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domingo, 28 de abril de 2024

Intruso


 Mais intrigante do que instigante, o filme de Garth Davis (diretor de “Lion-Uma Jornada Para Casa”, filme indicado ao Oscar 2016) é uma adaptação do livro de Iain Reid, um conto sucinto e objetivo de suspense e ficção científica. Antes de sua estréia a obra até vinha sendo especulada para alguns prêmio, mas sua péssima recepção (sobretudo, de público) talhou essas intenções. Uma pena: Há certos méritos a serem apontados neste filme, embora ele realmente se posicione antagonicamente às obras do circuito comercial com sua narrativa lenta e contemplativa e seu viés melancólico.

O ano é 2067. A Terra e seus recursos naturais –como já é alardeado nos dias de hoje! –já não albergam a sanha de consumo da raça humana. Uma incursão iminente no espaço sideral se faz necessária. O casal de fazendeiros Hen (Saoirse Ronan, sempre fabulosa) e Júnior (Paul Mescal, ótimo), até por morarem num rincão distante dessas celeumas, consideram esses assuntos alheios à eles. Isso até a noite em que recebem a visita de um certo Terrance (Aaron Pierre, de “Tempo”) que afirma ser enviado de uma empresa, a Outer More, cujos voos espaciais planejados para alguns anos incluem a presença obrigatória de Júnior.

Negar em função de sua vida na fazenda ao lado de Hen –e da comodidade que sempre o norteou como pessoa –não é uma opção: Júnior TEM que ir, afirma Terrance. Entretanto, a empresa, disposta a tornar o processo mais, digamos, fácil para ambos, enviará Terrance algum tempo depois a fim de colher dados do casal com um objetivo estranho e específico; eles irão criar uma duplicata de Júnior (!) para fazer companhia a Hen durante sua ausência, de modo que ela praticamente não sinta a sua falta.

Após largar essa revelação bombástica ao jovem casal –cuja relação, as primeiras cenas já parecem sugerir, não ia lá muito bem dar pernas –o engravatado Terrance parte, retornando pouco mais de um ano depois, levando Júnior e especialmente Hen a se indagar se a circunstância do casamento dos dois será capaz de sobreviver a essa imprevista provação.

A exemplo da narrativa do próprio livro em que se baseia, o filme de Garth Davis é econômico nas informações que entrega ao expectador, reservando dessa forma uma grande surpresa em seu desfecho, embora seja possível, aos aficcionados de tramas com guinadas inesperadas, presumir qual é a grande reviravolta final.

Contudo, o trabalho de Garth Davis ainda consegue o não tão comum feito de ombrear (ou até ultrapassar) a qualidade de sua fonte literária devido ao esmero no quesito visual (o enredo elabora todo um ambiente de futurismo agrícola, incomum no cinema, o qual é materializado em cena graças à hábil e prodigiosa conjugação dos bons trabalhos de fotografia, direção de arte e efeitos digitais), e à presença luminosa de seu casal central –e nesse sentido, não há como não colocar o nome de Saoirse Ronan à frente: No papel da introvertida e estranhamente angustiada Hen, a talentosa Saoirse potencializa e valoriza cada um dos tópicos sobre relacionamento a dois que pontua a grande totalidade da reflexão que o filme propõe dando expressividade insuspeita e palpitante a uma personagem de poucas palavras, que se comunica mais com o olhar, e ainda assim, administrando elementos que preservam a surpresa que aguarda o expectador em seu desenlace.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Adoráveis Mulheres

Na cerimônia do Oscar 2020, “Adoráveis Mulheres” fez uma bela campanha levando o Oscar de Melhor Figurino; e na categoria principal, lá estava ele também disputando o prêmio dentre suas seis (e merecidíssimas) indicações.
Inspirado no clássico romance de Louisa May Alcott, o filme escrito e dirigido por Greta Gerwig é a oitava (!) adaptação cinematográfica do livro para cinema –a mais recente havia sido lançada em 1994, pela diretora Gillian Armstrong, com Winona Ryder –e Greta, seja no roteiro, seja na direção, constrói seu filme plenamente conciente de que cada expectador que assistir sua obra já deve ter visto pelo menos uma das versões anteriores: Ela modifica a trama e suas circunstâncias, senão na essência, ao menos no formato, alterando a ordem cronológica, recriando cenas, remodelando o convencionalismo da narrativa e, no seu audacioso final, acrescentando um elemento ambíguo de metalinguagem.
Tudo isso, confere um frescor à “Adoráveis Mulheres” que certamente poucos presumiram que ele viesse a ter: Depois que a (ótima) atriz Greta Gerwig decidiu arriscar-se atrás das câmeras dirigindo o brilhante “Lady Bird”, obtendo espetacular êxito de público e crítica, o seu projeto seguinte –a adaptação do famoso romance de Alcott –parecia um passo ambicioso, o tipo de trabalho no qual um artista se arrisca a um épico tropeço após um fenomenal acerto.
É maravilhoso ver o quanto os pessimistas se enganaram: “Adoráveis Mulheres” de Greta salta com graça e sofisticação à frente de todas as demais versões (até mesmo as clássicas!) como a melhor, mais emotiva e arrebatadora transposição de Alcott feita para as telas.
Em grande parte, graças à sensibilidade de Greta Gerwig que compreende as alegrias e angústias de suas numerosas personagens, a emoção estrutural embutida em cada arco dramático da narrativa e, talvez –na qualidade, ela própria, de roteirista –as predisposições emocionais da própria Louisa May Alcott.
Provavelmente a mais completa atriz de sua geração, a jovem Saoirse Ronan interpreta a heroína Jo March; e na cena que abre o filme –Jo, aspirante à escritora, submetendo seus manuscritos à insensibilidade de um editor antiquado e inepto –já deixa claro alguns dos tópicos inesperados, acerca do empuxo criativo que espelha a protagonista e sua autora, dos quais ela quer tratar.
Jo vive à duras penas na Nova York dos anos 1860. Mora numa pensão. Tenta vender os contos literários que produz e encontrar um lugar ao sol como escritora. Mas, a vida para uma mulher de planos independentes em meados do Século XIX não é fácil.
Alternadamente à essa aspereza da realidade –registrada na belíssima fotografia em tons azuis –o filme regressa sete anos no tempo, mostrando quando Jo e suas irmãs viviam junto de sua mãe (Laura Dern), na humilde, porém, amorosa casa da família, tentando suportar a ausência do pai (Bob Odenkirk) que foi lutar na Guerra Civil –nesse período de tempo, por sua vez, as imagens surgem em tom amarelo pastel.
Cada uma das irmãs March tinha uma personalidade distinta: Além de Jo, havia a artista Amy (Florence Pugh, dando fascínio insuspeito a uma personagem normalmente irritante); a boa moça Meg (Emma Watson); e a adoecida Beth (Eliza Scanlen).
E cada uma experimenta também diferentes aspectos nos dois pólos de tempo, separados por sete anos, dos quais a narrativa se incumbe: Amy, antes à sombra de Jo, com quem vivia às turras, agora está na Europa com a rabugenta Tia March (Meryl Streep), e enquanto tenta fisgar um marido rico, se descobre atraída pelo amigo da família Laurie (o ótimo Timothée Chamalet), outrora apaixonado por Jo; Meg, cujo temperamento equilibrava as inconstâncias de humores das outras irmãs se vê, depois, em um casamento cheio de amor, mas assolado pelas provações da pobreza; e, por fim, Beth tem um novo surto de escarlatina (um outro já havia acometido anos antes), o que obriga Jo à deixar Nova York e voltar para o município de Concord, no estado de Massachussets, para cuidar dela –bem quando Jo, tão desprendida para os assuntos românticos, começava a descobrir, no imigrante Friedrich (Louis Garrell), um possível interesse amoroso.
Indo e vindo no tempo –formato inédito dado à trama –o filme de Greta Gerwig reestrutura com inteligência sua tão famosa história estabelecendo rimas poéticas entre o antes e o depois, sublinhando novas emoções àquelas já conhecidas e dando à tudo um ar renovado e vibrante: se “Lady Bird” foi uma prova de seu talento, “Adoráveis Mulheres” é a comprovação de uma competência inquestionável (tamanho é seu brilhantismo que sequer Meryl Streep, habituada a roubar cenas, consegue fazê-lo, tal é o nível altíssimo mantido por todo o elenco); a diretora consegue obter o mesmo efeito do livro no qual nos descobrimos profundamente afeiçoados às suas personagens depois de um tempo.
Sua grande contribuição à essa obra magnífica talvez seja mesmo o final, um interessante jogo de narrativa dúbia e ambiguidade ficcional, onde Greta Gerwig discute as razões mercadológicas de um final feliz –ou romanticamente satisfatório –no que diz respeito à sua protagonista.
Podem até haverem novas versões de “Adoráveis Mulheres” em algum momento no futuro; mas, será um tremendo desafio superar o primor e as emoções irreprimíveis dessa daqui.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Lady Bird - É Hora de Voar


Antes de Greta Gerwig apenas outras quatro mulheres foram indicadas ao Oscar de Melhor Direção. Foram elas: Lina Wertmüller (“Pasqualino Sete Belezas”), Jane Campion (“O Piano”), Sofia Coppola (“Encontros e Desencontros”) e Kathryn Bigelow (“Guerra Ao Terror”), esta última sendo a única a de fato conquistar o prêmio.
É com um filme notadamente autobiográfico, todo cheio de sutilezas e acertos técnicos e artísticos incontestes que Gerwig (que ganhou fama como atriz em filmes como “Frances Ha” e “Miss América”) vem a se incluir nesse seleto grupo.
A adolescente Christine McPherson (Saoirse Ronan, como sempre sensacional) alimenta uma rebeldia de tal modo existencial que contesta o próprio nome que tem: Diz a todos que prefere ser chamada de Lady Bird!
O filme do qual é protagonista acompanha sua rotina, suas experiências e impressões tornando-a tão próxima da gente que em pouco tempo parecemos estar acompanhando o diário íntimo de uma amiga pessoal.
Ela flerta com suas primeiras possibilidades de namoradinhos, o sensível Danny (Lucas Hedge, de “Manchester À Beira-Mar”) e o tão boçal quanto desajustado Kyle (Timothée Chamalet), e vivencia dramas até corriqueiros antes de sua formatura –e bastante comuns à filmes que adotam tal tema –que ganham notável pertinência na hábil narrativa.
Moradora de Sacramento –cidadezinha cuja normalidade a angustia –Lady Bird sonha com a cosmopolita Nova York, para a qual alimenta sonhos de ir aproveitando a deixa de sua ida para a faculdade.
Mas, Marion, a mãe de Lady Bird (a ótima Laurie Metcalf) não compactua com tal ideia. Porque a família não tem condições financeiras para isso (o quê leva Lady Bird a tomar suas medidas indo atrás de uma bolsa de estudos). Porque existem boas faculdades ali perto que até então satisfizeram muito bem os membros anteriores da família (e assuntos como esse já começam a fomentar as ocasionais brigas entre as duas). E porque Marion, apesar de nunca conseguir expressar ou verbalizar, ama Lady Bird e lhe é doloroso vê-la ir embora –e esse detalhe crucial não ficaria nítido para o expectador não fosse o fato deste filme singelo ser realizado com perícia absoluta: Em tanta coisa “Lady Bird” acerta que recebeu merecidas indicações ao Oscar 2018.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Indicados Ao Oscar 2018

E eis que saíram então os indicados ao Oscar 2018. Vamos a eles:

Melhor Filme
Me Chame Pelo Seu Nome
O Destino de Uma Nação
Dunkirk
Corra! 

Lady Bird – É Hora de Voar
Trama Fantasma
The Post – A Guerra Secreta
A Forma da Água
Três Anúncios Para Um Crime

Melhor Diretor
Christopher Nolan, por “Dunkirk”
Greta Gerwig, por “Lady Bird – É Hora de Voar”
Jordan Peele, por “Corra!”
Guillermo Del Toro, por “A Forma da Água”
Paul Thomas Anderson, por “Trama Fantasma”

A vitória no Globo de Ouro faz de “Três Anúncios Para Um Crime” o mais forte dos indicados, embora “A Forma da Água” se destaque no número de indicações (13 no total). Como costuma acontecer, devem ser esses dois títulos que irão polarizar as apostas. Curioso é a ausência de “Três Anúncios...” na categoria de Melhor Diretor –o quê pode fazer dele, se ganhar, o primeiro vencedor do Oscar de Melhor Filme sem ser indicado a categoria de Diretor desde “Argo”.
Nesse sentido, o caminho está livre para Guillermo Del Toro, ainda que haja tempo para todos os outros indicados ganharem mais força, sobretudo, Christopher Nolan e Greta Gerwig.

Melhor Atriz
Sally Hawkins, por “A Forma da Água”
Frances McDormand, por “Três Anúncios Para Um Crime”
Margot Robbie, por “Eu, Tonya”
Saoirse Ronan, por “Lady Bird – É  Hora de Voar”
Meryl Streep, por “The Post – A Guerra Secreta”

E aí está Meryl Streep outra vez. Tudo bem que tirando o lugar de muitas atrizes que entregaram trabalhos talvez até superiores ao dela, como Emma Stone ou Jessica Chastain. Mas, é muito bom ver que Margot Robbie foi lembrada pelo que é, até então, seu melhor trabalho. Sally Hawkins pode surpreender, entretanto, a briga ficará mesmo entre a veterana Frances McDormand –já vencedora da estatueta por “Fargo”, em 1998 –e a jovem Saoirse Ronan. A primeira até tem um certo favoritismo, mas é pela segunda que estou torcendo.

Melhor Ator
Timothée Chalamet, por “Me Chame Pelo Seu Nome”
Daniel Day-Lewis, por “Trama Fantasma”
Daniel Kaluuya, por “Corra!”
Gary Oldman, por “O Destino de Uma Nação”
Denzel Washington, por “Roman J. Israel, Esq.”

Espero que tenha chegado mesmo a hora de Gary Oldman. Dentre tantos atores consagrados, ele é um daqueles casos absurdos que nunca levou um Oscar –até mesmo indicação ele possuía apenas uma, por “O EspiãoQue Sabia Demais”.
E já que deixaram James Franco e sua impecável caracterização de Tommy Wiseau de fora dos indicados, é justo dizer que Oldman é, de longe, o maior merecedor do prêmio.

Melhor Roteiro Adaptado
Me Chame Pelo Seu Nome
Artista do Desastre
A Grande Jogada
Logan
Mudbound

Melhor Roteiro Original
Doentes de Amor
Corra!
A Forma da Água
Lady Bird – É Hora de Voar
Três Anúncios Para Um Crime

O público ficou maravilhado com a indicação de “Logan” para Roteiro Adaptado, embora essa seja uma tática comum da Academia –reconhecer um grande filme fora dos padrões tradicionalistas do prêmio com uma indicação menor –e ele não tem muitas chances concorrendo com francos favoritos como “A Grande Jogada” e, em especial, “Me Chame Pelo Seu Nome”.
O prêmio de Roteiro Original deve reprisar a disputa da categoria de Melhor Atriz ficando entre “Lady Bird” e “Três Anúncios Para Um Crime”.

Melhor Ator Coadjuvante
Willem Dafoe, por “Projeto Flórida”
Woody Harrelson, por “Três Anúncios Para Um Crime”
Richard Jenkins, por “A Forma da Água”
Sam Rockwell, por “Três Anúncios Para Um Crime”
Christopher Plummer, por “Todo o Dinheiro do Mundo”

Melhor Atriz Coadjuvante
Mary J. Blige, por “Mudbound”
Allison Janney, por “Eu, Tonya”
Lesly Manville, por “Trem Fantasma”
Laurie Metcalf, por “Lady Bird – É Hora de Voar”
Octavia Spencer, por “A Forma da Água”

Eis que Richard Jenkins abocanhou uma indicação quando muitos esperavam seu colega de elenco, Michael Shannon. De qualquer maneira, o prêmio está quase nas mãos de Sam Rockwell, favoritíssimo, embora os belíssimos trabalhos de Willem Dafoe e até de seu parceiro Woody Harrelson, no mesmo filme não devam ser subestimados.
Entre as atrizes, dificilmente o Oscar escapará das mãos da competente Allison Janney, no único prêmio pelo qual “Eu, Tonya” é, de fato, o favorito.

Melhor Filme Estrangeiro
Uma Mulher Fantástica (Chile)
O Insulto (Líbano)
Loveless (Rússia)
On Body and Soul (Hungria)
The Square – A Arte da Discórdia (Suécia)

Muitos torcem pela surpreendente qualidade do chileno “Uma Mulher Fantástica”, mas “The Square” vem forte com a premiada campanha no Festival de Cannes –talvez, seja sua grande chance já que o filme que o derrotou no Globo de Ouro, “In The Pieces” não está indicado.

Melhor Longa de Animação
O Poderoso Chefinho
Viva – A Vida é uma Festa
O Touro Ferdinando
Com Amor, Van Gogh
The Breadwinner

Os trabalhos em animação de 2017 não foram tão altíssima qualidade a julgar pela presença de obras que dividiram a crítica como “O Poderoso Chefinho” e “O Touro Ferdinando”.
Contudo, houve espaço para o adulto e quase experimental “Com Amor, Van Gogh” e para aquela que deve ser francamente a grande animação do ano, “Viva-A Vida É Uma Festa”.

Melhor Edição
Dunkirk
Eu, Tonya
A Forma da Água
Três Anúncios Para Um Crime

Melhor Design de Produção
A Bela e a Fera
Blade Runner 2049
O Destino de uma Nação
Dunkirk
A Forma da Água

Melhor Fotografia
Blade Runner 2049
O Destino de uma Nação
Dunkirk
Mudbound
A Forma da Água

Melhor Figurino
A Bela e a Fera
O Destino de uma Nação
Trama Fantasma
A Forma da Água
Victória e Abdul

Melhor Maquiagem e Cabelo
O Destino de Uma Nação
Extraordinário
Victória e Abdul

Melhores Efeitos Visuais
Star Wars – Os Últimos Jedi
Blade Runner 2049
Guardiões da Galáxia Vol. 2
Kong – A Ilha da Caveira
Planeta dos Macacos – A Guerra

A predominância de “Blade Runner 2049” nas categorias técnicas já era uma coisa esperada, uma compensação por sua injusta ausência entre os indicados principais.
Na categoria de Efeitos Visuais, ele deve bater de frente com o novo “Star Wars”, embora tenha sido hábito da Academia, nos últimos anos, surpreender com suas escolhas (vide o inesperado “Ex-Machina” derrotar o próprio “Star Wars-O Despertar da Força” e “Mad Max-Estrada da Fúria”), o quê abre margem para o ótimo “Planeta dos Macacos-A Guerra” surpreender.

Melhor Mixagem de Som
Em Ritmo de Fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi

Melhor Edição de Som
Em Ritmo de Fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi

Talvez seja a primeira vez que, nas duas categorias de sonoplastia, a Academia ousa repetir exatamente os mesmos indicados –se o mesmo ocorrerá com o vencedor é a grande pergunta. Sabe-se lá quais critérios que os membros votantes usam para discernir o que é Mixagem e o que é Edição de Som...

Melhor Curta de Animação
Dear Basketball
Garden Park
Lou
Negative Space
Revolting Rhymes

Melhor Curta
Dekalb Elementary
The 11 o’clock
My Nephew Emmett
The silent Child
Waty Wote/All of us

Melhor Canção Original
“Remember Me” – Viva – A Vida é Uma Festa
“This is Me” – O Rei do Show
Mighty River” – Mudbound
“Mystery of Love” – Me Chame Pelo Seu Nome
“Stand Up for Something” – Marshall

Melhor Trilha Sonora
Dunkirk
Trem Fantasma
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi
Três Anúncios Para Um Crime

A Canção será uma disputa entre “Viva” –até então o favorito –e “O Rei do Show” –que surpreendeu derrotando-o no Globo de Ouro –como essa é a única indicação recebida pelo filme com Hugh Jackman (antes cotado até para as nomeações principais) este pode acabar sendo um premio de consolação.
Já na Trilha Sonora, os concorrentes mais fortes são “Dunkirk” –com um trabalho de Hans Zimmer essencial à narrativa do filme –e a belíssima partitura de Alexander Desplat para “A Forma da Água” –ele já ganhou o Globo de Ouro.

Melhor Documentário
Abacus: Small Enough to Jail
Faces Places
Icarus
Last Men in Aleppo
Strong Island

Melhor Documentário de Curta
Edith+Eddie
Heaven is a Traffic Jam on the 405
Heroin(e)
Kayayo: The Living Shopping Baskets
Knife Skills
Traffic Stop

A entrega dos prêmios será dia 4 de março.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Vencedores do Globo de Ouro 2018

Até pela forma com que representa uma alternativa mais descontraída em relação ao Oscar, o Globo de Ouro, em comparação, resulta numa premiação mais satisfatória e menos frustrante aos olhos do público no que diz respeito ao merecimento de quem leva o prêmio.
A cerimônia de 2018 ilustrou bem essa característica premiando muita gente que realmente merecia levar, tratando de forma bem-humorada e graciosa as grandes repercussões do ano passado (em especial as denúncias de abuso sexual), enaltecendo a atitude cada vez mais pertinente nas mulheres dentro da indústria e fazendo algumas justiças que não sei se irão se perpetuar ao longo da temporada de premiações.

Melhor Ator Coadjuvante
Sam Rockwell (Três Anúncios Para Um Crime)

Melhor Trilha Original
A Forma da Água

Melhor Canção Original
"This Is Me" (O Rei do Show)

Melhor Atriz Coadjuvante
Allison Janney (Eu, Tonya)

Concorrendo em Canção Original com uma porção de animações –tradicionalmente os habituais ganhadores do prêmio –“O Rei do Show” conquistou seu primeiro (e, no fim das contas, único) globo de ouro superando o trabalho dos mesmos compositores do premiado “Frozen”, desta vez numa obra da Pixar, “Viva-A Vida É Uma Festa”.
Tanto “Três Anúncios Para Um Crime” e “A Forma da Água” já começaram indicando seu favoritismo levando os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Trilha Sonora, respectivamente –ainda que, na categoria dos atores, minha torcida estivesse dividida entre Christopher Plummer e Willem Dafoe, dos quais sou fã; mas, parece que o trabalho de Sam Rockwell é ótimo, e ele sempre mandou muito bem. Também foi muito bom ver a sensacional Allison Janney conquistar o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no único prêmio concedido ao elogiado “Eu, Tonya”.

Melhor Ator - Comédia ou Musical
James Franco (O Artista do Desastre)

Também o único prêmio concedido à “O Artista do Desastre”, mas este caso é todo especial. Pelo merecimento de James Franco, pela origem e natureza incomum do filme que ele realizou e pela hilária participação do próprio Tommy Wiseau no discurso de agradecimento James Franco (que precisou até controlar Wiseau para não tomar seu lugar no microfone!).

Melhor Filme de Animação
Viva-A Vida É Uma Festa

Melhor Filme Estrangeiro
In The Fade

A Pixar, mais uma vez, sagrou-se vencedora na categoria de animação (resultado que certamente se repetirá no Oscar), muitos dizem que “Viva-A Vida É Uma Festa” é um de seus melhores trabalhos dos últimos anos. Seria ele tão bom quando “Divertida Mente”?
O diretor Faith Akin e a atriz Diane Kruger subiram no palco para receber o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro por “In The Fade” –que, aqui no Brasil, deve se chamar “Em Pedaços” –superando os alardeados “The Square” e “First They Kill My Father”.

Melhor Roteiro
Martin McDonagh (Três Anúncios Para Um Crime)

Melhor Diretor
Guillermo Del Toro (A Forma da Água)

Foi bonito ver a consagração de Guillermo Del Toro por seu “A Forma da Água” –ele pediu um minuto a mais para seu discurso já que esperou vinte e cinco anos por aquele momento –ainda que seu filme tivesse ficado mesmo nas categorias de Melhor Trilha Sonora e Melhor Diretor. Pouco para uma obra que dominava as indicações.
Legal foi a alfinetada que a apresentadora Natalie Portman deu aos votantes do Globo de Ouro: Numa cerimônia marcada por discursos feministas, e num ano marcado por ótimos trabalhos realizados por mulheres, eles insistiram em indicar cinco homens à categoria de diretor!
A partir do prêmio de Melhor Roteiro, o favoritismo de “Três Anúncios Para Um Crime” começou assim a se desenhar.

Melhor Atriz - Comédia ou Musical
Saiorse Ronan (Lady Bird-É Hora de Voar)

Melhor Comédia ou Musical
Lady Bird-É Hora de Voar

Outro filme que representou um belo destaque foi “Lady Bird-É Hora de Voar”: Sua protagonista, a fantástica Saiorse Ronan, derrotou fortes candidatas como Emma Stone (a vencedora do ano passado), por “Guerra dos Sexos”, Margot Robbie, por “Eu, Tonya” e a venerável Judi Dench, por “Victoria e Abdul”.
O próprio filme “Lady Bird”, que conquistou uma aprovação sem precedentes por parte da crítica, surpreendeu ao vencer a categoria principal de Melhor Filme de Comédia ou Musical deixando para trás os cotadíssimos “O Rei do Show” e “O Artista do Desastre”.
O discurso de agradecimento de Greta Gerwig (diretora do filme) foi muito propício e emocionado, vindo logo depois da homenagem destruidora feita à Oprah Winfrey, com o prêmio Cecil B. DeMille. Sem dúvida, o grande momento da noite.

Melhor Ator - Drama
Gary Oldman (O Destino de Uma Nação)

A impressão mais forte passada neste Globo de Ouro –além claro da crítica contundente aos abusos sexuais e à exaltação perene à iniciativa das mulheres –foi a de que a premiação fez justiça na medida do possível. Foi essa a sensação passada no prêmio de Melhor Ator Cômico para James Franco e, certamente, foi ainda maior ao enfim premiar o grande Gary Oldman por sua metamorfose em Winston Churchill no filme “O Destino de Uma Nação”.
Tudo caminha para um reconhecimento muito merecido que –se nada der errado –culminará na noite do Oscar.

Melhor Atriz - Drama
Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime)

Quando chegou o anúncio da categoria de Atriz Dramática, a supremacia de “Três Anúncios Para Um Crime” já tinha se expressado em outras categorias em geral. A supremacia da atriz Frances McDormand, em particular, já havia se manifestado com semanas de antecedência não deixando tanta margem para a surpresa da vitória da veterana de “Fargo”.
Tenho o palpite de que ela irá predominar nesta categoria ao longo da temporada de premiações.

Melhor Drama
Três Anúncios Para Um Crime


Com quatro prêmios, o grande vencedor da noite o independente “Três Anúncios Para Um Crime” que, desde já, é visto como favorito para as outras premiações e para o Oscar. Resta acompanhar o Critic’s Choice, o SAG Awards e outros para ver se essa preferência se mantém –o Oscar, às vezes, costuma divergir do Globo de Ouro em certos casos –mas, o filme de Martin McDonagh, depois de domingo, já tem a atenção de todos.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Desejo e Reparação

Depois de uma maravilhosa adaptação de “Orgulho e Preconceito” –filme que considero superior a este –o diretor Joe Wright, junto de sua estrela inglesa Keira Knightley, aventurou-se no desembaraço de uma narrativa mais complexa, oriunda do livro algo desafiador de Ian McEwan –autor que escreveu o romance que resultou no também desafiador “O Jardim de Cimento”.
No caso deste “Desejo e Reparação”, as complicações recaem sobre as múltiplas ramificações que a noção de narrativa proporciona, quando afetadas pela distinção dos pontos de vista, pela insuficiência transformadora dos detalhes e, por fim, pelo arrependimento.
A menina Briony (interpretada com surpreendente expressividade e noção de cena pela jovem Saiorse Ronan), como toda jovem aspirante à escritora, tem uma percepção dramática e imaginativa dos fatos à sua volta. E, na mansão bucólica e aristocrata em que vive no início do século XX, os desenlaces mais dignos de atenção são aqueles que cercam o inquieto romance de sua irmã mais velha Cecilia (Keira Knightley) com Robbie (James McAvoy) um dos empregados da casa.
Munida de conclusões errôneas e deturpadas por aquilo que viu nos últimos dias de verão, Briony acaba condenando os sonhos de felicidade e amor de sua irmã e Robbie ao acusá-lo de um estupro.
Nos anos que se seguem, ela já crescida (e interpretada pela bela Romola Garai, que atuou com McAvoy no drama inglês “Os Melhores Dias de Nossas Vidas”) se dará conta do erro que cometeu, e tentará repará-lo trabalhando obstinadamente como enfermeira num hospital já em meio à Segunda Guerra Mundial. Para a angustiada Briony, o mal que acomete o mundo é menos um reflexo do conflito e mais uma conseqüência de tudo que ela fez e percebe ser irreparável: Mais velha, ela começa a compreender o terrível equívoco que cometeu, o quê levou à injustiça que separou o casal apaixonado.
No mesmo período de tempo, o próprio Robbie, lutando na mal-fadada frente de batalha em Dunkirk, busca se reencontrar com sua amada Cecilia. Há uma cena, breve e dolorosa, onde os três se reencontram e várias recriminações –sobretudo à Briony –são verbalizadas.
O filme de Wright salta então para o tempo presente, onde acompanhamos Briony na velhice (vivida pela grande Vanessa Redgrave), consagrada como escritora e prestando uma entrevista onde vários pontos pessoais são colocados em questão, e a estrutura construída para o roteiro do filme é assim decifrada, revelando as intervenções que a própria Briony e sua irreprimível vontade de mudar o passado operaram na triste história de Robbie e Cecilia.
O belo trabalho do diretor Joe Wright representa assim um passo a mais em termos de sofisticação como cineasta (e o reconhecimento disso foram as indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar que o filme recebeu), ainda que sua obra sofra de algum desequilíbrio dramático, resultando comiserativa. McAvoy e a bela Keira Knightley rendem bem em seus papéis e nas distintas versões em que eles são observados, mas as grandes performances são mesmo das atrizes que interpretam Briony em suas três fases: Saiorse Ronan, Romola Garai e Vanesssa Redgrave.

Por meio delas se vislumbra o objetivo moral da trama, uma dissertação dolorida e criteriosa sobre a expiação existencial presente na dicotomia entre memória, nostalgia e ficção.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Brooklyn

É lindo ver o crescimento de Saoirse Ronan, seja como pessoa, seja como atriz: Desde sua revelação em “Desejo e Reparação”, aos 13 anos, passando por papéis como a protagonista letal de “Hanna”, e a jovem vítima em “Um Olhar do Paraíso”, culminando com sua presença como bela mulher e atriz de rara sensibilidade neste belíssimo “Brooklyn”.
Dificilmente o filme de John Crowley funcionaria sem ela, e sem a inquestionável identificação que se percebe entre a intérprete e a personagem (Saoirse, como a protagonista que interpreta, é descendente direta de irlandeses), o esmero com que ela registra, portanto, essa jovem às voltas com a dura sensação de não pertencer a lugar nenhum –e que se reflete não somente em maneirismos impecavelmente estudados, mas, num olhar que transmite vastas e infindáveis emoções –vem a ser o eixo de todo o filme.
Essa jovem em questão chama-se Eilis, e sua casa é numa pequenina aldeia na Irlanda da década de 1930, cuja condição de vida é inescapavelmente árdua: São deprimentes os mandos e desmandos que ela sofre de sua patroa numa das poucas ocupações à disposição no lugar, a de atendente numa mercearia local. São deprimentes as escassas opções que uma jovem de vinte anos como ela tem para se divertir –no caso, os modorrentos bailes no único salão, onde as garotas devem se submeter à arrogância dos rapazes. E certamente, são deprimentes os dias rotineiros que passa a cuidar da mãe (Jane Brennan), sempre adoecida e angustiada, ao lado da carinhosa irmã mais velha (Fiona Glascott).
É essa irmã quem vislumbra para ela um futuro melhor, e negocia com um padre irlandês (Jim Broadbent), morador em Nova York de longa data, a sua ida para lá. Eilis encara a longa e penosa viagem de navio –com direito à uma ingrata disputa pelo banheiro com as vizinhas de quarto e toda a sorte de enjôo e mau estar! –a preocupante tentativa em parecer despreocupada no momento em que passar pela vistoria de imigração e, após sua chegada, a dilacerante e imprevista saudade da terra-natal.
No Brooklyn, ela se hospeda na pensão de uma senhora falante e espirituosa (uma notável participação de Julie Walters), onde convive com outras moças vindas da Irlanda, e passa a trabalhar em uma loja refinada do bairro. Aos poucos, Eilis se adapta a essa nova vida: Adquire a sofisticação dos moradores típicos de uma metrópole, começa a namorar um italiano (Emory Cohen, empenhado e simpático), a fazer um curso de escriturária e assim, a sentir-se mais confortável nesse novo lugar, capaz de oferecer os recursos diversos para uma vida melhor que ela antes não tinha.
Há uma sutil reviravolta no roteiro quando ocorre uma tragédia pessoal que obriga Eilis à um breve retorno para a Irlanda. Quando chega lá é que percebemos a maravilha da sutileza com que a atriz trabalhou a metamorfose da personagem: Eilis, ao longo do filme, tornou-se uma mulher radiante que, na segunda parte da trama, contrasta radicalmente com a cidadezinha cinzenta, desanimada e lúgubre que ela deixou no início.
À princípio, certa de que sua permanência seria rápida, Eilis vê as circunstâncias conspirarem contra o seu retorno para Nova York: Agora, não só a mãe expressa a necessidade de sua presença (coisa que antes não demonstrava), mas, aparece também um tal de Jim (Doomhall Gleeson, de “Questão de Tempo”), um bom partido, interessado, cavalheiro e cativante, que trata de providenciar para Eilis uma ocupação nos escritórios da família que satisfaça as aptidões que ela conseguiu em seu curso.
É um dilema que se desenha, então: Se antes Nova York era a terra dos sonhos onde, inclusive, Eilis encontrou o amor, agora, a própria Irlanda onde morou, antes tão inóspita e opressiva, revela condições de sobra onde ela poderia ser feliz.
Jamais pender com excesso para um lado ou para outro é um dos grandes achados do filme cuja sutileza com a qual é conduzido encontra rival apenas em seu admirável equilíbrio e objetividade –tal e qual nos grandes e irretocáveis filmes, todas as peças da narrativa de John Crowley estão lá para prestar uma contribuição inestimável ao produto final; não existe uma cena, um personagem ou uma fala de roteiro que não tenha uma importância vital no desenrolar do enredo, como descobriremos no desfecho, inevitável e, talvez, até previsível, mas não menos vibrante e encantador.
Sem sombra de dúvidas, características que levaram “Brooklyn” a concorrer, merecidamente, ao Oscar de Melhor Filme em 2016, perdendo para “Spotlight-Segredos Revelados”, num ano que contava com obras do porte de “Mad Max-Estrada da Fúria” e “O Regresso” (este também com Doomhall Gleeson no elenco). A bela Saoirse Ronan também concorreu ao Oscar de Melhor Atriz (perdendo para Brie Larson por “O Quarto de Jack”) no que deve ter sido o reconhecimento para o seu maior mérito: Uma atriz linda, expressiva e emotiva que consegue com seu talento elevar todo um filme a um nível maior.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Hanna

A trajetória do diretor Joe Wright, no cinema, passeou por inúmeros gêneros, revelando sempre certa habilidade e entendimento acerca da linguagem cinematográfico que norteia, de diferentes formas, as categorias de filmes: Ele mostrou-se sensível no romance “Orgulho e Preconceito” (talvez, seu melhor filme), taxativo e comiserativo em “Desejo e Reparação”, rebuscado e extremamente afoito às analogias técnicas em “Anna Karenina”.
Em 2015, ele aventurou-se em filmes mais comerciais com a produção “Peter Pan”, embora já tenha feito algumas experiências com esse gênero (ação e aventura) com o não muito lembrado “Hanna”.
O filme tinha tudo para ser ótimo –e ruim, de fato, ele não é! –embora não tenha caído nas graças de público e crítica: É bem dirigido, conta com um elenco notável e uma história suficientemente envolvente.
Sua protagonista é a talentosíssima Saiorse Ronan (que o próprio Wright revelou, ainda bem jovem, em “Desejo e Reaparação”) mostrando o quanto amadureceu no papel desafiador da jovem Hanna, uma garota crescida numa solitária cabana de uma longínqua floresta do Círculo Ártico, e treinada extenuamente pelo pai (Eric Bana, excelente).
Ainda uma adolescente (e como tal, alternando sua reação entre galhofa, assombro e lucidez da descoberta desse novo mundo) Hanna toma, certo dia, a decisão de abraçar seu destino, que aparentemente é vingar-se do assassinato de sua mãe matando a mulher responsável, a agente secreta Marissa Weigler (Cate Blanchett, imbuída de vilania e classe).
Mas, no percurso dessa atribulada missão, a garota descobrirá outras coisas, além de novas relações, opções e escolhas de vida que antes desconhecia.
Com seu traquejo narrativo testado em diversos outros projetos, Wright proporciona uma incomum envergadura dramática a este filme notável, agraciado com um inspiradíssimo elenco onde certamente destaca-se a sensacional Saiorse Ronan numa evolução clara e notável em relação ao trabalho (já ele bastante impressionante) que ela entregou como Brionny em “Desejo e Reparação”.
A formidável cena final mostra a heroína fechando o seu ciclo pessoal de vingança e desferindo assim um tiro no rosto de sua antagonista –e que, na maneira como a cena é registrada, acaba sendo também um tiro no rosto do expectador: Uma referência de Joe Wright à “Tropa de Elite”, talvez.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Byzantium - Uma Vida Eterna

Pode ter sido a curiosidade em descobrir como seria trabalhar tal tema longe dos impedimentos e restrições protocolares de um grande estúdio, mas o fato é que o diretor irlandês Neil Jordan arriscou-se aqui a fazer um novo filme sobre vampiros, quase vinte anos depois de realizar o ótimo “Entrevista Com O Vampiro”, com Tom Cruise e grande elenco.
Esse novo filme, “Byzantium”, como todos os seus trabalhos, também ele produzido por Stephen Wooley, guarda fortes características de um projeto pessoal, dotado assim daquele intimismo e daquela melancolia normalmente evitados pelos filmes de inclinação comercial.
A verdade é que isso tem muito mais a cara de Neil Jordan: Trata-se de uma sondagem atenta às mais peculiares arestas, qual ele já fez no desconcertante “Traídos Pelo Desejo”, ou no magnífico “Fim de Caso”.
Jordan, enfim, pegou o tema dos vampiros e fez o quê “Entrevista...” (realizado sob rígida supervisão do estúdio da Warner, e impiedoso escrutínio da mídia, dos fãs e da autora, Anne Rice) não lhe permitiu fazer: Tornou-o seu.
Ainda que “Byzantiun” seja ele próprio uma adaptação, no caso do conto (também tornado uma peça de teatro) “A Vampire Story” de Moira Buffini.
Dessa forma, quando somos levados a acompanhar a trajetória de duas vampiras, mãe e filha, que se estende por dois séculos, encontramos diversos paralelos mais evidentes com as obras de Neil Jordan, e com sua visão muito pessoal e intrínseca das tendências que moldam o ser humano.
A intensa e atraente Claire (Gemma Arterton) vale-se de seu belo corpo para capturar, no papel de stripper ou mesmo de prostituta, os incautos infelizes que saciarão sua sede de sangue. Já sua filha, a introspectiva e puritana Eleanor (Saoirse Ronan) busca manter um código moral por meio do qual ela só suga o sangue (e, por conseqüência, extingue a vida) daqueles que já estão prontos para aceitar a morte –uma dicotomia entre duas personagens quase diametralmente opostas, mais complementares por um sentimento que as conecta, a exemplo de “Mona Lisa”.
Ao contrário do mito conhecido dos vampiros (que Jordan parece reinventar com a mesma convicção com a qual remodelou o conceito de lobisomens em “A Companhia dos Lobos”), o sol não lhes inflige dor ou destruição, nem tampouco elas possuem caninos salientes; ao invés disso, a unha de seus polegares cresce de forma proeminente no momento do ataque. A Irlanda, tão pessoal e especial para o trabalho de Jordan, é o palco por meio do qual as duas fogem das conseqüências dos atos mais terríveis que insistem em alcançá-las.
A estranha relação que as une, as razões pelas quais ambas fogem (e do quê exatamente fogem) através das suburbanas cidadezinhas da Irlanda, e como e por que cada uma converteu-se em vampira são questões que pouco a pouco a narrativa de Jordan vai tratar de esmiuçar, compondo os detalhes de uma história fatalista, trágica e cruel, onde o diretor joga particular atenção sobre os elementos sórdidos, e principalmente sobre a maneira tão instintiva e altiva com que cada uma das personagens lida com eles –numa dramaturgia que remete muito do seu início de carreira, com “À Procura do Destino”.
“Byzantium” é, portanto, uma tentativa com algo de nostálgica de Jordan em reencontrar a si mesmo, e ao cineasta que antes era, cujo idealismo e ímpeto de inocente criatividade, o hoje experiente Jordan parece apreciar ainda mais.
Encarregada da exuberante protagonista, a inglesa Gemma Arterton se sai muito bem, ostentando carisma e beleza acachapantes, embora vez ou outra aconteça de equivocar-se no tom correto da personagem, soando histriônica. A jovem Saoirse Ronan, porém, é impecável.
Curioso notar, ao falar do elenco, que este é o primeiro filme de Neil Jordan –até onde sei –que não conta com a presença de Stephen Rea, seu habitual ator-assinatura.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O Grande Hotel Budapeste

Mustafa, misterioso senhor e proprietário do nostálgico e decadente Grande Hotel Budapeste relata a um jovem escritor a história de como tornou-se dono do lugar. 
Quem ocupa o centro de sua história é Gustave M, o concierge do local em meados dos anos 20. 
Figura a um só tempo triste e cômica, Gustave tinha olho de gavião para pequenos detalhes e um grande coração, no qual cabiam todas as suas idosas, ricas e carentes hóspedes. 
Tornado herdeiro por uma dessas amantes, Gustave envolve-se em enrascadas que o levam a prisão, e depois a uma fuga surreal e farsesca. 
Fiel a sua sensível, caricata e desigual filmografia (que vai dos brilhantes "Três É Demais" e "Excêntricos Tennebauns", passando pelos irregulares "A Vida Marinha de Steve Sizou" e "Viagem À Darjeeling", até o recente e magistral "Moonrise Kingdom"), o diretor e roteirista Wes Anderson constrói esta narrativa espirituosa e humana a partir dos escritos do autor vienense Stefan Zweig, abrilhantada por uma luminosa interpretação de Ralph Fiennes.