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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Cats

 


Virou uma unanimidade, quando do lançamento da versão cinematográfica de “Cats”, o ato de desprezar o filme como uma equivocada adaptação da lendária peça musical da Broadway de autoria de Andrew Loyd Webber. Críticos e público escarneceram a obra como uma afronta ao bom gosto, um lapso absoluto e injustificável, um sofrimento de cento e dez minutos ao qual o expectador era submetido.

A verdade talvez seja que “Cats”, o filme, pertence a uma categoria inusitada e complicada de realização cinematográfica: Um filme para apreciações particulares, cujo amar ou odiar, está imensamente relacionado ao momento, e ao estado de espírito, ao qual cada expectador chegou nele –e certamente, a ida ao cinema, quando era um lançamento rondado até por expectativas de indicações ao Oscar, não era a circunstância mais apropriada.

Passado o tempo, a revisão de “Cats” sob a pecha de filme incompreendido, de produção mal-fadada e indiscutivelmente estranha, adquire certa compaixão do público, e –ouso dizer –haverá, sim, até quem possa apreciá-lo.

Num cenário de beco londrino agigantado –onde já ficam em evidência os vultuosos recursos do diretor Hooper –vemos bailarinos travestidos como gatos –em caracterizações que vão muito além do mero figurino teatral e que simulam uma controversa (e até sexualizada) realidade animal (repare nos interessantes movimentos digitais de suas orelhas!). Esse grupo de gatos de rua, auto-intitulados Jellicle Cats já na primeira música, recebe uma forasteira: Trata-se de Victoria (a bailarina Francesca Hayward), deixada no beco dentro de um saco de pano.

Delicada e bem-cuidada, Victoria se inteira da estranha rotina do lugar: Eis que ela chegou exatamente na aguardada noite em que, uma vez por ano, os Jellicle Cats testemunham um gato de rua ser escolhido para ascender ao Paraíso dos Gatos –um lugar essencial à simbologia fantasiosa da trama.

No decorrer daquela noite, Victoria –cujo fato de ser uma espécie de novidade no beco desperta o interesse de todos os tipos –conhece os inúmeros pretendentes à essa sublime dádiva: Jennyanydots (Rebel Wilson), uma gorda e hedonista gata de apartamento; Bustopher Jones (James Corden), apelidado ‘Gato de Polainas’, um felino glutão e bonachão dedicado a vasculhar latas de lixo atrás de comida; Gus (Ian McKellen), um velho gato sonhador cujo passado de aplaudidas apresentações a muito ficou para trás; Skimbleshanks (Steven McRae), gato sapateador e morador da estação de trem; e Grizabella (Jennifer Hudson) outrora uma gata de estimação de socialite, cujas más escolhas à levaram a viver nas ruas, menosprezada até mesmo por seus pares.

Além deles, Victoria conhece também a benevolente Madame Deuteronomy (Judi Dench), a gata que escolherá o graciado da noite. o bondoso mágico Mr. Mistoffelees (Laurie Davidson), os gêmeos ladrões Mungojerrie e Rumpleteazer (Danny Collins e Naoimh Morgan), o intratável gato malandro e conquistador Rum Tum Tugger (Jason Derulo), e o perverso Macavity (o magnífico Idris Elba), gato cheio de truques (mágicos, inclusive!) que almeja valer-se de seus aliados (a gata hipnótica e exuberante Bombalurina vivida pela cantora Taylor Swift e o feroz e maltratado gatão Growltiger interpretado por Ray Winstone) para tirar da jogada todos os seus concorrentes e forçar Madame Deuteronomy a escolhê-lo para ir ao Paraíso dos Gatos.

De uma linguagem toda própria já nos palcos –onde a humanização de personagens felinos era apenas o princípio de sua proposta lúdica –“Cats”, nesta transposição cinematográfica, recebeu do diretor Tom Hooper um tratamento efusivo, radical e corajoso. Não apenas a caracterização de seus personagens é um gesto que gera amor e ódio em proporções elevadas conforme o público, mas todas as suas escolhas (câmera na mão em diversas sequências musicais; ponto eletrônico com captação de som real durante as canções) depõem a favor desse conceito incontido, despido de pudor.

Como fez em “Os Miseráveis”, Tom Hooper opta pelo arrebatamento, pela emoção irrestrita a embriagar a plateia, entretanto, naquela ocasião, ele tinha os talentos de Hugh Jackman e Anne Hathaway como terreno sólido onde caminhar, aqui ele encontra mais instabilidade.

Nessa ênfase resoluta –e, a sua maneira, generosa –que faz de suas encantadoras qualidades tanto quanto de seus gritantes defeitos, “Cats” é um trabalho que se presta ao escrutínio, embora insista na brilhante iniciativa de sempre fazer com que a luz refletida na tela leve o público a lugares mágicos, cheios de assombro e emoções às vezes cafonas, para neles descobrir-se afetado pela arte.

Polêmico em seu resultado final qualitativo, “Cats” é, para uns, um lixo, para outros, uma maravilha. Para mim, é um filme repleto de graça e beleza, plenamente capaz de cativar.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O Exótico Hotel Marigold 2

Reflexo condicionado da boa aceitação do primeiro filme –que encontrou seu público, adepto de comédias graciosas e inofensivas sobre as peculiaridades da meia-idade –o segundo filme, repete a fórmula de “O Exótico Hotel Marigold” dando continuidade à história de seus idosos personagens, ainda em busca do amor, da felicidade e da realização aparentemente descoberta no improvável cenário da Índia.
Todavia, a cena que abre o filme de John Madden se passa nos EUA: Nela, Sonny Kapoor (Dev Patel), o jovem proprietário do Hotel Marigold, e a Sra. Donnelly (Maggie Smith), que ao fim daquele filme tornou-se sua administradora, estão em viagem para encontrar uma junta representante de uma grande franquia de hotéis cinco estrelas –entre os quais vemos a participação especial de David Strathairn.
Tendo obtido singelo êxito com o hotel, o impulsivo e sonhador Sonny quer expandir obtendo assim uma parceria com hoteleiros de fama mundial, para construir um segundo e bem mais suntuoso Hotel Marigold.
Em regresso à Índia, e ao cenário usual do primeiro filme, ele e a Sra. Donnelly sabem que estão por receber o inspetor que avaliará se o Hotel Marigold tem condições de fazer jus à parceria –só não sabem quem esse inspetor será.
Para Sonny, não resta dúvida: Ele é certamente o escritor Guy Chambers (Richard Gere, em participação tão descontraída quanto luxuosa), e para tanto, Sonny o cobre de bajulações, embora o interesse romântico que Guy demonstre por sua mãe (Lillete Dubey) não lhe desça muito bem à garganta.
Como é significativo no formato plural do roteiro anterior, essa não é a única intriga a movimentar o filme: Além dessa questão empresarial, Sonny tem complicações com sua noiva Sunaina (Tina Desai), cujo casamento marcado para breve enfrenta alguns contratempos com a aparição de um velho amigo galante, sedutor e onipresente que lhe dá nos nervos.
E, claro, temos também o festejado elenco inglês de veteranos que, exceto por Tom Wilkinson, repetem todos os seus papéis: Evelyn (Judi Dench), que parecia ter reencontrado o amor com Douglas (Bill Nigh) no filme anterior, tem suas certezas tornadas aqui mais hesitantes e relutantes (atitude que reduz consideravelmente seu protagonismo nesta continuação), e tudo piora ainda mais quando a ex-mulher de Douglas, Jean (Penelope Wilton), retorna da Inglaterra com a filha dos dois –e um leque de histórias e conversas fiadas!
O metido a conquistador Norman (Ronaldo Pickup) encontrou na aparentemente doce Carol (Diana Hardcastle, de "Casamento de Verdade"), uma chance tardia para o amor; embora ele descubra que isso signifique submeter-se ao ônus de uma relação à dois imperfeita e inesperadamente liberal.
E, por fim, Madge (Celia Imrie) se lança à uma busca por sua cara metade; que parecem ser dois parceiros que ela persegue à bordo de um táxi, sem ter certeza de qual dos dois seguir ou  não –pela sua natureza elíptica e pouco envolvente, essa é a sub-trama mais frágil de um trabalho acometido pela complicação de sub-tramas frágeis.
Centrando muito de seu enredo desta vez no espalhafatoso Sonny –que no filme original era pouco mais que um alívio cômico –“O Exótico Hotel Marigold 2”, na tentativa de repetir o êxito até bastante inesperado do primeiro filme, retoma muitas das histórias outrora bem arrematadas dando a elas um aborrecido sabor requentado, aspecto disfarçado com a presença mais ostensiva do que pertinente de Richard Gere.
No fim das contas, uma continuação desnecessária.

domingo, 14 de junho de 2020

O Exótico Hotel Marigold

Pouco se identifica de um estilo mais marcante que relacione o oscarizado “Shakespeare Apaixonado” e o thriller “Armas Na Mesa”, embora eles tenham sido realizados pelo mesmo diretor.
Talvez, o que define o trabalho de John Madden seja afinal sua capacidade para migrar com o máximo possível de elegância aos mais diversos gêneros, embora isso acarrete uma atroz falta de profundidade a essa abordagem justamente pela fugacidade com que é feita.
“O Exótico Hotel Marigold” é um exemplo dessa desenvoltura e de como ela rende obras satisfatórias (chegou a ser indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme de Comédia ou Musical) e igualmente simplórias (pode se esquecer dele tão logo se acaba).
Sete personagens ingleses são flagrados às voltas com a rotina e os aborrecimentos da velhice: Evelyn (Judi Dench, fabulosa) cuja viuvez evidenciou ainda mais a dependência que tinha do marido; Graham (Tom Wilkinson), juiz da Suprema Corte desiludido com o marasmo de sua profissão; Douglas e Jean Ainslie (Bill Nigh e Penelope Wilton, que já formaram um casal em “Todo Mundo Quase Morto”), insatisfeitos com as circunstâncias modernas da avançada idade; Madge (Celia Imrie, de “Garotas do Calendário"), septuagenária já farta das incumbências domésticas relegadas a ela pela filha e pelo genro; Norman (Ronald Pickup, de “O Destino de Uma Nação” e “Evilenko”), um coroa ainda ávido por conquistas amorosas, cada vez mais escassas devido à sua condição; e a Sra. Donnelly (a sempre formidável Maggie Smith), senhora inglesa ranzinza e preconceituosa, confrontada com as falências do próprio corpo.
Todos eles, por razões distintas, acabam topando uma hospedagem gratuita em plena Índia oferecida gratuitamente num tal Hotel Marigold para turistas europeus –alguns com a possibilidade de lá ficar até o fim de seus dias: Evelyn porque nos quarenta anos de casada nunca fez nada sem a intervenção do marido (e agora quer se provar); Graham porque é homossexual, e numa viagem à Índia na juventude, conheceu o único homem que realmente amou (e, na intenção de encontrá-lo, convence todos os outros da viabilidade da viagem); Douglas e Jean porque uma aventura pode provar, para os outros e para si mesmos, que a idade não representa incapacidade (mesmo que tal mudança signifique perceber as fragilidades do próprio casamento); Madge porque acredita que ainda pode encontrar em algum lugar a chama do amor e do desejo (e sua intuição a leva a crer que a Índia possa ser esse lugar); Norman porque em Londres, na Inglaterra, ele praticamente já esgotou as possibilidades de se dar bem com as mulheres (e ser um inglês na Índia pode dar-lhe assim alguma vantagem); e a Sra. Donnelly porque a cirurgia de quadril que ela precisa imediatamente fazer será muito mais rápida e barata se for realizada em solo indiano (a despeito da forte discriminação que ela tem com o povo de lá, seja com seus hábitos e principalmente com sua comida).
São sete protagonistas que se dividem entre o humor, o drama, a reminiscência, o otimismo e o sarcasmo, para narrar suas distintas sub-tramas –beneficiados pela primazia particular do veterano elenco inglês –acrescidos ainda de mais outro: O jovem e irrequieto gerente do Hotel Marigold, Sonny Kapoor, vivido pelo carismático Dev Patel (de “Quem Quer Ser Um Milionário?”), que se equilibra entre a atrapalhada administração do hotel, uma herança da família, o cerco cerrado e a cobrança existencial da mãe (Lillete Dubey, de “Um Casamento À indiana”), o namoro afetuoso, porém, turbulento com a bela Sunaina (Tina Desai, da série “Sense 8”) e o trato cheio de negociações e artimanhas com os novos hóspedes.
Essa mistura obtida em “O Exótico Hotel Marigold” agrada porque a direção soube dar ao filme aquele sabor de comédia inglesa que sempre cai bem no paladar cinéfilo –e ali estão as interpretações notáveis (Maggie Smith é particularmente fenomenal) e o senso de humor auto-depreciativo característico para o deleite –embora seja mais um título que, na filmografia irregular de John Madden, mostre absoluta aleatoriedade na sua busca por histórias e personagens.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Assassinato No Expresso Do Oriente

Os méritos de Kenneth Brannagh como diretor são oscilantes: Ele começou bem, com indicação ao Oscar e tudo, em “Henrique V” –que transformou-o numa espécie de Laurence Olivier moderno, o primeiro nome em adaptações cinematográficas de Shakespeare –e, dando incentivo a essa alcunha lançou “Muito Barulho Por Nada”, a suntuosa versão de “Hamlet” e até uma versão musical de “Amores Perdidos” (com Alicia Silverstone, mal lançado por aqui) ao longo da década de 1990. Em meio à eles, alguns filmes menores como o suspense “Voltar A Morrer”, o drama “Para O Resto de Nossas Vidas” e o metalinguístico “Sonhos de Uma Noite de Inverno” entre outros.
Nos anos recentes, Brannagh investiu em projetos de orientação mais comercial: O primeiro “Thor”, da Marvel Studios, a versão em live-action de “Cinderella” para a mesma Disney que produziu a animação, e “Operação Sombra” (uma das muitas tentativas de reiniciar a franquia Jack Ryan) –os quais deixaram mais visíveis suas limitações enquanto realizador.
Como ator, as coisas melhoram um pouco: Criado com base no teatro inglês, Brannagh é, e sempre foi, talentoso, conseguindo quase sempre uma emocionante conciliação de sua verve com o âmago do personagem (um exemplo claro disso é sua belíssima interpretação como –vejam só! –Laurence Olivier, em “Sete Dias Com Marilyn”).
Pois, nessa nova versão de “Assassinato No Expresso Do Oriente” (na versão antiga de 1974, o título não tinha o ‘Do’...), é tanto o Kenneth Brannagh diretor quanto o ator que vemos atuar no filme. E claro que, como ator, Brannagh é de uma precisão exemplar: No papel do famoso detetive Hercule Poirot (que antes foi maravilhosamente vivido por Albert Finney), Brannagh pontua cada peculiaridade do personagem com exuberância –ao contrário do filme de Sidney Lumet, no qual Poirot vai se impondo aos poucos como protagonista, neste aqui, a narrativa já se inicia com uma postura subjetiva, nomeando Poirot quase como os olhos da platéia.
O filme já começa afastando-se de comparações com a produção antiga em sua abertura, sem qualquer menção à sensacionalista introdução do filme anterior, preferindo detalhar o exotismo do Muro das Lamentações em Jerusalém, onde a trama se inicia, numa manobra muito mais condizente com Agatha Christie –inclusive, o detalhe do bigode de Poirot, como descrito no livro, é seguido à risca pelo filme.
Célebre por seu raciocínio rápido, Poirot deixa Jerusalém a fim de prolongar suas férias depois da elucidação prodigiosa de mais um caso (registrado na frenética cena inicial). Com a ajuda de seu grande amigo Bouc (Tom Bateman), ele obtém um leito para viajar no lotado Expresso do Oriente com destino à França. Entre os passageiros, está o milionário Ratchett (Johnny Depp, no papel que foi de Richard Widmark) que, paranóico, propõe a Poirot o cargo de guarda-costas. Poirot nega só para descobrir Ratchett assassinado na manhã seguinte, quando o trem (junto com todos os seus ocupantes) se vê temporariamente detido nos trilhos pelas neves das montanhas.
Com o tempo contando contra ele (afinal, em poucas horas, o trem será liberado, chegará na estação e o assassino, quem quer que seja, ficará livre), Poirot inicia uma investigação através da qual descobre que cada passageiro tem algum segredo a esconder.
No que diz respeito à direção, Brannagh parece ocasionalmente querer afastar-se das comparações com Lumet ao impor um ritmo e um estilo de filmagens que ressaltam as tomadas virtuosas de câmeras, recusando a rendição a um formato teatral tão propício ao enredo (até algumas cenas de ação algo deslocadas ele chega a encaixar na narrativa) –mas, é claro que, sendo ele um profissional formado no teatro, Brannagh não resiste e lá pelas tantas, o filme abre margem para momentos que sugerem entradas e saídas de cenas –disfarçadas com os floreios da edição –e até monólogos intensos, sobretudo, no trecho final onde eles são reservados ao protagonista.
O quê parece de fato tornar este “Assassinato No Expresso Do Oriente” um passatempo interessante é a modificação que a troca de intérpretes promove à percepção do filme em relação à obra de 1974: O elenco que Brannagh reuniu não poderia deixar de ser estelar. No lugar de Sean Connery, por exemplo, temos agora Leslie Odom Jr. (que confere uma atitude mais vulnerável e hesitante ao personagem) e, em vez de Vanessa Redgrave como seu par romântico, a sensacional Daisy Ridley (de “Star Wars”); no papel que foi de Anthony Perkins, o menos irrequieto e mais contido Josh Gad; a grande Judi Dench confere mais humanidade e primor do que Wendy Hiller à sua Princesa Dragomiroff; no papel do mordomo, Derek Jacobi (presença constante nos filmes de Brannagh) substitui John Gielgud; Manuel Garcia-Rulfo (da versão recente de “Sete Homens e Um Destino”) se sai bem num papel que faz as vezes do personagem de Denis Quilley; o enigmático casal de aristocratas, antes interpretados por Michael York e Jacqueline Bisset (bem mais afáveis), são aqui personificados com agressividade por Sergei Polunin e Lucy Boynton; o magnífico Willen Dafoe substitui muito bem Colin Blakely; a ótima Michelle Pfeifer oferece um belo e diferenciado trabalho no papel que foi de Lauren Bacall; e Penélope Cruz compõe com solidez (ainda que menos tempo de cena), a mesma personagem vivida por Ingrid Bergman (e que deu a ela o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante).
A cereja no todo do bolo é o gancho explícito de indisfarçável sanha mercadológica para uma possível continuação –que, em termos literários veio a ser “Morte Sobre O Nilo”; em termos cinematográficos, houve uma adaptação em 1978, com Peter Ustinov substituindo Finney como Poirot de forma um pouco decepcionante. Este pode não ser um filme tão marcante assim, mas até que não seria má idéia ver Kenneth Brannagh novamente como Poirot decifrando outros crimes no Egito.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Philomena

Baseado em uma história real, “Philomena” foi um dos filmes indicados ao Oscar 2014 de Melhor Filme, ano que teve como vencedor “12 Anos de Escravidão”. Trata-se de um dos grandes trabalhos do diretor Stephen Frears e um dos três que ele realizou com a grande dama Judi Dench (os outros foram o divertido “Sra. Henderson Apresenta” e o mais recente “Victoria e Abdul”).
A trama se debruça sobre a dramática trajetória da irlandesa Philomena Lee (amparada numa interpretação primordial de Judi Dench), mas se descortina de fato por meio do personagem Martin Sixsmith, vivido pelo comediante Steve Coogan (que também trabalha como roteirista).
Um ex-jornalista desacreditado e desiludido por recentes complicações profissionais, Sixsmith recebe uma pouca lisonjeira proposta para tentar se manter relevante: Escrever uma história de “interesse humano” –nas palavras da voraz editora que o aborda (Michelle Fairley, a Catelin da série “Game of Thrones”).
A história que vem até ele –quase que por acaso –vem a ser de uma senhora chamada Philomena Lee (vivida quando moça pela jovem Sophie Kennedy Clark), cuja juventude foi marcada por um sofrimento desigual: Antes de completar 18 anos, ela foi seduzida por um namoradinho que a engravidou, e assim enviada à um convento onde, após dar a luz (num parto doloroso onde lhe foi negado o direito à anestesia), ela e outras jovens mães solteiras recebiam um tratamento desumano. Eram mantidas afastadas dos filhos (que aguardavam adoções eventuais) enquanto trabalhavam em regime escravo para as inclementes freiras do lugar.
Perdendo qualquer contato com seu filho, Anthony, quando ele ainda contava apenas dois anos de idade, após ser adotado por um casal norte-americano, Philomena passou cinqüenta anos sem ter qualquer idéia de seu destino, até Martin Sixsmith cruzar seu caminho.
Inicialmente a contragosto, ele vai guiando Philomena pelos caminhos obscuros de uma investigação que, em sua simplicidade, ela não era capaz de fazer sozinha. Sixsmith se dá conta assim da reprovável postura que as freiras adotavam para com aquelas jovens renegadas pelas famílias, e constata, atônito, os muitos atos lúgubres e ultrajantes acobertados até hoje na Igreja Católica.
Seguindo para os EUA, ele e Philomena buscam seguir a pista para encontrar o filho dela, o quê os leva para Washington onde descobrem quem ele se tornou –as discriminações e os aspectos da vida que viveu.
Experiente e perspicaz como poucos, o diretor Frears faz da narrativa de “Philomena” uma sucessão de contrapontos: Ele justapõe o sofrimento da protagonista ao seu comportamento benevolente e misericordioso (inclusive para com suas algozes); justapõe a denúncia que esse fato real se presta a fazer (e que abrange tantas outras pessoas que também sofreram) à jornada íntima da personagem principal; a própria Igreja –personifica nas freiras francamente arrogantes e detestáveis –e a condição de drama humano gerada por seus procedimentos passados; e, sobretudo, justapõe Sixsmith e a própria Philomena, na forma como cada um lida com as revelações que vão surgindo, em especial no desfecho, quando uma curiosa guinada parece exigir de Sixsmith (um homem ateu, plenamente culto e consciente de seu poder de entendimento) o perdão que sua indignação para com as injustiças o torna incapaz de conceder, enquanto que a velha Philomena (uma mulher idosa, não raro, mostrada pelo roteiro como alguém simples, ignorante e de conclusões freqüentemente obtusas) o faz com uma serenidade tal que a eleva.
“Philomena”, no fim das contas, é sobre isso: Os percalços imprevisíveis e odiosos da vida e do mundo que vêm para testar nossa capacidade de perdoar.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1999

Eis o ano no qual, para a maioria dos cinéfilos, a Academia cometeu os maiores absurdos de sua história recente, como premiar com o Oscar de Melhor Filme o romântico e singelo “Shakespeare Apaixonado” no lugar do poderoso épico de guerra “O Resgate do Soldado Ryan” e ainda por cima, dar três Oscars (!), para o filme do aloprado italiano Roberto Benigni, “A Vida É Bela” –incluindo o de Melhor Ator, cujo favorito era Tom Hanks!
É de se lamentar os bons trabalhos na disputa que, por conta dessa presepada, nada levaram: “Além da Linha Vermelha”, “O Showde Truman”, “Irresistível Paixão” e “Um Plano Simples” foram alguns deles.
Diante disso, nem dá para se chocar com a vitória da jovem Gwyneth Paltrow sobre a brasileira Fernanda Montenegro, indicada a Melhor Atriz por “Central do Brasil”.

MELHOR FILME
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR DIREÇÃO
"O Resgate do Soldado Ryan", Steven Spielberg

MELHOR ATRIZ
Gwyneth Paltrow, "Shakespeare Apaixonado"

MELHOR ATOR
Roberto Benigni, "A Vida É Bela"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Judi Dench, "Shakespeare Apaixonado"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
James Coburn, "Temporada de Caça"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"The Last Days"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"The Personals-Improvisations on Romance in the Golden Years"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Vida É Bela" (Itália)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Amor Além da Vida"

MELHOR MAQUIAGEM
"Elizabeth"

MELHOR FIGURINO
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR SOM
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR TRILHA SONORA - DRAMA
"A Vida É Bela"

MELHOR TRILHA SONORA – MUSICAL OU COMÉDIA
“Shakespeare Apaixonado"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"When You Believe", de "O Príncipe do Egito"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Shakespeare Apaixonado"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Deuses e Monstros"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Bunny"

MELHOR EDIÇÃO
"O Resgate do Soldado Ryan"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Election Night”

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Shakespeare Apaixonado

O trabalho do diretor John Madden –de um estilo que não se define com facilidade em meio aos filmes que realizou, tão díspares quanto este, o drama “Ethan Frome-Um Amor Para Sempre”, a comédia “O Exótico Hotel Marigold” e sua continuação, o thriller de espionagem “A Grande Mentira” e o suspense político “Armas Na Mesa” –ao que parece caiu nas graças da Academia de Artes Cinematográficas ávida que ela estava por enfim ver um filme que biografasse o tão aclamado bardo William Shakespeare.
Só isso mesmo para explicar o fato desta produção (que a rigor é uma mera comédia romântica de época) vencer o Oscar de Melhor Filme numa disputa que incluía o imbatível “O Resgate do Soldado Ryan”. Claro que, avaliando com mais calma, outro motivo aparece: Um dos produtores de “Shakespeare Apaixonado” era Harvey Weinstein que, durante anos, foi determinante para quem ganhava ou perdia as premiações do Oscar, até ele ser completamente afastado da indústria por acusações recentes de assédio sexual.
No filme mesmo, pouca explicação se encontra para as sete estatuetas que ele ganhou: Na trama que se desenrola por meio de farsa e galhofa conhecemos o jovem Shakespeare (Joseph Fiennes, irmão de Ralph que apesar dos esforços não vingou), um rapaz inspirado pela vida boêmia da Inglaterra do século XVI, a escrever peças de teatro para o povo, sua grande fonte de diversão.
O lugar mais freqüentado pela plebe para assistir as histórias que os envolviam era o teatro “The Rose”, de propriedade do endividado Hemslowe (Geoffrey Rush). Com os credores prestes a lhe arrancar o couro (literalmente!), ele deposita suas esperanças na próxima peça escrita por Shakespeare cujos trabalhos costumam ter boa aceitação de público, embora o rapaz esteja passando por uma crise criativa.
A outra peça do tabuleiro é a jovem Viola (Gwyneth Paltrow que absurdamente levou o Oscar de Melhor Atriz tendo como concorrentes Cate Blanchett, por “Elizabeth”, e Fernanda Montenegro, por “Central do Brasil”), filha de pai rico e com o casamento já arranjado com o Lorde Wessex (Colin Firth, numa época em que só era escolhido para papéis vilanescos). Viola, que leva o nome da mesma protagonista de Shakespeare para a farsa “Noite de Reis” e aqui, também ela pratica sua própria farsa, deseja conhecer o mundo antes de restringir a vida à um matrimônio opressor. Ela quer conhecer as peças de teatro encenadas no vilarejo e, se possível diante de seu maior atrevimento, atuar nelas –naquela época, a atuação era estritamente proibida às mulheres restando aos homens fazer os papéis femininos também.
Viola, assim, se disfarça de menino para participar dos ensaios no “The Rose” onde Shakespeare corre para entregar sua peça “Romeu & Ethel, A Filha do Pirata”. Em algum momento, o escritor, porém, perceberá que aquele menino tem uma feminilidade impossível de ser encenada e descobrirá a farsa de Viola –e por ela se apaixonará.
Tentando dar prosseguimento a esse romance da forma como podem e com uma data-limite certamente estipulada –o casamento de Viola e a apresentação da peça são marcados para o mesmo dia! –os dois amantes vêem sua história de amor ganhar a tumultuada rotina do teatro como pano de fundo enquanto os aspectos eufóricos, angustiantes e até frustrantes desse amor vão servindo de combustível para que Shakespeare transforme a peça na obra que, por fim, será chamada de “Romeu & Julieta”.
Certamente gracioso visivelmente feito com o propósito despretensioso de divertir e completamente sem compromissos com qualquer realidade que tivesse envolvido a vida de Shakespeare ou a criação de “Romeu e Julieta”, este “Shakespeare Apaixonado” até seria um filme interessante e simpático não tivesse ele sido superestimado a ponto de protagonizar a premiação mais eclética e questionável de toda a história recente do Oscar.

Hoje ele é visto como um filme mediano que tirou prêmios significativos de grandes obras que mereciam mais.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2018

Saíram o nome de todos os indicados ao Globo de Ouro, um dos prêmios mais importantes da temporada que pavimenta o caminho para o prêmio maior, o Oscar.
Vamos às indicações e às considerações (lembrando que aqui só serão mencionados os indicados de cinema):

Melhor filme dramático
"Me chame pelo seu nome"
"Dunkirk"
"The post"
"A forma da água"
"Três anúncios para um crime"

De imediato já se lamenta a ausência de Denis Villeneuve e seu primordial “Blade Runner 2049”. Mas os cinco indicados até que resumem bem o supra-sumo qualitativo do ano, com o elogiado filme de Guillermo Del Toro surpreendentemente superando em indicações os trabalhos de Nolan e Spielberg.

Melhor ator em filme dramático
Timothée Chalamet, "Me chame pelo seu nome"
Daniel Day Lewis, "Trama fantasma"
Tom Hanks, "The post: A guerra secreta"
Gary Oldman, "O destino de uma nação"
Denzel Washington, "Roman J. Israel, Esq."

Com a exceção do jovem Timothée Chalamet por "Me Chame Pelo Seu Nome", esta categoria vem dominada por veteranos: Daniel Day Lewis, no seu alardeado último filme da carreira, Tom Hanks, no que parece ser mais uma colaboração vencedora com Steven Spielberg, Denzel Washington, em mais uma costumeira amostra de seu brilhantismo. Todos já possuem mais de um Globo de Ouro debaixo do braço, o único que jamais conquistou o prêmio é Gary Oldman, espero que este seja o seu ano.

Melhor atriz de filme dramático
Jessica Chastain, "A grande jogada"
Sally Hawkins, "A forma da água"
Frances McDormand, "Três anúncios para um crime"
Meryl Streep, "The post: A guerra secreta"
Michelle Williams, "Todo o dinheiro do mundo"

Os rumores apontam um possível domínio de Frances McDormand nesta temporada: Ao que parece, seu trabalho em “Três Anúncios Para Um Crime” iguala sua premiada atuação em “Fargo”. Mas, ainda dá para torcer por Jessica Chastain, impecável como sempre no primeiro filme dirigido pelo prestigiado roteirista Aaron Sorkin, por Sally Hawkins, maravilhosa interpretando uma surda-muda na bizarra história de amor de Del Toro e até por Michelle Williams no filme de Ridley Scott.
Em meio à todas, ela, sempre ela, Meryl Streep, desta vez sob a direção de ninguém menos que Steven Spielberg, o quê deve pesar e muito na decisão de quem premiar...

Melhor diretor
Guillermo del Toro, "A forma da água"
Martin McDonagh, "Três anúncios para um crime"
Christopher Nolan, "Dunkirk"
Ridley Scott, "Todo o dinheiro do mundo"
Steven Spielberg, "The Post"

Por alguma estranha razão, as premiações revelam-se rabugentas com as obras de Christopher Nolan nesta categoria –ele aparece aqui, com a esperança de um reconhecimento pairando no ar, mas certamente terá de superar a elogiada produção de Spielberg e mais ainda, o favoritismo que parece estar se construindo em torno de Del Toro.
Curiosa também a lembrança de Ridley Scott por um filme que está sendo mais falado pelo fato de terem removido a participação de Kevin Spacey –trocado por Christopher Plummer –já durante a pós-produção, em razão de denúncias de assédio sexual.

Melhor filme de comédia ou musical
"O artista do desastre"
"Corra!"
"O rei do show"
"I, Tonya"
"Lady Bird: é hora de voar"

Uma vez que relevamos o detalhe ridículo de terem indicado numa categoria reservada para filmes de comédia uma obra de terror (o ótimo “Corra!”), dá para dizer que os filmes indicados aqui até superam os da categoria de drama.
Ao menos no fator curiosidade: Quer algo mais interessante que um filme elogiadíssimo inspirado nos bastidores do pior filme de todos os tempos (o infame “The Room”, de Tommy Wiseau), uma traquinagem notável cortesia do ator James Franco.
A cotação dos demais, “O Rei do Show”, “I, Tonya” e “Lady Bird” não poderia ser melhor.
Resta saber qual deles irá despontar como favorito. Por ora, muito se fala de “O Rei do Show”, mas minha aposta vai para James Franco e seu “O Artista do Desastre”.

Melhor atriz em filme de comédia ou musica
Judi Dench, "Victoria e Abdul: o confidente da rainha"
Helen Mirren, "The Leisure Seeker"
Margot Robbie, "I, Tonya"
Saoirse Ronan, "Lady Bird"
Emma Stone, "A guerra dos sexos"

A ganhadora do ano passado, Emma Stone surpreendeu emplacando mais uma indicação, agora por um filme muito bem avaliado dos mesmos diretores de “Pequena Miss Sunshine”. Aparentemente, suas maiores concorrentes são a linda Margot Robbie, que surpreendeu meio mundo com a força de sua atuação em “I, Tonya” e a sensacional dama inglesa Judi Dench por “Victoria e Abdul”.
Emma e Margot que me perdoem, mas minha torcida é dela!

Melhor ator em filme de comédia ou musical
Steve Carell, "A guerra dos sexos"
Ansel Elgort, "Em ritmo de fuga"
James Franco, "O artista do desastre"
Hugh Jackman, "O rei do show"
Daniel Kaluuya, "Corra!"

Adorei a indicação de Ansel Elgort –esse garoto vai longe! –como também a do sempre carismático Hugh Jackman (num papel que tem bem a cara dele, de ‘showman’) e, vá lá, a do talentoso Daniel Kaluuya (embora eu insista: O filme dele não é comédia!!!).
No entanto, por uma série de razões é James Franco, pelo já memorável “O Artista do Desastre” quem merecia a supremacia nesta temporada de prêmios.

Melhor atriz coadjuvante
Mary J. Blige, "Mudbound"
Hong Chou, "Pequena grande vila"
Allison Janney, "I, Tonya"
Laurie Metcalf, "Lady Bird: É hora de voar"
Octavia Spencer, "A forma da água"

Melhor ator coadjuvante
Willem Dafoe, "Projeto Flórida"
Armie Hammer, "Me chame pelo seu nome"
Richard Jenkins, "A forma da água"
Christopher Plummer, "Todo o dinheiro do mundo"
Sam Rockwell, "Três anúncios para um crime"

Há um comentário subliminar na indicação de Christopher Plummer por um filme no qual ele entrou aos quarenta e cinco do segundo tempo, substituindo o ator original Kevin Spacey. Mas, Plummer é um ator fenomenal e não tenho dúvidas de que merece a lembrança.
No mais há uma certa tendência em reconhecer o trabalho de Willem Dafoe que pode se sair bem na temporada de premiações, seu maior concorrente é, sem duvidas, Armie Hammer.

Melhor animação
"O Poderoso Chefinho"
"The Breadwinner"
"Viva: A vida é uma festa"
"O touro Ferdinando"
"Com amor, Van Gogh"

“Viva-A Vida É Uma Festa”, da Pixar, ainda não estreou aqui no Brasil, mas vem arrebatando público e crítica mundo afora, como é habitual do estúdio, o que já fez dele o favorito da categoria contra obras curiosas como o lírico “Com Amor, Van Gogh” ou a recriação nos tempo de hoje (leia-se, em computação gráfica) do cultuado curta animado “O Touro Ferdinando”, pelo brasileiro Carlos Saldanha.

Melhor canção original
"Home", "O touro Ferdinando"
"River", "Mudbound"
"Viva: a vida é uma festa"
"The star", "The star"
"This is me", "O rei do show"

Melhor trilha sonora
Carter Burwell, "Três anúncios para um crime"
Alexander Desplat, "A forma da água"
Johnny Greenwood, "Trama fantasma"
Hans Zimmer, "Dunkirk"
John Williams, "The post: a guerra secreta"

Melhor filme estrangeiro
"Uma mulher fantástica" (Chile)
"First they killed my father" (Camboja)
"In the fade" (Alemanha)
"Loveless" (Rússia)
"The square" (Suécia)

Por aqui, pelo menos, nada do nosso “Bingo-O Rei das Manhãs”... Dentre estes cinco, os mais falados e comentados são “First They Killed My Father”, dirigido por Angelina Jolie e com todo o engajamento que se espera dela, e “The Square”, o filme sueco estrelado por Elizabeth Moss (da série “Mad Men”) e vencedor da Palma de Ouro no último festival de Cannes.

Melhor roteiro
"A forma da água"
"Lady Bird"
"The Post: a guerra secreta"
"Três anúncios para um crime"
"A grande jogada"

Agora é só esperar e especular. Os vencedores serão anunciados na cerimônia do dia 7 de janeiro.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Sra. Henderson Apresenta

Eis um filme delicioso que o cinema inglês, em sua mescla incomum de fina ironia e sagaz seriedade, consegue nos entregar.
Na Inglaterra do final da década de 1930, a milionária Laura Henderson (a sempre impecável Judi Dench) fica viúva aos 70 anos de idade. Ela não encontra qualquer adequação em bordados ou em reuniões de grupos assistenciais, atividades normalmente esperadas por uma viúva, em vez disso, ela compra o depauperado teatro municipal e o reconstrói.
Como produtor de shows, ela contrata o gabaritado Vivian Van Damm (o saudoso Bob Hoskins em sua última grande atuação) que sugere uma iniciativa arrojada: Apresentações contínuas, ao longo de todo o dia.
O sucesso imediato logo dá lugar ao fracasso quando todas as outras companhias teatrais aderem à mesma tática.
A Sra. Henderson, com quem Vivian nutria uma relação das mais intensas e turbulentas, dá então uma idéia audaciosa: Introduzir nudez nos espetáculos!
O governo, enxergando uma proximidade entre a transgressão tentada no palco e a arte como era vista nos quadros dos museus –onde a nudez, afinal, era permitida e aceita –estabelece que as modelos que tirarem a roupa devem ficar efetivamente imóveis. Várias são então contratadas: Sendo aquela que mais ocupa o tempo da narrativa, a loira Maureen, interpretada pela lindíssima Kelly Reilly.
O diretor Stephen Frears opta por um caminho distinto dos filmes baseados em fatos reais ao atribuir pouco interesse nos meandros historicamente solenes do teatro, ou dos personagens que o conduziram, ou mesmo das atitudes pioneiras que eles tomaram. Sua atenção está na condução de suas tramas de natureza mais íntima que inclui, além da relação entre Vivian e a Sra. Henderson temperada com irritabilidade e afeição, porém essencialmente platônica e adequadamente britânica, os diversos humores dos integrantes do espetáculo como a dinâmica velada entre as artistas que se apresentavam de fato (cantavam e dançavam) e as modelos que precisavam ficar imóveis (às vezes, por horas) a expor sua nudez para o público.
Algum tempo depois, vem então a Segunda Guerra Mundial para complicar a vida desses artistas com outros contratempos como os bombardeios à cidade –que insistiam em ocorrer durante o show! –e a própria ameaça do governo de interdição –sob pretexto de que o sucesso do teatro ocasionava muita aglomeração!
Todos esses fatores são tratados com grande habilidade na mescla de humor e drama por Stephen Frears que entrega aqui uma obra divertida, ousada na medida em que se presta a ser –a nudez não é somente sugerida, mas ao mesmo tempo não predomina em cena –e profundamente atenta ao detalhe do significado da arte em tempos de dificuldade: A meia hora final, onde os aspectos musicais do filme crescem a olhos vistos, é um testemunho da necessidade humana de descontração e alegria trazidas em meio ao caos que as formas de arte como a  música, o teatro e certamente o cinema são capazes de levar às almas aflitas.

Despido de cinismo e imbuído de um bocado de ingenuidade, Frears concebeu, ainda assim, o que quase pode ser enxergada como um “Cabaret” dos novos tempos.

sábado, 29 de julho de 2017

Nine

Tão rico é o filme “8 e ½” de Frederico Fellini que ele acabou inspirando um musical nos palcos teatrais da Broadway. É esse musical que vem a ser, aqui, por sua vez adaptado para o cinema. “8 e ½” sempre foi, com freqüência descrito como um filme de drama sobre o drama de se fazer um filme, ou em termos mais técnicos, metalinguagem.
Guido, celebrado cineasta italiano nos anos 1960 atravessa um bloqueio criativo, enquanto todos ao seu redor iniciam os preparativos de seu próximo filme, que ele não faz idéia de como realizar. Enquanto isso, sua vida pessoal está tumultuada, com várias escapadas extraconjugais que sistematicamente vão magoando sua bela e dedicada esposa, Luisa.
Escolhido para a ingrata tarefa de emular Fellini, o diretor Rob Marshall inseriu em muitas cenas, números musicais similares em estilo e técnica ao seu oscarizado "Chicago", e o elenco, repleto de escolhas luxuosas (sobretudo, suas participações femininas) é um espetáculo à parte; uma das muitas tentativas do diretor Marshall em encobrir uma conclusão óbvia: A peça de onde esta produção foi adaptada tinha graciosidade em sua proposta de “teatro que homenageia o cinema”, mas, migrando o material para a mesma mídia de sua fonte de inspiração o resultado soa pedante.
Quem realmente se destaca é a francesa Marion Cotillard, cativante no papel da esposa do cineasta Guido (em substituição à Ainouk Aimeé, na obra de Fellini), assim como a sempre ótima Penélope Cruz, como a amante e a cantora Fergie, uma escalação inusitada, como a prostituta de uma cena de recordação –com aquelas sobrancelhas desenhas de contornos enormes que povoam os filmes de Fellini –há ainda Nicole Kidman, no papel de diva do cinema que antes pertenceu a ninguém menos que Claudia Cardinale, e o luxo fulgurante e pleno que é a participação de Sofia Loren como a mãe. Em meio à tantas mulheres extraordinárias, Daniel Day Lewis contribui com técnica e propriedade na construção do protagonista, mas a atuação antológica de Marcello Mastroianni não tinha como ser igualada.