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terça-feira, 27 de agosto de 2024

O Mundo Depois de Nós


 Produtor, roteirista e diretor, Sam Esmail (da série “Mr. Robot”) é fascinado em teorias da conspiração; lendas urbanas nas quais o sistema vigente é visto por um prisma de fragilidade e suas fundações podem ruir levando nossa civilização ao colapso pelas razões mais mirabolantes. Se “Mr. Robot”, à sua maneira, versava em torno dessa paranóia (ao menos, a sua primeira temporada), o longa-metragem original da Netflix, “O Mundo Depois de Nós”, adaptado do livro de Rumaan Alam, pega emprestado o mote do seminal “O Sacrifício”, de Andrei Tarkovski (no qual um grupo reunido numa mansão isolada recebe a notícia do fim do mundo), para albergar em sua premissa, as considerações muito particulares (e muito instigantes) de Esmail, sua desenvoltura para narrativas carregadas de suspense e tensão, e seu estilo peculiar de direção (onde planos audazes de câmera exploram ambientes com palpitante virtuosismo) em conjugação com um roteiro sempre inconformista.

O casal Amanda e Clay Sandford (Julia Roberts e Ethan Hawke) decide carregar os dois filhos para uma casa retirada em Hamptons, nas proximidades de uma praia. Ou melhor: É Amanda quem toma a decisão, levando o dócil e concordado marido, e os filhos Archie (o artista australiano Charlie Evans) e Rose (a garotinha Farrah Mackenzie) à reboque. A casa é elegante e requintada, alugada via internet por proprietários que Amanda sequer chegou a conhecer pessoalmente.

Por lá, a família se instala rapidamente, e tão efusiva é sua distração que nenhum deles, em princípio, nota indícios (inicialmente sutis) de que algo pode estar prestes a acontecer: O sinal de Wi-Fi começa a falhar, os celulares já não funcionam com a eficiência habitual, notícias em rádio e TV dão conta de misteriosos ataques cibernéticos, um homem em particular (vivido por Kevin Bacon) é avistado abarrotando de suprimentos sua pick-up no mercado local e a praia é invadida por um navio petrolífero desgovernado (!).

Sam Esmail vislumbra o cidadão de classe média-alta em geral, e o norte-americano em particular, na sua inabalável comodidade capitalista. Completamente ignorante dos elementos que conspiram contra ele no mundo lá fora. E é, portanto, do mundo lá fora que deve vir os agentes que haverão de arrancar os Sandford dessa absurda inércia: Na calada da noite (logo, despertando incontestes suspeitas) eis que bate à porta G.H. Scott (Mahershala Ali) e sua filha Ruth (Myha’la Herrold, da série “Industry”), vindos, de acordo com eles próprios, de Nova York, onde ouviram, em primeira mão, as primeiras notícias alarmantes da crise que se alastra.

G.H. é o dono da casa onde Amanda e Clay estão hospedados. Ele e a filha são negros, enquanto que os Sandford são brancos. É por isso, talvez, na visão ferina de Esmail, que Amanda desconfia com tanta intensidade deles –suas teorias, no início, vão na direção contrária, evitando crer no apocalypse, e travestindo seu preconceito arraigado como ceticismo diante do colapso da sociedade.

É mais fácil ter preconceito do que ter fé.

Na cartilha de ordem dramática elaborada aqui por Sam Esmail, na verdade, o preconceito e a fé surgem como empuxos antagônicos do ser humano: Um é a presunção do passado; o outro, a aceitação abnegada do futuro. Um demanda arrogância; outro demanda humildade.

Mais do que qualquer outra coisa, essa apatia que afasta uns dos outros provem do egocentrismo: Privados da internet (o primeiro item do qual dão pela falta, e que pelo qual os personagens mais padecem ao longo do filme), cada um deles se isola, a lamentar o vazio pessoal que isso proporciona a cada um –Inquieta por natureza, Amanda galga níveis de irritação a medida que não tem mais a conectividade instantânea do celular para atender prontamente seus anseios; Clay, cuja tolerância excessiva é admitida por ele próprio, vê nessa privação um abismo ainda maior de incompatibilidade a surgir entre ele a a esposa; G.H. que se instala na própria casa junto da filha, sabe, na condição de homem articulado e abastado, a situação nos seus devidos moldes, mas isso parece não bastar para tirá-lo do contexto em que, como os demais, se descobre indefeso; sua filha, Ruth, inconformada com a circunstância é a única a notar, com indignação, que ela e o pai acabam dormindo no porão da própria casa (um porão extremamente luxuoso, mas ainda sim, um porão), enquanto os brancos dormem na cama principal; o adolescente Archie, notadamente dependente de redes sociais e videogames, procura esconder sem muito sucesso a crescente vulnerabilidade que descobre quando começa a lhe restar somente a realidade com a qual lidar; e a pequena Rose (a personagem com a qual o filme de Esmail opta por deixar o expectador em seu desfecho) só sabe lamentar, não o fim da civilização, mas a incapacidade de acessar os últimos episódios da série “Friends” (!) que tornou-se para ela, nesse meio-tempo, uma obsessão.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

O Casamento do Meu Melhor Amigo


 Ainda na década de 1990, a carreira da estrela Julia Roberts, então a rainha das comédias românticas da época, havia estagnado –filmes insossos e repetitivos, e tentativas pouco eficazes de fazer cinema sério, começavam a fazer o público se cansar de sua bela imagem. Foi então que o diretor australiano P.J. Hogan (realizador da pérola “O Casamento de Muriel”) conseguiu revitalizar seu estrelado ao escalar Julia para o papel principal neste pequeno conto de comicidade e engenhosidade onde –pasmem –ela faz o papel de vilã (!). O roteiro, assinado por Ronald Bass (roteirista de “O Clube da Felicidade e da Sorte” e “Rain Man”), é segundo ele próprio inspirado numa ideia que teve ao presenciar uma linda e espetacular cerimônia de casamento de amigos pessoais: Ele imaginou uma personagem disposta a estragar todo aquele evento estupendo!

Para que tal premissa, a um só tempo graciosa e ferina, funcionasse, o diretor Hogan lançou mão de elementos notáveis e surpreendentes que fogem do conceito de uma mera comédia romântica (embora, em sua simplicidade, esta produção seja uma) e agregam características de cinema de verdade –e a primeira delas é seu elenco: Na personagem de Julianne Potter, uma crítica gastronômica ciente de que está numa idade onde já deveria ter achado o homem de sua vida, Julia Roberts revela-se perfeita, engraçada e vulnerável; um equilíbrio preciso entre a ternura de outras personagens que ela já interpretou e uma predisposição para cometer estratagemas e intrigas mesquinhos que, por incrível que pareça, não fazem o público detestá-la. Também está perfeito Dermot Mulroney como Michael, o melhor amigo de Julianne e aquele a quem ela começa a enxerga, um pouco tardiamente, como a pessoa que pode, sim, ser o homem de sua vida. Tardiamente, porque Michael entra em contato com ela justamente para que seja madrinha de seu casamento iminente com a doce Kimberly (a maravilhosa Cameron Diaz, ainda uma revelação no cinema tendo feito “O Máskara” três anos antes).  Contudo, ninguém desse pessoal rouba mais a cena deste filme do que George, o charmoso, sensato e ocasionalmente perplexo amigo homossexual de Julianne (interpretado de maneira sensacional por Rupert Everett) que, lá pelas tantas, acaba tendo que fingir ser namorado dela (!). Afinal, Julianne aceita o convite do casamento entre Michael e Kimberly disposta a estar por perto durante todos os eventos que antecedem as celebrações e aproveitar a oportunidade para elaborar todos os planos possíveis para acabar com a cerimônia, certa de que é ela quem pode fazer Michael feliz.

A fim de adornar com um certo alto-astral a vilania que pontua muita da narrativa e das ações tomadas pela protagonista, o diretor Hogan se vale de um repertório esfuziante de músicas de Dionne Warwick (em especial, “I Say A Little Prayer” cantada numa cena antológica) tal e qual ele fez em “O Casamento de Muriel”, com músicas do ABBA.

domingo, 14 de janeiro de 2024

O Dossiê Pelicano


 A jovem estudante de Direito Darby Shaw (Julia Roberts) na ânsia de investigar o assassinato estranhamente simultâneo de dois juízes da Suprema Corte dos EUA em Washington (um deles interpretado pelo veterano Hume Cronyn, numa breve participação) deduz que esbarrou numa terrível verdade a ser encoberta de qualquer maneira por pessoas inescrupulosas e bem posicionadas nas esferas do poder: Na tentativa de silenciá-la, os criminosos, sem querer acabam matando o professor, enlace romântico e mentor dela, Thomas Callahan (Sam Shepard). Perseguida por pessoas dispostas a interromper suas investigações e neutralizar suas descobertas a qualquer custo, Darby se refugia nos subúrbios de Nova Orleans, e conta com a ajuda do jornalista investigativo Gray Grantham (Denzel Washington).

Na esteira do sucesso avassalador de “Uma Linda Mulher”, a estrela Julia Roberts seguiu fazendo o que se espera de jovens talentos em ascensão: Realizou filmes destinados a exclusivamente agradar seu público –se tais filmes tinham qualidade ou não, isso era uma questão que nunca pareceu prioridade nas decisões curiosas dos estúdios hollywoodianos. Ele protagonizou o suspense algo vulgar “Dormindo Com O Inimigo”, em 1991, e nesse mesmo ano, apareceu no meloso, romântico e superficial “Tudo Por Amor”. O passo seguinte era marcar presença num projeto mais ambicioso, capaz de colocar Julia sob as lentes de um diretor, senão grande, ao menos, renomado –Alan J. Pakula –e deixá-la, lado a lado, de outros grandes nomes do cinema, o que inclui, além do sempre eficiente Denzel, as presenças ocasionalmente aproveitadas de Sam Shepard, Stanley Tucci, John Heard, William Atherton, John Lithgow e Robert Culp (como Presidente dos EUA).

Embora protagonistas, Julia Roberts e Denzel Washington não formam um par romântico –a Hollywood implicitamente segregada de então dificilmente permitiria um casal formado por atores de etnias distintas (algo que seria aceito, e até encorajado, hoje). Assim, pode-se até pegar a dica: Composto de aspectos de dizem muito sobre o cinema comercial de seu tempo, “O Dossiê Pelicano” é feito de tendências específicas que visavam atender a demanda do público, termina sendo um veículo morno para a estrela em franca ascensão de Julia Roberts e um reaproveitamento requentado –ainda que com base no enredo original extraído do livro de John Grisham –da narrativa pulsante que o mesmo diretor Alan Pakula empregou em “A Trama” nos anos 1970; os ganchos e expedientes de roteiro são, senão os mesmos, muitíssimo parecidos!

A única diferença é o tempo em que foram realizados: Nos anos 1970, pela liberdade criativa com a qual realizadores mais jovens tateavam um novo cinema comercial (e pelas tendências autorais que emergiam na época), Pakula soube orquestrar em “A Trama” (além de outros longa-metragens) uma obra urgente e pulsante; já, em 1993, o mesmo diretor, do alto de uma carreira experiente e já sem fôlego para ousar, concebeu um trabalho com aspectos similares, sem no entanto qualquer indício de atrevimento ou inovação.

A única ousadia de “O Dossiê Pelicano”, se é que isso conta, é ser um filme mediano, quando tinha tudo para ser excelente.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Teoria da Conspiração


 O cinema comercial –em especial, o hollywoodiano –sempre valeu-se do ostensivo apelo de público no qual eram reunidas duas (ou mais) grandes estrelas em cena; em torno disso girou a própria premissa do sucesso “Onze Homens e Um Segredo”, por exemplo. A despeito da qualidade –alguns filmes tinham muita, outros não tinham nenhuma... –esse era um recurso que parecia funcionar muito bem e instigava a curiosidade dos expectadores. E por volta da década de 1990, não haviam estrelas tão reluzentes quanto Mel Gibson e Julia Roberts, e foram justamente os dois quem o diretor Richard Donner reuniu no interessante, envolvente e descontraído “Teoria da Conspiração”.

Na época, o diretor Donner e o astro Mel Gibson estavam aproveitando ao máximo uma sintonia rara descoberta em pleno set de filmagens: Donner não apenas havia dirigido, com largo êxito, Gibson na série “Máquina Mortífera” –naquele ano, 1997, os três primeiros filmes já haviam sido feitos, e o quarto seria lançado no ano seguinte –como também dirigiu Gibson no faroeste “Maverick”. Na sua colaboração, portanto, Donner sabia precisamente o que poderia extrair das capacidades de Gibson e disso se vale para construir a trama engenhosa deste filme.

Flertando até que um bocado com a comédia –na qual Gibson se sai muito bem na sua dosagem de tiques nervosos –o roteiro de Brian Helgeland (roteirista de “Los Angeles-Cidade Proibida” cujo apreço sempre foram tramas intrincadas) apresenta o paranóico e catatônico personagem Jerry Fletcher, vivido por Mel Gibson. Fletcher é um motorista de táxi de Nova York, no entanto, essa ocupação não chega exatamente à defini-lo; seu objetivo, como taxista, parece ser mais o de passar despercebido às autoridades governamentais que, em seu íntimo, ele crê conspirarem o tempo todo contra o cidadão comum a fim de estabelecer um controle sempre maior sobre o mundo. Para tanto, Fletcher tem uma rotina regida pelos mais extremos pormenores do transtorno obsessivo-compulsivo (trancas e fechaduras, por exemplo, são uma eterna fonte de dúvida), publica clandestinamente um jornal subversivo destinado à apontar as mais improváveis conspirações praticadas pelo governo (o “Conspiracy Theory”) e atazana a vida da advogada do Departamento de Justiça dos EUA Alice Sutton (Julia Roberts) que, solícita, até dá um pouco de corda às suas sandices.

Entretanto, numa noite, Jerry é capturado por homens misteriosos liderados pelo obscuro Dr. Jonas (Patrick Stewart, sensacional numa quase recriação do personagem de Laurence Olivier em “Maratona da Morte”). O motivo, ainda que nebuloso, não tarda a se esclarecer: Em algum momento, dentre tantas teorias aleatórias veiculadas em seu jornalzinho clandestino, Fletcher acertou uma delas em cheio, o problema é, qual delas? Tentando escapar dos homens perigosos e treinados que agora o perseguem (em uma cena, numa divertida brincadeira do diretor Donner, Gibson refugia-se num cinema que exibe “O Feitiço de Áquila”, um de seus clássicos dos anos 1980), Fletcher acaba envolvente a sensata Dra. Sutton em suas enrascadas e, nesse percurso tortuoso, descobre que havia sido, ele próprio, vítima de uma espécie de lavagem cerebral previamente realizada; o que em parte explica seu comportamento paranóico e cheio de T.O.C. além de sua obsessão inexplicável pelo livro “O Apanhador No Campo de Centeio”.

Frenético, dono de um ritmo que somente um mestre da ação e da aventura escapista como Richard Donner seria capaz de imprimir na tela, “Teoria da Conspiração” surpreende o público, sobretudo, pela imprevista complexidade do seu enredo que, para as pretensões modestas de seu projeto, se torna até desafiador e rocambolesco em demasia a partir de certo ponto. O encontro em cena entre Julia Roberts e Mel Gibson pode não suscitar tantos suspiros quanto o público interessado exclusivamente nisso gostaria –até porque o filme não é e nem quer ser um romance –mas, ele oferece diversão, ação, mistério e enigmas intrigantes em profusão, para uma agradável sessão de passatempo noventista; e um casal central que não deixa de exibir química e carisma em níveis admiráveis.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Linha Mortal


 Lançado bem no início da década de 1990, quando o diretor Joel Schumacher ainda se achava hábil o bastante para acrescentar elementos supostamente experimentais numa obra comercial –como luzes difusas, ângulos de câmera diferenciados e modismos do período que nada mais eram do que isso, modismos –este “Linha Mortal” trazia o requinte de ser produzido por Michael Douglas que, antes de alcançar o estrelato como ator, chegou a conquistar o Oscar de Melhor Filme como produtor em “Um Estranho No Ninho”. Isso jogava expectativas elevadas num filme que nunca chegava a ser uma obra-prima, mas conseguia sempre manter-se interessante.

Na trama, um grupo de alunos, residentes de medicina –entre os quais, os ainda jovens Kevin Bacon, Julia Roberts (antes do sucesso de “Um Linda Mulher”), Oliver Platt e William Baldwin –embarcam no arriscado plano de um colega vivido por Kiefer Sutherland: Instalados de madrugada, num porão das dependências do campus, eles irão parar o coração de um deles com um desfibrilador (o primeiro voluntário, é óbvio, será o personagem de Sutherland), e após um curto intervalo, ressuscitá-lo valendo-se dos recursos médicos.

O que eles testemunham nesse intervalo pós-morte é registrado através de depoimentos. A cada tentativa, o período com o coração parado –mostrado no monitor cardíaco com uma linha reta ininterrupta, o chamado “Flatlinners” do título original –é maior e cada vez mais perigosamente próximo dos cinco minutos (quando a morte pode se tornar cerebral), e por conta disso, cada vez mais difícil de trazer a ‘cobaia’ de volta à vida.

Contudo, eles não voltam sozinhos: Passada a empolgação dos primeiros testes relativamente bem sucedidos –afinal, trouxeram todos de volta sem maiores contratempos ou efeitos colaterais –eles passam a serem procurados pelo que parecem ser fantasmas, aparições que muito se parecem com lembranças que eles guardam da infância. São, na verdade, os pecados em vida que eles expiarão após a morte, mas que, pela circunstância da experiência, os estão castigando ainda vivos.

Percebe-se aqui e, sobretudo, em projetos que ele entregou nas décadas seguintes, que Joel Schumacher é bom em perfumaria: Seus filmes têm ritmo, visual relativamente elaborado e, não raro, são cercados de uma premissa sempre instigante e promissora, entretanto, Shcumacher não sabe enfatizar os predicados sublimes dessa premissa se eles já não vierem completamente organizados no roteiro. Sua direção é empenhada no aspecto técnico e rudimentar no aspecto instintivo e artístico –os atores particularmente se incumbe de tipos caracterizados mais do que de personagens necessariamente humanos; temos o protagonista ambíguo de Kiefer Sutherland, a mocinha padronizada de Julia Roberts, o personagem íntegro, estóico e sólido (e, como tal, enamorado da mocinha) vivido por Kevin Bacon, o conquistador barato (e bota barato nisso!) de William Baldwin, além do coadjuvante para fazer volume de Oliver Platt –um papel que, na verdade, ele interpretou em quase toda sua carreira.

Diante dessas simplificações conceituais, que reduzem a curiosa e reflexiva observação do roteiro dos percalços possíveis do pós-morte a um conto de terror cada vez mais convencional e previsível, o filme de Schumacher deixa de ser aquilo que poderia –e que é sugerido em sua envolvente e promissora hora inicial –para tornar-se, ao fim, um passatempo característico.

A comprovação de uma certa qualidade lhe surgiu com tempo: Em 2017, ele recebeu uma refilmagem, intitulada aqui no Brasil de “Além da Morte”, onde as ideias presentes em sua trama eram ainda mais pasteurizadas e banalizadas.

Se jamais chega a ser espetacular, “Linha Mortal”, de Joel Schumacher, ao menos, tem do início ao fim, uma aura de curiosidade e originalidade que lhe dá certa dignidade (além de argumentos fortes e convincentes para hoje ser considerado um cult-movie), mesmo diante do lamentável fato de que nunca cumpre suas promessas.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Onze Homens e Um Segredo


A discussão cerca do quão válida uma refilmagem é tem, nesta obra, um de seus melhores argumentos: Ao contrário do que é hábito em Hollywood –onde são refilmadas sucessivamente obras excelentes que não precisariam de uma refilmagem –o time de George Clooney e Steve Sodenbergh refez um filme não tão bom, não tão perfeito e não tão bem-sucedido (uma pequena aventura de assalto feita para aproveitar a fama do Rat Pac, grupo formado por Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford). Eles assim o fazem com perfeita consciência das limitações da obra original; e em tudo tentam melhorá-la.
É, pois o grande propósito de se realizar uma refilmagem: Repaginar um filme e aproximá-lo mais do potencial de qualidade que não havia sido alcançado da outra vez.
E o diretor Sodenbergh compreende com profunda perspicácia que toda essa premissa depende de charme: Cada personagem que marca presença, cena após cena, é de um carisma desigual.
A frente de todos eles, nesse e em outros quesitos, certamente está Danny Ocean (George Clooney tão eficaz quanto em sua primeira colaboração com Sodenbergh, o brilhante “Irresistível Paixão”). Recém-saído da prisão, ele chega a Las Vegas com um plano já previamente elaborado, por meio do qual visa retribuir toda a impunidade que o gangster Terry Benedict (Andy Garcia) exerce sobre os outros: Dele almeja roubar toda a féria de seu cassino principal.
Para tanto, Danny Ocean conta com um grupo extraordinário de outras dez pessoas com especialidades muito particulares: Seu braço-direito Rusty Ryan (Brad Pitt, que consegue ombrear o carisma e a desenvoltura superlativos de Clooney); o forte e desprendido Frank Catton (o saudoso Bernie Mac); o hábil e inteligente Basher Tarr (Don Cheaddle); o experiente e safo Reuben Tishkoff (Elliott Gould); o meticuloso e estrategista Saul Bloom (Carl Reiner); os experts em tecnologia Virgil e Turk Malloy (Casey Affleck e Scott Caan); o ágil e acrobático Yen (Qin Shaobo); o escorregadio Livingston Bell (Eddie Jemison); e o filho de um grande aliado do passado Linus Caldwell (Matt Damon).
A intenção de Ocean não é apenas de bancar o Robin Hood, roubando do milionário antagonista –no processo de seu intrincado golpe quer roubar dele também a atual companheira, Tess (Julia Roberts), ex-esposa de Ocean.
Como se pode constatar pelos nomes citados, o elenco que Sodenbergh reuniu para seu filme é tão, ou mais, ostensivo que o elenco do “Onze Homens e Um Segredo” original; e ele compensa essas presenças cintilantes dando a todos eles momentos memoráveis.
Contudo, seu grande feito é a execução do assalto propriamente dito que ocupa os últimas e sensacionais vinte minutos de filme: Uma aula de condução de roteiro, direção de cena e manutenção de ritmo, onde cada tomada surpreende o expectador e cada guinada deixa um sorriso no rosto.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A Menina e O Porquinho


Na década de 2000, uma adaptação em live-action do livro infantil de E.B. White (antes adaptado numa cultuada, porém ultrapassada animação nos anos 1980) fazia sentido por duas razões específicas: Na primeira, para aproveitar a mescla entre a história cativante e edificante e os notáveis efeitos visuais que conferiam expressão aos animais (fórmula que levou “Babe-O Porquinho Atrapalhado” a se tornar um fenômeno de público e crítica na década anterior); e na segunda, para realizar um veículo genuíno e válido para a mais assídua estrela-mirim de Hollywood naquele período, Dakota Fanning –hoje, talvez o público até reconheça melhor a irmã mais nova dela, a bela Elle Fanning.
Na história descobrimos que a menina Fern (Dakota, cuja personagem ganha um peso maior nesta versão justamente para enfatizar sua presença) salva o filhotinho de porco Wilbur de ser sacrificado: Ele é o mais raquítico de uma ninhada.
Fern se compromete de cuidar e tratar dele, mas quando as aulas se iniciam precisa deixá-lo no celeiro junto dos outros animais. É quando a história clássica, como ela é conhecida, começa de fato: Wilbur faz amizade com todos –entre os quais, o filme ostenta um elenco estelar de vozes famosas como Steve Buscemi, Robert Redford, Oprah Winfrey, Kathy Bates e John Cleese –e compartilha seu temor de virar presunto; sendo um ‘porco da primavera’, como todos falam, ele provavelmente não chegará vivo para ver a neve do inverno.
Entre esses animais uma em especial será essencial para o sucesso na jornada de Wilbur: A aranha Charlotte (para quem a voz de Julia Roberts empresta tocante sensibilidade) que dedica-se assim a construir uma teia na qual escreve palavras específicas (“Um porco e tanto”, “Brilhante”, “Humilde”, e assim por diante) para definir Wilbur. Tal acontecimento é recebido com assombro pela população, mas como ocorre com toda notícia, seu efeito passa com a lembrança, e Charlotte precisa elaborar um novo plano para que os humanos valorizem Wilbur o suficiente a ponto de não considerá-lo para o abate.
Uma mensagem positiva e válida para o público a que se propõe –o infantil –cujo desfecho contém uma imprevista manobra de tristeza que eleva suas ingênuas considerações existenciais e torna este filme razoável e gracioso um pouquinho mais memorável.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Noiva Em Fuga


Muito festejada à época de seu lançamento (1999) por reunir o mesmo par do sucesso "Uma Linda Mulher", Richard Gere e Julia Roberts, bem como também seu diretor, o especializado em comédias românticas, Gary Marshall, este filme termina –ao contrário daquele romance com ares açucarados de conto de fadas –optando por uma comicidade mais rasgada que certamente destoa daquilo que os fãs do filme anterior haveriam de esperar nesta reunião.
Ao assisti-lo, fica patente que os nomes envolvidos, entretanto, não garantiram a qualidade e a pertinência suficientes ao projeto, nem tampouco uma recepção de público semelhante à de sua colaboração anterior.
Gere interpreta um compulsivamente solteiro repórter da cidade grande que vai a uma cidadezinha cobrir a inusitada história de uma noiva (ela mesma, Julia Roberts) que tem o hábito de abandonar seus respectivos noivos no altar –e tal recurso (criado possivelmente para atender as intenções cômicas de Julia Roberts) nunca ganha de fato uma justificativa plausível que aprofunde a personagem.
Por que ele abandona os noivos no altar?
Qual a razão desse comportamento?
São perguntas que nunca parecem importar à narrativa, mais do que a sucessão de cenas espontâneas e engraçadas que reúnem seu par central; retratado, como manda o figurino do clichê, como um casal que não se bica no início para então perceber, depois de todo um filme, que na verdade se amam.
Nesse sentido a situação criada no roteiro até flerta com certa mirabolância: Uma vez que a assim chamada ‘noiva em fuga’ cria uma péssima situação para o repórter em seu ambiente editorial (ela enviou uma carta de reclamação que o deixou desacreditado), ele agora está de prontidão: A moça está de casamento marcado para logo, e ele crê que ela irá abandonar o altar como fez das outras vezes. Assim ele estará lá pronto para notificar o ocorrido e no processo limpar seu nome.
Até mais de acordo com os demais títulos da filmografia do diretor Garry Marshall do que “Uma Linda Mulher” –filmografia esta na qual predomina uma comédia sentimental pontuada por um pastelão extremamente ingênuo (e se esse é o melhor comentário que se pode falar sobre o filme é porque ele não conseguiu chegar lá...) –“Noiva Em Fuga” nos faz perguntar por que Richard Gere e Julia Roberts esperaram tanto para reunirem-se novamente em frente às câmeras, visto que quando o fizeram, optaram por este projeto tão insípido, redundante e pouco memorável.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Extraordinário

Em princípio, pode lembrar um pouco o melodrama oitentista “Marcas do Destino”, com Cher e Eric Stolz, este filme adaptado do livro de R. J. Palacio, mas o trabalho do diretor Stephen Chbosky (de “As Vantagens de Ser Invisível”, adaptado de seu próprio livro) não tarda a demonstrar valor próprio e emoção genuína.
Preservando o formato episódico na narrativa, típico de um escritor convertido em diretor de cinema, ele conta a história de Augie Pullmann, garotinho que nasceu com uma deformação facial. Após vinte e sete cirurgias (!), Augie consegue ver, ouvir e falar, embora não consiga parecer uma pessoa de aspecto normal –e o trabalho do pequeno e talentoso Jacob Tremblay (do magistral “O Quarto de Jack”), oculto atrás de quilos de maquiagem, é de um encanto sem fim.
Ao completar nove anos, sua mãe (interpretada com dignidade por Julia Roberts), após educá-lo em casa toda a vida, opta ao lado de seu pai (Owen Wilson) por matriculá-lo numa escola, mesmo diante da angústia de que, junto com a necessária e saudável interação social, ele certamente experimentará a rejeição, a intolerância e a crueldade alheia.
O ponto de partida do filme é o primeiro dia de Augie na escola, e a gradual forma com que ele e os outros a sua volta irão assimilar essa nova fase. O filme se incumbe assim de contar ao expectador o exato período de um ano experimentado pelos personagens.
Talvez, a grande sacada do roteiro seja realmente o fato da narrativa não pesar sobre os ombros de seu pequeno protagonista: Ao contrário de tantos filmes de tema semelhante que vieram antes dele, “Extraordinário” divide o ponto de vista entre vários personagens, assumindo, às vezes breve, às vezes demoradamente, o olhar de outros sobre os mesmos acontecimentos proporcionando uma experiência mais agregadora, mais emotiva e mais plural.
É muito bonito, por exemplo, quando o filme dá uma guinada num capítulo que leva o nome de “Via” –o nome da irmã de Augie, vivida por Izabela Vidovic –e passamos a enxergar a trama e sua família pelos olhos dela, alguém que aceitou ser deixada de lado porque tudo girava em torno de seu irmãozinho caçula enfermo (é nesse trecho que podemos ver a ótima participação, em uma única cena, da brasileira Sonia Braga); ou quando mais a frente, vemos a história transcorrer sob o ponto de vista de Jack Will (o expressivo Noah Jupe), o melhor amigo de Augie –ainda que, no fim das contas, todos os desdobramentos sempre acabem fazendo de Augie o cerne da produção (e, nesse sentido, é preciso reiterar os elogios à presença do pequeno e fabuloso Tremblay).
Ao compartilhar sua narrativa com seus ótimos coadjuvantes (alguns até inesperadamente profundos), o diretor Chbosky investe, como quem não quer nada, num salutar registro da aceitação e da benevolência em progresso e concebe um filme de insuspeito poder de emocionar.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Uma Linda Mulher

Se o fato da produtora Touchstone Pictures (subsidiária da Disney) já não é indicativo da inapelável transfiguração da realidade crua em um conto de fadas promovida por este filme, grande sucesso no final dos anos 1980, a sua própria premissa já se encarrega de deixar bem claro: Vivian (Julia Roberts, no auge de seu encanto e seu esplendor sexual) é uma prostituta do Hollywood Boulevard. Apesar dos elementos e códigos das ruas sugeridos, sobretudo, em seus primeiros quinze (e mais mundanos) minutos, Vivian é uma alma, digamos, pura tentando sobreviver ao lado da melhor amiga, e igualmente prostituta, Kit (Laura San Giacomo, de “Sexo, Mentiras e Videotape”) no mundo cão.
Como costuma ocorrer com toda garota sonhadora, Vivian tropeça de forma cuidadosamente descuidada em seu príncipe encantado: Edward (Richard Gere, no ponto ideal de saturação para ser galã) é um empresário ricaço, solteiro e, por um acaso do destino e dos roteiristas, está perdido com uma Ferrari nas ruas de L.A. –e o filme de Garry Marshal segue nessa pegada tão idealizadamente descarada porque o público e a crítica dos anos 1980 eram ingênuos o suficiente para deixar-se encantar com seu trabalho.
É lógico que Vivian –prestativa que só –irá ajudá-lo com esse transtorno (o de achar o hotel cinco estrelas adequado), e por tal auxílio, Edward a contratará para ser sua “acompanhante” até o fim de semana. Nada de sentimentos. Nada de planos futuros. Apenas a garantia da remuneração de 5 mil dólares –o quê era para ser, diga-se, o título original do filme, antes dos produtores notarem que a música clássica de Roy Orbison, “Pretty Woman”, tinha tanto a ver com a produção!
Ao longo desse fim de semana, é claro que Vivian irá se revelar –à Edward e ao expectador –todo o fascínio de garota que ela é (uma síntese genuína e encantadora entre a Cabíria de Julietta Massina e o fulgor de Marilyn Monroe), o quê levará o casal protagonista a se apaixonar.
Há méritos inquestionáveis também na agridoce condução de Marshal, graciosa para a comédia, elegante para o drama, inebriada de bom gosto para o romance. Toda essa desenvoltura ajuda muito a atravessar momentos que poderiam soar terrivelmente pedantes (como o manjado final feliz), mas que na narrativa minuciosamente bem calibrada –e encenada por um casal principal pleno de química –ficaram cativantes e arrebatadores aos olhos de toda uma geração de fãs.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Olhos da Justiça

Quem viu “O Segredo dos Seus Olhos” já podia pressupor que a sua refilmagem norte-americana dificilmente igualaria o trabalho magnífico realizado pelo diretor Juan José Campanella –o cinema argentino de um modo geral está mesmo em um patamar artístico que poucas escolas do mundo conseguem rivalizar.
E olha que esta nova versão, estréia como diretor do roteirista Billy Ray (de “Jogos Vorazes”), fez o que pode para emanar um brilho próprio: Chamaram para protagonizá-la o ótimo Chiwetel Ejiofor, de “12 Anos de Escravidão” e ainda reuniram no mesmo elenco, as estrelas Nicole Kidman e Julia Roberts –cuja reunião em cena termina sendo o maior atrativo para este filme.
A trama também ganhou novas nuances que aprofundam ainda mais o envolvimento pessoal dos protagonistas e agregam de maneira inteligente os desdobramentos da história ao contexto norte-americano pós-11 de setembro.
O protagonista é Ray (Chiwetel Ejiofor, sempre ótimo ainda que incapaz de igualar o magnífico Ricardo Darin), um ex-agente do FBI cujo retorno ao convívio dos antigos colegas de profissão traz junto as pesarosas lembranças de uma investigação transcorrida há treze anos atrás (e, sendo o filme datado de 2015, esses treze anos ambientam sua trama logo após os traumáticos desdobramentos sócio-políticos do atentado às Torres Gêmeas) e que afetaram a todos: O terrível estupro e assassinato da filha de sua parceira Jess (Julia Roberts, vivendo uma personagem que não existia no filme argentino que pode ser vista como uma junção específica de alguns daqueles personagens).
Tornado pessoal por essas questões de parentesco, o caso não se mostrou complicado em sua elucidação –logo ficou claro quem foi o assassino –mas sim em sua conclusão circunstancial: O assassino se viu impune às conseqüências do crime que perpetrou justamente por ser um importante informante na tentativa de identificar uma célula terrorista em atividade.
Como em “O Segredo dos Seus Olhos”, este novo filme se dedica a avaliar as transfigurações amargas que uma tragédia inominável e suas corrosivas ramificações operaram nos relacionamentos; inclusive o amor não declarado entre Ray e a procuradora Claire (Nicole Kidman) que, ao lado dos dois detetives, lutou até o fim pela condenação do culpado.
A maneira com que o filme de Billy Ray procurou recriar o filme original –e dele, na medida do possível se distanciar –não alcança aquele mesmo padrão de perfeição por uma série de motivos contundentes: Porque o diretor não tem a mesma desenvoltura que Juan José Campanella para orquestrar as facetas distintas deste trabalho –e na falta delas o filme se empobrece. Porque as motivações –sobretudo, no que tange ao final inesperado –não estão tão bem elaboradas e especificadas quanto na obra argentina. E porque o cinema norte-americano, em sua postura displicente (especialmente em filmes comerciais), e na tentativa constante de seus realizadores em encontrar uma expressão relevante à sua dramaturgia não consegue igualar a percepção afiada e certeira que o primoroso cinema argentino leva à condição humana em obras escritas, dirigidas e interpretadas com riqueza primordial.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2001

Um ano com algumas curiosidades como a dupla indicação à Melhor Diretor para Steven Sodenbergh por “Erin Brockovich-UmaMulher de Talento” e “Traffic” –culminando na vitória por esse último –e o reconhecimento inédito de um filme estrangeiro nas dez indicações para “O Tigre e O Dragão” (que acabou vencendo quatro merecidos prêmios).
Foi uma premiação bem distribuída, com o grande vencedor da noite sendo o magnífico “Gladiador”, de Ridley Scott, e embora seu astro, o ótimo Russell Crowe tenha levado também a estatueta de Melhor Ator, muitos acreditavam que esse prêmio seria mais justo nas mãos de Tom Hanks, por “Náufrago”.
Entre os cinco principais indicados, contudo, a grande pergunta era o quê “Chocolate” fazia ali, havendo grandes obras como “Quase Famosos”, “Garotos Incríveis”, “Contos Proibidos do Marquês De Sade”, “Billy Elliot” e até mesmo “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, para figurar em seu lugar.

MELHOR FILME
"Gladiador"

MELHOR DIREÇÃO
"Traffic", Steven Sodenbergh

MELHOR ATRIZ
Julia Roberts, "Erin Brockovich-Uma Mulher de Talento"

MELHOR ATOR
Russell Crowe, "Gladiador"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Marcia Gay Harden, "Pollock"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro, "Traffic"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Tigre e O Dragão"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Into The Arms of Strangers-Stories of the Kindertransport"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Big Mama"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Tigre e O Dragão" (Taiwan)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"U-571 A Batalha do Atlântico"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Gladiador"

MELHOR MAQUIAGEM
"O Grinch"

MELHOR FIGURINO
"Gladiador"

MELHOR SOM
"Gladiador"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Tigre e O Dragão"

MELHOR TRILHA SONORA
“O Tigre e O Dragão"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Things Have Change", de "Garotos Incríveis"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Quase Famosos"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Traffic"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Father and Daughter"

MELHOR MONTAGEM
"Traffic"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Quiero Ser”

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento

Ainda mais notável do que um diretor emplacar um filme na cerimônia do Oscar, é esse mesmo diretor emplacar dois filmes numa só cerimônia. Assim como Francis Ford Coppola em 1975 e Herbert Ross em 1978, o diretor Steve Sodenbergh competiu, no ano 2000, com dois trabalhos ao Oscar de Melhor Filme: “Traffic” –que lhe deu o prêmio de Melhor Diretor –e este “Erin Brockovich-Uma Mulher de Talento”.
Na categoria de Melhor Diretor, aliás, esse feito foi ainda mais raro: Antes dele, apenas Michael Curtiz havia tido dupla indicação, em 1939, por “Anjos de Cara Suja” e “Quatro Filhas”!
Contudo, “Erin Brockovich” é mais lembrado mesmo como o filme que enfim deu o Oscar de Melhor Atriz a Julia Roberts, após ela reinar, na primeira parte da década de 1990 em Hollywood como a namoradinha da América, graças ao seu marcante papel em “Uma Linda Mulher”, passar por um período meio irregular na carreira –por escolhas um pouco equivocadas como “O Segredo de Mary Reilly” –e reconquistar público e critica já no fim da década com o mesmo gênero que a consagração, a comédia romântica, nos bem-sucedidos “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, lançado em 1998, e “Um Lugar Chamado Noting Hill”, em 1999. O passo mais natural para consolidar essa consagração seria a conquista de um Oscar e, nesse intento, ela não se fez de rogada ao encarar o papel protagonista deste filme inspirado em fatos reais, mais necessariamente na luta de Erin Brockovich, divorciada e desempregada com quatro filhos que consegue emprego em um escritório de advocacia e dedica-se com afinco e obstinação num caso onde os moradores de uma cidadezinha tentam processar uma grande empresa por danos à saúde e ao meio ambiente infligidos por uma fábrica poluente.

A despeito de ser uma pessoa real (ela é produtora executiva do filme), Erin Brockovich é uma personagem recorrente no cinema: Os anos 1980 tiveram diversos exemplares onde atrizes como Jessica Lange ou Suzan Sarandon desempenharam mulheres do povo, que não fugiam de uma briga e nem levavam desaforo para casa. Uma personagem feita sob medida para uma atriz brilhar –desbocada, presenteado com sucessivos monólogos explosivos, sensual ao seu modo brejeiro e contando com toda a veracidade de sua história como respaldo –não havia muito como tirar o Oscar de Julia Roberts, por mais que o filme e o próprio trabalho da atriz não fossem, a rigor, algo tão memorável assim, e mesmo que, dentre suas concorrentes, a superioridade artística e qualitativa de Ellen Bustyn, por “Réquiem Para Um Sonho”, fosse um detalhe constrangedor de tão evidente.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Um Lugar Chamado Notting Hill

Tímido bibliotecário inglês, um belo dia vê entrar por sua loja de livros uma moça bonita que lhe parece estranhamente familiar.
Muito da impressão subliminar graciosa desse momento responde pelo charme contagiante deste filme dirigido por Roger Michell, mas definido, de fato, pelo estilo inescapavelmente romântico do roteirista Richard Curtis –que escreveu “Quatro Casamentos e Um Funeral”, também protagonizado por Hugh Grant.
No princípio, ele (Hugh Grant) é o único que não se dá conta, que ela (Julia Roberts) é Anna Scott, a maior estrela do cinema da atualidade. Contra todas as probabilidades, ela interessa-se por ele e por seu ar inglês, naturalmente desligado, e de cena em cena, de situação em situação, eles buscam construir uma relação a partir de uma singela e inebriante vontade de se ver e se conhecer.
Essa evolução natural de um relacionamento vem espertamente acrescida dos contratempos complicados, inerentes ao fato de se tentar manter um romance entre a mais conhecida atriz do mundo, e o mais simples dos britânicos –e responde, justamente por isso, o grande charme do filme que, tal e qual outros trabalhos escritos por Curtis, leva uma ligeira inovação ao gênero: As incertezas e fragilidades exploradas de forma tão romanceada e idealizada nas comédias românticas ganham uma ênfase masculina.
Há algo de arriscado em escalar Julia Roberts e Hugh Grant para interpretar uma estrela de cinema e um inglês tímido e hesitante (basicamente, eles mesmos); o registro dos personagens poderia cair no caricato, no banal ou no repetitivo, entretanto, graças à condução absolutamente segura e ponderada de Michell, esta divertida comédia não padece desses prejuízos, e ainda brinda o público com um arranjo fenomenal da clássica canção “She”, cortesia de Elvis Costello, no início e no final do filme (esse último, um dos grandes momentos das comédias românticas no cinema).

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Branca de Neve No Cinema

Branca de Neve e Os Sete Anões
O primeiro longa-metragem de animação de Walt Disney, “Branca de Neve...” impressiona até hoje por, entre outras coisas, ser ainda considerado por muitos, o melhor.
Podemos apenas imaginar como deve ter sido o assombro e o maravilhamento de platéias inteiras na época de seu lançamento, quando foram presenteados com uma obra animada sem precedentes; Pois é isso que “Branca de Neve...” é, um produto de arte da tal maneira refinada que estava, em diversos aspectos, a frente de seu tempo: Técnicas como a animação em três telas justapostas –que garantia um efeito de foco que simulava a câmera real e permitia a elaboração de incríveis proezas óticas –só foram assimiladas pela indústria muitas décadas depois.
Branca de Neve é a mais bela do reino em que vive. Essa realidade, entretanto, é demais para ser aceita por sua madrasta malvada que, orientada por seu espelho mágico, ordena que um caçador a mate na floresta. O homem a desobedece, poupando Branca de Neve que, fugitiva, encontra refúgio numa casa de pequenas proporções em meio à floresta. Ela pertence a sete anõezinhos que moram nela e trabalham numa mina próxima. Eles acolhem Branca de Neve ao chegarem em casa e achá-la dormindo sobre a cama. Mas, a notícia de que Branca de Neve ainda vive enfurece sua madrasta a ponto dela transformar-se numa bruxa hedionda e planejar matá-la, valendo-se do artifício de uma maçã envenenada.

Histórias Que Nossas Babás Não Contavam
Era inevitável –como tudo o mais –que o enredo rendesse lá um ou outro filme erótico (e devem existir centenas!), mas eis que a história do conto de fadas acabou inspirando aquele que é lembrado como um dos melhores e mais apreciados exemplares do nosso infame subgênero de pornochanchadas!
Num mundo fictício cuja galhofa só poderia mesmo existir num filme nacional dos anos 1980, a princesa Clara das Neves (a deliciosa Adele Fátima que, num contraste malicioso e divertido com a personagem do conto de fadas, é uma mulata das mais charmosas, belas e voluptuosas) se torna rapidamente um empecilho para a rainha má (Meiry Vieira), inclusive lhe tirando o favoritismo do príncipe (Denis Derkian) como o rabo de saia real mais cobiçado do pedaço (!). Ao confabular com o afeminado e petulante conselheiro fantasma (!) que mora em seu espelho mágico (vivido por Renato Pedrosa), a rainha resolve incumbir um caçador de matá-la em plena floresta.
Primeiro, o caçador (uma participação simplesmente hilária do comediante Costinha) se esbalda nos encantos sexuais de Clara das Neves, e depois –talvez, por gratidão à ela! –deixa que ela fuja para a floresta onde encontra uma casa habitada pelos sete anões.
Dos sete, seis deles ficam extremamente satisfeitos (maravilhados seria a palavra mais apropriada!) em ter uma mulher absurdamente esplêndida –e que fica nua a cada cinco minutos por qualquer razão! –morando em sua casa. O único anão que não concorda com a idéia, Zangado se sente protelado pelos demais que agora têm uma mulher de verdade para acariciar (!?!).
A divertida seqüência em que os anõezinhos vão, um a um, entrar no quarto onde Clara das Neves dorme pelada, e se fartam dela, um de cada vez, é simplesmente antológica!
Produzido por Aníbal Massaini Neto e dirigido por Osvaldo de Oliveira, “Histórias Que Nossas Babás Não Contaram” cai na possível situação onde poderia –na distorção tão descarada que faz da história original –ter supostamente estragado a infância de muita gente, contudo, sua malícia empregada na medida certa, sua chacota irresistível e seu bom humor até hoje saboroso e, sobretudo, o apelo sexualmente inquestionável da bela Adele Fátima o tornam um exemplo perfeito do que foi (ou do que deveria ter sido) o subgênero das pornochanchadas.

Floresta Negra
Numa das mais admiráveis versões já realizadas na história, a Madrasta Malvada (aqui batizada de Claudia) ganha expressão na competência à toda prova de Sigourney Weaver, em um filme que se debruça sobre os meandros complexos na relação de Branca de Neve e sua madrasta –que, na ambigüidade e na proposta dramaticamente rica da direção tem um belo arco narrativo que justifica o fato dela ser tão malvada assim.
O diretor Michael Cohn reavalia o conto dos Irmãos Grimm sob um prisma macabro, fatalista e sombrio vislumbrando as fissuras irremediáveis entre os relacionamento das duas antagonistas –basicamente, as únicas personagens que permaneceram intocadas nesta versão.
Branca de Neve é assim chamada Liliana (a jovem Monica Keena, de “Freedy X Jason”), e seu pai, Lord Hoffman (Sam Neil) casa-se com Claudia sobre quem já pesou a suspeita de práticas de bruxaria –a trama se ambienta no Período das Cruzadas, quando discussões e reflexões acerca do que era misticismo e religião estavam relativamente em voga.
Quando o pai da jovem falece cabe à Claudia e Liliana estabelecerem um consenso entre suas divergências, mas, à medida que a jovem cresce –e afloresce não apenas sua beleza, mas também sua rebeldia e impetuosidade –as diferenças entre ela e sua madrasta adquirem um desequilíbrio ainda maior, e mais perigoso.
Em fuga pela famigerada Floresta Negra, Liliana encontra refúgio em meio aos parias que se escondem na floresta de toda sorte violenta de discriminações alheias: Não, não são os sete anões, mais sim um grupo de lenhadores deformados –entre eles, o jovem Will (Gill Bellows, de “Um Sonho de Liberdade”) que assume a função de interesse romântico na ausência deliberada de um providencial príncipe encantado.
Essa necessidade enfática de afastar-se do caráter lúdico do conto e abraçar um viés realista só encontra alguns percalços prejudiciais no trecho final, quando alguns artifícios do roteiro se mostram bem menos inspirados no momento de seu desfecho do que o eram em seu ponto de partida.

Branca de Neve (ESP)
Transpondo o conto dos Grimm para a Espanha no que parecem ser meados dos anos 1920, o diretor Pablo Berger esbanja ousadia e personalidade ao converter o filme num exemplar com todos os cacoetes e características do cinema mudo –a exemplo do oscarizado, “O Artista”.
Este “Branca de Neve” se passa em Sevilha onde um grande toureiro (Daniel Gimenez Cacho), além de ser atingido por um touro –o que lhe imobiliza o corpo –tem também a esposa falecida durante o parto, restando-lhe assim somente a filha pequena. Como fica bem claro nesse prólogo, esta nova e audaciosa versão é de uma dramaticidade sem fim.
O toureiro, apesar de sua condição, logo irá desposar sua própria enfermeira, Encarna (Maribel Verdú, de “E Sua Mãe Também” e “O Labirinto do Fauno”) –de olho na fortuna do famoso toureiro –o quê a torna madrasta da filha pequena dele, Carmen (que, ao crescer, ganhará as formas da bela Macarena García).
A vida de Carmen será assim se submeter às crueldades de Encarna: Morando na mansão que ela rege depois do falecimento de sua avó, a jovem testemunha o pai ser confinado e esquecido dentro de um quarto enquanto a madrasta estabelece uma violenta relação com o chofer.
Carmen aprende com o pai suas prodigiosas técnicas de tourada, o quê só aumenta o ódio de Encarna por ela que, em algum momento, sugere que o chofer a mate.
Ao fugir disso tudo, Carmen termina perdida (e sem memória) numa floresta onde encontra (desta vez) seis diminutos toureiros, os anões que lhe darão o apelido de Branca de Neve –e aqui cabe, também, uma referência ao cult “Monstros”, de Todd Browning. Eles a protegerão e cuidarão, inclusive, quando se abater sobre ela a trágica maldição da maçã envenenada: Ao contrário das outras versões, Pablo Berger não faz concessões a um final feliz com o surgimento de um príncipe que quebre o feitiço –seu filme se encerra numa angustiante cena de circo de horrores, onde o corpo imóvel e cadavérico de Carmen (ou Branca de Neve) está à disposição de uma interminável fileira de interessados a beijá-la, e nenhum deles sinaliza qualquer possibilidade de vir a desfazer o encanto.
Por mais angustiante e depressivo que seja o desfecho deste “Branca de Neve”, o mais inacreditável é que ele ainda soa ameno e pueril perto de outra versão de mesmo nome, portuguesa, lançada no ano 2000 e dirigida por João César Monteiro: Um filme, dizem, difícil, radical e perturbador.

Branca de Neve e O Caçador
Com o lançamento do irregular, porém, bem-sucedido “A Garota da Capa Vermelha” –que, por sua vez, pega carona na moda de “Crepúsculo” –os estúdios passaram a adotar uma nova tendência: As adaptações de contos de fadas (muitos deles materializados em animações no passado) convertidos em filmes de apelo mais sério e mais infanto-juvenil, não raro, com influência de outros filmes de sucesso.
Dessa forma, surgiu (pouco antes de “Malévola”, com Angelina Jolie) este “Branca de Neve e O Caçador” –realizado pelos estúdios da Universal e não pela Disney –como o nome sugere (e como os desdobramentos tornam explícito), buscando uma quase reinvenção da história clássica.
Até então a adorável filha do rei, Branca de Neve (Kristen Stewart, de “Crepúsculo”, certamente escolhida com interesse na legião de fãs daquela saga) perde seu pai na mesma noite em que tem seu reino tomado pela maquiavélica Ravena (Charlize Theron, numa atuação memorável). Anos mais tarde, feita rainha e com sua beleza intocada graças ao uso constante de magia negra, Ravena recebe a notícia de seu espectral espelho mágico de que não é a mais bela entre as mulheres, honra que cabe agora à Branca de Neve, desde então prisioneira na torre mais alta. Quando tentam matá-la, Branca de Neve escapa e ruma para os confins sombrios da floresta negra, lugar que só um homem destemido e atormentado como o Caçador (Chris Hemsworth, o “Thor” da Marvel Studios) se atreveria a adentrar. Ele vai atrás dela sob um acordo com a Rainha, mas decide aliar-se à Branca de Neve e ajudá-la na épica batalha pelo reino que está por vir.
O escolhido para a direção, o inglês Rupert Sanders, deixa bastante claras suas aspirações cinematográficas: Além dos filmes de sucesso aos quais a escolha do elenco principal remete, seu filme emula, em tom, visual e intenção, do início ao fim, as qualidades épicas de “O Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson –inclusive, era Viggo Mortensen, uma de suas escolhas iniciais para viver o Caçador!
Da trama tão conhecida e difundida pelo desenho de Walt Disney sobrou pouco mais que o esqueleto: Se o Caçador tinha um papel breve e irrisório no conto de fadas, aqui sua presença e importância chegam a suplantar o príncipe encantado (Sam Claffin, de “Jogos Vorazes-Em Chamas”), e os anões –agora oito, ao invés de sete –não são mais que um gracioso reforço nas cenas de combate.
É um filme bonito, cujos valores de produção são bem aplicados e eficientes em torná-lo um espetáculo charmoso, seu grande calcanhar de Aquiles é mesmo sua atriz principal, Kristen Stewart, cuja apatia implícita na interpretação tira um pouco do brilho que a personagem poderia ter. A atriz, inclusive, envolveu-se com o diretor Sanders (que era casado) durante a divulgação do filme, escândalo que comprometeu os planos para a continuação –sugerida no final vagamente aberto –a saída do estúdio foi remover a atriz o diretor (Sanders depois encarregou-se de realizar “Ghost In The Shell-Vigilante do Amanhã”) tentando, um tempo depois, remodelar a produção obtendo como resultado “O Caçador e A Rainha do Gelo” que, como seqüência revelava-se ligeiramente irregular e incoerente.

Espelho, Espelho Meu
Lançado no mesmo ano de “Branca de Neve e O Caçador” –e repetindo o estranho equívoco de filmes extremamente similares lançados no mesmo período –este “Espelho, Espelho Meu”, dirigido por Tarsem Singh Dhandwar (da aventura “Imortais”) tinha por diferencial um tratamento escancarado de comédia.
A angelical Branca de Neve (Lilly Collins, filha do cantor Phil Collins) está em apuros. Nutrida de inveja para com sua beleza, a malvada madrasta (Julia Roberts, aparentemente a razão de ser deste projeto), rainha do castelo desde a morte do pai de Branca de Neve a deseja morta, pagando para isso os serviços de um caçador. Ao invés disso, porém, Branca de Neve vai parar na floresta onde torna-se hóspede de sete anõezinhos.
O diretor elabora um caprichado senso visual, repleto de cor e exuberância para esta versão em comédia do conto imortalizado pelo desenho de Walt Disney, no qual seu principal trunfo parece mesmo ser a escalação da estrela Julia Roberts para o vilanesco e afetado papel de Rainha Má (cujos rompantes de divas parecem fazer alusão involuntária aos chiliques da atriz na vida real), em contraponto a doçura e fragilidade de Lilly Collins. Outro elemento que depõem a favor desse ‘diferencial cômico’ é o príncipe encantado (o vistoso Armie Hammer) cuja suavidade de sua participação, a pouca expressão na trama e a inclusão de uma vergonhosa sub-trama paralela (onde vira um cachorro...) ameaçam transformá-lo num coadjuvante quase obsoleto.
Comédia não é um gênero fácil em torno do qual trabalhar. O humor é um paladar complicado ao qual se ajustar em relação ao que espera o público, e o diretor Dhandwar –notadamente oriundo de produções sombrias (como o suspense “A Cela”) –já não tinha muita desenvoltura nessa área, o quê fica patente aqui na desmesurada confiança que ele deposita não na narrativa, no roteiro ou no elenco, mas no aparato amplo e endinheirado de seu designer de produção –e essa característica, de fato, se revela em todos os seus filmes –terminando por carregar esta versão do conto de fadas em elementos excessivamente cartunescos, tornando o filme um trabalho infantilizado e superficial.