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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Animais Fantásticos - Os Crimes de Grindelwald

Tanto J.K. Rowling (autora e, aqui, roteirista do próprio projeto) quanto o diretor David Yates não se acomodaram em completar a “”Saga Harry Potter”; passado um tempo, enveredaram por esta nova franquia que lança um pouco mais de luz ao rico universo mágico criado para ambientar aquela história –desta vez, com a atenção voltada para o passado daquele mundo bruxo. Se o primeiro, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” se ambientava em Nova York, este segundo, passeia por Londres e Paris, dando continuidade aos eventos lá mostrados.
O ano é 1927 e, portanto, faz pouco menos de um ano que o perigoso bruxo Grindelwald (Johnny Depp, um vilão no meio do caminho entre o memorável e o medíocre) foi capturado naquele episódio turbulento nos EUA. Sua fuga, contudo, transcorre já no prólogo.
Grindelwald é terrivelmente perigoso e poderoso –tanto que o Ministério Britânico de Magia está convencido de que apenas um bruxo no mundo tem poder o bastante para enfrentá-lo: O famoso professor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumblodore, aqui vivido em uma versão mais jovem (ainda que igualmente excelente) por Jude Law. Contudo, Dumblodore tem uma espécie de ligação com Grindelwald que os impede de atacar um ao outro –uma manobra fundamental à história que, de certa forma, ratifica uma afirmação já antiga acerca da homossexualidade de Dumblodore.
Cientes de que são adversários e de que um deve encontrar um meio de neutralizar o outro, tanto o bruxo do bem quanto o bruxo do mal já têm lá seus estratagemas para driblar esse obstáculo: Para Grindelwald, o único indivíduo dotado de poder o bastante para sobrepujar Dumblodore é o jovem Credence (Ezra Miller) que, no filme anterior, revelou-se um obscurus –uma entidade de extremo poder destrutivo originado de uma vida de rancor –e havia sido dado como morto; não morreu, Credence ainda vive e está em Paris à procura de respostas sobre seu passado orfão, ao lado da bela Nagini (Claudia Kim), uma garota transmorfa condenada a assumir em breve a forma permanente de uma serpente gigante –certamente, a mesma serpente que aparece nos filmes de “Harry Potter” a servir o maligno Voldemort.
Já, Dumblodore enxerga no arredio Newt Scamander (Eddie Redmayne, ainda duvidoso como protagonista) a única alternativa confiável para confrontar Grindelwald sem que ele próprio se envolva; e com isso, arremessa Newt novamente na trama deste filme, primeiramente procurando pela americana Tina Goldstein (Katherine Waterston) nas ruas de Paris, ao lado do não-bruxo Jacob (Dan Fogler) e da irmã dela, Queenie (Alison Sudol), duas das presenças mais radiantes e carismáticas do filme anterior, cujas trajetórias ganham aqui grande importância junto ao plot central, além de um viés bem mais sombrio e fatalista em comparação ao seu despreocupado romance do primeiro filme.
Essa descrição não chega a esboçar por completo a trama algo rocambolesca urgida para esta obra que multiplica ainda mais seu núcleo de personagens pertinentes, em especial, ao mostrar a sempre desolada Leta Lestrange (Zoe Kravitz), personagem mencionada brevemente no filme anterior, cujo sobrenome é o mesmo da personagem Belatriz, de “Harry Potter e A Ordem da Fênix”; e o irmão do protagonista, Teseu Scamander (Callum Turner, de “Rainha & País”), sugerindo formar (ou ter formado) com Newt e Leta um relutante triângulo amoroso.
Também as auto-referências aqui se amontoam em profusão (a mais descarada delas, além da participação de Dumblodore, que deve ser maior nos próximos filmes, é a ponta até divertida de Nicolau Flameu, citado num momento de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”), só não comprometendo o resultado final graças à aprofundada experiência que Yates e Rowling possuem junto a esse universo, fazendo a narrativa passear com suavidade pelas diversas circunstâncias mágicas desse mundo ao qual eles tornam sempre um prazer poder regressar.
“Os Crimes de Grindelwald” guarda em si a maior parte das características dos filmes de transição da “Saga Harry Potter” –sobretudo, “O Enigma do Príncipe” –nas quais seus acontecimentos obedecem uma orientação que presume-se instintivamente só terá desfecho em filmes futuros, onde nada encontra um desenlace de fato, e tudo se mantém em suspense ou em mistério (ou em ambos), e apesar de tudo isso, dessa ambígua predisposição para negar respostas, ele ainda se mostra um filme envolvente e fluido, prazeroso de ser visto.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2

Havia uma intenção bastante específica quando foi tomada a decisão de dividir o último livro da “Saga Harry Potter” em dois filmes: Traduzir o conteúdo da história, profundamente elucidativa para com todas as pontas soltas deixadas ao longo dos outros seis livros, da forma mais completa possível –essa prática chegou até a influenciar outras sagas adolescentes posteriores oriundas da literatura como “Crepúsculo” e "Jogos Vorazes”, cujo livro final também foi dividido em filmes Parte 1 e Parte 2.
Ironicamente, é nesse aspecto que o último filme dirigido por David Yates deixa a desejar –como veremos mais a frente.
“As Relíquias da Morte-Parte 2” retoma exatamente o ponto em que a “Parte 1” abandonou o público, quando Voldemort enfim pôs as mãos na poderosa ‘varinha das varinhas’ e Harry Potter, ainda perplexo, testemunhou o nobre sacrifício do elfo Dobby.
O filme prossegue daí quando Harry, Hermione e Rony almejam agora encontrar as outras horcruxes –os artefatos de magia negra imbuídos de fragmentos da alma de Voldemort: E só para constar, até este ponto da trama, dentre todas as sete horcruxes já foram mostradas três (o diário de Tom Riddle, destruído em “A Câmara Secreta”; um anel, destruído por Dumblodore à duras penas; e o medalhão do qual Harry e Rony deram cabo no filme anterior).
As quatro que ainda faltam, de certa maneira, determinam a narrativa do filme: A quarta, uma taça enfeitiçada, guardada no Banco Gringotes, regido por desconfiados duendes –e dentro do qual os três jovens vão audaciosamente tentar entrar com o pouco confiável auxílio do duende Grampo (o sensacional Warwick Davis, de “Willow-Na Terra da Magia”). E tome mais uma cena espetacular quando os três fogem do banco sobre as costas de um dragão!
A quinta, um lendário diadema roubado da Casa de Corvinal, obriga Harry e seus amigos a voltarem para Hogwarts, onde Severo Snape prevalece como diretor impondo os desmandos do Lorde das Trevas e submetendo os alunos a um regime ditatorial –é na busca por essa horcrux que Harry se depara com o fantasma de Helena Ravenclaw, vivido por Kelly MacDonald, a estrela de “The Girl In The Café”, também dirigido por Yates.
A sexta horcrux, numa manobra até bem óbvia vem a ser a fiel e mortífera cobra Nagini, sempre próxima de Voldemort, enquanto que a sétima e última, revelada no clímax, vem a ser o próprio Harry Potter (!), que deve ser sacrificado para que o Lorde das Trevas pereça.
Na esteira dessas revelações e acontecimentos –que, por sua proximidade fidedigna ao material literário, agrega um excesso de informações que pode confundir muitos expectadores –o diretor Yates escancara suas predisposições épicas, já perceptíveis na gradual elevação de escopo em seus filmes anteriores (especificamente iniciada em “O Enigma do Príncipe”), mas abraçadas por inteiro aqui na grandiloquente batalha do bem contra o mal que toma Hogwarts como cenário na última hora de filme, quando praticamente todos os personagens (alguns interpretados por atores famosos que surgem como pontas) comparecem deste ou daquele lado.
Não há dúvida de que a possibilidade de abreviar o mínimo possível os acontecimentos do livro beneficiou o filme. Contudo, se a “Parte 1” resulta primordial e empolgante por conta disso, a “Parte 2” sofre pequenas complicações: É maravilhoso poder ver muitos trechos do livro preservados na íntegra (e uma pena constatar que isso infelizmente não ocorre com tanta frequência em adaptações cinematográficas em geral), no entanto, é estranho que justamente a sequência do livro que melhor justifica a divisão em duas partes seja exatamente a que acaba negligenciada pela narrativa –trata-se do momento em que Harry Potter contempla as memórias de Severo Snape (Alan Rickman, certamente o grande ator de toda saga), até então tratado como um dos grandes vilões da história. Por meio desse momento brilhante, Harry (e o público junto com ele) descobre as reais motivações de Snape e o porque dele ser, sem que soubéssemos, um dos grandes heróis da saga!
Um momento revelador, emocional e surpreendente que merecia no filme o mesmo zelo e cuidado demandado no livro; do jeito como ficou –numa montagem de cenas simultâneas, quase a lembrar um videoclipe –pode até suscitar algumas emoções, mas está longe do impacto que poderia ter se ganhasse a mesma atenção de algumas cenas de ação.
Claro que essas são impressões menores: Do jeito como está, “As Relíquias da Morte-Parte 2” se mantêm como um final apoteótico, arrebatador e digno para uma das sagas cinematográficas mais marcantes dos últimos tempos.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Harry Potter e A Ordem da Fêlix

Um novo filme. Uma nova troca de diretor. Todavia, este “A Ordem da Fênix” recebeu aquele que viria a ser o diretor fixo e definitivo da série até seu desfecho: O inglês David Yates, ironicamente reconhecido por trabalhos austeros, realistas e politizados feitos para a TV, como o filme “The Girl In The Café” e a minissérie (mais tarde convertida em filme) “Intrigas de Estado”.
Apesar de nada em sua filmografia pregressa sinalizar isso, Yates mostrou um fascínio inesgotável pelo material, um manuseio prodigioso dos elementos que configuravam a fantasia (como os onipresentes efeitos visuais), e um fôlego louvável que –ao contrário de Chris Columbus, cujo cansaço já se expressava no segundo filme –o levou a ostentar a mesma empolgação, o mesmo zelo para com o ritmo e a caracterização, e o mesmo patamar considerável de qualidade que ele conseguiu manter daqui até o último filme; totalizando quatro longa-metragens sob sua assinatura.
O começo de “A Ordem da Fênix” é brilhante e essencialmente cinematográfico –fruto, na opinião de muitos, do fato de ser o primeiro livro da saga escrito depois que ela já havia começado a ser adaptada para cinema. Nele, Harry surge num parquinho suburbano, contemplando memórias já distantes de infância e outras memórias, não tão distantes, mas terríveis, de quando testemunhou a morte de Cedrico no filme anterior.
Ao lado de seu primo Duda, agora à beira da deliquência, Harry é surpreendido pela aparição de dois Dementadores –numa sequência maravilhosa que deixa explícita a homenagem à “Alien”.
Por conta de usar o feitiço ‘patronum’ para proteger-se e a seu primo nesse prólogo, Harry corre assim o risco de ser expulso de Hogwarts –é sumariamente proibido que alunos pratiquem magia fora da escola.
Segue-se, logo depois, uma cena no até então muito falado, mas pouco mostrado, Ministério da Magia. Lá, o Ministro da Magia em pessoa, Cornélio Fudge (Robert Hardy), se revela hostil à Harry Potter e avesso à alegação dele e de Dumblodore de que Lorde Voldemort finalmente retornou.
E aí estão, pois, as características politizadas que justificam a escolha de David Yates como diretor –e que só se intensificarão daqui para frente –há todo um conflito de interesses ideológicos a incrementar as considerações acerca do conflito básico do bem contra o mal; para o Ministro Fudge, refutar a volta de Voldemort significa mais opor-se a Dumblodore como seu adversário político do que reconhecer o regresso do mal –e nessa teimosia, ele abre amplo espaço para a paranóia que, neste filme, contamina todo o mundo bruxo.
Isso, claro, se reflete na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts: A nova professora de Defesa Contra a Arte das Trevas, a insidiosa Dolores Humbridge (Imelda Stanton, compondo com primor a grande vilã do filme), é uma ferrenha apoiadora das facetas mais rígidas e autoritárias do governo de Fudge, e com essa postura, ela aproveita-se da ausência eventual de Dumblodore para dominar gradualmente toda a escola: Começa impondo a regra de que alunos não devem praticar magia –apenas inteirar-se da teoria –fazendo-os indefesos e deixando a capacidade para se defender reservada às forças do ministério; logo, ela se vale da proximidade com o ministro para colocar-se no direito de vetar aulas que julga desnecessárias (como as de clarividência); impõe normas de conduta abusivas e, com o tempo, táticas de punição ainda mais intoleráveis, chegando a arregimentar os alunos mais suscetíveis e corruptíveis (como Draco Malfoy) para a chamada Ordem Inquisitória destinada a policiar e denunciar as menores contravenções.
É natural que, em um ambiente assim tão repressivo, os esforços revolucionários acabem insurgindo: Dispostos a garantir um conhecimento contra as forças das trevas que se ensaiam no horizonte, Harry, Rony, Hermione e seus outros amigos –como Gina (Bonnie Wright), Chang (Katie Leung) ou Luna Lovegood (a sensacional Evanna Lynch) –resolvem integrar um grupo que reedita a Ordem da Fênix –outrora formada por seus pais, Sirius Black e outros quando jovens –e criam assim a Armada Dumblodore, para treinar às escondidas feitiços de proteção.
É impressionante perceber, por meio dessa premissa e do modo com que ela é tratada, o quanto a saga “Harry Potter” evoluiu: De aventuras infanto-juvenis investigativas, a série passou para uma contundente e eficiente alegoria sobre os excessos perniciosos do poder e da autocracia, mais próximo dos formidáveis “V de Vingança” e “1984 de Orwell” que de “Scooby-Doo”. Essa impressão é reforçada pelo evidente e notável amadurecimento do elenco, sobretudo, os protagonistas, Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson que cresceram literalmente em frente às câmeras.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Animais Fantásticos e Onde Habitam

“Harry Potter” rendeu muito dinheiro. Por mais que a integridade artística da criadora, J.K. Roling a levasse a dizer que a história estava encerrada, era bastante claro que o estúdio, e os produtores envolvidos em algum momento iriam encontrar um modo de retomar o filão. Fosse por meio de um derivado, ou de uma continuação direta ou indireta.
É assim, então, que chegamos a este “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, que se passa cronologicamente algumas décadas antes das aventuras do bruxinho na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts –nunca ficou muito claro em que época se passavam as histórias de Harry Potter, mas podemos presumir, por este daqui, que isso se dava no presente –e foca sua atenção em Newt Scamander (Eddie Redmayne, de “A Teoria de Tudo” numa atuação arredia, acanhada e titubeante), escritor bruxo, autor do livro que dá nome à este novo filme –e que, à título de informação, era um livro utilizado nas aulas das crianças em Hogwarts.
Newt chega à Nova York em meados da década de 1950, e o filme (em seu esplendor visual estonteante) vale-se justamente desse detalhe –ambientar-se nos EUA –para elaborar infindáveis cenas de encher os olhos (afinal, os outros filmes todos se passam exclusivamente na Inglaterra). Ele tem uma missão específica, que nunca ganha a devida importância na narrativa: Isso porque tão logo chega às ruas de N.Y., Newt arruma uma enorme confusão quando alguns dos animais mágicos que ele carrega em sua maleta (!), começam a escapar graças às confusões envolvendo o humano normal Jacob (Dan Fogler, construindo um personagem com zelo e sensibilidade) que depois se torna seu amigo.
Todas essas confusões atraem a atenção da ex-investigadora Tina (Katherine Waterston, de “Vício Inerente”, aparentando inadequação no papel de mocinha desajeitada e tímida) que, assim como muitos bruxos de N.Y. está atrás de uma criatura mágica que tem provocado caos e destruição nas ruas, e que pode estar relacionada ao inspetor vivido por Colin Farrel (o desfecho guarda uma surpresa interessante envolvendo este personagem), ou ao jovem estranho interpretado por Ezra Miller, membro do misterioso culto de uma mulher alienada e ameaçadora (Emily Watson).
O diretor David Yates parece ter nascido para dirigir as obras ambientadas neste universo mágico (ele é o realizador dos quatro últimos filmes da franquia, sendo de longe o diretor que mais trabalhou com os filmes de Harry Potter): Sua condução é mais do que apenas exemplar e envolvente, ela é apaixonada, dando ênfase aos vários detalhes que compõe a narrativa, abrilhantando aspectos, conduzindo-os com apreço e interesse. Seu amor por aquele universo e aqueles (numerosos) personagens e conceitos é perfeitamente visível e impregnado em cada frame, o seu outro filme lançado em 2016, “A Lenda de Tarzan”, nem chega perto de demonstrar a mesma perícia e desenvoltura.
Outro acerto feliz do filme é o fato de ser roteirizado pela própria criadora J.K. Rowling, o quê dá ao filme unidade, incipiência narrativa, equilíbrio e solidez, as mesmas características que ela soube levar à prosa das versões literárias.
Se há um problema em “Animais Fantásticos”, eles são seus protagonistas. Vencedor do Oscar de Melhor Ator em 2015, Eddie Redmayne emprega em Newt Scamander inúmeras características de outros personagens que interpretou, fazendo dele um apanhado de tiques e hesitações que não casam com um protagonista à frente de uma produção dessa envergadura. De certa maneira o mesmo vale para Katherine Waterston, que demora quase toda a primeira metade do filme para convencer o expectador.
Mas, se os dois protagonistas são hesitantes, os dois coadjuvantes que os acompanham são maravilhosos: Tanto Dan Fogler, quando a bela e encantadora Alison Sudol, no papel de Queenie, irmã de Tina, são sensacionais e cativantes –desde já torço para que ambos estejam na continuação.
O diretor Yates parece compreender e perceber isso, jogando sobre os dois toda a atenção na bonita e singela cena final.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A Lenda de Tarzan

Não deixa de ser admirável o fôlego que demonstra o diretor David Yates ao entregar dois projetos de considerável complexidade logística neste mesmo ano de 2016.
Um, o bem-sucedido derivado da série “Harry Potter” (da qual, aliás, os quatro últimos longa-metragens ele se encarregou), “Animais Fantásticos e Onde Habitam”.
O outro, esta reinvenção da célebre história do homem criado entre os macacos, concebida por Edgar Rice Burroughs, e tema de infindáveis versões cinematográficas e televisivas.
A saída dos roteiristas para supostamente contar algo novo (afinal, a origem do personagem já foi esmiuçada inúmeras vezes) foi inserir Tarzan e Jane –dois personagens fictícios, é sempre bom lembrar –em um contexto histórico real, além de ser uma trama sobre o retorno do personagem à África (embora Yates não se furte de, também ele, contar uma breve origem, surgida em meio à lapsos narrativos que sinceramente, não precisavam estar lá), no qual um Tarzan já estabelecido regressa para o seu meio, e no processo reencontra suas características antológicas: Soa como uma manobra parecida com o quê Bryan Singer fez em “Superman-O Retorno”.
Vamos aos fatos: O ano é 1890, e o Congo, na África, em poder do rei Leopoldo, da Bélgica, é um lugar explorado pela escravidão. Lá, o mercenário estrategista Leon Rom (Christoph Waltz interpretando com certo relaxo o personagem real que teria inspirado Kurtz do livro “The Hearts Of Darkness, de Joseph Conrad) tem por objetivo encontrar diamantes raros, que só ficarão à sua disposição se ele levar Tarzan até o líder vingativo de uma tribo (o intenso Djimon Hounson, em breve participação).
Mas, Tarzan (interpretado por Alexander Skarsgaard, da série “True Blood”, também com um pouco de relaxo) assumiu, nos últimos oito anos, o título de Lorde Greystoke, bem como o nome de John Clayton III, e se encontra em Londres, casado e acomodado com Jane (Margot Robbie, bela ainda que deslocada). Aquele que providencialmente o levará de volta ao lugar onde foi criado será George Washington Williams (Samuel L. Jackson sempre esmerado), figura real, um americano que buscou ir ao Congo em busca de provas da atividade escravagista ilegal lá praticada.
O roteiro assim amarra (de maneira relapsa, é bem verdade) essas situações levando Jane a ser capturada por Rom, que conduz Tarzan selva adentro à procura dela, e no caminho, vai se despindo do homem civilizado que tentou ser, e volta a transformar-se no personagem que todos conhecem.
O grande problema de “A Lenda de Tarzan” foi provavelmente seu diretor ter se incumbido de dois projetos: Ao dedicar-se quase que simultaneamente à “Animais Fantásticos...” (que estreou nos cinemas cerca de três meses depois deste “Tarzan”), Yates negligenciou muito da pós-produção deste filme, e isso é perfeitamente visível na tela –um dos melhores exemplos é o uso demasiado e desleixado da computação gráfica, que materializa inúmeros bichos digitais, mas o faz sem maior propriedade, bem como as cenas que mostram Tarzan se balançando em cipós, tão irreais e forçosamente estilizadas que parecem até mais fantasiosas do que as acrobacias do Homem-Aranha!
Desde as batalhas que se desenvolvem em cena (que passam a incômoda sensação de terem sido feitas às pressas, com detalhes mal planejados) até amarras mais sutis entre as situações do roteiro (muitas delas até soando como certo amadorismo), a produção vai acumulando falhas e erros de condução, muitos deles tão óbvios, que leva pouco tempo para tornar-se uma experiência maçante.
Foi perdida uma bela oportunidade para se fazer uma nova e empolgante versão de um personagem tão fundamental da cultura pop. O melhor ainda é ficar com a maravilhosa versão animada dos estúdios Disney de 1999, ou qualquer um dos sensacionais filmes antigos estrelados por Johnny Weissmuller.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - A Quarta e Última Parte


Harry Potter e As Relíquias da Morte-Parte 1
   O início do fim. Talvez por razões mercadológicas, talvez na intenção de preservar a integridade da obra (ou talvez por ambas as razões), o último livro foi dividido em dois filmes, sob o pretexto de todas as revelações contidas na obra serem mantidas, sem a necessidade de resumos ou abreviações. Esse mesmo pretexto foi adotado, mais tarde, em outras sagas como “Jogos Vorazes” e no já citado “Crepúsculo”, com resultados bastante díspares. A verdade é que, pelo menos nesta primeira parte, o recurso foi bastante interessante, possibilitando que passagens inteiras (e muito reveladoras) do livro ficassem intactas.
   No sétimo ano (em que completa sua maioridade), o jovem Harry Potter toma a decisão de percorrer o mundo em busca das horcruxes; objetos descobertos no filme anterior, e que são os fragmentos extraviados da alma do perverso Voldemort, portanto, a única maneira de matá-lo. A decisão de Harry vem numa hora crucial, já que o Ministério da Magia é tomado pelos Comensais da Morte, que impõem uma perseguição mortal aos trouxas, e Hogwars, a até então segura Escola de Magia, é controlada pelo agora diretor Severo Snape (o grande Alan Rickman), o frio assassino de Alvo Dumbledore.
   Junto de Harry, estão seus amigos Ron Weasley e Hermione Granger, as únicas companhias que Harry terá nessa angustiante cruzada.

Harry Potter e As Relíquias da Morte-Parte 2
   E foi assim que David Yates –o diretor mais longevo a lidar com a saga “Harry Potter” –chegou a este oitavo filme, o quarto sob sua direção.
   A divisão do livro derradeiro em dois filmes, que funcionou tão bem no filme anterior, não se revela tão harmônica neste último, sobretudo porque eles insistiram (mesmo adaptando somente os 40 % finais do livro) em resumir à uma montagem rápida, quase videoclipe, o grande momento do filme (a história de Severo Snape), enquanto deram mais espaço à segmentos mais desnecessários, como a batalha final propriamente dita, cheia de inserções novas que estendem a trama sem razão.
   Essas decisões tiraram a possibilidade de concretizar um filme perfeito no sentido de adaptação, mas Yates ainda sim realizou um trabalho magnífico (e que continua espetacular, anos depois, especialmente em comparação com as sagas juvenis que o precederam).
   Neste capítulo final faltam relativamente poucas horcruxes para Harry, Ron e Hermione reunirem. Muitos sacrifícios já foram realizados. Outros tantos estão por vir. E os itens que restam certamente serão encontrados na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, local onde agora os Comensais da Morte se apinham, orientados pelo soturno Severo Snape.
   O retorno a Hogwarts fará, portanto, Harry Potter confrontar seu maior inimigo que assassinou seus pais e lhe relegou o pesado destino de "salvador", assim como o próprio Severo Snape e o grande segredo que ele guardou durante toda a saga.

terça-feira, 12 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - Terceira Parte


Harry Potter e A Ordem da Fênix
   Uma nova troca de diretores. Desta vez, os produtores tiveram relativa sorte ao encontrar David Yates (até então um diretor televisivo, mas de insuspeita qualidade, com obras como “Intrigas de Estado” e “The Girl In The Café”), que demonstrou não apenas um nível de sensibilidade e qualidade artísticas na mesma proporção dos talentosos realizadores anteriores, mas também se enamorou de tal forma com o material oriundo dos livros de J.K. Rowling que terminou sendo o seu diretor oficial até o fim da série.
   Neste capítulo, descobrimos que, infelizmente, Harry Potter foi a única testemunha do retorno de Voldemort visto no filme anterior. É por isso que ao iniciar seu quinto ano na escola de Hogwarts, Harry é recebido com certa descrença. Pior que isso, agora com as constantes mudanças políticas, quem assume a diretoria da escola é uma mulher repressora, a ardilosa Dolores Umbridge (a sensacional Imelda Stanton), que tira a liberdade dos alunos.
   Para obter a verdade, e poder se preparar contra o mal que se aproxima, o próprio Harry cria um grupo revolucionário chamado Armada de Dumbledore (inspirado pelo gesto de seus pais e Sirius Black que, no passado, compuseram a Ordem da Fênix), e passa a treinar magia escondido com outros alunos, começando o que poderia vir a ser uma revolução.


Harry Potter e O Enigma do Príncipe
   David Yates retoma à direção neste sexto filme, mas ao contrário de Columbus que, lá no início, demonstrou desgaste e cansaço já em sua segunda produção, Yates mostra fôlego redobrado neste extraordinário episódio: Seu refinamento narrativo –já evidente no trabalho anterior, onde ele adotou inesperadas referências, como “V de Vingança”, para uma série do porte de “Harry Potter” –é ainda mais aprimorado aqui, onde ele emprega uma encenação sofisticada, em perfeita sintonia com o trabalho exemplar do diretor de fotografia Bruno Delbonnel.

   No seu sexto ano como aluno na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry Potter testemunha a tensão constante que paira no ar em função do medo despertado pelo onipresente Lord Voldemort e seus Comensais da Morte. Paralelamente, Harry e seus amigos, Ronny e Hermione, vivem as agruras dos primeiros amores da adolescência, principalmente quando Harry começa a perceber que está se enamorando de Gina, a irmã de seu melhor amigo. Entretanto, todos esses acontecimentos podem se interromper se Harry não cumprir uma certa missão da qual foi incumbido por Dumblodore: Obter as memórias do novo professor de Poções (o ótimo Jim Broadbent), memórias estas que estão diretamente relacionadas a Voldemort, e que escondem um horripilante segredo.