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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O Diabo Veste Prada 2


 Como (ou por que) fazer uma continuação de um filme que, em si, já era uma obra enxuta, fechada e redondinha? É essa pergunta que “O Diabo Veste Prada 2” tenta responder cerca de 20 anos depois do filme original observando um viés bastante pertinente nas circunstâncias atuais – e que representa uma espécie de desafio temático para muitos realizadores – o fato irreversível de que o mundo está mudando.

Sem um livro-fonte para adaptar desta vez (o primeiro filme adaptava o best-seller de Lauren Weisberger, que jamais ganhou continuações), o roteiro de Aline Brosh McKinna trabalha em duas frentes principais: Na primeira, evidentemente, contemplando os vinte anos que se passaram, os efeitos disso no mundo da moda registrado em 2006 e agora em 2026, e certamente, nos personagens principais e em suas vidas; na segunda, no elemento intrínseco que funcionou às mil maravilhas no original (e que representou um certo diferencial entre o livro e o filme que dele resultou), os próprios personagens, seus intérpretes e a rica variedade cômica de suas interações.

Agora uma jornalista premiada, Andy Sachs (Anne Hathaway) testemunha a contradição dolorosa dos tempos modernos e desfavoráveis: Na mesma noite em que é vencedora de um prestigiado prêmio de jornalismo, ela (junto de todos os seus colegas) acaba demitida; o jornal impresso para o qual trabalhava não bancará mais matérias jornalísticas ao estilo de antigamente – somente as pautas rápidas produzidas na internet, por influenciadores e youtubers parecem importar no meio.

Paralelamente, um problema parecido está sendo enfrentado na RunWay, a revista de moda para a qual ela trabalhou no passado: A editora-chefe, a toda-poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep) pode estar com seu emprego ameaçado. A revista – que há tempos restringiu-se a ser digital – está passando por uma reformulação, fruto da influência cada vez maior do jovem Jay Ravitz (B.J. Novak, de “Bastardos Inglórios”) sobre o pai Irv Ravitz (Tibor Feldman), o presidente da RunWay, e também consequência do interesse cada vez maior do novo público por informação ágil.

Como se não bastasse, uma matéria desfavorável e equivocada publicada recentemente na revista afastou anunciantes, comprometendo a imagem de Miranda. A saída termina sendo contratar Andy como editora principal das reportagens da revista, buscando um tom mais sério, respeitável e que, ao mesmo tempo, alcance novos leitores.

O que vemos é, assim, um retorno às circunstâncias do primeiro filme – Andy trabalhando sob o crivo impiedoso de Miranda – desta vez, ligeiramente transfiguradas por características inerentes aos novos tempos: Ainda difícil de lidar (como atestam sucessivas situações envolvendo, sobretudo, a perplexa Andy), Miranda já não deflagra impunemente sua tirania; reclamações constantes feitas do setor de RH a obrigaram a ser mais moderada!

No entanto, é daí que o filme dirigido por David Frankel tira seu humor assim renovado – do fato de que as coisas são, agora, diferentes. O mesmo vale para alguns personagens, como Emily Charlton, vivida por Emily Blunt. Se no primeiro filme ela era uma das assistentes de Miranda, neste aqui, ela surge como uma executiva da Dior – uma das empresas que a RunWay almeja anunciar – e ganha inesperados rumos para sua personagem no terço final.

Os mais atentos notarão uma cadência quase similar e até simétrica com alguns dos acontecimentos do “Diabo Veste Prada” original – temos, mais uma vez, Nigel (Stanley Tucci) surgindo como mentor indireto de Andy; as sequências de golpe e contra-golpe se repetem na segunda metade; sem falar de todo o arco narrativo de Andy, de novo, dando a volta por cima profissionalmente; e uma repetição da clássica cena de diálogo dentro da limusine – contudo, este segundo filme acerta ao apostar num elemento que, no primeiro, já tinha sido evidentemente eficaz: A reafirmação de seus ótimos personagens, conduzidos por um elenco sensacional – desde o lançamento, há 20 anos, de “O Diabo Veste Prada” tornou-se lugar comum enaltecer a espetacular atuação de Meryl Streep (que, pra variar, está estupenda), no entanto, há que se falar dos maravilhosos trabalhos de Anne Hathaway (ela que em 2026 também esteve emA Odisseia”, de Christopher Nolan), de Emily Blunt (ela que em 2026 também esteve em “Dia D”, de Steven Spielberg) e de Stanley Tucci, aqui tão bons quanto no original, e das ótimas adições de Kenneth Branagh, Justin Theroux e Lucy Liu.

domingo, 2 de agosto de 2026

A Odisseia


 O que fazer após a consagração? Essa dúvida talvez tenha passado na mente de Christopher Nolan após ele ter arrebatado o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 2024 com “Oppenheimer”, e a resposta que ele encontrou foi... voltar ao início de tudo!

Como contador de histórias, Nolan sentiu que havia chegado a hora de tentar contar no cinema uma das mais antigas histórias da civilização, uma estrutura referencial para todas as jornadas arquetípicas que vieram depois – “A Odisseia”.

O próprio cinema de Christopher Nolan deve muito a esse poema ancestral de Homero: Lá estão as idas e vindas temporais (por meio de memórias sistematicamente resgatadas) que dão à narrativa um sedutor formato não linear, tal e qual Nolan fez em “Amnésia”, em “Tenet” e outras obras mais. “A Odisseia” é, em si, um modelo que sempre exerceu forte impacto sobre ele enquanto cineasta.

Logo, diante da sensação de ter chegado ao topo, Nolan se viu na necessidade de regressar (assim como Odisseu) ao ponto em que sua verve como contador de histórias floresceu. Regressar à Odisseia.

Não que não houvessem tentado adaptá-la (e muito) antes: Além de um sem-fim de tentativas de adaptação em formato longa-metragem ou minissérie (a maioria delas ostentando valores característicos de Filme B), “A Odisseia” é também a fonte e a influência para diversas outras variações narrativas no cinema como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, e (há quem diga) “Interestelar”, do próprio Nolan.

Era hora de aventurar-se a adaptar a obra original de fato e tentar dar a ela uma roupagem cinematográfica definitiva. E o resultado, como costuma ser nos melhores trabalhos de Nolan é ambicioso, abrangente, épico e assombroso.

Antiguidade. Já conta mais de uma década dos feitos cantados aos quatro ventos durante a Guerra de Tróia vencida pelas forças de Agamenon (o também diretor Ben Safdie), todavia, Odisseu (Matt Damon), o rei de Ítaca e um dos homens de confiança de Agamenon naquele longo conflito ainda não retornou para casa, nem para o leito de sua devotada esposa Penelope (Anne Hathaway). Há quem diga que perdeu-se no mar. Há quem diga que morreu. Enquanto esse impasse não se resolve, e enquanto a esperança por seu retorno se mantém inabalável em Penelope, as dezenas (quase centenas) de pretendentes à mão dela e ao trono de Ítaca se amontoam no palácio esbanjando da hospitalidade grega, entre eles, o pérfido e ardiloso Antinous (Robert Pattinson). Em algum momento, Penelope haverá de terminar o sudário que passa os dias tecendo, e quando o fizer, será o momento em que terá por obrigação escolher um deles, a despeito da injúria de Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu que, como a mãe, ainda nutre esperanças pelo retorno do pai. Um pai que ele não conheceu.

É, no entanto, a conturbada jornada de Odisseu em seu esforço para voltar para casa que ocupa todo o centro da narrativa de Nolan.

Finda a Guerra de Tróia (com o episódio do Cavalo de Tróia mostrado num segmento espetacular em flashback), Odisseu junta seus homens e prepara-se para a viagem em regresso à Ítaca, entretanto, uma série de contratempos acaba comprometendo seu retorno. Farto dos desmandos de Agamenon, ele segue por uma outra rota marítima que o leva à uma ilha habitada por um gigantesco ciclope das cavernas – na primeira das inúmeras cenas que provam a desenvoltura sem igual (e até então desconhecida e inexplorada) de Christopher Nolan para moldar sequências do mais puro terror.

Somente com o monstro derrotado, Odisseu e seus homens se dão conta de que, como a criatura mitológica que é, ele tem como pai uma das divindades (Poseidon, no caso) que, agora, se encontra enfurecido com Odisseu e haverá de dificultar sua volta para casa. E serão esses percalços, de exaspero inacreditável que acrescentarão mais dez anos ao regresso do Odisseu – que a guerra já havia afastado por uma década de Ítaca. O confronto com os gigantes, seguido do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton, ótima), a sombria sequência do reencontro com os combatentes da Guerra de Tróia, agora mortos, e a aparição de outras criaturas sobrenaturais dos mares como as sereias, o monstro que sucede o redemoinho de Poseidon e a deusa Calypso (Charlize Theron) que, em sua afeição por Odisseu, o aprisiona em sua ilha, destituído de suas lembranças, por sete longos anos.

Não há um único membro do elenco que, sob a batuta de Christopher Nolan, não esteja excelente, contudo, no campo das atuações primorosas é necessário chamar à frente Matt Damon, Tom Holland e Robert Pattinson, estupendos interpretando o trio que representa o cerne de todo o embate moral e emocional da trama – o homem em regresso ao lar em permanente conflito com as escolhas atrozes que a guerra lhe obrigou a fazer; o menino pressionado a virar homem a fim de preservar intacta a herança e a memória do pai; e o vil interesseiro oportunista a tentar valer-se de trapaça e perfídia a fim de prevalecer em vantagem sobre essas duas circunstâncias.

A obra de Homero é e sempre foi um fundamento em torno do qual os mais diversos enredos foram construídos ao longo dos séculos, Nolan recriou essa jornada monumental a partir de suas mais recentes adaptações e traduções, buscando a conciliação de uma linguagem moderna com os paradigmas inestimáveis que o poema original plantou na cultura literária do ocidente. Seu filme é uma recriação majestosa, vibrante e, em alguns momentos, até comovente do esforço de seu protagonista em se manter relevante e digno ante um mundo em transformação e suas imponderáveis provações – só o tempo dirá o quão contundente vai ser sua marca na História do Cinema, mas desde já “A Odisséia”, de Christopher Nolan, é um dos melhores e mais brilhantes filmes de 2026.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Uma Ideia de Você


 É curioso o que Hollywood tenta fazer com Anne Hathaway: Em “O Diário da Princesa”, filme que a revelou, tentaram convencer o público de que ela era feia (!), em “O Diabo Veste Prada”, de que ela era gorda (!!), e agora, em “Uma Ideia de Você”, de que ela é velha! Anne interpreta Solène Marchand, uma mulher divorciada, mãe de uma adolescente, dona de uma galeria de artes, à beira dos quarenta anos e incerta (quase desiludida) em relação ao amor. Numa inesperada viagem, na qual se vê obrigada a acompanhar a filha e outros dois amigos em um show do Coachela, Solène acaba –por meio de uma série de equívocos certeiros que volta e meia se sucedem na ficção –indo parar no trailer de uma celebridade, um dos membros de uma das boy bands do momento, o jovem cantor Hays Campbell (Nicholas Galitzine, do romance “Vermelho, Branco e Sangue Azul”).

Colhido pela embriaguez do amor à primeira vista, Hays reencontra Solène em outra ocasião logo depois –quando entram, ela e a filha, numa fila para pegar autógrafos –e dedica uma música para ela durante o seu show. Dias depois, acaba indo parar (sob a desculpa de adquirir obras de arte para seu apartamento em Londres) na galeria dela, e assim, de situação em situação –e numa agilidade que os romances quase só encontram no cinema –os dois pombinhos vão se enredando na paixão, sempre com a distância da idade a pesar sobre eles, principalmente para Solène –ainda que, de fato, Anne Hathaway não aparente ter idade para ser mãe dele, ao contrário do que ela própria diz várias vezes ao longo do filme.

“Uma Ideia de Você” é baseado no livro de Robinne Lee, um romance açucarado, antenado às predisposições comerciais e aos anseios românticos de uma determinada parcela do público ao qual o filme deseja de pronto se dirigir: Mulheres, numa idade acima dos vinte e poucos anos. Há, inclusive, um persistente rumor a correr pela internet (negado veementemente pela autora) de que “Uma Ideia de Você”, o livro, teria sido inspirado numa fanfic (uma ficção eventualmente escrita por fãs sem qualquer aspiração comercial ou profissional) protagonizada por Harry Styles, o membro mais proeminente da banda One Direction –e, de fato, embora o filme cautelosamente conserve certa distância de uma caracterização mais explícita, há muito em comum entre o personagem Hays Campbell e a persona real de Harry Styles (entre outras coisas, o fato de serem britânicos).

Ancorado na presença sólida de Anne Hathaway –de longe, o nome mais relevante de todo o elenco –o filme dirigido por Michael Showalter (diretor de “Os Olhos de Tammy Faye”, com Jessica Chastain) parece tão confiante na trama esmiuçada no livro, tão intoxicado pelo apelo certeiro do gênero romântico abordado, que pouco faz além do básico para que seu resultado final se imponha com primazia na tela. Fica no ar uma alusão, não completamente explorada, ao enredo do ótimo “Um Lugar Chamado Notting Hill”, no qual um rapaz comum se envolve romanticamente com uma grande estrela de cinema. No entanto, em “Uma Ideia de Você” são as diferenças entre esses dois filmes que mais parecem se impor: Em primeiro lugar, porque aquela trama era acompanhada do ponto de vista masculino e aqui, atendendo à demanda do público para o qual é feito, o ponto de vista é feminino; em segundo, por “Notting Hill”, muito habilidosamente, se concentrava no árduo e, por que não, divertido processo em que um relacionamento tão assim improvável se materializa e se torna real –em “Uma Ideia de Você”, a concretização do romance até que acontece relativamente rápido e fácil (ou, ao menos, é assim que o filme faz parecer), se debruçando com mais minúcia sobre os contratempos enfrentados pelo casal para manter-se junto. Essa é a questão em torno da qual o filme deseja refletir: O quanto as pessoas –os fãs, a internet, os membros da família, os amigos –se predispõem a opinar e a julgar um relacionamento alheio quando este vem envolto em circunstâncias que fogem do normal (neste caso, a nem tão aparente diferença de idade), e tão mais sujeito ao escrutínio está esse relacionamento quando uma das partes é uma celebridade cuja posse reclamada dos fãs ignora o direito que a pessoa tem de viver uma vida íntima.

Embora seja esse seu diferencial, o filme de Michael Showalter, com suas conclusões melodramáticas, e com a desenvoltura limitada do diretor e de seu elenco de apoio para a encenação de sentimentos conflituosos (além de um desfecho omisso e nada climático), acaba reservando ao expectador um sabor um pouco amargo.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Calmaria


 No papel, a trama de “Calmaria” até que parece instigante e promissora –e certamente se deve a isso o bom elenco que o projeto conseguiu reunir –no entanto, em sua execução, o filme de Steven Knight (roteirista de “Coisas Belas e Sujas”) é falho e equivocado. Seu protagonista é um certo Baker Dill (vivido com inicial apatia por Matthew McConaghey), homem em cuja vida, nada é muito certo: Não é muita certa sua ocupação (de levar à bordo de seu barco, em passeios no alto-mar, turistas pagantes) uma vez que, já na cena que abre o filme, Baker despreza seus clientes para concentrar-se no que parece ser uma obsessão –pescar um imenso e lendário atum que lhe escapa sempre que está prestes a capturar. Não são muito certos seus relacionamentos, como a amizade pouco recíproca do indulgente Duke (Djimon Hounsou, de “Shazam!”) ou o convulsivo sexo casual que mantém com a ainda mais indulgente Constance (Diane Lane, desperdiçada). Nem é muito certa sua vontade de permanecer naquela longínqua ilha de Plymouth, onde todos vivem a trabalhar para depois encher a cara no bar local. Para Baker Dill, não é muito certo nem mesmo quem ele é: Outrora, ao que tudo indica, ele se chamou John Mason, e desistiu de tudo após um traumático período na Guerra do Afeganistão.

De tudo, exceto de seu filho, Patrick (Rafael Sayegh) com quem, mesmo estando em algum outro lugar e há anos sem se verem, Baker mantém uma conexão que parece sobrenatural. Essa estranha rotina muda com a chegada de Karen (Anne Hathaway, extremamente deslocada), socialite loira que surpreende a muitos revelando-se ser ex-esposa de Baker. Ela precisa do ex-marido para um serviço improvável –seu atual marido Frank (Jason Clarke) é um homem violento que a ameaça e ao seu filho. Para livrar-se dele –que aparecerá por Plymouth nos próximos dias interessado num providencial passeio à barco –Karen pagará 10 milhões de dólares para que Baker deixe-o afogar-se no oceano.

A dúvida está instalada no pensamento do personagem principal e um certo suspense, na narrativa. Contudo, embora “Calmaria” –ou “Serenity”, seu título original que dá nome ao barco do protagonista –traga todos os elementos de um filme noir com ambientação caribenha –a femme fatale trazendo problemas ao calejado herói; o assassinato encomendado com ares de um mistério ainda por se resolver; o vilão criminoso, inescrupuloso e perigoso como manda o figurino –ele não é um de fato: Lá pelas tantas, “Calmaria” se sai com uma espécie de reviravolta que coloca todas as coisas de pernas pro ar e transforma por completo a percepção (e o próprio gênero) do filme que vínhamos assistindo. É uma guinada similar àquela presente, num dado momento, em “Vanilla Sky”, ou em “Clube da Luta” –com a grave diferença de que nesses filmes citados, tal guinada funciona...

Dirigindo seu próprio roteiro,  Steven Knight demonstra apreço fora do normal por obras que levam às últimas consequências o conceito em que nada é o que parece ser, em especial os trabalhos assinados por Christopher Nolan, como “Amnésia” e “A Origem” –e não é à toa, portanto, que seus protagonistas sejam McConaghey e Hathaway, reunidos também por Nolan em “Interestelar” –porém, ele deixa seu fascínio como expectador confundir sua perspicácia como realizador e constrói um filme de justificativas incertas, de cenas realizadas para soarem intrigantes mas que resultam apenas idiotas, e de personagens que, devido à fraca direção, nunca dizem em suas posturas de fato à que vieram.

E, a partir daqui, leitor, a resenha irá abordar abertamente as surpresas do filme, portanto, considere-se aviso de spoilers!

 Talvez, o grande lapso de “Calmaria”, seja o fato de que a sua grande reviravolta surpresa pode ser antecipada a partir de um determinado ponto pelo expectador que estiver mais atento –uma falha grave num filme cuja proposta central é mostrar-se surpreendente e inesperado. Dentro do enredo que norteia “Calmaria”, todos os personagens (sobretudo Baker) são integrantes de um jogo de videogame projetado pelo menino Patrick em sua solidão. Ele coloca seu pai –morto em combate –como personagem central (e o mote do jogo é tentar pescar o atum, daí a sua obsessão) e, por isso, todos os demais personagens em volta dele se mostram obsequiosos, solícitos aos seus interesses e subservientes aos seus objetivos, mesmo que ele nunca forneça motivos para que se comportem assim. A aparição de Karen significa, assim, que as aflições da vida doméstica de Patrick –na qual o padrasto lhe hostiliza –começam a interferir na harmonia idílica daquele mundo paradisíaco que ele criou. As discrepâncias dessa obra, contudo, falam muito alto; por exemplo: Acaba soando grosseira a constatação de que o jovem, uma vez sendo o idealizador de toda a narrativa que se sucede em Plymouth, imaginou, ele próprio, uma transa entre seu pai e sua mãe, na noite anterior ao dia fatídico (!).

Com essa estranha e mal-costurada mescla de gêneros que se pretende inesperada (mas, é só estranha mesmo), Steven Knight esperava urgir uma obra nos moldes dos trabalhos de Nolan, entretanto, terminou criando algo que se aproxima mais da irregularidade e da esquisitice do inconstante “O Segredo da Cabana”, de Drew Goddard.

domingo, 3 de julho de 2022

Agente 86


 Há tempos Hollywood tinha interesse em revisitar a bem-sucedida série dos anos 1960 “Agente 86” e, se possível, fazer dela um sucesso de público aos olhos de uma nova geração de expectadores.

A oportunidade surgiu quando a estrela do comediante Steve Carell foi revelada em “O Virgem de 40 Anos” –talentoso, de um humor afiado e de certa maneira sintonizado com o público atual (timing garantido por sua presença também numa outra série, “The Office”, versão americana de um show originalmente inglês), Carell era de fato a escolha perfeita para interpretar Maxwell Smart, o famoso Agente 86; até mesmo parecido com Don Adams, o engraçado intérprete original, ele era!

Na trama, Maxwell Smart, um mero analista e agente júnior do departamento norte-americano de contra-espionagem intitulado C.O.N.T.R.O.L. tem a chance de sua vida para provar seu valor aos olhos de seu Chefe (o ótimo Alan Arkin, que esteve ao lado de Carell em “Pequena Miss Sunshine”), e sair da sombra do superestimado Agente 23 (Dwayne ‘The Rock’ Johnson, num de seus primeiros personagens cômicos e mais distanciados dos sisudos heróis de ação): Promovido a agente de campo, quando outros mais experientes se veem expostos graças aos resultados de uma conspiração, Smart, agora com o codinome de Agente 86, deve executar uma missão tendo por companheira a também não muito experiente Agente 99 (Anne Hathaway, uma bela escalação), onde têm de despistar os perigosos integrantes da C.A.O.S., um sindicato do crime cujo líder, Siegfried (Terence Stamp), cultiva planos de dominação mundial.

Se a sinopse da produção soava genérica em relação a qualquer aventura de espionagem que se preza, isso já era sinal de que o filme dirigido por Peter Segal (de “Ajuste de Contas” e “Tratamento de Choque”) não fazia o menor esforço em seguir por um caminho diferenciado: “Agente 86” abraçava todos os reflexos condicionados e peculiaridades do gênero para, no máximo, tentar lhes atribuir uma sátira que seja original, esquecendo, contudo, que satirizar a realidade (o panorama sócio-político em foco nas premissas de espionagem, no caso) não é nem nunca foi sinal de inovação ou ineditismo. Nota-se certa pretensão em “Agente 86”: Apesar de alguns acertos em sua realização, salta aos olhos o fato de que esta é, essencialmente, uma obra ‘de origem’ –nela, os elementos que definem o protagonista e a mitologia que o cerca vão sendo agregados aos poucos, indicando, portanto, necessidade de uma continuação –e, mais que isso, o objeto central de todo um planejamento (logo à reboque de seu lançamento, foi lançado também, direto para homevideo, um spin-off, “Agente 86- Bruce & Loyd Fora de Controle”, protagonizado por dois personagens coadjuvantes, vividos por Mais Oka e Nate Torrence), o que, dada sua tímida repercussão, não materializou-se nos planos ambiciosos que o estúdio tinha.

A meia hora final chega a agregar um ritmo vertiginoso à mistura, o que termina potencializando muito melhor seu humor de desenho animado e a extrema adequação de Steve Carell, Anne Hathaway e Alan Arkin aos seus personagens –eles se revelam bastante inspirados na caracterização dos papéis de Adams, Barbara Feldon e Edward Platt, respectivamente. Mas, é uma constatação um pouco desfavorável que um filme promissor só venha a encontrar-se de fato em seu terço final.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Os Miseráveis

Apesar de Anne Hathaway ter levado (com méritos) o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2013 pela sua poderosa presença como a trágica Fantine na primeira parte da trama (e ela de fato interpreta com esforço e primazia), o prêmio mais merecido para o filme de Tom Hooper foi mesmo o Oscar de Melhor Mixagem de Som.
Explica-se: “Os Miseráveis” é uma espécie muito incomum de musical; ele foi rodado com gravação sincrônica dos atores cantando para a câmera, a exemplo de muitas outras obras pregressas, no entanto, num escopo técnico antes tido por inimaginável, daí ser extraordinariamente notável a capacidade dos técnicos em capturar as vozes dos atores, filtrá-las de toda infinidade de sons poluentes e eventuais da cena e emoldurá-las com a melodia da trilha sonora para dali obter as músicas que compõem e ajudam sistematicamente a contar a história antes imaginada pelo escritor Victor Hugo no romance literário, e depois adaptada por Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, na versão teatral e musical que tanto sucesso fez nos palcos para então aqui ser vertida para o cinema.
O ano é 1817. Conhecemos o protagonista, Jean Valjean (Hugh Jackman, maravilhoso) um francês condenado à escravidão por ceder à fome; roubou um pedaço de pão para si a para a própria irmã. Durante sua liberdade condicional (que chega depois de 19 longos anos), Valjean aproveita e foge. Logo ele descobre que precisa abandonar sua identidade se tiver alguma intenção de prosperar naquela França do Século XIX: A discriminação para com ex-prisioneiros, como é o caso dele, chega a ser intolerável.
Descobre outra coisa também: O valor da solidariedade e do apego à Deus.
Cerca de oito anos se passam, e então Valjean (chamado agora pela nobre alcunha de Monsieur Prefeito!) é um homem rico, dono de uma tecelagem. É lá que trabalha Fantine (Anne), moça virtuosa (busca sempre fugir do assédio insidioso do contramestre) que não tarda a ter sua própria cota de drama: Mandada embora do emprego graças às crueldades perpetradas por suas colegas, Fantine não tem dinheiro para sustentar sua filhinha Cosette, e por conta disso, vende seus cabelos, depois seus dentes e, por fim, sua honra (se prostitui) para então perecer. Em seu leito de morte, Valjean –que sente-se culpado por não ter tido a oportunidade de ampará-la –lhe promete que será um pai para Cosette dali para frente, e a tira de seus insensíveis e inescrupulosos tutores, o casal Thénardier (interpretado com histrionismo por Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter).
Os anos tornam a se passar com Valjean sempre sob a sombra da rancorosa perseguição do obstinado Inspetor Javert (Russell Crowe, equilibrando a truculência do personagem com uma inesperada desenvoltura como cantor).
Então vivida por Amanda Seyfried, Cosette se apaixona por Marius (Eddie Redmayne), um jovem abastado que engrossa as fileiras da Revolução Francesa na luta pelos direitos do povo oprimido. Cosette e Marius formam com a filha dos Thénardier, Eponine (Samantha Banks, única oriunda da montagem teatral), um triângulo amoroso a movimentar a trama.
Neste ponto, Valjean se vê num dilema entre tornar a fugir (e recomeçar a vida), mais uma vez longe do encalço de Javert, ou finalmente separar-se Cosette, que ele ama como filha, deixando-a tentar a felicidade ao lado de Marius.
Não faltam tristezas em profusão a se abater sobre os personagens neste trabalho de Tom Hooper no qual o expectador deve saber, de antemão, que todos os diálogos são cantados ao invés de declamados –com isso, “Os Miseráveis” é uma sucessão de canções ocasionalmente antológicas, tão famosas que muitos talvez nem saibam que provêem desta obra, como é o caso da sofrida e ritmada “Look Down”, da célebre e visceral “I Dreamed A Dream”, da envolvente “My Life, A Heart Full Of Love”, e de várias outras.
Nesse sentido, o trabalho do diretor Hooper (que antes havia levado o Oscar de Melhor Filme por “O Discurso do Rei”) não prima por modéstia: Em sua exuberância rasgada e seu romantismo intoxicante, ele por vezes pode exaurir o expectador. Entretanto, para aqueles dentre o público que forem capazes de lhe fazer a travessia, “Os Miseráveis” reserva uma experiência de arrebatamento insuspeito e emoção irrestrita.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Oito Mulheres e Um Segredo

Amigo de longa data de Steve Sodenbergh, o diretor Gary Ross (de “Seabiscuit” e “Jogos Vorazes”), não pestanejou quando surgiu-lhe a oportunidade de reverenciar a mais lucrativa e bem-sucedida realização dele: O formidável filme de assalto “Onze Homens e Um Segredo” que refilmava com pompa e circunstância um filme estrelado por Frank Sinatra e rendeu toda uma trilogia de relativo sucesso.
A nova versão de Ross pega carona num esforço artístico em Hollywood em enaltecer protagonistas femininas, e é a partir desse ímpeto que chegamos à personagem de Debbie Ocean (Sandra Bullock), não só irmã do protagonista Danny Ocean vivido por George Clooney, mas também introduzida de modo muito semelhante a ele próprio no primeiro filme.
Debbie sai da cadeia após uma pena de cinco anos. E sai com um plano meticulosamente arquitetado. Ainda nebuloso (embora maiores informações não tardem a chegar), o plano de Debbie não deixa imediatamente claro os detalhes de sua execução e nem, no fim das contas, os objetivos verdadeiros por trás dele.
É no andamento característico de um filme clássico de assalto –e que Sodenbergh soube executar como ninguém –que o diretor Ross demonstra estar se esbaldando: Ele saboreia cada etapa, desde o recrutamento das aliadas até o planejamento do golpe e, por fim, sua tensa e inquieta realização.
Na primeira dessas etapas, ele introduz o elenco notável que conseguiu arranjar: Além de Bullock (cuja excessiva sisudez da protagonista atrapalha suas chances de revelar-se simpática), há também Cate Blanchett como Lou, a aliada N° 1 de Debbie; a divertida Helena Bonham-Carter como a estilista Rose Weil; a prestidigitadora Constance (Awkwafina), capaz de roubar um relógio de pulso debaixo do nariz do dono; a hábil hacker Bola 9 (a cantora Rihanna); a especialista em jóias Amita (Mindy Kaling) e a comparsa Tammy (Sarah Paulson).
A intenção é roubar um colar de diamantes de valor vultuoso durante as festividades do Baile Met Gala, em Nova York, repleto de celebridades.
Uma dessas celebridades vem a ser Daphne Kluger (Anne Hathaway, a mais sensual, mas também a mais histriônica do elenco) que o grupo reunido em torno de Debbie irá tramar para que seja a pessoa a usar o colar naquela noite. Trajada num vestido desenhado por Rose Weil, observada de perto pela infiltrada Tammy, e vigiada de perto pelas tecnologias de segurança que Bola 9 tratará de burlar, ela será, no momento certo, um alvo fácil para as mãos ágeis de Constance que irá tirar-lhe o colar e passa-lo à Amita (instruída a desmontá-lo) e à Lou.
Na referência clara e nada disfarçada que concebe, Gary Ross se coloca, de livre e espontânea vontade, numa espécie de armadilha: Pelo mesmo formato narrativo que adota, o clima, o ritmo e a atmosfera similares que evoca, e até por algumas bem-vindas participações especiais (Elliot Gould e Qin Shaobo marcam presença, e bem que George Clooney podia ter aparecido também...), tudo em seu filme faz lembrar “Onze Homens...” e, por consequência, com ele ser comparado –e por esse prisma, o filme de Ross, ainda que simpático e gracioso, não chega aos pés da excelência da obra de Steve Sodendbergh.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Garotas Sem Rumo


Em sua estréia num longa-metragem de ficção a premiada documentarista Bárbara Kopple fez um notável e dramático estudo de comportamento no qual procurou honrar a idéia de uma amiga: A argumentista original, Jessica Kaplan (a quem o filme é dedicado) faleceu enquanto o projeto ainda se achava em pré-produção.
Dessa forma, o roteiro acabou ganhando um polimento luxuoso. Stephen Gaghan, o premiado roteirista de “Traffic”, deu continuidade à concretização da trama e dos personagens a partir do esboço inicial e da intenção de Kaplan, e o resultado desse esforço é insidioso e em alguns momentos excessivamente indulgente para com os jovens da geração que retrata. Não falta neles –como fica especialmente patente na protagonista vivida por Anne Hathaway –inteligência, esclarecimento e auto-consciência das mazelas do mundo e seu papel na sociedade.
Nada disso impede, contudo, que essa jovem experimente uma espécie de vazio existencial, que em argumentos propensos ao drama, costuma sempre ser o gatilho para o questionamento.
Como suas amigas, ela é uma garota da classe-alta, moradora do bairro chique de Palisades, em Los Angeles. E como elas, busca no despojamento uma atitude que a faça existencialmente confortável com sua condição.
No entanto, ao que tudo indica isso não basta.
Na busca por algo que tire o tédio de sua rotina, ela e sua melhor amiga (Bijou Phillips) acabam se envolvendo com rapazes pobres da periferia latina, que têm de traficar droga para obter dinheiro. A proximidade do perigo as excita, mas evidentemente ameaça suas vidas. Logo, elas envolverão amigos, amigas, pais e namorados, num conflito inevitável.
Apesar dos predicados, este filme é lembrado como o filme em que Anne Hathaway (de "O Diário da Princesa") parece pela primeira vez nua.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

O Diário da Princesa

Este típico filme da Disney (com todos os benefícios e ressalvas dessa afirmação) sempre foi mais lembrado como sendo a estréia da bela Anne Hathaway no cinema (não foi, ela estreou de fato num filme independente chamado “O Outro Lado do Céu”, filmado antes, mas lançado depois) e também por trazer, depois de um longo hiato de tempo sem filmar, a grande Julie Andrews de volta aos holofotes.
Na simplicidade e singeleza que o trabalho do diretor Garry Marshall ostenta ele não parece (e talvez nem queira) fazer jus a nenhuma dessas afirmações: “O Diário da Princesa” adapta com largas liberdades criativas, a obra de Meg Cabot sendo pouco mais que um passatempo juvenil, um filme adolescente notadamente realizado por um veterano que enxerga a própria adolescência com um sentimentalismo idealizado, um romantismo pouco verossímil e um inofensivo filtro familiar –mais ‘Disney’ impossível!
Vivida com encanto desengonçado apropriado por Anne Hathaway (e que providencialmente experimenta no filme aquela metamorfose típica de ‘patinho feio’ para a garota linda que é de fato), a protagonista Mia Termopolis é uma menina deslocada em sua escola.
Desajeitada e desastrada, ela mal é percebida pelo garoto por quem é apaixonada. Quando muito, ele tropeça nela pelos corredores do colégio.
Mas eis que surge uma certa avó paterna (Julie Andrews, sempre de uma classe indefectível) que Mia nunca conhecera, com uma notícia que muda a vida dela de cabeça para baixo. Sua avó é na verdade a ilustríssima monarca da longínqua nação de Genóvia, e Mia é a sucessora direta ao trono, o que a torna assim uma princesa.
Sabe-se lá porque o roteiro deste filme oferece soluções e situações que diferem do argumento um pouco mais bem estruturado do livro e cria assim armadilhas para si mesmo –há muitas explicações que nunca soam convincentes ou coerentes quando o público começa a se perguntar porque Mia era uma princesa e ninguém em sua vida fez muita questão de lhe explicar isso.
Como forma de rebater esses detalhes com um tom lúdico, o tratamento dado pelo diretor Marshall, tão insistentemente ingênuo, procura dar ao filme o mais pasteurizado dos aspectos de contos de fadas.
Atenção ele tem aos aspectos que, no argumento, o fascinam de fato: Como a variação de “Pigmalião” (presente, também ela, na premissa de “Uma Linda Mulher”) na qual a jovem Mia terá agora que provar a si própria e a todos a sua volta que existe uma princesa dentro daquela menina de cabelos despenteados e gestos atrapalhados. Ele também promove uma mudança na dinâmica entre os personagens da avó-rainha e seu guarda-costas Joe (interpretado pelo ator-assinatura de Marshall, Hector Elizondo): Eles são, aqui, enamorados que ocultam sua relação do mundo exterior –manobra possível graças à química genuína entre Julie e Hector.
É um filme simples e inofensivo, para dias mais leves e mentes mais desocupadas –a definição, durante muito tempo, de entretenimento para os Estúdios Disney.

sábado, 30 de setembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2013

(Todo o sábado, agora, haverá uma retrospectiva das cerimônias do Oscar de anos pregressos em ordem regressiva. Vamos ver até onde vai...)
Foi o ano da consagração de Ben Affleck. E que bom que ela veio por um filme digno, bem estruturado, caprichado e merecedor do enaltecimento, ficou só um gosto estranho na boca pelo fato da Academia sequer tê-lo indicado ao Oscar de Melhor Diretor, que acabou ficando com Ang Lee, por um trabalho que considero inferior ao que ele já fez no passado.
Todos adoraram a vitória da Jennifer Lawrence como Melhor Atriz –alguns, especialmente depois dela ter caído nas escadarias do palco –mas, ainda acho que quem merecia era mesmo Jessica Chastain por “AHora Mais Escura”.
De resto, foi muito bom testemunhar a aclamação sem precedentes à Daniel Day-Lewis por seu grande trabalho em “Lincoln”, para compensar o obviedade que foi ver Anne Hathaway e Christopher Waltz vencerem como Coadjuvantes por “Os Miseráveis” e “Django Livre”, respectivamente.

MELHOR FILME
"Argo"

MELHOR DIREÇÃO
Ang Lee, "As Aventuras de Pi"

MELHOR ATRIZ
Jennifer Lawrence, "O Lado Bom da Vida"

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis, "Lincoln"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Anne Hathaway, "Os Miseráveis"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christopher Waltz, “Django Livre”

MELHOR FOTOGRAFIA
"As Aventuras de Pi"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Searching For Sugar Man"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Inocente"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Amor" (Áustria)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Os Miseráveis"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"As Aventuras de Pi"

MELHOR MAQUIAGEM
"Os Miseráveis"

MELHOR FIGURINO
"Anna Karenina"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"A Hora Mais Escura" e “007-Operação Skyfall

MELHOR DESIGNER DE PRODUÇÃO
"Lincoln"

MELHOR TRILHA SONORA
“As Aventuras de Pi"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Skyfall", de "007-Operação Skyfall"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Django Livre"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Argo"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Valente"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

MELHOR EDIÇÃO
"Argo"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Curfew”

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Colossal

Não é, de modo algum, casual o fato de que os ataques do monstro mostrado neste filme se sucedem na cidade de Seul, capital da Coréia do Sul: O filme do diretor Nacho Vigalondo é, sobre diversos aspectos, fortemente influenciado pelo cinema incomum e vigoroso praticado pelos cineastas de lá.
Herda deles, por exemplo, uma premissa insana e surreal: A nova-iorquina Gloria (Anne Hathaway, recuperando um pouco do brilho perdido nos últimos anos), devido à sua incapacidade de lidar com suas bebedeiras, foi praticamente expulsa de seu apartamento pelo namorado Tim (Dan Stevens, da série “Downton Abbey”) e agora não tem outra opção senão voltar a morar na casa onde cresceu. O reencontro com antigos amigos de juventude é inevitável; e quem ela encontra é Oscar (Jason Sudeikis, uma presença bem menos cômica do que se poderia esperar) que por ela parece nutrir um desejo ainda não resolvido e lhe oferece emprego de garçonete no bar suburbano herdado do pai –logo ela, que precisava de distância das bebidas para refazer sua vida!
Com o tempo, Gloria estabelece um círculo de amizades: Além do prestativo Oscar –que não tardará, também, a revelar um intempestivo lado negro –seus companheiros de bebedeira são o filosófico e viciado Garth (Tim Blake Nelson, de “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”) e o jovem Joel (Austin Stowell).
Ah, sim, existe o detalhe essencial que acrescenta insanidade e surrealismo ao enredo: Paralelo à esse colapso em que anda sua vida surge, lá na Coréia do Sul, um monstro misterioso levando destruição e medo à população.
Tal monstro é a própria Gloria (!): Ao pisar na área de um parquinho próximo de sua casa num determinado horário (e a explicação para esse fenômeno, ainda que previsivelmente mirabolante e até redundante, vem perto de seu final), o monstro se materializa em Seul, e realiza exatamente os mesmos movimentos que ela também faz (!).
O temor dela em machucar inadvertidamente pessoas do outro lado do mundo é ampliado quando o próprio Oscar descobre que, assim como ela, também pode se materializar em Seul –por sua vez, como um robô gigante (!). A partir daí, Oscar dá vazão a todos os seus ressentimentos por Gloria demonstrar atração por Joel e não por ele, o quê compromete a segurança dos sul-coreanos, e dá a Oscar um meio de chantagear e controlar a vida de Gloria.
A saída que ela encontra para esse desenlace é até bastante inventiva e inesperada.

A tradição dos filmes de monstros do cinema comercial é antiga e ampla, envolvendo exemplares como o clássico “King Kong”, e suas várias versões e reformulações, o suspense em found-footage “Cloverfield-Monstro”, o famoso “Godzilla” –protagonista de incontáveis produções –e diversos outros títulos que passeiam por superproduções e pérolas do cinema trash. À essa vasta coleção, Vigalondo acrescenta um de seus mais desiguais espécimes: Um filme de monstro que é, também, um drama psicológico sobre as frustrações acarretadas pela falta de amadurecimento, no qual as facetas de cinema fantástico, embora inseridas com um mínimo de plausibilidade na trama, são também metáforas sobre a dinâmica abusiva nos relacionamentos desfigurados pelo rancor e pela mágoa.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O Segredo de Brokeback Mountain

Um dos grandes trabalhos da carreira de Ang Lee, pelo qual ele conquistou seu primeiro Oscar de Melhor Diretor (o segundo viria por “As Aventuras de Pi”), este filme vinha, como era de se imaginar, embalado num tema controverso: O romance proibido entre dois homens.
O curioso é que o tratamento dado pelo diretor Lee conduzia a história como qualquer romance, ignorando o gênero dos protagonistas envolvidos: Uma forma austera e admirável de se abordar uma trama que poderia involuntariamente resvalar em várias posturas sócio-políticas.
O filme em si agradou público e crítica e a maior polêmica que o cercou envolvia mais os veículos de mídia que não lhe davam o devido enaltecimento, e os prêmios que lhe eram negados por um suposto preconceito (um deles, o Oscar de Melhor Filme).
A narrativa de Lee, que se estenderá pelo filme ao longo de décadas, começa nos anos 1960, ao apresentar, com minúcia exclusiva e detalhamento cuidadoso os dois cowboys que serão protagonistas do filme, Ennis Del Mar e Jack Twist (Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, ambos de um brilhantismo interpretativo à toda prova).
E aí já tem-se a primeira manobra notável de sua premissa: Os personagens principais deste romance homossexual são também figuras emblemáticas de um gênero cuja postura e atitude é sempre relacionada à uma arraigada masculinidade tradicional: O western.
Ennis e Jack empregam-se para trabalhar como pastores de ovelhas durante uma temporada na montanha de Brokeback, para juntar dinheiro cada um movido por suas próprias razões.
Durante o longo período em que têm tão somente a companhia um do outro, os dois homens acostumados e criados num ambiente de rústica masculinidade apaixonam-se, contra tudo aquilo que lhes foi ensinado. E o tempo que Ang Lee dispõe para relatar o nascimento dessa ligação afetiva é uma das muitas escolhas brilhantes que passam despercebidas do expectador: Tão certeira, centrada e incisiva é sua direção e o tratamento com o qual aborda o roteiro que corremos o risco de achar que este grande trabalho foi feito com facilidade.
Ao voltarem da montanha, e de volta cada um para suas próprias vidas (Jack é peão de rodeio; Ennis, um pobre criador de gado) eles casam-se e têm filhos, sem jamais se esquecerem. Durante as décadas que virão, os dois buscarão momentos fugazes juntos na montanha Brokeback, único lugar onde podem expressar seu amor.
Tudo neste filme tematicamente ousado evita a panfletagem, ou o escândalo. Sereno, Ang Lee reveste o filme com uma percepção apurada de que todos os seres têm uma equivalente necessidade em querer ser feliz, e sobre inúmeros aspectos, esse é o norte para o qual apontam as motivações de seus personagens e de sua própria história. O preconceito, quando existe, é registrado como algo irrisório que pouco, no final das contas, importará.

Como em todos os seus magistrais trabalhos, Ang Lee, aqui, também volta seu olhar para aqueles que mais lhe interessam: Os personagens cuja inadequação para com as normas vigentes serve de empecilho para que se tornem aquilo que desejam ser, e em sua grandeza, por vezes, se resignam à miserável condição do drama humano.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Um Senhor Estagiário

   Robert De Niro é o tipo de ator que já não precisa provar nada a ninguém. Por mais que sua carreira tenha obras questionáveis como a recente comédia “Tirando O Atraso”, não há como apagar a glória de grandes realizações como “Táxi Driver”, “O Poderoso Chefão-Parte 2”, “O Franco Atirador”, “Touro Indomável” ou “Era Uma Vez Na América”, entre outras.
   Dessa forma, De Niro se dá ao luxo de, vez ou outra, relaxar (embora seus críticos costumem afirmar que, nos últimos anos, ele anda relaxando “demais”) em projetos completamente inofensivos e bobinhos como este “Um Senhor Estagiário”.
   De Niro é Ben, viúvo aposentado que, do alto de seus setenta anos, resolve aceitar uma vaga para estagiário sênior oferecida numa empresa de vendas via Internet, a fim de aprender coisas novas e preencher o tédio que começava a tomar sua vida.
   Sua chefe é a hiperativa e empreendedora Jules Ostin (Anne Hathaway) que inicialmente mostra-se arredia e pouco paciente para conviver com um funcionário que tem a mesma idade de seus pais, mas aos poucos, a presença sábia, paternalmente aconchegante e polida de Ben se torna imprescindível para ela.
   Como todos os outros filmes que realizou antes, este é um trabalho que reflete a personalidade de sua diretora, Nancy Meyers: Uma obra agridoce, feita para o expectador assistir sem maiores atritos ou arroubos, sem conflitos muito graves, nem qualquer tensão que exceda uma ou outra cena.
É tal e qual seus trabalhos anteriores; desde “Do Que As Mulheres Gostam”, com Mel Gibson e Helen Hunt, até “Simplesmente Complicado”, com Meryl Streep e Alec Baldwin, passando por “Alguém Tem Que Ceder”, com Diane Keaton e Jack Nicholson, e “O Amor Não Tira Férias”, com Kate Winslet, Cameron Diaz, Jude Law e Jack Black. E por aí se percebe a fórmula com a qual ela constrói seus filmes: Um elenco de dois ou mais nomes de respeito, conferindo credibilidade à uma trama leve, não raro uma miscelânea pasteurizada e inocente entre comédia, drama e romance.
   Os nomes da vez são De Niro e Anne Hathaway, longe daquele encanto apaixonante que ela conseguiu exalar em filmes irregulares como “O Diário da Princesa” e “Garotas Sem Rumo”. Anne conquistou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante ao interpretar Fantine no musical “Os Miseráveis”, de Tom Hooper e, em algum momento desse ínterim, parece ter perdido o brilho e o carisma, deixando transparecer ao público uma apatia que parecia antes não existir.
   Este “Senhor Estagiário”, por sua proposta e apelo, aparentava ser uma tentativa de voltar àquela boa fase. Ela interpreta curiosamente uma variação mais forçosamente simpática da chefe workaholic que ela mesma teve de confrontar (personificada por Meryl Streep) no bastante superior “O Diabo Veste Prada”.
   É possível, aliás, estabelecer uma relação entre esses dois filmes, por mais que este daqui, sendo tão insípido, tão suave que chega a ser sonolento, faça com que uma analogia pareça até desnecessária.

  É bonitinho e cheio de boas intenções, e a presença de Robert De Niro (ainda que seja possível flagrar uma ou outra impagável expressão de enfado que ele deixa escapar) nunca deixa de ser imponente, mas o cinema sempre teve, tem e graças ao Bom Deus, sempre haverá de ter filmes melhores e mais intensos para nos oferecer. Com sorte, pode até ser que De Niro encontre espaço em alguns deles também.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O Diabo Veste Prada

Talvez, o mais saboroso retrato do mundo da moda do cinema. E os responsáveis por isso são, em grande medida, o tino acurado da atriz Meryl Streep e sua lendária capacidade em capturar o tom exato de personagens não raro difíceis como a editora de moda e chefe infernal; o roteiro equilibrado, gracioso e leve de Aline Brosh McKenna, que soube traduzir para o cinema o Best-seller de Lauren Weisberger com bastante bom senso; e a direção perspicaz e austera de David Frankel (diretor mais habituado a trabalhos televisivos, como a série “Band Of Brothers”, cuja desenvoltura adquirida nesse meio deve ter sido fundamental para saber modular as diferentes impressões surgidas no processo de adaptação do livro). Isso tudo aliado a inúmeros acasos felizes que cercaram a produção e ajudaram “O Diabo Veste Prada” a consagrar-se como um dos melhores filmes de 2006, quando normalmente é muito difícil para comédias em geral integrar a lista de ‘melhores do ano’.
Outra grata surpresa do filme é Anne Hathaway. Então, conhecida pelo filme “O Diário da Princesa” e sua continuação (nos quais parecia que o papel de ‘princesinha Disney’ lhe cabia tão bem que nele ficaria por toda a carreira), Anne começou a revelar, por este filme, que tinha crescido e que, dentro do projeto certo, era capaz de ser uma atriz convincente, elegante e até sensual, chegando a confrontar a própria Meryl Streep numa das cenas finais e essenciais do filme.
Anne é Andy Sachs, uma jovem algo idealista que arruma emprego no último lugar provável: Ela se torna assistente pessoal da tirânica Miranda Priestly (Meryl, numa das mais sensacionais atuações de sua grande carreira), a famigerada editora da revista RunWay (uma substituta, no filme, para a prestigiada Vogue). Contudo, Andy é tudo, menos alguém antenada com a moda, o quê sua desdenhosa colega de trabalho (Emily Blunt, um daqueles acasos felizes de que falei) lhe joga o tempo todo na cara.

Como toca aos filmes desse manancial desde os tempos de Frank Capra, a determinação fará com que Andy viva uma metamorfose e prevaleça nesse mundinho e aparência e vaidade, e aprenderá a conviver com a chefa demoníaca, até se ver numa situação que contraria seus princípios, mas aí já é revelar demais do filme. E as reviravoltas que ele reserva (ainda que inocentes, no final das contas) preservam-lhe um sabor delicioso.

domingo, 17 de abril de 2016

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Christopher Nolan enfrentou dois grandes problemas ao realizar a última parte de sua cultuada trilogia.
O primeiro: como contornar a morte do insubstituível Heath Ledger como Coringa? 
E o segundo: como igualar o nível de qualidade estratosférica de um filme como “O Cavaleiro das Trevas”? 
A dura verdade é que, em ambos os casos, isso era impossível.
Entretanto, Nolan conseguiu um encerramento digno e magistral com este “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Desta vez, o tema é a dor. A dor de saber que seu corpo não é mais capaz de realizar as proezas do passado. A dor que, em última instância, deve ser superada, para que um objetivo maior seja conquistado. E o vilão Bane (interpretado pelo fantástico Tom Hardy) é a personificação da dor: ele usa, o tempo todo, uma máscara para que um gás o poupe justamente da dor que os ferimentos em seu rosto o fariam passar; e ele promete fazer o herói viver toda uma jornada de dor, ao lesionar sua coluna (na sensacional reprodução de uma das cenas mais marcantes da trajetória do Batman nos quadrinhos), para só então ressurgir, e restabelecer a justiça e a ordem, como ele almejava, desde o primeiro filme.
A ausência de Heth Ledger, e seu fenomenal Coringa, é sentida, inclusive na omissão proposital que a narrativa faz ao personagem. 
Felizmente, para Nolan, o catálogo de coadjuvantes do Batman sempre foi vasto em presenças memoráveis, de forma que aqui, ele pode lançar mão da Mulher-Gato (maravilhosamente personificada por Anne Hathaway) e de Talia Al-Ghul (Marion Cottilard, cuja personagem acaba fazendo uma interessante conexão com o primeiro filme “Batman Begins”).
Este último capítulo honra todos os predicados hiperlativos dos filmes anteriores, encerrando a história de Batman em definitivo de maneira sólida e respeitosa, fortalecendo a trilogia como um todo. Um grande e memorável trabalho de Christopher Nolan.