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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Frankie & Johnny

O diretor Garry Marshall queria muito Al Pacino para viver o personagem principal masculino de “Uma Linda Mulher”, mas as circunstâncias não ajudaram. Terminaram trabalhando juntos algum tempo depois neste “Frankie & Johnny”, cujo maior mérito talvez seja mesmo o de explorar a não muito aproveitada veia cômica de Pacino.
Ele é Johnny, um recém-libertado presidiário desejoso de recomeçar a vida.
Seu caminho cruza-se com o de Frankie (Michelle Pfeiffer, reunindo-se novamente com Pacino em frente às câmeras depois do explosivo “Scarface”), uma desiludida garçonete.
As ferramentas de idealização (e de ilusão) tão inerentes ao cinema entram em cena no esforço algo absurdo em fazer com que os maravilhosos Al Pacino e Michele Pfeiffer pareçam pessoas comuns aos olhos do público: Aqui, eles interpretam personagens suburbanos, desprovidos de charme e conscientes da própria feiúra (!).
E só mesmo num filme de Garry Marshall para tamanho engodo fazer parte da brincadeira proposta pela narrativa.
Por sinal, o filme de Marshall em sua simplicidade, e como quem não quer nada, molda uma série de ‘ilusões’ atribuídas ao cinema: Não somente o feio, em sua idealização, se torna belo –na mais maniqueísta das caracterizações –como o amor, e o próprio conceito de relação a dois, do modo como é trabalhado em infindáveis comédias românticas que vieram antes e depois desta (subgênero dentro do qual Marshall reinou absoluto) prescinde completamente do realismo em seu registro: Aqui, o amor é um prêmio reluzente e imaculado que garantidamente espera pelos sofredores ao fim de uma estrada dolorosa e árdua.
O sabor de felicidade catártica e a aura disfarçada de contos de fadas fazem com que o filme seja palatável, apetecível e até irresistível ao expectador enfastiado da realidade dura, e nesse escapismo existencial o filme de Marshall encontra uma justificativa perfeita para o funcionamento de sua suspensão de crença.
E assim a trama caminha: Johnny arruma emprego como cozinheiro no mesmo restaurante grego onde Frankie trabalha como garçonete. Ao desejo do ex-detento de ter um trabalho normal segue-se o de encontrar o amor –e dessa forma, ele apaixona-se por Frankie.
No início, ela reluta, farta das desilusões que experimentou em outras relações. Johnny, no entanto, trilha seu caminho até a felicidade do único jeito que julga possível: Não desistindo. Seus cortejos à Frankie, flagrados em meio ao caótico e desglamourizado cotidiano, são estóicos de tão tenazes. Amar, afinal, é nunca desistir.
Nessa escala de sedução que acompanha com compartilhado interesse, o diretor Marshall ressalta esse e cada um dos clichês embutidos em obras românticas –seja a resiliência dele em contraponto à relutância dela, seja o pequeno dilema que se instala quando ele tem um breve affair com outra garçonete (Kate Neligan, de “O Príncipe das Marés”).
Histórias de amor, de modo geral, dependem de química.
E tanto Pacino quanto Michelle, mesmo que a desempenhar a desilusão, a solidão, e a mediocridade (de ser classe média, de estar na meia-idade) esbanjam uma química incomum, etérea, como se o romance entre eles, a despeito das distrações corriqueiras que o filme irá lhes impor, fosse inevitável.
Adaptado da peça teatral de Terrence McNally, “Frankie & Johnny” possui protagonistas que foram vividos, nos palcos, por Kathy Bates (vencedora do Oscar 1991 de Melhor Atriz por “Louca Obsessão”) e Kenneth Welsh (da série “Twin Peaks”) –intérpretes que nada têm do glamour de Michelle Pfeiffer e Al Pacino; e aí se vê, na discrepância entre as escolhas dos protagonistas teatrais e dos cinematográficos, a mudança radical de proposta ocorrida quando a trama ganhou as telas de cinema.
A peça de teatro queria contar uma história de amor sobre pessoas reais, do mundo real, assoladas por imperfeições e inadequações como qualquer um; o filme de Garry Marshall até ludibria bem, fazendo parecer que quer a mesma coisa, mas, na escolha de protagonistas tão irresistíveis e no verniz de idealização romântica com que toda a condução acaba impregnada, o que ele quer de fato é arrebatar e encantar sem restrições.
E não há mal nenhum nisso.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Noiva Em Fuga


Muito festejada à época de seu lançamento (1999) por reunir o mesmo par do sucesso "Uma Linda Mulher", Richard Gere e Julia Roberts, bem como também seu diretor, o especializado em comédias românticas, Gary Marshall, este filme termina –ao contrário daquele romance com ares açucarados de conto de fadas –optando por uma comicidade mais rasgada que certamente destoa daquilo que os fãs do filme anterior haveriam de esperar nesta reunião.
Ao assisti-lo, fica patente que os nomes envolvidos, entretanto, não garantiram a qualidade e a pertinência suficientes ao projeto, nem tampouco uma recepção de público semelhante à de sua colaboração anterior.
Gere interpreta um compulsivamente solteiro repórter da cidade grande que vai a uma cidadezinha cobrir a inusitada história de uma noiva (ela mesma, Julia Roberts) que tem o hábito de abandonar seus respectivos noivos no altar –e tal recurso (criado possivelmente para atender as intenções cômicas de Julia Roberts) nunca ganha de fato uma justificativa plausível que aprofunde a personagem.
Por que ele abandona os noivos no altar?
Qual a razão desse comportamento?
São perguntas que nunca parecem importar à narrativa, mais do que a sucessão de cenas espontâneas e engraçadas que reúnem seu par central; retratado, como manda o figurino do clichê, como um casal que não se bica no início para então perceber, depois de todo um filme, que na verdade se amam.
Nesse sentido a situação criada no roteiro até flerta com certa mirabolância: Uma vez que a assim chamada ‘noiva em fuga’ cria uma péssima situação para o repórter em seu ambiente editorial (ela enviou uma carta de reclamação que o deixou desacreditado), ele agora está de prontidão: A moça está de casamento marcado para logo, e ele crê que ela irá abandonar o altar como fez das outras vezes. Assim ele estará lá pronto para notificar o ocorrido e no processo limpar seu nome.
Até mais de acordo com os demais títulos da filmografia do diretor Garry Marshall do que “Uma Linda Mulher” –filmografia esta na qual predomina uma comédia sentimental pontuada por um pastelão extremamente ingênuo (e se esse é o melhor comentário que se pode falar sobre o filme é porque ele não conseguiu chegar lá...) –“Noiva Em Fuga” nos faz perguntar por que Richard Gere e Julia Roberts esperaram tanto para reunirem-se novamente em frente às câmeras, visto que quando o fizeram, optaram por este projeto tão insípido, redundante e pouco memorável.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

O Diário da Princesa

Este típico filme da Disney (com todos os benefícios e ressalvas dessa afirmação) sempre foi mais lembrado como sendo a estréia da bela Anne Hathaway no cinema (não foi, ela estreou de fato num filme independente chamado “O Outro Lado do Céu”, filmado antes, mas lançado depois) e também por trazer, depois de um longo hiato de tempo sem filmar, a grande Julie Andrews de volta aos holofotes.
Na simplicidade e singeleza que o trabalho do diretor Garry Marshall ostenta ele não parece (e talvez nem queira) fazer jus a nenhuma dessas afirmações: “O Diário da Princesa” adapta com largas liberdades criativas, a obra de Meg Cabot sendo pouco mais que um passatempo juvenil, um filme adolescente notadamente realizado por um veterano que enxerga a própria adolescência com um sentimentalismo idealizado, um romantismo pouco verossímil e um inofensivo filtro familiar –mais ‘Disney’ impossível!
Vivida com encanto desengonçado apropriado por Anne Hathaway (e que providencialmente experimenta no filme aquela metamorfose típica de ‘patinho feio’ para a garota linda que é de fato), a protagonista Mia Termopolis é uma menina deslocada em sua escola.
Desajeitada e desastrada, ela mal é percebida pelo garoto por quem é apaixonada. Quando muito, ele tropeça nela pelos corredores do colégio.
Mas eis que surge uma certa avó paterna (Julie Andrews, sempre de uma classe indefectível) que Mia nunca conhecera, com uma notícia que muda a vida dela de cabeça para baixo. Sua avó é na verdade a ilustríssima monarca da longínqua nação de Genóvia, e Mia é a sucessora direta ao trono, o que a torna assim uma princesa.
Sabe-se lá porque o roteiro deste filme oferece soluções e situações que diferem do argumento um pouco mais bem estruturado do livro e cria assim armadilhas para si mesmo –há muitas explicações que nunca soam convincentes ou coerentes quando o público começa a se perguntar porque Mia era uma princesa e ninguém em sua vida fez muita questão de lhe explicar isso.
Como forma de rebater esses detalhes com um tom lúdico, o tratamento dado pelo diretor Marshall, tão insistentemente ingênuo, procura dar ao filme o mais pasteurizado dos aspectos de contos de fadas.
Atenção ele tem aos aspectos que, no argumento, o fascinam de fato: Como a variação de “Pigmalião” (presente, também ela, na premissa de “Uma Linda Mulher”) na qual a jovem Mia terá agora que provar a si própria e a todos a sua volta que existe uma princesa dentro daquela menina de cabelos despenteados e gestos atrapalhados. Ele também promove uma mudança na dinâmica entre os personagens da avó-rainha e seu guarda-costas Joe (interpretado pelo ator-assinatura de Marshall, Hector Elizondo): Eles são, aqui, enamorados que ocultam sua relação do mundo exterior –manobra possível graças à química genuína entre Julie e Hector.
É um filme simples e inofensivo, para dias mais leves e mentes mais desocupadas –a definição, durante muito tempo, de entretenimento para os Estúdios Disney.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Uma Linda Mulher

Se o fato da produtora Touchstone Pictures (subsidiária da Disney) já não é indicativo da inapelável transfiguração da realidade crua em um conto de fadas promovida por este filme, grande sucesso no final dos anos 1980, a sua própria premissa já se encarrega de deixar bem claro: Vivian (Julia Roberts, no auge de seu encanto e seu esplendor sexual) é uma prostituta do Hollywood Boulevard. Apesar dos elementos e códigos das ruas sugeridos, sobretudo, em seus primeiros quinze (e mais mundanos) minutos, Vivian é uma alma, digamos, pura tentando sobreviver ao lado da melhor amiga, e igualmente prostituta, Kit (Laura San Giacomo, de “Sexo, Mentiras e Videotape”) no mundo cão.
Como costuma ocorrer com toda garota sonhadora, Vivian tropeça de forma cuidadosamente descuidada em seu príncipe encantado: Edward (Richard Gere, no ponto ideal de saturação para ser galã) é um empresário ricaço, solteiro e, por um acaso do destino e dos roteiristas, está perdido com uma Ferrari nas ruas de L.A. –e o filme de Garry Marshal segue nessa pegada tão idealizadamente descarada porque o público e a crítica dos anos 1980 eram ingênuos o suficiente para deixar-se encantar com seu trabalho.
É lógico que Vivian –prestativa que só –irá ajudá-lo com esse transtorno (o de achar o hotel cinco estrelas adequado), e por tal auxílio, Edward a contratará para ser sua “acompanhante” até o fim de semana. Nada de sentimentos. Nada de planos futuros. Apenas a garantia da remuneração de 5 mil dólares –o quê era para ser, diga-se, o título original do filme, antes dos produtores notarem que a música clássica de Roy Orbison, “Pretty Woman”, tinha tanto a ver com a produção!
Ao longo desse fim de semana, é claro que Vivian irá se revelar –à Edward e ao expectador –todo o fascínio de garota que ela é (uma síntese genuína e encantadora entre a Cabíria de Julietta Massina e o fulgor de Marilyn Monroe), o quê levará o casal protagonista a se apaixonar.
Há méritos inquestionáveis também na agridoce condução de Marshal, graciosa para a comédia, elegante para o drama, inebriada de bom gosto para o romance. Toda essa desenvoltura ajuda muito a atravessar momentos que poderiam soar terrivelmente pedantes (como o manjado final feliz), mas que na narrativa minuciosamente bem calibrada –e encenada por um casal principal pleno de química –ficaram cativantes e arrebatadores aos olhos de toda uma geração de fãs.