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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Herege


 Na cartilha moderna dos filmes de terror (e na cartilha clássica, também, por que não) nunca é boa ideia bater na porta de estranhos, seja para quem recebe a visita (“Bate A Porta”, de M. Night Shyamalan); seja para quem se apresenta como uma. Vem a ser exatamente esse o caso das duas incautas protagonistas deste frequentemente surpreendente “Herege”, lançado pela A24 – produtora esta que lançou inúmeros dos singulares sucessos de público e crítica do gênero de terror dos últimos anos.

“Herege”, dirigido pela dupla Scott Beck e Brian Woods (roteiristas de “Um Lugar Silencioso”), já expõe uma insuspeita predisposição para surpreender o público na escalação de seu antagonista – um bastante sumido Hugh Grant que, aqui, surge com os mesmos maneirismos de bonachão que o fizeram um comediante (e galã romântico) de sucesso no cinema décadas atrás. Agora, com a idade a lhe pesar nitidamente nas expressões faciais e diante de um novo contexto, todos esses maneirismos adquirem um novo viés; eles escondem uma periculosidade, uma psicose latente que deixa, de pronto, o expectador e demais personagens em estado de alerta.

Mas, eu estou me antecipando. Antes de tudo, as protagonistas de “Herege” – ou “Heretic” – são as jovens Irmãs Barnes (Sophie Thatcher, de “Acompanhante Perfeita”) e Paxton (Chloe East, de “Os Fabelmans”), missionárias da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que – num procedimento usado, inclusive, por congregações aqui no Brasil – percorrem residências dos subúrbios, disseminando a palavra divina conforme os dogmas de sua religião e tentando arregimentar seguidores para sua igreja.

Na iminência de uma tempestade, e com o anoitecer já sinalizando sua proximidade, elas chegam numa área suburbana com suas bicicletas até a moradia de um certo Sr. Reed.

Após baterem à sua porta, é  um Hugh Grant todo hospitaleiro e sorridente que as recebe – numa sucessão de gestos corriqueiros que já denota a escolha interessante e muito indicativa dele para o papel: Como muitos laudos periciais já deram conta, o perigo de um  serial killer é justamente sua capacidade de se camuflar da mais completa aparência de gentileza e cordialidade.

As moças atendem seu convite de entrar na sua residência – está chovendo e ele garantiu lhes trazer uma torta que a esposa estava preparando – entretanto, uma vez dentro da casa, as garotas começam a pressentir um perigo iminente. As conversas do Sr. Reed seguem num tom ameno e polido, mas tomam rumos inesperados. Ele se mostra um ferrenho e inquisitivo estudioso das religiões e, conforme o tempo passa, parece dotado de um inconformismo quase violento para com a forma com que os preceitos da fé são usados como massa de manobra ao longo da História.

Barnes e Paxton, despreparadas para lidar com tanta erudição desenvolta e também com essa súbita hostilidade crescente, logo, demonstram vontade de sair dali. Mas, sem aparentar, é quase em uma teia de aranha que o Sr. Reed as enredou – os casacos delas, que ele gentilmente guardou, estão com a chave que destranca o cadeado onde deixaram as bicicletas lá fora (e elas estão a quilômetros de seu destino); as janelas visíveis são estreitas, sem abertura, e intransponíveis, a porta está trancada e ser um indício de como pode ser aberta, e a dita Sra. Reed, sob a qual elas, apreensivas, já perguntaram várias vezes, nunca aparece – e provavelmente, talvez nem exista!

É um jogo de gato e rato que começa verbal e comedido, mas vai gradualmente se tornando mais abertamente perigoso e sádico, e só faz piorar.

Claro que, de um ponto em diante, o roteiro e a direção de Beck e Woods escancaram o terror de sua premissa numa sucessão de momentos gráficos e inacreditáveis que abandonam completamente a sugestão da primeira metade, adquirindo todos os exageros divertidos da ficção, mas, isso é feito com profissionalismo (a construção das cenas é milimetricamente prodigiosa e o trio principal brilha do início ao fim) e dá origem a várias cenas antológicas: Minha predileta é a que mostra um ângulo de cima e mescla o designer da casa com uma maquete deixada na sala, um efeito que lembra outra cena também marcante do já clássico “Hereditário”.

terça-feira, 1 de abril de 2025

Bridget Jones - Louca Pelo Garoto


 E não é que realmente foi feito o quarto filme da franquia “Bridget Jones”? Iniciada em 2001 com o excelente (e ainda o melhor de todos) “O Diário de Bridget Jones”, esta série de filmes, inspirados nos livros de Helen Fielding, teve sucessivamente como segundo exemplar o simpático ainda que irregular “Bridget Jones-No Limite da Razão”, lançado em 2004 e, também ele, adaptado de um livro da autora. Depois, contudo, algo inusitado aconteceu: Helen Fielding lançou o terceiro livro, “Louca Pelo Garoto”, onde confrontava sua heroína, Bridget Jones, com novas situações numa nova fase da vida. O radicalismo do enredo desse terceiro livro despertou a fúria de fãs da série ao redor do mundo todo, que já naqueles tempos, ameaçaram cancelá-lo!

Essa reação foi de tal forma negativa que os planos para o terceiro filme foram improvisados –foi lançado em 2016, “O Bebê de Bridget Jones”, único filme da série feito a partir de um roteiro original (da própria Helen Fielding) e não de uma adaptação dos livros.

O tempo passou, e a relação dos fãs com o livro “Louca Pelo Garoto”, foi mudando. Não mais revoltados com o descarte do amado personagem de Mark Darcy (Colin Firth, sempre ótimo), os fãs passaram a reparar melhor na construção bem feita do enredo, na ideia revigorante de trazer a protagonista vivenciando um recomeço, enfrentando desafios sob a ótica de uma diferente faixa etária (não mais uma jovem mulher solteira) e no fato da trama, em si, não se mostrar tão acomodada quanto a trama do segundo livro (e filme). Com isso, 2004 testemunhou assim o lançamento de “Bridget Jones-Louca Pelo Garoto” –produzido pela própria Helen Fielding e pela estrela Renée Zellweger –que enfim traz para o cinema o terceiro livro da série, tornando-se, portanto, o quarto filme!

A inglesa Bridget Jones é viúva desde que seu marido, Mark Darcy faleceu quatro anos atrás (e essa era a manobra narrativa que tanto despertou a fúria das fãs dos livros), no entanto, passado esse prolongado período de luto, Bridget decide que é hora de retomar à vida que tinha antes. O que significa que, apesar de ter agora dois filhos pra criar –o menino Bill (Casper Knopf) e a menininha Mabel (Mila Jankovic) –ela deve voltar a trabalhar (na mesma emissora de TV do primeiro filme) e tentar, na medida do possível, se mostrar aberta a um novo relacionamento, que parece perfeitamente viável na improvável forma do garotão Roxter McDuff (Leo Woodall), embora os flertes de hoje dia acabem dependendo muito mais de ferramentas digitais que a quarentona Bridget Jones deve se virar para aprender a usar!

Essa é, portanto, a tônica do novo “Bridget Jones”, que funcionou à perfeição na literatura e ocasionalmente, funcionou muito bem no cinema também –em grande parte, graças ao acerto fenomenal da escalação de Renée Zellweger ao papel. O diretor Michael Morris parece tão convicto da eficácia dessa fórmula, testada e comprovada junto ao seu público, que ele relaxa em muitos aspectos na sua tarefa. A narrativa de “Louca Pelo Garoto” –diferente da excelência instintiva e acertada com que era conduzida em “O Diário de Bridget Jones” –nunca consegue surpreender o público, em grande medida, porque ao negligenciar este ou aquele personagem, já podemos até adivinhar, de antemão, os rumos que à eles serão dados na trama. Além disso, escalar o respeitável (e indicado ao Oscar!) Chiwetel Ejiofor para um personagem que, em tese, surge como coadjuvante e aos poucos vai ganhando estatura junto à trama, também não pega ninguém de surpresa. Diferente, por exemplo, do que ocorre no primeiro filme com o próprio Mark Darcy –na época, o excelente Colin Firth não era tão famoso, tendo participado dos consagrados “O Paciente Inglês” e “Shakespeare Apaixonado”, mas em papel de vilão. Logo, sua escalação como Darcy era extremamente inspirada –nos passava a ideia de que ele seria quase alguém vilanesco na trama, quando de repente essas primeiras impressões (nossas e da personagem principal) iam sendo subvertidas.

O livro, “Bridget Jones-Louca Pelo Garoto”, num esperto reaproveitamento da estrutura já clássica do livro original, seguia por tópicos muitos similares aos quais este novo filme não conseguiu se equiparar justamente por causa disso.

Apesar disso, ainda sobram momentos ternos e divertidos (muitos deles por conta da sempre memorável Renée Zellweger, bem ladeada pelo hilário personagem de Hugh Grant), e um agridoce senso de nostalgia deste filme em relação à todos os outros da série.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2025


 Nesta última segunda-feira foram anunciados os nomes dos indicados ao Globo de Ouro 2025, a ser realizado no dia 5 de janeiro de 2025. Prêmio de cinema e TV conduzido pelo Impressa Estrangeira, o Globo de Ouro –ou Golden Globe –já foi visto como uma prévia do Oscar, embora muitas decisões e escolhas promovidas nos últimos anos tenham afastado essa impressão. No entanto, ainda é parte fundamental da temporada de prêmios, e certamente vai interferir (e antecipar) muitas características que integrarão a cerimônia do careca dourado. Vamos às indicações e às considerações (lembrando que aqui só serão mencionados os indicados de cinema):

Melhor filme dramático

"O Brutalista"

"Um Completo Desconhecido"

"Conclave"

"Duna-Parte 2"

"Nickel Boys"

"Setembro 5"

Melhor filme de comédia ou musical

"Anora"

"Rivais"

"Emilia Perez"

"A Verdadeira Dor"

"A Substância"

"Wicked"

Primeira mudança: Agora as categorias predominantes contam com um limite de seis vagas (e não cinco como em anos anteriores), o que eleva os nomeados para as duas categorias de Melhor Filme para doze! Assim como seu brilhante antecessor, o mais brilhante ainda “Duna-Parte 2” sofreu uma ligeira esnobada do Globo de Ouro, embora deva reinar majestoso nas categorias técnicas do Oscar. Surgem com algum favoritismo aqui “Emilia Perez” –líder em indicações, com dez –e “O Brutalista” –sete indicações –“Emilia Perez”, por sinal, saiu fortíssimo do Festival de Veneza em maio, mas havia perdido algum fôlego quando estreou com uma ou outra crítica negativa. Muitos comemoraram a inclusão (inclusive noutras expressivas categorias) do ousado “A Substância”, caminhando a passos largos para virar o grande cult-movie de 2024 (e para ganhar improváveis, ainda que merecidas, indicações ao Oscar). Embora o aguardado filme de Luca Guadagnino “Queer” tenha ficado de fora da categoria principal (entre outras razões por não ter agrado boa parte da crítica), o seu “Rivais”, lançado com atraso no início do ano, foi capaz de se manter memorável para conquistar uma nomeação. E a campanha de “Wicked”, que entre outras estratégias providenciais agendou seu lançamento para o final de ano, deu frutos obtendo um bom números de indicações.

Melhor atriz de filme dramático

Pamela Anderson, "The Last Showgirl"

Angelina Jolie, "Maria Callas"

Nicole Kidman, "Baby Girl"

Tilda Swinton, "O Quarto Ao Lado"

Fernanda Torres, "Ainda Estou Aqui"

Kate Winslet, "Lee"

Os brasileiros ficaram em polvorosa quando, nesta categoria, surgiu nossa querida Fernanda Torres, que parece repetir os passos da própria mãe, Fernanda Montenegro, que culminou indicada a Melhor Atriz na cerimônia do Oscar 1999. Fernandinha pode refazer esses mesmos passos, contudo, aqui ela disputa com um sex-symbol de décadas passadas retornando à ribalta por meio de um projeto corajoso e surpreendente (Pamela Anderson); duas atrizes que costumam equilibrar atuações elogiáveis com estrelato inquestionável (Nicole Kidman e Angelina Jolie); uma elogiada intérprete inglesa defendendo o primeiro filme falado em inglês de Pedro Almodóvar (Tilda Swinton) e uma premiada atriz, tarimbada em obter aclamação nas premiações (Kate Winslet).

Melhor direção

Jacques Audiard, "Emilia Perez"

Sean Baker, "Anora"

Edward Berger, "Conclave"

Brady Corbet, "O Brutalista"

Coralie Fargeat, "A Substância"

Payal Kapadia, "Tudo O Que Imaginamos Como Luz"

Edward Berger (de “Nada de Novo no Front”) e Jacques Audiard (de “O Profeta”) não são estranhos às premiações, mas certamente são presenças bastante inesperadas (bem como os longa-metragens que realizaram) as de Brady Corbet, Coralie Fargeat, Sean Baker (de “Projeto Flórida”) e Payal Kapadia. Na esteira da repercussão positiva em Cannes, o favorito é Baker, cujo “Anora” saiu premiado com a Palma De Ouro (embora conte com um total de apenas cinco indicações), mas muita coisa pode mudar.

Melhor ator em filme dramático

Adrien Brody, "O Brutalista"

Timothée Chamalet, "Um Completo Desconhecido"

Daniel Craig, "Queer"

Colman Domingo, "Sing Sing"

Ralph Fiennes, "Conclave"

Sebastian Stan, "O Aprendiz"

Esperava-se que o jovem Timothée Chamalet fosse indicado por “Duna-Parte 2”, no entanto, ele saiu-se com essa prodigiosa atuação vivendo Bob Dylan no filme de James Mangold, seus competidores mais expressivos certamente são Daniel Craig quebrando de vez a imagem de James Bond (e defendendo com unhas e dentes a única indicação de “Queer”), o elogiado trabalho de Ralph Fiennes e Sebastian Stan, o Soldado Invernal da Marvel Studios, que este ano conseguiu emplacar duas indicações no Globo de Ouro.

Melhor atriz em filme de comédia ou musica

Amy Adams, "Canina"

Cynthia Erivo, "Wicked"

Karla Sofía Gascón, "Emilia Perez"

Mikey Maddison, "Anora"

Demi Moore, "A Substância"

Zendaya, "Rivais"

Melhor ator em filme de comédia ou musical

Jesse Eisenberg, "A Verdadeira Dor"

Hugh Grant, "Herege"

Gabriel LaBelle, "Saturday Night"

Jesse Plemons, "Tipos de Gentileza"

Glen Powell, "Assassino Por Acaso"

Sebastian Stan, "Um Homem Diferente"

Parece haver um consenso entre os críticos e votantes do Globo de Ouro (que já foi percebido, ao longo dos anos, no Oscar também) de que, se um filme possue um gênero indefinido, ou mesmo incategorizável, ele é indicado à Melhor Comédia ou Musical –só assim para entender as indicações nessa categoria para Hugh Grant pelo terror “Herege” (no qual ele está surpreendente, diga-se) e para Jesse Plemons (que venceu em Cannes!) pelo estranho, porém fascinante “Tipos de Gentileza”. O mesmo ocorre em Melhor Atriz de Comédia ou Musical para Demi Moore no nada engraçado “A Substância”, todavia, entre as mulheres prevalace o irônico favoritismo de Karla Sofía Gascón, a primeira atriz trans na História indicada ao prêmio (uma manobra que dificilmente deixará de ser repetida pelo Oscar), já entre os Atores, o favorito ainda parece incerto, mas seria muito interessante ver o belo trabalho de Glen Powell, num dos filmes mais sensacionais do ano, ser recompensado.

Melhor atriz coadjuvante

Selena Gomez, "Emilia Perez"

Ariana Grande, "Wicked"

Felicity Jones, "O Brutalista"

Margaret Qualley, "A Substância"

Isabella Rossellini, "Conclave"

Zoe Saldana, "Emilia Perez"

Melhor ator coadjuvante

Denzel Washington, "Gladiador II"

Kieran Culkin, "A Verdadeira Dor"

Guy Pierce, "O Brutalista"

Jeremy Strong, "O Aprendiz"

Yura Borisov, "Anora"

Edward Norton, "Um Completo Desconhecido"

Em Atriz Coadjuvante, as duas colegas de “Emilia Perez”, a jovem Selena Gomez e a bem-sucedida Zoe Saldana, terão de enfrentar o fascínio da crítica e a aprovação do público despertados pela sensacional Margaret Qualley em “A Substância”, embora hajam grandes chances para a veterana Isabella Rossellini e para a sempre talentosa Felicity Jones, correndo por fora, a cantora Ariana Grande deve encarar a indicação como um prêmio.

Em Ator Coadjuvante, é um pena que o sempre fabuloso Denzel Washington não tenha maiores chances (talvez, se o filme fosse melhorzinho...), resta os grandes trabalhos de atores consagrados como Edward Norton e Guy Pierce em disputa com a surpresa das presenças de Kieran Culkin (finalmente mostrando em cinema o potencial que já exibia na série de TV “Sucession”) e Jeremy Strong (cujo “O Aprendiz” é uma produção pulsante).

Melhor animação

"Flow"

"Divertida Mente 2"

"Memórias de Um Caracol"

"Moana 2"

"Wallace & Gromit-A Vingança"

"Robô Selvagem"

As coisas mudam: Outrora favoritos incontestáveis na categoria animação, a Pixar (representados pela continuação de um longa-metragem que, anos atrás, simplesmente arrebatou o prêmio) já não surge este ano tão imbatível assim, o que aumenta as merecidas chances para o novo “Wallace & Gromit” e para os mais alternativos “Flow” e “Memórias de Um Caracol”, mas... quer saber? Quem merece o prêmio mesmo à a Dreamworks que entregou, com o emocionante “Robô Selvagem” uma das melhores animações do ano (e ele ainda está indicado em Melhor Trilha Sonora!). “Moana 2”, o representante da Disney no páreo nem conta –sua presença entre os indicados é protocolar em função da importância do estúdio, mas ele nem tem tanta qualidade para constar por aqui.

Melhor canção original

"Beautiful That Way", "The Last Showgirl"

"Compress/Repress", "Rivais"

"El Mal", "Emilia Perez"

"Forbbiden Road", "Better Man"

"Kiss The Sky", "Robô Selvagem"

"Mi Camino", "Emilia Perez"

Melhor trilha sonora

"O Brutalista"

"Conclave"

"Robô Selvagem"

"Emilia Perez"

"Rivais"

"Duna-Parte 2"

Melhor filme estrangeiro

"Tudo O Que Imaginamos Como Luz" (Índia)

"Emilia Perez" (França)

"A Garota da Agulha" (Dinamarca)

"Ainda Estou Aqui" (Brasil)

"A Semente do Figo Sagrado" (Alemanha)

"Vermiglio" (Itália)

“Emilia Perez” aparece na categoria de Filme Estrangeiro assim como na de Filme de Comédia ou Musical”, o que já o torna automaticamente o favorito da categoria, comprometendo as chances do brasileiro “Ainda Estou Aqui” –de repente, a mesma história de 1999 parece se repetir... –entretanto, o indiano “Tudo O Que Imaginamos Como Luz” também segue forte na disputa.

Melhor roteiro

"Emilia Perez"

"Anora"

"O Brutalista"

"A Verdadeira Dor"

"A Substância"

"Conclave"

sábado, 23 de março de 2024

Amor À Segunda Vista


 Tendo o astro britânico Hugh Grant vindo, alguns anos antes, de realizações como “Quatro Casamentos e Um Funeral” e “Um Lugar Chamado Notting Hill” –hoje certamente clássicos do gênero comédia romântica –e a estrela Sandra Bullock vindo de obras como “Enquanto Você Dormia”, era natural que, em algum momento, eles fossem reunidos num único filme a fim de fazer aquilo que faziam de melhor: Encantar o público em romances inofensivos e adocicados.

Havia certamente um outro motivo por trás disso: Tendo sido todos esses filmes citados produzidos na década de 1990, enquanto que este foi lançado em 2002, já corriam alguns anos que, tanto Sandra quanto Hugh, não protagonizavam um sucesso de bilheteria expressivo –e olha que o gênero comédia romântica nem tinha sofrido um severo desgaste como houve na última década! –dessa forma, a ideia dos produtores, era unir as forças e o carisma junto ao público dos dois astros (uma manobra muito comum no cinema norte-americano) para beneficiar ambos com um novo sucesso de bilheteria. Não foi o que houve –como muitos filmes antes realizados por eles, “Amor À Segunda Vista” passou quase que em brancas nuvens pelos cinemas (também pudera, numa temporada que contou com produções como o primeiro “Homem-Aranha”, de Sam Raimi, “O Senhor dos Anéis-As Duas Torres” e “Harry Potter e A Câmara Secreta”, não haveria de ser uma comédia romântica genérica que iria se destacar...) sendo muito pouco lembrado hoje em dia.

A razão é bem evidente: É bem fácil confundi-lo com inúmeras outras comédias românticas realizadas antes e depois tal é a comodidade com que tudo é nivelado aqui. Sandra vive Lucy Kelson, um ativista nova-iorquina; Hugh, com sua habitual fleuma britânica, irredutível seja no constrangimento, seja na seriedade, vive George Wade, um magnata de família bilionária famosa no setor imobiliário, O contexto em que os personagens existem os separa (e ainda os faz opostos um ao outro), mas as circunstâncias (como rege a cartilha dos romances holllywoodianos) haverão de aproximá-los: Quando Lucy tenta interceder junto à George para que não seja demolido um prédio antigo em Coney Island (que, ainda por cima, serve como centro comunitário), George vê em Lucy algo que falta em seus funcionários usuais –e que lhe cobram o tempo todo em seu escritório: Alguém capaz de lhe chamar a atenção para inúmeros detalhes sociais e humanos que, normalmente, passam completamente batido ao desinteressado George.

Sob a promessa de manter o centro comunitário intacto –um desejo que Lucy herdou dos pais, moradores daquele local –ela começa a trabalhar para ele e, valendo-se dos conhecimentos adquiridos na faculdade de Direito (mas nunca postos em prática profissionalmente e nem financeiramente) Lucy começa a se destacar na empresa a ponto de, em pouco tempo, George se descobrir incapaz de ser um advogado funcional sem ela por perto.

Na inevitável simplificação proporcionada pelo roteiro, essa dependência existencial e prática é, desde os primeiros minutos, uma paixão disfarçada, mas, a despeito da obviedade gritante aos olhos do público, os dois personagens envolvidos levarão todo um filme para descobrir isso –somente quando Lucy dá um ultimato, isto é, quando fica farta de ser a babá de um adulto playboy e pede um aviso prévio de demissão, e com isso, acaba estipulando um prazo de validade para a convivência dos dois, é que os protagonistas começam a se dar conta de seus sentimentos.

É bem provável que o grande motivo para que “Amor À Segunda Vista” tenha sido incapaz de chamar muita atenção para si em sua época –e para que, hoje, continue sendo uma produção sem maiores atrativos –é sua total ausência de um diferencial artístico mais contundente. Sandra Bullock é, como sempre, encantadora, mas já haviam dúzias de filmes exatamente iguais (e por vezes melhores que este) onde ela encantava também; e Hugh Grant já não oferecia qualquer novidade no papel do rapaz inglês tímido, ainda que sedutor e de humor depreciativo. Mesmo a ideia de colocá-los juntos não desperta maiores interesses, visto a pouca química que ambos demonstram.

As carreiras de Sandra e Hugh seguiriam nessa espécie de marasmo por mais alguns filmes –sobretudo a dele, que foi meio que retomada em anos recentes com participações em filmes infanto-juvenis como “Paddington” e “Wonka”; enquanto que Sandra Bullock se reinventaria como atriz e como estrela em produções de maior estatura, revelando nela uma intérprete formidável e destemida.

Hoje, a grande razão para “Amor À Segunda Vista” ser lembrado é, curiosamente, uma ponta não-creditada, não-explicada e completamente aleatória de Donald Trump (!), mostrado numa cena que resume bem o filme: Feita para ser uma graciosa novidade, mas tão insossa que mal lembramos dela.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Glass Onion - Um Mistério de Entre Facas e Segredos


 Prova do poder abrangente conquistado pela Netflix, a medida que o já estabelecido formato de streaming ganha cada vez mais adesão do público, a plataforma comprou os direitos do sensacional “Entre Facas e Segredos”, de seu criador em pessoa, Rian Johnson, para ter exclusividade absoluta sobre sua continuação, este notável “Glass Onion” –e certamente sobre outras continuações mais que virão.

Seguindo a linha e estilo investigativo de Agatha Christie (as história de Hercule Poirot, como “O Assassino No Expresso do Oriente”) e Arthur Conan Doyle (as histórias de Sherlock Holmes), os filmes dessa nova série centralizam-se no detetive Benôit Blanc (vivido com entusiasmo fulgurante por Daniel Craig), um gênio da dedução prática e do raciocínio rápido que leva, sobre suas influências ancestrais e literárias já citadas, a vantagem de pertencer ao presente, e portanto, à um mundo onde as tramas rocambolescas e intrincadas de investigação veem adornadas com as usuais peculiaridades da vida moderna, como as mídias digitais, o comportamento das pseudo-celebridades e, neste caso em questão, as circunstâncias muito particulares da pandemia: Em seu arrojo, “Glass Onion” é uma das primeiras produções hollywoodianas a ambientar sua trama –ainda que vagamente –dentro do período característico e lastimável do lockdown iniciado em 2020, no qual Benôit Blanc, dono de uma mente brilhante e inquieta –e, por isso mesmo, ávida por desafios ao seu intelecto –está quase a enlouquecer dentro da segurança de seu apartamento.

Contudo, um inesperado caso a ser resolvido vem atender seus anseios: Um convite inusitado para um fim-de-semana junto de vários amigos pessoais do excêntrico bilionário Miles Bron (Edward Norton) em sua luxuosa ilha particular, a fim de participar de uma estranha brincadeira na qual o mistério a ser desvendado vem a ser o de seu iminente assassinato (!). No entanto, há um outro mistério pairando no ar: Ninguém conhece Benôit Balnc (salvo sua alardeada fama, claro), e Benôit Blanc não conhece ninguém. Quem, então, enviou-lhe o convite para que participasse da reunião?

Tal convite, diga-se, é entregue no prólogo, aos demais convidados, na forma de uma caixa enigmática e elaborada a qual eles devem decifrar vários enigmas até abrí-la por completo (no melhor estilo “Código Da Vinci”) para então encontrar o cartão de convite; e tais convidados são: A candidata à senadora Claire Debella (Kathryn Hahn, de “Um Amor A Cada Esquina” e da série “WandaVision”); a fútil modelo Birdie Jay (Kate Hudson) em vias de chegar à precoce aposentadoria da profissão; o cientista Lionel Toussaint (Leslie Odom Jr.), o digital influencer Duke Cody (Dave Bautista), junto de sua ostensiva namorada Whiskey (Madelyn Cline, de “Boy Erased”) e a maior responsável pela fortuna de Miles, Cassandra Brand (Janelle Monáe, de “Estrelas Além do Tempo”) e, por conta de um golpe aplicado no passado pelo próprio Miles, tida pelos demais como persona non grata na ilha.

Todos –talvez, com a exceção de Cassandra e do próprio Benôit –se encontram lá, menos pela forte amizade por Miles Bron, e mais porque cada um, por diferentes razões, depende dele e de seu dinheiro para manter o elevado status de vida, e todos se tornam suspeitos quando, em determinado momento, mortes começam a acontecer –e nenhuma se trata da morte de Miles, veja só!

Como todo o bom suspense que se preza –e que parece fazer muito o gosto do diretor e roteirista Rian Johnson, apaixonado por tramas complexas –nada é o que parece ser, e revelações pontuais acabam não apenas modificando por completo as relações inicialmente presumidas entre os personagens, como também dando rumo completamente inesperado ao próprio filme. Está aqui, pois, um verdadeiro desafio aos expectadores que se acreditam capazes de tentar antecipar e adivinhar as vindouras guinadas de um argumento.

Além de urgir com rara concisão uma trama cheia de admiráveis reviravoltas –algumas tão radicais que podem soar em princípio implausíveis –e contar com um elenco absolutamente estelar e bem calibrado na composição dos integrantes dessa intriga (além dos já citados, também Hugh Grant, Angela Lansbury e Ethan Hawke fazem pequenas participações), Rian Johnson conduz tudo com um vibrante bom humor, conferindo fina ironia à ocasional morbidez e charme irrestrito ao andamento investigativo. Se continuar nesse elevado nível de qualidade, o personagem Benôit Blanc haverá de se consagrar como o protagonista da melhor sequência de filmes de detetive nos tempos atuais.

sábado, 30 de julho de 2022

Quatro Casamentos e Um Funeral


 A sacada formidável –e à época algo inédita –do roteirista Richard Curtis (que, nesta obra, foi revelado como grande especialista em comédias românticas) foi estruturar, com rigor, a sua narrativa nos cinco eventos determinados em seu título (só fazendo uma exceção num único momento, um encontro breve e casual): Dentro dessa proposta, e mantendo-se leal a ela, o roteiro esbanja inventividade e inspiração, desenvolvendo ótimos personagens e valendo-se de seu formato para construir diversas sacadas espirituosas.

É, portanto, com um sorriso no rosto que acompanhamos o simpático protagonista, um inglês solteirão (Hugh Grant, perfeito no papel) que atravessa as cinco cerimônias, em todas, acompanhado dos mesmos e sarcásticos coadjuvantes.

Lá pelas tantas, porém, ele encanta-se por uma bela jovem norte-americana (Andie MacDowell, também ela perfeita ao estilo adocicado do filme), assim como ele, presença assídua em todos esses eventos.

Esta graciosa comédia romântica inglesa dos anos 1990 obteve tanto sucesso que revelou uma série de talentos britânicos como o diretor Mike Newell e o ator Hugh Grant, além do roteirista Curtis. É seguro dizer que são os grandes responsáveis –Newell por sua condução serena e inspirada; Grant por sua presença adequadíssima além de seu impecável timing para o humor; e Curtis devido ao roteiro primoroso, a jóia da coroa neste excelente filme –pelo prazer contagiante que este descontraído e despretensioso trabalho até hoje ainda provoca no expectador.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

O Diário de Bridget Jones


 Embora fosse uma versão nada disfarçada de “Emma”, de Jane Austen, o livro de Helen Fielding tornou-se um espetacular best-seller ao redor do mundo, capturando a atenção do público feminino que encantou-se com a trama divertida e adocicada dos encontros e desencontros amorosos da pra lá de desengonçada Bridget Jones –protagonista esta que, em sua imperfeição declarada e em seus tropeços diversos e constrangedores proporcionava uma poderosa identificação em seu público alvo.

Objeto de enorme atenção por parte de seu fã-clube, a adaptação cinematográfica capitaneada por Sharon Maguire resolveu a difícil tarefa de escalar uma protagonista perfeita com uma opção audaciosa: A texana Renée Zelwegger que, devido ao fato de ser norte-americana e não inglesa como a personagem, suscitou inicialmente protestos das fãs.

Na trama, a inglesa Bridget Jones enfrenta em seu dia-a-dia todos os contratempos típicos de uma mulher moderna: suas brigas com a balança, a competitiva vida profissional, a atrapalhada busca por um amor, ou só alguém para contornar a solidão, as implicâncias da mãe ao ver sua filha solteira aos 30 anos, etc. Bridget registra tudo em seu diário, inclusive seu novo "affair", que vem a ser justamente seu patrão (Hugh Grant, tão engraçado quanto cafajeste), e ainda o aparecimento de um certo, e inconveniente, Sr. Darcy (o ótimo Colin Firth, apenas iniciando sua jornada como astro e intérprete reconhecido).

Ao tentar lidar com os problemas corriqueiros, Bridget deixa-se levar por sua afobação e tira conclusões estapafúrdias que a levam às maiores confusões.

Apesar do reclame das fãs, o filme de Sharon Maguire muito se beneficia da impagável composição de Reneé Zelwegger que cria uma protagonista impecavelmente inglesa (seu sotaque é perfeito) e toda complicada, carregando o filme nas costas sem sentir seu peso –não à toa, ela foi merecidamente indicada ao Oscar 2002 de Melhor Atriz, perdendo a estatueta para Halle Berry.

Essa percepção do público à escolha do elenco –algo que, por vezes, remete a uma característica do cinema inglês –se reflete também no papel de Darcy, no qual  fato de Colin Firth na época ser lembrado tão somente pelo personagem algo vilanesco de “O Paciente Inglês”, leva a plateia a presunções equivocadas sobre ele; algo que, definitivamente corresponde às expectativas almejadas pela produção.

Tão emblemático e estruturalmente certeiro “O Diário de Bridget Jones” é para o gênero da comédia romântica ao qual ele se insere que ele próprio serviu de exemplo a um estudo feito anos depois, onde pesquisadores chegaram à conclusão que o consumo excessivo dessas obras pelo público (certamente, o feminino em especial) era bastante prejudicial aos relacionamentos: A realidade de uma relação à dois, afinal, passa longe do romantismo formulaico e da idealização que define esses trabalhos em geral, e “O Diário de Bridget Jones” em particular.

Todavia, não há como negar a obra imensamente cativante aqui obtida: O sucesso –tanto literário quanto cinematográfico –levou à duas continuações que (ao menos, no cinema) foram “Bridget Jones-No Limite da Razão” e “O Bebê de Bridget Jones”.