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domingo, 14 de junho de 2026

Encontro de Amor


 O cinema do diretor Wayne Wang sempre foi fascinado por comunidades, não à toa, seu melhor e mais ressonante trabalho é o emocionante “Clube da Felicidade e da Sorte” – daí ser até natural que, ao ser contratado por um estúdio (a Columbia Pictures) para conduzir uma comédia romântica, não seja tanto o enredo e seu desenrolar cheio de encontros e desencontros que surgem com desenvolvimento mais apaixonado da parte direção, mas sim a caracterização e contextualização das circunstâncias que cercam a protagonista feminina da trama, vivida pela graciosa e radiante Jennifer Lopez – aqui, num dos sucessos de bilheteria responsáveis pela consolidação do status de estrela de sua carreira.

Lançado em 2002, “Encontro de Amor” – ou “Maid In Manhattan”, seu título original – não esconde, e nem conseguiria mesmo esconder, as semelhanças quase constrangedoras com “Um Lugar Chamado Notting Hill” (um grande sucesso do ano de 1999). Como naquele filme (mas, muito melhor realizado lá...), “Maid In Manhattan” busca unir num divertido, hesitante e cativante enlace amoroso dois indivíduos de mundos absolutamente distintos, sendo que um deles vem dos holofotes da fama, enquanto o outro do anonimato da plateia. Em “Notting Hill” havia a estrela de cinema e o plebeu desconhecido, vividos respectivamente por Julia Roberts e Hugh Grant; aqui, temos o candidato ao senado e a um só tempo sex-simbol das mulheres mais despachadas, Chris Marshall, interpretado por Ralph Fiennes (num papel bem mais leve e inesperado para os rumos usuais de sua carreira), e a camareira Marisa Ventura, vivida por Jennifer Lopez – que, num truque de inversão típico do demagógico cinema norte-americano, vem a ser, ela sim, um sex-simbol.

Mãe solteira, Marisa trabalha no ostensivo hotel de luxo Beresford, em Manhattan, no coração de Nova York, onde os procedimentos dos funcionários, visando o atendimento aos hóspedes ricaços, beira o rigor militar. Criando sozinha o pequeno Ty (Tyler Posey), Marisa almeja uma vaga disponibilizada para uma das gerências do hotel, contudo, tal cargo jamais foi ocupado antes por uma camareira – o que dificulta mais o objetivo de Marisa e faz das semanas seguintes decisivas para a avaliação de sua postura profissional (que, até então, era impecável).

Entretanto, eis que o Beresford recebe o candidato ao senado Chris Marshall que, junto de seu staff, liderado pelo inquieto e paranoico Jerry (Stanley Tucci, que décadas depois reuniu-se com Fiennes no elenco do fenomenal “Conclave”), se encontra num momento crítico da campanha – justamente quando as lentes dos paparazzi estão focadas nele, esperando qualquer deslize para virar manchete!

Numa série de mal-entendidos – daqueles típicos de uma comédia romântica – Marisa acaba sendo confundida por Chris como uma das hóspedes do hotel – ela e uma colega estavam numa travessura, experimentando o casaco Golce & Gabbana de uma hóspede real, a socialite Caroline Laine (a saudosa Natasha Richardson) quando o imbróglio acontece. Marisa aceita o convite para um passeio no parque, tentando se livrar da situação o mais rápido possível, mas, evidentemente, nesse meio tempo, a magia hollywoodiana se opera: Um interesse surge de ambas as partes e, agora, Chris quer saber quem é aquela maravilhosa mulher que ele conheceu – e tê-la como convidada para um importante jantar a ser realizado no próprio hotel!

Já, Marisa, também atraída por Chris, precisa se desvencilhar do cerco cerrado dos demais funcionários do hotel, incluindo superiores que podem farejar sua farsa, da inconveniente Caroline que pensa ser ela a convidada de Chris, e da própria situação em que se encontra, mentindo para o homem por quem está se apaixonando, e escondendo dele quem é.

“Maid In Manhattan” tem, portanto, todos os elementos narrativos de uma comédia romântica, organizados e apresentados com fidelidade formulaica – o desfecho descaradamente decalcado de “Notting Hil” é particularmente constrangedor...

Todavia, o que notamos saltar aos olhos ao longo do filme, é o amor com que o diretor Wayne Wang retrata o dia-a-dia de Marisa, sejam as regras rígidas, permeadas por subterfúgios de malandragem, que os funcionários precisam seguir em sua rotina de ‘agentes invisíveis’ dentro do hotel (que fazem lembrar o britânico “Coisas Belas e Sujas”), sejam os pequenos embates entre ela e a mãe (a cantora Priscilla Lopez, apesar do sobrenome, nenhum parentesco com Jennifer) carregados tanto de ternura quanto de ressentimento, sejam as relações amistosas, fraternais até, entre Marisa e suas colegas camareiras (talvez, os momentos mais divertidos do filme), ou os diálogos com o dedicado e minimalista mordomo Lionel (o saudoso Bob Hoskins, interpretando o personagem com dignidade e solidez). As manobras do roteiro (assinado por Kevin Wade) parecem menos importar ao diretor do que essas facetas da produção que dele recebem muito mais entusiasmo e cuidado.

Curiosidade: O argumento do filme foi idealizado pelo saudoso John Hughes (de “O Clube dos Cinco”) que não aparece creditado. No lugar de seu nome vemos um ‘Story by Edmond Dantes’, que vem a ser o herói fictício de “O Conde de Monte Cristo”!

domingo, 10 de agosto de 2025

Extermínio - A Evolução


 Lançado em 2002, “Extermínio” representou algumas notáveis inovações, das quais hoje poucos o creditam –além de capitanear toda uma nova leva de filmes sobre mortos-vivos que seguem sendo feitos até hoje (ainda que os ‘mortos-vivos’ aqui sejam ‘infectados’), também foi uma das audaciosas produções a adotar a técnica da câmera digital que proporcionava às filmagens uma praticidade e uma rapidez que encontrou reflexo na criatividade e na urgência daqueles realizadores de então –e ainda foi incluído na Lista dos 100 Melhores Filmes da Década (do ano 2000 à 2010) feita pela Revista Time.

À ele seguiu-se, em 2007, uma continuação, intitulada “28 Weeks Later” –em alusão ao título original, “28 Days Later”, ou “28 Dias Depois” –não tão boa quanto, mas igualmente vibrante, interessante e certamente acima da média.

Quando muitos já achavam que a franquia não tinha mais o que oferecer, eis que o roteirista Alex Garland e o diretor Danny Boyle (que, durante esse meio-tempo ganhou 8 Oscars por “Quem Quer Ser Um Milionário?”) apareceram com este “28 Years Later” que, como o título original já diz, passa-se, num audacioso salto de tempo, vinte e oito anos depois do início da infecção ocorrida no primeiro filme –os infectados (vítimas de uma contaminação em laboratório) se proliferaram por todo o Reino Unido levando o lugar a ficar isolado do resto do mundo. Entretanto, nessas condições, as comunidades persistentes afloraram; como aquela que é retratada no filme: Um lugarejo localizado numa ilha, cujo acesso ao continente se dá por uma faixa de terra de poucos quilômetros que, durante algumas horas ao dia, se torna trafegável graças à maré baixa.

É numa dessa ocasiões que o jovem Spike (Alfie Williams), ladeado por seu pai, o rígido Jamie (Aaron Taylor Johnson), irá encarar sua primeira incursão no continente, logo, seu primeiro encontro com os temidos infectados que, nesse estágio de contaminação, já nem usam mais roupas e, ainda por cima dividem-se em duas aparentes categorias; uma, chamada ‘rastejantes’, em que são desajeitados e não conseguem andar (ainda que continuem potencialmente perigosos); e outra, os já conhecidos infectados, selvagens e implacáveis, que correm feito maratonistas atrás de suas vítimas. É entre eles que os mais desavisados podem encontrar os Alfas, infectados cujo vírus atua em seu organismo como anabolizantes, deixando-s enormes, fortes e musculosos, incapazes de serem mortos apenas pelas habituais fechas no corpo ou na cabeça.

Não basta à Spike ir uma única vez para o continente e escapar de lá por muito pouco –ele quer voltar para levar para lá sua mãe (Jodie Comer, de “Star Wars-A Ascensão Skywalker”). Acometida de algum mal que ninguém na aldeia é capaz de curar ou tratar, Spike almeja encontrar em algum lugar daquele mundo desolado, o excêntrico Dr. Kelson (Ralph Fiennes, cada vez mais sensacional), um médico especialista que afastou-se das pessoas e passou a desenvolver um comportamento, no mínimo, incomum. Com seus conhecimentos, e apesar de tudo, Spike sabe que o Dr. Kelson pode dizer qual é o problema com sua mãe –ainda que, no encalço de todos, esteja um dos temidos Alfas!

O roteiro e a direção inspirados de Garland e de Boyle provam, ao longo de todo este “A Evolução”, que eles têm ideias de sobra para ilustrar esse desigual mundo pós-apocalíptico que eles criaram para ambientar sua saga –tanto que, um outro filme, a continuar exatamente do ponto em que este abruptamente se interrompe, já está nos planos de ser lançado.

Realmente, essa sensação de ser demasiado enxuto, de possuir mais história para ser contada, e de se encerrar num momento em que nada parece se encerrar de fato (quando o roteiro enfim estabelece uma relação com o prólogo que, até então, pouco sentido havia feito) é uma das poucas ressalvas que se leva deste filme eletrizante, tenso, divertido e algo escatológico.

terça-feira, 20 de maio de 2025

Conclave


 Adaptado do livro de Robert Harris, lançado em 2011, “Conclave” pode ser descrito como um filme onde, durante toda a sua totalidade, acompanhamos homens religiosos (cardeais, em sua maioria) a dialogar pelos cantos, ocupados com seus dilemas e com as conspirações internas de sua própria política –no entanto, apesar de aparentemente se restringir realmente a isso, o filme de Edward Berger (cuja obra anterior, “Nada de Novo No Front”, já havia deixado bem claro seu potencial) consegue envolver, surpreender e engajar amparado em alguns valores hiperlativos que o fazem cinema de altíssimo nível: O roteiro brilhantemente construído e conduzido (tanto que venceu a categoria de Melhor Roteiro Adaptado no Oscar 2025), o elenco primoroso que eleva a tensão e o suspense embutidos nas intrigas, e sua prodigiosa montagem, capaz de impor ritmo e atmosfera onde poderia não haver nada disso.

O Vaticano é abalado pelo notícia da morte do Papa. A fim de eleger um novo pontífice, os poderosos cardeais, proeminentes figuras de liderança da Igreja Católica ao redor de todo o mundo se reúnem para a execução de um conclave, por meio do qual, após dias de deliberação e votação, isolados de todo o mundo, devem chegar a um consenso e apontar o novo Papa entre um deles mesmos.

Para conduzir tal conclave com o máximo de parcimônia, harmonia e sensatez é escolhido o torturado Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes, digno de um Oscar), cujas atribulações o levaram a uma tentativa de renunciar ao seu cargo religioso, a despeito de despontar como um dos possíveis candidatos a novo Papa. Outros a disputar o papado são: O cotadíssimo Cardeal Tremblay (John Lithgow), oculto atrás de segredos conspiratórios que logo revelam ser ele uma verdadeira serpente; o Cardeal Adeyemi (Lucian Msamati), da África, truculento e objetivo como seu ofício exige, mas dono de um passado comprometedor; o Cardeal Tedesco (Sergio Castellitto, de “O Último Beijo” e “Imensidão Azul”), cujas posturas ideológicas extremistas fazem dele um correspondente aos inquisidores da Idade Média nos tempos atuais (!); e o estratégico ainda que demasiado errático Cardeal Bellini (Stanley Tucci).

Esses personagens –e outros mais que se somam gradualmente à narrativa (como a Irmã Agnes, primorosamente interpretada por Isabella Rossellini) –correspondem, de certa forma, à algumas pautas em vigor no mundo, por meio das quais vislumbramos a gênese da intolerância, das divisões e até mesmo das guerras. Em última instância, “Conclave” é um trabalho fenomenal que, através desse fascinante e tremendamente misterioso e sigiloso micro-cosmos que retrata com minúcia assombrosa (somente o livro de Robert Harris, antes deste filme, atreveu-se a vislumbrar a reconstituição de como seria o desenrolar de um conclave real), observa cada uma das predisposições que nos afastam de um consenso e nos impelem, enquanto sociedade, ao atrito –nesse sentido, esta estupenda realização de Edward Berger dialoga com a série documental “Por Que Odiamos”, produzida por Steven Spielberg, na forma objetiva, transparente e cirúrgica com que se debruça sobre as celeumas morais, sociais e culturais dos seres humanos –mesmo que tais seres humanos sejam homens vistos do alto de uma pressuposta santidade.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Os Indicados Ao Oscar 2025


 Na manhã de quinta-feira, foram anunciados os indicados ao maior prêmio do cinema, isso num período em que Los Angeles –sede habitual da premiação –enfrenta uma calamidade de incêndios sistemáticos em sua costa litorânea, o que alimenta o protesto de muitos que até exigem uma espécie de cancelamento da cerimônia, ou mais especificamente, uma alteração no formato normalmente pomposo da festa para uma exibição mais austera com o objetivo de arrecadar donativos para as pessoas prejudicadas pelo fogo. O próprio anúncio dos indicados foi atraso duas vezes (sua data inicial era 17 de janeiro, depois mudado para o dia 19, e agora finalmente concretizado neste 23 de janeiro de 2025).

Ainda assim, a lista de indicados nos permite vislumbrar o ano espetacular que 2024 foi para o cinema, entregando uma variedade espantosa de fantásticos trabalhos, entre os quais, uma produção brasileira que finalmente quebrou um jejum de décadas e está indicada entre algumas das principais categorias. Vamos lá:

Melhor Filme

“Anora”

“O Brutalista”

“Um Completo Desconhecido”

“Conclave”

“Duna-Parte 2”

“Emilia Pérez”

“Ainda Estou Aqui”

“Nickel Boys”

“A Substância”

“Wicked”

Melhor Direção

Sean Baker por “Anora”

Brady Cobert por “O Brutalista”

James Mangold por “Um Completo Desconhecido”

Jacques Audiard por “Emilia Pérez”

Coralie Fargeat por “A Substância”

Embora sejam dez indicados na categoria de Melhor Filme (incluindo a inédita presença do brasileiro “Ainda Estou Aqui”), pode-se dizer que os Melhores Filmes do Ano de fato (e que constariam entre os indicados caso o número de vagas ainda fosse restrito à cinco como antigamente), são aqueles que surgem na categoria de melhor Direção –entretanto, sobram objeções para a presença de “Emília Pérez” (que, embora venha sendo bem aceito nos EUA, coleciona críticas e reprovações em todo o resto do mundo). Aliás, “Emília Pérez” assim como “O Brutalista”, (justamente os dois maiores favoritos) veem sofrendo uma polêmica recente onde profissionais acusam ambas as produções de lançar mão do uso de Inteligência Artificial, o que pode enfraquecer suas campanhas, algo que pode perfeitamente beneficiar o primoroso “Anora”, de Sean Baker.

Melhor Ator

Adrien Brody, por “O Brutalista”

Timothée Chalamet, por “Um Completo Desconhecido”

Colman Domingo, por “Sing Sing”

Ralph Fiennes, por “Conclave”

Sebastian Stan, por “O Aprendiz”

Melhor Atriz

Cynthia Erivo, de “Wicked”

Karla Sofía Gascón, de “Emilia Pérez”

Mikey Madison, por “Anora”

Demi Moore, por “A Substância

Fernanda Torres, por “Ainda Estou Aqui”

Se por um lado a categoria de Melhor Ator traz Adrien Brody como um favorito isolado e sem concorrentes mais fortes, a de Melhor Atriz, por outro, está disputadíssima: Entre as melhores atuações do ano, a maravilhosa Mikey Madison compete diretamente com a favorita Demi Moore (que ganhou muitos pontos com seu discurso emotivo no Golden Globe, mas ainda é uma incógnita já que a Academia não aprecia filmes de terror), assim como seguem firme na disputa Cynthia Erivo (num desempenho que predominou em todas as premiações do ano) e Karla Sofia Gascón (cuja agressiva e eficiente campanha da Netflix destaca o fato de ser a primeira atriz trans a concorrer ao prêmio). Nessa competição, a brasileira Fernanda Torres surge com chances bastante reais de trazer o Oscar para o Brasil, visto que ela conquistou o prêmio de Atriz Dramática no Golden Globe e vem fazendo uma campanha bastante sólida nos EUA.

Melhor Ator Coadjuvante

Yura Borisov, por “Anora”

Kieran Culkin, “A Verdadeira Dor”

Edward Norton, “Um Completo Desconhecido”

Guy Pearce, de “O Brutalista”

Jeremy Strong, de “O Aprendiz”

Melhor Atriz Coadjuvante

Monica Barbaro, por “Um Completo Desconhecido”

Ariana Grande, por “Wicked”

Felicity Jones, por “O Brutalista”

Isabella Rossellini, por “Conclave”

Zoe Saldaña, por “Emilia Pérez”

Sempre as categorias mais fáceis de serem antecipadas –e a tendência desta temporada parece imitar a das anteriores –os Coadjuvantes seguem firme com seus favoritos bem definidos: Dificilmente o Oscar vai escapar das mãos de Kieran Culkin no caso dos Atores (ainda que eu tenha ficado feliz com a indicação inesperada de Yura Borisov), e de Zoe Saldaña, no caso das Atrizes (talvez, o único prêmio que “Emília Pérez” deve conquistar sem suscitar controvérsias).

Melhor Figurino

“Um Completo Desconhecido”

“Conclave”

“Gladiador II”

“Nosferatu”

“Wicked”

Melhor Cabelo e Maquiagem

“Um Homem Diferente”

“Emilia Pérez”

“Nosferatu”

“A Substância”

“Wicked”

Melhor Trilha Sonora Original

“O Brutalista”

“Conclave”

“Emilia Pérez”

“Wicked”

“Robô Selvagem”

Melhor Design de Produção

“O Brutalista”

“Conclave”

“Duna-Parte 2”

“Nosferatu”

“Wicked”

Melhor Edição

“Anora”

“O Brutalista”

“Conclave”

“Emilia Pérez”

“Wicked”

Melhor Som

“Um Completo Desconhecido”

“Duna-Parte 2”

“Emilia Pérez”

“Wicked”

“Robô Selvagem”

Melhores Efeitos Visuais

Alien-Romulus

“Better Man”

“Duna-Parte 2”

Planeta dos Macacos-O Reinado

“Wicked”

Melhor Fotografia

“O Brutalista”

“Duna-Parte 2”

“Emilia Pérez”

“Maria Callas”

“Nosferatu”

As categorias técnicas, de modo geral, refletem as lembranças dos votantes em “Duna-Parte 2” (certamente o favorito para Efeitos Visuais), em “Wicked” (onde ele obteve sua soberania em número de indicações”), em “Nosferatu”, e em “Gladiador II” (mais lembrado por estrear num período do ano propício para a lembrança dos membros da Academia), além também do completo esquecimento de “Furiosa-Uma Saga Mad Max”, tecnicamente perfeito (e digno de constar entre muitas das categorias), mas também um dos grandes fracassos do ano.

Melhor Filme Internacional

“Ainda Estou Aqui” (Brasil)

“The Girl with the Needle” (Polônia)

“Emilia Pérez” (França)

“The Seed of the Sacred Fig” (Irã)

“Flow” (Letônia)

Melhor Animação

“Flow”

Divertida Mente 2

“Memoir of a Snail”

“Wallace e Gromit-Avengança”

“O Robô Selvagem”

A indicação na categoria de Filme Internacional fecha a coroação de “Ainda Estou Aqui”, lembrado em três das mais importantes categorias do Oscar (em 2004, “Cidade de Deus” obteve quatro indicações, mas em categorias menores: Direção, Roteiro Adaptado, Fotografia e Montagem). Seu grande concorrente é certamente o onipresente “Emília Pérez”, seguido de perto pelo elogiado “The Seed of The Sacred Fig” e até mesmo pela fascinante animação “Flow” que chega fortíssima em Melhor Animação, roubando o favoritismo de “Robô Selvagem”.

Melhor Curta-Metragem em Live-Action

“A Lien”

“Anuja”

“I’m Not a Robot”

“The Last Ranger”

“The Man Who Could Not Remain Silent”

Melhor Animação em Curta-Metragem

“Beautiful Men”

“In the Shadow of the Cypress”

“Magic Candies”

“Wander to Wonder”

“Yuck!”

Melhor Roteiro Adaptado

“Um Completo Desconhecido”

“Conclave”

“Emilia Pérez”

“Nickel Boys”

“Sing Sing”

Melhor Roteiro original

“Anora”

“O Brutalista”

“A Verdadeira Dor”

“Setembro 5”

“A Substância”

Melhor Canção Original

“El Mal”, de “Emilia Pérez”

“The Journey”, de “The Six Triple Eight”

“Like a Bird”, de “Sing Sing”

“Mi Camino”, de “Emilia Pérez”

“Never Too Late”, de “Elton John-Never Too Late”

Melhor Documentário

“Black Box Diaries”

“No Other Land”

“Porcelain War”

“Soundtrack to A Coup D’Etat”

“Sugarcane”

Melhor Documentário de Curta-Metragem

“Death By Numbers”

“I am Ready, Warden”

“Incident”

“Instruments of a Beating Heart”

“The Only Girl in the Orchestra”

É isso aí, saberemos quem serão os vencedores (e se o Brasil vai, enfim, conseguir um tão aguardado Oscar) na noite do dia 2 de março, quando forem anunciados os ganhadores durante a cerimônia.

quinta-feira, 16 de março de 2023

007 - Sem Tempo Para Morrer


 Na última vez em que vimos o James Bond de Daniel Graig, em “007 Contra Spectre”, sua trajetória sinalizava uma espécie de desfecho para o personagem: A despeito disso jamais ter acontecido em qualquer outra versão, seja cinematográfica, seja literária, e mesmo que contra todas as probabilidades e até contra, digamos, o perfil do personagem, James Bond encontrava sua alma gêmea nas formas da forçadamente cativante Madeleine Swann (Lea Seydoux), abandonava o MI6 e partia em direção a um improvável final feliz de uma vida em família. Nesta nova produção, com intenções ainda mais contundentes de ser o capítulo derradeiro da Fase Daniel Craig, aquela pasmaceira familiar é descartada já no prólogo, uma longa cena de ação e perseguição na Itália (onde estaria o túmulo de Vesper, a bondgirl nº 1, morta em “Cassino Royale”), na qual Bond termina sentindo na pele os dissabores de se confiar demais e ser traído –ele deixa Madeleine (que julga tê-lo traído) numa estação de trem e garante à ela que nunca mais saberá dele. Entram os créditos iniciais, característicos e sensacionais desde o primeiro filme, com Sean Connery, e então “Sem Tempo Para Morrer” começa de verdade, com seu roteiro correndo contra o prejuízo e criando expedientes hábeis (uns muito bem bolados, outros nem tanto) para tentar trazer James Bond de volta ao seu status quo do qual algumas escolhas equivocadas do filme anterior ameaçaram removê-lo. Assim, passam-se cinco anos (!) e Bond, não mais um agente a serviço secreto de Vossa Majestade, é recrutado não pelo MI6, mas por seu grande amigo Felix Leiter (Jeffrey Wright), da CIA, que pede a Bond um favor: Recapturar um cientista russo sem escrúpulos, criador de um vírus a pedido do próprio MI6, que foi tirado de um laboratório secreto por um grupo obscuro que aparentemente é a Spectre.

A inusitada missão leva Bond à Cuba, na qual tem por ajudante a entusiasmada e divertida Paloma (a maravilhosa Ana de Armas, estabelecendo com Graig uma parceria um pouco diferente da que fizeram em “Entre Facas e Segredos”), talvez, a mais interessante e vívida personagem de todo o filme. Uma pena ela aparecer por tão pouco tempo...

O roteiro de “Sem Tempo Para Morrer” –assinado pelo diretor Cary Joji Fukunaga, Phoebe Waller-Bridge, Scott Z. Burns, Neal Purvis e Robert Wade, os dois últimos, roteiristas que, entre uma e outra colaboração, seguiram firme na franquia 007 desde os tempos de Pierce Brosnan, ou seja, conhecem (ou deveriam conhecer) toda a mitologia do personagem de cabo a rabo –lança mão de subterfúgios bastante sofisticados e expedientes objetivos de filmes de espionagem para desvencilhar-se da irrelevância e fazer-se surpreendente numa época em que expectadores não se surpreendem nem com reviravoltas-surpresas no melhor estilo M. Night Shyamalan. Não só isso, a produção também encara o desafio –inerente à todo filme de James Bond desde o fim dos anos 1980 –de fazer um personagem nascido das circunstâncias da Guerra Fria soar pertinente na atualidade, além de procurar se impor como uma válida obra cinematográfica tendo como objeto de comparação o fabuloso “007-Operação Skyfall”, com grande unanimidade tido como o melhor filme de Bond feito até hoje, e buscando fugir da proximidade qualitativa de obras que envergonharam a série, como “007 Contra O Foguete da Morte”.

São muitos, portanto, os desafios com os quais o diretor Cary Joji Fukunaga (da primeira temporada da série “True Detective”) se defronta aqui, e embora a crítica tenha sido muito rabugenta com seu trabalho (em certos quesitos até com alguma razão), ele consegue entregar um entretenimento válido, distante da sensação de desperdício que infelizmente contaminou “007 Contra Spectre”, ainda que longe de igualar a qualidade dos títulos mais honoráveis. Mesmo assim, “Sem Tempo Para Morrer” segue envolvente, eletrizante e reconhecível como um genuíno filme de 007.

Curioso, entretanto, é quando descobrimos, ao lado do próprio James Bond, que ele não é mais 007 (?!); seu codinome foi transferido, quando deixou o MI6, para outra agente, interpretada por Lashana Lynch (de “Capitã Marvel”). Contudo, será ao lado dela que Bond terá de trabalhar quando descobrir que, ao contrário do que acreditava, os planos malignos em gestação não são da Spectre (cujo líder, Blofeld, vivido por Christoph Waltz, está em uma prisão de segurança máxima), e sim de outro vilão megalomaníaco (vivido, por sua vez, por Rami Malek, recém-saído do Oscar de Melhor Ator por “Bohemian Rapsody”) dotado de planos intrincados que reintroduzem Madeleine Swann (personagem melhor desenvolvida aqui que no filme anterior) de volta à vida de Bond.

É fácil enxergar os elementos de “Sem Tempo Para Morrer” que desagradaram os puristas – a representatividade (um fator sempre redundante e secundário em encarnações anteriores do personagem) é poderosamente exercida no roteiro com a adição de uma mulher negra que detêm, durante boa parte do tempo, o título de 007 que antes pertencia ao herói, além das lembranças constantes da presumida irrelevância de James Bond, seja como um truculento agente de campo numa época dominada por tecnologia, sejam suas atitudes rotuladas machistas, e tudo isso sem contar a manobra final que certamente deixou descontente a maioria esmagadora de sua legião de fãs. Ainda assim, há que se notar também as qualidades do filme: A Fase Daniel Craig como um todo –e alguns de seus exemplares com mais evidência –foi a primeira a aproveitar integralmente todo o potencial cinematográfico que se poderia atingir nas obras de James Bond, não obstante o brilho nostálgico e a pulsante inovação da Fase Sean Connery, o divertimento irrestrito, ainda que ocasionalmente tolo, da Fase Roger Moore, a seriedade genérica da Fase TimothyDalton e o sopro de renovação técnica e artística da Fase Pierce Brosnan. Aqui, Cary Joji Fukunaga reitera muito do que funcionou antes, para potencializar o grande intérprete que Bond encontrou em Daniel Craig (embora sempre tenha sido notória a relação ‘amor e ódio’ que o ator sempre alimentou pelo personagem), cercando-o de formidáveis reafirmações da mitologia à qual pertenceu. É uma despedida digna, exuberante e adequada, imperfeita nas suas escolhas, razoável em relação à época a que pertence, enunciando certamente um recomeço no futuro, com outro ator, outra abordagem, e outra tentativa de se equiparar a tudo que veio antes.

Talvez o maior desafio seja encontrar um ator que se imponha no papel com a eficiência instintiva que Daniel Craig soube depositar em toda sua bela, ainda que oscilante, trajetória de cinco filmes.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Na Mira do Chefe

Após conquistar o Oscar 2006 de Melhor Curta-Metragem com “Six Shooter” (que também contava com Brendan Gleeson em seu elenco), o diretor e roteirista Martin McDonagh arregaçou as mangas e estreou em longa-metragens neste “In Bruges”, um trabalho fervilhante de humor negro que, com o tempo, ficou bem claro, era bastante sintomático de seu estilo e de suas nada usuais inquietações –nele, enxergamos seu fascínio por matadores de aluguel (foco de “Sete Psicopatas e Um Shi-Tzu”) e uma estranha obsessão por anões (!) (também é um anão um dos personagens fundamentais de “Três Anúncios Para Um Crime”).
“In Bruges” prova também que, como contador de histórias, McDonagh se presta a jamais desempenhar numa zona de conforto: Tão logo concluem um assassinato encomendado, o veterano Ken (Gleeson) e o novato Ray (Colin Farrel, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia) são incumbidos de refugiar-se na cidade de Bruges, na Bélgica, por duas semanas e lá esperar por notícias.
E assim, durante boa parte de sua primeira metade, o filme de McDonagh se propõe a discorrer sobre o nada (!): Embora paisagística e de apelo turístico, Bruges é uma cidade bucólica e modorrenta, despertando reações diferentes nos dois assassinos de aluguel.
Disposto a acatar as ordens de cima, Ken aceita a incumbência e tenta distrair-se com o roteiro de visitas proposto pelo hotel onde se hospedam.
Porém, mais jovem e inquieto, Ray não recebe tão bem assim a designação; Bruges é um lugar onde deveras ele não gostaria de estar –e um trágico contratempo acarretado durante sua última missão o corrói de remorso deixando-o ainda mais agitado.
Enquanto aguardam as instruções do que fazer, Ken e Ray perambulam pelo lugar, trocam ideias e vivenciam experiências corriqueiras: Ray observa as filmagens de um longa-metragem local, e fica intrigado pela presença de um anão (Jordan Prentice) no que parece ser uma espécie de referência à “Inverno de Sangue Em Veneza”.
É ali que ele conhece Chloe (Clémence Poésy, de “Harry Potter e O Cálice de Fogo”), jovem traficante local com quem acaba se envolvendo, e que lhe atrai ainda mais confusão, sobretudo, quando o violento namorado dela (Jérémie Renier, de “O Amante Duplo”) tenta roubá-lo.
O roteiro de McDonagh parece justapor exatamente isso, essa escalada da violência (do namoradinho de Chloe a coisa degringola para o próprio chefe deles, vivido por um ameaçador ainda que engraçado Ralph Fiennes) num ambiente hermético; e a partir desses desdobramentos, ele não poupa ninguém: A meia hora final submete seus protagonistas a revezes violentos e sangrentos que orgulhariam Quentin Tarantino.
Mais que isso, “In Bruges” se faz notável pelo seu encadeamento notadamente acadêmico, mas atenciosamente assimétrico e equilibrado: Os eventos que compõem seu desfecho são de uma harmonia dramática que se equaciona com os acontecimentos presentes em seu ponto de partida; curioso é o estranho contraste que a violência algo desmesurada (ainda que homeopática) e a ausência de zelo para com a integridade de seus personagens acarreta ao público quando o filme nos confronta com seu clímax: McDonagh promove um misto destemido de drama agridoce e intriga policial sangrenta, brindado com uma das mais incomuns e convictas interpretações de Colin Farrel.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Dolittle

Um personagem de uma série de quatorze livros infanto-juvenis escritos por Hugh Lofting muito famoso nos EUA, mas bem pouco conhecido aqui no Brasil foi o escolhido pelo astro Robert Downey Jr. para tentar dar continuidade à sua bem-sucedida carreira depois que ela ressurgiu das cinzas quando ele interpretou Tony Stark em “Homem de Ferro”, no Universo Marvel Cinematográfico, papel do qual ele se ocupou na última década (com poucos e ocasionais projetos distintos como “Sherlock Holmes”, “Trovão Tropical”, “Um Parto de Viagem” e “O Juiz”) e do qual ele se despediu em “Vingadores-Ultimato”.
O mesmo personagem já havia rendido um musical irregular (ainda que indicado ao Oscar!) em 1968, estrelado por Rex Harrison e dirigido por Richard Fleischer, e, em sua encarnação mais famosa, uma comédia de grande sucesso popular com Eddie Murphy.
Esta nova produção, dirigida por Stephen Gaghan (roteirista de “Traffic” e diretor de “Syriana”, uma escolha um tanto estranha para um filme de apelo quase infantil) baseia-se com mais contundência em elementos dos livros (sobretudo, o segundo “The Voyages of Dr. Dolittle”), valendo-se de admiráveis valores de produção para concretizar sequências que passavam longe nos planos da simplicidade singela das adaptações anteriores.
Assim, “Dolittle” começa numa animação estilizada que relata as origens de seu protagonista: Um médico inglês que ao lado de seu grande amor, Lilly (Kasia Smutniak), viajou por todo o mundo aprendendo as línguas de todos os animais, com os quais passou a ser capaz de se comunicar. Como nos é informado, uma tragédia –a morte da amada ocorrida justamente na única viagem na qual não a acompanhou –o torna alguém recluso, muito falado, mas bem pouco visto.
O filme se inicia de fato quando o jovem Tommy Stubbins (o fraquinho Harry Collett) resolve procurá-lo em sua propriedade (na qual somente os animais estão autorizados a adentrar) para que cure um esquilo ferido. Junto com Tommy, aparece também a bela e jovem Lady Rose (a estreante Carmel Laniado) que apesar da pouca idade chega representando a Família Real da Inglaterra: A Rainha Victoria (Jessie Buckley, da série “Chernobyl”) se encontra doente e antes que seu estado a leve para sempre (permitindo que abutres interesseiros como o personagem vivido por Jim Broadbent assumam a coroa), ela deseja recorrer aos inusitados conhecimentos do Dr. Dolittle para tentar curá-la.
Robert Downey Jr. compõe John Dolittle com a propriedade que lhe é característica: Nada nele lembra trejeitos ou cacoetes de Stark ou quaisquer um de seus personagens anteriores. É um trabalho metódico de um ator dedicado e talentoso.
E, munido de efeitos visuais que transformam a fauna inquieta de diversos animais coadjuvantes num show à parte, o flme transforma as cenas iniciais de interação entre Dolittle e os bichos em um deleite –com destaque para a sequência que ele e seus ‘assistentes’ conseguem fazer um diagnóstico da condição da Rainha Victoria.
É quando “Dolittle” começa então a apresentar suas tremendas fraquezas –um tanto quanto cedo demais... –o bom médico chega à conclusão de que a única cura para a Rainha Victoria é a seiva da ‘Árvore do Édem’ –mesma iguaria que sua amada Lilly morreu tentando encontrar!
Assim, acompanhado de Tommy, que agora deseja ser seu aprendiz, o Dr. Dolittle empreende uma claudicante aventura rumo à terras desconhecidas –que passa pelo reino do ex-sogro, um monarca beligerante vivido por Antonio Banderas –seguido de perto pelos emissários dos conspiradores, liderados pelo médico perverso e apalermado interpretado por Michael Sheen (que até lembra do Dick Vigarista!).
Se muitos dos personagens humanos soam absolutamente rasos e a trama tem inúmeras passagens indefinidas, isso se deve em grande parte pela pouca familiaridade do diretor Gaghan com esse tipo de gênero (o que nos faz perguntar o tempo todo porque ele foi escolhido para o projeto!): Essa inadequação foi detectada pelos produtores em algum momento da produção e o diretor Jonathan Liebesman (de “Tartarugas Ninja”) foi chamado para rodar cenas adicionais e dar mais leveza e coesão ao material. O resultado foi uma narração em off da arara dublada por Emma Thompson (!) que preenche muitas lacunas da trama de forma incômoda e ginasiana e uma irregularidade de estilo, ritmo e lógica que sabota sistematicamente todo o filme, culminando no prato principal do mau gosto, seu clímax, onde os realizadores julgaram ser uma boa ideia mostrar uma cena de humor grosseiro (e, no fim, nada engraçado) em torno de um dragão com prisão de ventre (!!).
Da forma como ficou, para cada acerto, “Dolittle” apresenta um lapso: Seu protagonista conta com um astro empenhado e hábil, mas seu co-protagonista (os olhos da plateia, assim sendo), é vivido por um jovem ator mais perdido que cego em tiroteio; seus efeitos visuais criam animais com uma  fascinante fluidez em cena (e que conta com um elenco estelar de vozes, como Tom Holland, Octavia Spencer, Rami Malek, John Cena, Marion Cottilard, Selena Gomez e Ralph Fiennes), mas seu elenco humano coadjuvante, em compensação, está tão lastimável quanto caricato (com a louvável exceção de Antonio Banderas); e, se o filme conta com a beleza visual proporcionada pela fotografia de Guillermo Navarro, todas as cenas com ela concebidas são entremeadas numa narrativa problemática, a qual o expectador acompanha sem maiores envolvimentos.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2

Havia uma intenção bastante específica quando foi tomada a decisão de dividir o último livro da “Saga Harry Potter” em dois filmes: Traduzir o conteúdo da história, profundamente elucidativa para com todas as pontas soltas deixadas ao longo dos outros seis livros, da forma mais completa possível –essa prática chegou até a influenciar outras sagas adolescentes posteriores oriundas da literatura como “Crepúsculo” e "Jogos Vorazes”, cujo livro final também foi dividido em filmes Parte 1 e Parte 2.
Ironicamente, é nesse aspecto que o último filme dirigido por David Yates deixa a desejar –como veremos mais a frente.
“As Relíquias da Morte-Parte 2” retoma exatamente o ponto em que a “Parte 1” abandonou o público, quando Voldemort enfim pôs as mãos na poderosa ‘varinha das varinhas’ e Harry Potter, ainda perplexo, testemunhou o nobre sacrifício do elfo Dobby.
O filme prossegue daí quando Harry, Hermione e Rony almejam agora encontrar as outras horcruxes –os artefatos de magia negra imbuídos de fragmentos da alma de Voldemort: E só para constar, até este ponto da trama, dentre todas as sete horcruxes já foram mostradas três (o diário de Tom Riddle, destruído em “A Câmara Secreta”; um anel, destruído por Dumblodore à duras penas; e o medalhão do qual Harry e Rony deram cabo no filme anterior).
As quatro que ainda faltam, de certa maneira, determinam a narrativa do filme: A quarta, uma taça enfeitiçada, guardada no Banco Gringotes, regido por desconfiados duendes –e dentro do qual os três jovens vão audaciosamente tentar entrar com o pouco confiável auxílio do duende Grampo (o sensacional Warwick Davis, de “Willow-Na Terra da Magia”). E tome mais uma cena espetacular quando os três fogem do banco sobre as costas de um dragão!
A quinta, um lendário diadema roubado da Casa de Corvinal, obriga Harry e seus amigos a voltarem para Hogwarts, onde Severo Snape prevalece como diretor impondo os desmandos do Lorde das Trevas e submetendo os alunos a um regime ditatorial –é na busca por essa horcrux que Harry se depara com o fantasma de Helena Ravenclaw, vivido por Kelly MacDonald, a estrela de “The Girl In The Café”, também dirigido por Yates.
A sexta horcrux, numa manobra até bem óbvia vem a ser a fiel e mortífera cobra Nagini, sempre próxima de Voldemort, enquanto que a sétima e última, revelada no clímax, vem a ser o próprio Harry Potter (!), que deve ser sacrificado para que o Lorde das Trevas pereça.
Na esteira dessas revelações e acontecimentos –que, por sua proximidade fidedigna ao material literário, agrega um excesso de informações que pode confundir muitos expectadores –o diretor Yates escancara suas predisposições épicas, já perceptíveis na gradual elevação de escopo em seus filmes anteriores (especificamente iniciada em “O Enigma do Príncipe”), mas abraçadas por inteiro aqui na grandiloquente batalha do bem contra o mal que toma Hogwarts como cenário na última hora de filme, quando praticamente todos os personagens (alguns interpretados por atores famosos que surgem como pontas) comparecem deste ou daquele lado.
Não há dúvida de que a possibilidade de abreviar o mínimo possível os acontecimentos do livro beneficiou o filme. Contudo, se a “Parte 1” resulta primordial e empolgante por conta disso, a “Parte 2” sofre pequenas complicações: É maravilhoso poder ver muitos trechos do livro preservados na íntegra (e uma pena constatar que isso infelizmente não ocorre com tanta frequência em adaptações cinematográficas em geral), no entanto, é estranho que justamente a sequência do livro que melhor justifica a divisão em duas partes seja exatamente a que acaba negligenciada pela narrativa –trata-se do momento em que Harry Potter contempla as memórias de Severo Snape (Alan Rickman, certamente o grande ator de toda saga), até então tratado como um dos grandes vilões da história. Por meio desse momento brilhante, Harry (e o público junto com ele) descobre as reais motivações de Snape e o porque dele ser, sem que soubéssemos, um dos grandes heróis da saga!
Um momento revelador, emocional e surpreendente que merecia no filme o mesmo zelo e cuidado demandado no livro; do jeito como ficou –numa montagem de cenas simultâneas, quase a lembrar um videoclipe –pode até suscitar algumas emoções, mas está longe do impacto que poderia ter se ganhasse a mesma atenção de algumas cenas de ação.
Claro que essas são impressões menores: Do jeito como está, “As Relíquias da Morte-Parte 2” se mantêm como um final apoteótico, arrebatador e digno para uma das sagas cinematográficas mais marcantes dos últimos tempos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 1

O começo do fim. Desde os eventos irreversíveis do desfecho de “O Enigma do Príncipe” –isto é, a morte de Dumblodore e a opção definitiva (ou não) de Severo Snape em aliar-se ao mal –o clima obtido para este derradeiro filme era de urgência com uma notável atmosfera de inevitabilidade.
Ainda assim, os produtores não deixaram de fazer das suas para ficar um tempo a mais com a galinha dos ovos de ouro em mãos: Ao adaptar o último livro da saga, optou-se pela decisão de realizar não um, mas dois filmes extraídos do livro, com a desculpa (bastante razoável e bastante significativa para ambos os filmes) de que o máximo do material literário poderia ser mantido na adaptação.
Portanto, esta primeira parte de “As Relíquias da Morte” abrange cerca de 60% do livro, reservando os desenlaces mais contundentes para a segunda parte, o quê não impede este de ser, também ele, um trabalho muito bom.
Harry Potter está prestes a completar dezessete anos, e com isso, o feitiço de proteção que o mantinha a salvo na casa de seus tios irá se acabar. A fim de salvá-lo e levá-lo a um lugar seguro, já no início do filme, vários personagens (muitos introduzidos ao longo dos diversos filmes anteriores) unem-se para despistar os terríveis Comensais da Morte –e já nessa cena eletrizante, o diretor David Yates mostra que não está para brincadeiras. Ele exibe a escala de cenas de ação ampliada desde o memorável filme anterior, ostenta um domínio vertiginoso de narrativa que, mesmo sendo este seu terceiro filme na franquia, continua a surpreender, e não poupa o expectador e seus personagens de apuros ameaçadores de verdade; o conto de fadas pueril vislumbrado em “A Pedra Filosofal” há tempos não existe mais.
Após a breve e alentadora cena de casamento entre Gui (Doomhaal Gleeson), irmão de Rony, e Fleur (de “O Cálice de Fogo”) as circunstâncias imediatamente se complicam: O Ministério de Magia é invadido e dominado pelos Comensais da Morte. O Lorde das Trevas, Voldemort, passa a comandar então o mundo bruxo.
Harry, Rony e Hermione fogem e, ao longo de meses absolutamente angustiantes, passam a viver de maneira nômade, tentando encontrar uma forma de dar prosseguimento ao plano de Dumblodore –de achar as ‘horcruxes’, que contêm fragmentos da alma de Voldemort, para que possam assim matá-lo –sem, no entanto, nenhum recurso, nenhum auxílio e nenhuma informação.
E é a partir daí que Hermione tem a oportunidade de brilhar como nunca o fez antes, tanto pela imensa funcionalidade da personagem, como pelo talento e carisma da atriz que a interpreta, a bela Emma Watson.
Enquanto isso, e de maneira narrativamente sucinta (ainda que perspicaz), o filme mostra a extensão do mal no mundo bruxo, com Hogwarts sendo dominada por Comensais da Morte (Severo Snape é nomeado seu novo diretor), o Ministério da Magia trabalhando em função da obliteração de pessoas normais, destituídas de magia, e o nome de Harry Potter difundido como o “Indesejável Nº 1”.
São todas informações que ratificam a sensação de desamparo experimentada pelos jovens protagonistas, e que este filme é imensamente feliz em compartilhar com o público –em grande parte, auxiliado pela fácil identificação do expectador com personagens que ele já conhece há anos; e que, em muitos casos da plateia, cresceram junto com os próprios atores principais.
Como numa espécie de tradição que a série passou a adotar desde “O Cálice de Fogo”, os realizadores escolheram, como ponto de ruptura na narrativa do livro, a sequência fatídica e consternadora da morte de um querido personagem para encerrar este filme –uma jogada inteligente que dá a um filme originalmente concebido para prescindir de um desfecho um desenlace amargo, porém válido e certamente impactante.
Ao final desta “Parte 1”, as apostas na luta do bem contra o mal estão altas e o público, ávido para conferir das emoções derradeiras reservadas pela “Parte 2”.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Harry Potter e O Cálice de Fogo

Para o quarto filme de saga, o diretor do ótimo trabalho anterior, Alfonso Cuarón, recusou a oferta para retornar à direção. Foi chamado então o realizador Mike Newell, de “Quatro Casamentos e Um Funeral” –o primeiro inglês, por sinal, a assumir o comando da saga –o quê proporcionou aos filmes da série uma chance do público experimentar as obras que se sucediam acrescidas das sensibilidades particulares de diferentes cineastas. Chris Columbus deu aos dois primeiros um viés envolvente de aventura juvenil; Cuarón agregou ao terceiro valores cinematográficos e artísticos mais sólidos; enquanto que Newell, valendo-se da ampla experiência nos distintos gêneros que trabalhou, contribuiu com o bombástico humor inglês ao que a saga tinha de comédia, e uma refinada depuração entre o drama e o suspense para o que ela tinha de tragédia.
O resultado é que “O Cálice de Fogo” disputa, com qualquer um dos outros títulos, o posto de melhor filme de toda a saga.
No quarto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry Potter já não é mais tão perplexo ao mundo mágico que o cerca. Suas inseguranças são agora angústias inerentes a um adolescente quase normal, que tem a peculiaridade de viver num ambiente regido por magia. Toda Hogwarts se encontra, nesse ano, em polvorosa: A escola será sede de um Torneio Tribruxo –onde Hogwarts e duas outras escolas de magia disputarão a almejada Taça dos Campeões.
Tais campeões serão selecionados pelo poderoso Cálice de Fogo cuja magia impede bruxos menores de dezessete anos de participar. Ou seja, Harry, Rony e Hermione –do alto de seus catorze anos –não podem competir. Contudo, no dia em que os competidores são anunciados, junto do nome dos usuais representantes de cada escola –Viktor Krum (Stanislav Ianevski) a representar o Instituto Durmstrang; Fleur Delacour (Clémence Poésy, de “127 Horas”) representando a Academia de Magia Beauxbatons; e Cedrico Diggory (Robert Pattinson, revelado aqui antes da “Saga Crepúsculo”) como representante de Hogwarts –o Cálice de Fogo cospe também o nome de Harry Potter (!).
Ele é aceito como competidor já que, segundo as regras do Torneio Tribruxo, os desígnios do Cálice de Fogo são onipotentes –o que significa que, na qualidade de perdedor certo, Harry terá alunos de magia mais velhos como adversários, em provas perigosas que podem perfeitamente lhe representar perigo mortal.
Ciente de que tem material de sobra para trabalhar –o livro que é aqui adaptado é um dos mais ricos e extensos de toda série –o diretor Mike Newell é admiravelmente criterioso na seleção dos momentos vultuosos e intensos que são aproveitados: Apenas aqueles que levam a história a avançar. O que sobra em “O Cálice de Fogo” é a aventura mais perfeitamente ajustada, até aqui, nas idas e vindas aflitivas de seu protagonista, absolutamente afiada nos meandros que conduzem, sem que fique claro até o instante fatídico, ao acontecimento divisor de águas para com toda a saga –é aqui, em “O Cálice de Fogo” que testemunhamos o retorno tão alardeado de Lorde Voldemort em toda sua ameaça; e ao interpretá-lo, na intensa cena do cemitério, Ralph Fiennes entrega um dos mais hipnóticos vilões dos últimos tempos, numa atuação raivosa e eletrizante que consegue fazer jus a toda preparação para sua chegada feita pelos filmes anteriores.
Por tudo isso, “Harry Potter e O Cálice de Fogo” marca uma contundente transformação na saga: A partir daqui, nada no mundo de Harry Potter será como antes –e trazer como clímax a primeira e verdadeiramente dolorosa morte de um personagem é só uma faceta dessa constatação –isso é inclusive sentido pelos próprios protagonistas na agridoce e reflexiva cena final, um sutil indício de tudo que está por vir nos excelentes filmes vindouros.