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quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2025


 Nesta última segunda-feira foram anunciados os nomes dos indicados ao Globo de Ouro 2025, a ser realizado no dia 5 de janeiro de 2025. Prêmio de cinema e TV conduzido pelo Impressa Estrangeira, o Globo de Ouro –ou Golden Globe –já foi visto como uma prévia do Oscar, embora muitas decisões e escolhas promovidas nos últimos anos tenham afastado essa impressão. No entanto, ainda é parte fundamental da temporada de prêmios, e certamente vai interferir (e antecipar) muitas características que integrarão a cerimônia do careca dourado. Vamos às indicações e às considerações (lembrando que aqui só serão mencionados os indicados de cinema):

Melhor filme dramático

"O Brutalista"

"Um Completo Desconhecido"

"Conclave"

"Duna-Parte 2"

"Nickel Boys"

"Setembro 5"

Melhor filme de comédia ou musical

"Anora"

"Rivais"

"Emilia Perez"

"A Verdadeira Dor"

"A Substância"

"Wicked"

Primeira mudança: Agora as categorias predominantes contam com um limite de seis vagas (e não cinco como em anos anteriores), o que eleva os nomeados para as duas categorias de Melhor Filme para doze! Assim como seu brilhante antecessor, o mais brilhante ainda “Duna-Parte 2” sofreu uma ligeira esnobada do Globo de Ouro, embora deva reinar majestoso nas categorias técnicas do Oscar. Surgem com algum favoritismo aqui “Emilia Perez” –líder em indicações, com dez –e “O Brutalista” –sete indicações –“Emilia Perez”, por sinal, saiu fortíssimo do Festival de Veneza em maio, mas havia perdido algum fôlego quando estreou com uma ou outra crítica negativa. Muitos comemoraram a inclusão (inclusive noutras expressivas categorias) do ousado “A Substância”, caminhando a passos largos para virar o grande cult-movie de 2024 (e para ganhar improváveis, ainda que merecidas, indicações ao Oscar). Embora o aguardado filme de Luca Guadagnino “Queer” tenha ficado de fora da categoria principal (entre outras razões por não ter agrado boa parte da crítica), o seu “Rivais”, lançado com atraso no início do ano, foi capaz de se manter memorável para conquistar uma nomeação. E a campanha de “Wicked”, que entre outras estratégias providenciais agendou seu lançamento para o final de ano, deu frutos obtendo um bom números de indicações.

Melhor atriz de filme dramático

Pamela Anderson, "The Last Showgirl"

Angelina Jolie, "Maria Callas"

Nicole Kidman, "Baby Girl"

Tilda Swinton, "O Quarto Ao Lado"

Fernanda Torres, "Ainda Estou Aqui"

Kate Winslet, "Lee"

Os brasileiros ficaram em polvorosa quando, nesta categoria, surgiu nossa querida Fernanda Torres, que parece repetir os passos da própria mãe, Fernanda Montenegro, que culminou indicada a Melhor Atriz na cerimônia do Oscar 1999. Fernandinha pode refazer esses mesmos passos, contudo, aqui ela disputa com um sex-symbol de décadas passadas retornando à ribalta por meio de um projeto corajoso e surpreendente (Pamela Anderson); duas atrizes que costumam equilibrar atuações elogiáveis com estrelato inquestionável (Nicole Kidman e Angelina Jolie); uma elogiada intérprete inglesa defendendo o primeiro filme falado em inglês de Pedro Almodóvar (Tilda Swinton) e uma premiada atriz, tarimbada em obter aclamação nas premiações (Kate Winslet).

Melhor direção

Jacques Audiard, "Emilia Perez"

Sean Baker, "Anora"

Edward Berger, "Conclave"

Brady Corbet, "O Brutalista"

Coralie Fargeat, "A Substância"

Payal Kapadia, "Tudo O Que Imaginamos Como Luz"

Edward Berger (de “Nada de Novo no Front”) e Jacques Audiard (de “O Profeta”) não são estranhos às premiações, mas certamente são presenças bastante inesperadas (bem como os longa-metragens que realizaram) as de Brady Corbet, Coralie Fargeat, Sean Baker (de “Projeto Flórida”) e Payal Kapadia. Na esteira da repercussão positiva em Cannes, o favorito é Baker, cujo “Anora” saiu premiado com a Palma De Ouro (embora conte com um total de apenas cinco indicações), mas muita coisa pode mudar.

Melhor ator em filme dramático

Adrien Brody, "O Brutalista"

Timothée Chamalet, "Um Completo Desconhecido"

Daniel Craig, "Queer"

Colman Domingo, "Sing Sing"

Ralph Fiennes, "Conclave"

Sebastian Stan, "O Aprendiz"

Esperava-se que o jovem Timothée Chamalet fosse indicado por “Duna-Parte 2”, no entanto, ele saiu-se com essa prodigiosa atuação vivendo Bob Dylan no filme de James Mangold, seus competidores mais expressivos certamente são Daniel Craig quebrando de vez a imagem de James Bond (e defendendo com unhas e dentes a única indicação de “Queer”), o elogiado trabalho de Ralph Fiennes e Sebastian Stan, o Soldado Invernal da Marvel Studios, que este ano conseguiu emplacar duas indicações no Globo de Ouro.

Melhor atriz em filme de comédia ou musica

Amy Adams, "Canina"

Cynthia Erivo, "Wicked"

Karla Sofía Gascón, "Emilia Perez"

Mikey Maddison, "Anora"

Demi Moore, "A Substância"

Zendaya, "Rivais"

Melhor ator em filme de comédia ou musical

Jesse Eisenberg, "A Verdadeira Dor"

Hugh Grant, "Herege"

Gabriel LaBelle, "Saturday Night"

Jesse Plemons, "Tipos de Gentileza"

Glen Powell, "Assassino Por Acaso"

Sebastian Stan, "Um Homem Diferente"

Parece haver um consenso entre os críticos e votantes do Globo de Ouro (que já foi percebido, ao longo dos anos, no Oscar também) de que, se um filme possue um gênero indefinido, ou mesmo incategorizável, ele é indicado à Melhor Comédia ou Musical –só assim para entender as indicações nessa categoria para Hugh Grant pelo terror “Herege” (no qual ele está surpreendente, diga-se) e para Jesse Plemons (que venceu em Cannes!) pelo estranho, porém fascinante “Tipos de Gentileza”. O mesmo ocorre em Melhor Atriz de Comédia ou Musical para Demi Moore no nada engraçado “A Substância”, todavia, entre as mulheres prevalace o irônico favoritismo de Karla Sofía Gascón, a primeira atriz trans na História indicada ao prêmio (uma manobra que dificilmente deixará de ser repetida pelo Oscar), já entre os Atores, o favorito ainda parece incerto, mas seria muito interessante ver o belo trabalho de Glen Powell, num dos filmes mais sensacionais do ano, ser recompensado.

Melhor atriz coadjuvante

Selena Gomez, "Emilia Perez"

Ariana Grande, "Wicked"

Felicity Jones, "O Brutalista"

Margaret Qualley, "A Substância"

Isabella Rossellini, "Conclave"

Zoe Saldana, "Emilia Perez"

Melhor ator coadjuvante

Denzel Washington, "Gladiador II"

Kieran Culkin, "A Verdadeira Dor"

Guy Pierce, "O Brutalista"

Jeremy Strong, "O Aprendiz"

Yura Borisov, "Anora"

Edward Norton, "Um Completo Desconhecido"

Em Atriz Coadjuvante, as duas colegas de “Emilia Perez”, a jovem Selena Gomez e a bem-sucedida Zoe Saldana, terão de enfrentar o fascínio da crítica e a aprovação do público despertados pela sensacional Margaret Qualley em “A Substância”, embora hajam grandes chances para a veterana Isabella Rossellini e para a sempre talentosa Felicity Jones, correndo por fora, a cantora Ariana Grande deve encarar a indicação como um prêmio.

Em Ator Coadjuvante, é um pena que o sempre fabuloso Denzel Washington não tenha maiores chances (talvez, se o filme fosse melhorzinho...), resta os grandes trabalhos de atores consagrados como Edward Norton e Guy Pierce em disputa com a surpresa das presenças de Kieran Culkin (finalmente mostrando em cinema o potencial que já exibia na série de TV “Sucession”) e Jeremy Strong (cujo “O Aprendiz” é uma produção pulsante).

Melhor animação

"Flow"

"Divertida Mente 2"

"Memórias de Um Caracol"

"Moana 2"

"Wallace & Gromit-A Vingança"

"Robô Selvagem"

As coisas mudam: Outrora favoritos incontestáveis na categoria animação, a Pixar (representados pela continuação de um longa-metragem que, anos atrás, simplesmente arrebatou o prêmio) já não surge este ano tão imbatível assim, o que aumenta as merecidas chances para o novo “Wallace & Gromit” e para os mais alternativos “Flow” e “Memórias de Um Caracol”, mas... quer saber? Quem merece o prêmio mesmo à a Dreamworks que entregou, com o emocionante “Robô Selvagem” uma das melhores animações do ano (e ele ainda está indicado em Melhor Trilha Sonora!). “Moana 2”, o representante da Disney no páreo nem conta –sua presença entre os indicados é protocolar em função da importância do estúdio, mas ele nem tem tanta qualidade para constar por aqui.

Melhor canção original

"Beautiful That Way", "The Last Showgirl"

"Compress/Repress", "Rivais"

"El Mal", "Emilia Perez"

"Forbbiden Road", "Better Man"

"Kiss The Sky", "Robô Selvagem"

"Mi Camino", "Emilia Perez"

Melhor trilha sonora

"O Brutalista"

"Conclave"

"Robô Selvagem"

"Emilia Perez"

"Rivais"

"Duna-Parte 2"

Melhor filme estrangeiro

"Tudo O Que Imaginamos Como Luz" (Índia)

"Emilia Perez" (França)

"A Garota da Agulha" (Dinamarca)

"Ainda Estou Aqui" (Brasil)

"A Semente do Figo Sagrado" (Alemanha)

"Vermiglio" (Itália)

“Emilia Perez” aparece na categoria de Filme Estrangeiro assim como na de Filme de Comédia ou Musical”, o que já o torna automaticamente o favorito da categoria, comprometendo as chances do brasileiro “Ainda Estou Aqui” –de repente, a mesma história de 1999 parece se repetir... –entretanto, o indiano “Tudo O Que Imaginamos Como Luz” também segue forte na disputa.

Melhor roteiro

"Emilia Perez"

"Anora"

"O Brutalista"

"A Verdadeira Dor"

"A Substância"

"Conclave"

domingo, 19 de novembro de 2023

O Assassino


 Ao longo de todo o seu cinema, David Fincher construiu uma América sombria na qual seus protagonistas atingem seus objetivos através de métodos racionais e implacáveis, vez ou outra, temperados com a inevitável imprevisibilidade da falha humana. Perante esse conceito, “O Assassino” –que, assim como “Mank”, Fincher viabilizou com total liberdade autoral graças à Netflix –é um filme emblemático para a carreira e a postura de Fincher: Seu protagonista (vivido com o magnetismo e a sobriedade notáveis de Michael Fassbender) não tem nome (não, pelo menos, um que presumimos ser seu nome real) e sua história não nos é contada (ao menos, não uma que nos dê uma mínima ideia daonde ele veio e para onde vai), ainda assim, ele é todo método. Ainda assim, é dele, e exclusivamente dele, o ponto de vista pelo qual vislumbramos a trama por meio da qual o acompanhamos por alguns dias definitivos. E por conta dessa manobra astuciosa do diretor Fincher e do roteirista Andrew Kevin Walker (que com ele trabalhou no clássico “Seven-Os Sete Crimes Capitais”), de fato, prescindimos de maiores informações a respeito do protagonista para que venhamos a torcer por ele. A despeito da competência inconteste e de certa originalidade (além da inspiração extraída do livro de Alexis Nolent e Luc Jacamon) nota-se que muito dos tópicos, influências e princípios básicos cinematográficos que norteiam a narrativa de “O Assassino” podem ser encontrados em “O Samurai”, de Jean-Pierre Melville; lá está o protagonista de poucas palavras (embora sua narrativa em off seja fluente e constante), lá estão os métodos rígidos e rigorosos que visam o assassino manter seu itinerário são e salvo de represálias possíveis, lá estão as posturas de ambiguidade moral que o afastam das questões mais imediatamente questionáveis de seu ofício, e lá também estão os elementos que haverão de questionar cada uma dessas certezas.

Na cena nada frenética e nada pirotécnica que inicia o filme –na qual Fincher deixa bem claro que este não será um filme de ação –descobrimos que o personagem de Fassbender, um assassino de aluguel, possui um padrão muito específico de como agir. Esse padrão passa por estágios que submetem sua resistência física e psicológica, sua concentração, sua paciência e sua capacidade de privação (de sono, de fome, de maiores informações) a duros testes. Como assassino, ele diz, a circunstância ideal para perpetrar um assassinato deve ser arduamente aguardada, minuciosamente planejada e criteriosamente executada a fim de que não hajam espaços para falhas. É, portanto, de uma ironia até cruel que o assassinato encomendado que ele passara dias premeditando naquele apartamento abandonado em Paris (mais uma referência à Melville) tenha dado errado: Por uma infeliz casualidade, seu alvo escapa, e ele, coloca-se numa espiral preocupante de efeitos colaterais.

Em regresso à República Dominicana –onde aparentemente, ele mantém uma espécie de moradia –ele descobre que seus rastros não eram tão difíceis assim de serem seguidos; sua jovem esposa, vivida numa ponta bem aproveitada por Sophie Charlotte (no mesmo ano em que a também brasileira Bruna Marquezine marcou presença em “Besouro Azul”), foi atacada, e agora ele precisa resolver as pontas soltas que ameaçam a si e aos seus entes queridos.

Hábil como poucos realizadores hoje, Fincher estabelece assim prontamente a premissa de sua obra, impondo uma narrativa enxuta, simples e executada com brilhantismo, sem que tal isenção de firulas lhe tire um poderoso viés reflexivo. Nessa trajetória de acerto de contas que atravessa várias cidades norte-americanas (vai de Nova Orleans até Chicago, passando pela Flórida e por Nova York), o protagonista compreende, sim, ser uma mera peça num tabuleiro amplo e complexo de um jogo de interesses gigantescos, megalomaníacos e desumanos, mas não aceita ser tragado (e nem aos seus) pelos revezes massacrantes dessa irreversível condição.

Na filmografia bastante surpreendente e impecável de David Fincher, “O Assassino” pode até surgir como um exemplar menor, o que não lhe tira o brilho, a qualidade e o valor cinematográfico intocado que seu grande diretor consegue lhe impor.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Asteroid City


 As obras de Wes Anderson flertam a todo o instante com o estranhamento. Um filme seu corresponde ao caminhar sobre uma corda bamba; o grande achado em seu cinema é o equilíbrio improvável entre a queda drástica rumo à incompreensão e à esquisitice que sempre o assombram e a continuidade de dinâmicas, premissas e dramas que se preservam interessantes, emocionantes e inteligíveis graças ao seu talento. Entretanto, num ou noutro caso pode haver um escorregão –e o exemplo mais patente disso é, na filmografia de Wes Anderson, “A Vida Marinha de Steve Sizou”. À ele junta-se agora este “Asteroid City”.

Como o fizera em “O Grande Hotel Budapeste”, Anderson começa explorando uma narrativa de metalinguagem na qual o filme a se desenrolar mais afrente é, na realidade, um peça de teatro –filmada em preto & branco, na intenção de diferenciar a encenação da trama principal –cujo autor Conrad Earp (Edward Norton) e todo seu séquito de intérpretes são introduzidos ao público pela narração algo irônica e vintage do ator Bryan Cranston.

Quando a peça se iniciar –e o filme, por conta disso, adquirir cores –irá se iniciar também sua trama principal; que, numa das ironias do projeto, tem muito pouco, ou quase nada, de teatral: Asteroid City é o nome de um lugarejo que mal pode ser definido como cidade; um apanhado de instalações (um hotelzinho; uma oficina; um restaurante; um posto militar e pouco mais que isso) que, em meados da década de 1950, cercam o local onde, anos antes, um asteróide lendário caiu. E sua cratera, com todas as ênfases turísticas, se encontra lá. A câmera de Anderson explora –com sua típica observação fria e simétrica –todo esse ambiente aberto num dos primeiros takes, indicando a propriedade hiperlativa da direção de arte e da direção de fotografia, criando juntas, em conjugação, um cenário a um só tempo irreal, impressionante e paradoxalmente autêntico que se enquadraria bem numa narrativa de Federico Fellini, não fosse a pontual e infalível modernidade de suas inserções digitais.

O elenco reunido em “Asteroid City” é vasto e espetacular, daqueles que pouquíssimos diretores tem gabarito capaz de reunir num único projeto, e eles defendem, todos, personagens capturados em suas excentricidades, perplexos diante de uma tristeza a brotar de lugares inesperados. Há, por exemplo, Augie Steenbeck, vivido por Jason Schartzman, que levou os quatro filhos (um rapazinho e três garotinhas trigêmeas) para Asteroid City a fim de finalmente revelar a eles que sua mãe (vivida por Margot Robbie, numa breve cena como a atriz que a interpretaria) faleceu à três semanas (!?). Com seu carro avariado –devido à uma pane que o incompetente mecânico local (Matt Dillon) é incapaz de consertar –eles resolvem ficar por lá, à espera de seu sogro, Stanley (Tom Hanks) que, a despeito da ligeira indisposição com Augie, segue para lá de carro para resgatá-los. Existem ainda June (Maya Hawke), jovem professora tentando administrar os interesses ocasionais de seus jovens  alunos; Midge Campbell (Scarlett Johansson) dona de casa em crise cuja relação com a filha (Grace Edwards) acentua ainda mais sua predisposição à depressão; J.J. Kellog (Liev Schreiber) um turista eventual, constantemente à beira de um ataque de nervos graças às provocações do próprio filho; além de toda fauna de estudantes, pais, professores e cientistas de uma convenção científica realizada lá (a reunir rostos como Sophia Lillis, Rupert Friend, Tlida Swinton e outros); e os militares basicamente representados pelo oficial displicente e indiferente (Jeffrey Wright) e seu subalterno (Tony Revolori).

O vazio existencial estranhamente cômico de cada um desses personagens ganha um novo viés quando Asteroid City é visitada por um alienígena (Jeff Goldblum) –cuja aparição converte brevemente o filme numa animação, outra área de atuação do diretor Wes Anderson, vide o maravilhoso “Ilha dos Cachorros” –e o governo ordena que seja imposta uma quarentena. Confinados naquele espaço, todos os personagens estabelecem uma rotina por meio da qual não apenas convivem uns com os outros, mas também com suas próprias idiossincrasias –material que faz muito o gosto do diretor –sem que aquilo jamais gere, na realidade, um microcosmos: O trabalho de Wes Anderson, bem como sua visão particular de cinema e de mundo, terminam sendo pessoais e peculiares demais para que se possa estabelecer algum tipo de analogia. E quando cai a pergunta “Então sobre o quê exatamente versa o filme?” é quando os problemas de “Asteroid City” começam a se acumular de verdade.

Diferente de outros trabalhos de Wes Anderson nos quais sua sensibilidade conseguiu alcançar o público, emocionando-o ou levando-o a refletir (ou ambos), em “Asteroid City” há um distanciamento resultante, tal é a sensação de alienação que a situação mirabolante e os personagens idiossincráticos, somados, passam ao expectador. “Asteroid City” poderia ser sobre a paranóia atômica de outros tempos, numa curiosa equação com o presente, mas é deveras gaiato e caricatural para isso; poderia ser sobre a pluralidade norte-americana e de como mentalidades e posicionamentos mais nos afastam do que nos aproximam, mas é inacessível em sua insistência no alternativo. Termina sendo um trabalho modorrento e desafiador para os expectadores menos pacientes, capaz de agradar aos fãs incondicionais do diretor, e somente a eles.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O Teorema Zero


 Um dos últimos trabalhos a nascer da mente fervilhante e inquieta do diretor Terry Gilliam, “O Teorema Zero” pode ser enxergado como uma tentativa de reedição de sua obra “Brazil-O Filme”, no qual ele também contemplava um protagonista às voltas com as imponderabilidades da vida, da mente e da existência, inserido num futuro fútil, esquisito e alegórico.

Escrito por Pat Rushin, o roteiro tem uma assombrosa identificação com os conceitos de abstração, loucura e escatologia metafísica que Gilliam se permitiu revelar em seus projetos mais audazes e autoriais. Mais até: “O Teorema Zero” é, possivelmente, a obra na qual Gilliam mergulha com mais afinco nas inquietações insolúveis e inacreditáveis que lhe orientavam como artista; em grande medida, isso significa que tentar encontrar um sentido em toda a anarquia que se manifesta na tela pode ser um esforço vão.

Também produtor, o ator Christoph Watz vive o protagonista Qohen Leth; com a cabeça (e as sobrancelhas!) toda raspada, e morador de uma igreja abandonada convertida em apartamento (!), Qohen é o típico personagem alienado, com um pé na loucura e outro na esquizofrenia, que Gilliam tanto aprecia; o maluco que expressa a maluquice do mundo ao seu redor, num ato de rompimento com o sistema ao atrever-se a adquirir um mínimo de lucidez.

Qohen trabalha numa empresa de nome Mancon, controlada pelo aparentemente onisciente Gerente (Matt Damon, em uma ponta de luxo), na qual sua função é, como ele mesmo diz, “processar entidades” (!?).

O que vemos Qohen realmente fazer é trabalhar arduamente na tela de um computador tentando completar uma espécie de quebra-cabeças 3D que é também uma equação matemática –parece ser a solução visual de Gilliam para o tal ‘teorema zero’, uma espécie de enigma para o mistério da vida, do qual o protagonista se incumbe, e cuja tentativa de ressolução ocupa cada hora de seus dias.

Qohen padece de todos os tipos de fobia –como fica patente nas conversas destrambelhadas com sua psiquiatra online (Tilda Swinton) –e não deseja ter de ir até a empresa trabalhar, preferindo fazê-lo recluso dentro de sua casa, o que deixa seu supervisor (David Thewlis, de “Cruzada” e “Harry Potter e O Prisioneiro de Askaban”) de ânimos acirrados. Numa festa na casa desse mesmo supervisor, à qual ele comparece meio que forçadamente, Qohen tem um encontro com a descontraída e sexy Bainsley (a deliciosa Mélanie Thierry, de “A Lenda do Pianista do Mar”) que, sem mais nem menos, passa a frequentar sua casa, na forma de uma fantasia erótica que se torna real.

Qohen ganha também a companhia de Bob (Lucas Hedge, de “Boy Erased”), o jovem filho do gerente tornado estagiário da empresa que, pouco a pouco, se torna seu amigo.

Durante esses percalços –que vão se estendendo ao longo de anos –Qohen aguarda obstinadamente por uma ligação que recebeu numa madrugada, e a qual, por descuido, acabou perdendo a conexão. Essa ligação, ele acredita piamente, trará uma voz feminina e transcendental, que lhe dirá, por fim, o sentido de sua própria vida, fazendo toda a tristeza, desesperança e angústia pelo qual passou ter um significado.

Em meio à essa trama amalucada que simula um certo despertar do personagem principal, o diretor Terry Gilliam dispõe pistas acerca da reflexão que ele quer levantar, entretanto, seja de propósito ou de desleixo, essa reflexão nunca fica clara: Seria uma dissertação sobre o nosso vazio existencial? Um conto sobre o tempo que desperdiçamos com questionamentos que jamais nos preencherão por completo? Ou uma angustiada (ainda que ocasionalmente humorada) observação da eterna ausência de respostas para nossas dúvidas metafísicas?

As referências de Terry Gilliam aos seus trabalhos passados são manifestas –além do já citado “Brazil-O Filme” temos a oposição entre medo e amor de “O Pescador de Ilusões”, a percepção alucinatória que engole protagonista e coadjuvantes em “Medo e Delírio em Las Vegas”, a busca idealizada por uma ilusão em “Os Doze Macacos”, e a devoção a uma rotina sem sentido de “Contraponto” –e em seu ressonante significado junto à filmografia tão incomum desse realizador, elas apontam um compêndio e um testamento de loucuras megalomaníacas, desvarios convertidos em imagens e um tratado visual onde o cinema não conhece e não deve conhecer limites.

A obra de Terry Gilliam é assim, cheia de beleza, inconstância e possibilidades irrestritas, tal e qual a arte em sua forma mais pura.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Ilha dos Cachorros


 Wes Anderson tem uma forma toda especial de mostrar-se a um só tempo contundente, tocante, desconcertante e lúdico em suas narrativas. Essas características normalmente se ressaltam quando ele trabalha com animações. “Ilha dos Cachorros” é seu segundo trabalho dentro desse território, antecedido unicamente por “O Fantástico Senhor Raposo”.

Nele –num reflexo bastante crítico da concepção de Anderson ao olhar a sociedade moderna –os humanos são menos compreensíveis que os animais; isso porque os cães não só narram a trama e participam dela ativamente na maior parte do tempo (com diálogos existencialistas e tudo o mais), mas também porque tudo se ambienta no Japão, e os personagens humanos falam somente o idioma de lá, sendo que o filme propositadamente omite as legendas das passagens em japonês –com exceção, de trechos traduzidos por intérpretes, legendas pontuais (e raras), e uma única personagem (uma aluna de intercâmbio) que fala a língua ocidental.

E é curioso notar assim o fascínio  e a intransponibilidade comunicativa que o Japão exerce tanto em Wes Anderson, como em Sofia Coppola (e seu “Encontros e Desencontros”), eles que têm em seu cinema muitas coisas em comum; muito mais do que apenas a presença de Bill Murray em suas obras –que aliás, aqui aparece dublando o personagem Boss!

Sendo assim, de modo geral, a trama de teor político que se descortina ao público é, em grande medida, expressada pelo ponto de vista dos cachorros: Após uma breve introdução de uma lenda segunda a qual o Japão –ou mais precisamente a cidade de Megasaki –viu-se polarizado entre apreciadores de cães e adoradores de gatos, acompanhamos, no futuro, os cães se tornarem alvo de uma manobra política do prefeito Kobayashi para serem dizimados, ao levarem a culpa pela disseminação de um vírus.

Os cães são assim exilados numa ilha –a Ilha do Lixo –e por lá abandonados. Anos depois, um grupo de cães (entre os quais está o narrador da história) testemunha a chegada de uma aeronave à ilha. Ela trás o jovem Atari Kobayashi, sobrinho do prefeito, indo atrás do seu cão guarda-costas, Spots (voz de Liev Schreiber), o primeiro animal para lá enviado.

Todavia, o paradeiro de Spots não é fácil de ser encontrado: Tudo indica que (se sobreviveu...) ele foi parar em algum lugar do extremo oposto da ilha, dominado por um grupo de cães selvagens de hábitos canibais!

Enquanto Atari tenta chegar lá, auxiliado meio a contra gosto pelo desiludido vira-lata Chief (voz de Bryan Cranston), as autoridades de Megasaki preparam uma medida para exterminar de uma vez a mal-fadada ilha dos cachorros: A fim de abafar a descoberta de que o vírus é perfeitamente curável (o que torna assim o retorno dos cães para o continente possível), o prefeito Kobayashi, ignorante da presença do sobrinho por lá, quer aprovar uma erradicação total à ilha, onde cães-robôs disseminarão um composto venenoso a partir de wasabi (!) que matará todos os seres vivos que estiverem lá.

Datado de 2018, é incrivelmente curioso, como um elemento essencial da narrativa de “Ilha dos Cachorros” remete ao cenário de 2020: O do vírus usado para manipular os anseios da população com fins políticos e certamente unilaterais.

Para além desse viés visionário, o diretor Wes Anderson ainda criou uma animação emocionante e pertinente, sobre a intolerância, sobre a intoxicante incapacidade de comunicação, e sobre a necessidade fundamental da preservação animal e ambiental.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A Praia

 


Já na transição da década de 1990 para a década de 2000, a virada do milênio, a carreira de Leonardo Dicaprio sofria a chamada ‘ressaca de “Titanic”’: Parecia improvável que qualquer coisa que ele fizesse a partir dali fosse tão igualmente retumbante, e bem-sucedida quanto o épico estrondoso e megalomaníaco de James Cameron. E, com efeito, seus projetos seguintes foram redundantes (“Eclipse de Uma Paixão”, realizado três anos antes de “Titanic”, mas lançado logo depois), pouco vistos (“Celebridades”, de Woody Allen) ou simplesmente ruins mesmo (“O Homem da Máscara de Ferro”). Parecia que Dicaprio mergulharia naquela típica armadilha onde um bom ator, tornado astro por um único grande sucesso, não conseguiria igualar o mesmo feito, afundando em realizações banais.

O que acabou resguardando a responsabilidade de ser a prova de fogo –se ele era uma promessa vazia ou um astro de talento e magnetismo real –para este “A Praia”, de Danny Boyle.

Por sua vez, a situação do diretor escocês Boyle era um pouco distinta: Ele vinha de dois projetos elogiadíssimos feitos em sua Escócia-natal que pegaram o mundo de assalto (o suspense “Cova Rasa” e o hoje muito cultuado “Trainspotting-Sem Limites”) e de uma produção de bem menos repercussão (a comédia romântica de humor negro “Por Uma Vida Menos Ordinária”); em todos os três casos, Boyle reunia uma espécie de ‘família cinematográfica’, onde repetia o mesmo roteirista (John Hodge), o mesmo produtor (Andrew Macdonald) e o mesmo ator principal (Ewan McGregor).

“A Praia” era sua estréia numa produção inteiramente hollywoodiana e, se manteve todos aqueles nomes atrás das câmeras, à frente delas, ele substituiu McGregor por Dicaprio –possivelmente para acatar uma imposição do estúdio que financiou o projeto, a Fox.

Dicaprio vive Richard, um mochileiro americano perambulando pela Tailândia, e acumulando instigantes experiências de vida. Richard, contudo, não é nenhum santo –e essas características ambíguas do personagem (como dissimulação, covardia e certa ausência de escrúpulos), além de serem essenciais aos rumos que a trama vai tomando, são recebidas e incorporadas com palpável satisfação pelo astro Dicaprio, ávido por enfim interpretar um protagonista que foge às definições de bom moço.

Pernoitando num albergue caindo aos pedaços, Richard conhece seus vizinhos de quarto: Do lado direito, o casal de franceses Françoise (a gatinha Virginie Ledoyen, de “Adeus, Minha Rainha”) e Etienne (Guillaume Canet), mochileiros como ele; do lado esquerdo, o desajustado, psicótico e atormentado Daffy (Robert Carlyle).

É Daffy quem, pouco antes de suicidar-se (!), deixa com Richard um mapa que, segundo ele, conduz a uma verdadeira lenda urbana: Uma praia paradisíaca com plantações abundantes de cannabis, de onde os afortunados turistas que encontram sua trilha não têm mais vontade de sair. Convidando Françoise e Etienne para ir com ele –e já cheio de segundas intenções para cima da moça –Richard segue pelo caminho mostrado no mapa; não sem antes passar uma cópia dele para uns camaradas maconheiros com quem confraternizou na véspera.

Após uma árdua travessia no mar, e uma alucinada perseguição na própria ilha, os três encontram a tão alardeada praia, e descobrem que lá vive uma comunidade alternativa liderada pela aparentemente sábia Sal (Tilda Swinton) cujos integrantes pouco interesse têm em visitar o mundo exterior. Richard, Françoise e Etienne são recebidos por eles e, durante algum tempo, sentem-se vivendo num paraíso.

Isso até os transtornos (alguns dos quais plantados pelo próprio Richard) virem bater-lhes à porta: Ele realiza seus desejos e separa Françoise de Etienne passando a namorar a francesinha; e ainda consegue escapar de um ataque de tubarão, embora dias depois, um colega da comunidade não tenha a mesma sorte, e o sofrimento dele (sem remédios por perto para proporcionar sua cura e aliviar sua dor) desafia a manutenção de todo o clima feliz do lugar. Entretanto, o pior mesmo é quando os tais maconheiros mencionados acima resolvem aparecer no lugar –no qual rege a lei irrevogável de que ninguém deve revelar seu segredo.

Assim, as travessuras e presepadas de Richard acabam colocando toda a comunidade na mira dos traficantes responsáveis pela vasta plantação de maconha do lugar; com quem até então mantinham uma certa trégua.

Baseado num romance de Alex Garland –que, a partir deste filme, passou a ser um roteirista regular de muitas ótimas obras de Boyle daqui para frente –“A Praia” é o tipo de filme que pode enganar expectadores desavisados numa primeira impressão: Seu visual de cartão-postal (assim como a presença de Dicaprio) podem sugerir um mero veículo comercial para um astro jovem e estabelecido, mas na verdade, Boyle faz deste um filme palpitante, equilibrando facetas de suspense, aventura e intriga num ambiente bastante inusitado, construindo uma narrativa absolutamente inspirada e inquieta (um diretor menos capaz certamente teria transformado o material em algo convencional e genérico) e proporcionando a Leonardo Dicaprio uma chance para revelar-se um ator talentoso, seguro e versátil para muito além do grande sucesso pelo qual era reconhecido.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Amantes Eternos

Ao lado de “O Vício”, de Abel Ferrara, “Amantes Eternos”, de Jim Jamursch é um dos filmes de vampiros mais originais e peculiares do cinema.
Isso porque, na concepção de Jarmusch absolutamente desinteressada dos tópicos de obras de terror, o conceito do que quer que seja um vampiro passa pela consciência de uma eternidade mergulhada nos mesmos questionamentos filosóficos que assolaram o subconsciente da humanidade por séculos e séculos; seres imortais, portanto, presentes em cada uma dessas etapas de lento, doloroso e aterrorizante aprendizado teriam uma maneira distinta de absorver as impressões do mundo.
Quão diferente, então, seriam esses seres, em seu comportamento e em sua mentalidade, dos humanos mortais e normais, em sua inércia de uma vida fugaz e finita?
“Amantes Eternos” se ocupa de refletir sobre essa pergunta; o que não necessariamente significa que, ao fim, ele a tenha respondido.
Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Winton) são dois vampiros –e, nos nomes adotados para esses personagens não apenas fica explícita a simbologia religiosa como em mais de um momento Jarmusch brinca com a sugestão de poderem ser eles o Adão e a Eva originais descritos na Bíblia (!); criaturas que carregam em si o peso imponderável de incontáveis séculos de vida.
Adam vive recluso em Detroit nos EUA. Eve mora em Tânger, no Marrocos.
Ambos, porém, são (ou foram) casados.
Ele passa suas noites fazendo encomendas excêntricas ao jovem Ian (o saudoso Anton Yelchin) que lhe providencia mimos como guitarras de fabricação raras para sua coleção.
Ela tem a ocasional companhia de Kit (John Hurt), vampiro veterano de aspecto envelhecido que seria Christopher Marlowe, revolucionário poeta do Século XVI –e para tanto, Jamursch o leva a declamar profundas considerações sobre o mundo e suas mudanças desde então.
Os vampiros retratados por Jamursch não são os assassinos caçadores que estamos acostumados a ver nos dias atuais –e também não são os despropositados românticos que brilham no sol, não se preocupe! –fazer uma vítima a cada noite não é uma atitude prudente; assim, Adam e Eve criaram métodos específicos para obtenção de sangue. Ele, por exemplo, visita um banco de sangue onde tem um acordo com o clínico-geral (Jeffrey Wright) e consegue litros de O positivo.
Assim, sem a necessidade de preencher seu tempo com perseguições às vítimas eventuais o que fazem os vampiros? Para Jamursch, eles usam de seu tempo vasto para absorver o que de melhor existe na cultura humana: A arte.
Daí a fascinação de Adam por relíquias musicais que ele empilha em sua casa, e sua obsessão com música, fotos antigas e outras coisas; Eve, por sua vez, imerge na literatura (sua velocidade de leitura é algo sobrehumano!) o que lhe proporcionou, ao longo dos séculos uma prosa reflexiva que vai das elucubrações quânticas de Albert Einstein aos humores instáveis de gênios da literatura em questão de poucas palavras.
Os vampiros de Jamursch são, pois, quase como filósofos de botequim que contemplam o melhor e o pior da humanidade do alto de uma existência longeva.
Não quer dizer que, em algum momento, eles não terão seus contratempos bem mundanos: Quando Eve volta aos EUA para ficar um tempo com Adam, logo em seguida aparece sua inconveniente irmã, Ava (Mia Wasikowska), também vampira, porém mais jovem, mais inconsequente e mais ávida por sangue a ponto de afrontá-los com sua imprudência. Os atos de Ava acabam obrigando Adam e Eve a regressarem a Tânger, onde outros percalços da vivência de um vampiro os aguarda.
Os mais rabugentos para com o cinema de Jim Jamursch afirmaram que ele se vale do tema dos vampiros apenas para fornecer uma moldura diferencial para seus questionamentos filosóficos de sempre, embasados por posturas underground típicas de seu cinema, no entanto, há que se reconhecer, não somente a corajosa manutenção das mesmas inquietações que fazem seu estilo desde que se dedicou a um cinema independente e autoral, como também a precisão com que sua técnica e seu modo de filmar combinam tão bem com o interessante universo concebido para este roteiro repleto de belas ideias e de pertinentes propostas.
Um grande trabalho –dentro do sub-gênero dos vampiros, talvez, o melhor da década.