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sexta-feira, 2 de abril de 2021

Mulher Nota 10


 Nos anos tenros da minha cinefilia, eu acreditava inocentemente que haveriam filmes –sobretudo, os românticos –que me ajudariam a entender e a conquistar o sexo oposto, como um manual cinematográfico na difícil arte de cortejar as mulheres (e nisso obter sucesso). Por muito tempo, um filme que julguei ser crucial para alcançar esse inestimável conhecimento foi “Mulher Nota 10”, de Blake Edwards, afinal, se no filme o baixinho sem atrativos e sem sex-appeal Dudley Moore conseguia seduzir a escultural modelo Bo Derek (em sua estréia no cinema), então o roteiro de tal filme era potencialmente um guia de como executar um feito tão improvável. Em minha inocência, eu não levava em conta ainda o fato de que os filmes –em especial, aqueles orientados por um viés de romantismo –e a vida real vinham separados por um abismo de idealização ocupado por intermináveis subterfúgios da ficção.

O saldo positivo é que, se a obra de Edwards pouco serviu para solucionar quaisquer empecilhos amorosos, ao menos revelou-se aquilo que dele eu deveria ter somente esperado desde o início: Um filme muito bom.

Na trama, o nanico inglês Dudley Morre é o músico George Webber –e tal fato garante uma simbiose criativa e orgânica entre o roteiro de Blake Edwards e a trilha sonora de seu fiel colaborador Henry Mancini, desde os tempos de “A Pantera Cor-de-Rosa”.

Tendo completado 42 anos, George experimenta uma espécie de crise de meia-idade, na qual se ressente das aventuras amorosas que não viveu. A visão constante das festas eróticas de seu vizinho –observadas por meio de um indiscreto telescópio! –ressaltam a sensação de insuficiência em sua vida sexual, não obstante a presença constante em seu dia-a-dia, da encantadora e solícita Sam (Julie Andrews), um interesse romântico sempre à disposição e que, talvez por isso mesmo, custa a despertar em George, a urgência da paixão.

Um belo dia, contudo, ele é arrebatado, literalmente, por uma visão: Uma jovem noiva (Bo Derek em pessoa, assombrosa de tão linda) a caminho do próprio casamento que, nas palavras que ele troca com o próprio psicanalista mais tarde, é uma verdadeira ‘nota 10’!

Perturbado por aquela aparição, George mete-se em seguidas confusões, muitas delas, materializadas naquele característico humor entre o non-sense, o screwball e o pastelão que tanto definiram a filmografia de Edwards –humor este, ao qual custa o baixinho Dudley Moore se adequar com harmonia.

A verdade é que George não consegue mais viver, nem funcionar em sociedade se não tentar fazer algo para aplacar seu desejo; leia-se, tentar levar aquela jovem para a cama.

Seguindo um estratagema quase improvisado de tão gaiato, ele descobre quem ela é –seu nome é Jennifer –e que está em lua-de-mel no México, para onde George termina indo. Lá, ele ronda Jennifer e seu marido durante algum tempo, enquanto orbita o balcão do bar local –ocupado pelo simpático barman vivido por Brian Dennehy –até que o destino possibilita uma chance inesperada dele ter a tão sonhada mulher em seus braços.

Sob a ótica de um observador dos tempos atuais, a filmografia de Blake Edwards em geral –e “Mulher Nota 10” em particular –podem soar, hoje em dia, como comédias de humor tradicional, agridoce e inofensivo (ainda que emoldurado por inerente e involuntário machismo), porém, se olharmos nas entrelinhas é o perfeito oposto: Embora jamais tivesse abrido mão de um elegância que permeia toda sua obra, Edwards sempre buscou, à sua maneira, uma certa transgressão que ele parecia enxergar como um saudável diferencial em cada trabalho. Assim, ele ousou colocar um garoto e uma garota de programa como protagonistas em seu “Bonequinha de Luxo” (embora tudo fosse mascarado por um verniz de comédia romântica), abordou o alcoolismo enquanto convertia uma comédia simpática num drama incisivo em “Vício Maldito”, e até satirizou o próprio sistema hollywoodiano no mal-fadado “S.O.B.”.

Em “Mulher Nota 10”, ele ainda faz questão de preservar requinte e romantismo à moda antiga consciente do filme que quer fazer –pois apesar de tudo, “Mulher Nota 10” é, lá no fundo, a história de altos e baixos, idas e vindas, do amor entre George e Sam –mas, acrescenta à esse conceito convencional uma abordagem mais transparente, adulta e ousada do sexo: O filme não se isenta de cenas generosas de nudez, e não apenas de Bo Derek que nos brinda com sequências de enfartar o coração já próximo do final!

Depois disso, ouvir o “Bolero de Ravel” nunca mais será como antes.

sábado, 8 de setembro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1965


Esse ano reuniu o que havia de mais soberbo em Hollywood: Entre seus indicados estava lembrado o esplendor dos musicais (“Minha Bela Dama”, o vencedor); o requinte das produções de época (“Becket-O Favorito do Rei”); o encanto e o arrojo visual e técnico de Walt Disney naquela que é a única produção dele indicada ao prêmio principal (“Mary Poppins”); e uma brilhante contribuição de mais um gênio do cinema (“Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick).
De “Minha Bela Dama”, Rex Harrison saiu ganhador do prêmio de Melhor Ator tendo derrotado um espetacular Anthony Quinn por “Zorba-O Grego”.
Julie Andrews, em seu primeiro papel no cinema já levou para casa do Oscar de Melhor Atriz por “Mary Poppins” –ironicamente, o papel havia sido antes oferecido à Audrey Hepburn, justamente a estrela de “Minha Bela Dama”.
Entre os coadjuvantes, Lila Kedrova fez justiça para seu protagonista ao levar o prêmio por “Zorba-O Grego” e Peter Ustinov levou, por “Topkapi”, seu segundo prêmio para casa –ele já havia vencido, também como coadjuvante, em 1961, por “Spartacus”.

MELHOR FILME
"Minha Bela Dama"

MELHOR DIREÇÃO
"Minha Bela Dama", George Cukor

MELHOR ATRIZ
Julie Andrews, "Mary Poppins"

MELHOR ATOR
Rex Harrison, "Minha Bela Dama"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Lila Kedrova, "Zorba-O Grego"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Peter Ustinov, "Topkapi"

MELHOR FOTOGRAFIA P&B
"Zorba-O Grego"

MELHOR FOTOGRAFIA CORES
"Minha Bela Dama"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Mary Poppins"

MELHORES EFEITOS SONOROS

MELHOR FIGURINO P&B
"A Noite do Iguana"

MELHOR FIGURINO CORES
"Minha Bela Dama"

MELHOR SOM
"Minha Bela Dama"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE P&B
"Zorba-O Grego"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE CORES
"Minha Bela Dama"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“Mary Poppins"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"Minha Bela Dama"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Chim Chim Cher-ee", de "Mary Poppins"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Papai Ganso"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Becket-O Favorito do Rei"

MELHOR MONTAGEM
"Mary Poppins"

quinta-feira, 3 de maio de 2018

O Diário da Princesa

Este típico filme da Disney (com todos os benefícios e ressalvas dessa afirmação) sempre foi mais lembrado como sendo a estréia da bela Anne Hathaway no cinema (não foi, ela estreou de fato num filme independente chamado “O Outro Lado do Céu”, filmado antes, mas lançado depois) e também por trazer, depois de um longo hiato de tempo sem filmar, a grande Julie Andrews de volta aos holofotes.
Na simplicidade e singeleza que o trabalho do diretor Garry Marshall ostenta ele não parece (e talvez nem queira) fazer jus a nenhuma dessas afirmações: “O Diário da Princesa” adapta com largas liberdades criativas, a obra de Meg Cabot sendo pouco mais que um passatempo juvenil, um filme adolescente notadamente realizado por um veterano que enxerga a própria adolescência com um sentimentalismo idealizado, um romantismo pouco verossímil e um inofensivo filtro familiar –mais ‘Disney’ impossível!
Vivida com encanto desengonçado apropriado por Anne Hathaway (e que providencialmente experimenta no filme aquela metamorfose típica de ‘patinho feio’ para a garota linda que é de fato), a protagonista Mia Termopolis é uma menina deslocada em sua escola.
Desajeitada e desastrada, ela mal é percebida pelo garoto por quem é apaixonada. Quando muito, ele tropeça nela pelos corredores do colégio.
Mas eis que surge uma certa avó paterna (Julie Andrews, sempre de uma classe indefectível) que Mia nunca conhecera, com uma notícia que muda a vida dela de cabeça para baixo. Sua avó é na verdade a ilustríssima monarca da longínqua nação de Genóvia, e Mia é a sucessora direta ao trono, o que a torna assim uma princesa.
Sabe-se lá porque o roteiro deste filme oferece soluções e situações que diferem do argumento um pouco mais bem estruturado do livro e cria assim armadilhas para si mesmo –há muitas explicações que nunca soam convincentes ou coerentes quando o público começa a se perguntar porque Mia era uma princesa e ninguém em sua vida fez muita questão de lhe explicar isso.
Como forma de rebater esses detalhes com um tom lúdico, o tratamento dado pelo diretor Marshall, tão insistentemente ingênuo, procura dar ao filme o mais pasteurizado dos aspectos de contos de fadas.
Atenção ele tem aos aspectos que, no argumento, o fascinam de fato: Como a variação de “Pigmalião” (presente, também ela, na premissa de “Uma Linda Mulher”) na qual a jovem Mia terá agora que provar a si própria e a todos a sua volta que existe uma princesa dentro daquela menina de cabelos despenteados e gestos atrapalhados. Ele também promove uma mudança na dinâmica entre os personagens da avó-rainha e seu guarda-costas Joe (interpretado pelo ator-assinatura de Marshall, Hector Elizondo): Eles são, aqui, enamorados que ocultam sua relação do mundo exterior –manobra possível graças à química genuína entre Julie e Hector.
É um filme simples e inofensivo, para dias mais leves e mentes mais desocupadas –a definição, durante muito tempo, de entretenimento para os Estúdios Disney.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Victor Ou Victoria

Neste hábil trabalho –para muitos o melhor de sua carreira –o diretor Blake Edwards, como sempre, se entrega a duas de suas paixões: As apresentações artísticas e a comédia de erros, onde um só palco serve de ambientação para divertidíssimos qüiproquós físicos, escapadelas, entradas e saídas de cena, e um sem fim de subterfúgios cômicos que nunca mais foram empregadas nas comédias que lhe sucederam.
Essa ampla conscientização dos meandros cênicos está presente desde o início, quando Edwards nos apresenta a sua heroína, a pobre, faminta e talentosa cantora Victoria Grant (a soberba Julie Andrews, também esposa do diretor). O filme registra sua penúria na Paris dos anos 1930 –e a própria produção foi, de fato, realizada nos estúdios Pinewood, da Inglaterra em função de um afastamento de Edwards do âmbito hollywoodiano naquele início dos anos 1980.
Apesar de seu imenso talento (que ela partilha plenamente com a atriz que a interpreta e já fica evidente em sua primeira aparição),Victoria ainda assim não consegue se destacar em meio à cena artística, chegando até a armar uma engraçada estratégia para não sucumbir à fome: Numa cena divertidíssima, ela tenta depositar uma barata (achada em seu apartamento e deixada dentro de sua bolsa) na salada de um restaurante no qual aproveitou para saciar sua fome, enquanto tenta desvencilhar-se de um garçom mal-criado (Graham Stark cuja ótima participação será reaproveitada mais tarde).
Entre uma e outra confusão, Victoria cai nas graças do artista Carole Todd (o sensacional Robert Preston) que decide promove-la partir de um determinado subterfúgio: Ela irá se passar por um homem, um certo Conde Victor Grazinski que, por sua vez, se traveste de mulher em suas apresentações. Esse mote, segundo ele, o do homem que canta travestido de mulher, interessa mais aos proprietários de clubes e ao público ávido por uma singularidade do que uma mulher que simplesmente canta.
Indo de encontro às suas palavras, de fato, Victoria, sob a identidade do Conde Grazinski obtém um sucesso avassalador no cabaré de André Cassell (John Rhys-Davies, o anão Gimli de “O Senhor dos Anéis”). Tanto que atrai o interesse do gangster King Marchan (James Gardner), relutante em crer que seu súbito objeto do desejo seja um homem, como também a oposição da histérica, fútil e descontrolada namorada dele (Lesley Ann Warren, hilária). Quando Victoria passa a demonstrar uma vontade genuína de corresponder a Marchan, a situação ganha os ares de elegante comédia pastelão que o diretor Edwards tão bem sabe operar. No entanto, há muito mais: Com um roteiro refinado, gracioso e ferino, Edwards reflete despido de panfletagem e de pieguice sobre os percalços doloridos do homossexualismo, do travestismo e do feminismo, não escapando de um viés machista, fruto da época a que pertence, mas mostrando definitivamente o quanto a vida é muito mais bem vivida quando não se alimenta quaisquer preconceitos.
Em sua genialidade, Edwards não se isenta de aproveitar o talento colossal de Julie e concede a ela a chance de brilhar intensamente em diversos números musicais antológicos: O fulgurante “Le Jazz Hot” que marca a primeira e memorável apresentação de Julie sob seu disfarce; “The Shady Dame From Seville”, uma breve e bem-humorada parábola em ritmo espanhol da farsa vivida pela protagonista; “You and Me”, um maravilhoso dueto entre Julie e Preston, onde se vê, transbordante, a amizade que celebram; e “Crazy World” que, além de trazer uma performance emocionante de Julie, demonstra a competência técnica de Edwards fazendo com que a câmera execute um giro esplêndido de 360°.
Há ainda “Chicago, Illinois”, um malicioso, divertido e impagável número reservado para a personagem de Lesley Ann Warren.
Inspirando-se num antigo filme alemão da década de 1930, “Victor ou Victória” foi uma reaproximação de Edwards da indústria hollywoodiana que ele satirizou no irregular “S.O.B.”, mas que soube acolhê-lo depois deste trabalho maravilhoso, digno de todas as ovações possíveis.
Uma obra rara, onde a transgressão se equilibra ao humanismo, o atrevimento se equilibra ao objetivo puro e genuíno de deliciar o expectador.
Um filme eterno para se ver, rever, refletir e louvar.