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domingo, 16 de agosto de 2026

A Fogueira das Vaidades


 O esteta cinematográfico Brian De Palma se popularizou com grandes obras de suspense – são aclamadas as suas variações de Alfred Hitchcock nos anos 1970 e 80 como “Trágica Obsessão”, “Dublê de Corpo” e “Vestida Para Matar” – contudo, durante a própria década de 1980, ele chegou a experimentar com alguns gêneros diferentes; tais como filme de guerra (“Pecados de Guerra”), épico gangster (“Scarface” e depois, “Os Intocáveis”), comédia (“Quem Tudo Quer Tudo Perde”) e outros. Essa busca o levou, já quase adentrando os anos 1990, à adaptação do best-seller de Tom Wolf, “A Fogueira das Vaidades” e, com isso, a uma espinhosa recepção da crítica com a qual o normalmente elogiado e enaltecido De Palma não estava muito acostumado.

Tudo começa num espetacular plano-sequência (um dos tantos exemplos de arrojo e virtuosismo técnico que De Palma adora plantar em seus filmes) onde vemos o jornalista beberrão Peter Fallow (Bruce Willis) experimentando um improvável momento de glória com a publicação de seu livro “The Real McCoy and The Forgotten Lamb”. Automaticamente percebemos que a condição de Fallow normalmente nunca foi assim de bajulação – e o próprio Fallow, com sua narração em off, irá retroceder no tempo a fim de esclarecer como ele chegou nesse improvável momento, além de também revelar, segundo ele, o verdadeiro protagonista da história, Sherman McCoy, interpretado por Tom Hanks.

Corretor de Wall Street, bem-apessoado, anglo-saxão e protestante, Sherman McCoy aparenta ser, num primeiro momento, promissor em todos os âmbitos de sua vida seja o profissional (o emprego lhe garante uma rica moradia em Manhattan) ou o pessoal (é casado com a melindrosa e perdulária socialite Judy, interpretada por Kim Cattrall). Sherman tem também como amante a insinuante Maria Ruskin (Melanie Griffith), casada com um milionário italiano muito mais velho.

Numa de suas escapadas, Sherman resolve buscar Maria no aeroporto – em regresso de uma de suas corriqueiras viagens ostensivas à Europa – e, ao decidir passar a noite com ela, envolve-se numa sucessão de eventos banais que, mais tarde, se revelam ser o estopim de sua derrocada: Na rodovia, ele perde a saída rumo à Manhattan e acaba indo parar com seu carro (e com Maria de carona) no Bronx, onde a vizinhança normalmente mais temerosa que a elegância de Manhattan logo começa a amedrontá-los. Ao parar e sair do veículo para remover um pneu que obstruía o caminho, Sherman se envolve num incidente com dois jovens moradores. Maria se apavora e, na sucessão de acontecimentos, os dois partem em alta velocidade do local, buscando voltar para onde moram e esquecer aquele breve apuro.

No entanto, um dos rapazes aparentemente machucou-se com mais gravidade do que poderia se imaginar: Ele – um certo Henry Lamb – bateu com a cabeça (logo seus familiares presumem que foi atropelado), e a escalada de complicações o deixa em coma no hospital, com sua mãe inconsolável, e com o pastor local, o irascível Reverendo Bacon (John Hancock), comprando briga com a mídia a fim de fazer estardalhaço, chamando a atenção para as causas sociais de sua comunidade.

Logo, é uma bola de neve que começa a se formar: O outrora desacreditado jornalista Peter Fallow fica sabendo da história e elabora uma matéria bombástica sobre o assunto, demonizando o motorista misterioso que não parou para prestar ajuda. A repercussão cada vez maior do caso chega ao prefeito, Abe Weiss (F. Murray Abraham), que, de olho numa reeleição, transforma a procura pelo tal motorista num circo midiático.

Quando – contra todas as hipóteses – as investigações finalmente chegam à Sherman McCoy, ele, transtornado pela culpa, cede à pressão e confessa, ainda que tenha sido Maria quem estivesse no volante na ocasião do incidente.

Os apreciadores do livro de Tom Wolf se revoltaram com o tratamento dado ao brilhante painel de cinismo e interesses políticos traçado pelo autor que resultou no filme de De Palma, em grande medida devido ao roteiro reducionista e acomodado do dramaturgo Michael Christopher (de “As Bruxas de Eastwick” e “Gia-Fama e Destruição”) que simplificou as índoles de diversos personagens a ponto de descaracterizá-los. Uma pena, visto o time de talentos sem dúvida notáveis que foi reunido – Tom Hanks havia acabado de fazer “Joe Contra O Vulcão” e anos antes tivera uma indicação ao Oscar por “Quero Ser Grande”; Bruce Willis havia se consagrado em Hollywood com “Duro de Matar” e sua continuação; e Melanie Griffith fizera só dois anos antes “Uma Secretária de Futuro”, até hoje o melhor trabalho de sua carreira, e o filme ainda tinha uma ponta de Kirsten Dunst, ainda criança, além de uma participação sólida e contundente do grande Morgan Freeman. Entretanto, aqueles que não chegaram a ler o livro de Tom Wolf ainda podem se interessar pelo resultado de quase comédia de humor negro obtido pelo diretor e pelos desenlaces novelescos de ligeiro viés moral que se sucedem em seu terço final.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Guerra dos Mundos

Foi com a clássica obra literária de H.G. Wells –já adaptada numa produção antiga de Sci-Fi em 1953, por Byron Haskin, na famosíssima transmissão radiofônica de Orson Welles em 1938 e em outros trabalhos menos expressivos –que o diretor Steven Spielberg finalmente se prestou a realizar uma refilmagem; ainda que seu filme busque se afastar (sobretudo, na predominante opção da modernização) da maior parte das comparações com os filmes já realizados a partir do texto.
Retomando a colaboração com o astro Tom Cruise, que resultou no memorável “Minority Report-A Nova Lei”, e novamente adentrando o terreno da ficção científica, Spielberg constrói uma obra que estranhamente contraria tudo o que, dentro deste tema, ele havia feito antes: Se em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” e em “E.T. O Extraterrestre”, os alienígenas de outro mundo ocupavam uma visível (e frequentemente simbólica) posição de afeto na consideração do diretor, aqui, ele cede ao antagonismo fácil e previsível de obras como “Independence Day” –que se inspirou profundamente na obra de Wells –e, mais especialmente, “Sinais” de M. Night Shyamalan.
E tal qual em “Sinais”, é do ponto de vista de uma família norte-americana comum (e disfuncional) que Spielberg opta por observar uma invasão alienígena ao planeta Terra.
Tom Cruise é Ray Ferrier, o relapso pai de família que deve cuidar de seus filhos durante o fim de semana, o adolescente Robbie (Justin Chatwin que foi o Goku na versão live-action de “Dragon Ball”) e Rachel (a então criança-prodígio de Hollywood, Dakota Fanning).
Quando ocorre a invasão –embevecida do trajeto sem igual de Spielberg ao lidar com espetaculares efeitos visuais –a inaptidão de Ray para cuidar dos próprios filhos é colocada à prova, na faceta em que melhor enxergamos as inquietações temáticas que mais definem Spielberg: O gesto quase involuntário de sempre introduzir em suas premissas um pai ausente dividido entre o amor aos filhos e a incompetência de sua paternidade.
Tudo o mais, estranhamente, vai na contramão do que o realizador habituou seu público a esperar dele: Uma falta de criatividade que assombra diversos momentos-chaves de sua narrativa (sobretudo, no que diz respeito à tentativa de deixar de lado o personagem de Justin Chatwin), o retrato nada lisonjeiro dos invasores alienígenas e a insistente perda da inocência de Rachel diante das atrocidades diretas e indiretas acarretadas pela invasão –e que se torna mais incômoda de ser acompanhada pela interpretação histérica de Dakota Fanning.
Pai e filhos, assim, singram as paisagens transfiguradas dos EUA a fim de encontrar refúgio junto da mãe das crianças (Miranda Otto, de “O Senhor dos Anéis-As Duas Torres”), divorciada de Ray e que se encontra em outra cidade longe do conflito.
A partir da segunda metade, surge no filme o paranóico personagem de Tim Robbins que parece tentar acrescentar mais tensão ao filme e converter sua narrativa em algo mais intimista e claustrofóbico, mas na final das contas, serve apenas para encher lingüiça mesmo, resultando desimportante.
Claro que as cenas de confronto com os alienígenas e os momentos em que vislumbramos o emprego de sua superior tecnologia bélica valem plenamente o espetáculo; Spielberg não poupa esforços para construir sequências memoráveis que parecem unir ao realismo de “O Resgate do Soldado Ryan” a incredulidade assombrosa da ficção científica –no entanto, apesar  dessa esmerada (e no fim das contas, belíssima) pirotecnia, também ali se vê uma falha: Na similaridade que o projeto de Spielberg acaba encontrando com “Sinais” –onde também vemos uma família tentando sobreviver a uma invasão alienígena ao planeta Terra –as suas inúmeras cenas grandiosas, vastas em efeitos computadorizados, perdem de longe para a poderosa e instigante sugestão de ameaças que não podemos ver, mas que se encontram bem próximas, existente na narrativa de Shyamalan.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Conan - O Bárbaro

Parecia absurdo (e realmente era) que um filme memorável e bem-sucedido como “Conan-O Bárbaro”, de 1982, tivesse se restringido apenas a uma pífia continuação (“Conan-O Destruidor”, de 1984, além de “Guerreiro de Fogo”, um derivado muito do sem-vergonha...).
A indústria até tentou compensar esse lapso (tardiamente, é bem verdade) fazendo uma espécie de refilmagem em 2011. Melhor dizendo: Fazendo uma nova versão do personagem, extraído de uma série de quadrinhos da Marvel dos anos 1970, por sua vez, inspirados nos contos escritos na década de 1930, pelo autor Robert E. Howard.
De fato, o personagem Conan, o Bárbaro, é tão rico, marcante e antológico que é de se admirar a pouca atenção dada a ele na cultura pop recente.
Parecia que, em 2011, isso estava prestes a ser compensado. A produção tinha no comando o diretor especialista em videoclips, Marcus Nispel que, se havia feito um trabalho entre o medíocre e o constrangedor no reboot de “Sexta-Feira 13” e no épico “Desbravadores”, ao menos havia entregado algo minimamente interessante na nova versão de “O Massacre da Serra Elétrica”.
No papel principal outra boa notícia: Fora escalado o samoano Jason Momoa (que então havia se destacado num papel menor na série “Game Of Thrones”) e, embora Conan fosse um personagem intrinsecamente relacionado à Arnold Schwarzenegger, as reações à escalação de Momoa foram bastante positivas pela adequação de sua fisionomia ao personagem, sobretudo, às suas caracterizações nos quadrinhos.
A expectativa, porém, é sempre uma faca de dois gumes, e o filme que Nispel entregou naquele ano não equiparava o que alguns fãs dele esperavam; compará-lo com a ótima realização de John Millis, de 1982, então, era uma covardia.
Numa variação até razoável do que está nas HQs, no filme original e do que é esboçado nos livros, a origem do personagem –que ocupa os primeiros vinte minutos –se dá pelo massacre de seu povo, os cimérios, perpetrado pelas tropas do maníaco Khalar Zym (o normalmente competente Stephen Lang, aqui afetado), grande vilão da trama que praticamente substitui, sem o mesmo peso dramático, o Thulsa Doom, de James Earl Jones, no filme de 82.
Conan, então um menino na ocasião, que inclusive teve o pai (Ron Perlman) assassinado –numa sequência feita para ser original, mas que resulta ridícula –passa o resto da vida em busca de vingança.
Anos depois (e já então personificado pela presença bastante impressionante de Jason Momoa), Conan finalmente encontra uma pista de Khalar Zym e parte em seu encalço; descobre assim que o vilão passou as últimas décadas dedicado a encontrar um artefato místico, algo que pode arremessar toda a Era Hiborana (o mundo imaginado por Robert E. Howard onde as aventuras de Conan se passam) num reino de trevas.
Para cada boa decisão tomada pelo filme, há um lapso que o compromete. Exemplo: Se foi bastante positivo manter-se mais fiel às características originais do personagem do que no filme de 82 –um bárbaro selvagem, porém, astuto e articulado na comparação ao guerreiro taciturno de Schwarzenegger –o filme de Nispel ao mesmo tempo comete equívocos grotescos e ginasianos ao coloca-lo em situações risíveis como o forçado enlace amoroso com a jovem indefesa Tamara (Rachel Nichols, interpretando sem um pingo de boa vontade).
Outro: Se por um lado a direção de Nispel capricha no quesito visual (uma de suas especialidades, vide seu currículo), incluindo o aproveitamento da tecnologia 3D (o sucesso “Avatar”, com o próprio Stephen Lang no elenco, havia pegado o mundo de assalto há apenas dois anos), por outro, seu roteiro é incapaz de conceber sequências tão extraordinariamente memoráveis como aquelas que o filme de 82 entrega simultaneamente –todas extraídas das HQs do personagem –o diálogo sobre o Enigma do Aço; a sequência da Grande Roda da Dor; a cena da crucificação e outras.
Além disso, na ânsia por sagrar-se um sucesso de bilheteria –e ser assim acessível a uma plateia de faixa etária o mais ampla possível –o filme padece de uma auto-censura que o despe de todas as singularidades do filme original, como sua audaciosa inclinação para a nudez, para uma sexualidade e uma sanguinolência que soavam (e ainda soam) incomuns nos filmes comerciais de aventura. Algumas cenas até embrincam nessa direção desvanecendo em clichês muito antes de algum resultado válido aparecer na tela.
O filme de 2011, tão promissor que era na oportunidade de recolocar nos cinemas um personagem que merecia e merece a evidência da qual desfrutam hoje ícones como James Bond ou Indiana Jones, padeceu perante um diretor que não soube manter a solidez narrativa de seu filme, e principalmente um roteiro que revelou incompetência absurda ao desperdiçar os conceitos e elementos riquíssimos que tinha a sua disposição.

terça-feira, 5 de março de 2019

O Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos

Os Estúdios Disney realizam um novo esforço na tentativa de relacionar mais um conto de fadas clássico ao seu nome no subconsciente imaginário do público. Dos pouquíssimos contos de fadas (talvez, o único) ainda não abordados por uma produção da Disney, “O Quebra-Nozes” é a inspiração da vez –ainda que ele tenha recebido inúmeras adaptações ao longo das décadas, seja em animação, seja em live-action (como “O Quebra-Nozes”, de Andrei Konchalovski).
Dirigido em conjunto por Lasse Halstrom e Joe Johnston, a produção (de fato, visivelmente elaborada do ponto de vista logístico) une a sensibilidade artística do primeiro (diretor dos ótimos “Minha Vida de Cachorro” e “Regras da Vida”) e a habilidade em trucagens digitais do segundo (diretor de “Capitão América-O Primeiro Vingador”).
É com uma exuberância visual típica dos Estúdios Disney que começa a história de Clara Stahlbaum (a encantadora Mackenzie Foy, de “Interestelar”), filha do meio de um melancólico viúvo (Matthew MacFadyen) ainda assolado pela perda.
Na véspera de Natal, Clara recebe um presente que teria sido encomendado por sua falecida mãe: Um mecanismo oval cujo funcionamento depende de uma misteriosa chave que nem seu padrinho (vivido por Morgan Freeman), o mentor de sua mãe na arte da invenção –aptidão que Clara herdou –parece conhecer.
Em meio às comemorações da Noite de Natal, Clara segue um fio dourado supondo que ele a levará até um mero presente –o fio dourado, porém, a transporta para outro mundo (!), e a conduz até a tão almejada chave.
Contudo, nesse mundo –um cenário fantástico que une cidades de avançada tecnologia retro-futurista e florestas sombrias –Clara tem sua chave roubada por um ratinho.
Junto de um soldado chamado Philip Hoffman (Jayden Fowora-Knight), que lembra o boneco quebra-nozes de seu irmão, ela descobre que lá existem quatro reinos unificados por sua mãe, considerada lá a rainha –e de cujo falecimento eles estão ignorantes.
Tais reinos são: O das Flores (cujo regente é interpretado por Eugenio Derbez); o dos Flocos de Neve (regente vivido por Richard E. Grant); o dos Doces (comandado pela Fada Sugar Plum, vivida por Keira Knightley); e o dos Ratos (cuja soberana, Mãe Ginger, vem a ser interpretada por Helen Mirren).
Clara descobre que esses reinos são habitados pelos brinquedos que sua mãe teve –e que, nesse mundo, ela encontrou uma tecnologia que lhes deu vida; a máquina que permitiu tal milagre está inanimada, e só voltará a funcionar por meio da mesma chave que Clara perdeu para um rato, pouco antes.
A chave que agora está com Mãe Ginger, o que leva Clara a tentar aventurar-se na soturna floresta do Reino dos Ratos ao lado de Philip Hoffman, e lá encontrar o fio da meada de uma verdadeira conspiração.
De beleza inquestionável, este “Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos” não poupa recursos para se revelar arrebatador –objetivo que alcança na maioria das vezes em que ele depende de seu aparato técnico; quando depende de aspectos mais circunstanciais, porém (como o roteiro), a produção descobre lá suas deficiências, sobretudo, no difícil manejo de elementos engessadamente eruditos inerentes ao conto original.
É até habitual (e ainda assim digno de nota e reconhecimento) que a Disney emprega a mais arrojada tecnologia para ilustrar e materializar um deslumbre inédito nas histórias de apelo infantil que narra: “O Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos” é um inebriante exemplo desse propósito.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A Enfermeira Betty


Indissociavelmente relacionado às suas obras agressivas sobre a oposição dos sexos –e, não raro, acusado de misoginia –o diretor Neil LaButte, ao adentrar os anos 2000 buscou livrar-se desse rótulo em algumas obras de apelo e temática inesperada, esforçando-se, contudo, em manter um discurso que soasse relevante.
“A Enfermeira Betty” padece dessa incongruência na qual um diretor de perspicácia cultural, intelectual e artística parece usar de uma premissa algo absurda para jogar conversa fora.
Empregando alguns maneirismos que, mais tarde, ela adotaria para compor Bridget Jones, a ótima Renee Zellwegger une graciosidade e um contundente senso de imersão para viver a sonhadora Betty, uma jovem garçonete casada com o rude, infiel e detestável Del (Aaron Eckhart, ator-fetiche de LaButte). Betty é fã incondicional de uma novela chamada “Razões Para Amar” –que ela assiste para alimentar sua obsessão pelo protagonista Dr. David Ravell (Gregg Kinnear).
A guinada na vida de Betty ocorre quando seu marido realiza transações ilegais envolvendo drogas e acaba sendo visitado por dois assassinos de aluguel, vividos de forma nada convencional por Morgan Freeman e Chris Rock.
Sem que eles percebam, Betty testemunha o assassinato do próprio marido, mas não é pânico a sua reação: Numa explicação não muito convincente, Betty ‘apaga’ o ocorrido de sua mente e passa a viver dentro da realidade da novela que assistia –e isso a leva a pegar a estrada em direção à Los Angeles, onde planeja encontrar-se com o próprio Dr. Ravell; que ela agora acredita ser não somente um personagem real, como também seu ex-noivo (!).
Em seu encalço, estão os dois assassinos contratados, já que a droga que justificou toda a confusão está dentro do carro de Betty –contudo, ao longo dessa perseguição, o assassino de aluguel mais velho, Charlie (personagem de Morgan Freeman) passa a alimentar certo fascínio por ela.
Frouxo no gênero ao qual prentende pertencer (ostenta seriedade demais para uma comédia; cinismo demais para um romance; galhofa demais para um drama) e algo suficiente nos expedientes psicológico que se mete a adotar. “A Enfermeira Betty” se faz memorável única e exclusivamente graças à magnífica presença de Renée Zellwegger: Antes de ganhar este inesperado papel protagonista onde encara grandes atores como Morgan Freeman e Gregg Kinnear, ela só havia aparecido como mais uma mocinha romântica em “Jerry Maguire-A Grande Virada”.
Aqui sua atuação é um achado do início ao film, equilibrando nuances delicadas de uma personagem difícil, nada inteligível e ainda assim desafiadora, a qual ela consegue tirar de letra e ainda trazer para si a simpatia do expectador.
Pena o filme a que ela pertence não estar à altura de sua atriz principal.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Amistad


Neste filme denso e extenso, Steven Spielberg seguiu à risca as manobras formais que o consagraram quatro anos antes com "A Lista de Schindler": Se anteriormente, ele havia entregue o eminente sucesso “Jurassic Park” para daí se fechar na composição de um exemplar mais sério de seu estilo, aqui ele assumiu as produções assim que terminou “O Mundo Perdido” –justamente a continuação de “Jurassic Park”. Tão simultâneas foram as filmagens dos dois trabalhos que ele trouxe de volta o diretor de fotografia de “A Lista de Schindler”, Januz Kaminski (que passou a fotografar todos os seus filmes desde então) e os atores Pete Postlethwaite e Arliss Howard (oriundos do elenco de “Mundo Perdido”), novamente se prestando a narrar uma obscura história real, de pertinente valor histórico e humano.
Liderados pelo destemido Cinque (Djimon Housson, uma força da natureza), vários escravos terminam se amotinando em um navio negreiro espanhol, o Amistad, em pleno oceano. Humildes trabalhadores africanos capturados por escravagistas em sua terra natal, eles tentam coagir seus captores a conduzir seu barco de volta à África. Mas, essa inusitada tentativa de voltar para casa acaba os levando aos portos norte-americanos do século XIX. Aprisionados pelas autoridades norte-americanas –que enxergavam a escravidão com indiferença –eles tornam-se réus num julgamento que decidirá se são de propriedade do reino da Espanha (sob alegação da precoce rainha Isabella, vivida por Anna Paquin), da república dos EUA (representada por fileiras de advogados tacanhos), dos escravagistas, ou se são, afinal, homens livres (argumento este defendido por idealistas como o advogado Roger Sherman Baldwin, interpretado por Matthew McConaughey).
O julgamento é conduzido a instâncias cada vez mais elevadas da esfera judicial –num excesso de loquacidade e termos legislativos com os quais nem sempre a narrativa de Spielberg parece obter ritmo –até chegar num ponto em que os ex-escravos dependerão da representação do ex-presidente John Quincy Adams (numa inspiradíssima atuação de Anthony Hopkins) junto a Suprema Corte, se quiserem, de fato, voltar para seu lar.
Por mais que perdure a máxima de que o cinema se sustenta, em grande medida, em cima de fórmulas, é patente, em trabalhos como este, que as fórmulas são facilmente identificáveis pelo público; e, portanto, facilmente repudiadas, também.
Spielberg até buscou repetir os mesmos passos de sua formidável consagração em 1993, e nesse esforço empregou uma técnica a qual se pode dar os mais bem escolhidos e elogiosos adjetivos, no entanto, faltou a “Amistad”, o vigor narrativo que fazia de "Schindler" uma obra memorável de cinema.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Conduzindo Miss Daisy

Vindo de ótimas realizações em sua Austrália natal –entre as quais o brilhante drama de guerra “Breaker Morant” –o diretor Bruce Beresford estreou no cinema norte-americano com o árido drama “A Força do Carinho”, com Robert Duvall (para alguns seu melhor trabalho), entretanto, obteve aclamação de fato por seu projeto seguinte: A combinação primorosa de comédia agridoce e drama outonal chamada “Conduzindo Miss Daisy”.
Década de 1950. Após um incidente doméstico onde colidiu com o carro na cerca da casa, a sexagenária Miss Daisy, uma senhora viúva da Louisiana (Jessica Tandy) é obrigada a aceitar os serviços de um chofer contratado pelo filho (o comediante Dan Akroyd, saindo-se maravilhosamente bem num papel sério e dramático).
Chamado Hoke, o motorista (Morgan Freeman) é negro, e ela, como era de se esperar, mostra-se arredia a ele no início, recusando-se a andar de carro e valer-se de seus serviços –enxergando nele as razões que a invalidam para atividades que antes podia fazer naturalmente como dirigir.
Entretanto, o tempo permite a derrubada gradual de barreiras de implicância, o que leva Hoke e Miss Daisy a criarem uma relação de amizade que se estenderá por mais de vinte anos, e atravessará as muitas transformações sociais vividas pelos EUA.
Beneficiando-se da concepção regida por um cineasta fora dos Estados Unidos (e, por isso mesmo, despido de propensões condicionadas ao sentimentalismo redundante), este belo e sensível panorama da América é menos um filme sobre o racismo (embora também o seja) e mais um filme sobre os efeitos irremediáveis do tempo sobre todos nós.
Jessica Tandy, encantadora aos seus 89 anos, recebeu um merecidíssimo Oscar de Melhor Atriz, mas ela está magnificamente acompanhada de Morgan Freeman (que foi indicado ao Oscar de Melhor Ator).

sábado, 25 de novembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2005

Muitos apostavam numa enfim vitória de Martin Scorsese no Oscar por uma superprodução suntuosa e magnânima (e que assim mesmo terminou com cinco prêmios), mas a noite foi mesmo de Clint Eastwood que, pelo surpreendente “Menina de Ouro”, conquistou quatro prêmios, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor (estatuetas, estas que ele já tinha por “Os Imperdoáveis”) e Melhor Atriz, além da conquista tão merecida e aguardada do prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para o grande Morgan Freeman.
Uma pena que não sobraram prêmios para um dos melhores filmes do ano, “Closer-Perto Demais”, que merecia muito mais do que as duas indicações que teve.

MELHOR FILME
"Menina de Ouro"

MELHOR DIREÇÃO
"Menina de Ouro", Clint Eastwood

MELHOR ATRIZ
Hillary Swank, "Menina de Ouro"

MELHOR ATOR
Jamie Foxx, "Ray"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Cate Blanchett, "O Aviador"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Morgan Freeman, "Menina de Ouro"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Aviador"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Bron In To Brothels"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Mighty Times-The Children’s March"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Mar Adentro" (Espanha)

MELHOR SOM
"Ray"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS

MELHOR MAQUIAGEM
"Desventuras em Série"

MELHOR FIGURINO
"O Aviador"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Os Incríveis"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE & CENÁRIOS
"O Aviador"

MELHOR TRILHA SONORA

MELHOR CANÇÃO
"Al Otro Lado del Rio", de "Diários de Motocicleta"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Ryan"

MELHOR MONTAGEM
"O Aviador"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Wasp”

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Menina de Ouro

O filme de Clint Eastwood surgiu discretamente, aparentando de arrancada uma semelhança bastante grande com “Girlfight”, um trabalho independente da diretora Karyn Kusama, estrelado por Michelle Rodriguez (de “Velozes e Furiosos”) e lançado alguns anos antes.
Entretanto, “Menina de Ouro” foi pouco a pouco arregimentando admiradores que enfatizavam a guinada brusca, dramática e magnífica que a trama sofria em seu terceiro ato e que só aprofundava os relacionamentos e as questões íntimas já muito bem construídas pelo roteiro austero e objetivo de Paul Hagis e pela direção de Eastwood. E ainda lançava o filme numa outra reflexão completamente diferente e inesperada.
Quando o filme começa, Eastwood lança seu olhar –carregado de empatia e de parcimônia para com os pormenores mais simples –sobre a vida de Maggie (Hillary Swank, vencedora do Oscar de Melhor Atriz), uma garota pobre, porém determinada a freqüentar uma academia de boxe e, se possível, fazer sucesso como uma lutadora campeã.
Para tanto, ela insiste na tentativa de ser treinada pelo dono do lugar, Frankie Dunn (Clint Eastwood), uma espécie de descobridor de talentos do pugilismo. Mas, Frankie não vê futuro numa moça com talento para o boxe –um esporte predominantemente masculino –e o pouco de receptividade que Maggie consegue vem de Eddie ‘Scrap’ Dupris (Morgan Freeman, que ganhou aqui seu único Oscar até então, de Melhor Ator Coadjuvante), o zelador do ginásio que tem com Frankie uma relação de implicante convivência típica dos homens de idade avançada que nutrem profunda ligação afetiva.
O filme de Eastwood até aí se constrói com solidez como um drama bem conduzido, prazeroso e envolvente sobre personagens comuns unidos por compatibilidade e por um amor de natureza mundana, sem arroubos sentimentais, mas nem por isso menos belo.
Todavia, há um crescendo notável na narrativa quando, após muita perseverança, Frankie cede em treinar Maggie, e ela rapidamente se destaca nos ringues chegando a disputar o título de campeã de pesos-médios. Soa quase como uma sacada de gênio, quando uma fatalidade inesperada muda o rumo das coisas e dá um novo enfoque ao relacionamento dos dois e conduz a trama de Frankie e Maggie num gênero completamente diverso.
“Menina de Ouro” acaba sendo não apenas um tributo e um testemunho à maturidade de Clint Eastwood como cineasta, mas também uma obra singular que leva o espectador por meio da subversão de suas próprias expectativas, a uma profunda discussão sobre a eutanásia, num trabalho tão ou até mais contundente do que o ótimo filme espanhol “Mar Adentro”, lançado naquele mesmo ano.

sábado, 19 de agosto de 2017

Última Viagem A Vegas

Um filme que reúne Morgan Freeman, Kevin Kline, Robert De Niro e Michael Douglas, além de Mary Steenburgen não deve ser jamais subestimado, ainda que seja tendência, sobretudo da crítica, subestimar tudo o que o diretor Jon Turteltaub (de filmes insípidos e inofensivos como a comédia romântica “Enquanto Você Dormia”, o drama “Fenômeno” e a aventura com Nicolas Cage “A Lenda do Tesouro Perdido”) acabe fazendo.
Ele alcança aqui um objetivo bem gracioso (ainda que longe de ser memorável) que deve satisfazer plenamente o público, embora certamente esse mérito não pertença a ele.
A trama fala sobre o reencontro de um grupo de amigos, inseparáveis na juventude, mas que, passados cinqüenta e oito anos, estão envelhecidos e dispersos. Há Sam (Kevin Kline, talvez o melhor em cena) que reage com o máximo de bom-humor possível –ainda que temperado de alguma amargura –ao fato de precisar ir com mais freqüência do que gostaria às clínicas, consultórios e hospitais; já Archie (Morgan Freeman, divertidíssimo), por sua vez, mal sai de casa sempre sob a vigilância neurótica preocupada e opressora do filho; e Paddy (Robert De Niro com uma imutável cara de rabugento) que, desde a viuvez, mantém-se enclausurado e sozinho em seu apartamento, evitando até mesmo a solidariedade das vizinhas. Há algum tempo sem se ver, eles são reunidos por Billy (Michael Douglas) o mais em visível crise de meia idade de todos que vai se casar com uma deliciosa jovem de trinta e dois anos (e tal fato serve de motivo para constante chacota dos outros) e deseja realizar uma despedida de solteiro fenomenal ao lado de todos eles em Las Vegas.
Uma vez lá a idéia é reviver, na medida do possível, a glória das farras de juventude e aproveitar a diversão (e as mulheres, as bebidas, as músicas) que a cidade de neon tem a oferecer. É claro que eventualmente, eles vão se deparar com suas inevitáveis limitações, com o fato de que o mundo mudou (e ficou mais cínico, mais desrespeitoso) desde que deixaram as festas para trás, e com circunstâncias que colocarão em teste sua própria amizade.
Não faltará também uma formosa cantora de palco (vivida com charme incontornável por Mary Steenburgen) que balançará as convicções de Billy com relação ao seu vindouro casamento e cuja afeição ele disputará com Paddy; uma situação que remete à um triângulo amoroso que ambos viveram na juventude.
É um argumento simples –e simples se mantém até o fim, com as mesmas guinadas previsíveis em seu humor e em seu drama –mas que serve ao propósito de colocar esses sensacionais atores lado a lado em situações que eles e sua verve de grandes intérpretes se encarregam de tornarem deliciosas.
Uma receita que não havia muito como dar errado.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Tempo de Glória

A trilha musical de James Horner (talvez, a mais bela e vibrante que ele fez em toda sua carreira) irrompe em cena, sem espaço para preâmbulos e introduções históricas: É um campo de soldados, notadamente ambientado –devido aos detalhes ricos do figurino e da cenografia –na Guerra Civil Norte-Americana.
Assim, o filme do diretor Edward Zwick (talvez, o melhor que ele realizou em toda sua carreira) se debruça sobre o homem comum; os soldados são flagrados em ações corriqueiras jogando beisebol, conversando, tomando café.
Conforme a cena (hipnótica como poucas) se desenrola, a trilha assume ares sombrios (a guerra, afinal, está bem próxima), românticos (a narração em off do protagonista, Matthew Broderick finalmente começa a elucidar alguns fatos, na forma de cartas que ele endereçou à própria mãe, preenchidas pelo lirismo da trilha sonora) e, por fim, épicos (quando a produção revela seu propósito e entrega as majestosas e espetaculares cenas de batalha, até hoje, as melhores reconstituições daquele conflito feitas no cinema).
É, portanto, na concepção de tirar o fôlego, dessas sequências de guerra a grande força deste filme muito louvado nos anos 1980, merecido vencedor de três Oscars: Melhor Som, Melhor Direção de Fotografia, para Freddie Francis, e Melhor Ator Coadjuvante para Denzel Washington.
Com a guerra ainda em curso, o Exército da União (representante do sul) cria o 54º Regimento de Infantaria de Massachussets, composto por ex-escravos voluntários. A idéia é usar os soldados negros –a exemplo de outros regimentos de negros daquele período –na retaguarda em trabalhos forçados e, para tanto, indicam para o seu comando o extremamente jovem Coronel Robert Gold Shaw (Broderick), cuja patente, bastante elevada para alguém de apenas 26 anos, foi obtida por sua contribuição na guerra –e, certamente, devido ao influente pai abolicionista.
O treinamento militar é árduo para o ex-escravos (que julgavam tirar a sorte grande no exército onde receberiam alojamento e comida de graça), e esses revezes são acompanhados pela ótica de um grupo em particular: O paternalista e austero Rawlins (Morgan Freeman, veemente num papel que muitos consideram inspirado em Colin Powell, nomeado Chefe das Forças Armadas dos EUA); o ponderado e alfabetizado Thomas (Andre Braugher); e o rebelde e amargurado Trip (Denzel, num trabalho de momentos realmente inspirados).
Não tarda para que o 54º Regimento demonstre uma característica bastante particular: A de querer mostrar, em campo de batalha, o seu valor e sua dignidade, o que os leva a liderar um assalto audacioso a um Forte jamais tomado na Carolina do Sul.
Há um elemento embriagante em “Tempo de Glória”, uma junção muito feliz de talentos jovens moldando um espetáculo à moda antiga: Zwick tinha um bom currículo televisivo, mas em cinema havia dirigido apenas a comédia, “Sobre Ontem A Noite” –e sua juventude posta à prova aliada ao fôlego que empresta às cenas de ação é um dos aspectos singulares desta obra –também o elenco, desde Broderick até Denzel parece ansioso para mostrar trabalho, e suas atuações resultam comprometidas e apaixonadas.
Mas, a grande questão é que “Tempo de Glória” é, acima de tudo, uma sucessão de cenas extraordinariamente maravilhosas e envolventes, em seu incomum cuidado visual e no emotivo comentário musical.
Um filme de insuspeito poder de emocionar.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Os Imperdoáveis

Poucos seriam os realizadores tão creditados a conceber uma fábula sobre o Velho Oeste tão definitiva quanto Clint Eastwood o fez neste filme primordial.
Usando de sua própria figura –durante um bom tempo indissociável do gênero no subconsciente do público –Eastwood elaborou uma obra que se atrevia a pensar e refletir o próprio gênero a que pertencia.
“Para Sergio e Don” diz ele no final dos créditos. E estes realmente são as influências fundamentais não apenas ao estilo vigoroso e convicto que ele deslinda aqui, mas ao próprio conceito do que um faroeste é, e deveria ser.
Partindo desse princípio, encontramos William Munny (personagem que Eastwood incorpora com enfático brilhantismo) numa fase outonal da vida. Ele foi um cruel pistoleiro do passado, porém, agora se encontra recuperado, viúvo e cuidando de dois filhos pequenos numa humilde e longínqua fazenda do Missouri.
Seus tempos de assassino ficaram para trás, e só lhe restaram lembranças nebulosas e esparsas dos crimes que praticava depois que estava bêbado.
Mas, eis que chega então um jovem com a proposta de um novo serviço: O assassinato remunerado de dois vaqueiros que inadvertidamente esfaquearam o rosto de uma prostituta (cuja proliferação, de boca em boca, dos exageros da história é um dos aspectos interessantes, divertidos e antropológicos do roteiro).
Vislumbrando uma vida melhor para seus filhos pequenos, Willian decide voltar à ativa ao lado de seu antigo parceiro Ned (Morgan Freeman, estabelecendo com Eastwood uma parceria genuína), e segue na direção da pequena cidadezinha onde o serviço foi encomendado, um lugar sob a proteção do xerife Little Bill Dagget (Gene Hackman, fantástico), um ex-pistoleiro prepotente, ardiloso e cruel.
As conseqüências dessa decisão o farão rever o passado e o assassino impiedoso que William pensava ter deixado para trás.
Pelo trabalho primoroso que executa aqui, Clint Eastwood ganhou seis merecidos Oscars, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator Coadjuvante para Gene Hackman em 1992. A esplendorosa avaliação que ele faz, imerso em talento e sensibilidade, não somente de sua persona de pistoleiro durão (acometido, desta vez, por toda sorte de indagações, questionamentos morais e limitações humanas), como do próprio gênero em si se reflete de forma artisticamente sólida no roteiro existencialista e amparado em brilhantes personagens de David Webb Peoples, do igualmente brilhante "Blade Runner".
As maravilhosas paisagens canadenses que serviram de locação ao filme são outro espetáculo.

Um detalhe curioso é que, décadas depois, o cinema japonês fez uma refilmagem de “Os Imperdoáveis” em forma de filme de samurai, tratava-se de “Yurusarezaru Mono”, com Ken Watanabe, seguindo um trajeto oposto ao que ocorreu com “Os Sete Samurais” e “Sete Homens e Um Destino”.
Os japoneses não poderiam escolher inspiração melhor!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Lucy

O pertinente diretor francês Luc Besson ficou mais de uma década sem entregar um grande filme quando, à partir de “Joana D’ Arc”, de 1999, e a obscura animação “Angel-A”, de 2005, passou a dedicar-se mais à produção de filmes de ação, e à realização de obras voltadas para o público infantil –alguns de seus únicos créditos são a direção da trilogia “Arthur e Os Minimoys” e a aventura francesa com cara de filme para TV, “As Múmias do Faraó”.
O quê é lamentável para quem é fã do cinema pulsante e homeopaticamente transgressivo que ele exercia nos anos 1980 e 90.
Em 2011, contudo, ele voltou à carga, primeiro com o despretensioso drama “Além da Liberdade”, e depois em 2013, com o ótimo “A Família” –uma sensacional comédia sobre mafiosos que brincava com a imagem e persona do ator Robert De Niro, seu protagonista.
No ano seguinte, Besson aparentemente com fôlego renovado, entregou uma nova obra este curioso “Lucy” –e em 2017, ele lançará a adaptação da cultuada HQ, “Valerian e A Cidade dos Mil Planetas”, um projeto que tem ares de “filme dos sonhos”, já que é evidente em toda sua obra –sobretudo, no início –que Besson sempre foi obcecado por quadrinhos europeus de ficção científica, em especial os oriundos da revista “Metal Hurlant”.
Mas, vamos falar sobre “Lucy”.
Extraviada em algum canto obscuro de Hong Kong, a avoada americana Lucy (Scarlet Johansson, que se revela sensacional praticamente em qualquer papel) torna-se, involuntariamente, mula de carga para um poderoso traficante que coloca em seu estômago um pacote de droga experimental na intenção de contrabandear o produto para a Europa.
Mas um imprevisto acontece e o saco plástico se rompe dentro dela, liberando a droga em seu organismo. Sofrendo de um inusitado efeito colateral, Lucy passa a acessar novas áreas de seu cérebro que vão além dos usuais 10% que, afirmam os cientistas, o ser humano consegue utilizar. Conforme vai se aproximando mais e mais dos 100% de capacidade cerebral, Lucy adquire mais poderes, que a tornam quase onipotente e a levam a procurar um renomado especialista (Morgan Freeman, imponente como sempre) enquanto tem a máfia chinesa e alguns policiais em seu encalço.
A verdade é que chega a ser motivo de júbilo esse então retorno de Besson à direção de filmes que fogem das restritivas pechas infanto-juvenis: A própria premissa inventiva e interessante de “Lucy” é o mais salutar dos indicativos de que o ímpeto criativo e o inconformismo formal que definiam Luc Besson, e que moldaram filmes maravilhosos sob sua assinatura, são qualidades intrínsecas que ele não perdeu, durante sua inexplicada ausência da cadeira de diretor. As cenas de ação, pulsantes e orquestradas com precisão são então um desbunde à parte, mas “Lucy” se destaca de verdade em meio aos exemplares do cinema comercial por sua audaciosa tentativa em mergulhar em idéias e conceitos que vão além de nossa imponderabilidade, abrindo espaço para questões sobre a realidade, o tempo e a existência, com uma saudável e juvenil curiosidade.
Não chega e ser um conceito que mudará o cinema, como foi “Matrix” em 1999, mas é um trabalho digno de pura admiração e certamente muito beneficiado pela versatilidade da atriz Scarlet Johansson, que equilibra muito bem beleza e competência no papel-título.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Um Sonho de Liberdade

Este, um dos filmes fundamentais dos anos 1990, trata-se de uma das mais primorosas subversões de um filme de gênero já engendradas pelo cinema: A direção de Frank Darabont (no primeiro e melhor trabalho de sua carreira) rompe com as barreiras físicas e existenciais dos muros onde seus personagens estão confinados, e o filme transforma-se numa ode emocionada e emocionante sobre a esperança.
Darabont disse uma vez que, durante as filmagens de “Um Sonho de Liberdade”, ele assistia toda semana ao clássico de Scorsese, “Os Bons Companheiros” –e, portanto, percebe-se em seu trabalho muito da pulsante energia criativa que Scorsese dedica às suas obras.
As cenas de “Um Sonho de Liberdade” se completam, se unem e dialogam entre si com inteligência, com ímpeto emocional e técnico, tecendo um filme de raro primor.
É para os anos 1920 que essa magistral narrativa nos conduz, ao mostrar o infortúnio de Andy Dufresne (um inspiradíssimo Tim Robbins), injustamente condenado pelo assassinato da esposa e do amante. Ele é assim enviado com pena de prisão perpétua à penitenciária de Shawshank, no estado do Maine.
É nesse momento que as decisões de Darabont em torno da condução começam a revelar seu elevado grau de inspiração, e a transformar o filme em algo surpreendente, com cenas memoráveis e notáveis que se seguem simultaneamente: O longo e deslumbrante plano que começa no ônibus e circunda toda a penitenciária (imitado como forma de reverência absoluta em “A Última Fortaleza”) é só o primeiro deles.
Lá, confinado naquele mundo de paredes cinzentas, Andy conhece Red (e as palavras não bastam para elogiar este trabalho ímpar do ator Morgan Freeman), o prisioneiro que proporciona compras do mundo exterior para os detentos. Os dois iniciam uma amizade que irá perdurar pelas décadas seguintes, e sobreviverá à opressão e vilania do diretor do presídio, disposto a lucrar com os conhecimentos de Andy, e a um segredo que o próprio Andy guardará, fundamental para o desfecho.
Alvo de inusitada curiosidade do público, por parte de seu título original intrigante e de difícil pronúncia –“The Shawshank Redemption” –este magnífico trabalho, dentre os melhores dos anos 1990, encontra facilidade em gravar na memória em boa parte por conta de sua plena capacidade de suscitar uma emoção genuína no expectador, e pelo mérito, nunca superestimado, de que é uma das poucas produções que atingiram –em qualquer tempo –um nível de qualidade tão alto em todos os aspectos. 
É necessário, contudo, destacar a magistral atuação de seu formidável elenco masculino: Bob Gutton, e sua excelência pérfida como diretor do presídio; Clancy Brown, uma presença ameaçadora e imponente; o jovem Gill Bellows, saindo-se magnificamente bem num personagem que poderia representar  ponto fraco da narrativa; William Sadler, sensacional nas intervenções cômicas; e o veterano James Whitmore, responsável por um dos momentos mais comoventes.

É, entretanto, o primor inquestionável da dupla central, Robbins e Freeman, que mantêm o efeito afetivo perene e poderoso desta obra, uma das mais belas histórias de amizade do cinema.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ben - Hur

Comparar o novo filme, que aborta aos cinemas, dirigido pelo russo Timur Bekmanbetov ao grandioso épico do período áureo de Hollywood realizado por William Wyler (e não à toa agraciado com o número recorde de 11 Oscars, feito igualado somente uns quarenta anos depois por "Titanic" em 1997, e por "Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei" em 2003) é tão inevitável quanto incauto: Não somente pelo quanto isso é imensamente desfavorável ao novo filme (e, por conseqüência, à experiência de assisti-lo), mas porque na gramática usada por Bekmanbetov em seu novo trabalho, essas comparações se tornam infundadas, tamanha é a diferença de estilo, proposta e observação imposta aos dois filmes.
Esse é, talvez, o grande mérito deste novo filme: A sensatez de estabelecer, a partir de percepções de roteiro e caracterização, uma cautelosa distinção em relação ao clássico inigualável que tenta refilmar.
Ainda que, no fim das contas, esse gesto se revele inútil: Esta é, afinal, uma nova versão de “Ben-Hur”, sujeita a toda sorte de justaposições com a qualidade hiperlativa daquela obra.
Vale lembrar que o próprio “Ben-Hur” de 1959 já era uma refilmagem de um filme mudo em preto & branco de 1925.
Irmãos adotivos e grandes amigos de infância, o judeu de família nobre da Palestina, Judah Ben Hur (Jack Huston), e o romano Messala Severus (Toby Kebbell), na mesma época de Jesus Cristo (o brasileiro Rodrigo Santoro), crescem sob as diferenças que os separam; o primeiro é o herdeiro que representa a esperança de seu povo; o segundo, o aprendiz no qual Roma deposita a obrigação de manter suas colônias em rédeas curtas.
O filme de Bekmanbetov aprofunda as relações entre os antagonistas em contrapartida ao fato óbvio (e de certa maneira assumido pela produção) de que não podem equiparar os valores de produção da obra clássica. No filme de Wyler, aliás, Ben-Hur e Messala são apenas grandes amigos e não irmãos de criação (mudança quê não é adequadamente explicada neste filme).
O Judah Ben-Hur de Jack Huston não chega nem perto da magnífica (e oscarizada) presença de cena estupenda que Charlton Heston possuía, e Toby Kebbell, com sua expressão apática, é ainda pior, desvalorizando por completo um personagem cuja metamorfose moral sugerida na trama poderia render muito mais.
A falta de empatia de Huston poderia até beneficiar o vilão e fazer a platéia torcer por ele, mas seu interprete também provoca indiferença no público: Erro crasso num filme cuja trama se sustenta nesse tipo de conflito.
Adultos, os dois se afastam, em grande parte pela fidelidade à Roma desenvolvida por Messala, que se choca com os ideais protecionistas de Judah. Quando um incidente os coloca um contra o outro, Ben Hur é condenado às galés como escravo, onde sobrevive depois de cinco anos à um ataque em alto-mar, para em seguida ser adotado por um fidalgo africano (Morgan Freeman, que colaborou com o diretor em "O Procurado"), e obter a chance de voltar para vingar-se de seu agora inimigo Messala.
As escolhas narrativas levam, todas, ao embate final, envolvendo a corrida de bigas, gerando relativa expectativa entre aqueles que cultivam uma esperança de que, em algum momento, o filme vá ficar melhor.

A questão é que, dentre tantas cenas momentosas, a corrida de bigas do “Ben-Hur” de 1959 é uma sequência exemplar de grandeza e refinamento cinematográfico: Tudo é mostrado com uma clareza magnífica e acachapante, todas as cenas são bem enquadradas, bem filmadas, e em nenhum instante a ação faz com que o expectador se perca. É, em resumo, uma aula de cinema sobre como realizar uma cena como essa.
Mas, no novo filme, parece que Bekmanbetov e sua equipe faltaram a essa aula: A câmera tremida dificulta discernir muito do que vemos em cena, e tenta emular, talvez, o estado caótico e subjetivo do personagem, mas esse recurso aparece presente na maioria das cenas de ação da atualidade (vide os filmes de Michael Bay), e deveras não funciona. Quando o enquadramento parece querer se normalizar, a montagem corta para outro take, e mais outro, aceleradamente, não dando tempo sequer de visualizar se há algum mérito nas demais questões estéticas.
Por fim, o novo “Ben-Hur” é exatamente aquilo que se imagina dele (o que nos ocorre instintivamente ao ouvir falar de uma refilmagem como essa): Uma tentativa equivocada (ineficaz até mesmo nos quesitos em que, por ventura, poderiam ter funcionado) em refazer um filme que, em sua excelência, era irretocável.

Espero que, no futuro, eles aprendam a deixar filmes como “E O Vento Levou”, “Lawrence da Arábia”, “Doutor Jivago” ou “O Poderoso Chefão” em paz!