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terça-feira, 26 de novembro de 2019

Harry Potter e A Câmara Secreta

Se o segundo filme de saga é, com frequência, apontado por público e crítica como um dos mais desinteressantes da série, ele é também um dos que mais cresce numa revisão.
O primeiro dos filmes a experimentar a consequência notável de como a série registrou, entre outras coisas, o efeito do tempo sobre seu elenco jovem –o ano que separa este de “A Pedra Filosofal” já é perceptível no amadurecimento das crianças –“A Câmara Secreta” dá início ao processo no qual a narrativa lúdica na história de Harry Potter agrega mais e mais elementos sombrios e, por que não, adultos, à sua trama, embora se note que Chris Columbus não pareça muito à vontade com esse teor do material. Ainda assim, ele realiza um belo trabalho valendo-se de diversas cenas (sobretudo de enquadramentos nos diálogos) onde procura empregar de um desigual prologamento de tempo, muito parecido com o usado por Peter Jackson um ano antes em “OSenhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”.
Ávido por iniciar seu segundo ano escolar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry amarga uma angústia ocasionada pelas últimas férias –durante todo o verão, não recebeu uma única carta de seus amigos, Rony e Hermione. Esse é um dos mistérios –dentre os muitos que aqui se somam –que logo ganha uma explicação: Doby, um elfo doméstico dotado de poderes mágicos (e concebido por meio de um primoroso processo de computação gráfica) cismou que Harry não deve, de forma alguma voltar para Hogwarts, caso contrário, coisas terríveis acontecerão.
Assim, Doby dá o estopim a muitas confusões que definem “A Câmara Secreta”: Deixa Harry em maus lençóis com seus tios, o que lhe acarreta um castigo, trancado dentro de seu quarto; em seu resgate vem Rony e seus irmãos que, à bordo de um carro voador, o levam na calada da noite. É Doby também que frustra os planos de Harry e Rony em pegar o Expresso Para Hogwarts –obrigando os dois a lançar mão, mais uma vez, do carro voador –numa das sequências mais sensacionais do filme.
Finalmente na escola, Harry, a medida que o tempo desse segundo ano passa, eventualmente descobre as razões dos temores do elfo: Uma pixação numa das paredes do lugar evidencia a ameaça –“A câmara secreta foi aberta... inimigos do herdeiro, preparem-se!”
Na esteira desse mistério, personagens começam a aparecer petrificados (primeiro a gata do zelador Filty, depois alguns dos alunos), indicando que um terrível monstro –até então preso na tal câmara –está agora à solta em Hogwarts.
Além disso, Harry descobre que seu poder de comunicar-se com cobras (como foi visto numa das primeiras cenas de “A Pedra Filosofal”) não é algo comum aos bruxos; na verdade, é uma particularidade atribuída quase exclusivamente ao tenebroso Lorde Voldemort.
Todos esses fatores têm o mérito de parecer aleatórios num primeiro momento, mas vão se unindo aos poucos, como pontas soltas numa bem elaborada e detalhada costura.
Seguindo uma fórmula similar ao do filme anterior –fato que incomoda, inclusive, porque a direção de Columbus se revela bastante exaurida em muitos momentos –este segundo filme deixa enfatizado, acima de tudo, que Hogwarts não é um local tão seguro quanto se presumia; tudo o mais que ele poderia fazer, deixa em aberto para os filmes vindouros, estes sim, responsáveis por iniciar a trama propriamente dita do embate das forças do bem contra o mal.
“Harry Potter e A Câmara Secreta” marca também a despedida do saudoso Richard Harris no papel de Alvo Dumblodore, personagem que, neste filme, ele fez questão de interpretar até o fim, em algumas cenas, necessitando de aparelhos para se manter em pé e respirando –nada disso se percebe em cena, claro, resultado da competência da equipe técnica e da brilhante tenacidade desse grande ator.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Harry Potter e A Pedra Filosofal

Um fenômeno literário, a série “Harry Potter” conseguiu o feito de repetir tal fenômeno ao ser vertido para cinema, graças à excelência de sua realização (que materializou com propriedade as inúmeras facetas do mundo mágico imaginado pela escritora J.K. Rowling), ao carisma de seu elenco escolhido com perfeição, e ao talento de seus distintos diretores que se alternaram nos filmes que se seguiram.
Para o primeiro deles, “A Pedra Filosofal” a escolha dos produtores recaiu sobre o americano Chris Columbus.
Um diretor essencialmente comercial, acostumado a moldar sucessos obtidos em parcerias (roteirizou para Steven Spielberg “Os Gremlins”, “Os Goonies” e “O Enigma da Pirâmide” e dirigiu “Esqueceram de Mim”, produzido por John Hugues) ou individualmente (“Uma Noite de Aventuras” e “Uma Babá Quase Perfeita”), Columbus fez o que poderia, afinal, dele se esperar: Narrou com noção criteriosa de ritmo (e auxiliado de maneira inestimável pela trilha sonora de John Williams) a história do jovem Harry (Daniel Radcliffe, ótima escolha), orfão inglês maltratado desde sempre pelos tios Vernon e Petûnia (Richard Griffiths e Fiona Shaw, ela de “Meu Pé Esquerdo”) e pelo mimado primo Duda (Harry Melling) com quem morou a vida toda.
No entanto, nas vésperas do décimo primeiro aniversário de Harry, coisas estranhas começam a acontecer: Corujas sobrevoam sua casa trazendo cartas que seu tio se esforça em esconder dele. Além disso, um mirabolante incidente no zoológico com uma cobra deixa Harry intrigado.
Quando o gigante Hagrid (Robbie Coltrane) apresenta-se a ele, Harry descobre a verdade: Que ele é um bruxo, parte de um mundo que vive oculto através de várias regras dos olhos de pessoas normais –e os meios pelos quais esse mundo se esconde é um dos aspectos fascinantes vistos neste primeiro filme.
Harry, na realidade, é uma celebridade no mundo bruxo: Há muitos anos, na noite fatídica em que perdeu o pai e a mãe, ele, ainda bebê, deu cabo, de alguma forma, do famoso e maldoso bruxo Voldemort (o grande vilão da saga) ganhando a cicatriz em forma de raio que tem na testa –e se tornando orfão no processo.
Com seus onze anos completos, é hora, portanto, de Harry ingressar na conceituada Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts: E assim, “Harry Potter e A Pedra Filosofal” se ocupa de definir algumas características do mundo mágico, mostrar algumas regras que devem serem seguidas (ou não) conforme testemunhamos o emprego da magia recém-descoberta pelo protagonista e apresentar os demais personagens (todos numerosos) que participarão da trama –alguns, de suma importância, aparecem neste capítulo inaugural em uma única cena como é o caso da Sra, Weasley (Julie Walters).
Este primeiro filme gira em torno de um trama, que ganha até mesmo ares secundários, a respeito da mítica pedra filosofal –cuja importância só começa a ser trabalhada de fato quase a partir da sua metade –e de sua possível capacidade de trazer Voldemort de volta à vida, entretanto, o que parece contar de fato para a narrativa é a moldura onde todos os elementos do mundo da bruxaria (ou, ao menos, da Escola de Bruxaria) são evidenciados em ricos detalhes, sobretudo, da radiante introdução de personagens como Rony Weasley (Rupert Grint, fantástico), Hermione Granger (a maravilhosa Emma Watson), o diretor Alvo Dumblodore (Richard Harris), os professores Minerva (Maggie Smith) e Severo Snape (Alan Rickman, fabuloso) e tantos outros.
Embora desfrute de imodestos cento e cinquenta e dois minutos de duração, “Harry Potter e A Pedra Filosofal” é, no frigir dos ovos, um prólogo, um história de tom deliberadamente infantil que apresenta com transparência e puerícia esse complexo contexto dentro do qual os filmes seguintes irão se passar.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Robin & Marian

Das tantas versões da lenda de Robin Hood contadas pelo cinema, a do filme de Richard Lester é a única a investir por um caminho de fato desigual –a invés de ciscar em torno da sempre revisitada origem do herói (coisa que até pouco tempo, um fracasso recente de bilheteria estrelado por Taron Egerton voltou a querer fazer), ele escolhe pelo caminho oposto contemplando, num exercício de imaginação da parte do roteirista James Goldman (de “O Leão No Inverno” e “O Sol da Meia-Noite”), como seria o famoso fora-da-lei em seu crepúsculo.
Personificado pela fleuma madura e sempre impecável de Sean Connery, encontramos Robin ao lado de seu filme companheiro Little John (o ótimo Nicol Williamson), ambos servindo o Rei Ricardo Coração de Leão (Richard Harris) na cada vez mais desesperançada iniciativa das Cruzadas Santas.
Robin chegou num ponto em que seu descontentamento com a índole corrupta do rei o põe em sérios apuros –que só não se converte numa execução sumária porque o próprio rei falece antes, fulminado por um banal ferimento com flecha.
Robin e Little John assim retornam para a Inglaterra onde o reinado emergente do irmão de Ricardo, o Rei John (Ian Holm), transformou em renegados todos os indivíduos do clero devido ao rompimento político com o Vaticano.
Ele reencontra Marian (Audrey Hepburn, ainda encantadora) na função de líder de uma abadia, tendo abraçado os princípios religiosos depois da partida de Robin. É assim que, já de chegada, Robin tem de salvá-la, quando o próprio Xerife de Nothingham (Robert Shaw) aparece para prende-la cumprindo uma designação real.
Refugiados na Floresta de Sherwood, Robin, Marian e Little John reencontram, ainda escondidos por lá, alguns companheiros do passado, como Frei Tuck (Ronnie Barker) e Will (Denholm Elliot, de “Os Caçadores da Arca Perdida” e “Indiana Jones e A Última Cruzada”).
Ao mesmo tempo, esse regresso do herói reaviva a chama de esperança nos camponeses oprimidos que se juntam novamente a ele, resgatando a mesma circunstância de outrora, enquanto o próprio Robin se descobre embriagado pelo retorno do passado como ele recordava. No entanto, como a narrativa trata de lembrar paulatinamente –inclusive nos monólogos melancólicos de Marian –o tempo passou, e os heróis envelheceram.
Charmoso como filme de aventura, e executado tão somente com essa modesta pretensão pelo diretor Richard Lester (que substituiu Richard Donner em “Superman 2” e ainda realizou “Os Três Mosqueteiros” e “A Vingança de Milady”), “Robin & Marian” não se aprofunda tanto quanto poderia se imaginar nas agonias da meia-idade a se abater sobre homens lembrados por seu vigor, optando por um registro gracioso (e envolvente) na maior parte do tempo.
Seu momento mais contundente (e talvez ousado) é o desfecho que escolhe para seus heróis, longe de um maniqueísmo previsível do bem contra o mal, mas sim impondo uma amarga realidade, na qual a abnegação do momento pode soar um bocado implausível para os expectadores jovens de hoje.

terça-feira, 15 de maio de 2018

O Conde de Monte Cristo


No final da década de 1990, as coisas não pareciam nada bem para o diretor Kevin Reynolds depois que ele entregou o catastrófico “Waterworld-O Segredo das Águas”.
Foi necessário que quase uma década inteira se passasse para ele então entregar um projeto que, se não restabelecia por completo sua reputação, ao menos mostrava claramente que ele era capaz de realizar um trabalho equilibrado, eficiente e competente.
Em “O Conde de Monte Cristo”, Reynolds reconta a história de vingança narrada por Alexandre Dumas com afiada noção de ritmo e empatia, amparando-se, sobretudo, numa referência ao semi-clássico “Os Duelistas”, de Ridley Scott.
Amigos de índoles e classes sociais distintas, o humilde e satisfeito Edmond Dantes (Jim Cazievel, de “A Paixão de Cristo”) e o fidalgo e rancoroso Fernand (Guy Pierce, de “Amnésia”) encontram um desfecho de sua amizade quando Dantes cai numa terrível injustiça perpetrada por Fernand –que lhe cobiça a bela noiva –e mais um punhado de conspiradores.
Acusado de um crime que não cometeu, Dantes é enviado à prisão conhecida como Ilha do Diabo, onde um padre jesuíta (O grande Richard Harris), seu companheiro de cárcere, ensina-lhe as artes da esgrima e de como achar o tesouro desaparecido da Ilha de Monte Cristo.
De volta à civilização, Dantes usará desses novos recursos para combater os inimigos e o sistema corrupto do qual foi vítima.
Inteligente, Reynolds moldou o roteiro de sua adaptação despindo-se da inclinação romântica e clássica que impregnava a obra literária –recurso adotado em outras adaptações –e aproximando seu filme da percepção das aventuras contemporâneas enfatizando a boa-venturança na trajetória de seu carismático protagonista.
O resultado fica num meio termo ameno entre o convencional e o notável, mas, entrega assim mesmo um desfecho capaz de fazer o expectador vibrar.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Sherlock Holmes, por Robert Downey Jr.

Sherlock Holmes
Muitas foram as personificações do detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle no cinema –atualmente, uma das minhas prediletas não vem nem da tela grande, mas da TV, na arrojada série “Sherlock”, estrelada por Benedict Cumberbath e Martin Freeman.
Pouco antes dela, logo após o enorme sucesso de “Homem de Ferro”, o então ator problemático Robert Downey Jr. dava passos largos para tirar de seus ombros a má reputação que lhe perseguia a mais de duas décadas para se tornar um dos grandes astros de Hollywood –e certamente os responsáveis por isso foram não somente os filmes de Tony Stark como também esta nova versão de Sherlock Holmes.
Pegando carona numa proposta de reinvenção um pouco parecida com a do clássico oitentista “O Enigma da Pirâmide” –que hoje, infelizmente, pouca gente lembra –o filme mostra o famoso detetive particular na Inglaterra do final do Século 19, morando no conhecido apartamento em Baker Street. Sherlock Holmes auxiliado por seu fiel (ainda que relutante) amigo James Watson (Jude Law, uma boa presença) investiga uma série de crimes que culminaram numa inexplicável ressurreição de um condenado à morte, Blackwood (Mark Strong, um vilão competente embora genérico). Seguindo uma trilha de pistas num estilo totalmente peculiar e ortodoxo, como lhe é de praxe, o excêntrico Holmes aproxima-se de descortinar um plano que visa ameaçar a própria ordem política vigente em Londres. No percurso dessa tumultuada investigação –que encontra indícios que flertam com invocações sobrenaturais –Holmes e Watson (que, coitado, está de casamento marcado) recebem a ambígua ajuda (ou seria intromissão?) da bela Irene Adler (a ótima Rachel McAdams), com quem Holmes tem um relacionamento, diga-mos... complicado!
Assumindo as rédeas deste projeto –e, assim como Downey Jr., necessitando de um sucesso para se provar perante a indústria –o diretor Guy Ritchie troca assim os habituais gângsteres urbanos e contemporâneos (que ele soube retratar com graça, som e fúria em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch-Porcos e Diamantes”) pelo submundo da Inglaterra vitoriana nesta reformulação do famoso personagem extraída por sua vez não dos livros de Arthur Conan Doyle, mas de uma série de história em quadrinhos neles baseada.
Essa roupagem pós-moderna garantida pela direção inquieta e em muitos momentos francamente vertiginosa de Ritchie acaba dando ao personagem fôlego novo justamente por preservar elementos de ação que estavam nos livros e fugir consideravelmente de estereótipos que engessavam o personagem em suas outras encarnações.
E verdade seja dita: Muito ajuda para isso a eufórica interpretação de Robert Downey Jr.

Sherlock Holmes-O Jogo das Sombras
Tudo deu certo. A nova versão de Sherlock Holmes foi um sucesso, o público abraçou a forma dinâmica com que o diretor Guy Ritchie contou uma trama protagonizada por um personagem tão conhecido –e de características tão difundidas na cultura pop –dando a ele um sabor de algo novo. E Robert Downey Jr., embora o público o visse como intérprete definitivo do Homem de Ferro, conseguiu emplacar uma segunda franquia milionária em sua carreira, provando que os dias de escândalo e de bebedeiras tinha ficado no passado. Seu imenso talento e carisma agora estavam a serviço da arte de interpretar, como tinha que ser.
A continuação, como rege a cartilha do cinema comercial de modo geral, deveria ser mais, maior e melhor que o filme anterior –e tudo isso, posto em prática, resulta ocasionalmente exorbitante.
Se o primeiro “Sherlock Holmes” era uma mescla agitada e livre de amarras de diversos livros, contos e histórias de Sherlock produzidas nas mais diversas mídias –sendo o livro “Um Escândalo Na Boêmia” uma das fontes mais evidentes –desta vez, uma das inspirações certamente haveria de ser “A Queda de Reinchenbach”, devido à introdução daquele tido como o maior antagonista de Holmes, o maquiavélico Professor Moriarty, como bem foi sugerido ao fim do primeiro filme.
Quando esta nova produção começa, Guy Ritchie, à exemplo do ritmo incessante do trabalho anteiror, já arremessa o expectador no centro da ação, levando Holmes e Irene numa tentativa de impedir a detonação de uma bomba: Em pleno Século 19, ao que parece, o terrorismo enfim chegou a Inglaterra.
Ondas de pânico e desordem provocados por misteriosos atentados semelhantes ao da cena inicial intrigam a polícia, mas não o detetive Sherlock Holmes. Para ele, a autoria desses eventos é bem clara: todas as pistas levam ao ardiloso Professor Moriarty (Jared Harris, filho do grande Richard Harris, fabuloso no papel), tão astuto e inteligente quanto o próprio Holmes, mas infinitamente mais maldoso e perigoso.
O propósito pelo qual Moriarty elabora esse seu plano, entretanto ainda é um enigma. Para descobri-lo Holmes conta novamente com a imprescindível ajuda de seu amigo Watson (retirado à contra-gosto das festividades de seu casamento) e, desta vez, com a contribuição da cigana Simza (a sueca Noomi Rapace, exalando charme) e, em alguns momentos, de seu meticuloso irmão, Mycroft (Stephen Fry, em breve, porém, descontraída participação).
Esta continuação do sucesso de 2010 contava mais uma vez com a sensacional presença de Robert Downey Jr. e com o desigual tratamento conferido pelo diretor Guy Ritchie, embora muito disso soasse repetitivo em relação ao filme anterior: Seus grandes diferenciais eram mesmo as novas presenças do elenco; Noomi Rapace e, principalmente Jared Harris, cujo personagem, Prof. Moriarty, vinha atender uma espécie de ressalva feita em relação ao outro filme –a de que ele não teria um vilão à altura; os realizadores entenderam o recado, deixando Downey Jr. desta vez brilhantemente antagonizado por Jared Harris.
O final, diretamente extraído do desfecho antológico de “A Queda de Reinchenbach”, deixava ganchos óbvios para um terceiro filme que até este presente agosto de 2017 não foi sequer anunciado.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Os Imperdoáveis

Poucos seriam os realizadores tão creditados a conceber uma fábula sobre o Velho Oeste tão definitiva quanto Clint Eastwood o fez neste filme primordial.
Usando de sua própria figura –durante um bom tempo indissociável do gênero no subconsciente do público –Eastwood elaborou uma obra que se atrevia a pensar e refletir o próprio gênero a que pertencia.
“Para Sergio e Don” diz ele no final dos créditos. E estes realmente são as influências fundamentais não apenas ao estilo vigoroso e convicto que ele deslinda aqui, mas ao próprio conceito do que um faroeste é, e deveria ser.
Partindo desse princípio, encontramos William Munny (personagem que Eastwood incorpora com enfático brilhantismo) numa fase outonal da vida. Ele foi um cruel pistoleiro do passado, porém, agora se encontra recuperado, viúvo e cuidando de dois filhos pequenos numa humilde e longínqua fazenda do Missouri.
Seus tempos de assassino ficaram para trás, e só lhe restaram lembranças nebulosas e esparsas dos crimes que praticava depois que estava bêbado.
Mas, eis que chega então um jovem com a proposta de um novo serviço: O assassinato remunerado de dois vaqueiros que inadvertidamente esfaquearam o rosto de uma prostituta (cuja proliferação, de boca em boca, dos exageros da história é um dos aspectos interessantes, divertidos e antropológicos do roteiro).
Vislumbrando uma vida melhor para seus filhos pequenos, Willian decide voltar à ativa ao lado de seu antigo parceiro Ned (Morgan Freeman, estabelecendo com Eastwood uma parceria genuína), e segue na direção da pequena cidadezinha onde o serviço foi encomendado, um lugar sob a proteção do xerife Little Bill Dagget (Gene Hackman, fantástico), um ex-pistoleiro prepotente, ardiloso e cruel.
As conseqüências dessa decisão o farão rever o passado e o assassino impiedoso que William pensava ter deixado para trás.
Pelo trabalho primoroso que executa aqui, Clint Eastwood ganhou seis merecidos Oscars, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator Coadjuvante para Gene Hackman em 1992. A esplendorosa avaliação que ele faz, imerso em talento e sensibilidade, não somente de sua persona de pistoleiro durão (acometido, desta vez, por toda sorte de indagações, questionamentos morais e limitações humanas), como do próprio gênero em si se reflete de forma artisticamente sólida no roteiro existencialista e amparado em brilhantes personagens de David Webb Peoples, do igualmente brilhante "Blade Runner".
As maravilhosas paisagens canadenses que serviram de locação ao filme são outro espetáculo.

Um detalhe curioso é que, décadas depois, o cinema japonês fez uma refilmagem de “Os Imperdoáveis” em forma de filme de samurai, tratava-se de “Yurusarezaru Mono”, com Ken Watanabe, seguindo um trajeto oposto ao que ocorreu com “Os Sete Samurais” e “Sete Homens e Um Destino”.
Os japoneses não poderiam escolher inspiração melhor!

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Gladiador

Em face do clássico moderno (e atemporal) que este brilhante trabalho do diretor Ridley Scott se transformou, é um pouco difícil enxergar, hoje, um de seus mais notáveis méritos.
Em meados do ano 2000, era algo muito improvável ver passando nas telas de cinema um épico sobre a Roma Antiga, especialmente materializado pelos arrojados recursos de efeitos visuais da atualidade.
Já faziam décadas desde os últimos exemplares de tal gênero, outrora tão popular na Antiga Hollywood –sendo, talvez, o épico “Spartacus”, de Stanley Kubrick, o últimos de seus grandes exemplares.
Coube ao gênio criativo e à incisiva concepção estética de Scott a tarefa de recriar todo esse gênero nesta superprodução cheia de personalidade e fôlego.
Durante o império romano, Marco Aurélio (Richard Harris), o imperador, declara a seu filho e sucessor Commodus (Joaquim Phoenix) sua intenção de passar  seus poderes de comando a seu primeiro general Maximus (Russell Crowe), dando os primeiros passos em direção à dissolução do império e à restauração da república. Mas Commodus, ambicioso, assassina o próprio pai e assume seu império, fazendo com que Maximus após quase ser morto, tenha que fugir como escravo. Vendido a Proximo, um treinador de gladiadores (Oliver Reed, falecido durante as filmagens), Maximus aos poucos arquiteta seu retorno a Roma, como mais um dos gladiadores a entreter a plebe nas areias do Coliseu. Nada o impedirá de vingar-se de Commodus, e fazer justiça a Marco Aurélio.
Tão sensacional em sua audácia técnica quanto o foi “Blade Runner”, nos anos 1980, “Gladiador” representa um marco sem igual na carreira de Ridley Scott –o diretor cujo trabalho de maior expressão havia sido o premiado “Thelma & Louise”, num longínquo 1991, vinha de um período periclitante, onde contava quase uma década sem entregar um grande trabalho.

Com “Gladiador” ele provou que, ao contrário do que alguns detratores alardeavam, seu ímpeto narrativo tinha muito ainda a oferecer ao cinema: Este épico majestoso, empolgante e formidável foi o primeiro exemplar de uma nova fase magnífica, talvez a melhor de sua carreira, onde Scott entregou sucessivos trabalhos que , se não eram todos completamente espetaculares, pelo menos muitos deles vinha providos de ocasional brilhantismo e excelência, como “Falcão Negro em Perigo”, “Cruzada”, “O Gângster”, “Perdido Em Marte” e outros.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Fúria Selvagem

Dizer que “O Regresso”, de Alejandro Gonzales Iñarritu é uma refilmagem deste filme é inapropriado e injusto: Ambos são baseados na mesma (e inacreditável) história real, mas seguem rumos diferentes, com propostas diferentes.
Feito em 1971, “Fúria Selvagem” passa longe de possuir tantas cenas antológicas quanto a obra de Iñarritu, nem tampouco parece querer submeter o expectador à uma experiência cinematográfica tão intensa –o diretor Richard C. Sarafian (que depois faria outro excelente faroeste, “Amor Feito de Ódio”) prefere relatar os percalços de seu protagonista com mais sutileza e, diga-mos, serenidade.
O grande Richard Harris interpreta aqui Zack Bass (o personagem chama-se Hugh Glass no filme com Leonardo Dicaprio) um guia de uma expedição de caçadores e negociadores de pele nos confins do Alasca. Durante o trajeto de volta, Bass é atacado por um urso, que o deixa à beira da morte, e seus companheiros, com um dilema em mãos: Tentar salvá-lo, comprometendo a possibilidade de sobrevivência de todos (existem índios provavelmente hostis nas redondezas) ou deixá-lo para morrer.
A decisão do Capitão Henry (o diretor John Huston numa de suas ocasionais aparições como ator) é seguir em frente, deixando-o com dois homens para vigiá-lo, que não tardam a abandoná-lo.
Mas, Bass milagrosamente não morre, recuperando-se e tentando alcançar a expedição, a medida que breves recordações de sua vida vão esclarecendo o homem de existência sofrida que ele era.

Se “O Regresso” possuia uma clara trama de vingança a nortear sua narrativa, “Fúria Selvagem” opta por deixar isso um pouco de lado –embora haja uma constante sugestão disso ao longo da duração –tornando este quase um conto de redenção (ou de penitência, quem sabe), e transformando a jornada do protagonista numa espécie de retorno espiritual à civilização, quando muito fazendo com que Zack Bass apareça assim como uma lembrança quase espectral para os companheiros que o deixaram, e fique implícito um possível conflito quando ele retornar. A ausência de um antagonista mais sólido como era o Fitzpatrick de Tom Hardy no filme de 2015 deixa o roteiro ligeiramente injustificado, e o aproxima mais de “Um Homem Chamado Cavalo”, realizado um ano antes e estrelado pelo próprio Richard Harris; são similares, por exemplo, o modo como o personagem se relaciona com os indígenas e o fato deles ganharem seu respeito, assim como a postura ecológica do filme.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - O Começo


Harry Potter e A Pedra Filosofal
   Esta saga marcou toda uma geração que cresceu assistindo seus oito capítulos no cinema ao longo de uma década, ou mesmo conferindo-os em DVD.
   Se ela será, ou não, lembrada nos próximos anos por vir, isso ainda é uma incógnita, mas parece bem provável que sim, especialmente ao contemplarmos a fascinante elevação de qualidade que ela apresenta a partir do terceiro filme.
   O início da saga, capitaneado pelo irregular diretor Chris Columbus, resultou num filme bastante lúdico e infantil, refletindo até certo ponto, o espírito do primeiro livro.
   Os valores de produção logo deixavam evidente a confiança dos produtores no material, que trouxeram o compositor John Willians para a trilha sonora (icônica, e uma das grandes forças narrativas deste primeiro filme), mas o verdadeiro acerto foi a escolha do elenco, onde não só garantiram a longevidade da série com os três intérpretes infantis principais, como também rechearam o vasto elenco com alguns dos nomes mais significativos da escola inglesa de interpretação.
   Embora tenha estreado nos cinemas (em um já longínquo final de 2001) praticamente junto com o implacável “Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”, o filme fez uma bilheteria impressionante o suficiente para garantir a realização da saga inteira.
   Aqui descobrimos que o jovem Harry (o apropriado, e melhor a cada capítulo, Daniel Radcliffe) cresceu na casa dos tios, sempre mal-tratado por eles e por seu primo Duda. Mas, tudo muda no seu aniversário de 11 anos, quando um gigante entra porta adentro e lhe faz a revelação que mudará sua vida: ele, Harry, é um bruxo e pertence a um mundo oculto dos olhos normais. Nesse mundo inclusive ele é uma lenda exatamente por ter matado o temido Lorde Voldemort, na mesma noite em que ele matou os pais do próprio Harry. Mas o mundo da magia não é totalmente seguro, pois a sombra de Voldemort ainda assombra muitos que crêem em seu retorno. Na escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry descobrirá que esse retorno pode estar relacionado com a mítica pedra filosofal.


Harry Potter e A Câmara Secreta
   Em seu segundo ano na escola de Hogwarts, Harry Potter descobre que os rumores sobre uma misteriosa câmara aberta em um local que ninguém sabe, podem ser mais perigosos do que parece. Alunos, um a um começam a surgirem petrificados pelos cantos, e a razão disso pode estar relacionada ao grande inimigo de Harry, Lorde Voldemort.
   Realizado de forma praticamente simultânea com o primeiro filme, este segundo exemplar –também ele dirigido por Chris Columbus –já ensaiava uma tentativa de amadurecimento da saga, mostrando-se mais sombrio que o anterior. Mas, a pressão e o desgaste de Columbus ao encarar duas superproduções consecutivas se refletem na narrativa, tornando este segundo o mais enfadonho e cansativo dentre todos os filmes.

   Mesmo assim, alguns méritos se sobressaem, sendo os mais lembrados, a aparição de um notável e expressivo personagem digital (Toby, o elfo, meses antes da revolucionária atuação digital de Andy Serkis, como Gollum, em “Senhor dos Anéis-As Duas Torres” pegar o mundo inteiro de assalto!), e a interpretação exuberante e cômica de Kenneth Brannagh, no papel do novo professor em Defesa Contra a Arte das Trevas, o celebrado Gilderoy Lockhart.