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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O Diabo Veste Prada 2


 Como (ou por que) fazer uma continuação de um filme que, em si, já era uma obra enxuta, fechada e redondinha? É essa pergunta que “O Diabo Veste Prada 2” tenta responder cerca de 20 anos depois do filme original observando um viés bastante pertinente nas circunstâncias atuais – e que representa uma espécie de desafio temático para muitos realizadores – o fato irreversível de que o mundo está mudando.

Sem um livro-fonte para adaptar desta vez (o primeiro filme adaptava o best-seller de Lauren Weisberger, que jamais ganhou continuações), o roteiro de Aline Brosh McKinna trabalha em duas frentes principais: Na primeira, evidentemente, contemplando os vinte anos que se passaram, os efeitos disso no mundo da moda registrado em 2006 e agora em 2026, e certamente, nos personagens principais e em suas vidas; na segunda, no elemento intrínseco que funcionou às mil maravilhas no original (e que representou um certo diferencial entre o livro e o filme que dele resultou), os próprios personagens, seus intérpretes e a rica variedade cômica de suas interações.

Agora uma jornalista premiada, Andy Sachs (Anne Hathaway) testemunha a contradição dolorosa dos tempos modernos e desfavoráveis: Na mesma noite em que é vencedora de um prestigiado prêmio de jornalismo, ela (junto de todos os seus colegas) acaba demitida; o jornal impresso para o qual trabalhava não bancará mais matérias jornalísticas ao estilo de antigamente – somente as pautas rápidas produzidas na internet, por influenciadores e youtubers parecem importar no meio.

Paralelamente, um problema parecido está sendo enfrentado na RunWay, a revista de moda para a qual ela trabalhou no passado: A editora-chefe, a toda-poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep) pode estar com seu emprego ameaçado. A revista – que há tempos restringiu-se a ser digital – está passando por uma reformulação, fruto da influência cada vez maior do jovem Jay Ravitz (B.J. Novak, de “Bastardos Inglórios”) sobre o pai Irv Ravitz (Tibor Feldman), o presidente da RunWay, e também consequência do interesse cada vez maior do novo público por informação ágil.

Como se não bastasse, uma matéria desfavorável e equivocada publicada recentemente na revista afastou anunciantes, comprometendo a imagem de Miranda. A saída termina sendo contratar Andy como editora principal das reportagens da revista, buscando um tom mais sério, respeitável e que, ao mesmo tempo, alcance novos leitores.

O que vemos é, assim, um retorno às circunstâncias do primeiro filme – Andy trabalhando sob o crivo impiedoso de Miranda – desta vez, ligeiramente transfiguradas por características inerentes aos novos tempos: Ainda difícil de lidar (como atestam sucessivas situações envolvendo, sobretudo, a perplexa Andy), Miranda já não deflagra impunemente sua tirania; reclamações constantes feitas do setor de RH a obrigaram a ser mais moderada!

No entanto, é daí que o filme dirigido por David Frankel tira seu humor assim renovado – do fato de que as coisas são, agora, diferentes. O mesmo vale para alguns personagens, como Emily Charlton, vivida por Emily Blunt. Se no primeiro filme ela era uma das assistentes de Miranda, neste aqui, ela surge como uma executiva da Dior – uma das empresas que a RunWay almeja anunciar – e ganha inesperados rumos para sua personagem no terço final.

Os mais atentos notarão uma cadência quase similar e até simétrica com alguns dos acontecimentos do “Diabo Veste Prada” original – temos, mais uma vez, Nigel (Stanley Tucci) surgindo como mentor indireto de Andy; as sequências de golpe e contra-golpe se repetem na segunda metade; sem falar de todo o arco narrativo de Andy, de novo, dando a volta por cima profissionalmente; e uma repetição da clássica cena de diálogo dentro da limusine – contudo, este segundo filme acerta ao apostar num elemento que, no primeiro, já tinha sido evidentemente eficaz: A reafirmação de seus ótimos personagens, conduzidos por um elenco sensacional – desde o lançamento, há 20 anos, de “O Diabo Veste Prada” tornou-se lugar comum enaltecer a espetacular atuação de Meryl Streep (que, pra variar, está estupenda), no entanto, há que se falar dos maravilhosos trabalhos de Anne Hathaway (ela que em 2026 também esteve emA Odisseia”, de Christopher Nolan), de Emily Blunt (ela que em 2026 também esteve em “Dia D”, de Steven Spielberg) e de Stanley Tucci, aqui tão bons quanto no original, e das ótimas adições de Kenneth Branagh, Justin Theroux e Lucy Liu.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Amor À Primeira Vista


 Melodrama dos anos 1980 cuja abordagem soa inversa à, por exemplo, do romântico “Amor À Flor da Pele”, de Won Kar Wai, no qual acompanhávamos a via-crusis das contrapartes traídas de dois casais envolvidos em adultério. Aqui é incontornável a romantização de um ato que, no fim das contas, é uma traição –ainda que o filme, com elegância, sutileza e parcimônia vá mascarando isso diante do expectador. Não à toa, houveram críticas, na época de seu lançamento, direcionadas exatamente à essa postura. Filmado na Estação Central de Nova York e aproveitando essencialmente o hype da reunião entre de Meryl Streep e Robert De Niro (saídos, respectivamente das produções “Silkwood-Retrato de Uma Coragem” e “Era Uma Vez Na América”), o filme dirigido por Ulu Grosbard (que havia realizado, em 1981, o drama policial “Liberdade Condicional”, com De Niro) parece se beneficiar exatamente desses detalhes para se impor, no mais, contentando-se em ser um romance ameno, sem rompantes e de baixa voltagem. Características que não o impedem de ser um bocado encantador aos olhos de seu público-alvo.

 Arquiteto, morador do subúrbio de Westchester, Nova York, Frank Raftis (Robert De Niro) é casado com Ann (Jane Kaczmarek, de “Morto Ao Chegar” e “A Vida Em Preto & Branco”), com quem tem dois filhos pequenos. Moradora nas mesmas redondezas, a artista plástica Molly Gilmore (Meryl Streep) também é casada, com Brian (David Clennon, de “Inferno Sem Saída” e “Muito Além do Jardim”). Ambos tomam o mesmo percurso de trem diariamente, porém, sem nunca se encontrar: Frank, para ir e voltar do trabalho; Molly, para visitar constantemente seu pai (George Martin, de “Sociedade dos Poetas Mortos”) que está internado num hospital em Manhattan. É durante a véspera de Natal que eles se encontram pela primeira vez, ao trombarem um com o outro acidentalmente e, sem querer, acabar trocando os livros que haviam comprado. Alguns meses depois, eles tornam a se reencontrar na estação, se reconhecem e a partir daí, adquirem o hábito de todos os dias, fazerem companhia um ao outro durante a viagem, conforme vão se conhecendo melhor. Embora saibam que ambos são casados, isso não impede que um sentimento pouco a pouco comece a nascer entre eles.

A medida que o enredo de "Falling In Love" progride é impossível não lembrar de “Desencanto”, do mestre David Lean, que aparentemente o diretor Ulu Grosbard quis refilmar muito disfarçadamente e por baixo dos panos. Ele possui a mesma premissa básica, a mesma estrutura dramática, o mesmo subtexto a envolver adultério e uma perspectiva através da qual se humaniza o casal de amantes –sem julgamentos morais que seriam suscitados com mais insistência nos tempos de hoje. Certamente, o grande trunfo desta produção até que modesta (ainda que plenamente eficaz em sua proposta) é ter Meryl Streep e Robert De Niro, dois verdadeiros monstros sagrados em cena –De Niro inclusive venceu o prêmio Sant Jordi 1986 de Melhor Ator Estrangeiro, enquanto Meryl, por sua vez, foi agraciada com o prêmio David di Donatello de Melhor Atriz Estrangeira do mesmo ano do lançamento do filme, 1984, num desempenho intimista com elementos que ela revisitou, anos mais tarde, em  "As Pontes de Madison".

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Não Olhe Para Cima


 Há quem se pergunte se ainda há espaço para a inteligência no atual cinema comercial moderno. Na ânsia por encontrar uma resposta positiva, o diretor e roteirista Adam McKay se firmou nos últimos anos como um autor singular, capaz de capturar complexidade, loquacidade, atualidade e urgência num caldeirão bem-humorado e contundente em refletir os percalços do mundo real. Dessa predisposição surgiu o clássico moderno “A Grande Aposta”, o engajado “Vice” e este “Não Olhe Para Cima”.

Anunciado como a maior superprodução bancada pela Netflix até então –e tal ambição se reflete em cena com os nomes estupendos que abarrotam seu elenco estelar –o filme de McKay era, em si, uma alegoria crítica ao descaso ostentado por alguns líderes mundiais ao aquecimento global. Porém, sua produção –iniciada nos últimos meses de 2019 –precisou ser interrompida com a chegada da pandemia de 2020, sendo retomada em 2021, deixando o filme pronto para ser lançado nos últimos meses desse ano. Essas circunstâncias, é correto afirmar, modificaram de tal forma a percepção de público e crítica do filme que “Não Olhe Para Cima” se tornou algo que, em princípio, nem seu realizador previa: Uma observação pertinente, ácida e implacável das facetas mesquinhas e calculistas do negacionismo, e também, uma horripilante constatação de todas as celeumas que empurram a humanidade rumo ao seu fim.

A começar essa narrativa hilariamente angustiante, temos a jovem Dra. Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) cuja descoberta, de um cometa em rota de colisão com a Terra é compartilhada com seu professor, o Dr. Randall Mindy (Leonardo Dicaprio). Seguindo o raciocínio lógico, Randall e Kate tentam avisar as autoridades desse perigo à raça humana, entretanto, raciocínio lógico é algo que, deveras, não faz parte da cartilha de quase nenhum dos outros personagens que orbitam seus protagonistas e –o que é pior! –alguns deles habitando esferas políticas de fundamental liderança mundial. Como é o caso da presidente Janie Orlean, vivida por Meryl Streep, numa clara alusão à Donald Trump.

É desconcertante toda a sequência em que Randall e Kate tentam, à duras penas, uma audiência na Casa Branca, e são recebidos com descrédito estarrecedor e indulgência alarmante pela Chefe de Estado e seu filho, Jason (Jonah Hill que personifica bem as facetas mais assombrosamente amorais e revoltantes do nepotismo). Em suma, eis o mote em torno do qual “Não Olhe Para Cima” gira: O fato de que, mesmo estando o fim do mundo e seus indícios escancarados à sua frente, muitas são as pessoas que escolhem não crer em sua existência. Trata-se de McKay, como o genuíno autor que é, se voltando para um fenômeno bastante inusitado e preocupante nos tempos digitais de hoje; a pós-verdade –as pessoas já não ligam mais para a verdade, para os fatos e as informações, elas preferem escolher a narrativa que mais lhes agrada, com a qual mais simpatizam, e a defendem com unhas e dentes.

É assim que Randall e Kate, com a ajuda do Dr. Oglethorpe (Rob Morgan, de “Confronto No Pavilhão 99”), conseguem pouco mais que tornarem-se memes na internet (!), após tentarem, em vão, alertar a população por meio do alienado e midiático programa de TV apresentado pelos histriônicos apresentadores vividos por Tyler Perry e Cate Blanchett. A verdade só começa a ser aceita –talvez, um tanto quanto tarde demais –quando as eleições vindouras apontam um prognóstico pessimista para a reeleição de Orlean, o que a obriga, junto de todos os seus senadores e conselheiros, a recorrer a uma manobra populista, financiando uma missão para desviar a rota do cometa. E mesmo aí, no que aparenta ser o rumo natural de todo o filme-catástrofe ao estilo “Armageddon” –o que enganosamente a obra de McKay parece ser –“Não Olhe Para Cima” continua subvertendo: Surge o empresário, inovador e avoado Peter Isherwell (Mark Rylance, hábil em personagens que despertam certa injúria no público) que, na qualidade de financiador principal da campanha (leia-se, manda nela mais que a própria presidente), tem a ideia de jerico de desistir da tentativa de destruir o cometa e, ao invés disso, aproveitar o vasto contingente mineral que é a sua constituição, para com aquilo ter um estoque infinito de matéria-prima para confeccionar seus celulares.

São inúmeros os absurdos que “Não Olhe Para Cima” enfileira, um após o outro, dentro do contexto que se propõe, e eles só não espantam mais do que o fato de que, em grande medida, tudo reflete, e com bastante exatidão, ideologias em voga nos tempos polarizados de hoje. A alfinetada ao conservadorismo, à extrema-direita e ao escrutínio midiático culturalmente questionável é bastante evidente –e certamente Mckay valeu-se do intervalo forçado da pandemia para aproximar seu roteiro ainda mais da deplorável condição política da atualidade –mas, “Não Olhe Para Cima” se propõe a uma reflexão muito mais relevante e válida: Do quanto se perdeu, em compreensão e empatia, nas nossas relações humanas com a chegada de ferramentas digitais que só fizeram nos alienar ainda mais enquanto sociedade.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A Morte Lhe Cai Bem


 Dos inúmeros apadrinhados de Steven Spielberg, cujos filmes ele produziu na década de 1980, certamente o melhor deles foi Robert Zemeckis. E, tal e qual seu mentor, Zemeckis sempre soube ousar acrescentando doses inusitadas de dramaticidade, humor negro ou até suspense, nas obras abertamente festivas e comerciais que realizava.

Mais do que um trabalho equilibrado e completo, “A Morte Lhe Cai Bem” representa um esforço em agregar gêneros distintos numa filmografia que, naquele 1992 de então, começava a ficar restrita a um tipo de gênero aos ohos do público: Zemeckis havia feito a “Trilogia De Volta Para O Futuro” e o sucesso “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, praticamente aventuras (ainda que brilhantes) voltadas ao público infanto-juvenil. Vale lembrar que o próprio Spielberg, na mesma época, esforçava-se para livrar dessa mesma pecha, iniciando as filmagens de seu “A Lista de Schindler”.

Causando certo desconcerto ao público já na escolha de seus protagonistas, “A Morte Lhe Cai Bem” une três astros vindos de diferentes vibrações cinematográficas: A consagrada, versátil e magnífica Meryl Streep, o carismático e competente Bruce Willis (normalmente atrelado à filmes de ação) e a divertida e ocasionalmente histriônica Goldie Hawn (normalmente atrelada, por sua vez, à comédias românticas). E “A Morte Lhe Cai Bem” não é um filme de ação, não é uma comédia romântica, e certamente, também não nenhum projeto sério, no qual Meryl Streep costumava ser vista.

Meryl vive Madeline Ashton, vaidosa estrela hollywoodiana pouco a pouco sentindo os primeiros e indesejados efeitos da passagem do tempo (a lembrar um pouco a Norma Desmond de “Crepúsculo dos Deuses”). Casada com Ernest Menville (personagem de Willis), um renomado cirurgião plástico, Madeline vê os avanços, sobre seu cobiçado marido, de Helen Sharp (personagem de Goldie), sua rival da juventude, cujo retorno, de pronto, surpreende à Madeline e à todos: Helen não envelheceu um único dia desde a última vez que se viram. E sua juventude, sua pele impecável e seu corpo todo no lugar chama a atenção de Ernest ressentido não só das futilidades de Madeline como também do visível avanço do tempo sobre sua aparência.

Numa noite em que se descobre particularmente inconsolável, Madeline recebe a dica de uma misteriosa pessoa capaz de ajudá-la, e assim, encontra a feiticeira interpretada por Isabella Rosselini (tão linda e sexy que é de se lamentar que não tenha maior tempo de cena). Em linhas gerais, ela conta à Madeline sua longa trajetória na qual ajudou, no último século (!), algumas atrizes à continuar brilhando na ribalta com sua juventude preservada.

Madeline topa o acordo na mesma hora e, ao provar um elixir, tem sua beleza magicamente restaurada; Não sem uma advertência: “Cuide bem de seu corpo. Você continuará com ele por um bom tempo!”

Na comédia impiedosa de humor negro que realiza, é óbvio que não será isso que o diretor Zemeckis deixará acontecer. Já mancomunado com Helen para livrar-se de Madeline, o Dr. Menville tenta matá-la jogando-a da escada, e eis a grande surpresa: Madeline não pode mais morrer!

Mesmo com seu pescoço quebrado ostentando uma hedionda fratura (a maquiagem é prodigiosa, e os efeitos visuais ganharam o Oscar 1993), Madeline permanece viva (!), o elixir, ao que tudo indica, lhe deu vida eterna, a despeito das intempéries sofridas por seu corpo.

Ao tentar retribuir o ‘favor’ à Helen, dando-lhe um tiro de espingarda no peito (humor negro, lembre-se...),Madeline tem outra revelação: Helen também fez o tal pacto com a feiticeira (o que explica seu retorno jovem e impecável) e, como Madeline, não pode ser morta; a despeito do buraco assombroso que o tiro de espingarda lhe deu (!). Agora, Ernest deve usar de seus conhecimentos cirúrgicos para ajudar Madeline e Helen, lhes preservando a pele, impedindo seu corpo de revelar os efeitos da deterioração, e disfarçando os indícios de suas chagas mortais. Em suma, ele é, para sempre, uma espécie de escravo das duas.

Conduzindo este conto sobre vaidades levadas aos extremos improváveis do sobrenatural, Zemeckis extrai muito de sua reflexão, atmosfera, ritmo e lógica, da pertinente referência à cultuada série “Além da Imaginação” –e tão influente essa série é, dentro da sua orientação criativa, que Robert Zemeckis (ao lado do próprio Steven Spielberg) capitaneou um dos episódios de outra série, “Histórias Maravilhosas”, construída exatamente nos moldes daquela.

Usando e abusando de efeitos visuais na manutenção de seu humor –a visão de Meryl, com seu pescoço desconjuntado, e de Goldie, com uma cratera em seu peito, são incríveis! –“A Morte Lhe Cai Bem” deliberadamente recorre a ecos de Alfred Hitchcock para levar sua premissa divertidamente ácida e despreocupada às últimas consequências. Como cinema, ele não é nada demais (e essa despretensão parece estar em seus objetivos), contudo, certamente ele consegue entreter com sua inusitada trama sobre a imortalidade posta à prova por pura imaturidade de suas protagonistas, e com sua reflexão sobre as imprevistas consequências da combinação catastrófica entre vida eterna e futilidade, também ela, eterna!

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Adoráveis Mulheres

Na cerimônia do Oscar 2020, “Adoráveis Mulheres” fez uma bela campanha levando o Oscar de Melhor Figurino; e na categoria principal, lá estava ele também disputando o prêmio dentre suas seis (e merecidíssimas) indicações.
Inspirado no clássico romance de Louisa May Alcott, o filme escrito e dirigido por Greta Gerwig é a oitava (!) adaptação cinematográfica do livro para cinema –a mais recente havia sido lançada em 1994, pela diretora Gillian Armstrong, com Winona Ryder –e Greta, seja no roteiro, seja na direção, constrói seu filme plenamente conciente de que cada expectador que assistir sua obra já deve ter visto pelo menos uma das versões anteriores: Ela modifica a trama e suas circunstâncias, senão na essência, ao menos no formato, alterando a ordem cronológica, recriando cenas, remodelando o convencionalismo da narrativa e, no seu audacioso final, acrescentando um elemento ambíguo de metalinguagem.
Tudo isso, confere um frescor à “Adoráveis Mulheres” que certamente poucos presumiram que ele viesse a ter: Depois que a (ótima) atriz Greta Gerwig decidiu arriscar-se atrás das câmeras dirigindo o brilhante “Lady Bird”, obtendo espetacular êxito de público e crítica, o seu projeto seguinte –a adaptação do famoso romance de Alcott –parecia um passo ambicioso, o tipo de trabalho no qual um artista se arrisca a um épico tropeço após um fenomenal acerto.
É maravilhoso ver o quanto os pessimistas se enganaram: “Adoráveis Mulheres” de Greta salta com graça e sofisticação à frente de todas as demais versões (até mesmo as clássicas!) como a melhor, mais emotiva e arrebatadora transposição de Alcott feita para as telas.
Em grande parte, graças à sensibilidade de Greta Gerwig que compreende as alegrias e angústias de suas numerosas personagens, a emoção estrutural embutida em cada arco dramático da narrativa e, talvez –na qualidade, ela própria, de roteirista –as predisposições emocionais da própria Louisa May Alcott.
Provavelmente a mais completa atriz de sua geração, a jovem Saoirse Ronan interpreta a heroína Jo March; e na cena que abre o filme –Jo, aspirante à escritora, submetendo seus manuscritos à insensibilidade de um editor antiquado e inepto –já deixa claro alguns dos tópicos inesperados, acerca do empuxo criativo que espelha a protagonista e sua autora, dos quais ela quer tratar.
Jo vive à duras penas na Nova York dos anos 1860. Mora numa pensão. Tenta vender os contos literários que produz e encontrar um lugar ao sol como escritora. Mas, a vida para uma mulher de planos independentes em meados do Século XIX não é fácil.
Alternadamente à essa aspereza da realidade –registrada na belíssima fotografia em tons azuis –o filme regressa sete anos no tempo, mostrando quando Jo e suas irmãs viviam junto de sua mãe (Laura Dern), na humilde, porém, amorosa casa da família, tentando suportar a ausência do pai (Bob Odenkirk) que foi lutar na Guerra Civil –nesse período de tempo, por sua vez, as imagens surgem em tom amarelo pastel.
Cada uma das irmãs March tinha uma personalidade distinta: Além de Jo, havia a artista Amy (Florence Pugh, dando fascínio insuspeito a uma personagem normalmente irritante); a boa moça Meg (Emma Watson); e a adoecida Beth (Eliza Scanlen).
E cada uma experimenta também diferentes aspectos nos dois pólos de tempo, separados por sete anos, dos quais a narrativa se incumbe: Amy, antes à sombra de Jo, com quem vivia às turras, agora está na Europa com a rabugenta Tia March (Meryl Streep), e enquanto tenta fisgar um marido rico, se descobre atraída pelo amigo da família Laurie (o ótimo Timothée Chamalet), outrora apaixonado por Jo; Meg, cujo temperamento equilibrava as inconstâncias de humores das outras irmãs se vê, depois, em um casamento cheio de amor, mas assolado pelas provações da pobreza; e, por fim, Beth tem um novo surto de escarlatina (um outro já havia acometido anos antes), o que obriga Jo à deixar Nova York e voltar para o município de Concord, no estado de Massachussets, para cuidar dela –bem quando Jo, tão desprendida para os assuntos românticos, começava a descobrir, no imigrante Friedrich (Louis Garrell), um possível interesse amoroso.
Indo e vindo no tempo –formato inédito dado à trama –o filme de Greta Gerwig reestrutura com inteligência sua tão famosa história estabelecendo rimas poéticas entre o antes e o depois, sublinhando novas emoções àquelas já conhecidas e dando à tudo um ar renovado e vibrante: se “Lady Bird” foi uma prova de seu talento, “Adoráveis Mulheres” é a comprovação de uma competência inquestionável (tamanho é seu brilhantismo que sequer Meryl Streep, habituada a roubar cenas, consegue fazê-lo, tal é o nível altíssimo mantido por todo o elenco); a diretora consegue obter o mesmo efeito do livro no qual nos descobrimos profundamente afeiçoados às suas personagens depois de um tempo.
Sua grande contribuição à essa obra magnífica talvez seja mesmo o final, um interessante jogo de narrativa dúbia e ambiguidade ficcional, onde Greta Gerwig discute as razões mercadológicas de um final feliz –ou romanticamente satisfatório –no que diz respeito à sua protagonista.
Podem até haverem novas versões de “Adoráveis Mulheres” em algum momento no futuro; mas, será um tremendo desafio superar o primor e as emoções irreprimíveis dessa daqui.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

As Pontes de Madison

Como diretor, Clint Eastwood revelou sensibilidade e versatilidade que jamais seriam atribuídas a ele como ator, vide o recorrente papel de pistoleiro e\ou homem da lei ao qual sempre foi relacionado.
Na década de 1990, na esteira de sua consagração junto ao Oscar por “Os Imperdoáveis”, ele realizou projetos que o submeteram a sucessivas provas como realizador, um deles, o romance “As Pontes de Madison”, feito com insuspeita delicadeza.
Os irmãos Carolyn (Annie Corley, de “Seabisuit-Alma de Herói”) e Michael (Victor Slezak, de “Noivas Em Guerra”) reúnem-se em Madison, Iowa, após a morte de sua mãe, Francesca, para descobrirem estarrecidos que o último desejo dela não é ser enterrada ao lado do pai deles no jazigo da família, mas ser cremada e suas cinzas jogadas nas margens de uma ponte local.
Eles descobrem que, nessa ponte, também foram jogadas, anos antes, as cinzas de um fotógrafo da National Geographic, Robert Kincaid, com quem Francesca assim desejava se unir na morte.
Inicialmente indignados com a notícia tardia do adultério da mãe, Carolyn e Michael vão descobrindo os detalhes da história que eles viveram juntos –e que durou breves quatro dias –por meio de uma carta e três diários que a mãe lhes deixou.
Assim, somos lentamente conduzidos à trama principal, passada em 1965, quando a dona de casa Francesca Johnson (Meryl Streep, em uma das grandes interpretações de sua carreira) fica sozinha na fazenda da família quando o marido e os dois filhos partem para uma feira agropecuária.
Surge então no horizonte uma caminhonete trazendo Kincaid (Clint Eastwood, numa atuação supina, amigável e generosa) que a aborda com a inocente intenção de pedir informação: Ele se acha lá para fazer uma reportagem fotográfica sobre as pontes da região.
Diante da complexidade provinciana em explicar tais localizações a um forasteiro, Francesca tem a ideia de levá-lo até lá –e nesse percurso, a direção de Eastwood já registra os indícios de atração que surgem na linguagem corporal de Francesca.
Com a chegada do entardecer, ela o convida para jantar. Ele aceita. E, de circunstância em circunstância, de detalhe em detalhe, o filme de Eastwood vai assim, numa progressão completamente despreocupada com sua lentidão em direção metódica e consciente ao cerne de sua questão –uma postura narrativa que já não se encontra nem mesmo entre romances e melodramas construídos hoje em dia. Uma parcimônia para com o tempo de seus personagens e sua motivação, convidando o expectador a se inteirar de suas minúcias intimistas e não negligenciando seu ritmo às possíveis vontades do próprio público.
Em algum momento, sem nos darmos conta, o filme de Eastwood está então nos embriagando com um romantismo gradual, e uma percepção muito especial de envolvimento.
E, nesse sentido, nada nele brilha mais que Meryl Streep: Se ela já havia se consolidado como a grande atriz do cinema americano com uma sucessão de trabalhos que ostentavam uma técnica impecável de uma intérprete plena do conhecimento de seu ofício, Francesca, a protagonista de “As Pontes de Madison” é menos uma chance para manter-se nesse estilo de trabalho, e mais uma oportunidade para entregar ao público uma nova Meryl Streep, instintiva, intuitiva, vulnerável, despojada e despida de qualquer defesa.
Convicto do fulgor contagiante de sua estrela, o Clint Eastwood diretor, evidencia ela, e somente ela, fazendo de Francesca a estrela absoluta do filme, dando a ela a narração em off e o ponto de vista subjetivo de todas as sequências; e com isso, o Clint Eastwood ator surge em cena embevecido de dignidade, reverenciando a mulher maravilhosa e magnífica à sua frente, contribuindo para a química inigualável que estabelece com ela.
“As Pontes de Madison” não é o tipo de filme que merece uma crítica exagerada em termos técnicos: Tão embriagado de suas próprias emoções ele é, e tão perfeitamente capaz de  enternecer seus expectadores, que ao fim, a mensagem de Francesca para seus filhos, de que o amor (todas as formas de amor) suplanta as escolhas que fazemos em vida no objetivo às vezes tortuoso de fazer esse mesmo amor prevalecer, acaba sendo assimilada pelo público também.
Eis aqui uma prova cabal e comovente que Clint Eastwood, o ‘pistoleiro sem nome’, o ‘perseguidor implacável’, tem (e muito) coração, e que Meryl Streep não interpreta –ela sente!

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O Fantástico Senhor Raposo


Diretor de filmes live-action com frequência divididos entre a seriedade do drama e o surrealismo da comédia, Wes Anderson se valeu, aqui, do expediente da animação com a qual pode expressar seu estilo em condições que a encenação humana não permitia: Usando de personagens personificados por animais (dublados por um time espetacular de estrelas), de um domínio visual e cênico ainda maior do que aquele que exercia antes e despindo-se de certa dualidade inerente aos filmes encenados por atores, onde a atuação mascara a idealização, Anderson narrou um gracioso conto sobre as pulsões primitivas que nos norteiam.
Ainda que imensamente divertido, engana-se, contudo, quem supõe que esta é uma obra para crianças: “O Fantástico Sr. Raposo” é suficientemente adorável e leve para agradar aos pequenos, mas certamente é aos adultos que a narrativa parcimoniosa, um pouco cínica e cheia de subtexto quer falar.
O Sr. Raposo é... bem, uma raposa. Ele e sua esposa vivem a rotina normalmente arriscada de animais selvagens que vivem de roubar galinheiros. Raposo até sugere opções para sua esposa –qual caminho seguirem para voltar à toca, por exemplo –para deixá-la com uma agradável impressão de consideração; entretanto, ela nunca toma as decisões de fato: Raposo sempre a instiga pela escolha que ele deseja.
Com efeito, quando ela anuncia que espera um filhote –o quê exige que Raposo aposente-se da vida arriscada de ladrão de galinhas e arrume um trabalho mais tranquilo –o marido até consente. Mas, também isso se torna uma promessa vazia: Alguns anos depois de sossegar em sua toca, Raposo muda-se com a família para uma árvore cuja vizinhança inclui três fazendas cheias de iguarias tentadoras –e, logo, seu instinto não tarda a levá-lo a arquitetar estratagemas para roubar as galinhas de uma, as carnes defumadas de outra, e as preciosas garrafas de cidra de mais outra.
É nessa última que Raposo descobre um proprietário capaz de dispor de seus recursos para caçá-lo (e à todos os seus) custe o que custar.
Inspirado num livro do mesmo Roald Dahl que concebeu a premissa de “A Fantástica Fábrica de Chocolates”, o filme de Anderson emprega a subterfúgio óbvio de usar protagonistas animais numa animação para uma reflexão não tão óbvia: Até que ponto o instinto primário se sobrepõe às nossas escolhas.
Junto dessa questão, a condução descontraída de Anderson leva à outras mais: Quão erradas são tais escolhas mesmo que deixemos nosso instinto falar mais alto? Não estamos sendo, afinal, condizentes com nós mesmos?

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

The Post - A Guerra Secreta


Como em “Lincoln”, Steven Spielberg inicia “The Post” com uma poderosa cena de guerra (e nesse sentido, não há como superestimar o diretor que entregou a obra-prima “O Resgate do Soldado Ryan”) para então mergulhar num tipo completamente diferente de batalha.
A guerra do Vietnam segue seu curso controverso dividindo a opinião pública. O governo Nixon estabelece uma relação autoritária e intransigente com a imprensa como nenhum outro governo o fizera antes. É o princípio da década de 1970 quando o jornal The New York Times publica uma matéria bombástica: Um apanhado inicial de páginas –cuja origem é revelado no prólogo do filme, anos antes –que integra um estudo encomendado pelo então Secretário Norte-Americano de Defesa, Bob McNamara (Bruce Greenwood), sobre os rumos catastróficos tomados pela Guerra do Vietnam e que foram previstos por inúmeros especialistas a despeito da irredutibilidade do governo (e dos vários governantes que por ele passaram) em continuar enviando tropas americanas àquele combate.
O foco da narrativa de Spielberg, no entanto, nãos está nas pessoas de dentro do New York Times –que, quando muito, ganham a face mais ou menos reconhecível do ator Michael Stuhlbarg –mas, sim em seus concorrentes do Washington Post.
A editora Katharine Graham (Meryl Streep, soberba) se equilibra entre as melindrosas negociações com relutantes investidores –tão mais arredios por ver uma mulher à frente da empresa –o tenso e conturbado momento político –que termina fornecendo as mais inesperadas manchetes –e sua amizade genuína e longeva com o próprio ex-secretário McNamara –o que confere às suas decisões acerca das publicações um dilema a mais.
O redator-chefe Ben Bradlee (Tom Hanks, num papel que remete um pouco ao de “Ponte de Espiões”, sua colaboração anterior com Spielberg), junto de sua equipe. persegue por informações essenciais relativas ao envolvimento do governo dos EUA na situação do Vietnam, no que é sempre frustrado pela antecipação do pessoal do New York Times.
Entretanto, na segunda ocasião em que o jornal publica partes do estudo de McNamara, o New York Times recebe um intimidador processo da parte do governo dos EUA. Legalmente, os homens a serviço de Nixon os impedem de prosseguir com sua publicação.
Por uma ironia do destino, esse estudo, quase em sua totalidade, acaba indo parar nas mãos de alguns dos jornalistas do Washington Post, desejosos de perseguir a mesma fonte notável do New York Times.
Agora, porém, Katharine e o Washington Post como um todo têm um problema nas mãos: Devem publicar o estudo de McNamara dando prosseguimento à uma denúncia bombástica que o New York Times foi impedido de fazer, ou deve se omitir a fim de evitar um processo do governo Nixon, o quê poderia prejudicar sua própria funcionalidade como empresa e comprometeria seu futuro e o de seus funcionários.
Embora haja esse pano de fundo inescapavelmente político, o diretor Spielberg –cada vez mais hábil na condução de trama sérias, intrincadas e de linguajar elitista –molda um urgente e empolgante thriller sobre a importância da liberdade de expressão onde seu maior mérito é não somente lançar luz a uma história real brilhante e importante como também fazê-la completamente inteligível ao público, tornando cada guinada de sua história compreensível sem ser didática.
Ele ilustra brilhantemente a circunstância opressora de Katharine e sua constante tentativa de se impor com graciosidade num ambiente empresarial predominantemente masculino, bem como a busca incansável por transparência de Bradlee (aproveitando a oportunidade para capturar cada pérola da reunião em cena de Meryl Streep e Tom Hanks), enquanto registra, com economia louvável de maniqueísmo, os procedimentos adotados pelo governo Nixon durante essa crise optando por um genial desfecho onde termina seu filme no exato instante em que começa “Todos Os Homens Do Presidente” –uma reconstituição, por sua vez, do escândalo de Watergate, com o qual este filme de Spielberg tem imensa proximidade.
Talvez, o mais impressionante de tudo é que praticamente poucos meses antes de entregar um produto escapista e que, ao seu jeito, representa um marco na cultura pop (“Jogador N° 1”), o mesmo Spielberg teve o fôlego incansável para conceber um sério e poderoso thriller político no qual as concessões cada vez mais rasas da indústria pesam bem menos do que a força e o significado de sua história e mensagem: De que a imprensa, em sua obrigação para com o público, não deve e não pode se submeter à vontade de seus governantes.
Uma lição e tanto para a nossa condescendente mídia brasileira.

sábado, 26 de maio de 2018

Os Vencedores do Oscar 1980


Os reflexos da Nova Hollywood seguiam exigindo algum respeito no Oscar. Na cerimônia de 1980, foi a vez de “Apocalypse Now”, que a Academia reconheceu com duas míseras premiações, e de “A Rosa”, que foi reconhecido com algumas poucas indicações. Eles preferiram enaltecer o classicismo presente no musical de metalinguagem de Bob Fosse, “All That Jazz”, (com quatro prêmios) e, sobretudo, no polêmico (para a época) melodrama “Kramer Vs. Kramer” –que deu à Dustin Hoffman seu primeiro Oscar de Melhor Ator (ele concorreu com Peter Sellers, por “Muito Além do Jardim”) e o de Melhor Atriz Coadjuvante à Meryl Streep (o primeiro dos três que ela já ganhou).

MELHOR FILME
"Kramer Vs. Kramer"

MELHOR DIREÇÃO
"Kramer Vs. Kramer", Robert Benton

MELHOR ATRIZ
Sally Field, "Norma Rae"

MELHOR ATOR
Dustin Hoffman, "Kramer Vs. Kramer"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Meryl Streep, "Kramer Vs. Kramer"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Melvyn Douglas, "Muito Além do Jardim"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Apocalypse Now"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Tambor" (Alemanha)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS

MELHORES EFEITOS SONOROS
"O Corcel Negro"

MELHOR FIGURINO
"All That Jazz-O Show Deve Continuar"

MELHOR SOM
"Apocalypse Now"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"All That Jazz-O Show Deve Continuar"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“Um Pequeno Romance"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
“All That Jazz-O Show Deve Continuar"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"It Goes Like It Goes", de "Norma Rae"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Correndo Pela Vitória"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Kramer Vs. Kramer"

MELHOR MONTAGEM
"All That Jazz-O Show Deve Continuar"

sábado, 28 de abril de 2018

Os Vencedores do Oscar 1983

A Academia gosta mesmo de premiar atores que se aventuram atrás das câmeras. Foi assim na cerimônia do Oscar de 1983 onde saiu vitorioso o veterano ator inglês Richard Attenborough por sua empreitada como diretor no épico pacifista “Gandhi” –só isso para justificar mesmo sua vitória sobre diretores renomados e em trabalhos fabulosos que concorriam ao mesmo prêmio como Sidney Pollack, por “Tootsie” (que, pelo menos, levou a estatueta de Atriz Coadjuvante para a belíssima Jessica Lange) e Steven Spielberg, por “E.T. O Extraterrestre” (que ficou com quatro prêmios técnicos), ou o alemão Wolfgang Petersen em “O Barco-Inferno No Mar” que entregava um trabalho notável e sufocante.
“Gandhi” também deu o Oscar de Melhor Ator ao grande Ben Kingsley –o curioso é que Kingsley só passou a ter uma carreira regular em bons projetos quase uma década depois de sua premiação.
A cerimônia de 83 também marcou a vitória inquestionável e inevitável da extraordinária Meryl Streep por aquele que talvez seja o grande trabalho de toda sua carreira, o poderoso e doloroso “AEscolha de Sofia”.

MELHOR FILME
"Gandhi"

MELHOR DIREÇÃO
"Gandhi", Richard Attenborough

MELHOR ATRIZ
Meryl Streep, "A Escolha de Sofia"

MELHOR ATOR
Ben Kingsley, "Gandhi"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jessica Lange, "Tootsie"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Louis Gosset Jr., "A Força do Destino"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Gandhi"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Começar de Novo" (Espanha)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"E.T. O Extraterrestre"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"E.T. O Extraterrestre"

MELHOR MAQUIAGEM

MELHOR FIGURINO
"Gandhi"

MELHOR SOM
"E.T. O Extraterrestre"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Gandhi"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“E.T. O Extraterrestre"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Up Where We Belong", de "A Força do Destino"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Gandhi"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Desaparecido"

MELHOR MONTAGEM
"Gandhi"

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

As Horas

Adaptação de uma obra literária do escritor Michael Cunningham, ganhador do prêmio Pulitzer, este “As Horas” pode não ser meramente acessível a quem não tem idéia do exercício narrativo proposto naquele livro –e, por conseqüência, neste filme, dirigido com eficácia e alguma frieza por Stephen Daldry (do ótimo “Billy Elliot”).
Cunningham parte de uma dissertação na forma de três histórias complementares uma à outra que versam sobre a premissa embutida no livro “Mrs. Dolloway”, de Virginia Woolf (onde são relatadas as 24 horas de sua protagonista, uma organizadora de festas às voltas as obrigações detalhistas de seu trabalho e o pungente fantasma da depressão) –“As Horas” é, por sinal, o título que a escritora inicialmente almejou para sua obra.
Em Los Angeles nos anos 1940, a dona de casa depressiva Laura Brown (Julianne Moore, impecável), não por acaso, uma leitora do livro "Mrs. Dolloway", ao mesmo tempo que é negligenciada pelo marido obtuso e relapso (John C. Reilly) passa toda uma tarde considerando a idéia de suicídio, para a aflição de seu filho pequeno que aos poucos vai se dando conta da infelicidade inominável da mãe.
Já, em Nova York nos anos 1990, a metódica Clarissa Vaughan (Meryl Streep, em sua excelência de sempre) por sua vez a própria personificação da personagem do livro (ela também é organizadora de festas), prepara o evento do aniversário de seu melhor amigo, um artista plástico homossexual (vivido por Ed Harris) cuja saúde se acha deteriorada pela AIDS.
Enquanto que, numa afastada mansão da Londres dos anos 1920, a própria Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível e vencedora do Oscar de Melhor Atriz), às voltas com o ainda manuscrito do próprio "Mrs. Dolloway" questiona suas orientações como escritora e como mulher.
O resultado desse empenhado esforço em depositar a relevância literária numa narrativa cinematográfica que agregasse também seu valor artístico, acabou rendendo um filme denso e difícil, debruçado sobre a irreprimível depressão de suas personagens. Nada, nem mesmo as ocasionais e espirituosas transições de uma trama para outra, são capazes de amenizar a carga dramática que ele emana, fazendo deste um trabalho um tanto quanto inacessível e desgastante.
Toda essa austeridade e compromisso fizeram uma bela campanha na temporada de premiações e no Oscar 2002 (ainda que o prêmio de Melhor Atriz para Nicole tenha sido a única honraria que de fato recebeu).
Em tempo: Foi realizada em 1997, uma adaptação do próprio “Mrs. Dolloway”, estrelada por Vanessa Redgrave e dirigida por Marleen Gorris (de “A Excêntrica Família de Antonia”).

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A Escolha de Sofia

Acho que Meryl Streep já acumulou mais de vinte indicações ao Oscar –dessas, ganhou três –entretanto, por mais sensacionais que sejam os trabalhos pelos quais ela é lembrada nos últimos anos (como o divertido “O Diabo Veste Prada” ou “A Dama de Ferro”), nenhum, absolutamente nenhum deles se compara àquele que considero o melhor trabalho de toda sua carreira: A atuação nunca menos que primordial que ela entrega em “A Escolha de Sofia”.
Por ela, Meryl venceu o Oscar de Melhor Atriz em 1983, derrotando inclusive o fenomenal trabalho de Julie Andrews em “Victor ou Victoria”.
É muito justo.
A Sofia Zawistowska de Meryl Streep, no filme, é alguém que conhecemos aos poucos. A narrativa se inicia pelo ponto de vista do jovem Stingo (Peter MacNicol), um típico jovem em busca do sucesso como escritor que muito lembra o protagonista de “Pergunte Ao Pó”, livro e filme. No ano de 1947, Stingo, jovem e pouco conhecedor de todas as vastidões do mundo se muda para uma hospedaria no bairro do Brooklyn, em Nova York, em busca de sossego para escrever um livro baseado no pouco que conhece a fundo: Sua própria vida.
Os moradores do andar de cima são um casal cujo relacionamento parece turbulento: Sofia, uma imigrante polonesa que passou pelos campos de concentração em Auschwitz, e Nathan (o sempre ótimo Kevin Kline), um judeu eufórico, carismático, fascinante e passional.
Stingo se torna grande amigo deles e vê uma nova e esplendorosa janela para o mundo se abrir. A medida que o filme avança, o diretor (também roteirista) Alan J. Pakula flerta com as possibilidades do filme: O título e sua primeira parte fazem supor que irá se tratar de um triângulo amoroso –e a ‘escolha de Sofia’, por assim dizer, será entre um dos dois homens, já que Stingo não tarda a deixar-se enamorar por ela; e tão cativante, minuciosa e autêntica é a composição de Meryl que entendemos plenamente o porque disso –aliás, a caracterização que ela faz aqui, uma das mais admiráveis do cinema, deve ter sido a inspiração para Jessica Chastain em “O Zoológico de Varsóvia”, os mesmos trejeitos no sotaque, a mesma modulação de voz.
Embora narrador do filme e certamente os olhos do público, Stingo é, de fato, um expectador de toda a história na maior parte do tempo. Ele testemunha, inicialmente passivo, as atitudes bipolares de Nathan em relação a Sofia e à ele próprio (num momento, é carinhoso, apaixonado e leal, no outro, tem rompantes injustificáveis de desconfiança e de agressividade), no entanto, apesar de no decorrer do filme, Stingo enxergar em si mesmo um companheiro mais merecedor de Sofia do que o próprio Nathan, algo sempre impele Sofia de volta para ele. Ela precisa de Nathan. E Nathan precisa dela.
Sofia (como ficará claro na brilhante e detalhada atuação de Meryl) sofreu tanto que não tem vontade de viver. É Nathan, com sua sede de vida, que consegue restituir nela uma capacidade real de sorrir e de seguir em frente.
E Nathan vê sua loucura interior ser aplacada somente pelo amor incondicional de Sofia.
Aos poucos, conforme a amizade com Stingo se aprofunda, tanto Sofia quanto Nathan terão os segredos que ocultam um do outro revelados.
Nathan é esquizofrênico e Sofia... bem, Sofia é, neste filme poderosamente comovente, um caso completamente à parte.
Quando a narrativa mergulha em suas próprias revelações e o filme regressa ao período da ocupação nazista à Polônia, somos pouco a pouco informados dos detalhes da vida pregressa de Sofia, na qual ela tinha um marido (que logo morreu) e um casalzinho de filhos. É aí, quando Sofia confidencia o acontecimento para Stingo num quarto de hotel onde ele se declara para ela, que descobrimos, afinal, do que realmente se trata a ‘escolha de Sofia’, naquela que deve ser uma das mais tristes cenas do cinema –são cinqüenta e cinco segundos absolutamente dolorosos!
Apesar de não trazer a mesma análise moral e histórica do livro de William Styron no qual se baseia, este belo trabalho do diretor Pakula (talvez, o melhor dele), se impõe como um dos grandes retratos já moldados sobre as conseqüências do nazismo, abrilhantado e engrandecido pela presença sem igual de Meryl Streep cujo talento consegue criar uma série de momentos contundentes que ficarão por muito tempo na memória.