Mostrando postagens com marcador Helen Mirren. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Helen Mirren. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Barbie


 Se haviam ressalvas que os cinéfilos do mundo inteiro alimentavam em relação à realização de um filme estrelado pela famosa boneca Barbie, elas foram todas dissipadas quando foi anunciada, como diretora e roteirista do projeto, a pra lá de talentosa Greta Gerwig. Em suas mãos, “Barbie” é, sim, sobre a boneca mais famosa do mundo (e traz, em tal papel, uma intérprete que não poderia ser mais perfeita, a fantástica australiana Margot Robbie), mas, é também sobre todas as consequências e ramificações, positivas e negativas, acarretadas por esse legado. É sobre a eterna dicotomia entre o amor idealizado e o amor como ele é. E é, afinal de contas, sobre nós, seres humanos, e nossa dificuldade de conciliar o que é diferente.

Numa referência à “2001-Uma Odisséia No Espaço” –que já denota os altíssimos padrões assumidos pelo filme de Greta Gerwig –somos introduzidos à história da boneca Barbie cujo surgimento mudou o modo de brincar de meninas do mundo todo. Mais que isso, mudou sua mentalidade: Outrora se restringindo ao papel de mãe de suas bonecas, as meninas tiveram em Barbie um exemplo de independência e empoderamento a ser seguido. Ou pelo menos, é essa impressão que passou a reger o mundo alternativo e ligeiramente alienado conhecido como Barbieland, no qual todas as variações até hoje criadas da boneca (bem como de seu namorado, Ken) existem de verdade. Barbieland é um mundo que segue as orientações conceituais do próprio brinquedo: As inúmeras Barbies não desfazem o formato empinado de seus pés, vivem em casas transparentes e cor-de-rosas, bebem em copos vazios e vão à praias onde o mar não lhes molha. É um mundo idealizado como numa brincadeira de criança –e a brilhante direção de arte, aliada aos audazes figurinos, captura essa ideia com propriedade imediatamente notável. Tal como na aparência, também há uma espécie de alienação nos sentimentos: Ken (Ryan Gosling, extraordinário) é salva-vidas, ainda que sua ideia da ocupação seja ficar impávido e supino na areia sem jamais pisar no mar, e seu namoro com a Barbie de Margot Robbie –pois todas as habitantes de Barbieland se chamam Barbie, assim como todos se chamam Ken, salvo a exceção do deslocado Alan (Michael Cera) –jamais sai do campo da teoria. Lá, todas as noites são festivas e todos os dias são os melhores de toda vida: Barbieland e seus nada realistas habitantes refletem, portanto, a maneira com que são brincados por todas as crianças do Mundo Real.

Contudo, em algum momento, algo inesperado começa a acontecer. Barbie é assolada por súbitos pensamentos a respeito da morte e, na sequência deles, surgem celulites e seus pés começam a assentar naturalmente ao chão (!). A resposta, vinda da espirituosa Barbie Estranha (Kate McKinnon), é até simples: Em algum lugar do Mundo Real, uma menina está brincando com a Barbie dessa forma assim, diferente, causando uma anomalia que interfere em Barbieland. À sua maneira descolada, Barbie resolve partir numa viagem rumo ao Mundo Real e tentar resolver as coisas com essa menina aparentemente desiludida –levando sem querer, Ken como clandestino.

É na retratação do Mundo Real, em oposição ao imaginário lúdico de Barbieland, que o filme de Greta Gerwig poderia encontrar seu ponto fraco, mas termina revelando sua mais audaciosa inspiração, aquela que faz de “Barbie” um filme que definitivamente deixa de ser infantil para abraçar reflexões que pouco a pouco vão ganhando profundidade, complexidade e emoção –e até mesmo um pouquinho de metalinguagem! Ao chegar em Los Angeles, Barbie encontra Sasha (Ariana Greenblatt, a pequena Gamorra de “Vingadores-Guerra Infinita”) e descobre que os valores outrora representados por ela como boneca, não foram tão salutares às gerações de meninas como ela acreditava. Ken, por outro lado, toma conhecimento das ideias norte-americanas sobre o Patriarcado e por meio delas reavalia sua relação de quase submissão sentimental com Barbie, bem como de seus pares –afinal, o personagem Ken, sempre viveu e existiu em função do protagonismo de Barbie.

Perseguida pelos executivos da Mattel (!) –liderados pelo sempre hilário Will Ferrell –que a querem de volta à Barbieland sem provocar transtornos no Mundo Real, Barbie conhece Gloria (America Ferrera, de “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante”), mãe de Sasha, a pessoa que, com sua nostalgia provocada pelo crescimento da filha causou as mudanças lúgubres na protagonista. Todas regressam para Barbieland, para encontrar o mundo idealizado e perfeito de Barbie agora virado de pernas pro ar: Não mais disposto a se restringir ao redundante papel de namorado, Ken instaurou as ideias do Patriarcado em Barbieland, e agora, os Ken reinam absolutos como ‘machos dominantes’ enquanto as demais Barbies sofreram uma espécie de lavagem cerebral assumindo o papel de namoradinhas ostensivas.

É ironicamente o conhecimento do papel desafiador da mulher no Mundo Real trazido por Gloria que irá devolver as coisas aos seus devidos lugares. Ou ao menos, tentar.

Crianças pequenas, seduzidas pelo visual pueril, exuberante e predominantemente rosa, do filme de Greta Gerwig haverão de se surpreender e até se ressentir da gradual concepção adulta que o filme vai adquirindo a medida que avança –sem jamais deixar de ser divertido e apropriadamente caricatural (e de contar com diversas piadas de duplo sentido), o roteiro de “Barbie” (escrito à quatro mãos por Greta e seu marido Noah Baumbach) aborda temas como o empoderamento feminino, a emancipação da mulher, as ramificações tóxicas do machismo e do feminismo e o difícil equilíbrio entre valores morais e sentimentos arrebatadores para se revelar um filme profundo, carregado de ideias inesperadas justapostas de forma clara, corajosa e inteligente. No admirável arco narrativo que se constrói do início ao fim, “Barbie” engata sucessivamente marchas imprevistas de tensão, revolução e dramaticidade, nessa mesma ordem, que levam o público à novas impressões, culminando numa cena poderosamente emocionante –quando Barbie, assolada por todas as mudanças provocadas por e sobre ela –encontra o fantasma de Ruth Handler (Rhea Perlman), sua criadora, e decide reconhecer e aceitar, por fim, sua própria humanidade.

Por tudo que é, por suas diversas qualidades e suas instigantes ideias, por seus vastos acertos e suas imprevistas emoções não se deve subestimar este grande filme de Greta Gerwig.

sábado, 13 de maio de 2023

Shazam! - Fúria dos Deuses


 As principais agruras enfrentadas pelo cinema comercial estão na dificuldade cada vez maior de satisfazer um público exigente, criado a base de internet e aplicativos digitais. O cinema comercial em geral segue fórmulas testadas e comprovadas para consumo. Se o filme segue essa fórmula com exatidão demasiada, o público pode taxá-lo de genérico; se ele tenta romper com esse parâmetro, o público pode ressentir-se e acusá-lo de ser estranho e/ou alternativo, repudiando-o. Agradar ao público requer um equilíbrio entre competência, tradição e inovação (ou senso de oportunidade) que muitas produções não são capazes de atingir. Não há, afinal, uma fórmula para o sucesso.

É um impasse dessa natureza que enfrenta a continuação “Shazam! Fúria dos Deuses”. O filme de David F. Sandberg não apenas continua os eventos da produção de 2019, mas também, sendo parte do turbulento Universo DC Cinematográfico, chegou às telas num complicado momento de transição: O universo inicialmente concebido por Zack Snyder em 2013 (do qual este filme, em tese, faz parte) está em processo de reformulação com a chegada de James Gunn e Peter Safran como chefes de criação e promessas de que muito do que havia será rebootado (saem alguns atores antigos, entram atores novos; personagens recomeçam suas trajetórias do zero). Os personagens referentes à “Shazam!” nunca tiveram uma conexão mais aprofundada com o restante do Universo DC, permitindo assim que este filme tivesse autonomia para fazer parte do novo universo vindouro. No entanto, haviam alguns empecilhos, sendo eles o filme “Adão Negro” (produção mal-fadada estrelada por The Rock que adaptava o arco de um antagonista do herói deste filme, metendo os pés pelas mãos) e principalmente, o descaso de todo o Departamento de Marketing da Warner Bros. para com este filme, refletido numa pífia bilheteria.

Mais que isso, “Fúria dos Deuses” chega aos cinemas num momento em que o questionamento em torno da relevância na profusão de tantos filmes adaptados de histórias em quadrinhos chega ao seu ápice –muitos são os que garantem que o público e até mesmo a indústria já chegaram num ponto de saturação em que tais obras se tornam difíceis de engolir. Independente de quaisquer argumentos contrários à essa questão, a sequência dirigida por Sandberg realmente (embora não seja uma filme ruim) testa em muitos momentos, a paciência do expectador.

Ele parte do princípio de que os poderes dados à Billy Batson (Asher Angel em sua forma adolescente; Zachary Levi em sua forma de herói adulto), no primeiro filme, pelo mago Shazam (Djimon Hounsou), que o transformaram num superherói –e, à reboque, todos os membros de sua família, seus outros cinco irmãos adotivos (!) –também despertaram a ira de duas deusas legítimas, Hespera (a dama do cinema, Helen Mirren) e Kalypso (Lucy Liu, uma das “Panteras”), desdenhosas com a dádiva de poderes oriundos de seus pais a um grupo de mortais. O plano delas, enquanto vilãs, é de uma simplicidade ginasiana: Usar do cetro mágico do mago Shazam (que, à propósito, elas fizeram prisioneiro) para roubar os poderes conferidos aos campeões (a família de Billy) e encontrar a semente da árvore da vida para fazer com que cresça no planeta –mais especificamente em plena Filadélfia, onde moram os heróis –o que irá proporcionar uma infestação de criaturas monstruosas que vão varrer a vida humana da face da Terra.

Ao longo do processo desse embate entre as forças do bem e do mal, o roteiro de Henry Gayden e Chris Morgan esmiúça um pouco melhor o aspecto humano de seus protagonistas, esforçando-se em fazê-los menos caricatos: Billy carrega o peso da liderança e da responsabilidade (embora, persista aqui a falha do filme anterior na qual os dois intérpretes, Angel e Levi, não conseguem entrar numa sintonia interpretativa; o primeiro é um jovem soando demasiado sério, o outro um cara adulto aparentando forçada jovialidade); seu irmão Freddy (Jack Dylan Grazer ganhando mais tempo de cena do que o protagonista) enquanto tenta se desvencilhar das obrigações com o grupo e seguir um caminho mais solitário acaba conhecendo a apaixonante Anthea (a maravilhosa Rachel Zegler, do remake de “Amor Sublime Amor”, dirigido por Spielberg), garota que guarda um grande segredo; e os demais irmãos de Billy... bem, eles são tão enfadonhos e sem carisma que não chegam a importar muito ao filme ou à sua trama –certamente, com a exceção de Mary (Grace Fulton), a única  que não muda de intérprete quando se transforma em sua versão superheróica e, por isso mesmo, é a única a conseguir conservar um carisma intacto na personagem.

Embora elaborado com relativa habilidade e cheio de boas intenções, este segundo filme, na sinergia nem sempre harmoniosa de suas cenas de ação, no manejo ocasionalmente atrapalhado de diferentes núcleos de personagens e motivações e na complicação natural de abarcar personagens demais numa trama que pretende dar tempo de tela à todos na medida do possível (problema notoriamente enfrentado com bravura pelo diretor Bryan Singer, nos filmes dos “X-Men”) acaba ressaltando com involuntário exagero todos os elementos que já caracterizavam-se como defeitos pontuais do filme anterior, aqui evidenciados a ponto de comprometer muito do resultado. É possível, sim, assistir à “Fúria dos Deuses” e divertir-se com ele, mas sua chegada –num momento em que filmes de superheróis já se encontram defasados na predileção do público e o próprio universo do qual faz parte já tem suas primeiras pás de cal jogadas sobre si –não poderia ser numa hora pior.

domingo, 6 de setembro de 2020

Tentação Fatal

Durante algum tempo, o sucesso de “Pânico”, de “Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado” e de “Prova Final” transformou o roteirista Kevin Williamson numa espécie de Midas hollywoodiano da década de 1990. Seus scripts, se não tinham inovação autoral nem inteligência ou relevância artística legítima, ao menos eram sempre sintonizados com a juventude do período e seu gosto particular por expedientes muito específicos do terror (elementos que Williamson certamente sabia manipular muito bem) e por referências à outros exemplares de gêneros cinematográficos de consumo juvenil: Aqui, a maior menção à sobressair-se de alguma redundância é a presença da ex-rainha das comédias românticas oitentistas Molly Ringwald.
Com “Tentação Fatal”, Williamson planejou migrar de roteirista para também diretor, mas tudo o que conseguiu foi, pela primeira vez, deixar público e crítica cientes de suas limitações criativas.
Vinda da série “Dawson’s Creek” –um produto televisivo também ele concebido por Williamson –a jovem e bela Katie Holmes interpreta Leigh Ann, aluna modelo da Grandsboro High School prestes a formar-se e a enveredar numa promissora vida universitária se tudo der certo.
Leigh Ann, contudo, é assombrada pelo fantasma do fracasso: Aquele risco sempre opressivo de que tudo acontecerá de ruim, prendendo-a à vida medíocre daquela cidadezinha, e confinando-a à vida de garçonete da qual sua mãe não foi capaz de se desvencilhar.
E, no momento, ninguém representa melhor esse risco para Leigh Ann do que a amarga e irredutível Sra. Tingle (Helen Mirren, poderosa e altiva), a professora de história da escola, temida por alunos e até mesmo por membros do corpo docente.
É dela que depende a nota A que Leigh Ann precisa tirar para ser a melhor colocada na escola, o que irá lhe garantir uma vaga na bolsa de estudos que permitirá a realização de seus sonhos.
Mas, a Sra. Tingle é osso duro de roer, e parece ter um sadismo ao assistir a derrota de seus alunos em geral e de Leigh Ann em particular.
Numa ocasião especialmente delicada, ela flagra Leigh Ann com seus dois amigos, Luke (Barry Watson, da série evangélica “O Sétimo Céu”), e Jo Lynn (Marisa Coughlan), de posse de uma cópia de uma de suas provas finais –e, embora inocente da travessura armada pelos dois amigos, é Leigh Ann quem irá prejudicar-se mais por isso.
Ela procura pela Sra. Tingle em sua casa para esclarecer o mal-entendido, mas o diálogo, testemunhado por Luke e Jo Lynn, não é em nada amistoso: A professora maldosa faz questão de deixar bem claro que não vai abrir mão da única oportunidade que teve para acabar com as chances da aluna perfeitinha.
Numa progressão de contratempos que só poderia partir mesmo da ficção –assim como (espera-se!) só poderia partir mesmo da ficção uma personalidade tão absurdamente rancorosa, cruel e apática como Sra. Tingle –Leigh Ann e seus amigos acabam sem querer atingindo de raspão a Sra. Tingle com uma flecha (!), deixando-a desacordada; a saída, para não piorar ainda mais suas denúncias, é amarrá-la em sua cama e esperar, nos dias que se seguem, uma solução aparecer, uma vez que certamente, ela não partirá da nada razoável Sra. Tingle.
Na comparação com as outras criações de Williamson, “Tentação Fatal” carrega menos no terror e mais no suspense, ao centralizar a premissa numa situação-limite resumida a uma simples ambientação (um roteiro planejado para facilitar ao máximo a tarefa de Kevin Williamson como diretor estreante), discorrendo sobre as aflições adolescente emolduradas pela atmosfera de preocupação que ele tão bem sabe administrar.
O trecho final, onde as tensões se afunilam com repercussões mais físicas entre os antagonistas ganha certo viés eletrizante, contudo, Williamson não é um diretor tão entrosado nos fundamentos do terror a ponto de saber transgredi-lo (como Wes Craven em “Pânico”), nem tão audacioso para com as ferramentas narrativas do próprio cinema (como Robert Rodrigues em “Prova Final”); o resultado de seu trabalho, na maior parte do tempo, é genérico e acomodado, sublinhando tão somente os ocasionais lampejos inspirados do roteiro (que nem se releva tão brilhante assim).
Uma crítica que tornou-se chavão a respeito desse filme –e da qual nenhum comentário provavelmente é capaz de escapar –é a afirmação de que, se o filme se destaca em alguma coisa, é na presença sempre impecável da dama Helen Mirren, saindo léguas na frente do fraquíssimo elenco jovem, e construindo uma vilã desequilibrada e sádica, tirando de letra a inverossimilhança em sua psicologia e ressaltando o elemento que, no final das contas, importa a um filme desses: A diversão.

sábado, 21 de março de 2020

O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e O Amante

Um dos mais representativos nomes do novo cinema britânico que aflorou com som e fúria em meados dos anos 1980, espelhando uma certa rebeldia do movimento musical punk-rock, o diretor Peter Greenaway, numa esteira de produções cheias de vigor, originalidade e transgressão que entregou naquela década, realizou este “O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e O Amante” como uma metáfora desconcertante sobre o consumismo e a agressividade irrestrita que dominava a mentalidade executiva de profissionais ingleses e americanos daquele período, os chamados yuppies.
Logo, uma crítica velada ao conservadorismo político da Inglaterra de Margaret Thatcher.
Por essa postura, e pelo mergulho sem ressalvas nas neuroses que dominaram praticamente toda a obra de Greenaway –sexo, comida, violência e morte –o filme recebeu uma altíssima classificação indicativa nos EUA quando de seu lançamento nos cinemas em 1989.
Ele parte de uma situação irrisória, em princípio banal, que gradativamente ganha ares de absurdo e pesadelo a medida que o diretor, também roteirista, ajusta as circunstâncias aos anseios e predisposições mais pessoais de seus personagens.
Entre eles, destaca-se o casal Spica, Albert (Michael Gambon) e Georgina (Helen Mirren, maravilhosa). Albert é um mafioso e, junto de Georgina e de seus capachos de praxe, janta todas as noites no Restaurante Le Hollandais, local de trabalho do chefe de cozinha Richard (Richard Bohringer, de “Subway”), que supre sua gula com uma infinidade de pratos.
Obedecendo a alguns expedientes da ficção, Greenaway leva Georgina a um inevitável tédio diante da grosseria ocasional e da verborragia eventual de Albert, e com isso, ela acaba caindo nos braços de Michael (Alan Howard, ator que deu voz ao Um Anel em “O Senhor dos Anéis”), um solitário frequentador do lugar.
Uma nova dinâmica se instala: Inerte em sua glutonaria, Albert não desconfia de que, noite após noite, sua esposa faz sexo com o amante nos mais diversos locais do restaurante –no banheiro, na despensa... –tudo com a cumplicidade do chefe Richard (desnecessário dizer que Helen Mirren está absolutamente sensacional, tirando de letra as cenas audaciosas de nudez!).
Assim, os excessos da modernidade humana são enfatizados nessa narrativa cheia de personalidade por meio do uso da cor: Por exemplo, o branco presente no banheiro, ou o vermelho que predomina no salão (dentro do qual Greenaway recria o quadro “Banquete dos Oficiais da Companhia da Guarda de São Jorge”, do pintor holandês Frans Hals). Todos esses elementos lúdicos e eruditos evidenciam a luxúria desesperada e carente, a voracidade consumista e, por vezes, a predisposição para a auto-destruição a que todos esses tópicos podem conduzir.
É claro que em algum momento, Albert descobrirá a traição de Georgina, apesar da fastidiosa distração enquanto promove banquetes exorbitantes e humilha seus capangas, e é claro que, sendo Albert o personagem que é (um retrato de todos os vícios monstruosos e detestáveis a que está sujeito o homem moderno), sua retaliação será cruel.
Será, porém, a vingança subsequente da própria Georgina que irá completar o quadro de absoluta escatologia perpetrado por Greenaway nesta fábula implacável, requintada e ao mesmo tempo grotesca de canibalismo.
Apesar de todos esses excessos, essa justaposição do diretor funciona na medida em que sua câmera passeia de um ambiente para outro, emulando o confinamento de uma peça de teatro na qual procura por algum indício de bondade em meio à tanta depravação.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Caçada Na Noite

O filme de John Mackenzie começa numa sucessão intrincada de cenas que, até a resolução final, não terão significado algum. Personagem proeminente nesse prólogo, o gangster vivido por Paul Freeman (o Beloq de “Os Caçadores da Arca Perdida”) se envolve numa entrega nebulosa.
Algo dá errado, mas não fica claro porque ou com quem.
O filme de Mackenzie assim desafia abertamente o expectador em seus quinze minutos iniciais com um plot cujas pontas soltas não se juntam e nem irão se juntar até que tudo tenha terminado.
Essa provocação e audácia direta para com o público parece evocar uma oposição do cinema inglês em relação à atitude do cinema comercial norte-americano, segundo o qual o filme, em seus minutos iniciais, tem por obrigação conquistar o expectador.
A oposição entre o inglês e o norte-americano é, por sinal, o combustível dessa narrativa.
Líder de uma ampla máfia londrina, o truculento e selvagem Charlie (Bob Hoskins, explosivo) tem delicados negócios a serem fechados com investidores americanos a fim de legitimar suas operações.
Todavia, para seu tormento, uma convergência de fatores acarreta uma violência imprevista: Atentados ferozes (inclusive à bomba) eliminam pessoas próximas à Charlie.
Quem são os responsáveis? E por que?
A primeira pergunta, Charlie tenta em vão responder mobilizando seus capangas a fazer a única coisa que entende: Retribuir violência com mais violência; ele procura entre os demais gangsteres londrinos alguém que possa ser o culpado pela onda crescente de retaliações, enquanto busca, com a ajuda da esposa Victoria (Helen Mirren, deliciosa) deixar tais eventos desastrosos passarem despercebidos dos americanos.
É claro que, em algum momento, no fulgor da narrativa que elabora, “Caçada Na Noite” irá encontrar, na já indistinta lembrança daquele prólogo enigmático, as suas almejadas respostas. Até lá, no entanto, é exatamente disso que a urgência da narrativa do diretor Mackenzie se abastece: A tensão densa e implacável de enfrentar um inimigo invisível, onipresente e que acompanha todos os seus passos, contra o qual os vastos recursos nada significam.
É tão instigante quanto eletrizante acompanhar a magnífica atuação de Bob Hoskins, onde ele dá dimensão a um homem consciente do poder que tem, vendo esse mesmo poder se esvair (ou mostrar-se irrelevante) ante desconhecidos antagonistas das sombras cujas ações fragmentam invariavelmente suas esperanças, seus asseclas e as bases do império que julgava tão sólido.
O cinema inglês de gangster não fica melhor que isso.

terça-feira, 5 de março de 2019

O Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos

Os Estúdios Disney realizam um novo esforço na tentativa de relacionar mais um conto de fadas clássico ao seu nome no subconsciente imaginário do público. Dos pouquíssimos contos de fadas (talvez, o único) ainda não abordados por uma produção da Disney, “O Quebra-Nozes” é a inspiração da vez –ainda que ele tenha recebido inúmeras adaptações ao longo das décadas, seja em animação, seja em live-action (como “O Quebra-Nozes”, de Andrei Konchalovski).
Dirigido em conjunto por Lasse Halstrom e Joe Johnston, a produção (de fato, visivelmente elaborada do ponto de vista logístico) une a sensibilidade artística do primeiro (diretor dos ótimos “Minha Vida de Cachorro” e “Regras da Vida”) e a habilidade em trucagens digitais do segundo (diretor de “Capitão América-O Primeiro Vingador”).
É com uma exuberância visual típica dos Estúdios Disney que começa a história de Clara Stahlbaum (a encantadora Mackenzie Foy, de “Interestelar”), filha do meio de um melancólico viúvo (Matthew MacFadyen) ainda assolado pela perda.
Na véspera de Natal, Clara recebe um presente que teria sido encomendado por sua falecida mãe: Um mecanismo oval cujo funcionamento depende de uma misteriosa chave que nem seu padrinho (vivido por Morgan Freeman), o mentor de sua mãe na arte da invenção –aptidão que Clara herdou –parece conhecer.
Em meio às comemorações da Noite de Natal, Clara segue um fio dourado supondo que ele a levará até um mero presente –o fio dourado, porém, a transporta para outro mundo (!), e a conduz até a tão almejada chave.
Contudo, nesse mundo –um cenário fantástico que une cidades de avançada tecnologia retro-futurista e florestas sombrias –Clara tem sua chave roubada por um ratinho.
Junto de um soldado chamado Philip Hoffman (Jayden Fowora-Knight), que lembra o boneco quebra-nozes de seu irmão, ela descobre que lá existem quatro reinos unificados por sua mãe, considerada lá a rainha –e de cujo falecimento eles estão ignorantes.
Tais reinos são: O das Flores (cujo regente é interpretado por Eugenio Derbez); o dos Flocos de Neve (regente vivido por Richard E. Grant); o dos Doces (comandado pela Fada Sugar Plum, vivida por Keira Knightley); e o dos Ratos (cuja soberana, Mãe Ginger, vem a ser interpretada por Helen Mirren).
Clara descobre que esses reinos são habitados pelos brinquedos que sua mãe teve –e que, nesse mundo, ela encontrou uma tecnologia que lhes deu vida; a máquina que permitiu tal milagre está inanimada, e só voltará a funcionar por meio da mesma chave que Clara perdeu para um rato, pouco antes.
A chave que agora está com Mãe Ginger, o que leva Clara a tentar aventurar-se na soturna floresta do Reino dos Ratos ao lado de Philip Hoffman, e lá encontrar o fio da meada de uma verdadeira conspiração.
De beleza inquestionável, este “Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos” não poupa recursos para se revelar arrebatador –objetivo que alcança na maioria das vezes em que ele depende de seu aparato técnico; quando depende de aspectos mais circunstanciais, porém (como o roteiro), a produção descobre lá suas deficiências, sobretudo, no difícil manejo de elementos engessadamente eruditos inerentes ao conto original.
É até habitual (e ainda assim digno de nota e reconhecimento) que a Disney emprega a mais arrojada tecnologia para ilustrar e materializar um deslumbre inédito nas histórias de apelo infantil que narra: “O Quebra-Nozes e Os Quatro Reinos” é um inebriante exemplo desse propósito.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O Sol da Meia Noite


No princípio de “O Sol da Meia-Noite”, o aclamado bailarino Mikhail Baryshnikov já surge fazendo aquilo que fazia melhor: Dançando com vigor e esplendor, encenando uma apresentação de “Le Jeune Homme Et La Mort”.
Nela, um artista é torturado pelo amor nas formas de uma outra bailarina e, ao fim, encerra esse tormento provocando a própria morte.
Não obstante a trivialidade com que é tratado, é um prólogo onde o diretor Taylor Hackford vale-se das vantagens do cinema (movimentos de câmeras, enquadramentos intimistas, edição) para mostrar o fulgurante carisma e admirável expressividade física que fez de Baryshnikov o bailarino mais famoso do mundo.
É, portanto, uma espécie de eufemismo para todo o filme que virá a seguir: Embora dedicado à dramaturgia de sua história, “O Sol da Meia-Noite” é uma tentativa de transposição cinematográfica do virtuosismo coreográfico de Baryshnikov. Ele é Nikolai Godchenko, famoso bailarino que guarda um passado como expatriado soviético –e nos anos 1980 de então, o cinema americano não perderia uma oportunidade de vilanizar os soviéticos em uma alfinetada panfletária típica do contexto da Guerra Fria.
Há oito anos longe da União Soviética, de onde fugiu para ganhar fama mundial, Nikolai vê seu pesadelo retornar quando viaja num avião que sobrevoava a região da Sibéria. O avião sofre uma pane e Nikolai se vê de volta aos domínios da KGB quando a aterrissagem forçada o leva para lá.
Uma vez em solo soviético, Nikolai é existencialmente um prisioneiro: A KGB o retém num prédio opressivamente vigiado, onde ele divide moradia com Raymond (Gregory Hines), um negro sapateador (!) instruído a convencê-lo a ficar em sua Pátria-Natal; e sua esposa Darya (Isabella Rosellini).
Embora nas sequências de dança o desprendido Gregory Hines componha um bom duelo com Baryshnikov, são por demais inverossímeis as explicações para a presença de um negro norte-americano dentro da Cortina-de-Ferro.
São detalhes que minam a credibilidade do filme, embora o diretor Taylor Hackford seja hábil em conduzir sua narrativa. Há um envolvimento relativamente eficaz com o tenso planejamento de Nikolai para tentar escapar de seus captores (entre os quais o agente da KGB vivido por Jerzy Skolowsky), a relação de amizade que se constrói entre ele e Raymond (e que ganha a moldura vibrante de bem acabados números de dança) e o relacionamento cheio de ressentimento e recordação com Galina Ivanova (Helen Mirren).
A verdade é que “O Sol da Meia-Noite” não se situa numa definição pela qual encontra um tipo de público. É um drama com elementos de musical embora sua dramaticidade não tenha tanto peso na narrativa quanto as cenas de dança –que não chegam a ser determinantes o suficiente como em um musical de fato. Seu pano de fundo político, tímido por si só, acaba sendo assim um mero pretexto para a estréia no cinema do festejado bailarino Mikhail Baryshnikov.
Todavia, o tempo proporcionou ao filme o encontro com seus apreciadores, cuja memória se fez mais marcante graças ao apelo de sua famosa canção, "Say You Say Me", de Lionel Ritchie, vencedora do Oscar.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A Tempestade

William Shakespeare não era necessariamente uma novidade na filmografia de Julie Taymor (de “Across The Universe”) –muito antes ela havia se aventurado numa versão musical e lisérgica de “Titus”, com Anthony Hopkins –isso explica, talvez, o fato dela ter abordado a junção de ambições, revanches, traições e magia que compõem a trama passada numa ilha mediterrânea com um revisionismo tal que –sinal dos tempos –mudou o sexo de seu protagonista.
Se antes o personagem principal Prospero era homem (e chegou a ser interpretado por John Gielgud e Peter Fonda em outras versões), agora é convertido numa mulher, Prospera (que ganha assim a excelência de Helen Mirren).
Outrora a Duquesa de Milão, Prospera foi exilada numa ilha do mediterrâneo devido às maquinações conspiratórias de seu irmão, Antonio (Chris Cooper) e de outros membros da corte de Nápoles, como o próprio rei (David Strathairn) e seu irmão invejoso (Alan Cumming).
Ao mover sua vingança munida de forças sobrenaturais, Prospera se revela então um reflexo do próprio Shakespeare: Abandonada na ilha, junto de seus livros e da própria filha, Miranda (Felicity Jones, linda), ela desenvolve poderes com os quais controla o destino dos incautos viajantes –tal e qual o próprio escritor o faz com os personagens à disposição de sua trama.
Auxiliada pelo subserviente espírito Ariel (Ben Wisham), Prospera conjura uma tempestade com a qual consegue fazer naufragar na ilha um navio trazendo todos os seus antagonistas –e deles faz gato-sapato.
Como em “Titus”, a diretora Taymor imprime um senso visual colorido e surreal à trama, remetendo a uma artificialidade dos palcos de teatro potencializada com efeitos especiais de última geração e trucagens de câmera que buscam romper com qualquer predisposição tediosa do enredo. Nesse sentido, Julie Taymor, apesar de uma ou outra opção estética de gosto discutível, revela um entendimento de Shakespeare muito mais apurado do que, por exemplo, o jovem diretor Justin Kurzel e sua equivocada versão de “MacBeth”: Ela compreende que, vertidas para cinema, as tragédias de Shakespeare devem agregar em seu material as ferramentas que o cinema tem –o esplendor visual, a montagem inquieta e instigante, os atores capazes de hipnotizar a câmera (aqui não apenas estão as maravilhosas Helen Mirren e Felicity Jones, como também os incontroláveis Alfred Molina e Russel Brand).
Além disso, existem também as cenas de Ariel convertido aqui num ser etéreo e abstrato, na boca do qual Taymor deposita versos declamados em versões musicadas, e o monstruoso Caliban (Djimon Houson, de “A Ilha” e “Gladiador”) envolto numa maquiagem pesada e desconcertante.
Ainda que mais amena e não tão propensa ao experimentalismo e à transgressão, a versão de Julie Taymor bebe um pouco da fonte de Peter Greenaway e sua versão ultra-estilizada, “A Última Tempestade”, em suas singulares peripécias visuais e sua profusão de cores e imagens exuberantes a emoldurar o trabalho de um elenco empenhado e apaixonado.
Ótimo cinema a ser usufruído, entretanto, por públicos específicos.

sábado, 11 de novembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2007

Veio a ser num dos mais ecléticos e irregulares anos do Oscar que a lenda Martin Scorsese conquistou seu tão aguardado prêmio. E ele ainda veio por um filme menor que, além de ser uma refilmagem (da produção chinesa "Conflitos Internos"), está a anos-luz de distância qualitativa de trabalhos que o mestre já entregou e que ainda viria a entregar.
Coisas do Oscar...
De resto, Academia deu uma ligeira esnobada na chamada “Trilogia Latina”, que comportava alguns dos melhores filmes do ano (quiçá, da década!): “Babel”, tão cotado que estava levou só o prêmio de Melhor Trilha Sonora; “Filhos da Esperança” –talvez, o melhor de todos –mal foi lembrado nas indicações; e “O Labirinto do Fauno”, ainda que tenha obtido a merecida marca de três estatuetas técnicas, amargou a derrota na categoria de Melhor Filme Estrangeiro para o politizado “A Vida dos Outros”.
Coisas do Oscar...
Surpresa mesmo talvez tenha sido ver o favoritíssimo Eddie Murphy perder o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para o maravilhoso Alan Arkin por “Pequena Miss Sunshine” que –começo a concluir –era, de longe, o melhor dentre os indicados à Melhor Filme.
Fazer o quê?
Coisas do Oscar...

MELHOR FILME
"Os Infiltrados"

MELHOR DIREÇÃO
"Os Infiltrados", Martin Scorsese

MELHOR ATRIZ
Helen Mirren, "A Rainha"

MELHOR ATOR
Forest Whitaker, "O Último Rei da Escócia"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jennifer Hudson, "Dreamgirls-Em Busca de Um Sonho"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Alan Arkin, "Pequena Miss Sunshine"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Labirinto do Fauno"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Uma Verdade Inconveniente"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"The Blood of Yingzhou District"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Vida dos Outros" (Alemanha)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Dreamgirls-Em Busca de Um Sonho"

MELHORES EFEITOS VISUAIS

MELHOR MAQUIAGEM
"O Labirinto do Fauno"

MELHOR FIGURINO
"Maria Antonieta"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Cartas de Iwo Jima"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Labirinto do Fauno"

MELHOR TRILHA SONORA
“Babel"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"I Need To Wake Up", de "Uma Verdade Inconveniente"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Pequena Miss Sunshine"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Os Infiltrados"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Happy Feet-O Pinguim"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Danish Poet"

MELHOR MONTAGEM
"Os Infiltrados"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"West Bank Story”

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A Rainha

Há um certo espaçamento temporal através do qual o cinema (ou mais precisamente seus realizadores) adquire autonomia emocional (e, por que não, moral) para lidar com determinados acontecimentos históricos e melhor vislumbrar os desdobramentos que os anteciparam e os sucederam. Aconteceu, por exemplo, com o 11 de Setembro, cujas primeiras obras cinematográficas a abordá-lo surgiram em 2006, com “Vôo United 93”, de Paul Greenglass, e “As Torres Gêmeas”, de Oliver Stone.
No mesmo ano, foi lançado também um filme que fazia uma espécie de expiação da parte do cinema britânico acerca da morte da Princesa Diana, ocorrida num acidente em 1997.
Abstendo-se a abordar os detalhes do acidente em si (isso a mídia fez bastante) ou do período turbulento que a vida de Diana passava na época (isso, por sua vez, quem fez foi a irregular produção “Diana”, de 2014, estrelada por Naomi Watts), o filme dirigido com economia emocional até excessiva por Stephen Frears observa as conseqüências mais íntimas acarretadas pela tragédia no seio da família real, e na maneira curiosa com que a sociedade inglesa reagiu à morte da “princesa do povo” e ao aparente descaso com que tentaram tratar o fato.
O roteiro árido e objetivo de Peter Morgan opta como ponto de partida, a Rainha Elizabeth e o início de sua conflituosa relação com o Primeiro Ministro eleito Tony Blair.
Será o próprio Tony Blair quem precisará, um pouco mais tarde, apelar de certa forma ao bom senso da monarca quando começar a ficar óbvia a indignação popular crescente, em meio à comoção mundial causada pela morte da Princesa Diana num acidente automobilístico, relacionada à tentativa da família real em não expressar qualquer manifestação de pesar. O quê, ele percebe, leva o povo inglês à uma inédita tentativa de questionar a própria monarquia.
O trabalho de Frears, assim, lança um sutil olhar sobre as delicadas questões familiares que pesaram naquele momento, justapostas à uma diferenciada reação coletiva. A monarquia vista de dentro em uma perspectiva familiar de sua obrigação para com os anseios (ainda que existenciais) de seu povo.
Vencedora do Oscar de Melhor Atriz, Helen Mirren, como Elizabeth, paira pelo filme com sua magnífica presença muito bem coadjuvada pelo excelente Michael Sheen (no papel de Tony Blair). O filme só encontra certo problema no estilo excessivamente britânico, comedido e distanciado, com que o diretor Stephen Frears aborda o tema, levando este trabalho no que parece ser uma deliberada isenção de empatia.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Hitchcock

Era uma questão de tempo até que a figura tão icônica de Alfred Hitchcock ganhasse um retrato cinematográfico. Quando finalmente aconteceu, ganhou em dobro: Não só com este filme para cinema, mas também com o telefilme, “The Girl”, que se debruça num registro mais sério e patológico do mestre do suspense.
Este filme realizado por Sacha Gervasi, por sua vez, apresenta um Hitchcock mais afável, romanceando muitos aspectos que se sabe terem sido momentos pesados por parte da difícil personalidade de Hitchcock.
A trama se inicia quando ele, após saborear o merecido sucesso de seu último trabalho, "Intriga Internacional", dá início á busca por seu projeto seguinte, sob os poucos lisonjeiros comentários de que sua carreira já teria atingido (e passado de) seu auge.
Hitchcock então se deixa fascinar pela grotesca história de um certo Ed Gein, psicótico capturado pela polícia no meio-oeste americano, e decide transformar num filme, idéias oriundas daquela reportagem, contra todas as opiniões contrárias afirmando ser aquele um material de gosto duvidoso, ao mesmo tempo que seu casamento com Alma parece entrar numa crise.
Essa romantização dos tumultuados e históricos bastidores do clássico "Psicose" trata com mais condescendência do que devia os estranhos desvios de personalidade de Hitchcock e de seu casamento (alvo da maioria das críticas direcionadas ao filme), ainda que haja uma não muito desenvolvida observação sobre o grau inusitadamente alto de identificação que o cineasta teria experimentado com a figura de Ed Gein, durante a realização de seu filme.
A atuação de Anthony Hopkins é histriônica e carregada de trejeitos excessivos, aquém do que normalmente se espera dele, sem falar que os detratores mais impiedosos afirmaram que sua exagerada maquiagem é uma versão caucasiana da prótese usada por Eddie Murphy em “O Professor Aloprado” (!).
Sensacionais mesmo, e valorizando por completo a produção, estão Helen Mirren, como Alma, a fiel e ambivalente esposa, e Scarlett Johansson como a estrela Janet Leight.

domingo, 26 de março de 2017

Garotas do Calendário

Os meses que transcorrem através das reuniões do Instituto de Mulheres de Knapely são particularmente tediosos para as amigas Chris e Annie (as maravilhosas Helen Mirren e Julie Walters). Espirituosas, elas percebem antes das outras que lá, nada é discutido exceto as frivolidades de sempre (brócolis, ameixas e afazeres domésticos) que compõem a rotina da vida na cidadezinha inglesa de Knapely.
Esse sentimento é certamente o estopim para a iniciativa de Chris, que ocupa o cerne narrativo deste agradável e simpático “Garotas do Calendário”.
Dirigido por Nigel Cole –um dos muitos artesãos britânicos que se dividem mais nos projetos de TV que nos de cinema –este filme toma emprestada uma história real, e com ela faz o quê normalmente os americanos não fazem (ou não sabem fazer), mas que os ingleses executam com vontade e perícia: Ironia das mais saborosas.
Como é também habitual entre os ingleses, seu humor vem acompanhado de um saudável acréscimo de drama: O marido de Annie, um pacato jardineiro, é diagnosticado com câncer e, logo, após as agruras de praxe, vem a falecer. Não sem antes deixar a esposa consciente das melhorias que a ala hospitalar reservada ao câncer precisa –incluindo aí um novo e mais confortável sofá!
Aliada à melhor amiga Chris, que se mostra ainda mais ferrenha na causa do que ela, Annie convence meia dúzia de amigas, todas de meia idade, para juntas posarem num calendário a fim de arrecadar fundos com a vendas para o hospital. O detalhe: Todas estarão nuas!
Há um gracejo todo especial que se faz com esses pormenores ao longo do filme (a vaidade das fotografadas posta em cheque, o medo das opiniões alheias, e os meandros engraçados da própria sessão de fotos em si), e tão mais interessante tudo fica quando se está nas mãos de um elenco feminino sensacional.
O elenco de um filme inglês tende a ser um dado memorável por si só –e neste caso, não é nem um pouco diferente –mas, é necessário destacar Helen Mirren: Ela não somente exibe timing cômico dos mais apurados (que se mostra exuberante também em outro filme divertidíssimo, o acelerado “Red-Aposentados e Perigosos”), como também dentre todas, é a que mais surpreende na desinibição das breves cenas de nudez –e, com a idade que tem, ela se mostra espantosamente linda e encantadora!
É lógico que a situação criada pela iniciativa das mulheres maduras irá render frutos, tão benéficos quanto prejudiciais, e na maneira com que trabalha esses aspectos o filme oscila entre o ótimo e o razoável –a repercussão das fotos de nudez ocorre progressivamente, o quê leva a trupe de donas de casa até mesmo a um tour por Hollywood, mas também lhes faz descobrir o lado venenoso da mídia sensacionalista. O drama, ainda sim, nunca atinge níveis ofensivos ou aflitivos, certamente uma opção dos produtores. O humor inglês, por sua vez, não é dos mais facilmente assimiláveis e o filme tenta ser tão leve que quase fica disperso.
Um pecado menor diante de uma obra graciosa, que não tem pretensão de ser mais do que é.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Trumbo - Lista Negra

Um daqueles trabalhos de se ampara quase que integralmente no primor de seu ator principal (e o magnífico Bryan Cranston é um suporte espetacular diga-se de passagem), esta obra, apesar de tudo, representa um salto e tanto de sofisticação para seu diretor, o possivelmente subestimado Jay Roach: Ele finalmente começa a fazer para o cinema a transição que havia feito na TV –e que lá rendeu-lhe larga consagração; exclusivamente televisivos foram o ótimo “Recontagem”, e o ainda melhor “Virada de Jogo”, com Julianne Morre.
Todas obras pertinentes e de postura séria, reveladoras de um diretor preocupado e atento aos meandros numerosos dos pormenores que compõem a política, e que afetam a vida do cidadão comum.
E no cinema, o quê Jay Roach fez?
Comédias rasteiras, divertidas é verdade, mas vulgares até, do porte de “Entrando Numa Fria” (aquele com Robert De Niro e Ben Stiller) ou “Os Candidatos” (com Will Ferrel).
Dava a impressão que Roach reservava sua faceta de cineasta mais sério, mais ambicioso e mais capaz para a TV.
Com “Trumbo” ele parece finalmente harmonizar essas duas metades distintas como realizador num longa-metragem cinematográfico. Há humor aqui também, mas é um humor empregado com minúcia e astúcia, feito mais para pontuar o andamento da narrativa e dela não fazer um desafio enfadonho ao expectador, assim como serve igualmente para salientar uma das muitas características notáveis de seu biografado.
Uma correção: “Trumbo” não é exatamente uma biografia.
Roach apropria-se do trecho mais significativo da vida do roteirista Dalton Trumbo, para com isso construir uma trama pulsante sobre o direito à liberdade de expressão: O período no qual, logo após ser contratado por um estúdio por um valor recorde, ele é incluído na famigerada ‘lista negra’ na Hollywood dos anos 1940, quando uma paranóia anticomunismo gerada a partir do fim da Segunda Guerra Mundial deu início à Guerra Fria e a uma chamada ‘caça às bruxas’ nos EUA.
Trumbo, comunista convicto e declarado, logo se torna persona non grata em Hollywood (sendo encarcerado, inclusive!) a despeito de seu talento sem igual como escritor e de sua considerável retidão moral como ser humano. Nessa condição, ele se vê obrigado a usar pseudônimos ou outras pessoas para assinar seus roteiros que, independente disso, conquistam grande sucesso chegando até a ganhar (em dois casos específicos: “A Princesa e O Plebeu” e “Arenas Sangrentas”), o Oscar da Categoria –os quais ele ficou anos se poder receber!
Esses percalços (cadeia, empobrecimento e árdua redenção), assim como os de sua família, são mostrados ao longo de décadas. Em meio à essa jornada, Roach não tem pudor em eleger Bryan Cranston como nosso condutor, plenamente consciente da sintonia incomum que ele conquista com o papel –não só é um trabalho de primorosa reconstituição gestual, como também é uma atuação brindada por trejeitos planejados e organizados com carinho e zelo, emoldurando assim as frases espirituosas e afiadas que ele dizia.
Felizmente, o elenco de apoio consegue refletir a competência de um protagonista tão bom (caso contrário, o filme padeceria de um incômodo desequilíbrio): Diane Lane, ainda linda e pontual, como sua esposa, Cleo; Elle Fanning, doce e expressiva, como sua filha, Nikola; Helen Mirren, britanicamente perversa como Hedda Hopper; Michael Stuhlbarg como Edward G. Robinson; Louis C.K. como Arlen Hird; e John Goodman como Frank King.
Agora é só aguardar e torcer para que este filme acertado, fluido e prazeroso seja apenas o primeiro de várias outras obras cinematográficas que venham a revelar o cineasta completo que é Jay Roach.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Calígula


Uma das mais infames (e lendárias) produções cinematográficas de que se tem notícia, tinha mesmo que ser assinada pelo italiano Tinto Brass, que durante boa parte de sua carreira dedicou-se à criação de um “gênero”, por assim dizer, que harmonizasse o drama de costumes e o pornográfico, com uma aparente e claudicante influência de mestres maiores do cinema italiano como Píer Paolo Passolini e Luchino Visconti.

A história corresponde bastante às pretensões dos produtores, que almejavam um trabalho de tintas épicas e hollywoodianas: Em meio ao auge do Império Romano, o jovem Calígula (Malcow MacDowell, recém-saído de "Laranja Mecânica") aguarda seu momento de subir ao trono por sucessão. Entretanto, guiado pelos estratagemas da irmã Drusilla (Teresa Ann Savoy), com quem mantém uma relação incestuosa, ele termina por afundar Roma em intermináveis orgias e perversões.

Embora sejam perceptíveis no filme, as intenções de se fazer uma superprodução –como o elenco que reúne estrelas como MacDowell, Peter O Toole, John Gielgud e Helen Mirren (que chega a aparecer nua!) –o grande diferencial que destacou “Calígula” das produções dos anos 1970 (e que justifica talvez sua lembrança hoje, quase quatro décadas depois de sua realização), é a conturbada história de seus bastidores, que levou à mudança de abordagem do filme como um todo: Reza a lenda que Tinto Brass planejava um filme suntuoso e elegante, na medida do possível que o já decadente cinema italiano do período poderia arcar, visando, quem sabe, uma repercussão que elevasse seu nome ao dos grandes autores importados para trabalhar nos EUA, o quê, sabemos, acabou não acontecendo.
Temendo bancar as contas de um filme que corria o risco de tornar-se um projeto caro e megalomaníaco, o produtor Bob Guccione interferiu, transformando o filme na única espécie de produto vendável –sendo ele o criador da revista Penthouse! –que ele conhecia.
A montagem paralela que envolvia o elenco famoso (que já era, ela própria, bastante abundante no erotismo), recebeu assim inserções de cenas de sexo explícito, que o aproximaram muito de um filme pornográfico de fato. Tornando “Calígula” o filme que ele é até hoje: Uma produção picotada, onde suas duas diferentes facetas –o filme pornô e o filme de época no qual se acha o elenco famoso –quando muito só se harmonizam devido à pouca habilidade do diretor Tinto Brass cuja encenação visual, provavelmente de maneira involuntária, se aproxima mesmo da (pouca) elaboração cênica de um filme erótico.
Ainda que, eu admito, existam filmes eróticos muito mais bem produzidos do que aqueles realizados por Tinto Brass...

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A Grande Mentira

1997. Ex-agente do Mossad, a polícia secreta de Israel, Rachel Singer (Helen Mirren) é chamada por seu ex-marido (Tom Wilkinson), diretor do Serviço Secreto Israelense, para retomar clandestinamente uma missão executada 30 anos atrás, pela qual ambos, e mais o agente David Peretz (Ciaran Hinds), são reconhecidos até hoje: a captura e morte do criminoso de guerra conhecido como "Cirurgião de Birkenau". Mas remexer neste assunto envolve tocar num grande segredo que os três (interpretados em sua juventude por Jessica Chastain, Marton Csokas e Sam Worthington) juraram esconder e que pode afetar suas vidas.
Refilmando um thriller israelense rodado em 1997, o diretor John Madden (de “Shakespeare Apaixonado”) realiza um bom e envolvente trabalho que extrai muito do charme da narrativa –tal e qual alguns clássicos do gênero –oscilando entre passado e presente, alternando os três personagens com os diferentes atores que os interpretam, observando as dicotomias ficcionais em favor de uma agradável atmosfera de suspense. Dentre seus intérpretes (e esta obra ampara-se particularmente sobre eles), Helen Mirren se encontra soberana como a protagonista enquanto sua contraparte jovem, a fabulosa Jessica Chastain, esfacela seus companheiros a cada sequencia.
Inesperadamente fraco está Sam Worthington, que foi um protagonista tão bom e eficaz em “Avatar”, mas nesta obra surge absolutamente apático e perdido em cena.

Já, Marton Csokas nunca foi muito carismático mesmo, embora ao longo de sua carreira tenha feito quase todo o tipo de filme (ele aparece, para se ter uma idéia, até em “Senhor dos Anéis”).