Angeles...” terminou a cerimônia com duas estatuetas (de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante para Kim Basinger), o quê não basta para premiar sua excelência: Em outros anos certamente seria esta produção requintadíssima a grande vencedora da noite.
Três detetives de polícia na Los Angeles dos anos 1930, o truculento e determinado Bud White (Russell Crowe, tão formidável quanto em seu filme seguinte, “Gladiador”), o recém-formado e meticuloso Ed Exley (Guy Pierce) e o ponderado e bom vivant Jack Vincennes (Kevin Spacey), se vêem, de diferentes formas, às voltas com uma conspiração criminosa que se estende até os núcleos de liderança do departamento de polícia.
Uma dissertação sobre a corrupção moldada pelo diretor Curtis Henson, travestida do mais charmoso cinema que a generosidade de um estúdio pode produzir, mas ainda assim preservada em todas as suas inflexões de intimismo e questionamento –seu protagonistas são tragados por aquilo que crêem enfrentar, como Bud White, notoriamente violento com homens que agridem mulheres, mas cujos meandros tentaculares e insidiosos da intriga em que está envolvido irão levá-lo a agredir Lynn (a personagem de Kim Basinger) por quem se apaixona.
Uma referência e uma reverência ao gênero film noir, concebida por Curtis Henson, que urge aqui sua mais perfeita obra: Em tudo e por tudo, este é um trabalho de absoluto primor cinematográfico, onde a perfeição de seu ritmo e de sua condução serve aos propósitos de um roteiro (elaborado em minúcias rocambolescas por Brian Helgeland e pelo próprio diretor Hanson) escrito com equilíbrio, desenvoltura e plena noção de atmosfera, mostrando também uma das mais prodigiosas utilizações do campo e contracampo vistas no cinema.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Homem de Ferro 3

Jon Favreau, o diretor dos dois primeiros filmes do Homem de Ferro sentia-se esgotado em lidar por tanto tempo com aquele mesmo material –e seu cansaço na condução de “Homem de Ferro 2” é particularmente visível.
Tendo ele então recusado a direção do terceiro filme de Tony Stark, e antes disso, também recusado a direção do filmes dos Vingadores, a Marvel Studios foi em busca de um novo diretor (essa prática passou a ser bastante benéfica para o estúdio e suas produções, não deixando que um mesmo diretor se sobrecarregasse com sucessivos filmes).
Foi o astro Robert Downey Jr. quem interveio, sugerindo para o cargo seu grande amigo Shane Black, realizador do ótimo “Beijos e Tiros”, provavelmente a obra inicial do retorno de Downey Jr. ao estrelato.
Também ator (participou de “O Predador”), além de conceituado roteirista (criou a premissa e escreveu o roteiro dos dois primeiros filmes da série “Máquina Mortífera”), Shane Black contribuiu com seu senso de espetáculo, seu humor pontual e seu gosto por ramificações rocambolescas na trama, proporcionando ao personagem de Tony Stark um filme interessante que dá continuidade aos eventos de "Os Vingadores", mas que gerou uma controvérsia entre o público. Certamente, a maior dentre todos os filmes da Marvel: Os expectadores basicamente se dividem entre aqueles que o consideraram ótimo, tão bom quando os filmes anteriores, e aqueles que repudiaram completamente as escolhas (polêmicas é bem verdade) da história, cujas reviravoltas mostram-se desafiadoras no que tange a alguns elementos canônicos dos quadrinhos, além do humor afiado, incisivo e constante que fizeram muitos imaginar que este era um filme que não se levava a sério –e isso é tema para infindáveis debates.
Quando “Homem de Ferro 3” começa, portanto, Tony Stark (Downey Jr como sempre dando o seu melhor), o Homem de Ferro em pessoa, goza de seu status de celebridade na Costa Oeste após a Batalha de Nova York –ocorrida na segunda metade de “Vingadores” –torná-lo  famoso no mundo inteiro, junto com os outros heróis. Enquanto mantém um relacionamento relativamente sólido com Peper Potts (Gwyneth Paltrow), Tony lida, ao seu jeito, com o stress pós-traumático provocado por aquele conflito: Constrói novas armaduras sem parar!
Já, seu melhor amigo, James Rhodes (o ótimo Don Cheadle), que em “Homem de Ferro 2” assumiu a alcunha de Máquina de Combate, segue atuando agora como Patriota de Ferro. Entretanto, quando um certo Aldrich Killian (Guy Pearce) aparece, Tony começa a suspeitar de seu envolvimento em uma série de atentados relacionados a uma droga experimental, a Extremis, e que levam diretamente a um terrorista disposto a ameaçar a vida do próprio presidente dos EUA: o misterioso Mandarim (Ben Kingsley, numa atuação soberba).
Gozando do privilégio de ser o primeiro filme a iniciar a "fase 2" da Marvel Studios, ou seja, todos os planos envolvendo o Universo Marvel após o estrondoso filme dos Vingadores, “Homem de Ferro 3” foi audacioso nos rumos inventivos que buscou dar para personagens já estabelecidos –ao mesmo tempo que ele reinventou por completo o celebradíssimo arco “Extremis”, dos quadrinhos, o roteiro não se intimidou de subverter a lógica e a origem do vilão Mandarim (um personagem muito aguardado pelos fãs), dando a ele um background metalingüístico inesperado (para não dizer desconcertante!) que chocou o público, frustrando alguns expectadores e surpreendendo outros tantos.
O filme de Shane Black também mostra audácia na maneira com que amarra pontas soltas dos filmes anteriores do Homem de Ferro, firmando-se como um “final de trilogia” –ainda que todos sabiam, a trajetória de Tony Stark não tenha se acabado.
O mais controverso filme da Marvel Studios, o sarcástico e espetacular “Homem de Ferro 3” mostrou, pelo menos, que o estúdio tinha muita lenha pra queimar, mesmo depois de “Vingadores”.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Guerra Ao Terror

Para muitos, este foi o filme independente que tirou de “Avatar” a glória de conquistar o Oscar de Melhor Filme em 2009.
É curiosa a opção da Academia em premiar este pequeno e esmerado filme de guerra, de fato artisticamente superior à produção de James Cameron, mas que não representa, por assim dizer, o repertório técnico do futuro cinematográfico como aquele filme o fazia.
“Guerra Ao Terror” é um pequeno Davi que venceu um gigante Golias, todavia, esse fato, na maioria das vezes, tira-lhe a verdadeira razão para ser visto: O fato de que a diretora Kathryn Bigelow realizou com um misto envolvente de descontração e empolgação um dos melhores filmes de todos os tempos a retratar a tensão de um conflito.
Ao contrário do que muitos podem esperar, contudo, ela não realizou um filme de ação: E um olhar mais austero sobre a questão pode concluir que –diferente de guerras mais físicas como o do Vietnam ou da Segunda Guerra Mundial –a Guerra do Iraque não deixa margem para seqüências de batalha.
É assim que acompanhamos a rotina de três soldados norte-americanos cuja função é encontrar e desarmar bombas. Na brilhante e tensa cena inicial um deles (interpretado por Guy Pearce, uma das muitas pontas ilustres do filme) morre e é substituído por outro.
A questão é que, faltando trinta e oito dias para serem liberados para casa, os soldados Sanborn (Anthonie Mackie) e Eldridge (Brian Geraghty) recebem como substituto o beligerante e inconseqüente Sargento William James (Jeremy Renner, num papel divisor de águas em sua carreira).
Viciado na adrenalina do perigo, James não tem uma postura moderada e razoável como a de seu antecessor, o quê eleva a carga de tensão entre seus dois companheiros em níveis estratosféricos a medida que ocorrências perigosas de verdade vão se sucedendo. E a diretora Kathryn é particularmente eficiente ao conduzir uma narrativa onde todos os humores e sensações exasperantes convergem dos personagens para o expectador.
O título original de “Guerra Ao Terror” é “The Hurt Locker” cuja tradução mais aproximada seria algo como “o invólucro da dor”. Trata-se de um termo entre usado nas Forças Armadas que define o lugar metafórico em que se encontra o soldado cuja missão não foi capaz de cumprir: E tem-se, justamente aí, o grande segredo para melhor definir o filme; mais do que cenas de alta tensão, e momentos estarrecedores (e eles existem, brilhantemente costurados e detalhados pelo ótimo roteiro de Mark Boal), o trabalho de Bigelow sempre lembra de lançar seu olhar para os seres humanos no centro da questão.
A despeito de suas atitudes no início inexplicáveis, o sargento James, na atuação magnificamente controlada e ponderada de Renner, revela-se um personagem de insuspeita profundidade, por quem passamos a torcer e nos importar.

“Guerra Ao Terror” também possui o mérito de ir um passo além de “Soldado Anônimo” talvez, o único filme sobre a Guerra do Iraque tão bom quanto este daqui: Naquele filme, nos apegávamos aos personagens, mas o diretor Sam Mendes, ao fim do conflito, logo abandonava o público terminando o filme antes de sabermos como foi a volta dos soldados para casa. Já, aqui Kathryn Bigelow estende sua narrativa um pouco mais, dando o vislumbre necessário para descobrirmos como foi o regresso do sargento James ao lar. O suficiente para descobrirmos junto com ele que a guerra deixou-lhe uma série de impressões que passaram então a definir quem ele é, e à guiá-lo para a acachapante decisão que ele toma na cena final.

domingo, 18 de outubro de 2015

Os Infratores

O diretor John Hillcoat (do fabuloso “A Estrada”) lança um olhar peculiar sobre as engrenagens da lenda e as matizes que acrescentam cor quando tal folclore se permite vislumbrar pelo prisma da realidade.
Em sua ânsia de observação, ele perscruta diversas facetas: A lenda enquanto mitologia nas mentes mais sugestionáveis; a vaidade inquieta dos indivíduos no centro da questão; os esforços intrínsecos dos cínicos para não ceder ao deslumbramento –e o conseqüente conflito que leva á tentativa de questionar o que é contado.
A fim de mover essa dissertação carregada de tantas facetas, Hillcoat apropriou-se de uma trama real: Durante a década de 1930, sob o regime da Lei Seca, o condado de Franklin torna-se o palco do próspero negócio dos três irmãos Boudurant –Forrest (Tom Hardy, ótimo), o líder taciturno; Howard (Jason Clark, um tanto quanto mal aproveitado), o grandalhão; e Jack (Shia LaBeouf, fora do tom), o caçula impetuoso –que passam a destilar bebida e vendê-la ilegalmente  para toda a região. 
A atividade atrai o perigoso policial assistente Rakes (Guy Pierce), vindo de Chicago, disposto a por um fim na lenda mítica que cerca os Boudurant. 
O resultado do esforço de John Hillcoat acaba orquestrando um vigoroso filme de gangster –ainda que excessivo em sua sanguinolência –ambientado em majestosa desolação a exemplo de seu trabalho anterior, e inquisitivo na maneira ressonante e ocasionalmente desmistificadora com que ele aborda a trama elaborada. Seu elenco parece em sintonia com esses propósitos entregando interpretações objetivas e perspicazes em suas nuances, como comprovam as extraordinárias presenças de Tom Hardy e Jessica Chastain (linda e com uma estupenda cena de nudez). O ponto fraco do filme fica por conta da presença destoada e superficial de Shia LaBeouf. Uma pena já que seu personagem irritante é colocado como protagonista em detrimento dos outros, mais interessantes.