Mostrando postagens com marcador Mikey Madison. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mikey Madison. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de março de 2025

Os Vencedores do Oscar 2025


 Foi a noite da consagração de Sean Baker que saiu com nada menos que quatro estatuetas debaixo do braço (Produtor –que ele recebeu pela categoria principal, de Melhor Filme –Diretor, Roteiro Original e Montagem), e olha que “Anora” nem era o franco favorito. Assim como ocorreu em 2020 com “Parasita”, ele só começou a crescer na Temporada de Premiações nas últimas semanas demonstrando em cerimônias como o PGA, o DGA ou o Critic’s Choice que os votantes finalmente haviam descoberto um dos filmes mais deliciosos do ano, que já havia vencido a Palma de Ouro em Cannes.

Por sinal, quando todos acreditavam que a estatueta de Melhor Atriz estava entre Demi Moore e Fernanda Torres, eis que a jovem Mike Madison é anunciada a vencedora, despertando alguma reclamação nas redes sociais brasileiras –não, este definitivamente não é o mesmo caso de Gwyneth Paltrow em 1999; Mike Madison realmente MERECEU o Oscar!

Nós do Brasil, contudo, temos mais motivo para celebrar mesmo: Prestes a fazer 100 anos, o Oscar finalmente concede o prêmio de Melhor Filme Internacional a uma produção brasileira, coroando o avanço qualitativo de nossa cultura cinematográfica, e honrando uma obra que superou a barreira do idioma e das legendas para emocionar o público mundo afora.

O reflexo do quão disputada foi a premiação deste ano é que, salvo os cinco prêmios para “Anora”, houve uma distribuição parcimoniosa para todos os filmes –até mesmo “Wicked”, favorito para levar as categorias técnicas, se contentou com apenas dois prêmios, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção. Os únicos favoritismos incontestes, do início ao fim, foram os de Zoe Saldaña e Kieran Culin como coadjuvantes.

MELHOR FILME

"Anora"

MELHOR DIREÇÃO

"Anora", Sean Baker

MELHOR ATRIZ

Mike Madison, "Anora"

MELHOR ATOR

Adrien Brody, "O Brutalista"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Zoe Saldaña, "Emília Perez"

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Kieran Culkin, "A Verdadeira Dor"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

"Flow"

MELHOR FOTOGRAFIA

"O Brutalista"

MELHOR FILME INTERNACIONAL

"Ainda Estou Aqui" (Brasil)

MELHORES EFEITOS VISUAIS

"Duna-Parte 2"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"In The Shadow Of The Cypress"

MELHOR FIGURINO

"Wicked"

MELHOR SOM
"Duna-Parte 2"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO

"A Substância"

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

"Wicked"

MELHOR DOCUMENTÁRIO

“No Other Land"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

"The Only Girl In The Orchestra"

MELHOR CURTA-METRAGEM

“I’m Not A Robot"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

"O Brutalista"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"El Mal", de "Emília Perez"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

"Anora"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

"Conclave"

MELHOR MONTAGEM

"Anora"

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Pânico 5


 Confesso que cheguei à este filme exclusivamente pelo meu interesse na atriz Mikey Madison, no entanto, ao trabalhar os elementos do sub-gênero slasher que tinham à disposição (do qual o “Pânico” original é o exemplar mais brilhante dentre toda a década de 1990), os diretores Tyler Gillett e Matt Bettinelli-Olpin (da coletânea de terror “V/H/S”) até que souberam manipular com relativa habilidade uma obra que corria o sério risco de ceder à irrelevância, afinal, quatro longa-metragens e um série de TV depois, o que “Pânico” teria a oferecer para toda uma nova geração de expectadores de filmes de terror? Bem, se essa pergunta já havia começado a ser respondida em “Pânico 4” –que data de 2011, flagrando o elenco jovem dos filmes originais já maduro, enquanto os três outros filmes datam, simultaneamente de 1996, 1997 e 2000 –este novo capítulo, lançado em 2022, finalmente consegue reciclar toda aquela fórmula já testada e comprovada agregando a devida homenagem ao slasher, contudo, sem ceder à redundância de seus clichês. Esse jogo de cintura em princípio pode parecer que foi algo fácil de ser feito, mas certamente não foi bem assim.

A começar “Pânico 5” temos uma cena feita à imagem e semelhança da já antológica cena de abertura do “Pânico” original –na qual a personagem de Drew Barrymore se torna a primeira vítima do assassino mascarado após uma brilhante sequência de tensão a partir do diálogo em um telefone. A cena que se desenrola é praticamente a mesma, exceto que –sinal dos tempos –agora é um celular que a personagem em questão, Tara Carpenter (vivida por Jenna Ortega), tem em mãos. Também há um comentário subliminar incontornável sobre a tecnologia (agora, um clique de botão é capaz de trancar todas as portas da casa, embora ainda seja inútil perante a esperteza do assassino e a burrice de suas vítimas) e, certamente, sobre a própria mitologia que toda a série construiu: Ambientado na fictícia cidadezinha de Woodsboro, como todos os demais filmes, este aqui mostra toda uma nova geração de adolescentes fãs de filmes de terror que, desta vez, conhecem de cabo a rabo toda a história sinistra e metalinguística que envolveu os assassinatos transcorridos ao longo dos filmes. Nem por isso, porém, isso faz deles mais preparados para o famoso algoz: Ao aparecer mais uma vez na casa em que Tara está, o assassino Ghostface quase acaba matando-a, contudo, por um fio, ela escapa –mostrado como mais falho e humano do que outros assassinos do slasher (algo que certamente agrega humor à mistura), o Ghostface, ao menos neste prólogo, não consegue concluir sua macabra intenção –o que faz da personagem de Jenna Ortega, essencial para a trama que se segue. Essencial, mas não principal: A protagonista de fato é Sam Carpenter (Melissa Barrera), sua irmã mais velha, afastada de Woodsboro por motivos familiares, que retorna para a cidade junto do namorado Ritchie (Jack Quaid, de “Jogos Vorazes”) após saber do atentado contra a irmã mais nova.

Agora, todas as peças estão, de novo, justapostas no tabuleiro: Um assassino está à solta, fazendo uma espécie de copycat dos assassinatos anteriores, usando a já manjada máscara do Ghostface e, a partir das regras implícitas do gênero disponíveis em todos os filmes (que são referenciados sem parar pelos personagens), todos procuram sobreviver, ao mesmo tempo que todos, até prova em contrário, são suspeitos.

Como toda boa obra profundamente referencial que se preze, “Pânico 5” vale-se das presenças luxuosas do trio protagonista dos três primeiros filmes de Wes Craven –já não tão jovens como naqueles tempos, mas (talvez, até por causa disso!), ainda capazes de carregar, e muito bem, o interesse da narrativa. São eles, o ex-policial Dewey (David Arquette), a repórter ambiciosa, enxerida e romanticamente envolvida com Dewey, Gale Weathers (Courtney Cox, casada com Arquette na vida real), e a protagonista dos quatro filmes anteriores, e único lendário alvo de Ghostface a sobreviver todas as vezes, Sydney Prescott (Neve Campbell).

Superior ao exemplar anterior, “Pânico 5” demonstra um esforço um bocado salutar da parte dos realizadores para fazer com que os novos rostos do elenco, em contrapartida, consigam soar tão interessantes quando as caras já conhecidas –e graças ao talento natural dos envolvidos, ao roteiro com atenção bastante engenhosa nos diálogos, e sobretudo, ao empenhado elenco jovem, isso muitas vezes acontece. Jenna Ortega, por exemplo, antecipa a consagração que experimentou com “Wandinha” compondo uma personagem aflita e perplexa que ganha rapidamente a empatia do público, ela é um bom contraponto à morosidade um pouco problemática da protagonista Sam, mais apática e clichê. Mas e quanto à Mikey Madison? Vinda de uma breve participação em “Era Uma Vez em Hollywood” onde, com pouco tempo de tela, ainda assim explodiu em cena, Mikey Madison aqui dá conta de uma personagem coadjuvante que intriga o expectador toda a vez que aparece, chamando a atenção com uma presença, um carisma e um talento completamente desiguais –era questão de tempo mesmo até que um papel como “Anora” caísse em colo e fizesse dela uma das grandes atrizes do momento.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Os Indicados Ao Oscar 2025


 Na manhã de quinta-feira, foram anunciados os indicados ao maior prêmio do cinema, isso num período em que Los Angeles –sede habitual da premiação –enfrenta uma calamidade de incêndios sistemáticos em sua costa litorânea, o que alimenta o protesto de muitos que até exigem uma espécie de cancelamento da cerimônia, ou mais especificamente, uma alteração no formato normalmente pomposo da festa para uma exibição mais austera com o objetivo de arrecadar donativos para as pessoas prejudicadas pelo fogo. O próprio anúncio dos indicados foi atraso duas vezes (sua data inicial era 17 de janeiro, depois mudado para o dia 19, e agora finalmente concretizado neste 23 de janeiro de 2025).

Ainda assim, a lista de indicados nos permite vislumbrar o ano espetacular que 2024 foi para o cinema, entregando uma variedade espantosa de fantásticos trabalhos, entre os quais, uma produção brasileira que finalmente quebrou um jejum de décadas e está indicada entre algumas das principais categorias. Vamos lá:

Melhor Filme

“Anora”

“O Brutalista”

“Um Completo Desconhecido”

“Conclave”

“Duna-Parte 2”

“Emilia Pérez”

“Ainda Estou Aqui”

“Nickel Boys”

“A Substância”

“Wicked”

Melhor Direção

Sean Baker por “Anora”

Brady Cobert por “O Brutalista”

James Mangold por “Um Completo Desconhecido”

Jacques Audiard por “Emilia Pérez”

Coralie Fargeat por “A Substância”

Embora sejam dez indicados na categoria de Melhor Filme (incluindo a inédita presença do brasileiro “Ainda Estou Aqui”), pode-se dizer que os Melhores Filmes do Ano de fato (e que constariam entre os indicados caso o número de vagas ainda fosse restrito à cinco como antigamente), são aqueles que surgem na categoria de melhor Direção –entretanto, sobram objeções para a presença de “Emília Pérez” (que, embora venha sendo bem aceito nos EUA, coleciona críticas e reprovações em todo o resto do mundo). Aliás, “Emília Pérez” assim como “O Brutalista”, (justamente os dois maiores favoritos) veem sofrendo uma polêmica recente onde profissionais acusam ambas as produções de lançar mão do uso de Inteligência Artificial, o que pode enfraquecer suas campanhas, algo que pode perfeitamente beneficiar o primoroso “Anora”, de Sean Baker.

Melhor Ator

Adrien Brody, por “O Brutalista”

Timothée Chalamet, por “Um Completo Desconhecido”

Colman Domingo, por “Sing Sing”

Ralph Fiennes, por “Conclave”

Sebastian Stan, por “O Aprendiz”

Melhor Atriz

Cynthia Erivo, de “Wicked”

Karla Sofía Gascón, de “Emilia Pérez”

Mikey Madison, por “Anora”

Demi Moore, por “A Substância”

Fernanda Torres, por “Ainda Estou Aqui”

Se por um lado a categoria de Melhor Ator traz Adrien Brody como um favorito isolado e sem concorrentes mais fortes, a de Melhor Atriz, por outro, está disputadíssima: Entre as melhores atuações do ano, a maravilhosa Mikey Madison compete diretamente com a favorita Demi Moore (que ganhou muitos pontos com seu discurso emotivo no Golden Globe, mas ainda é uma incógnita já que a Academia não aprecia filmes de terror), assim como seguem firme na disputa Cynthia Erivo (num desempenho que predominou em todas as premiações do ano) e Karla Sofia Gascón (cuja agressiva e eficiente campanha da Netflix destaca o fato de ser a primeira atriz trans a concorrer ao prêmio). Nessa competição, a brasileira Fernanda Torres surge com chances bastante reais de trazer o Oscar para o Brasil, visto que ela conquistou o prêmio de Atriz Dramática no Golden Globe e vem fazendo uma campanha bastante sólida nos EUA.

Melhor Ator Coadjuvante

Yura Borisov, por “Anora”

Kieran Culkin, “A Verdadeira Dor”

Edward Norton, “Um Completo Desconhecido”

Guy Pearce, de “O Brutalista”

Jeremy Strong, de “O Aprendiz”

Melhor Atriz Coadjuvante

Monica Barbaro, por “Um Completo Desconhecido”

Ariana Grande, por “Wicked”

Felicity Jones, por “O Brutalista”

Isabella Rossellini, por “Conclave”

Zoe Saldaña, por “Emilia Pérez”

Sempre as categorias mais fáceis de serem antecipadas –e a tendência desta temporada parece imitar a das anteriores –os Coadjuvantes seguem firme com seus favoritos bem definidos: Dificilmente o Oscar vai escapar das mãos de Kieran Culkin no caso dos Atores (ainda que eu tenha ficado feliz com a indicação inesperada de Yura Borisov), e de Zoe Saldaña, no caso das Atrizes (talvez, o único prêmio que “Emília Pérez” deve conquistar sem suscitar controvérsias).

Melhor Figurino

“Um Completo Desconhecido”

“Conclave”

“Gladiador II”

“Nosferatu”

“Wicked”

Melhor Cabelo e Maquiagem

“Um Homem Diferente”

“Emilia Pérez”

“Nosferatu”

“A Substância”

“Wicked”

Melhor Trilha Sonora Original

“O Brutalista”

“Conclave”

“Emilia Pérez”

“Wicked”

“Robô Selvagem”

Melhor Design de Produção

“O Brutalista”

“Conclave”

“Duna-Parte 2”

“Nosferatu”

“Wicked”

Melhor Edição

“Anora”

“O Brutalista”

“Conclave”

“Emilia Pérez”

“Wicked”

Melhor Som

“Um Completo Desconhecido”

“Duna-Parte 2”

“Emilia Pérez”

“Wicked”

“Robô Selvagem”

Melhores Efeitos Visuais

“Alien-Romulus”

“Better Man”

“Duna-Parte 2”

“Planeta dos Macacos-O Reinado”

“Wicked”

Melhor Fotografia

“O Brutalista”

“Duna-Parte 2”

“Emilia Pérez”

“Maria Callas”

“Nosferatu”

As categorias técnicas, de modo geral, refletem as lembranças dos votantes em “Duna-Parte 2” (certamente o favorito para Efeitos Visuais), em “Wicked” (onde ele obteve sua soberania em número de indicações”), em “Nosferatu”, e em “Gladiador II” (mais lembrado por estrear num período do ano propício para a lembrança dos membros da Academia), além também do completo esquecimento de “Furiosa-Uma Saga Mad Max”, tecnicamente perfeito (e digno de constar entre muitas das categorias), mas também um dos grandes fracassos do ano.

Melhor Filme Internacional

“Ainda Estou Aqui” (Brasil)

“The Girl with the Needle” (Polônia)

“Emilia Pérez” (França)

“The Seed of the Sacred Fig” (Irã)

“Flow” (Letônia)

Melhor Animação

“Flow”

“Divertida Mente 2”

“Memoir of a Snail”

“Wallace e Gromit-Avengança”

“O Robô Selvagem”

A indicação na categoria de Filme Internacional fecha a coroação de “Ainda Estou Aqui”, lembrado em três das mais importantes categorias do Oscar (em 2004, “Cidade de Deus” obteve quatro indicações, mas em categorias menores: Direção, Roteiro Adaptado, Fotografia e Montagem). Seu grande concorrente é certamente o onipresente “Emília Pérez”, seguido de perto pelo elogiado “The Seed of The Sacred Fig” e até mesmo pela fascinante animação “Flow” que chega fortíssima em Melhor Animação, roubando o favoritismo de “Robô Selvagem”.

Melhor Curta-Metragem em Live-Action

“A Lien”

“Anuja”

“I’m Not a Robot”

“The Last Ranger”

“The Man Who Could Not Remain Silent”

Melhor Animação em Curta-Metragem

“Beautiful Men”

“In the Shadow of the Cypress”

“Magic Candies”

“Wander to Wonder”

“Yuck!”

Melhor Roteiro Adaptado

“Um Completo Desconhecido”

“Conclave”

“Emilia Pérez”

“Nickel Boys”

“Sing Sing”

Melhor Roteiro original

“Anora”

“O Brutalista”

“A Verdadeira Dor”

“Setembro 5”

“A Substância”

Melhor Canção Original

“El Mal”, de “Emilia Pérez”

“The Journey”, de “The Six Triple Eight”

“Like a Bird”, de “Sing Sing”

“Mi Camino”, de “Emilia Pérez”

“Never Too Late”, de “Elton John-Never Too Late”

Melhor Documentário

“Black Box Diaries”

“No Other Land”

“Porcelain War”

“Soundtrack to A Coup D’Etat”

“Sugarcane”

Melhor Documentário de Curta-Metragem

“Death By Numbers”

“I am Ready, Warden”

“Incident”

“Instruments of a Beating Heart”

“The Only Girl in the Orchestra”

É isso aí, saberemos quem serão os vencedores (e se o Brasil vai, enfim, conseguir um tão aguardado Oscar) na noite do dia 2 de março, quando forem anunciados os ganhadores durante a cerimônia.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Anora


 Nunca esteve nos planos de ninguém que o clássico “Uma Linda Mulher” fosse um filme realista; nem nos planos do falecido diretor Garry Marshall (que ao longo da carreira especializou-se em comédias românticas ingênuas e açucaradas), e muito menos nos planos da produtora Touchstone Pictures, subsidiária da Disney. O enredo de “Uma Linda Mulher”, para quem não sabe, gira em torno de um milionário bonitão e disponível que paga uma prostituta do Hollywood Boulevard para o acompanhar por uma semana e, durante esse tempo, a moça lhe conquista o coração, provando que é sua alma gêmea e que foram feitos um para o outro.

Existe até um certo esforço, na direção de Marshall em conceber um filme que pareça, em princípio, adulto, com toques realistas, dramaticamente convincente e tudo o mais; no entanto, basta um pouco de sensatez no expectador para perceber que, apesar da traquinagem em querer retratar superficialmente a prostituição de Los Angeles, o filme é tão somente um conto de fadas. E não há nada de mal nisso: “Uma Linda Mulher” é um filme agradável, deu uma indicação ao Oscar para sua protagonista, Julia Roberts, e para o público a que se dirige, funciona à perfeição.

Não deixa de haver também uma dose de traquinagem no diretor e roteirista Sean Baker (de “Projeto Flórida”) quando ele realiza, com o premiado “Anora” (vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2024), uma versão verdadeiramente realista, ácida, adulta e, no fim das contas, igualmente engraçada e apaixonante, de “Uma Linda Mulher”.

Anora, ou Ani (a sensacional Mikey Madison, de “Era Uma Vez Em Hollywood”), trabalha numa boate do Brooklyn como prostituta fazendo pole dancer e servindo de acompanhante. Ele e suas amigas e/ou rivais pescam clientes no bar e os convencem a irem aos quartos privados para uma dança particular –as garotas ficam completamente nuas se gostarem demais do cliente ou se as pagarem muito bem. Numa dessas noites corriqueiras, Ani conhece o jovem e tresloucado Ivan (Mark Eidelshtein) que logo a chama para um programa mais particular, em sua impressionante mansão à beira do Hudson. Os percalços sub-sequentes desse ‘romance’ são mostrados pelo diretor Baker numa turbilhão divertido e incessante: Ani o satisfaz plenamente; ele a convida para uma festa, onde os dois terminam, mais uma vez, na cama; até que então, Ivan propõe a ela que o acompanhe, mediante pagamento, por uma semana –até mesmo um diálogo, referencial à “Uma Linda Mulher” é espertamente acrescentado à cena pelo diretor e roteirista Baker.

Ao longo de uma semana de muita diversão, bebedeira e farra, Ivan –que é, diga-se, herdeiro de um rico casal de oligarcas russos –se sente tão à vontade com a companhia de Ani que, durante uma breve viagem festiva à Las Vegas, pede ela em casamento. Ainda que inicialmente incrédula com a possibilidade de uma mudança de vida tão súbita, inacreditável e afortunada, Ani aceita, e os dois se casam.

Entretanto, como reza a cartilha mais da realidade que da ficção –Quando a esmola é demais, o santo desconfia: Tão logo a notícia de que Ivan se casou se espalha, os pais dele, lá da Rússia, acionam homens de confiança na esperança de por as coisas em seus devidos lugares. Eles chamam Toros (Karren Karagulian), uma espécie de homem de confiança da família, e junto com ele, seus capangas, o irmão de Toros, Garnick (Vache Tovmasyan), e o novato Igor (Yuriy Borisov), que logo aportam na mansão em Nova York para saber o que está acontecendo.

E está assim armada a confusão –ao contrário de Garry Marshall, não é do interesse de Sean Baker moldar uma comédia romântica, ou mesmo algo próximo de uma história de amor. Calcado num realismo e numa crítica social que ele herdou de suas raízes no cinema independente norte-americano, Baker constrói um filme magnificamente envolvente, saboroso, engraçado e, no fim das contas, tenso com as situações que vão se somam num registro ligeiramente diferente do visto na primeira parte. Se antes, a narrativa se ocupava da trajetória superficial, banal até, de um relacionamento jovem em gestação –com todos os seus estágios de êxtase, consumo de drogas e baladas, a tornar tudo elíptico –a partir da metade, “Anora” concentra-se num andar mais desacelerado de seu plot, ciente de que chegou na parte realmente original da coisa: Imaturo, como ficou claro desde o começo, Ivan foge da mansão para não encarar a realidade (seus pais estão vindo da Rússia para lhe dar um corretivo) deixando Ani com um abacaxi nas mãos. Ela precisa lidar com Toros (hilário em sua perplexidade) com Garnick (mais perdido que cego em tiroteio) e com as tentativas sempre repelidas do pobre Igor em ser amigável. Num dado momento, toda essa trupe entra num carro e sai por Nova York à procura de Ivan –e as novas confusões que se seguem transformando “Anora” no filme mais hilariante de 2024.

Merecidamente aclamado por público e crítica, “Anora” é tão bom que chega a despertar um sentimento de desconfiança no expectador –como um filme tão satisfatório (o arco dramático e narrativo de Anora, enquanto protagonista é de uma perfeição só), tão preciso em termos de humor e condução (os personagens como um todo são brilhantemente planejados, construídos e interpretados, com destaque para a protagonista Mikey Madison, absolutamente formidável), tão incrivelmente certeiro na diversão que se propõe conseguiu agradar aos críticos, normalmente tão sisudos, do Festival de Cannes?

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2025


 Nesta última segunda-feira foram anunciados os nomes dos indicados ao Globo de Ouro 2025, a ser realizado no dia 5 de janeiro de 2025. Prêmio de cinema e TV conduzido pelo Impressa Estrangeira, o Globo de Ouro –ou Golden Globe –já foi visto como uma prévia do Oscar, embora muitas decisões e escolhas promovidas nos últimos anos tenham afastado essa impressão. No entanto, ainda é parte fundamental da temporada de prêmios, e certamente vai interferir (e antecipar) muitas características que integrarão a cerimônia do careca dourado. Vamos às indicações e às considerações (lembrando que aqui só serão mencionados os indicados de cinema):

Melhor filme dramático

"O Brutalista"

"Um Completo Desconhecido"

"Conclave"

"Duna-Parte 2"

"Nickel Boys"

"Setembro 5"

Melhor filme de comédia ou musical

"Anora"

"Rivais"

"Emilia Perez"

"A Verdadeira Dor"

"A Substância"

"Wicked"

Primeira mudança: Agora as categorias predominantes contam com um limite de seis vagas (e não cinco como em anos anteriores), o que eleva os nomeados para as duas categorias de Melhor Filme para doze! Assim como seu brilhante antecessor, o mais brilhante ainda “Duna-Parte 2” sofreu uma ligeira esnobada do Globo de Ouro, embora deva reinar majestoso nas categorias técnicas do Oscar. Surgem com algum favoritismo aqui “Emilia Perez” –líder em indicações, com dez –e “O Brutalista” –sete indicações –“Emilia Perez”, por sinal, saiu fortíssimo do Festival de Veneza em maio, mas havia perdido algum fôlego quando estreou com uma ou outra crítica negativa. Muitos comemoraram a inclusão (inclusive noutras expressivas categorias) do ousado “A Substância”, caminhando a passos largos para virar o grande cult-movie de 2024 (e para ganhar improváveis, ainda que merecidas, indicações ao Oscar). Embora o aguardado filme de Luca Guadagnino “Queer” tenha ficado de fora da categoria principal (entre outras razões por não ter agrado boa parte da crítica), o seu “Rivais”, lançado com atraso no início do ano, foi capaz de se manter memorável para conquistar uma nomeação. E a campanha de “Wicked”, que entre outras estratégias providenciais agendou seu lançamento para o final de ano, deu frutos obtendo um bom números de indicações.

Melhor atriz de filme dramático

Pamela Anderson, "The Last Showgirl"

Angelina Jolie, "Maria Callas"

Nicole Kidman, "Baby Girl"

Tilda Swinton, "O Quarto Ao Lado"

Fernanda Torres, "Ainda Estou Aqui"

Kate Winslet, "Lee"

Os brasileiros ficaram em polvorosa quando, nesta categoria, surgiu nossa querida Fernanda Torres, que parece repetir os passos da própria mãe, Fernanda Montenegro, que culminou indicada a Melhor Atriz na cerimônia do Oscar 1999. Fernandinha pode refazer esses mesmos passos, contudo, aqui ela disputa com um sex-symbol de décadas passadas retornando à ribalta por meio de um projeto corajoso e surpreendente (Pamela Anderson); duas atrizes que costumam equilibrar atuações elogiáveis com estrelato inquestionável (Nicole Kidman e Angelina Jolie); uma elogiada intérprete inglesa defendendo o primeiro filme falado em inglês de Pedro Almodóvar (Tilda Swinton) e uma premiada atriz, tarimbada em obter aclamação nas premiações (Kate Winslet).

Melhor direção

Jacques Audiard, "Emilia Perez"

Sean Baker, "Anora"

Edward Berger, "Conclave"

Brady Corbet, "O Brutalista"

Coralie Fargeat, "A Substância"

Payal Kapadia, "Tudo O Que Imaginamos Como Luz"

Edward Berger (de “Nada de Novo no Front”) e Jacques Audiard (de “O Profeta”) não são estranhos às premiações, mas certamente são presenças bastante inesperadas (bem como os longa-metragens que realizaram) as de Brady Corbet, Coralie Fargeat, Sean Baker (de “Projeto Flórida”) e Payal Kapadia. Na esteira da repercussão positiva em Cannes, o favorito é Baker, cujo “Anora” saiu premiado com a Palma De Ouro (embora conte com um total de apenas cinco indicações), mas muita coisa pode mudar.

Melhor ator em filme dramático

Adrien Brody, "O Brutalista"

Timothée Chamalet, "Um Completo Desconhecido"

Daniel Craig, "Queer"

Colman Domingo, "Sing Sing"

Ralph Fiennes, "Conclave"

Sebastian Stan, "O Aprendiz"

Esperava-se que o jovem Timothée Chamalet fosse indicado por “Duna-Parte 2”, no entanto, ele saiu-se com essa prodigiosa atuação vivendo Bob Dylan no filme de James Mangold, seus competidores mais expressivos certamente são Daniel Craig quebrando de vez a imagem de James Bond (e defendendo com unhas e dentes a única indicação de “Queer”), o elogiado trabalho de Ralph Fiennes e Sebastian Stan, o Soldado Invernal da Marvel Studios, que este ano conseguiu emplacar duas indicações no Globo de Ouro.

Melhor atriz em filme de comédia ou musica

Amy Adams, "Canina"

Cynthia Erivo, "Wicked"

Karla Sofía Gascón, "Emilia Perez"

Mikey Maddison, "Anora"

Demi Moore, "A Substância"

Zendaya, "Rivais"

Melhor ator em filme de comédia ou musical

Jesse Eisenberg, "A Verdadeira Dor"

Hugh Grant, "Herege"

Gabriel LaBelle, "Saturday Night"

Jesse Plemons, "Tipos de Gentileza"

Glen Powell, "Assassino Por Acaso"

Sebastian Stan, "Um Homem Diferente"

Parece haver um consenso entre os críticos e votantes do Globo de Ouro (que já foi percebido, ao longo dos anos, no Oscar também) de que, se um filme possue um gênero indefinido, ou mesmo incategorizável, ele é indicado à Melhor Comédia ou Musical –só assim para entender as indicações nessa categoria para Hugh Grant pelo terror “Herege” (no qual ele está surpreendente, diga-se) e para Jesse Plemons (que venceu em Cannes!) pelo estranho, porém fascinante “Tipos de Gentileza”. O mesmo ocorre em Melhor Atriz de Comédia ou Musical para Demi Moore no nada engraçado “A Substância”, todavia, entre as mulheres prevalace o irônico favoritismo de Karla Sofía Gascón, a primeira atriz trans na História indicada ao prêmio (uma manobra que dificilmente deixará de ser repetida pelo Oscar), já entre os Atores, o favorito ainda parece incerto, mas seria muito interessante ver o belo trabalho de Glen Powell, num dos filmes mais sensacionais do ano, ser recompensado.

Melhor atriz coadjuvante

Selena Gomez, "Emilia Perez"

Ariana Grande, "Wicked"

Felicity Jones, "O Brutalista"

Margaret Qualley, "A Substância"

Isabella Rossellini, "Conclave"

Zoe Saldana, "Emilia Perez"

Melhor ator coadjuvante

Denzel Washington, "Gladiador II"

Kieran Culkin, "A Verdadeira Dor"

Guy Pierce, "O Brutalista"

Jeremy Strong, "O Aprendiz"

Yura Borisov, "Anora"

Edward Norton, "Um Completo Desconhecido"

Em Atriz Coadjuvante, as duas colegas de “Emilia Perez”, a jovem Selena Gomez e a bem-sucedida Zoe Saldana, terão de enfrentar o fascínio da crítica e a aprovação do público despertados pela sensacional Margaret Qualley em “A Substância”, embora hajam grandes chances para a veterana Isabella Rossellini e para a sempre talentosa Felicity Jones, correndo por fora, a cantora Ariana Grande deve encarar a indicação como um prêmio.

Em Ator Coadjuvante, é um pena que o sempre fabuloso Denzel Washington não tenha maiores chances (talvez, se o filme fosse melhorzinho...), resta os grandes trabalhos de atores consagrados como Edward Norton e Guy Pierce em disputa com a surpresa das presenças de Kieran Culkin (finalmente mostrando em cinema o potencial que já exibia na série de TV “Sucession”) e Jeremy Strong (cujo “O Aprendiz” é uma produção pulsante).

Melhor animação

"Flow"

"Divertida Mente 2"

"Memórias de Um Caracol"

"Moana 2"

"Wallace & Gromit-A Vingança"

"Robô Selvagem"

As coisas mudam: Outrora favoritos incontestáveis na categoria animação, a Pixar (representados pela continuação de um longa-metragem que, anos atrás, simplesmente arrebatou o prêmio) já não surge este ano tão imbatível assim, o que aumenta as merecidas chances para o novo “Wallace & Gromit” e para os mais alternativos “Flow” e “Memórias de Um Caracol”, mas... quer saber? Quem merece o prêmio mesmo à a Dreamworks que entregou, com o emocionante “Robô Selvagem” uma das melhores animações do ano (e ele ainda está indicado em Melhor Trilha Sonora!). “Moana 2”, o representante da Disney no páreo nem conta –sua presença entre os indicados é protocolar em função da importância do estúdio, mas ele nem tem tanta qualidade para constar por aqui.

Melhor canção original

"Beautiful That Way", "The Last Showgirl"

"Compress/Repress", "Rivais"

"El Mal", "Emilia Perez"

"Forbbiden Road", "Better Man"

"Kiss The Sky", "Robô Selvagem"

"Mi Camino", "Emilia Perez"

Melhor trilha sonora

"O Brutalista"

"Conclave"

"Robô Selvagem"

"Emilia Perez"

"Rivais"

"Duna-Parte 2"

Melhor filme estrangeiro

"Tudo O Que Imaginamos Como Luz" (Índia)

"Emilia Perez" (França)

"A Garota da Agulha" (Dinamarca)

"Ainda Estou Aqui" (Brasil)

"A Semente do Figo Sagrado" (Alemanha)

"Vermiglio" (Itália)

“Emilia Perez” aparece na categoria de Filme Estrangeiro assim como na de Filme de Comédia ou Musical”, o que já o torna automaticamente o favorito da categoria, comprometendo as chances do brasileiro “Ainda Estou Aqui” –de repente, a mesma história de 1999 parece se repetir... –entretanto, o indiano “Tudo O Que Imaginamos Como Luz” também segue forte na disputa.

Melhor roteiro

"Emilia Perez"

"Anora"

"O Brutalista"

"A Verdadeira Dor"

"A Substância"

"Conclave"