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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Calmaria


 No papel, a trama de “Calmaria” até que parece instigante e promissora –e certamente se deve a isso o bom elenco que o projeto conseguiu reunir –no entanto, em sua execução, o filme de Steven Knight (roteirista de “Coisas Belas e Sujas”) é falho e equivocado. Seu protagonista é um certo Baker Dill (vivido com inicial apatia por Matthew McConaghey), homem em cuja vida, nada é muito certo: Não é muita certa sua ocupação (de levar à bordo de seu barco, em passeios no alto-mar, turistas pagantes) uma vez que, já na cena que abre o filme, Baker despreza seus clientes para concentrar-se no que parece ser uma obsessão –pescar um imenso e lendário atum que lhe escapa sempre que está prestes a capturar. Não são muito certos seus relacionamentos, como a amizade pouco recíproca do indulgente Duke (Djimon Hounsou, de “Shazam!”) ou o convulsivo sexo casual que mantém com a ainda mais indulgente Constance (Diane Lane, desperdiçada). Nem é muito certa sua vontade de permanecer naquela longínqua ilha de Plymouth, onde todos vivem a trabalhar para depois encher a cara no bar local. Para Baker Dill, não é muito certo nem mesmo quem ele é: Outrora, ao que tudo indica, ele se chamou John Mason, e desistiu de tudo após um traumático período na Guerra do Afeganistão.

De tudo, exceto de seu filho, Patrick (Rafael Sayegh) com quem, mesmo estando em algum outro lugar e há anos sem se verem, Baker mantém uma conexão que parece sobrenatural. Essa estranha rotina muda com a chegada de Karen (Anne Hathaway, extremamente deslocada), socialite loira que surpreende a muitos revelando-se ser ex-esposa de Baker. Ela precisa do ex-marido para um serviço improvável –seu atual marido Frank (Jason Clarke) é um homem violento que a ameaça e ao seu filho. Para livrar-se dele –que aparecerá por Plymouth nos próximos dias interessado num providencial passeio à barco –Karen pagará 10 milhões de dólares para que Baker deixe-o afogar-se no oceano.

A dúvida está instalada no pensamento do personagem principal e um certo suspense, na narrativa. Contudo, embora “Calmaria” –ou “Serenity”, seu título original que dá nome ao barco do protagonista –traga todos os elementos de um filme noir com ambientação caribenha –a femme fatale trazendo problemas ao calejado herói; o assassinato encomendado com ares de um mistério ainda por se resolver; o vilão criminoso, inescrupuloso e perigoso como manda o figurino –ele não é um de fato: Lá pelas tantas, “Calmaria” se sai com uma espécie de reviravolta que coloca todas as coisas de pernas pro ar e transforma por completo a percepção (e o próprio gênero) do filme que vínhamos assistindo. É uma guinada similar àquela presente, num dado momento, em “Vanilla Sky”, ou em “Clube da Luta” –com a grave diferença de que nesses filmes citados, tal guinada funciona...

Dirigindo seu próprio roteiro,  Steven Knight demonstra apreço fora do normal por obras que levam às últimas consequências o conceito em que nada é o que parece ser, em especial os trabalhos assinados por Christopher Nolan, como “Amnésia” e “A Origem” –e não é à toa, portanto, que seus protagonistas sejam McConaghey e Hathaway, reunidos também por Nolan em “Interestelar” –porém, ele deixa seu fascínio como expectador confundir sua perspicácia como realizador e constrói um filme de justificativas incertas, de cenas realizadas para soarem intrigantes mas que resultam apenas idiotas, e de personagens que, devido à fraca direção, nunca dizem em suas posturas de fato à que vieram.

E, a partir daqui, leitor, a resenha irá abordar abertamente as surpresas do filme, portanto, considere-se aviso de spoilers!

 Talvez, o grande lapso de “Calmaria”, seja o fato de que a sua grande reviravolta surpresa pode ser antecipada a partir de um determinado ponto pelo expectador que estiver mais atento –uma falha grave num filme cuja proposta central é mostrar-se surpreendente e inesperado. Dentro do enredo que norteia “Calmaria”, todos os personagens (sobretudo Baker) são integrantes de um jogo de videogame projetado pelo menino Patrick em sua solidão. Ele coloca seu pai –morto em combate –como personagem central (e o mote do jogo é tentar pescar o atum, daí a sua obsessão) e, por isso, todos os demais personagens em volta dele se mostram obsequiosos, solícitos aos seus interesses e subservientes aos seus objetivos, mesmo que ele nunca forneça motivos para que se comportem assim. A aparição de Karen significa, assim, que as aflições da vida doméstica de Patrick –na qual o padrasto lhe hostiliza –começam a interferir na harmonia idílica daquele mundo paradisíaco que ele criou. As discrepâncias dessa obra, contudo, falam muito alto; por exemplo: Acaba soando grosseira a constatação de que o jovem, uma vez sendo o idealizador de toda a narrativa que se sucede em Plymouth, imaginou, ele próprio, uma transa entre seu pai e sua mãe, na noite anterior ao dia fatídico (!).

Com essa estranha e mal-costurada mescla de gêneros que se pretende inesperada (mas, é só estranha mesmo), Steven Knight esperava urgir uma obra nos moldes dos trabalhos de Nolan, entretanto, terminou criando algo que se aproxima mais da irregularidade e da esquisitice do inconstante “O Segredo da Cabana”, de Drew Goddard.

domingo, 25 de junho de 2023

Liga da Justiça de Zack Snyder


 As turbulências do Universo DC nos cinemas já são conhecidas, e todos sabem que a maioria delas culminou no irregular “Liga da Justiça” de 2017 que, embora tivesse o nome de Zack Snyder em seus créditos, era fruto do trabalho de Joss Whedon, chamado pelos executivos da Warner Bros. para finalizar o vasto material deixado por Snyder antes de seu afastamento em decorrência do trágico suicídio da filha. Havia algumas intenções bem nítidas no recrutamento de Joss Whedon que, é bom lembrar, dirigiu também “Os Vingadores” para a Marvel Studios cerca de seis anos antes: Harmonizar as muitas ideias ainda inacabadas (algumas bastante ambiciosas) que Zack Snyder deixara para “Liga da Justiça”, e dar um aspecto mais, digamos, semelhante às obras da Marvel para as ainda tão lúgubres realizações da DC –público e crítica pareciam concordar que “Batman Vs Superman” padecia, entre tantas outras coisas, de um tom sombrio que por vezes exacerbava e soava inadequado a um filme de superheróis.

Entretanto, Joss Whedon não revelou-se a escolha ideal para a tarefa: Além de simplificar todo o material de Snyder a fim de acomodá-lo numa duração curta de mais apelo comercial (tirando assim toda a relevância de muitas cenas), Whedon acrescentou cenas que só introduziam piadinhas desnecessárias (um elemento da Marvel do qual a DC não precisava), deixando a clara e desconfortável diferença de estilo visual e narrativo entre ele e Snyder (transformando o filme numa colcha de retalhos) e finalizou todo o material com um desleixo ainda mais incômodo: Ficou famosa (ou seria infame?), por exemplo, a boca em CGI de Henry Cavill, acrescentada para apagar o bigode que ele deixara crescer para as filmagens de “Missão Impossível-Efeito Fallout”.

Então, veio a pandemia em 2020 e os índices baixos (ou seria melhor inexistentes?) de bilheterias cinematográficas fez os executivos do estúdio voltarem sua atenção para sua plataforma de streaming, o HBO Max, e para as redes sociais, onde ganhava força um movimento chamado #snydercut no qual fãs fizeram petições pedindo pelo lançamento da versão de Zack Snyder de “Liga da Justiça” certamente melhor do que a lançada no cinema em 2017 –até porque, seria difícil conseguir fazer algo pior...

Eis que, uma vez mais tendo acesso às cenas gravadas, e com todo o arsenal de efeitos computadorizados para finalizar o filme à sua maneira, Zack Snyder pôde enfim satisfazer seus fãs e entregar sua própria versão de “Liga da Justiça” a ostentar a nada modesta metragem de quatro horas de duração (!).

Após os eventos dramáticos de “Batman Vs Superman” –revistos sobre outro e estilizado ângulo nas cenas iniciais –um novo desafio aos heróis, Batman (Ben Affleck) e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) surge no horizonte: Sem o vasto poder de Superman para proteger a Terra, as preciosas ‘caixas maternas’ despertam sua energia, atraindo invasores alienígenas.

Outrora pivô de uma invasão alienígena ocorrida em tempos imemoriais, as ‘caixas maternas’ –divididas em três –ficaram na Terra, sob a proteção dos humanos, dos atlantes (o povo de Aquaman) e das amazonas (o povo de Diana, a Mulher-Maravilha). Agora, o conquistador tirânico Darkseid (Ray Porter) pretende recuperá-las e, para isso, envia seu mais poderoso lacaio, o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds, um vilão muito mais elaborado esteticamente e melhor escrito do que no outro filme), desesperado por saciar a fome de conquista de seu senhor e assim, saldar a dívida que tem com ele, e voltar para seu mundo-natal.

A medida que se deparam com o poder incomensurável do Lobo da Estepe, Bruce Wayne (o Batman, caso alguém não saiba...) dá sequência ao seu plano de reunir os seres mais poderosos da Terra numa única equipe a fim de protegê-la. Com Diana ao seu lado –devidamente alertada do roubo da ‘caixa materna’ em poder das amazonas por sua mãe Hipólita (Connie Nielsen) –ele vai atrás do atlante Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa), do velocista Barry Allen, o Flash (Ezra Miller) e do indivíduo cibernético Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher), este, aliás, criado a partir de uma das ‘caixas maternas’.

No entanto, logo fica claro que, para fazer frente a esse poderoso inimigo, eles devem encontrar um meio de trazer de volta Kal-El, o Superman (Henry Cavill).

Para aqueles que viram o “Liga da Justiça” de Joss Whedon, este novo filme não terá uma trama das mais diferentes do que se viu naquele, ainda assim, devido ao tratamento muito mais épico e ambicioso planejado por Snyder, a sensação de acompanhar os mesmos acontecimentos é a de se assistir a um filme completamente novo. Muita coisa muda –sai completamente a abertura ao som de “Everybody Knows”, por exemplo –mas, curiosamente, muita coisa permanece a mesma nesta nova versão; consequência do fato claro de  que foi Snyder quem realmente filmou a maior parte de “Liga da Justiça”, a grande diferença foi que Joss Whedon enxugou, e muito o material, a fim de acomodá-lo em módicas duas horas, criando, aqui e ali, cenas que emendavam alguns blocos. Todavia, como é visível ao assistirmos as duas versões, Whedon prefere menções aos quadrinhos que remetem mais leveza, enquanto que Snyder enfatiza um certo peso dramático embutido naturalmente nessa mitologia. Preferir um ou outro é, deveras, uma questão de gosto, mas é bem nítido qual das duas versões é superior: Pela amplitude da trama preservada e concebida, a versão de Snyder é infinitamente mais concisa, satisfatória e coerente que o filme francamente falho de Whedon. As mesmas cenas, na concepção de Snyder, ganham uma duração maior, privilegiam mais a atmosfera e os pequenos detalhes (não somente a câmera lenta como muitos detratores quiseram alardear), aprofundam as relações e motivações de praticamente todos os personagens (alguns, como o Cyborg, são genuinamente melhorados) e conferem ao filme uma contundência que faz toda a diferença na última parte do filme, um clímax muito mais tenso, eficaz e vibrante.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Deixe-O Partir


 O trabalho criterioso e singular do diretor Thomas Bezucha (especialista, pasmem, em comédias!) vale-se em grande medida da concepção hoje saturada que o expectador médio tem do cinema norte-americano comercial de modo geral. Afinal, temos dois protagonista prontamente reconhecíveis (Kevin Costner e Diane Lane interpretaram, juntos, os pais do Superman em “Homem de Aço”), e esse reconhecimento é usado por Bezucha para ludibriar o público.

Com eles em cena –a despeito da excelência interpretativa que aqui ambos conseguem obter, sobretudo, Diane –tem-se a impressão de que a produção seguirá por caminhos convencionais, como tantos outros filmes que eles mesmos protagonizaram.

É quando o filme de Bezucha começa a subverter brilhantemente as pressuposições do público: “Deixe-o Partir” trabalha com tempos mortos, silenciosos, onde nada em princípio parece acontecer, são momentos de calmaria na superfície onde se sugere profundidades insondáveis nas quais, aí sim, se escondem as verdadeiras aflições;

George e Margaret Blackledge (Costner e Diane) perderam seu filho. A nora, junto do neto deles, casou-se com outro homem e foi morar em outra cidade, desligando-se da relação que tinha com eles.

Guiados por uma necessidade sentimental e irreprimível de rever o neto e, em última instância, perseguir um vínculo com o filho falecido, o casal empreende uma busca pelas cidades interioranas da América em busca do paradeiro da nora que, indicam as pistas, casou-se com um homem violento que oferece potencial perigo para ela e para a criança.

A narrativa de Bezucha não tem a menor pressa em entregar respostas instantâneas e satisfazer com imediatismo qualquer ansiedade plantada no expectador: A direção transforma a angústia de seus protagonistas na angústia do próprio público ao frustrar as expectativas da resolução de seu suspense, desacelerando o ritmo nos momentos em que mais queríamos que ele se acelerasse.

E, nesse sentido, tudo se intensifica ainda mais: Quando por fim descobrem o que houve com sua ex-nora, Lorna (Kayli Carter), George e Margaret a encontram, e ao seu neto, vivendo com a família do novo marido, os Weboy, um clã de interioranos violentos, sórdidos e potencialmente psicóticos –a matriarca da família (vivida primorosamente por Leslie Manville, de “Trama Fantasma”) é particularmente insidiosa, grosseira, ameaçadora e abusiva.

Se a premissa não sugere uma originalidade maior da parte desta obra do diretor Bezucha, é porque muitas das informações que a tornam desigual são mais bem aproveitadas quando não se sabe nada sobre elas –personagens coadjuvantes posicionados estrategicamente; fortes atmosferas levantadas com parcimônia –configurando esta interessante mescla de drama (o elenco, para tanto, é formidavelmente habilidoso), road movie (proporcionando sua notável transição do idílico ao visceral), faroeste moderno (o personagem de Costner, à propósito, é um ex-xerife) e filme de terror ao estilo “O Massacre da Serra Elétrica”.

Com uma condução de uma tensão dilacerante, o filme gradualmente acentua sua propensão ao perturbador entregando cenas que atingem certo extremismo em seu terço final, caminhando rumo a um desfecho brutal, tenso e apoteótico, potencializado pela ênfase ao drama humano –ou seja, mesmo não estando entre os realizadores mais reconhecidos e aclamados da atualidade, Thomas Bezucha se comporta aqui como um deles ao moldar um filme feito de corajosas escolhas, de pequenos detalhes, de um salutar intimismo em detrimento às convenções de sempre. Tudo isso transforma a tortuosa jornada de um casal na busca pela reconstrução de sua família em uma experiência que testa os nervos de qualquer expectador.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Noites de Tormenta


Mesmo par de "Cotton Club" e "Infidelidade", Diane Lane e Richard Gere demonstram neste singelo, ainda que agradável drama romântico (tão agradável e singelo quanto é o livro de Nicholas Sparks de onde é adaptado) o quanto sua química, trabalhada ao longo dessa longeva parceria continua perfeita.
Esse fator faz desse par central a grande razão de ser do filme, visto que esta produção não se destaca em nenhum outro aspecto; nem mesmo na tremenda curiosidade mórbida que emana de algumas produções catastroficamente ruins e que, por isso mesmo, atraem alguma atenção.
É assistível sem ser excepcional. É romântico sem ser arrebatador. Dramático sem ser triste. Bem-humorado sem ser gracioso.
Adrienne (Diane Lane, facilmente cativante) é uma mulher de meia idade, ainda bonita e atraente, transtornada por usuais problemas com a filha e o ainda incômodo divórcio.
Desejosa de ares renovados para se acalmar e pôr em perspectivas as mudanças de sua vida, ela se propõe a cuidar do chalé de praia de uma amiga (ponta luxuosa de Viola Davis). O quê a torna recepcionista de um único hóspede: O Dr. Paul Flanner (Richard Gere, com sua impecável fleuma de galã veterano), um homem em princípio misterioso e reservado que aparece para se hospedar no período mais improvável para que tal coisa aconteça –um fim de semana bucólico que ainda vem com o adendo de um aviso de tempestade.
A história de Paul (ou talvez o idealizado interesse pela história dele) passa então a ocupar o centro da narrativa quando inadvertidamente Adrienne passa a reunir indícios das razões que o levaram ali e que explicam com mais clareza o seu comportamento.
Cirurgião responsável por uma operação mal-sucedida, ele está lá atrás do perdão do marido (Scott Glenn) de uma paciente sua que morreu na mesa de cirurgia, um morador local.
Mesmo avisados da proximidade de um furacão, os dois, Paul e Adrienne, inquilino e pensionista decidem ficar na casa de praia assim mesmo –e por outras razões que, à essa altura começam a se esboçar timidamente. Isolados e sozinhos, eles dividem seus problemas e inquietações e dessa súbita cumplicidade surge o amor.
Mas esse sentimento terá de enfrentar outros empecilhos para sobreviver além da praia onde se conheceram.
Além do acerto de seu par central, o grande mérito de “Noites de Tormenta” é jamais querer ser algo que não é, e nesse sentido, nessa absoluta falta de pretensão, o filme até exagera: Mostra-se assim tão básico que ostenta lacunas que poderiam até ter sido aprofundadas.
Felizmente, o diretor George C. Wolfe conta com um casal protagonista brilhante em cena, e eles conseguem enfatizar o romance que predomina na trama, cuja reviravolta algo manjada do final –bem ao gosto lacrimoso do autor Nicholas Sparks –serviu de pretexto para muitas expectadoras românticas ter este filme como um de seus prediletos.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Chaplin

Durante muito tempo o cinema flertou com uma possibilidade inevitável: Um filme sobre a vida do intrépido Charles Chaplin –realizador que pode ser considerado uma das poucas figuras históricas que ilustra o próprio cinema.
Veio a ser o diretor Richard Attenborough (de "Gandhi"), amigo pessoal da família Chaplin, quem assumiu esse acalentado projeto, esforçando-se em concentrar, num riquíssimo filme de cento e quarenta e oito minutos, os aspectos de uma vida desigual que renderia fácil uma dezena de filmes –para tanto, ele inspirou-se em “My Life”, a autobiografia de Charles Chaplin (há cenas nas quais o personagem fictício, interpretado por Anthony Hopkins, rememora a trajetória dele para a realização da obra) e na biografia “Chaplin, His Life And Art”, escrita pelo pesquisador David Robinson.
A estrutura narrativa do filme assim dá ênfase ao fato de que o caminho trilhado por Chaplin é paralelo ao do próprio cinema no século XX, pontuada, no entanto, pelas influências –sejam elas inspiradoras ou destrutivas –das mulheres que passaram pela vida do protagonista.
Dessa forma, Attenborough inicia seu filme ainda na infância pobre repleta de correrias e privações em Londres, em meio à qual os realizadores acreditam estar a gênese para as motivações e o comportamento que Charles apresentou ao longo da vida; em especial, o caráter lúdico que deu a seus filmes.
Quando o filme avança para mostrar Charles em sua juventude –em meio às apresentações nos palcos de valdeville londrinos –é quando somos introduzidos ao ator extraordinário que dá vida à Charles Chaplin: Robert Downey Jr. (hoje, unanimemente conhecido como intérprete do “Homem de Ferro”) que foi merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator por este trabalho.
O talento irrestrito de Charles não tarda a levá-lo a migrar para a América, onde é contratado como figurante pelo produtor Mack Sennett (Dan Aykroyd), entretanto, a criatividade pulsante e independente de Charles o leva a trilhar um caminho próprio como realizador (bem como à criação de seu mais célebre e simbólico personagem, Carlitos, o vagabundo) culminando em sua consagração como gênio do cinema na América, onde criou filmes que alegraram e emocionaram milhões.
O terço final do filme mostra a textura inusitadamente política apontada nas atitudes de Charles como quando se recusou a aderir ao cinema falado, e a celeuma levantada até mesmo à revelia dele quando lançou o maravilhoso “O Grande Ditador”. Fatos que estranhamente lhe renderam amigos e inimigos –sendo os mais insidiosos e marcantes o promotor Joseph Scott (James Woods) e o chefe do FBI, J. Edgar Hoover (Kevin Dunn), que o investigaram, caluniaram e perseguiram até obter sua extradição dos EUA, em 1952.
Para só voltar vinte anos depois, quando recebeu um Oscar honorário na breve e emocionante seqüência que encerra o filme.
Como mencionado acima, as companheiras de Charles definem muito de quem ele se torna e dos rumos que sua vida toma: O primeiro (e relativamente trágico) amor, a bailarina Hetty Kelly vivida por Moira Kelly; a primeira mulher Mildred Harris (Milla Jovovich, não somente antes da franquia “Resident Evil” como antes até mesmo de “O Quinto Elemento”); a atriz Paulette Goddard (Diane Lane) que também se envolveu com ele; a problemática Joan Barry (Nancy Travis); e a última esposa Oona (novamente interpretada por Moira Kelly, num recurso que proporciona à trama uma espécie de circularidade afetiva).
Se a direção de Attenborough, ainda que cheia de propriedade, não escapa de um tom solene e deslumbrado, o seu filme é emoldurado numa brilhante atuação de Robert Downey Jr, que confere humanidade, solidez e ares genuinamente comoventes à um personagem desafiador e intimidante para qualquer ator.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Paris Pode Esperar

Eleanor Coppola é mais conhecida pelo espetacular documentário “Apocalypse de Um Cineasta” no qual acompanha as agruras épicas experimentadas por seu marido, Francis Ford Coppola, na realização de “Apocalypse Now”. Agora, ela resolveu seguir os passos dele e de sua filha, Sofia Coppola, e arriscar-se como diretora numa obra de ficção.
Uma ficção que flerta com inesperados lampejos do que poderia ser a realidade, a exemplo do que a própria Sofia às vezes faz em seus projetos.
O filme inicia-se em Cannes, acompanhando a estadia na França do produtor Michael Lockwood (Alec Baldwin, num personagem que leva o mesmo sobrenome do protagonista de “Cantando Na Chuva”) e sua esposa Anne (Diane Lane, uma atriz bastante familiar aos Coppola tendo sido dirigida por Francis Ford em três ocasiões, “Cotton Club”, “O Selvagem da Motocicleta” e “Jack”).
Já na cena inicial somos induzidos a perceber que há muito de Eleanor em Anne: Além da rotina simbiótica entre a arte cinematográfica e seu matrimônio, ela registra com fotos toda a rotina doméstica junto de Michael, fotografando até mesmo o café da manhã –documentando toda a realidade que transcorre ao lado do marido, como a própria Eleanor fez em seu documentário.
Todavia, é por caminhos austeros e relaxantes que seu filme seguirá: Pouco sintonizada com a rotina estafante de Michael, Anne aceita uma carona oferecida por seu sócio francês, Jacques (Arnaud Viard), para ir de carro até Paris, enquanto ele cuida de uma produção em Budapeste.
No percurso, Jacques se revela um francês com todas as características melindrosas com as quais eles são conhecidos: Ostenta uma irresistível aura de bon vivant, faz desvios constantes para apreciar paisagens turísticas (das quais possui conhecimento enciclopédico), e sempre sabe de algum lugar onde se pode desfrutar da melhor comida.
Isso estende a viagem de carro –que em princípio, parecia ser breve e instantânea –e leva Anne a passar alguns dias ao lado de Jacques, tornando-os pouco a pouco confidentes um do outro.
Quase todo o filme se desenvolve ao redor de uma mesa. “Paris Pode Esperar”, dessa forma, acaba sendo, mais que um filme de cartão-postal, uma daquelas produções gastronômicas que não economizam nos closes em pratos e iguarias fotogenicamente preparados, e a presença de Diane Lane (conduzindo com carisma e graciosidade um filme que corria o risco de entediar o expectador) faz muito lembrar o seu belíssimo “Sob O Sol da Toscana”.
A narrativa propositadamente serena de Eleanor Coppola pega emprestada algumas características do estilo de Sofia: Como em “Encontros e Desencontros” ou “Um Lugar Qualquer”, não falta a “Paris Pode Esperar” cenas de contemplação, onde o filme convida o expectador a vislumbrar a beleza e o ritmo particulares dos locais visitados.
Essa percepção, somada ao desnudar emotivo e emocional de Anne, fazem do filme uma observação sutil, ainda que tímida, das incertezas de uma mulher madura e moderna acerca de sua postura no casamento, na vida profissional (ou na isenção dela) e na maternidade.
Em algum momento, Eleanor acaba tendo de dar um respaldo nas provocações que ela tanto prorroga –ou seja, deve responder ou não, se entre Anne e Jacques haverá algum romance. E ela o faz de modo sutil e elegante, sem exageros e contando com muito da excelência de seu par central: O desfecho, por isso mesmo, opta por uma dubiedade descontraída e graciosa que faz dele uma versão de “Antes do Amanhecer” na meia-idade.
Não há em Eleanor Coppola qualquer traço da exuberância narrativa de seu marido, mas ela soube –com a imprescindível ajuda de Diane Lane –realizar uma obra bastante agradável.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Procura-Se Um Amor Que Goste de Cachorros

Um dos inúmeros filmes que a deliciosa Diane Lane fez após obter uma espécie de status tardio de estrela com sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “Infidelidade”, esta simpática comédia romântica segue à risca todos os ingredientes inerentes ao gênero –para o bem e para o mal.
Lá está o improvável casal romântico interpretado por Diane, sua beleza madura (e nem por isso menos jovial e encantadora) e seu domínio descontraído de cena, e por John Cusack, também ele muito simpático, transparecendo uma maneira algo desleixada de envelhecer.
Lá está também a premissa que os une de modo providencialmente improvável e que efetivamente os fará se apaixonar: As duas irmãs de Sarah (Diane), convictas de que os oito meses que contam de sua separação já extrapolaram sua duração (até mesmo seu pai, vivido pelo fabuloso Christopher Plummer já se virou nesse ínterim), resolvem fazer um perfil falso para ela em um site de encontros, o quê a leva ao casual Jake (Cusack), também ele preocupado com a solteirice crônica que parece estar definindo sua vida.
Jake, porém, tem parâmetros difíceis de serem alcançados por sua “mulher ideal” –um deles, gostar (ou no mínimo conhecer) o filme “Doutor Jivago”! –além disso, o primeiro encontro com Sarah não foi dos mais promissores. E ela tem outro pretendente em vista, o charmoso e disponível Bob (Dermot Mulroney), pai de uma de suas alunas (Sarah é professora pré-escolar).
De situação em situação (algumas menos engraçadas do que seus realizadores gostariam que fossem) o roteiro escrito pelo diretor Gary David Goldberg oscila entre as evidências claras e pontuais de que Sarah e Jake foram feitos um para o outro, e as circunstâncias mundanas e eventuais que os afastam –como numa típica comédia romântica...
Tão natural e deliberada é essa imbricação despretensiosa ao gênero que ele realiza, na cara de pau, a mais manjada das referências: O depoimento ao final, extraído de “Harry &Sally-Feitos Um Para O Outro”, onde o casal apaixonado esmiúça os detalhes de como se conheceram.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Liga da Justiça

Pode-se afirmar que foi um verdadeiro parto conseguir este filme da “Liga da Justiça”.
Há muito tempo esperado e alardeado –antes mesmo da realização bem-sucedida de “Os Vingadores” pela Marvel Studios, o quê já foi há cinco anos –o projeto enfrentou, entre outras coisas, um cancelamento provocado pela então greve dos roteiristas em 2007, quando o plano ainda era que fosse dirigido por George Miller e com um elenco totalmente diferente.
De lá para cá, muita coisa mudou.
A Marvel estabeleceu um formato para que um universo de narrativas e personagens dos quadrinhos fosse transposto para o cinema, e a DC Comics, sua rival, naturalmente procurou seguir esse caminho. A jornada, entretanto, foi tortuosa: Sem o humor e a descontração de sua concorrente, a DC buscou um ponto de partida para o seu próprio universo numa reformulação de Superman, seu mais icônico personagem (“O Homem de Aço”), em seguida deu continuidade com um filme até hoje controverso que não agradou a crítica (“Batman Vs Superman” do qual sob muitos aspectos, este filme é uma continuação direta), e uma produção equivocada e problemática (“Esquadrão Suicida”), para finalmente acertar com o filme solo de sua principal heroína (“Mulher Maravilha”).
Diretor de “Batman Vs Superman”, Zack Snyder era inicialmente o diretor deste projeto –e ele de fato responde por pelo menos uns 80 % do material que se assiste no filme –mas, devido à uma tragédia pessoal, desligou-se da produção, dando lugar para Joss Whedon (diretor de “Os Vingadores”) terminar o trabalho.
Algumas coisas ficam claras desde o início: Os realizadores têm consciência de seus erros e os corrigem paulatinamente aqui –o tom sombrio (e tido diversas vezes como inadequado) foi equilibrado, agora a DC compreende que superheróis são motivo de celebração e não de introspecção (há espaço até para piadinhas!); a trama já não se dispersa em subterfúgios banais ou motivações pretensiosas, o roteiro é objetivo e busca ir direto ao ponto (prerrogativa principal para que um filme com tantos protagonistas funcione corretamente).
Como foi visto ao fim de “Batman Vs Superman”, o mundo está de luto pela morte do Superman. Contudo, como foi também visto lá, ameaças muito maiores do que as mundanas começam a contemplar o planeta Terra: O poderoso alienígena Lobo da Estepe (voz do ator Ciaran Hinds, o quê não quer dizer muito...) vem para o nosso planeta atrás de três ‘caixas maternas’ aqui deixadas. Quando reunidas elas despertarão uma entidade de nome ‘unidade’ que consumirá todo o nosso mundo.
Identificando com antecedência o perigo, o vigilante Batman (Ben Affleck, tão esmerado quanto no filme anterior, porém, menos sisudo) põe então em prática o plano com o qual já flertava antes: O de reunir, ao lado da poderosa Diana Prince, a Mulher Maravilha (Gal Gadot, que consegue ser, com facilidade, uma das melhores coisas do filme), os poucos superpoderosos identificados do mundo, que no caso seriam Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa, da mal-fadada reformulação de “Conan-O Bárbaro”), Barry Allen, o Flash (o talentoso e divertido Ezra Miller) e Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher, o intérprete mais fraco do grupo).
Juntos, como a Liga da Justiça, eles buscarão se opor aos vilões que desejam a destruição. Não só eles, diga-se: Num daqueles casos tão óbvios que até uma criança de colo perceberia, é lógico que o Superman (vivido por Henry Cavill) haverá de ressuscitar para compor o time dos heróis no grande clímax –e apesar disso ser evidente, a narrativa parece tratar a manobra como um das grandes surpresas do roteiro!
No fim das contas, o aspecto que poderia prejudicar o filme –a substituição de diretor com as filmagens em andamento, e antes mesmo da pós-produção –acabou beneficiando-o: “Liga da Justiça” encontra uma harmonia agradável, fluida e plausível entre o estilo lúgubre, amargo até de Zack Snyder e o tom mais ameno, escapista e otimista do experiente Joss Whedon (que até mesmo já roteirizou histórias em quadrinhos).
Seus problemas acabam ficam assim à sombra de seus acertos, especialmente diante do fato de que, comparado ao inconstante “Batman Vs Superman”, este “Liga da Justiça” é um bem-vindo salto de equilíbrio e entendimento narrativo –ainda que ele fique um pouco aquém das qualidades do amplamente satisfatório “Mulher Maravilha”.
É bom saber que a DC Comics está no caminho certo.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Secretariat - Uma História Impossível

Existem filmes, como este daqui, que são válidos por um determinado elemento. No caso de “Secretariat” nem é tanto sua trama que, apesar de bem amarrada e amparada numa impressionante história real, acaba sendo tão parecido em ritmo, tom e opção visual ao superior “Seabiscuit-Alma de Herói”, que a sensação requentada é inevitável.
Na verdade, o que faz “Secretariat” valer a pena é Diane Lane, que no papel da protagonista Penny Chenery, a herdeira e proprietária do cavalo de corrida “Secretariat”, conduz com desenvoltura a trama.
Outro que contribui para elevar a qualidade da apreciação da obra é John Malkovich, o ladrão de cenas nato do cinema, e que vez ou outra abraça um trabalho pela simples intenção de se divertir: E ele parece se esbaldar com o papel de Lucien Laurin, o treinador reticente, rabugento e pretensamente estiloso que Penny Chenery irá contratar a fim de guiá-la pelos melindrosos caminhos das corridas de cavalo.
Verdade seja dita: Tão espantoso e genuinamente incrível era a história do cavalo Secretariat que se fazia inevitável que ele virasse um filme. E o selo Disney –produtora deste filme –apenas garante a dose de emoção, perseverança e superação “feita para a família” que a premissa originalmente já tinha.
É envolvente, previsível (seus lances de roteiro são de uma obviedade que chegam ao banal), mas também despretensioso (e não podia ser mesmo diferente), e deixa uma sensação boa quando termina.
Uma autêntica ‘sessão da tarde’ realizada na época errada.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Trumbo - Lista Negra

Um daqueles trabalhos de se ampara quase que integralmente no primor de seu ator principal (e o magnífico Bryan Cranston é um suporte espetacular diga-se de passagem), esta obra, apesar de tudo, representa um salto e tanto de sofisticação para seu diretor, o possivelmente subestimado Jay Roach: Ele finalmente começa a fazer para o cinema a transição que havia feito na TV –e que lá rendeu-lhe larga consagração; exclusivamente televisivos foram o ótimo “Recontagem”, e o ainda melhor “Virada de Jogo”, com Julianne Morre.
Todas obras pertinentes e de postura séria, reveladoras de um diretor preocupado e atento aos meandros numerosos dos pormenores que compõem a política, e que afetam a vida do cidadão comum.
E no cinema, o quê Jay Roach fez?
Comédias rasteiras, divertidas é verdade, mas vulgares até, do porte de “Entrando Numa Fria” (aquele com Robert De Niro e Ben Stiller) ou “Os Candidatos” (com Will Ferrel).
Dava a impressão que Roach reservava sua faceta de cineasta mais sério, mais ambicioso e mais capaz para a TV.
Com “Trumbo” ele parece finalmente harmonizar essas duas metades distintas como realizador num longa-metragem cinematográfico. Há humor aqui também, mas é um humor empregado com minúcia e astúcia, feito mais para pontuar o andamento da narrativa e dela não fazer um desafio enfadonho ao expectador, assim como serve igualmente para salientar uma das muitas características notáveis de seu biografado.
Uma correção: “Trumbo” não é exatamente uma biografia.
Roach apropria-se do trecho mais significativo da vida do roteirista Dalton Trumbo, para com isso construir uma trama pulsante sobre o direito à liberdade de expressão: O período no qual, logo após ser contratado por um estúdio por um valor recorde, ele é incluído na famigerada ‘lista negra’ na Hollywood dos anos 1940, quando uma paranóia anticomunismo gerada a partir do fim da Segunda Guerra Mundial deu início à Guerra Fria e a uma chamada ‘caça às bruxas’ nos EUA.
Trumbo, comunista convicto e declarado, logo se torna persona non grata em Hollywood (sendo encarcerado, inclusive!) a despeito de seu talento sem igual como escritor e de sua considerável retidão moral como ser humano. Nessa condição, ele se vê obrigado a usar pseudônimos ou outras pessoas para assinar seus roteiros que, independente disso, conquistam grande sucesso chegando até a ganhar (em dois casos específicos: “A Princesa e O Plebeu” e “Arenas Sangrentas”), o Oscar da Categoria –os quais ele ficou anos se poder receber!
Esses percalços (cadeia, empobrecimento e árdua redenção), assim como os de sua família, são mostrados ao longo de décadas. Em meio à essa jornada, Roach não tem pudor em eleger Bryan Cranston como nosso condutor, plenamente consciente da sintonia incomum que ele conquista com o papel –não só é um trabalho de primorosa reconstituição gestual, como também é uma atuação brindada por trejeitos planejados e organizados com carinho e zelo, emoldurando assim as frases espirituosas e afiadas que ele dizia.
Felizmente, o elenco de apoio consegue refletir a competência de um protagonista tão bom (caso contrário, o filme padeceria de um incômodo desequilíbrio): Diane Lane, ainda linda e pontual, como sua esposa, Cleo; Elle Fanning, doce e expressiva, como sua filha, Nikola; Helen Mirren, britanicamente perversa como Hedda Hopper; Michael Stuhlbarg como Edward G. Robinson; Louis C.K. como Arlen Hird; e John Goodman como Frank King.
Agora é só aguardar e torcer para que este filme acertado, fluido e prazeroso seja apenas o primeiro de várias outras obras cinematográficas que venham a revelar o cineasta completo que é Jay Roach.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Infidelidade

Embora refilmado de uma obra de Claude Chabrol, “La Femme Infidéle”, este trabalho carrega todos os elementos característicos da filmografia de Adrian Lyne: Lá está o matrimônio colocado em xeque pelas peculiaridades da vida moderna que normalmente levam à tentação, à dúvida e, por conseguinte, à traição; lá está também o registro a um só tempo bucólico e refinado da classe média, executado por meio de um olhar de imagens de inapelável requinte (fruto da formação publicitária do diretor) e que, por vezes, ameaçam tornar sua história subserviente à elas.
Num dia bucólico, Connie (Diane Lane numa composição madura, sensual e exalando charme), moradora de East Valley, casada e mãe de um garotinho, passeia pelo bairro Soho, no centro de Nova York, em meio a uma ventania e, por acaso é convidada por um rapaz francês (Olivier Martinez, talvez um dos pontos fracos do filme) a entrar em seu apartamento. Inicia assim com ele um caso extraconjugal que, ao ser descoberto por seu marido (Richard Gere, surpreendendo numa composição meticulosa e cheia de serenidade) conduz suas vidas a proporções trágicas.
Especialista em filmes com a temática do adultério, Adrian Lyne compreende os detalhes e circunstâncias que dão o impulso moral, emocional e narrativo de sua trama (e eles são todos empregados com o magnífico estilo através do qual ele moldou o tenso e impactante "Atração Fatal" e o sensacionalista "Proposta Indecente"), mas que aqui encontra irônico distúrbio no seu ritmo lento que predomina no trecho final, apesar da excelência de suas imagens e, sobretudo, da brilhante interpretação do casal central.

Um grande filme, ainda assim.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Cotton Club

É curioso perceber que, excetuando os excepcionais clássicos pelos quais é lembrado, o diretor Francis Ford Coppola sempre teve uma carreira claudicante, realizando filmes em geral equivocados, como se tentasse perseguir aquele empuxo criativo que ele obteve com a trilogia “O Poderoso Chefão”, “Apocalypse Now”, “A Conversação” e “Drácula de Bram Stoker”. Não são tão poucos títulos assim, é verdade, mas basta lembrar o quando realizaram (e ainda realizam) seus amigos Steven Spielberg, Martin Scorsese e Brian De Palma para notar que Coppola é o mais oscilante deles.
Contudo, não é de se reprovar a atitude do produtor Robert Evans em bancar este que terminou sendo um fracasso comercial: Qual produtor negaria a chance de estar num projeto onde o diretor de “O Poderoso Chefão” revisita, sob um novo viés, o tema máfia?
No final da década de 1920, acompanhamos dois irmãos caucasianos que seguem caminhos diferentes no Harlem, bairro de predominância negra, em Nova York; enquanto um deles, Dixie Dwyer (Richard Gere), trompetista profissional, apaixona-se por Vera Cícero (Diane Lane, jovem e linda), amante do gangster Dutch Schultz (James Remar) –uma figura real que volta e meia desperta interesse no cinema, como em “Billy Bathgate-O Mundo À Seus Pés” onde foi interpretado por Dustin Hoffman; o outro irmão, Vincent Dwyer (Nicolas Cage), ao tornar-se capanga do próprio Schultz passa a trilhar caminhos mais violentos.
Paralelamente, vemos também a trajetória de outros dois irmãos, artistas negros, tentando sobreviver trabalhando na boate, pertencente à Owney Madden, outro gangster, que serve de palco para a maioria desses dramas: O Cotton Club.
Coppola logrou juntar aqui os elementos de dois de seus trabalhos: O colorido e a vibração musical jazzística de “O Fundo do Coração”, com a tensão e a violência impactante de seus dois épicos de “O Poderoso Chefão” (o último filme da trilogia ele só faria alguns anos depois).  Ele é bem sucedido na construção da atmosfera fervilhante e da cacofonia do Cotton Club onde se vê registrado todo o fluxo infinito de entrecruzadas linhas narrativas dos personagens, sejam eles os clientes, ou os artistas seja no palco, seja nos bastidores.
Todavia, a fusão de gêneros à que se presta não se cumpre harmoniosamente e o roteiro (nitidamente escrito e reescrito à exaustão) oferece inúmeras soluções tolas.

O melhor de tudo é a química fantástica (e um pouco mal aproveitada) entre Richard Gere e a bela Diane Lane (que tornariam a se reencontrar, com bons resultados, em “Infidelidade”, de 2002, e em “Noites de Tormenta”, de 2009). Coppola é um hábil diretor e consegue imbuir uma quantia considerável de charme à narrativa, uma pena que a equivocada escolha do apático e nada carismático James Remar para interpretar Schultz ponha tudo a perder...

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Ruas de Fogo

Já no inicio, o subtítulo onde surge escrito ‘Uma Fábula de Rock & Roll’ dá (ou deveria dar) a devida idéia do que virá pela frente: Uma produção absolutamente desprovida de realismo, na qual o expectador, antes de mais nada, deve comprar a idéia e embarcar na viagem dançante que o diretor Walter Hill propõe.
Em seguida, surgem as indicações ‘Num outro tempo. Num outro lugar” –de fato, é necessária uma certa abstração no que diz respeito à tentativa de ambientar a trama. “Ruas de Fogo” se passa num mundo à parte, recheado de um estranho futurismo-retrô para todos os lados: Uma direção de arte que aproveita partes do cenário empregado na ficção científica “Blade Runner-O Caçador de Andróides” (cuja inspiração, à propósito, foi o audacioso “Metropolis”, de Fritz Lang) serve de moldura para lanchonetes, motos, veículos, jaquetas de couro e cabelos engomados que remetem aos anos 1950 e 60, inclusive no onipresente comentário musical (pois a trilha sonora é quase uma personagem do filme, a influenciar sobre ele e sobre sua atmosfera todo o tempo). Suas ruas sempre estão molhadas e as cenas acontecem quase sempre à noite, como se a penumbra noturna fosse ali um período de tempo quase permanente: As seqüências à luz do dia são, quando muito, fugazes.
Embora de início isso tudo o faça parecer um corpo estranho na filmografia crua e realista de seu diretor, a trama –como perceberemos mais à frente –é uma espécie de amálgama de muitas das abstrações existentes nas obras cinematográficas de Walter Hill, sejam as que ele realizou, e as que ainda viria a realizar (“Ruas...” foi lançado em 1984).
A jovem e bela cantora, musa de multidões, Ellem Aim (Diane Lane, absurdamente linda) é raptada por uma gangue de desordeiros motociclistas. Seu atual namorado e empresário, o escorregadio Billy Fish (Rick Moranis, um ator irritante que emplacou alguns trabalhos nos anos 1980 e 90, e depois sumiu) contrata para resgatá-la o único homem capaz de executar o trabalho: O casca-grossa Tom Cody (Michael Pare, ruim feito uma ferida), justamente o ex-namorado da moça, que chegou à cidade para visitar sua irmã (Deborah Van Valkenburgh, que o próprio Hill dirigiu anteriormente em “Warriors-Os Selvagens da Noite”).
Auxiliado por uma garota de trejeitos masculinos (Amy Madigan, caricata como a grande maioria dos personagens), ele adentra o covil dos motoqueiros para tentar libertá-la e, se possível, confrontar seu perigoso líder, o ameaçador Corvo Shaddock (Willem Dafoe, como sempre hábil em encontrar o tom certo para o papel).
As cenas que se sucedem à tentativa desses personagens em escapar do julgo dos motociclistas são muito similares ao que Walter Hill fez em 1979, em “Warriors”, inclusive aproveitando o registro visualmente homogêneo e cartunesco que ele oferece das gangues, o quê parece fazer referência, por sua vez, ao seminal “Amor, Sublime, Amor”, nessa mescla de música, rebeldia e necessidade juvenil de extravasar certa agressividade.
Outra referência também, entre as muitas que o filme comporta, são os faroestes, uma visível paixão de Hill, que ele manifestou de modo mais explícito em outros filmes, como o árido “O Limite da Traição”, mas que aqui ganha expressão nas cenas de confronto (onde os antagonistas demonstram um insuspeito código de honra a pairar sobre a sordidez e a brutalidade), na postura dura e impassível de seu anacrônico protagonista (particularmente deslocado na cena final, em meio a um show de rock), e no traquejo com que as cenas de ação –sobretudo aquelas que envolvem armas de fogo –se desenrolam.
Pensar no quão curioso foi a diferenciada e certamente esmerada elaboração desse estranho mundo no qual Walter Hill ambientou sua “fábula de rock & roll” tornam ainda mais intrigantes os rumores de que este foi planejado como o primeiro capítulo de uma trilogia; seu final, ligeiramente aberto, deixa margem para essa especulação, com seu herói rumando para um pôr (ou nascer) do sol, não sobre a cela de um cavalo, mas a bordo de um pitoresco conversível, ao lado de sua masculinizada parceira. 

Sob O Sol da Toscana

Este é um filme que deve muito de seu fascínio ao brilho natural da atriz Diane Lane: É sua expressividade, e sua capacidade sublime e vívida de migrar de um humor para outro, que conduz as cenas. Outra atriz em seu lugar poderia não dar conta dessa tarefa e acabaria fragilizando a narrativa do filme.
Diane, para muitos, foi uma revelação tardia: Reconhecimento (e até mesmo status de estrela) ela só foi conquistar mesmo em 2002, quando já contava com quase quarenta anos (embora nunca tivesse deixado de ser linda), após sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “Infidelidade”, embora ela tenha tido uma carreira intensa e prolífica desde a década de 1980 –inclusive com diversas participações em filmes de Francis Ford Coppola.
Ainda bem que vários filmes se seguiram nos quais ela pôde mostrar sua desenvoltura, sua graça e beleza. “Sob O Sol da Toscana” é um exemplo de projeto que se encaixa com perfeição nessa descrição, e de quebra rende um prazeroso passatempo.
Quando começamos a acompanhar a trajetória da balzaquiana Frances (Diane, que foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical), uma escritora cujo processo recente de divórcio parece mergulhar sua vida numa espiral de desilusão e pessimismo, e que por isso encara uma viagem à Itália, a impressão que a condução leve, afetiva, colorida e alto-astral nos passa é a de que estamos assistindo à uma comédia romântica, tal é a semelhança de ritmo e tom. É com relativo prazer que percebemos na narrativa um ímpeto de adorável subversão quando surgem empecilhos pontuais para cada personagem que se manifesta como “o príncipe encantado da vez” para Frances. Os homens que aparecem tão solícitos, perfeitos e vistosos acabam revelando-se escorregadios, paternalistas e/ou desinteressados (e notamos que isso só pode ser mesmo um filme quando tais desventuras amorosas ocorrem com um deslumbre de mulher como Diane Lane!).
A questão é que o roteiro não quer ser uma mera comédia romântica: Assim, a trama leva Frances a encantar-se com uma vila na Toscana, da qual torna-se proprietária e passa a habitar, e a conviver com as ocasionais confusões de tentar reformar a propriedade. Novas personagens aparecem para lhe fazer companhia trazendo seus próprios problemas e complicações, como o jovem polonês (um dos carpinteiros) enamorado da filha do vizinho de Frances; ou a amiga (Sandra Oh) lésbica, grávida e abandonada pela companheira que surge para morar com ela.
Pouco a pouco, Frances vai se tornando o eixo de uma espécie de família.
Todos esses fatores parecem minimizar a busca por um par romântico, e enfatizar a necessidade de uma auto-descoberta.
Uma outra personagem também aparece para sugerir algumas intenções da direção: A sonhadora e exuberante Sylvia (Lindsay Duncan, numa interpretação completamente distinta da crítica teatral sisuda que ela viveu em “Birdman” alguns anos depois), que cita o tempo todo Federico Fellini –as menções mais constantes são, sobretudo, “A Doce Vida” e “Noites de Cabíria”, com a qual de fato a personagem de Frances tem uma certa similaridade.
Contudo, em sua singela graciosidade, o filme, no que diz respeito às referências a Fellini, fica só no terreno das menções mesmo, preferindo uma narrativa bem menos ácida: Pode-se dizer que em sua estrutura, ele está mais para “O Candelabro Italiano” do que para “A Doce Vida” –embora haja uma momento em que até a cena da Fontana Di Trevi é recriada.

Sendo assim, o que permite a “Sob O Sol da Toscana” estar mais próximo de ser uma experiência memorável é sua sensacional atriz principal, Diane Lane, dando enfoque inspirado a sua divertida personagem, e valorizando todo o filme no processo.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Batman Vs Superman - A Origem da Justiça

Então, estreou nos cinemas o filme com a qual a Warner Studios almeja construir um universo cinematográfico oriundo das páginas das HQs nos mesmos moldes (e de preferência com o mesmo sucesso de bilheteria) que a Marvel Studios fez.
"Batman Vs Superman" não é uma mera sequência de "O Homem de Aço", embora dê continuidade aos eventos mostrados naquele filme: Está mais para uma expansão.
Descobrimos, por exemplo, que a mitologia envolvendo o Superman era apenas mais uma em um universo carregado de complexidade, e que -como o título já deixa explícito -tudo é apenas o começo.
O verdadeiro protagonista é Ben Afleck, ou melhor Bruce Wayne, a identidade secreta de Batman, o vigilante mascarado que atua na cidade de Gotham. O diretor Zack Snyder registra as ações de Batman com uma proximidade muito grande, respeitosa e reverente, ao modo como ele foi caracterizado, com maestria, na "Trilogia do Cavaleiro das Trevas", de Christopher Nolan. A diferença é que, para acomodar todo um universo de seres super-humanos, o realismo foi deixado um pouco de lado, mas certamente não o tom sombrio. Logo, são imediatamente identificáveis os elementos com os quais este novo "Universo DC" pretende se distinguir do já muito bem estabelecido "Universo Marvel".
Lex Luthor é o vilão, e na atuação histérica, excessiva de maneirismos de Jesse Eisenberg, seu personagem parece querer emular com certo desespero o Coringa de Heath Ledger (e por aí se vê o quanto o trabalho de Nolan interfere, orienta e oprime o filme de Snyder). Luthor vê um inimigo no Superman por quem nutre instantânea antipatia, e o filme se desdobra em suas maquinações, por meio das quais levará os dois heróis a um embate. Tudo o mais é enrolação. E Zack Snyder enrola que é uma beleza neste filme.
Dono de um estilo visual marcante, ele pontua cena após cena com uma narrativa caprichada, uma fotografia de primeira, e uma montagem minimalista, que não cansa em momento algum (ainda que, dentre todos os seus filmes, este é o que mais perto chegou de fazê-lo).
Disso sobram muitas coisas boas: O Batman de Ben Afleck é um acerto feliz, para silenciar os muitos que reclamaram sem parar pela sua escolha; mas, a presença mais empolgante e eletrizante é mesmo a de Gal Gadot como a Mulher Maravilha.
Mas também sobram algumas coisas ruins: O Superman de Henri Cavill, aqui mais do que no filme anterior é possível perceber, cai nas armadilhas da canastrice de seu intérprete em diversos momentos; e o roteiro de Chris Terio (vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por "Argo") se excede em alguns momentos, exagera nas minúcias, para em seguida, revelar-se raso nas motivações de muitos dos personagens.
Mas, tudo isso é retórica. Os fãs de quadrinhos que irão ao cinema assistir esse filme provavelmente vão relevar a maioria dos lapsos, e focar-se no que o filme entrega de melhor: Uma experiência visual e sensorial vibrante e promissora para o universo que busca estabelecer, prodiga nas cenas de ação, vasta em detalhes, e carregada de sinergia e emoção.
E nisso, Zack Snyder continua muito bom.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O Homem de Aço (e os outros filmes do Superman)

 A trajetória do Superman no cinema não foi nada fácil. Começou muito bem nos anos 1970, quando Richard Donner fez aquele que até hoje é tido como uma das grandes adaptações de histórias em quadrinho para a tela grande, “Superman-O Filme” trazendo como astro um mais que perfeito Christopher Reeve. 
Não é à toa: O filme realmente é espetacular, e merece uma resenha bem detalhada qualquer dia desses. Prosseguindo, já na década de 1980, houve uma continuação (“Superman 2”), em parte dirigida por Donner, em parte pelo diretor de plantão Richard Lester, mas que (a despeito das irregularidades) impunha-se como uma digna continuação do primeiro filme.
 Richard Lester (que realizou a melhor versão até hoje de “Os Três Mosqueteiros” e sua continuação “A Vingança de Milady” que eu adoro) assumiu a função de diretor por completo no terceiro filme da série, que trazia Richard Brooks num papel coadjuvante que quase suplantava o tempo de cena de Christopher Reeve, tamanho era o equívoco de seu roteiro. 
O filme seguinte, “Superman 4-Em Busca da Paz”, assumia de vez a natureza de filme B que manifestava-se já no terceiro, meio que enterrando os planos de mais filmes envolvendo o famoso herói. Foram-se alguma décadas sem tentativas de emplacar novos filmes do Superman; em parte, porque as adaptações de histórias em quadrinhos não tinham a força nas bilheterias que possuem hoje; em parte, porque era sensato presumir que seria uma bruta encrenca tentar encontrar um ator que igualasse a perfeição de Christopher Reeve no papel. Com o sucesso de “Batman” de Tim Burton, em 1989, tudo mudou e os planos de novos filmes do Superman logo surgiram.
Mas, foi necessária toda uma década até que uma nova produção ganhasse a luz do dia: Em 2006, foi lançado “Superman-O Retorno”, realizado por Bryan Singer, diretor dos filmes dos X-Men, e que se assumia como continuação dos dois primeiros filmes, ignorando os acontecimentos do terceiro e do quarto filme. Não à toa, seu protagonista, Brandon Routh, foi escolhido devido à uma grande semelhança com Christopher Reeve. Todavia, “O Retorno” fracassou nas bilheterias, e houveram muitos motivos para isso: O filme era longo demais –pior, era enrolado demais! –e Bryan Singer confundiu sua adoração pelo filme original com a necessidade de replicar cenas inteiras sob o pretexto de fazer uma “homenagem”. O resultado, embora tivesse um ou outro admirador (e no fim das contas até fosse um filme assistível), acabou sendo um trabalho disperso e enfadonho. 
Os estúdios da Warner (detentores dos direitos do Superman, bem como de todos os heróis da DC Comics) não tardaram a buscar um meio de renovar o herói para o público atual, uma vez que a Marvel Studios passou a lançar sistematicamente um filme atrás do outro com seus heróis, colecionando sucessos –o quê ela faz, diga-se, até hoje! 
Foi assim que eles recrutaram o diretor Zack Snyder (vindo de duas bem-sucedidas e artisticamente brilhantes adaptações cinematográficas de cultuadas obras em quadrinhos, “300” e “Watchmen”) para recomeçar do zero a saga do Superman, estabelecendo um marco zero para o que viria a ser um universo de super-heróis, desta vez da DC Comics, a aportar nos cinemas, além da Marvel. Surgiu então, “O Homem de Aço” lançado em 2013. Zack Snyder corajosamente abria mão da icônica trilha de John Willians para o filme de Donner, e partia do princípio, dando uma arrojada reformulação para o Superman, num enfoque bastante distinto pensado pelo roteirista (e especialista em quadrinhos) David Goyer: Oriundo do extinto planeta Krypton, o jovem Clark Kent cresce buscando esconder seus assombrosos poderes, segundo a instrução de seu pai adotivo, Jonathan. Já adulto, ele toma conhecimento de seu legado e do plano que Jor-El, seu pai biológico tinha para ele: Ser um deus entre os homens, destinado a guiar seus passos. A partir dessas duas influências paternas distintas, Clark desenvolverá uma identidade secreta (o Superman) através da qual poderá proteger a Terra, e também viver a paz de uma vida normal.