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sábado, 30 de maio de 2026

Avatar - Fogo e Cinzas


 Se há um filme atrelado à expectativas, esse filme é “Avatar”. Não há como se preparar para assisti-lo sem esperar por uma experiência visual sem precedentes. Esse é, pois, o fantasma que assombra as suas continuações. A primeira delas, “O Caminho da Água”, lançada catorze anos depois do filme original, revelou-se uma obra um pouco menos ambiciosa, no sentido de que se debruçava sobre uma trama mais voltada aos seus protagonistas, Jake Sully e Neittiry, e aos filhos de tiveram nesse interim, e menos ao mundo vasto, imaginativo e alienígena que os cercam. O senso de proporções épicas e míticas volta, porém, a dar o tom neste terceiro filme, “Fogo e Cinzas”, num esforço genuíno e nítido para ir além do segundo filme – e, se possível, do festejado primeiro filme também.

É curioso que James Cameron, o criador, parece consciente de que são justamente os personagens novos, criados a partir de “O Caminho da Água”, bem como as inusitadas dinâmicas entre eles, que trazem um sopro de ar fresco à trama, uma vez que ela se atreve a repetir alguns tópicos do filme original.

Após os acontecimentos do filme anterior (que, diferente do filme de 2009, se sucedem simultaneamente neste daqui, sem saltos temporais), Lo’ak, o filho de Jake e Neittiry, ainda se sente culpado pela morte do irmão, enquanto Jake e Neittiry vivenciam o luto, cada um ao seu jeito: Jake reúne armamento obcecadamente, preparando-se para as hostilidades por vir; Neittiry se refugia na oração e na fé.

O lugar onde estão instalados –lar do Clã Metkayina, os Na’Vi aquáticos –está por receber comerciantes vindos das grandes florestas –e para lá destinados a voltar. É quando Jake decide enviar com eles Spider (Jack Champion), o humano que ele e Neittiry criaram como filho. Spider é, na verdade, filho biológico de Miles Quaritch (Stephen Lang), grande vilão da história (ainda que os conceitos de vilão comecem, aqui, a serem pouco a pouco revistos), e como Spider depende de máscaras de oxigênio para não sufocar com o ar do planeta Pandora, a decisão visa deixa-lo em segurança.

A família (Jake, Neittiry, Lo’ak e as filhas Kiri –na verdade, nascida do corpo Na’Vi da Dra. Augustine, do primeiro filme –e Tuk) toda o acompanha nessa espécie de despedida. São atacados (pelo próprio pessoal de Quaritch), e muitos perdem-se nas florestas de Pandora. Descrevendo, parece uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, mas, a narrativa de “Fogo e Cinzas” evoca um tom de contemplação por meio do qual, por um tempo considerável de filme, não registramos necessariamente nenhum acontecimento –ainda que a habilidade de James Cameron na direção mantenha o andamento sempre impecável –não à toa “Fogo e Cinzas” é o mais longo dentre todos os três filmes produzidos até então.

À beira da morte quando seu oxigênio por fim se esvai, Spider é salvo quando Eywa, a divindade que habita Pandora, resolve salvá-lo modificando seu sistema nervoso, tornando-o o único humano capaz de respirar a atmosfera de lá.

Contudo, agora o Povo do Céu –como os nativos de Pandora apelidaram os insensíveis invasores humanos –quer encontrar Spider de qualquer forma: Eles compreendem que ele tem a chave para que a Humanidade possa, de uma vez por todas, se estabelecer em Pandora para extrair suas riquezas naturais. A missão de Quaritch, portanto, além da vingança contra Jake Sully esboçada no filme anterior, é também encontrar e capturar seu próprio filho.

No escopo épico (para além dos filmes anteriores) que almeja para sua obra, Cameron não se restringe somente à esse conflito: Ele também explora (tornando este o grande diferencial de “Fogo e Cinzas”) uma outra beligerante e agressiva tribo de Na’Vi em Pandora, o Povo das Cinzas, cuja cultura repele a predominante adoração à Eywa, para abraçar um culto ao fogo e à destruição que ele é capaz de promover. Sua líder é a psicótica Varang (Oona Chaplin) que, num acordo fechado com Quaritch, acaba munindo seus guerreiros com armas pesadas na intenção de sobrepujar todos os outros Na’Vi.

O outro conflito de “Fogo e Cinzas” que ganha força na metade final (e serve, de modo geral, para amarrar as pontas soltas do enredo) é a tentativa dos humanos em empreender um último ataque aos Tulkun (as gigantescas e inteligentes baleias alienígenas que sofrem dos humanos a mesma crueldade insana que as baleias reais aqui na Terra) o que pode levar à extinção da espécie –essa batalha grandiloquente ocupa todo o longo clímax final, justapondo os Na’Vi da floresta e dos mares num combate contra os exércitos dos humanos e do Povo das Cinzas (um confronto que espelha bastante a batalha final do primeiro “Avatar”), e num nível mais íntimo, temos também cada um dos personagens protagonistas, e suas peculiaridades, sendo trabalhadas ao longo do acontecimento: Lo’ak e sua complicada relação com o pai; Neittiry e sua tentativa de equilibrar a natureza de guerreira e de mãe; Spider dividido entre sua humanidade (que o relaciona aos próprios inimigos que enfrenta, incluindo o pai) e a lealdade ao povo Na’Vi; Kiri e a descoberta de suas origens e de uma conexão ainda mais profunda com Eywa.

Aliás, o aspecto espiritual é um fator da mitologia de “Avatar” que surge muito melhor explorado aqui (embora, de novo, muitas dessas ideias terminem levando à cenas de ação que correm o risco de soarem repetitivas em relação aos filmes anteriores) o que sinaliza caminhos um bocado interessantes a serem explorados nas continuações.

Desnecessário dizer que visualmente “Fogo e Cinzas” é um espetáculo atordoante (por mais incrível que possa parecer, James Cameron continua bem sucedido em superar a si mesmo, filme a filme, em termos visuais e técnicos), sobretudo, àqueles que forem conferir seu primoroso aparato em 3D, e só isso já vale, em si, toda a experiência de assistir ao filme nos cinemas, a sua trama, entretanto, carece de polimento e ostenta consideráveis lapsos de imperfeição apesar dos visíveis esforços. Mas, bem... essa já era uma característica presente desde o primeiro “Avatar” –e nunca resultou numa preocupação maior da parte de James Cameron.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2025


 Nesta última segunda-feira foram anunciados os nomes dos indicados ao Globo de Ouro 2025, a ser realizado no dia 5 de janeiro de 2025. Prêmio de cinema e TV conduzido pelo Impressa Estrangeira, o Globo de Ouro –ou Golden Globe –já foi visto como uma prévia do Oscar, embora muitas decisões e escolhas promovidas nos últimos anos tenham afastado essa impressão. No entanto, ainda é parte fundamental da temporada de prêmios, e certamente vai interferir (e antecipar) muitas características que integrarão a cerimônia do careca dourado. Vamos às indicações e às considerações (lembrando que aqui só serão mencionados os indicados de cinema):

Melhor filme dramático

"O Brutalista"

"Um Completo Desconhecido"

"Conclave"

"Duna-Parte 2"

"Nickel Boys"

"Setembro 5"

Melhor filme de comédia ou musical

"Anora"

"Rivais"

"Emilia Perez"

"A Verdadeira Dor"

"A Substância"

"Wicked"

Primeira mudança: Agora as categorias predominantes contam com um limite de seis vagas (e não cinco como em anos anteriores), o que eleva os nomeados para as duas categorias de Melhor Filme para doze! Assim como seu brilhante antecessor, o mais brilhante ainda “Duna-Parte 2” sofreu uma ligeira esnobada do Globo de Ouro, embora deva reinar majestoso nas categorias técnicas do Oscar. Surgem com algum favoritismo aqui “Emilia Perez” –líder em indicações, com dez –e “O Brutalista” –sete indicações –“Emilia Perez”, por sinal, saiu fortíssimo do Festival de Veneza em maio, mas havia perdido algum fôlego quando estreou com uma ou outra crítica negativa. Muitos comemoraram a inclusão (inclusive noutras expressivas categorias) do ousado “A Substância”, caminhando a passos largos para virar o grande cult-movie de 2024 (e para ganhar improváveis, ainda que merecidas, indicações ao Oscar). Embora o aguardado filme de Luca Guadagnino “Queer” tenha ficado de fora da categoria principal (entre outras razões por não ter agrado boa parte da crítica), o seu “Rivais”, lançado com atraso no início do ano, foi capaz de se manter memorável para conquistar uma nomeação. E a campanha de “Wicked”, que entre outras estratégias providenciais agendou seu lançamento para o final de ano, deu frutos obtendo um bom números de indicações.

Melhor atriz de filme dramático

Pamela Anderson, "The Last Showgirl"

Angelina Jolie, "Maria Callas"

Nicole Kidman, "Baby Girl"

Tilda Swinton, "O Quarto Ao Lado"

Fernanda Torres, "Ainda Estou Aqui"

Kate Winslet, "Lee"

Os brasileiros ficaram em polvorosa quando, nesta categoria, surgiu nossa querida Fernanda Torres, que parece repetir os passos da própria mãe, Fernanda Montenegro, que culminou indicada a Melhor Atriz na cerimônia do Oscar 1999. Fernandinha pode refazer esses mesmos passos, contudo, aqui ela disputa com um sex-symbol de décadas passadas retornando à ribalta por meio de um projeto corajoso e surpreendente (Pamela Anderson); duas atrizes que costumam equilibrar atuações elogiáveis com estrelato inquestionável (Nicole Kidman e Angelina Jolie); uma elogiada intérprete inglesa defendendo o primeiro filme falado em inglês de Pedro Almodóvar (Tilda Swinton) e uma premiada atriz, tarimbada em obter aclamação nas premiações (Kate Winslet).

Melhor direção

Jacques Audiard, "Emilia Perez"

Sean Baker, "Anora"

Edward Berger, "Conclave"

Brady Corbet, "O Brutalista"

Coralie Fargeat, "A Substância"

Payal Kapadia, "Tudo O Que Imaginamos Como Luz"

Edward Berger (de “Nada de Novo no Front”) e Jacques Audiard (de “O Profeta”) não são estranhos às premiações, mas certamente são presenças bastante inesperadas (bem como os longa-metragens que realizaram) as de Brady Corbet, Coralie Fargeat, Sean Baker (de “Projeto Flórida”) e Payal Kapadia. Na esteira da repercussão positiva em Cannes, o favorito é Baker, cujo “Anora” saiu premiado com a Palma De Ouro (embora conte com um total de apenas cinco indicações), mas muita coisa pode mudar.

Melhor ator em filme dramático

Adrien Brody, "O Brutalista"

Timothée Chamalet, "Um Completo Desconhecido"

Daniel Craig, "Queer"

Colman Domingo, "Sing Sing"

Ralph Fiennes, "Conclave"

Sebastian Stan, "O Aprendiz"

Esperava-se que o jovem Timothée Chamalet fosse indicado por “Duna-Parte 2”, no entanto, ele saiu-se com essa prodigiosa atuação vivendo Bob Dylan no filme de James Mangold, seus competidores mais expressivos certamente são Daniel Craig quebrando de vez a imagem de James Bond (e defendendo com unhas e dentes a única indicação de “Queer”), o elogiado trabalho de Ralph Fiennes e Sebastian Stan, o Soldado Invernal da Marvel Studios, que este ano conseguiu emplacar duas indicações no Globo de Ouro.

Melhor atriz em filme de comédia ou musica

Amy Adams, "Canina"

Cynthia Erivo, "Wicked"

Karla Sofía Gascón, "Emilia Perez"

Mikey Maddison, "Anora"

Demi Moore, "A Substância"

Zendaya, "Rivais"

Melhor ator em filme de comédia ou musical

Jesse Eisenberg, "A Verdadeira Dor"

Hugh Grant, "Herege"

Gabriel LaBelle, "Saturday Night"

Jesse Plemons, "Tipos de Gentileza"

Glen Powell, "Assassino Por Acaso"

Sebastian Stan, "Um Homem Diferente"

Parece haver um consenso entre os críticos e votantes do Globo de Ouro (que já foi percebido, ao longo dos anos, no Oscar também) de que, se um filme possue um gênero indefinido, ou mesmo incategorizável, ele é indicado à Melhor Comédia ou Musical –só assim para entender as indicações nessa categoria para Hugh Grant pelo terror “Herege” (no qual ele está surpreendente, diga-se) e para Jesse Plemons (que venceu em Cannes!) pelo estranho, porém fascinante “Tipos de Gentileza”. O mesmo ocorre em Melhor Atriz de Comédia ou Musical para Demi Moore no nada engraçado “A Substância”, todavia, entre as mulheres prevalace o irônico favoritismo de Karla Sofía Gascón, a primeira atriz trans na História indicada ao prêmio (uma manobra que dificilmente deixará de ser repetida pelo Oscar), já entre os Atores, o favorito ainda parece incerto, mas seria muito interessante ver o belo trabalho de Glen Powell, num dos filmes mais sensacionais do ano, ser recompensado.

Melhor atriz coadjuvante

Selena Gomez, "Emilia Perez"

Ariana Grande, "Wicked"

Felicity Jones, "O Brutalista"

Margaret Qualley, "A Substância"

Isabella Rossellini, "Conclave"

Zoe Saldana, "Emilia Perez"

Melhor ator coadjuvante

Denzel Washington, "Gladiador II"

Kieran Culkin, "A Verdadeira Dor"

Guy Pierce, "O Brutalista"

Jeremy Strong, "O Aprendiz"

Yura Borisov, "Anora"

Edward Norton, "Um Completo Desconhecido"

Em Atriz Coadjuvante, as duas colegas de “Emilia Perez”, a jovem Selena Gomez e a bem-sucedida Zoe Saldana, terão de enfrentar o fascínio da crítica e a aprovação do público despertados pela sensacional Margaret Qualley em “A Substância”, embora hajam grandes chances para a veterana Isabella Rossellini e para a sempre talentosa Felicity Jones, correndo por fora, a cantora Ariana Grande deve encarar a indicação como um prêmio.

Em Ator Coadjuvante, é um pena que o sempre fabuloso Denzel Washington não tenha maiores chances (talvez, se o filme fosse melhorzinho...), resta os grandes trabalhos de atores consagrados como Edward Norton e Guy Pierce em disputa com a surpresa das presenças de Kieran Culkin (finalmente mostrando em cinema o potencial que já exibia na série de TV “Sucession”) e Jeremy Strong (cujo “O Aprendiz” é uma produção pulsante).

Melhor animação

"Flow"

"Divertida Mente 2"

"Memórias de Um Caracol"

"Moana 2"

"Wallace & Gromit-A Vingança"

"Robô Selvagem"

As coisas mudam: Outrora favoritos incontestáveis na categoria animação, a Pixar (representados pela continuação de um longa-metragem que, anos atrás, simplesmente arrebatou o prêmio) já não surge este ano tão imbatível assim, o que aumenta as merecidas chances para o novo “Wallace & Gromit” e para os mais alternativos “Flow” e “Memórias de Um Caracol”, mas... quer saber? Quem merece o prêmio mesmo à a Dreamworks que entregou, com o emocionante “Robô Selvagem” uma das melhores animações do ano (e ele ainda está indicado em Melhor Trilha Sonora!). “Moana 2”, o representante da Disney no páreo nem conta –sua presença entre os indicados é protocolar em função da importância do estúdio, mas ele nem tem tanta qualidade para constar por aqui.

Melhor canção original

"Beautiful That Way", "The Last Showgirl"

"Compress/Repress", "Rivais"

"El Mal", "Emilia Perez"

"Forbbiden Road", "Better Man"

"Kiss The Sky", "Robô Selvagem"

"Mi Camino", "Emilia Perez"

Melhor trilha sonora

"O Brutalista"

"Conclave"

"Robô Selvagem"

"Emilia Perez"

"Rivais"

"Duna-Parte 2"

Melhor filme estrangeiro

"Tudo O Que Imaginamos Como Luz" (Índia)

"Emilia Perez" (França)

"A Garota da Agulha" (Dinamarca)

"Ainda Estou Aqui" (Brasil)

"A Semente do Figo Sagrado" (Alemanha)

"Vermiglio" (Itália)

“Emilia Perez” aparece na categoria de Filme Estrangeiro assim como na de Filme de Comédia ou Musical”, o que já o torna automaticamente o favorito da categoria, comprometendo as chances do brasileiro “Ainda Estou Aqui” –de repente, a mesma história de 1999 parece se repetir... –entretanto, o indiano “Tudo O Que Imaginamos Como Luz” também segue forte na disputa.

Melhor roteiro

"Emilia Perez"

"Anora"

"O Brutalista"

"A Verdadeira Dor"

"A Substância"

"Conclave"

domingo, 3 de novembro de 2024

Lee


 O cinema até que demorou para fazer jus à Elizabeth ‘Lee’ Miller, conhecida como a primeira mulher fotojornalista de guerra que cobriu eventos importantes e brutais durante a Segunda Guerra Mundial. O filme dirigido pela outrora diretora de fotografia Ellen Kuras (de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”) levou cerca de oito anos para ser realizado –sua pré-produção data de 2015 e seu lançamento oficial, no Festival de Toronto, deu-se em 2023 –e só viu à luz do dia graças à obstinação da estrela Kate Winslet, que abraçou o projeto a ponto de atuar como produtora e, num determinado ponto das filmagens, bancar com seu próprio salário o cachê de seus colegas de elenco!

“Lee” consolida sua biografia a partir de uma cena aparentemente convencional de diálogo: Alguém que parece ser um simples jornalista (Josh O’Connor, da série “The Crown”) entrevista uma já idosa Lee Miller (Kate Winslet, aqui maquiada) no ano de 1977. Todavia, apesar das ressalvas da entrevistada em se abrir, logo seu relato regressa para 1938, quando as memórias de uma jovem Lee Miller (uma presença que a brilhante Kate Winslet torna fulgurante) dão início à sua trajetória de fato. Ao lado de grandes amigos franceses –entre eles, Solange d’ Ayen interpretada por Marion Cottilard, numa participação de luxo –Lee, já em vias de abandonar a carreira de modelo, conhece, na Riviera, aquele que virá a ser seu marido, Roland Penrose (Alexander Skarsgard, de “A Lenda de Tarzan”). Ali, todos também tomam conhecimento da ascensão de Hitler e do nazismo na Alemanha, então observado por eles apenas como uma inusitada escalada ao poder de uma figura desagradável e de ideais um tanto absurdos. Como a própria Lee afirma em sua narrativa em off, de uma hora para outra, aquele ditador estranhamente ameaçador e caricato se transformou no homem mais poderoso da Europa.

Quando eclode a Segunda Guerra Mundial, a Inglaterra, onde ela e Roland moravam, se torna o único país seguro das tropas nazistas. Enquanto Roland, com sua veia artística, auxiliava os esforços de guerra criando camuflagens para a frente de batalha, Lee ajudava como fotógrafa no segmento britânico da prestigiada revista Vogue –auxiliada pela amizade com Audrey Withers (Andrea Riseborough, de “Birdman”, numa personagem espantosamente envelhecida), editora da publicação, que já lutava contra as inevitáveis redundâncias do machismo. Para Lee, contudo, isso não bastava. Ela queria ir para a frente de batalha (onde o próprio Roland chegou a ir diversas vezes) e ter a oportunidade de registrar em primeira mão os assombros da guerra em fotos, entretanto, os ingleses não permitiam a ida de uma mulher para o front. Foi graças à sugestão do grande amigo David Scherman (Andy Samberg, de “Amizade Colorida”) –um personagem que se torna crucial à trama de um ponto em diante –que Lee se dá conta de que, como norte-americana, ela pode ir para a frente de batalha por meio das diretrizes do exército norte-americano, um tanto mais maleável e razoável do que o sisudo exército britânico. É assim que, apesar de um ou de outro contratempo a servir de obstáculo, Lee fotografa primeiro as aflições experimentadas pelos feridos nos hospitais de campanha e, depois, acaba enviada para a Alemanha, em incursões ofensivas nas cidades sob ataque (sequências de batalhas que não predominam tanto assim no filme quanto se pode imaginar), nas descobertas desconcertantes dos primeiros campos de concentração e suas hordas intermináveis de vítimas e na chegada, junto às primeiras tropas, à Berlim ocupada –inclusive flagrando os cadáveres da alta cúpula nazista junto de suas famílias pouco após seu suicídio.

A trajetória de Lee Miller é pontuada por relevância e um pertinente exemplo de empoderamento, uma vez que essa personagem esteve presente em eventos fundamentais do Século XX, contudo, o fôlego da diretora Ellen Kuras se mostra limitado para o filme abrangente, exuberante e importante que ela se prestou a fazer; e para a espetacular trajetória da personagem que se prestou a retratar. Em sua mãos, “Lee” é uma obra dramaticamente inconstante, restrita por um certo cansaço nas poucas e desanimadas cenas de batalha que entrega, e equivocadamente focada em tópicos que não fazem tanta diferença no cômputo geral –como o suposto ‘triângulo amoroso’ entre Lee, Roland e David, sugerido em diversos momentos, nunca porém desenvolvido de fato; ou no igualmente subaproveitado detalhe do jornalista entrevistador do início ser, na verdade, Antony Penrose, o filho de Lee que sentiu-se negligenciado pela sua pouca predisposição materna, o que transforma um filme que poderia ser enérgico, histórico e relevante, num melodrama de ajustes familiares –e também ali surge uma espécie de ‘sugestão’ da parte do roteiro, ao percebermos que o ator Josh O’Connor escalado para interpretar Antony se parece, deliberadamente ou não, muito mais com David do que com Roland.

Apesar dessa constante falha onde a narrativa concentra-se com frequência irritante nos tópicos errados, “Lee” ainda se sobressai à média graças à presença da magnífica Kate Winslet; grande atriz, desde os tempos de juventude na época do mega-sucesso “Titanic”, ela é uma mulher bela, sedutora e audaciosa (suas cenas de nudez são admiráveis) e compõe aqui uma atuação primorosa, rica em autenticidade e vigor, enfatizando Lee Miller como uma grande personagem e valorizando o filme imperfeito que ela protagoniza já que, graças ao Bom Deus, ela é a estrela principal em praticamente todas as cenas.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Avatar - O Caminho da Água


 Vencedor de 3 Oscars, uma transformação na maneira de se ver (e fazer) cinema com seus revolucionários efeitos 3D, e como se não bastasse, a maior bilheteria da história da sétima arte. “Avatar”, lançado num já longínquo 2009 (lá se vão treze anos!) não é uma façanha das muito fáceis de ser equiparada. Entretanto, é algo assim que almeja o sempre ambicioso James Cameron com “Avatar-O Caminho da Água”, continuação de seu formidável épico de ficção científica na qual ele vem trabalhando desde o filme anterior.

Aqueles que forem conferir o filme podem até afirmar que o ineditismo de seus efeitos visuais, ainda que assombrosos, ainda que irretocáveis, não traz o mesmo espanto de antes; que as cenas em 3D, ainda que fenomenais, não acrescentam tanto assim ao filme anterior, mas, a verdade é que “O Caminho da Água” é uma sequência pensada com sensatez, talento e perícia incontestáveis –tal qual fez com “Exterminador do Futuro 2” e “Aliens-O Resgate” (as duas únicas continuações que foram capazes de adicionar elementos realmente novos e instigantes às suas franquias originais), Cameron deu uma continuidade válida, auspiciosa e empolgante para a brilhante aventura no planeta Pandora.

Quando “O Caminho da Água” começa, descobrimos que quase vinte anos se passaram desde os acontecimentos retumbantes do filme original. Agora convertido definitivamente em um guerreiro alienígena Na’Vi, o ex-soldado Jake Sully (Sam Worthington) e a nativa Neytiri (Zoe Saldana) se casaram e tiveram uma prole da filhos: O primogênito Neteyam (Jamie Flatters); o impetuoso e descuidado Lo’ak (Britain Dalton); a caçula Tuk (Trinity Jo-Li Bliss), além de uma filha adotiva, Kiri, nascida do corpo avatar da falecida Dra. Augustine, vivida por Sigourney Weaver (e também ela, interpretada pela mesma atriz), e da inesperada presença humana do jovem Spider (Jack Champion), encontrado ainda bebê na base abandonada pelos homens, cujo crescimento se deu entre os próprios Na’Vi.

Esse núcleo de novos personagens haverá de predominar no filme, a despeito até mesmo do casal protagonista do original, então convém prestar atenção neles. Um esforço que, se em princípio parece difícil, logo, a habilidade notória de James Cameron como diretor transforma num deleite; pode ser difícil de acreditar, mas, ele consegue transformar os novatos em indivíduos carregados de carisma e empatia, pelos quais a plateia torce e vibra, ansiando para que fiquem em segurança e se exasperando quando ficam em perigo.

Tudo começa de fato –e isso, demora muito pouco –quando naves gigantescas despontam no espaço (na primeira de inúmeras cenas embasbacantes que virão): O chamado “povo do céu”, ninguém mais, ninguém menos, que os seres humanos, (os verdadeiros alienígenas invasores, numa das mais sensacionais inversões de valores promovida pela obra de Cameron) finalmente voltou para uma revanche. E voltaram armados! Não apenas com seu poderio bélico e tecnológico extremamente mortal para a fauna e flora de Pandora, como também com o surpreendente retorno do protagonista do filme anterior, Coronel Quaritch (Stephen Lang, uma vez mais brilhante) agora com todas as suas memórias salvas dentro da consciência de um corpo Na’Vi, um avatar tal e qual Jake Sully no primeiro filme.

Ciente de que seu corpo original foi morto por Jake e Neytiri, Quaritch busca por sua vingança, o que ele quase consegue quando captura os filhos de Jake e Neytiri, assim como Spider, ao lado de sua tropa –vários soldados, também eles tombados na batalha final de “Avatar” agora com novos corpos Na’Vi.

Jake e Neytiri conseguem resgatar as crianças –exceto por Spider, que é levado prisioneiro, só para descobrir que seu pai era o próprio Quaritch (!) –mas, não deixam de experimentar a possibilidade amarga de perdê-los. E, com isso, Jake decide então que, ao contrário de antes, esta é uma batalha que ele não deseja lutar. Porque antes, a luta envolvia os Na’Vi brigando pelo direito de viver em seu próprio mundo, e agora, tudo se resume ao desejo de vingança de Quaritch. E porque antes, ele não tinha toda uma família que poderia ser tirada dele.

Diante dessa decisão –um tanto difícil para a corajosa e orgulhosa guerreira Neytiri –ele deixa o comando da Tribo da Floresta, e juntos partem para brigar asilo nas longínquas tribos que vivem além. Na’Vis também, mas ligeiramente diferentes tendo seus corpos alterados pelo ecossistema para se adaptar ao ambiente aquático.

Para Jake Sully e seus filhos, crescidos e acostumados no ambientes florestal, a adaptação será um desafio, assim como o fato de serem aceitos pelos inicialmente arredios e agressivos integrantes dessa nova tribo, comportamento pouco hospitaleiro que reflete o da esposa do chefe, a linha-dura Ronal (vivida em captura de performance por Kate Winslet, mesma atriz com quem Cameron trabalhou em “Titanic”).

Se mesmo nas cenas corriqueiras e em baixa voltagem onde vemos o esforço da Família Sully em serem aceitos naquele novo lugar, tentando aprender novos costumes e novas condutas, as sequências que são elaboradas surgem espetaculares em seu acabamento visual, o que dizer, então, do assombro quando as inúmeras tensões e os notáveis conflitos plantados com relativa inteligência pelo roteiro culminam nas cenas climáticas de seu último terço?

Se haviam aqueles que acreditavam na possibilidade de Cameron manchar o belíssimo e bem lapidado filme anterior com uma continuação vazia e sem sentido, ele entrega aqui uma obra ainda mais poderosa em sua capacidade insuspeita de arrebatar e encantar em igual medida.

Os novos personagens são extraordinariamente cativantes –a ponto de eclipsarem facilmente as figuras conhecidas do filme original –e as dinâmicas novas que surgem entre eles não apenas adicionam emoções mais complexas à trama (caso da relação cheia de ambiguidade, desconfiança, antagonismo e um imprevisto laço de afeto entre Spider e o Coronel Quaritch) como também levantam questões que certamente culminaram nos próximos filmes ainda vindouros (como a capacidade metafísica de Kiri em acessar Eywa, a divindade ancestral de Pandora).

Como fizera em 2009, James Cameron entrega, em “O Caminho da Água”, um atestado técnico e artístico sobre como os limites assim presumidos do cinema podem (e devem) ser testados, forçados e superados por autores indomáveis, incapazes de aceitar o que é comum e possível, e com isso estabelece, para todos os desafortunados outros filmes, um nível estratosférico de qualidade que certamente levará alguns anos para ser igualado.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Contágio

Em tempos de Coronavírus, este filme lançado em 2011 (durante a comoção do H1N1, a gripe suína) voltou a ganhar relevância na lembrança dos expectadores. Trata-se de uma superprodução conduzida por Steve Sodenbergh com a mesma elegância que ele dedicou à sua obras menores e independentes.
Vitimada por um vírus desconhecido após uma viagem internacional, americana moradora de Minnesota (e interpretada por Gwyneth Paltrow) morre no leito hospitalar sem razões aparentes, logo seguida de seu filho de sete anos.
Ela deixa viúvo seu marido (Matt Damon, provavelmente o protagonista em meio à tantos astros) e os médicos com uma perturbadora interrogação acerca do quê a matou.
Nas cenas simultâneas mostradas por Sodenbergh fica claro que houve contágio: No aeroporto, uma estagiária em Londres, um assalariado de Hong Kong e um executivo do Japão também acabam infectados por ela.
O episódio em solo americano, imediatamente seguido de vários outros, aciona o Centro de Controle de Doenças dos EUA, cujos profissionais (entre eles, Laurence Fishburne, Kate Winslet, Bryan Cranston e Jennifer Ehle) correm para catalogar os efeitos da doença e conter seu rápido avanço identificando cada uma das pessoas contaminadas –que em poucos dias eles perceberão ser milhares.
Logo, um digital influencer (Jude Law) passa a valer-se do fato de ter sido um dos primeiros a noticiar o surto, e gera pânico com suas declarações bombásticas destituídas de embasamento e senso de responsabilidade.
São também enviados profissionais (Marion Cotillard e Chin Han) para investigar a origem do vírus (ao que tudo indica em Macau) enquanto equipes de geneticistas correm contra o tempo para criar uma vacina para o que logo se torna uma ameaça de nível global.
É curiosa a forma com que Sodenbergh aborda os desdobramentos humanos da crise –evidentemente acometida de características muito mais dramáticas do que os exemplos recentes da vida real –ostentando um elenco numeroso e estelar, mas, deixando claro em sua narrativa que essas presenças são, ainda assim, efêmeras diante das implicações ocasionadas de absurdo que se sucedem: A personagem de Marion é sequestrada por aldeões interessados em usá-la como refém para barganhar e tornarem-se os primeiros da fila quando houver uma vacina; o personagem de Jude Law, de olho em lucro pessoal, passa a coagir a população que segue suas orientações para não acreditar no Centro de Controle de Doenças, nem mesmo quando uma cura é finalmente processada; o vírus se alastra com mais intensidade devido à desorganização logística das autoridades locais que, a partir de determinado momento, têm de lidar até com uma greve de funcionários da área de saúde; todavia, nada gera mais caos do que o medo disseminado pela mídia sensacionalista (não dá uma sensação de déja-vú?), o que leva pessoas a estocar comida e o exército a fechar fronteiras; e a própria concepção da vacina (obtida no terço final do filme) se dá pela ação de personagens que desafiaram as normas e a burocracia (como o médico vivido por Elliott Gould e a sensacional personagem de Jennifer Ehle) para agilizar o salvamento de vidas humanas.
Com este filme austero e incisivo, Sodenbergh usa de seu talento para analisar os efeitos de uma epidemia, não tanto pelo aspecto científico e orgânico da doença em si, mas a partir das distintas ações e reações flagradas nos diferentes e diversos personagens que ele bota em cena que, de modo geral, representam os sentimentos cosmopolitas, evasivos e não raro egoístas do ser humano diante dessas situações.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Refém da Paixão

Uma história simples engrandecida pelo talento dos envolvidos. Esta certamente é uma forma honesta de se resumir em linhas gerais o filme de Jason Reitman.
“Refém da Paixão” é sobre uma situação modificada pelas impressões: Narrado em off pelo ator Tobey Maguire, acompanhamos a rotina um tanto melancólica do menino Henry (Gattlin Griffith) em plenos anos 1980. Separada de seu pai (com quem Henry se encontra nos fins de semana), sua mãe, Adele (Kate Winslet, maravilhosa) se encontra num manancial de amargura. Henry até tenta, em sua ingenuidade e boa vontade, preencher o que supõe ser um vazio na vida da mãe, mas a lacuna incomodamente vaga de uma figura masculina requer que anseios mais específicos sejam atendidos.
É dessa forma que, numa ida casual à um mercado, Henry e Adele são interpelados pelo fugitivo Frank Chambers (Josh Brolin sempre excelente). Ferido, Chambers coage mãe e filho para que o levem de carro para sua casa.
Tem-se a impressão que lá ele irá mantê-los como reféns... mas, não! Desconcertando as expectativas pessimistas de Adele, Frank se revela atencioso, educado e até prestativo: Ao longo dos dias em que se esconde naquela residência livre de suspeitas, ele conserta avarias da casa, eventualmente surgidas pela ausência de um marido; demonstra desenvoltura na cozinha (chegando a preparar uma emblemática e apetitosa torta de pêssego!); e mostra-se uma pontual e eficaz figura paterna para Henry.
Tantos predicados começam a abalar o coração carente de Adele e assim, a circunstância que era para ser um seqüestro se torna o improvável esboço de uma família: O injustiçado foragido de bom coração acaba sendo a peça que faltava para que Adele e Henry voltassem a experimentar uma sensação de viver em família outra vez.
Em meio à essa disfuncional convivência, o diretor Reitman lança mão de ocasionais lampejos de suspense a quebrar a tranqüilidade –porque, a despeito da tensão, ele parece achar isso muito divertido, e porque em sua destreza narrativa ele não quer que o expectador perca a perspectiva da situação como ela é.
Em meio à essa distorção da ‘Síndrome de Estocolmo’, o diretor insere, aqui e ali, flashbacks em princípio pouco ou nada elucidativos (imprecisos até mesmo na incerteza de serem flashbacks!), mas que, ao se somarem gradativamente vão esclarecendo melhor as razões que conduziram Frank à condenação por assassinato e Adele ao profundo desamparo.
Assim, o filme, em algum momento, parece mudar de foco e de rumo, estabilizando sua narrativa com novos propósitos; deixada em evidência a boa índole de Frank, a fonte de suspense agora vem a ser os planos dele, de Adele e de Henry, em constante ameaça por elementos vindos de fora, como o vizinho (J.K. Simmons) que despreocupadamente bate à porta sem saber a comoção de dúvida e perplexidade que despertou dentro da casa, ou o jovem policial (James Van Der Beek) que, ao impor sua disponibilidade à mãe e ao filho aparentemente sozinhos em casa, deixa todos com os nervos à flor da pele.
E deveras, se Jason Reitman, em outras obras, havia mostrado brilho inconteste na concepção de ironia (“Obrigado Por Fumar”), no manejo do humor (“Juno”) ou na arquitetura do drama (“Amor Sem Escalas”), aqui, com a ajuda de intérpretes primorosos, ele demonstra competência em frentes diversas –seja na construção improvável do romance, seja na prodigiosa elaboração de uma atmosfera de suspense –tudo isso trabalhando as inúmeras nuances de uma situação que poderia resultar até mesmo teatral nas mãos de um diretor menos perspicaz.