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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Animais Fantásticos - Os Crimes de Grindelwald

Tanto J.K. Rowling (autora e, aqui, roteirista do próprio projeto) quanto o diretor David Yates não se acomodaram em completar a “”Saga Harry Potter”; passado um tempo, enveredaram por esta nova franquia que lança um pouco mais de luz ao rico universo mágico criado para ambientar aquela história –desta vez, com a atenção voltada para o passado daquele mundo bruxo. Se o primeiro, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” se ambientava em Nova York, este segundo, passeia por Londres e Paris, dando continuidade aos eventos lá mostrados.
O ano é 1927 e, portanto, faz pouco menos de um ano que o perigoso bruxo Grindelwald (Johnny Depp, um vilão no meio do caminho entre o memorável e o medíocre) foi capturado naquele episódio turbulento nos EUA. Sua fuga, contudo, transcorre já no prólogo.
Grindelwald é terrivelmente perigoso e poderoso –tanto que o Ministério Britânico de Magia está convencido de que apenas um bruxo no mundo tem poder o bastante para enfrentá-lo: O famoso professor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumblodore, aqui vivido em uma versão mais jovem (ainda que igualmente excelente) por Jude Law. Contudo, Dumblodore tem uma espécie de ligação com Grindelwald que os impede de atacar um ao outro –uma manobra fundamental à história que, de certa forma, ratifica uma afirmação já antiga acerca da homossexualidade de Dumblodore.
Cientes de que são adversários e de que um deve encontrar um meio de neutralizar o outro, tanto o bruxo do bem quanto o bruxo do mal já têm lá seus estratagemas para driblar esse obstáculo: Para Grindelwald, o único indivíduo dotado de poder o bastante para sobrepujar Dumblodore é o jovem Credence (Ezra Miller) que, no filme anterior, revelou-se um obscurus –uma entidade de extremo poder destrutivo originado de uma vida de rancor –e havia sido dado como morto; não morreu, Credence ainda vive e está em Paris à procura de respostas sobre seu passado orfão, ao lado da bela Nagini (Claudia Kim), uma garota transmorfa condenada a assumir em breve a forma permanente de uma serpente gigante –certamente, a mesma serpente que aparece nos filmes de “Harry Potter” a servir o maligno Voldemort.
Já, Dumblodore enxerga no arredio Newt Scamander (Eddie Redmayne, ainda duvidoso como protagonista) a única alternativa confiável para confrontar Grindelwald sem que ele próprio se envolva; e com isso, arremessa Newt novamente na trama deste filme, primeiramente procurando pela americana Tina Goldstein (Katherine Waterston) nas ruas de Paris, ao lado do não-bruxo Jacob (Dan Fogler) e da irmã dela, Queenie (Alison Sudol), duas das presenças mais radiantes e carismáticas do filme anterior, cujas trajetórias ganham aqui grande importância junto ao plot central, além de um viés bem mais sombrio e fatalista em comparação ao seu despreocupado romance do primeiro filme.
Essa descrição não chega a esboçar por completo a trama algo rocambolesca urgida para esta obra que multiplica ainda mais seu núcleo de personagens pertinentes, em especial, ao mostrar a sempre desolada Leta Lestrange (Zoe Kravitz), personagem mencionada brevemente no filme anterior, cujo sobrenome é o mesmo da personagem Belatriz, de “Harry Potter e A Ordem da Fênix”; e o irmão do protagonista, Teseu Scamander (Callum Turner, de “Rainha & País”), sugerindo formar (ou ter formado) com Newt e Leta um relutante triângulo amoroso.
Também as auto-referências aqui se amontoam em profusão (a mais descarada delas, além da participação de Dumblodore, que deve ser maior nos próximos filmes, é a ponta até divertida de Nicolau Flameu, citado num momento de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”), só não comprometendo o resultado final graças à aprofundada experiência que Yates e Rowling possuem junto a esse universo, fazendo a narrativa passear com suavidade pelas diversas circunstâncias mágicas desse mundo ao qual eles tornam sempre um prazer poder regressar.
“Os Crimes de Grindelwald” guarda em si a maior parte das características dos filmes de transição da “Saga Harry Potter” –sobretudo, “O Enigma do Príncipe” –nas quais seus acontecimentos obedecem uma orientação que presume-se instintivamente só terá desfecho em filmes futuros, onde nada encontra um desenlace de fato, e tudo se mantém em suspense ou em mistério (ou em ambos), e apesar de tudo isso, dessa ambígua predisposição para negar respostas, ele ainda se mostra um filme envolvente e fluido, prazeroso de ser visto.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Os Miseráveis

Apesar de Anne Hathaway ter levado (com méritos) o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2013 pela sua poderosa presença como a trágica Fantine na primeira parte da trama (e ela de fato interpreta com esforço e primazia), o prêmio mais merecido para o filme de Tom Hooper foi mesmo o Oscar de Melhor Mixagem de Som.
Explica-se: “Os Miseráveis” é uma espécie muito incomum de musical; ele foi rodado com gravação sincrônica dos atores cantando para a câmera, a exemplo de muitas outras obras pregressas, no entanto, num escopo técnico antes tido por inimaginável, daí ser extraordinariamente notável a capacidade dos técnicos em capturar as vozes dos atores, filtrá-las de toda infinidade de sons poluentes e eventuais da cena e emoldurá-las com a melodia da trilha sonora para dali obter as músicas que compõem e ajudam sistematicamente a contar a história antes imaginada pelo escritor Victor Hugo no romance literário, e depois adaptada por Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, na versão teatral e musical que tanto sucesso fez nos palcos para então aqui ser vertida para o cinema.
O ano é 1817. Conhecemos o protagonista, Jean Valjean (Hugh Jackman, maravilhoso) um francês condenado à escravidão por ceder à fome; roubou um pedaço de pão para si a para a própria irmã. Durante sua liberdade condicional (que chega depois de 19 longos anos), Valjean aproveita e foge. Logo ele descobre que precisa abandonar sua identidade se tiver alguma intenção de prosperar naquela França do Século XIX: A discriminação para com ex-prisioneiros, como é o caso dele, chega a ser intolerável.
Descobre outra coisa também: O valor da solidariedade e do apego à Deus.
Cerca de oito anos se passam, e então Valjean (chamado agora pela nobre alcunha de Monsieur Prefeito!) é um homem rico, dono de uma tecelagem. É lá que trabalha Fantine (Anne), moça virtuosa (busca sempre fugir do assédio insidioso do contramestre) que não tarda a ter sua própria cota de drama: Mandada embora do emprego graças às crueldades perpetradas por suas colegas, Fantine não tem dinheiro para sustentar sua filhinha Cosette, e por conta disso, vende seus cabelos, depois seus dentes e, por fim, sua honra (se prostitui) para então perecer. Em seu leito de morte, Valjean –que sente-se culpado por não ter tido a oportunidade de ampará-la –lhe promete que será um pai para Cosette dali para frente, e a tira de seus insensíveis e inescrupulosos tutores, o casal Thénardier (interpretado com histrionismo por Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter).
Os anos tornam a se passar com Valjean sempre sob a sombra da rancorosa perseguição do obstinado Inspetor Javert (Russell Crowe, equilibrando a truculência do personagem com uma inesperada desenvoltura como cantor).
Então vivida por Amanda Seyfried, Cosette se apaixona por Marius (Eddie Redmayne), um jovem abastado que engrossa as fileiras da Revolução Francesa na luta pelos direitos do povo oprimido. Cosette e Marius formam com a filha dos Thénardier, Eponine (Samantha Banks, única oriunda da montagem teatral), um triângulo amoroso a movimentar a trama.
Neste ponto, Valjean se vê num dilema entre tornar a fugir (e recomeçar a vida), mais uma vez longe do encalço de Javert, ou finalmente separar-se Cosette, que ele ama como filha, deixando-a tentar a felicidade ao lado de Marius.
Não faltam tristezas em profusão a se abater sobre os personagens neste trabalho de Tom Hooper no qual o expectador deve saber, de antemão, que todos os diálogos são cantados ao invés de declamados –com isso, “Os Miseráveis” é uma sucessão de canções ocasionalmente antológicas, tão famosas que muitos talvez nem saibam que provêem desta obra, como é o caso da sofrida e ritmada “Look Down”, da célebre e visceral “I Dreamed A Dream”, da envolvente “My Life, A Heart Full Of Love”, e de várias outras.
Nesse sentido, o trabalho do diretor Hooper (que antes havia levado o Oscar de Melhor Filme por “O Discurso do Rei”) não prima por modéstia: Em sua exuberância rasgada e seu romantismo intoxicante, ele por vezes pode exaurir o expectador. Entretanto, para aqueles dentre o público que forem capazes de lhe fazer a travessia, “Os Miseráveis” reserva uma experiência de arrebatamento insuspeito e emoção irrestrita.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Pecados Inocentes

Neste filme de conotações extremamente perturbadoras, Julianne Moore, sempre maravilhosa, entrega uma atuação que remete a ecos de seus trabalhos inquisitivos em “Longe do Paraíso” e “À Salvo”, além de também se perceber uma observação similar a de sua personagem em “Boogie Nights” onde os erros cometidos parecem ser incapazes de fazer uma personalidade irredutível compreender aonde errou.
“Pecados Inocentes”, dirigido por Tom Kalin com um distanciamento antropológico que chega a lembrar vagamente Martin Scorsese em “A Época da Inocência”, se incumbe de relatar um chocante caso real ocorrido em meados de 1969.
Antes disso, ele sedimenta a estranha e obcecada relação de dependência psicológica formada entre a socialite Barbara Baekeland (Julianne) e seu único filho, Tony.
O casamento entre Barbara e o marido Brooks (Stephen Dillane, de “As Horas”) era um amálgama de ressentimentos, tédio e provocações constantes.
Intempestiva e ocasionalmente atrevida, Barbara não se encaixava na burguesia francesa da Paris dos anos 1950 onde durante um bom tempo eles moraram. O nascimento do filho, Tony, preencheu a lacuna deixada pelas amizades fracassadas e pela frustrante vida social; no entanto, por conta disso, Barbara criou com o filho, desde tenra idade, uma relação simbiótica que tornou-se doentia a medida que ele foi crescendo –e que, no filme, na maior parte das vezes ganha um registro até ameno e elíptico.
Quando Tony já tem dezoito anos (e é, pois, interpretado por Eddie Redmayne) e suas tendências homossexuais começam a ficar mais evidentes, os acontecimentos diretamente relacionados à tragédia começam a se suceder: Entre outros jovens amantes, ele arruma uma namoradinha de verão, Blanca (vivida pela espanhola Elena Anaya) que, um ano depois, torna-se amante de seu pai (!) e pivô da separação definitiva dele e de sua mãe.
A indignação com tal situação leva Barbara a buscar alento primeiro nos braços de Sam (Hugh Dancy, de “Histeria”, “Martha, Marcy, May, Marlene” e “Falcão Negro Em Perigo”) que torna-se amante de Tony também (!!), e depois, a mudar-se para Londres a fim de dar vazão ao seu lado artístico.
Nesse ponto, porém, Barbara e Tony já partilham de uma natureza sexual tão insólita que sua relação não tarda a galgar para o incesto (!) e então para uma psicopatia latente que o rapaz ainda não havia conseguido extravasar.
Realizado com um distanciamento emocional que torna o filme por vezes indigesto, o trabalho do diretor Kalin flutua com pretensa elegância pelos momentos incômodos (que se intensificam consideravelmente na meia hora final) ostentando uma atenção nem sempre apropriada ao elaborado detalhamento cênico. E sua abordagem do incesto entre mãe e filho não surge displicente, como em “La Luna”, nem nostálgica, como em “O Sopro do Coração”, mas imbuída de um distúrbio torpe e corrosivo.
Se Eddie Redmayne entrega uma interpretação carente de maiores retoques, a produção teve a sorte de contar com Julianne Moore, aquele tipo de atriz que consegue tirar leite de pedra: Ela trabalha magnificamente as facetas dessa personagem complexa e ingrata, sabendo enfatizar os aspectos mais apetecíveis aos olhos do público em cada etapa para que o teor trágico da premissa não se torne de pronto insuportável: Na primeira parte, ela é inesperadamente sensual; na segunda, sua perplexidade ganha até um pouco de simpatia (podendo até enganar expectadores desavisados com o filme); e na terceira e última, sua composição evidencia os esforços vazios, quase à beira da insensatez, de Barbara em manter sólida uma estrutura familiar que se espatifa em pedaços.
É aquele caso em que a atriz está anos-luz a frente do filme que protagoniza.

quarta-feira, 21 de março de 2018

O Destino de Júpiter

É fato que as Irmãs Wachowsky nunca mais conseguiram repetir o feito (um tanto quanto singular) de criar algo tão antológico e marcante quanto “Matrix” –nem em suas bem acabadas continuações elas chegaram a obter esse êxito.
Não que não tivessem tentado: Nas últimas décadas, eles... ops, desculpem, elas (!) entregaram uma versão live-action para cinema frenética, ainda que pouco eficaz, do anime “Speed Racer”, e uma ambiciosa (e presunçosa) adaptação do complexo romance de David Mitchell, “A Viagem”.
A sua tentativa mais próxima, contudo, de criar uma saga nos mesmos moldes comerciais de “Matrix” foi mesmo este “O Destino de Júpiter” que ironicamente parece beber da fonte de outra grande saga da ficção científica: “Star Wars”.
Embora ainda haja algo que remete ao conceito de “Matrix” na premissa de um mundo fantástico que se esconde debaixo de uma fachada de realidade normal, é certamente a criação de George Lucas que mais influencia os seres extraterrestres e as intrigas espaciais de ordem intergaláctica que norteiam este filme freqüentemente estranho, onde é difícil dizer se essa estranheza resulta por ser proposital ou porque as realizadoras não tiveram desenvoltura para evitá-la.
Interpretada com a habitual solidez da belíssima Mila Kunis, a protagonista, a jovem Júpiter Jones, vem a ser filha de imigrantes ucranianos que vivem em Nova York a encarar os revezes de uma vida paupérrima: Sua rotina é acordar de madrugada e limpar latrinas.
Todavia, Júpiter (cujo nome lhe foi dado pelo pai, apaixonado astrônomo falecido) como dita a cartilha hollywoodiana de tramas com tal apelo, não é uma pessoa comum –e isso se nota quando surgem em seu encalço seres vindos do espaço, uns desejosos de matá-la, outros, de protegê-la. E nesse ponto, as Wachowsky perdem completamente a chance de realizarem o aplicado trabalho de ação que exerceram em sua obra mais famosa, dando às cenas vertiginosas de “Destino de Júpiter” um registro convencional e desanimado.
A resposta para as atribulações mirabolantes que se abatem sobre a perplexa protagonista na primeira parte do filme é inesperada: Júpiter vem a ser a encarnação de uma rainha espacial do passado, em cuja herança está todo o planeta Terra!
Uma vez que ela, agora descoberta, se tornou alvo das conspirações de seus próprios herdeiros (entre os quais o mais proeminente é um efeminado e constrangedor Eddie Redmayne, pouco antes de levar o Oscar de Melhor Ator por “A Teoria de Tudo”), ela precisa contar com a ajuda do agente Caine (Channing Tatum, visivelmente o fetiche das diretoras), uma mistura atlética e supina de canino e humanóide (!), já que afinal todos os traiçoeiros membros de sua ‘família real’ estão de olho da Terra que, na realidade, trata-se do maior celeiro (!) de hospedeiros de todo o universo –as raças mais evoluídas têm uma tecnologia que os permite migrar de um corpo jovem para outro sem jamais serem alcançados pelo envelhecimento e pela morte.
Assim sendo, tal e qual seu cultuado "Matrix", as Irmãs Wachowski tentaram criar uma trama inusitada (no que, a princípio, elas seriam exímias), onde as camadas normais da realidade ocultam um mundo todo diferente, dotado de mitologia e complexidade próprias. Sua intenção se perde da pretensão de fazer desta uma nova e grandiloquente saga –pontuada por suas descabidas reflexões existenciais de botequim –e na execução frouxa cujos equívocos vão se acumulando até soarem incabíveis: Para se ter uma idéia do desleixo, existem dois clímax que se sucedem da mesma forma e com as mesmas justificativas (quase como uma mesma cena repetida duas vezes!).
O detalhismo rebuscado, e o esmero visual poderiam até ter feito deste um espetáculo acima da média, não tivessem desta vez as Wachowski errado de maneira tão espetacular: Esta tremenda demonstração de negligência resultou em vergonhosas indicações de Piores do Ano no Framboesa de Ouro 2015, concorrendo diretamente com “Cinqüenta Tonsde Cinza”.

sábado, 16 de setembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2015

(Todo o sábado, agora, haverá uma retrospectiva das cerimônias do Oscar de anos pregressos em ordem regressiva. Vamos ver até onde vai...)
Foi um ano que não teve grandes surpresas, exceto pela larga consagração nas categorias técnicas prestadas por “O GrandeHotel Budapeste” quando muitos acreditavam que os prêmios poderiam ir para Nolan e seu “Interestelar” –prestigiado apenas com o prêmio de Melhores Efeitos Visuais.
Como é habitual no Oscar, os prêmios principais foram previsíveis e sem maiores surpresas (uma pena, pois, Michael Keaton merecia ter arrebatado o prêmio de Melhor Ator das mãos de Eddie Redmayne), levando à consagração de “Birdman” (e lá se vão três anos consecutivos sem que um americano ganhe o Oscar de Melhor Diretor), ao pleno merecimento de J.K. Simmons e ao talvez tardio reconhecimento de Julianne Moore (afinal, houveram tantos grandes filmes pelo qual ela podia ter ganhado...), e ao prêmio para Patricia Arquette, a única menção à “Boyhood”, de Richard Linklatter, tido até então como um dos favoritos da noite.
Na categoria de Filme Estrangeiro foi uma pena não ver o argentino “Relatos Selvagens” ser premiado.
Menos mal que a justiça se fez com a conquista de três estatuetas para o primoroso “Whiplash”, talvez, o melhor dentre todos os indicados.

MELHOR FILME
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)"

MELHOR DIREÇÃO
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)", Alejandro Gonzales Iñarritu

MELHOR ATRIZ
Julianne Moore, "Para Sempre Alice"

MELHOR ATOR
Eddie Redmayne, "A Teoria de Tudo"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Patricia Arquette, "Boyhood-Da Infância À Juventude"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
J.K. Simmons, "Whiplash-Em Busca da Perfeição"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Citizen Four"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Crisis Hotline-Veterans Press 1"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Ida" (Polônia)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Whiplash-Em Busca da Perfeição"

MELHORES EFEITOS VISUAIS

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
"O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR FIGURINO
"O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Sniper Americano"

MELHOR DESIGNER DE PRODUÇÃO
"O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR TRILHA SONORA
“O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Glory", de "Selma"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"O Banquete"

MELHOR EDIÇÃO
"Whiplash-Em Busca da Perfeição"

MELHOR CURTA-METRAGEM


"The Phone Call”

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sete Dias Com Marilyn

“O primeiro amor é um doce desespero...”
Certamente, não haveria de ser fácil capturar, mesmo que na fugacidade da tela de cinema, o fascínio provocado por Marilyn Monroe, na ausência dela própria que partiu de nosso mundo e descansa em paz desde 1962.
Os produtores deste sensível trabalho –inspirado num fragmento real da vida de Marilyn –foram imensamente felizes ao confiar no talento da jovem Michelle Willians que, embora na vida real não se pareça de forma alguma com a estrela, conseguiu, em cena, captar todos os sesu trejeitos, a sua exuberância e uma característica geralmente indefinível que a acompanha, e que responde por grande parte do charme deste projeto.
Em 1957, com apenas 23 anos, o jovem inglês Colin Clark (Eddie Redmayne, administrando adequadamente o acanhamento e a impetuosidade do personagem) consegue um emprego como diretor assistente na produtora de Lawrence Olivier (Kenneth Brannagh) às vésperas das filmagens de "O Príncipe e A Corista" que trazia dos EUA a estrela americana Marilyn Monroe (Willians).
Em meio às filmagens, marcadas pela conturbada personalidade da atriz, o jovem torna-se seu amigo e confidente, e por ela se apaixona.
É deveras impressionante ver a composição de Michelle Willians como uma Marilyn Monroe avoada, complicada, carente e problemática –e no final das contas, apaixonante. Felizmente, porém, o filme não é só dela. Brilhante também está Kenneth Brannagh, magistral como um Lawrence Olivier comprometido com sua arte, perplexo pelas complicações de sua estrela e, no fim, profundamente inspirado por ela mesma.
“Eu tentei mudá-la, mas ela continuou brilhante, apesar de mim.”
Um filme sobre as aspirações e inspirações da arte, sobre os sempre saborosos bastidores do cinema e suas divertidas histórias ocultas, e sobre o desabrochar de novas experiências que, quase sempre confluem em emoções poderosas –que o diga o jovem Colin que, pelo menos durante um curto período de tempo teve, em seus braços, uma deusa como Marilyn Monroe.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Animais Fantásticos e Onde Habitam

“Harry Potter” rendeu muito dinheiro. Por mais que a integridade artística da criadora, J.K. Roling a levasse a dizer que a história estava encerrada, era bastante claro que o estúdio, e os produtores envolvidos em algum momento iriam encontrar um modo de retomar o filão. Fosse por meio de um derivado, ou de uma continuação direta ou indireta.
É assim, então, que chegamos a este “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, que se passa cronologicamente algumas décadas antes das aventuras do bruxinho na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts –nunca ficou muito claro em que época se passavam as histórias de Harry Potter, mas podemos presumir, por este daqui, que isso se dava no presente –e foca sua atenção em Newt Scamander (Eddie Redmayne, de “A Teoria de Tudo” numa atuação arredia, acanhada e titubeante), escritor bruxo, autor do livro que dá nome à este novo filme –e que, à título de informação, era um livro utilizado nas aulas das crianças em Hogwarts.
Newt chega à Nova York em meados da década de 1950, e o filme (em seu esplendor visual estonteante) vale-se justamente desse detalhe –ambientar-se nos EUA –para elaborar infindáveis cenas de encher os olhos (afinal, os outros filmes todos se passam exclusivamente na Inglaterra). Ele tem uma missão específica, que nunca ganha a devida importância na narrativa: Isso porque tão logo chega às ruas de N.Y., Newt arruma uma enorme confusão quando alguns dos animais mágicos que ele carrega em sua maleta (!), começam a escapar graças às confusões envolvendo o humano normal Jacob (Dan Fogler, construindo um personagem com zelo e sensibilidade) que depois se torna seu amigo.
Todas essas confusões atraem a atenção da ex-investigadora Tina (Katherine Waterston, de “Vício Inerente”, aparentando inadequação no papel de mocinha desajeitada e tímida) que, assim como muitos bruxos de N.Y. está atrás de uma criatura mágica que tem provocado caos e destruição nas ruas, e que pode estar relacionada ao inspetor vivido por Colin Farrel (o desfecho guarda uma surpresa interessante envolvendo este personagem), ou ao jovem estranho interpretado por Ezra Miller, membro do misterioso culto de uma mulher alienada e ameaçadora (Emily Watson).
O diretor David Yates parece ter nascido para dirigir as obras ambientadas neste universo mágico (ele é o realizador dos quatro últimos filmes da franquia, sendo de longe o diretor que mais trabalhou com os filmes de Harry Potter): Sua condução é mais do que apenas exemplar e envolvente, ela é apaixonada, dando ênfase aos vários detalhes que compõe a narrativa, abrilhantando aspectos, conduzindo-os com apreço e interesse. Seu amor por aquele universo e aqueles (numerosos) personagens e conceitos é perfeitamente visível e impregnado em cada frame, o seu outro filme lançado em 2016, “A Lenda de Tarzan”, nem chega perto de demonstrar a mesma perícia e desenvoltura.
Outro acerto feliz do filme é o fato de ser roteirizado pela própria criadora J.K. Rowling, o quê dá ao filme unidade, incipiência narrativa, equilíbrio e solidez, as mesmas características que ela soube levar à prosa das versões literárias.
Se há um problema em “Animais Fantásticos”, eles são seus protagonistas. Vencedor do Oscar de Melhor Ator em 2015, Eddie Redmayne emprega em Newt Scamander inúmeras características de outros personagens que interpretou, fazendo dele um apanhado de tiques e hesitações que não casam com um protagonista à frente de uma produção dessa envergadura. De certa maneira o mesmo vale para Katherine Waterston, que demora quase toda a primeira metade do filme para convencer o expectador.
Mas, se os dois protagonistas são hesitantes, os dois coadjuvantes que os acompanham são maravilhosos: Tanto Dan Fogler, quando a bela e encantadora Alison Sudol, no papel de Queenie, irmã de Tina, são sensacionais e cativantes –desde já torço para que ambos estejam na continuação.
O diretor Yates parece compreender e perceber isso, jogando sobre os dois toda a atenção na bonita e singela cena final.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A Teoria de Tudo

Sempre se soube que era uma questão de tempo até que o cinema contasse a história de Stephen Hawking, tão dotada ela era de aspectos cinematográficos, e tão absolutamente magnéticos são os detalhes que cercam seu desigual protagonista.
Aconteceu do diretor ser James Marsh, ganhador do Oscar de Melhor Documentário por seu extraordinário “O Equilibrista”, em sua estréia em longas de ficção.
E “A Teoria de Tudo” é, acima de tudo, exatamente isso: Uma ficção.
Promissor aluno do curso de cosmologia em Cambridge, Stephen Hawking (Eddie Redmayne, numa composição empenhada que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator) recebe, à beira de seus vinte anos, um diagnóstico devastador: Ele possui uma doença rara (a esclerose lateral amiotrófica) que dentro de dois anos paralisará as funções motoras de seu corpo e o levará a morte.
A notícia cai como uma bomba em seu relacionamento com Jane (Felicity Jones, a melhor coisa do filme!), que apesar de tudo não desiste. Eles casam, têm um filho e dão início a uma árdua jornada que se estenderá por anos na qual tentarão conviver com a doença de Stephen, o único fator a aplacar sua genialidade.

O filme acaba sendo uma biografia de Stephen Hawking contando sua vida ao lado da primeira esposa, Jane, de maneira um bocado romanceada, longe da realidade que certamente foi; há até mesmo um breve momento em que a edição sugere um acontecimento paralelo, mas que, na melhor das hipóteses, fica somente sugerido. A impressão que a direção de Marsh nos passa é de que ele fez um filme leve, inofensivo e enaltecedor, feito especialmente para agradar ao próprio auto-biografado, omitindo assim muitos dos detalhes mais lúgubres –e certamente mais interessantes –que ficaram restritos ao livro no qual se baseou.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Garota Dinamarquesa

Tom Hooper é o mesmo diretor de “O Discurso do Rei” e do musical “Os Miseráveis”. Aqui ele entrega um trabalho melhor do que ambos. O maior problema de “O Discurso do Rei”, na verdade, é que ele ganhou o Oscar de Melhor Filme num ano em que não merecia, derrotando o arrojado “A Rede Social” e mais uma porção de outros concorrentes melhores. Isso atraiu uma espécie de antipatia ao filme, embora no fundo fosse um trabalho redondo e bem-intencionado, ainda que excessivamente acadêmico e conservador. 
Essas características se repetem em “A Garota Dinamarquesa”, ironicamente, uma obra com um tema dos mais audaciosos: A história de Einar Wegener, o primeiro transexual da história a submeter-se à uma cirurgia de mudança de sexo. 
Tudo começa quando Gelda (a maravilhosa e inebriante Alicia Vikander), pintora assim como Einar, seu então marido, o convence a vestir uma meia feminina a fim de terminar um quadro diante da ausência da modela inicialmente contratada. Isso desperta algo em Einar, que pouco a pouco, começa a encontrar sua verdadeira identidade ao vestir-se de mulher (e auto-intitular-se Lily). O quê começa como uma brincadeira do casal de artistas vai se tornando algo realmente sério, que ameaça seu casamento, especialmente quando Einar conclui que Lily é quem ele verdadeiramente é, e decide assim submeter-se à uma operação jamais tentada. 
Este filme não teria a dimensão que ostenta se não fosse por Eddie Redmayne, o jovem inglês entrega um trabalho assombroso, superior a sua caracterização como Stephen Hawkings, que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator no ano passado. Na minúcia da interpretação que ele oferece no filme, desvendamos as engrenagens que definem uma pessoa, e que o fazem além, muito além, daquilo que ele deseja: Einar não quer partir o coração de Gelda, a esposa que ele de fato ama, mas ele paradoxalmente não quer mais ser Einar, e em última instância, o marido dela. Ele quer ser uma mulher, quer ser Lily, o ser humano no qual ele descobriu-se por inteiro. E os momentos registrados pelas câmeras de Tom Hooper, nos quais essa descoberta se opera estão entre os mais preciosos do filme. O diretor Hooper almejava em "O Discurso do Rei" atingir um grau de requinte, sutileza e sensibilidade que somente aqui ele consegue fazê-lo. Foi necessário, não resta dúvida o auxílio de dois intérpretes superlativos para isso: Alicia Vikander e, sobretudo, Eddie Redmayne.