Mostrando postagens com marcador Marion Cotillard. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marion Cotillard. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A Torre de Gelo


Inspirado no mesmo conto de Hans Cristian Handersen que deu origem à “Frozen”, dos Estúdios Disney, este "La Tour de Glace", de Lucile Hadzihalilovic, ao contrário daquela animação de imenso sucesso, não é destinado às crianças, nem tampouco ao grande público; somente expectadores de paladar muito específico, e cinéfilos em geral, conseguirão assimilar a mescla peculiar entre introspecção, alegoria artística e sondagem psicológica que a narrativa da francesa Lucile Hadzihalilovic constrói do começo ao fim. Todo esse radicalismo foi, ao menos, reconhecido no Festival de Berlim 2025, de onde "La Tour de Glace" saiu com a honraria do Urso de Ouro de Contribuição Artística.

Moradora de um orfanato no alto de montanhas cobertas de neve, a solitária adolescente Jeanne (Clara Pacino) um dia resolve partir para as cidades maiores sem muita perspectiva do que lá irá encontrar. Após uma inóspita e gelada peregrinação, ela se descobre sem ter onde ficar e invade um prédio qualquer do centro a fim de passar a noite.

Entretanto, o tal prédio parece abrigar as dependências de um estúdio cinematográfico, e os cenários erguidos servem para as filmagens, dia e noite, de um filme inspirada no conto “A Rainha da Neve”. Nele, o diretor do filme é interpretado – veja só! – pelo próprio diretor de cinema, na vida real, Gaspar Noé, realizador do exasperante “Irreversível”.

A atriz principal do filme vem a ser a estrela de cinema Cristina, interpretada por Marion Cotillard, acometida de constantes crises de estrelismo que deixam os membros da produção em estado de alerta sempre que está por perto. Conseguindo se fazer passar por mais um dos tantos integrantes da figuração, Jeanne, talvez por sua juventude, chama a atenção de Cristina.

Há uma simbiose estranha, até tóxica, que surge entre as duas protagonistas a partir de certo ponto que conduz a relação incomum que elas mantêm, uma espécie de jogo sexual velado que inclui tênues sugestões de lesbianismo. Para Cristina, afinal, Jeanne é um espelho, no qual ela consegue enxergar uma imagem da jovialidade que ela, amargurada, não vê mais em si mesma. Já, Jeanne, arrebatada por seu alvo dessa atenção, deixa-se levar por esse papel, fazendo os caprichos de Cristina.

É, no entanto, inevitável o momento em que essa situação irá se tornar insustentável.

Reflexo da imensa predisposição da atriz Marion Cotillard em abraçar projetos de insuspeita estranheza, “La Tour de Glace” é um trabalho contundente e artístico sem qualquer inclinação para o comercial, ainda que notável por sua beleza visual (a fotografia é de Jonathan Ricquebourg), seu ritmo é lento, contemplativo, elíptico e denso, e o papel reservado à Cotillard tem um viés vilanesco e parasitário que afastaria outras estrelas de cinema – fora uma espécie de crítica, ali embutida, ao próprio perfil egocêntrico e arrogante  das estrelas mais narcisistas.

domingo, 3 de novembro de 2024

Lee


 O cinema até que demorou para fazer jus à Elizabeth ‘Lee’ Miller, conhecida como a primeira mulher fotojornalista de guerra que cobriu eventos importantes e brutais durante a Segunda Guerra Mundial. O filme dirigido pela outrora diretora de fotografia Ellen Kuras (de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”) levou cerca de oito anos para ser realizado –sua pré-produção data de 2015 e seu lançamento oficial, no Festival de Toronto, deu-se em 2023 –e só viu à luz do dia graças à obstinação da estrela Kate Winslet, que abraçou o projeto a ponto de atuar como produtora e, num determinado ponto das filmagens, bancar com seu próprio salário o cachê de seus colegas de elenco!

“Lee” consolida sua biografia a partir de uma cena aparentemente convencional de diálogo: Alguém que parece ser um simples jornalista (Josh O’Connor, da série “The Crown”) entrevista uma já idosa Lee Miller (Kate Winslet, aqui maquiada) no ano de 1977. Todavia, apesar das ressalvas da entrevistada em se abrir, logo seu relato regressa para 1938, quando as memórias de uma jovem Lee Miller (uma presença que a brilhante Kate Winslet torna fulgurante) dão início à sua trajetória de fato. Ao lado de grandes amigos franceses –entre eles, Solange d’ Ayen interpretada por Marion Cottilard, numa participação de luxo –Lee, já em vias de abandonar a carreira de modelo, conhece, na Riviera, aquele que virá a ser seu marido, Roland Penrose (Alexander Skarsgard, de “A Lenda de Tarzan”). Ali, todos também tomam conhecimento da ascensão de Hitler e do nazismo na Alemanha, então observado por eles apenas como uma inusitada escalada ao poder de uma figura desagradável e de ideais um tanto absurdos. Como a própria Lee afirma em sua narrativa em off, de uma hora para outra, aquele ditador estranhamente ameaçador e caricato se transformou no homem mais poderoso da Europa.

Quando eclode a Segunda Guerra Mundial, a Inglaterra, onde ela e Roland moravam, se torna o único país seguro das tropas nazistas. Enquanto Roland, com sua veia artística, auxiliava os esforços de guerra criando camuflagens para a frente de batalha, Lee ajudava como fotógrafa no segmento britânico da prestigiada revista Vogue –auxiliada pela amizade com Audrey Withers (Andrea Riseborough, de “Birdman”, numa personagem espantosamente envelhecida), editora da publicação, que já lutava contra as inevitáveis redundâncias do machismo. Para Lee, contudo, isso não bastava. Ela queria ir para a frente de batalha (onde o próprio Roland chegou a ir diversas vezes) e ter a oportunidade de registrar em primeira mão os assombros da guerra em fotos, entretanto, os ingleses não permitiam a ida de uma mulher para o front. Foi graças à sugestão do grande amigo David Scherman (Andy Samberg, de “Amizade Colorida”) –um personagem que se torna crucial à trama de um ponto em diante –que Lee se dá conta de que, como norte-americana, ela pode ir para a frente de batalha por meio das diretrizes do exército norte-americano, um tanto mais maleável e razoável do que o sisudo exército britânico. É assim que, apesar de um ou de outro contratempo a servir de obstáculo, Lee fotografa primeiro as aflições experimentadas pelos feridos nos hospitais de campanha e, depois, acaba enviada para a Alemanha, em incursões ofensivas nas cidades sob ataque (sequências de batalhas que não predominam tanto assim no filme quanto se pode imaginar), nas descobertas desconcertantes dos primeiros campos de concentração e suas hordas intermináveis de vítimas e na chegada, junto às primeiras tropas, à Berlim ocupada –inclusive flagrando os cadáveres da alta cúpula nazista junto de suas famílias pouco após seu suicídio.

A trajetória de Lee Miller é pontuada por relevância e um pertinente exemplo de empoderamento, uma vez que essa personagem esteve presente em eventos fundamentais do Século XX, contudo, o fôlego da diretora Ellen Kuras se mostra limitado para o filme abrangente, exuberante e importante que ela se prestou a fazer; e para a espetacular trajetória da personagem que se prestou a retratar. Em sua mãos, “Lee” é uma obra dramaticamente inconstante, restrita por um certo cansaço nas poucas e desanimadas cenas de batalha que entrega, e equivocadamente focada em tópicos que não fazem tanta diferença no cômputo geral –como o suposto ‘triângulo amoroso’ entre Lee, Roland e David, sugerido em diversos momentos, nunca porém desenvolvido de fato; ou no igualmente subaproveitado detalhe do jornalista entrevistador do início ser, na verdade, Antony Penrose, o filho de Lee que sentiu-se negligenciado pela sua pouca predisposição materna, o que transforma um filme que poderia ser enérgico, histórico e relevante, num melodrama de ajustes familiares –e também ali surge uma espécie de ‘sugestão’ da parte do roteiro, ao percebermos que o ator Josh O’Connor escalado para interpretar Antony se parece, deliberadamente ou não, muito mais com David do que com Roland.

Apesar dessa constante falha onde a narrativa concentra-se com frequência irritante nos tópicos errados, “Lee” ainda se sobressai à média graças à presença da magnífica Kate Winslet; grande atriz, desde os tempos de juventude na época do mega-sucesso “Titanic”, ela é uma mulher bela, sedutora e audaciosa (suas cenas de nudez são admiráveis) e compõe aqui uma atuação primorosa, rica em autenticidade e vigor, enfatizando Lee Miller como uma grande personagem e valorizando o filme imperfeito que ela protagoniza já que, graças ao Bom Deus, ela é a estrela principal em praticamente todas as cenas.

domingo, 15 de setembro de 2024

Lady Blue Shanghai


 O curta-metragem “Lady Blue Shanghai” é um corpo pra lá de estranho, não apenas na filmografia autoral do diretor David Lynch, mas também no contexto em que se insere, uma peça de propaganda para a empresa de moda Dior e seu lançamento de então (o curta é de 2010), a bolsa Lady Dior. Pode-se apreender uma certa publicidade tendo essa informação de antemão, entretanto, tudo o mais nesta obra de dezesseis minutos é puramente David Lynch, com seus enigmas surreais a invadir o que parecem ser zonas obscuras da realidade.

“Lady Blue Shanghai” começa com uma mulher (a sensacional francesa Marion Cottilard, tendo conquistado o Oscar de Melhor Atriz cerca de dois anos antes) chegando num quarto de hotel. De lá, ela percebe, emana uma música que a deixa imediatamente desconfortável; o quarto foi, pelo jeito, invadido e o intruso, quem quer que seja, parece ter deixado uma vitrola tocando uma música. Surgem, então, luzes fantasmagóricas pelo quarto no instante em que ela tira a agulha do disco.

Há, também, uma bolsa azul que se encontra no meio do recinto, envolta numa névoa.

Ao queixar-se a respeito da invasão, as coisas não parecem melhorar: A recepção do hotel envia dois homens –aparentemente investigadores, ou algo assim... –que lhe fazem algumas perguntas. No entanto, esse interrogatório não demora a adquirir circunstâncias ainda mais misteriosas e inesperadas, indicando não só que esses dois homens podem saber mais do que afirmam (e serem mais do que meros investigadores) como a própria mulher talvez traga lembranças que vão aflorando e que podem indicar seu envolvimento em algo nebuloso –pois, gradualmente ela recorda que já esteve lá (em Shanghai!), embora acreditasse ser sua primeira vez e que, na ocasião, encontrou um homem naquela mesma cidade.

“Lady Blue Shanghai” esmiúça um estilo que David Lynch desenvolve como ninguém: O do pesadelo filmado; seus filmes conseguem suscitar a aura de um sonho que o expectador vivencia acordado, lado a lado aos personagens principais. Neste curta-metragem tão impecável e envolvente quanto outros ótimos filmes de Lynch, acompanhamos os percalços dessa mulher perdida nas ruas de Shanghai às voltas com o que parecem ser memórias de um romance turbulento com esse chinês misterioso e sua ligação sempre fragmentada com outra história sugerida em frases enigmáticas (“I Can’t Be Here!” “I wish i could to be with you!”) e em outros elementos visuais –alguns ambientes parecem remeter diretamente ao cenário do ‘filme dentro do filme’ em “Império dos Sonhos” –para então levar essa protagonista a regressar ao quarto de hotel onde tudo começou, onde Lynch, à sua maneira, conduz ela à uma espécie de redenção.

O amor, na gramática cinematográfica de David Lynch, é também ele uma abstração originada dos labirintos do subconsciente, e o diretor expõe essa dicotomia com beleza e primor, como lhe é habitual, através de ecos do cinema de Alain Resnais em geral, e de “O Ano Passado Em Marienbad” em particular.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas


 O que é a memória? Certamente, no âmbito do cinema, essa pergunta encontra as mais ambíguas respostas. Para Federico Fellini, em seu antológico “Amarcord”, a memória é um filtro através do qual a nostalgia e o romantismo modificam o passado. Já, para Tim Burton, ou mais especificamente para seu protagonista em “Peixe Grande”, a memória é uma via de mão dupla por onde transcorrem verdades e mentiras a confundir até mesmo as convicções do próprio narrador. Com efeito, é em tais memórias –ou nas histórias contadas na qualidade de memórias –que “Peixe Grande” se transfigura, em termos reconhecidamente visuais, num filme de Tim Burton de fato; no mais, a narrativa discreta e austera emula, antes disso, um filme mais convencional e pé no chão, distinguindo estilisticamente o que é conto do que é fato.

Essa tentativa de separar o joio do trigo começa com o já idoso Edward Bloom (o sensacional Albert Finney), um contador de histórias nato –são notórias as narrações de suas aventuras malucas, entre as quais, aquela na qual pescou um peixe de tamanho descomunal.

Seu ouvinte mais desconfiado é e sempre foi seu filho William (Billy Crudup). Com idade adulta, William dá um basta nas historietas do pai –e na pressuposição de que, sendo elas mentiras, então ele nunca o conheceu de fato –e sai de casa.

Eles se reencontram anos depois, quando Edward fica doente, levando o filho a voltar ao convívio com o pai. Contudo, agora William quer descobrir a verdade por trás de todas aquelas histórias fantásticas. E é aí –no regresso ao passado idealizado –que “Peixe Grande” dá asas aos delírios de seu diretor.

No passado, acompanhamos Edward (vivido na aventureira juventude por Ewan McGregor) em suas peripécias pelos EUA, quando era vendedor itinerante, ofício que permitiu-o viajar e descobrir preciosidades como uma cidade escondida dentro de um pântano; um circo administrado por um lobisomen (Danny De Vitto); e o amor de sua vida (vivido por Allison Lohman, quando moça, e pela bela Jessica Lange, na idade avançada).

É nessa dicotomia visual entre a história que aconteceu e a história como ela foi contada que residem não só os grandes méritos artísticos e estéticos do filme de Burton, como também suas mais profundas reflexões: O passado, transmutado por uma vasta imaginação, se torna assim um sonho; e não é o sonho, afinal, bem mais agradável que a árdua e decepcionante vida real?

É essa a pergunta que, em dado ponto, o filme de Burton parece fazer ao público: Há algum mal em temperar os acontecimentos medíocres de outrora com uma melodia e uma poesia que os converte em pura fascinação? Que crime há nisso?

A narrativa de Tim Burton desvencilha-se habilmente do fato de que enaltece o ato da mentira com um filme visualmente sedutor, e uma trama sobre o resgate da relação pai e filho cujas propriedades tem o genuíno poder de encantar o expectador.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Dolittle

Um personagem de uma série de quatorze livros infanto-juvenis escritos por Hugh Lofting muito famoso nos EUA, mas bem pouco conhecido aqui no Brasil foi o escolhido pelo astro Robert Downey Jr. para tentar dar continuidade à sua bem-sucedida carreira depois que ela ressurgiu das cinzas quando ele interpretou Tony Stark em “Homem de Ferro”, no Universo Marvel Cinematográfico, papel do qual ele se ocupou na última década (com poucos e ocasionais projetos distintos como “Sherlock Holmes”, “Trovão Tropical”, “Um Parto de Viagem” e “O Juiz”) e do qual ele se despediu em “Vingadores-Ultimato”.
O mesmo personagem já havia rendido um musical irregular (ainda que indicado ao Oscar!) em 1968, estrelado por Rex Harrison e dirigido por Richard Fleischer, e, em sua encarnação mais famosa, uma comédia de grande sucesso popular com Eddie Murphy.
Esta nova produção, dirigida por Stephen Gaghan (roteirista de “Traffic” e diretor de “Syriana”, uma escolha um tanto estranha para um filme de apelo quase infantil) baseia-se com mais contundência em elementos dos livros (sobretudo, o segundo “The Voyages of Dr. Dolittle”), valendo-se de admiráveis valores de produção para concretizar sequências que passavam longe nos planos da simplicidade singela das adaptações anteriores.
Assim, “Dolittle” começa numa animação estilizada que relata as origens de seu protagonista: Um médico inglês que ao lado de seu grande amor, Lilly (Kasia Smutniak), viajou por todo o mundo aprendendo as línguas de todos os animais, com os quais passou a ser capaz de se comunicar. Como nos é informado, uma tragédia –a morte da amada ocorrida justamente na única viagem na qual não a acompanhou –o torna alguém recluso, muito falado, mas bem pouco visto.
O filme se inicia de fato quando o jovem Tommy Stubbins (o fraquinho Harry Collett) resolve procurá-lo em sua propriedade (na qual somente os animais estão autorizados a adentrar) para que cure um esquilo ferido. Junto com Tommy, aparece também a bela e jovem Lady Rose (a estreante Carmel Laniado) que apesar da pouca idade chega representando a Família Real da Inglaterra: A Rainha Victoria (Jessie Buckley, da série “Chernobyl”) se encontra doente e antes que seu estado a leve para sempre (permitindo que abutres interesseiros como o personagem vivido por Jim Broadbent assumam a coroa), ela deseja recorrer aos inusitados conhecimentos do Dr. Dolittle para tentar curá-la.
Robert Downey Jr. compõe John Dolittle com a propriedade que lhe é característica: Nada nele lembra trejeitos ou cacoetes de Stark ou quaisquer um de seus personagens anteriores. É um trabalho metódico de um ator dedicado e talentoso.
E, munido de efeitos visuais que transformam a fauna inquieta de diversos animais coadjuvantes num show à parte, o flme transforma as cenas iniciais de interação entre Dolittle e os bichos em um deleite –com destaque para a sequência que ele e seus ‘assistentes’ conseguem fazer um diagnóstico da condição da Rainha Victoria.
É quando “Dolittle” começa então a apresentar suas tremendas fraquezas –um tanto quanto cedo demais... –o bom médico chega à conclusão de que a única cura para a Rainha Victoria é a seiva da ‘Árvore do Édem’ –mesma iguaria que sua amada Lilly morreu tentando encontrar!
Assim, acompanhado de Tommy, que agora deseja ser seu aprendiz, o Dr. Dolittle empreende uma claudicante aventura rumo à terras desconhecidas –que passa pelo reino do ex-sogro, um monarca beligerante vivido por Antonio Banderas –seguido de perto pelos emissários dos conspiradores, liderados pelo médico perverso e apalermado interpretado por Michael Sheen (que até lembra do Dick Vigarista!).
Se muitos dos personagens humanos soam absolutamente rasos e a trama tem inúmeras passagens indefinidas, isso se deve em grande parte pela pouca familiaridade do diretor Gaghan com esse tipo de gênero (o que nos faz perguntar o tempo todo porque ele foi escolhido para o projeto!): Essa inadequação foi detectada pelos produtores em algum momento da produção e o diretor Jonathan Liebesman (de “Tartarugas Ninja”) foi chamado para rodar cenas adicionais e dar mais leveza e coesão ao material. O resultado foi uma narração em off da arara dublada por Emma Thompson (!) que preenche muitas lacunas da trama de forma incômoda e ginasiana e uma irregularidade de estilo, ritmo e lógica que sabota sistematicamente todo o filme, culminando no prato principal do mau gosto, seu clímax, onde os realizadores julgaram ser uma boa ideia mostrar uma cena de humor grosseiro (e, no fim, nada engraçado) em torno de um dragão com prisão de ventre (!!).
Da forma como ficou, para cada acerto, “Dolittle” apresenta um lapso: Seu protagonista conta com um astro empenhado e hábil, mas seu co-protagonista (os olhos da plateia, assim sendo), é vivido por um jovem ator mais perdido que cego em tiroteio; seus efeitos visuais criam animais com uma  fascinante fluidez em cena (e que conta com um elenco estelar de vozes, como Tom Holland, Octavia Spencer, Rami Malek, John Cena, Marion Cottilard, Selena Gomez e Ralph Fiennes), mas seu elenco humano coadjuvante, em compensação, está tão lastimável quanto caricato (com a louvável exceção de Antonio Banderas); e, se o filme conta com a beleza visual proporcionada pela fotografia de Guillermo Navarro, todas as cenas com ela concebidas são entremeadas numa narrativa problemática, a qual o expectador acompanha sem maiores envolvimentos.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Contágio

Em tempos de Coronavírus, este filme lançado em 2011 (durante a comoção do H1N1, a gripe suína) voltou a ganhar relevância na lembrança dos expectadores. Trata-se de uma superprodução conduzida por Steve Sodenbergh com a mesma elegância que ele dedicou à sua obras menores e independentes.
Vitimada por um vírus desconhecido após uma viagem internacional, americana moradora de Minnesota (e interpretada por Gwyneth Paltrow) morre no leito hospitalar sem razões aparentes, logo seguida de seu filho de sete anos.
Ela deixa viúvo seu marido (Matt Damon, provavelmente o protagonista em meio à tantos astros) e os médicos com uma perturbadora interrogação acerca do quê a matou.
Nas cenas simultâneas mostradas por Sodenbergh fica claro que houve contágio: No aeroporto, uma estagiária em Londres, um assalariado de Hong Kong e um executivo do Japão também acabam infectados por ela.
O episódio em solo americano, imediatamente seguido de vários outros, aciona o Centro de Controle de Doenças dos EUA, cujos profissionais (entre eles, Laurence Fishburne, Kate Winslet, Bryan Cranston e Jennifer Ehle) correm para catalogar os efeitos da doença e conter seu rápido avanço identificando cada uma das pessoas contaminadas –que em poucos dias eles perceberão ser milhares.
Logo, um digital influencer (Jude Law) passa a valer-se do fato de ter sido um dos primeiros a noticiar o surto, e gera pânico com suas declarações bombásticas destituídas de embasamento e senso de responsabilidade.
São também enviados profissionais (Marion Cotillard e Chin Han) para investigar a origem do vírus (ao que tudo indica em Macau) enquanto equipes de geneticistas correm contra o tempo para criar uma vacina para o que logo se torna uma ameaça de nível global.
É curiosa a forma com que Sodenbergh aborda os desdobramentos humanos da crise –evidentemente acometida de características muito mais dramáticas do que os exemplos recentes da vida real –ostentando um elenco numeroso e estelar, mas, deixando claro em sua narrativa que essas presenças são, ainda assim, efêmeras diante das implicações ocasionadas de absurdo que se sucedem: A personagem de Marion é sequestrada por aldeões interessados em usá-la como refém para barganhar e tornarem-se os primeiros da fila quando houver uma vacina; o personagem de Jude Law, de olho em lucro pessoal, passa a coagir a população que segue suas orientações para não acreditar no Centro de Controle de Doenças, nem mesmo quando uma cura é finalmente processada; o vírus se alastra com mais intensidade devido à desorganização logística das autoridades locais que, a partir de determinado momento, têm de lidar até com uma greve de funcionários da área de saúde; todavia, nada gera mais caos do que o medo disseminado pela mídia sensacionalista (não dá uma sensação de déja-vú?), o que leva pessoas a estocar comida e o exército a fechar fronteiras; e a própria concepção da vacina (obtida no terço final do filme) se dá pela ação de personagens que desafiaram as normas e a burocracia (como o médico vivido por Elliott Gould e a sensacional personagem de Jennifer Ehle) para agilizar o salvamento de vidas humanas.
Com este filme austero e incisivo, Sodenbergh usa de seu talento para analisar os efeitos de uma epidemia, não tanto pelo aspecto científico e orgânico da doença em si, mas a partir das distintas ações e reações flagradas nos diferentes e diversos personagens que ele bota em cena que, de modo geral, representam os sentimentos cosmopolitas, evasivos e não raro egoístas do ser humano diante dessas situações.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Rock'N Roll - Por Trás da Fama

Ao notarmos que o ator e diretor Guillaume Canet interpreta Guillaume Canet num filme dirigido e estrelado por si mesmo, podemos concluir que não estamos diante de uma produção comum.
Mais conhecido por ser o felizardo marido de Marion Cotillard (que também aparece no filme interpretando a si mesma), Canet é um profissional ativo e reconhecido na França tendo uma longa e notável carreira, inclusive como cineasta.
Da forma como se apresenta, “Rock’N Roll” ludibria o expectador inicialmente fazendo-o crer que o filme propõe uma espiada na tão interessante vida íntima das celebridades, mas não é bem isso; ainda que, na comédia deslavada que se assume, o filme acabe entregando exatamente a percepção que se tem (ou se espera) de um artista em sua vaidade plena, ou do quão assustadoramente longe podem chegar as conseqüências de sua busca por atenção e relevância. Tais observações demonstram o quanto Canet, como ator e como diretor, é inteligente, espirituoso e até mesmo corajoso: Assolado pela típica crise de meia-idade (tem 40 anos), ele se descobre insatisfeito com o atual papel de pai de uma moça (a deliciosa Camille Rowe) num filme dirigido por um amigo seu. A atriz em questão comenta casualmente que ele, Guillaume Canet, caiu para a última posição numa lista de “atores maduros pegáveis” –e isso mexe com seus brios.
Logo se seguem as situações constrangedoras de praxe: Ele dá chiliques, muda seu figurino, começa a freqüentar baladas, a tomar drogas que antes não consumia (particularmente hilariante é a cena da paralisia facial) e, numa seqüência sensacional, pede conselhos à Johnny Holliday em pessoa (outra presença que representa no filme uma incisiva caricatura de si mesmo). Até almejar o absurdo de fazer testes para personagens de vinte e poucos anos de idade (!), num momento que proporciona a ótima participação especial do ator Ben Foster.
A partir desse ponto –lá pela metade do filme –quando a predisposição do protagonista para continuar aparentando juventude o leva a intervenções na própria imagem (como injeções de botox) o filme de Guillaume Canet engata uma marcha gradativamente mais mirabolante, embora esse absurdo nunca deixe o âmbito da probabilidade real. Ele literalmente leva seu personagem (e fica claro que, ainda que leve seu nome e seja sugestivamente ele próprio, este protagonista é, deveras, somente um personagem) às últimas conseqüências.

Provavelmente um conhecedor profundo das imbricações da fama e do escrutínio voraz do público, Canet faz de “Rock’N Roll” uma declaração divertida, autodepreciativa, engajada e implacável sobre as inquietações de um artista.

sábado, 4 de novembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2008

A consagração (até tardia, uns podem afirmar) dos Irmãos Coen, chegando justamente por uma de suas obras-primas, um filme francamente superior a todos os outros concorrentes.
A cerimônia também revelou a espetacular francesa Marion Cotillard aos olhos do mundo e de Hollywood: Muitos devem ter ficado surpresos quando ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz e subiu ao palco revelando-se uma mulher tão jovem e linda, completamente diferente do que se vê em seu impressionante trabalho em “Piaf-Um Hino Ao Amor”.
Não dava mesmo para negar o Oscar de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis (o segundo dos três que ele já conquistou) e nem o de Melhor Coadjuvante para Javier Barden.
Ainda sobraram alguns prêmios para reconhecer um dos melhores trabalhos do ano, “O Ultimato Bourne”, o magistral fim da trilogia, agraciado com três estatuetas técnicas.
Mas, a marmelada da noite parece ter sido por conta do prêmio de efeitos visuais, conquistado não por “Transformers”, o franco favorito, mas pelo equivocado e tímido “A Bússola de Ouro”.

MELHOR FILME

MELHOR DIREÇÃO
"Onde Os Fracos Não Têm Vez", Joel e Ethan Coen

MELHOR ATRIZ
Marion Cotillard, "Piaf-Um Hino Ao Amor"

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis, "Sangue Negro"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Tilda Swinton, "Conduta de Risco"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Javier Barden, "Onde Os Fracos Não Têm Vez"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Sangue Negro"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Taxi Para A Escuridão"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Freeheld"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Os Falsários" (Áustria)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"O Ultimato Bourne"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"A Bússola de Ouro"

MELHOR MAQUIAGEM
"Piaf-Um Hino Ao Amor"

MELHOR FIGURINO
"Elizabeth-A Era de Ouro"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"O Ultimato Bourne"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Sweeney Todd-O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet"

MELHOR TRILHA SONORA

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Falling Slowly", de "Apenas Uma Vez"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Juno"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Onde Os Fracos Não Têm Vez"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Ratatouille"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Peter e O Lobo"

MELHOR MONTAGEM
"O Ultimato Bourne"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Le Mozart dês Pickpockets”

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Um Instante de Amor

Desde o princípio já se percebe alguma instabilidade da parte de Gabrielle, a protagonista interpretada com a nuance e a propriedade costumeiras por Marion Cotillard. Acompanhamos ela em uma viagem ao lado do marido (Alex Brendemühl) e do filho para outra cidade onde o jovem se apresentará num concerto de piano. Ao passar numa determinada rua, ela enxerga uma placa que lhe desperta instintos do passado e os deixa seguir sozinhos para procurar por alguém.
Mais tarde, descobriremos ser bastante austero, da parte da narrativa, iniciar nesse momento o flashback que resgatará todo o filme.
Descobrimos então que Gabrielle –a despeito da beleza e do encanto inerentes que Marion Cotillard empresta involuntariamente à ela –era uma moça solitária e infeliz numa remota aldeia da França. Seus impulsos sexuais, inicialmente dirigidos à um professor comprometido, se mostram tão irreprimíveis que a levam a cometer alguns atos de precipitada loucura, fonte de preocupação da mãe (Brigitte Roüan). Como costumava ser comum naquela época (a transição dos anos 1950 para os 60), ele logo resolve providenciar um casamento arranjado para a filha. O escolhido é o carpinteiro taciturno, porém responsável, José (papel que Brendemühl desempenha com sólida dignidade).
Embora o aceite, o casamento com ele, para Gabrielle, passa longe de qualquer felicidade ou satisfação.
A vida segue quando eles, casados, passam a viver em outra cidade. Até que Gabrielle tem um aborto devido à complicações médicas. Ela é enviada então à uma clínica a fim de realizar um tratamento que cure sua Doença de Pedras –em francês, Mal de Pierres, o título original do filme –e lá, nos dias que seguem, conhece outro paciente, o jovem militar enfermo André Sauvage (Louis Garrel, de “Os Sonhadores”), por quem passa a nutrir uma crescente atração.
Ele desaparece de sua vida tão logo ela encerra o tratamento naquela clínica, mas os encontros fortuitos que teve com ele irão interferir na paz de seu casamento nos anos vindouros –desembocando, inclusive, na cena do começo, em que essas lembranças serão suscitadas, reavaliadas e levarão a uma nova verdade acerca de seu passado.
Aos poucos é possível entender o imenso cuidado com que a diretora Nicole Garcia molda, com uma sensibilidade toda feminina, essa trama sobre a urgência de desejos que levam a um descontrole da mente. Como sua narrativa é, sem que notemos de imediato, todo um flashback subjetivo da parte da instável protagonista, ela se constrói a partir de impressões que vão compor algumas surpresas inesperadas para o público e para a própria personagem, mas que, dada a natureza do filme, fazem todo o sentido.
Curioso é notar que, embora tenha declarado algumas vezes que detesta fazer cenas de sexo em seus filmes, Marion Cotillard tem várias delas em seu currículo –e aqui não é diferente! Não há, entretanto, nada de gratuito ou apelativo na cena em questão: É, inclusive, uma das cenas de sexo mais belamente filmadas no cinema recente, pertinente à história, visualmente deslumbrante e reveladora, nem tanto do belíssimo corpo da atriz, como das carências de sua personagem.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Aliados

O diretor Robert Zemeckis parece se esbaldar com a possibilidade de emular uma narrativa à moda antiga, a homenagear neste trabalho o profundamente merecedor de homenagem, “Casablanca”. Uma vibração clássica, de um fascínio pelo charme emanado dos filmes de antigamente (a despeito do apreço que ele sempre demonstrou por tecnologia de ponta), se percebe em muitas das suas obras, mas somente aqui ele pode recriar uma produção realmente naqueles moldes.
“Aliados” expressa um carinho imenso, além de uma forte vontade de irmanar-se aos filmes de espionagem dos anos 1940 e 50, onde a Segunda Guerra Mundial proporcionava uma narrativa despida de ambigüidades, justapondo mocinhos e vilões de forma genuína, embalada na envolvente roupagem de romantismo e espionagem aventuresca –é todo um cinema assim que Zemeckis resgata com a história dos espiões Max e Marianne.
Ele (Brad Pitt, em adequada composição de época, fazendo lembrar alguns astros do passado), um oficial canadense à serviço da contra-inteligência britânica. Ela (Marion Cottilard, com sua beleza acachapante e seu talento afiado), uma espiã francesa cuja competência e eficiência em missões de campo já lhe renderam relativa fama.
Os dois se conhecem durante uma arriscada missão para eliminar um membro da alta cúpula nazista, quando se disfarçam como um casal apaixonado. Contra todos os indicativos e recomendações –e num desenlace tão inevitável quanto incontornável, tendo em cena os atrativos hiperlativos de Brad Pitt e Marion Cottilard –eles se apaixonam e, após terminada a missão, quando cada um deveria seguir um caminho e nunca mais ouvir falar um do outro, eles resolvem se casar.
A felicidade dura um ano –tempo de sobra para o nascimento de uma filha e o estabelecimento de uma agradável vida doméstica –até que os superiores de Max identificam indícios que apontam Marianne como uma possível espiã trabalhando para os alemães.
É a dúvida em torno da possível culpa de Marianne (sustentada por uma atuação preciosa e minimalista de Marion) que irá alimentar grande parte da narrativa de suspense que Zemeckis conduzirá daí até o final.
Nem parece o mesmo Robert Zemeckis que, em meados da década passada, recebeu críticas por seu cinema deixar de lado o elemento humano para se concentrar em avanços digitais (devido à irregularidade de obras como “O Expresso Polar”, “A Lenda de Beowulf” e “Os Fantasmas de Scrooge”): É no carisma de Brad Pitt e na competência de Marion Cotillard que todo o filme, apesar do ocasional virtuosismo do diretor em uma ou outra cena, se ampara, construindo sua atmosfera de suspense (que em muito também deve aos trabalhos de Hitchcock) em torno da prorrogação contínua da aflição sem resposta dele (seria a esposa uma espiã?) e da presença charmosa e intoxicante dela (estaria a personagem de Marion, em sua beleza desestabilizadora e sua promessa de amor genuíno, ocultando uma femme fatale?).
Como num bom thriller de espionagem de antigamente, o diretor Zemeckis compreende quais são as molas que fornecem o empuxo para as ações e motivações de seus personagens e manipula esses elementos com grande serenidade e perspicácia.
Seu trabalho acaba sendo quase reverencial tamanho é o apreço pelo tipo de cinema que emula, mas se não é sua técnica capaz de tornar o filme memorável, ele tem ao menos um casal central que cataliza as atenções do público.

sábado, 29 de julho de 2017

Nine

Tão rico é o filme “8 e ½” de Frederico Fellini que ele acabou inspirando um musical nos palcos teatrais da Broadway. É esse musical que vem a ser, aqui, por sua vez adaptado para o cinema. “8 e ½” sempre foi, com freqüência descrito como um filme de drama sobre o drama de se fazer um filme, ou em termos mais técnicos, metalinguagem.
Guido, celebrado cineasta italiano nos anos 1960 atravessa um bloqueio criativo, enquanto todos ao seu redor iniciam os preparativos de seu próximo filme, que ele não faz idéia de como realizar. Enquanto isso, sua vida pessoal está tumultuada, com várias escapadas extraconjugais que sistematicamente vão magoando sua bela e dedicada esposa, Luisa.
Escolhido para a ingrata tarefa de emular Fellini, o diretor Rob Marshall inseriu em muitas cenas, números musicais similares em estilo e técnica ao seu oscarizado "Chicago", e o elenco, repleto de escolhas luxuosas (sobretudo, suas participações femininas) é um espetáculo à parte; uma das muitas tentativas do diretor Marshall em encobrir uma conclusão óbvia: A peça de onde esta produção foi adaptada tinha graciosidade em sua proposta de “teatro que homenageia o cinema”, mas, migrando o material para a mesma mídia de sua fonte de inspiração o resultado soa pedante.
Quem realmente se destaca é a francesa Marion Cotillard, cativante no papel da esposa do cineasta Guido (em substituição à Ainouk Aimeé, na obra de Fellini), assim como a sempre ótima Penélope Cruz, como a amante e a cantora Fergie, uma escalação inusitada, como a prostituta de uma cena de recordação –com aquelas sobrancelhas desenhas de contornos enormes que povoam os filmes de Fellini –há ainda Nicole Kidman, no papel de diva do cinema que antes pertenceu a ninguém menos que Claudia Cardinale, e o luxo fulgurante e pleno que é a participação de Sofia Loren como a mãe. Em meio à tantas mulheres extraordinárias, Daniel Day Lewis contribui com técnica e propriedade na construção do protagonista, mas a atuação antológica de Marcello Mastroianni não tinha como ser igualada.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Origem

E chegou então a hora de falar sobre o filme que virou um fenômeno no ano de 2011, e que na opinião de muitos é o único capaz de rivalizar com “Batman-O Cavaleiro das Trevas” como melhor filme da filmografia de Christopher Nolan.
“A Origem” guarda mesmo elementos de sobra para manter seu fascínio perene. A começar pelo notável (e, em princípio, intrigante) personagem de Leonardo Dicaprio, o torturado Dom Cobb, um ladrão de sonhos!
Sua especialidade é infiltrar-se na mente de certas pessoas enquanto dormem (através de uma tecnologia nunca, de fato, detalhada pela narrativa), e dentro de seus sonhos, roubar-lhes segredos e informações valiosas –e aí, mais do que o processo fantástico pelo qual se dá a ida para o mundo dos sonhos, é no rigoroso conjunto de fatores, regras, condições e pequenos detalhes que está o verdadeiro ponto de interesse da narrativa de Nolan.
Uma vez dentro dos sonhos existe toda uma cadeia de importâncias a ser respeitada e seguida: Se morrer no sonho, a pessoa desperta. O subconsciente pode oferecer perigo para o sonhador e seus “turistas”. Há uma forma específica de saber se você está sonhando ou não (e isso diz respeito aos “totens”). O tempo, no sonho, corresponde a um período muito breve na nossa realidade.
Tal arte, aparentemente, Dom Cobb domina como poucos.
Entretanto, em sua vida desperta Cobb é um homem torturado, afastado de seus filhos (que moram com o avô interpretado por Michael Caine) e injustamente acusado da morte da mulher que ama (Marion Cotillard, uma femme fatale extraordinária, que surge nos seus sonhos como um elemento tão sensacional quanto desestabilizador).
É quando surge então um milionário chamado Saito (o brilhante Ken Watanabe, com um personagem tão essencial à trama quanto Dicaprio), com uma proposta irrecusável: ter seu nome inocentado em troca de uma última missão. Só que desta vez, ao invés de tirar informações, ele deve inserir uma idéia numa determinada mente, o quê é muito mais difícil, talvez impossível.
Cobb monta uma nova equipe para essa arriscada tarefa –Arthur, seu braço direito, vivido por Joseph Gordon-Levitt, um “falsificador” (capaz de personificar diferentes personagens dentro do sonho) interpretado por Tom Hardy, um “arquiteto” (aquele que constrói o elaborado cenário dentro do qual o sonho irá se passar) na pele da jovem Ellen Page (de “Juno”), e um “químico” (que administra os efeitos do sedativo que fará a vítima dormir), vivido por Dileep Rao –afinal a mente humana (incluindo a do próprio Cobb) é um lugar desconhecido e cheio de armadilhas e a "inserção" requer um plano complexo.
É patente, como se pode perceber, que Nolan gosta de mesclar gênero que ele tem por inspiração –os filmes de assalto popularizados nos anos 1960, neste caso –e à eles conceder uma roupagem fantástica e, não raro, mirabolante. As influências cinematográficas de Nolan surgem quanto não se espera: Imagina-se que ele vá fazer alusão a algum grande diretor, ou grande filme, que tenha por base o mundo dos sonhos, como David Lynch, mas essas relações só aparecem por acaso; “A Origem”, em sua concepção desconcertante, busca remeter a obras como “O Golpe de John Anderson” (na sua estrutura de filme de assalto), ou “007 Na Mira dos Assassinos” (na forte referência que envolve cenas de ação na neve). Nota-se então o gênero a que “A Origem” quer realmente pertencer e aprimorar: A ação.
E a direção de Nolan dedica minucioso aparato de técnica e inventividade a fim de moldar cenas de ação singulares: Sendo a luta em gravidade zero provavelmente seu exemplo mais exuberante.
É o desfecho, contudo, que garante ao filme sua permanência na memória: Quando Cobb, redimido e prestes a reaver os filhos, tenta usar seu próprio “totem” (um pequeno peão que gira indefinidamente quanto é sonho, e para logicamente de girar quando é realidade), a fim de garantir se o que está se passando é real ou não. As crianças o chamam, e ele por fim ignora o peão que roda sem parar. A câmera de Nolan permite que seu protagonista vá embora, fixando-se no peão (e na expectativa de que ele logo caia), mas desafia o expectador, encerrando o filme antes de qualquer resposta.
Está aí o fator que fez de “A Origem” um dos filmes mais discutidos de 2011.

sábado, 9 de julho de 2016

Meia Noite Em Paris

Como toca a todo protagonista de um filme de Woody Allen –e que, a rigor, sabemos tratar-se de uma variação do próprio Woody Allen em si –o jovem escritor interpretado por Owen Wilson, é um personagem que surge, desde sua primeira cena, assolado por suas inseguranças de praxe. Nada do que cerca lhe ajuda: Acompanhado da noiva perdulária (Rachel McAdams) que pouco (ou nada) lhe dá de atenção durante a viagem de férias que fazem em para Paris, ele se vê em companhias fúteis e arrogantes que não lhe agradam.
Apesar de passivo na maior parte do tempo, ele se lança numa de suas solitárias andanças noturnas, e acaba sendo conduzido no tempo, até os anos 1920. Lá, ele cruza-se com folclóricas figuras da arte e da literatura daquele período como Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Scott e Zelda Fitzgerald, Luis Buñuel, Salvador Dali e outros.
Quem lhe chama a atenção porém é uma linda e desconhecida modelo de Picasso, fascinada pelo passado (no caso a "belle epóque"-meados de 1890) por quem ele se apaixona.
Saudado, com mérito, como um dos melhores filmes de Woody Allen dos últimos tempos, esta descontraída e espirituosa comédia consegue reunir, com habilidade, o melhor da verve de seu autor: Estão ali os gatilhos emocionais para todas as neuroses e inseguranças da vida afetiva, como o rival sedutor e superior, e o desdém indiferente das pessoas mais próximas, tudo potencializado com um bom humor que proporciona uma leveza contagiante; há também o inquestionável conhecimento intelectual de Allen acerca das artes, que aqui ele tem a oportunidade de discorrer de uma forma como a muito tempo uma história sua não abria espaço; a encenação ligeira e sucinta, propícia para atores de tino cômico e muita típica de um autor ainda apaixonado pelo teatro.
Todos esses elementos, que Allen manipulou tão bem ao longo de sua carreira, sem jamais deixar de colocá-los como parte significativa de seu personalidade artística, mas ao mesmo tempo sem nunca soar repetitivo, convergem para elaborar uma agridoce e apaixonada reflexão sobre a eterna insatisfação do presente, abrilhantada por um grande elenco que só um diretor do gabarito de Woody Allen, em geral é capaz de reunir: Lá estão, Adrien Broody, Kathy Bates, Michael Sheen, Tom Hiddleston e Lea Seydoux, além do pouco conhecido Corey Stoll, extraordinário como Hemingway. Apesar de não ser reconhecido como grande intérprete, Owen Wilson está entre os atores que melhor captaram os trejeitos de Allen num alter-ego, contudo, quem realmente se destaca é a inebriante Marion Cotillard.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

MacBeth 1948 e 2015

Uma das mais aclamadas incursões do gênio Orson Welles pelos textos loquazes, dissertativos e virtuosos de Willian Shakespeare, “MacBeth” é também adaptada num filme mais recente dirigido, por sua vez, por um certo Justin Kurzel, e estrelada por Michael Fassbender e Marion Cotillard.
Em “MacBeth”, Shakespeare narra a jornada de equívocos, de crime e castigo do Lorde MacBeth, valoroso general a serviço do rei da Escócia, cujas sucessivas conquistas no campo de batalha lhe concederam não apenas a confiança do próprio rei, como o título de Barão de Cawdor. Logo no início, três bruxas (que também profetizaram o seu baronato) lhe afirmam que será, também ele, rei, o que fomenta a ambição crescente de MacBeth, impelida ainda mais pela sanha inescrupulosa de sua esposa, Lady MacBeth.
Ela vale-se de suas convicções e de seus inabaláveis argumentos para varrer a hesitação de seu relutante marido, e convencê-lo assim a assassinar o rei, enquanto este pernoita como hóspede em seu castelo, depositando a culpa em seus sentinelas.
Com o rei morto, MacBeth ocupa o seu lugar, conforme a profecia, mas seu suplício, mal sabe ele, está apenas por começar.
Um verdadeiro abismo de diferença separa a versão de Orson Welles da de Justin Kurzel.
Welles compreendia como poucos a dramaturgia de Shakespeare, e impõe a este trabalho sombrio uma série de tons expressionistas que reforçam as preposições alegóricas do conto original (exploradas também na pouco conhecida versão que Roman Polanski realizou em 1971), permitindo que esse domínio da linguagem cinematográfica quebre um pouco (mas, não muito) a perene circunstância de teatro filmado: Sim, pois em seus enquadramentos, disposição cênica e marcação de atores em cena, este “MacBeth” é magistralmente teatral.
Teatro, contudo, é tudo o que o filme de Kurzel quer evitar ser.
Ele quer ser cinema.
Nas elipses da natureza capturadas aleatoriamente como num improviso da direção de fotografia, na ambientação aberta que só um generoso orçamento permite, e na privilegiada escolha do elenco estelar, a produção busca esse objetivo, esquecendo inúmeros outros.
O quê Justin Kurzel não percebe é que Shakespeare requer ação, uma lição fundamental deixada pelo mestre Akira Kurosawa em seu inigualável “Trono Manchado de Sangue” (também ele, uma versão de “MacBeth”), mas que aqui é completamente esquecida: O tom empostado com que Marion, Fassbender e todo o resto declama os diálogos e monólogos do bardo não encontra moldura adequada na enfadonha narrativa de Kurzel que tira do texto toda e qualquer urgência com toneladas de takes dispersivos.
Mal dá para perceber a quanto Marion Cotillard está sucinta como a sibilante Lady MacBeth, embora Jeanette Nolan, no mesmo papel no filme de 1948, seja de uma perfeição incomparável.

domingo, 17 de abril de 2016

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Christopher Nolan enfrentou dois grandes problemas ao realizar a última parte de sua cultuada trilogia.
O primeiro: como contornar a morte do insubstituível Heath Ledger como Coringa? 
E o segundo: como igualar o nível de qualidade estratosférica de um filme como “O Cavaleiro das Trevas”? 
A dura verdade é que, em ambos os casos, isso era impossível.
Entretanto, Nolan conseguiu um encerramento digno e magistral com este “O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. Desta vez, o tema é a dor. A dor de saber que seu corpo não é mais capaz de realizar as proezas do passado. A dor que, em última instância, deve ser superada, para que um objetivo maior seja conquistado. E o vilão Bane (interpretado pelo fantástico Tom Hardy) é a personificação da dor: ele usa, o tempo todo, uma máscara para que um gás o poupe justamente da dor que os ferimentos em seu rosto o fariam passar; e ele promete fazer o herói viver toda uma jornada de dor, ao lesionar sua coluna (na sensacional reprodução de uma das cenas mais marcantes da trajetória do Batman nos quadrinhos), para só então ressurgir, e restabelecer a justiça e a ordem, como ele almejava, desde o primeiro filme.
A ausência de Heth Ledger, e seu fenomenal Coringa, é sentida, inclusive na omissão proposital que a narrativa faz ao personagem. 
Felizmente, para Nolan, o catálogo de coadjuvantes do Batman sempre foi vasto em presenças memoráveis, de forma que aqui, ele pode lançar mão da Mulher-Gato (maravilhosamente personificada por Anne Hathaway) e de Talia Al-Ghul (Marion Cottilard, cuja personagem acaba fazendo uma interessante conexão com o primeiro filme “Batman Begins”).
Este último capítulo honra todos os predicados hiperlativos dos filmes anteriores, encerrando a história de Batman em definitivo de maneira sólida e respeitosa, fortalecendo a trilogia como um todo. Um grande e memorável trabalho de Christopher Nolan.

domingo, 29 de novembro de 2015

Ferrugem e Osso

Os olhos de Marion Cotillard sempre refletem as motivações das mulheres que interpreta. Uma das mais belas e melhores atrizes da França, ela mostrou-se, nos mais variados filmes dos quais participou, capaz de entender e perscrutar o âmago de suas personagens, e deles extrair o princípio básico que os define, para refleti-los então na forma da emoção de prevalece em seus olhares expressivos. Qual diretor não teria vontade de trabalhar com uma atriz como essa? 
Já, o diretor Jacques Audiard, é um mestre no relato depurado da trajetória de seus heróis. Ele captura dramas aleatórios, emblemáticos ou pragmáticos, significativos muitas vezes, para o próprio cinema que exerce, e deixa que a câmera apaixone-se por seus percalços, registrando-os um a um. Assim foi em “De Tanto Bater, Meu Coração Parou”, e no vigoroso “O Profeta”. E não é muito diferente neste “Ferrugem e Osso”. Qual ator ou atriz não teria vontade de trabalhar com um diretor como esse? 
Dessa forma, da junção da excelência de Marion Cotillard com o brilhantismo de Jacques Audiard, surge este grande filme, que além dos dois, nos brinda com a sensacional presença de Matthias Schoenaerts, que soa como uma revelação. 
Uma adestradora de baleias sofre um grave acidente durante uma apresentação, o quê lhe custa as duas pernas. Paralelamente, um lutador de lutas ilegais tenta reerguer-se financeiramente para poder sustentar o filho pequeno. A trajetória desdes personagens logo irá se cruzar, indicando a ambos um caminho de superação a ser seguido. 
Com essa trama feita de encontros e desencontros, Audiard torna a valer-se de sua verve apurada para contar, desta vez, uma história de amor; o amor da adestradora pela liberdade que encontra nas águas; o amor que o lutador irá descobrir por seu filho; o amor dele por ela, e o do próprio Audiard por todos esses personagens.