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sábado, 27 de julho de 2024

Deadpool & Wolverine


 E já aviso de antemão, leitor ocasional ou não, este texto contém os famigerados spoilers, logo, se você aprecia uma experiência cinematográfica com surpresas intactas, leia depois de ter visto o filme!

Após os eventos de “Deadpool 2”, o mercenário Wade Wilson, mais conhecido como Deadpool (Ryan Reynoldos, desempenhando em estado de graça como sempre) procura por Happy Hogan (Jon Favreau) a fim de ingressar nos Vingadores –naquela época, 2018, vale lembrar, além dos acontecimentos de “Deadpool 2”, ainda estávamos às vésperas dos eventos bombásticos de “Vingadores-Guerra Infinita”. Durante a cena –que mais lembra uma mera entrevista de emprego –Happy convence Wade de que ele não necessariamente leva jeito para ser superherói (não no sentido altruísta do termo) e acaba convencendo-o a aposentar seu uniforme. De volta à sua realidade (para a qual ele pode ir e voltar graças ao aparelho fornecido por Cable em “Deadpool 2”, diga-se), Wade se torna um vendedor de carros e assim passam-se seis anos.

É no aniversário de Wade –no qual, providencialmente se reúnem os seus melhores amigos, ou seja, os coadjuvantes que estiveram ao lado dele em seus dois filmes –que o filme, agora dirigido por Shawn Levy, começa de verdade: Wade é visitado por agentes da AVT (Agência de Variância Temporal, mostrada na série “Loki”) e levado até sua sede onde recebe do funcionário Paradox (Matthew McFadyen, de "Orgulho e Preconceito") uma notícia indigesta. O seu universo (que corresponde ao universo mais ou menos bagunçado de filmes da Fox) está morrendo! Segundo Paradox, todo universo tem uma ‘âncora’, um ser tão essencial àquela realidade que sua morte pode levar à desintegração de todo o universo. A ‘âncora’ do universo de Wade morreu –no caso, Wolverine (vivido como todo mundo sabe, com excelência por Hugh Jackman, há uns vinte anos), no filme “Logan”. Dessa forma, Wade, agora uma vez mais dentro do traje de Deadpool, precisa quebrar as regras da própria AVT (que o tinha levado para lá a fim de chamá-lo a integrar a Linha Sagrada, isto é, o universo oficial do MCU) para encontrar nas infinitas realidades alternativas do multiverso, um substituto apropriado, uma ‘âncora’ que substitua aquela que seu universo perdeu –em outras palavras, um outro Wolverine!

E começam aí, então, o festival de referências que fazem de “Deadpool & Wolverine” uma obra assim tão sedutora: Nas variações de Wolverine que acompanhamos Deadpool encontrar com tanta descontração, vemos versões em live-action de segmentos que farão a felicidade dos fãs de quadrinhos como o Wolverine extraído de “A Era do Apocalypse” (na qual ele não possui uma das mãos!); a versão conhecida como ‘Caolho’; uma versão interpretada pelo ex-Superman Henry Cavill (!); uma recriação de sua primeira aparição nas HQs, quando enfrentou o Hulk; e até mesmo a recriação de uma das capas clássicas das revistas, onde foi crucificado num imenso X de madeira. Ao fim dessa busca, resta somente uma versão apropriada de Wolverine para Deadpool levar consigo, uma versão renegada (ainda que trajando, enfim, o icônico colante amarelo dos quadrinhos e das animações), junto da qual ele retorna à AVT, somente para serem enviados por Paradox ao Voidt, ou Vazio –se você assistiu a série “Loki”, então sabe que trata-se de uma dimensão onde são despejados os sobreviventes indesejados de realidades condenadas que, por algum motivo ou outro, conseguem escapar da eventual obliteração.

Contudo, o Voidt agora está diferente: Por conta de acontecimentos bem reais (no caso, a compra dos estúdios da 20th Century Fox pela própria Walt Disney Company e, portanto, a aquisição desta de todas as propriedades intelectuais daquele estúdio), o Voidt está repleto de personagens oriundos do Universo Marvel da Fox nos cinemas, que reúne os filmes dos X-Men, (num total de onze filmes) os do Quarteto Fantástico (ambas as versões de 2005 e 2015) e os do Deadpool. E claro que, com  isso, o filme de Shawn Levy não haverá de desperdiçar a oportunidade de entregar sequências extasiantes aos expectadores, que apelam ao fã com aparições surpresas (algumas absolutamente sensacionais) capazes de despertar a mesma euforia indescritível que algumas cenas de “Vingadores-Ultimato” o fizeram há cinco anos atrás.

Embora seja uma obra longe da perfeição –e muitos críticos sisudos já correram apontar isso, destacando como exemplo a superficialidade do roteiro em inúmeros trechos, ignorando o fato de que as filmagens de “Deadpool & Wolverine” se sucederam durante a greve dos roteiristas de Hollywood em 2023, o que impediu muitas cenas de ganharem o devido polimento –o filme de Shawn Levy ainda assim tem bom senso e perspicácia o suficiente para sinalizar ao público com tudo aquilo que funcionou muito bem antes deles: O humor incontido e inconsequente de seu irreprimível protagonista (o filme tem a mais alta classificação indicativa permitida pela Marvel Studios até então); as referências inúmeras, algumas um tanto difíceis de se apanhar pelos não-iniciados nos filmes desse certamente vasto universo de heróis; e as sequências vibrantes, feitas para entregar instantes, situações e manobras muito esperadas e almejadas pelos fãs de carteirinha que provavelmente sairão acalentados e saciados do cinema, como há muito tempo não faziam, sob a alegação de que a Marvel havia perdido o jeito para agradar seu público.

“Deadpool & Wolverine” vem provar que não: Ainda há muitas emoções e surpresas a serem entregues ao público. Desde que sejam concebidas por artesões absolutamente capazes e competentes, e tão apaixonados pelo material que manejam quanto seus fiéis expectadores.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Gigantes de Aço


 Houve um tempo em que os filmes produzidos por Steven Spielberg eram tão agraciados quanto os filmes dirigidos por ele; quando ele entregava obras de puro divertimento como “De Volta Para O Futuro”, “Gremlins” ou “Enigma da Pirâmide”. Entretanto, o público de cinema, com o passar dos anos, se tornou manhoso e meticuloso, a ponto de ignorar certos dados de produção, e focar em coisas mais aparentemente relevantes.

No caso, “Gigantes de Aço”, lançado em 2011, era produzido por Steven Spielberg (ainda com o auxílio executivo de Robert Zemeckis), mas o detalhe que mais pareceu chamar a atenção do público –além dos ostensivos, mas pontuais e bem empregados efeitos visuais –era a presença do astro Hugh Jackman, numa das inúmeras tentativas (algumas bem-sucedidas, outras nem tanto) de sair do sombra do personagem que impulsionou sua carreira: O mutante Wolverine de “X-Men”.

Todavia, diante da informação de que “Gigantes de Aço” é, sim, produzido por Spielberg, uma série de escolhas criativas se tornam um bocado compreensíveis. Há, nele, uma visão empenhada, apaixonada e rica em textura de um futuro próximo –ou, ao menos, uma faceta bastante específica de um futuro próximo –além, de um essencial relacionamento pai e filho (uma obsessão na filmografia de Spielberg) que surge sublinhado em sua problemática para adquirir detentores elementos de afeto genuíno ao longo da trama. Até mesmo a relação entre o garotinho e o robô ganha, na medida do possível, ares semelhantes aos que o realizador deu ao seu “E.T. O Extraterrestre”.

Assim, Hugh Jackman é Charlie Kenton, um ex-pugilista cujo abandono da profissão o colocou numa rota em direção ao fracasso. No futuro do qual incumbe-se o filme, o boxe a tempos deixou de envolver humanos se digladiando para trazer robôs (!), os quais, segundo o próprio Charlie, podiam ser trucidados e lutar para além de seus limites, atendendo os anseios do público. De um promissor lutador, Charlie tornou-se um treinador de robôs, mas tudo o que fez, desde então, foi colecionar derrotas e acumular dívidas.

Durante uma audiência de custódia para decidir o destino de seu filho Max (Dakota Goyo), que mal conhece, Charlie só pensa em descolar uma grana com a ex-cunhada rica a fim de comprar um novo robô e continuar no jogo, mas, Charlie deve passar algum tempo com Max.

A partir daí, acompanhamos a relutante e implicante relação entre os dois, Charlie e Max, pai e filho, determinar a narrativa –e ela é, infelizmente, previsível até a medula, sorte que, pelo menos, a astúcia interpretativa de Hugh Jackman segura maravilhosamente bem a atenção.

Max –um moleque voluntarioso e opinativo que beira o irritante –revela-se interessado nas lutas que compõem o negócio do pai e acaba insistindo na carcaça de um robô que encontram num ferro-velho, ao qual dão o nome de ‘Atom’.

É necessário que o expectador aceite uma certa aura humanamente mágica conferida ao robô Atom a partir do momento em que ele entra em cena, caso contrário, é melhor abandonar o filme. Embora nunca fique explícito –mas, sempre fique subentendido –Atom parece ter sentimentos, uma certa característica que o faz mais que uma mera máquina autômata. Em suma, tem coração (!). Com isso, na qualidade de perdedor certo, ele surpreende seus adversários e a plateia ganhando luta após luta, caminhando a passos largos para enfrentar o grande e invicto campeão da modalidade, o monstruoso robô conhecido como Zeus.

Dirigido com eficiência, mas sem o menor traço de personalidade por Shaw Levy (diretor da Trilogia “Uma Noite No Museu”), “Gigantes de Aço” não esconde o fato de ser assumidamente uma obra de entretenimento moldada a partir de uma miríade de referências cinematográficas bastante nítidas, desde o campeão que se esconde dentro de um fracassado e que passa a surpreender a todos (como em “Seabiscuit-Alma de Herói”) até o mote manjado mas sempre envolvente do ‘Davi contra Golias’, do qual “Rocky-O Lutador” é o exemplo mais notório –e este filme remete, de cabo a rabo, ao máximo de elementos possíveis do sucesso de Sylvester Stallone.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O Grande Truque


 Projeto do diretor Christopher Nolan ensanduichado entre “Batman Begins” e “Batman-O Cavaleiro das Trevas”, este “O Grande Truque” pode ter sido encarado por ele como um respiro da imersão no universo de histórias em quadrinhos, imergindo, em contrapartida, nos meandros nebulosos e enigmáticos do mundo dos ilusionistas.

Curiosamente, na mesma época, outro trabalho brilhante, “O Ilusionista”, de Neil Burger, com Edward Norton, também dividiu com ele o mesmo tema, os louros da crítica e algum sucesso de bilheteria. Na comparação com a aventura mais singela estrelada por Edward Norton, “O Grande Truque” é logística e narrativamente ambicioso lançando mão de muitas aspirações cerebrais que Nolan só iria amplificar em obras futuras, transformando em seu grande diferencial, como realizador, esse esforço em conciliar, em blockbusters nada discretos, essa predisposição autoral e até intelectual com narrativas escapistas para as massas.

Muitos podem dizer que “O Grande Truque” é desafiador até demais para as percepções do público: Pra começar, há um esforço claro de Nolan e dos atores Hugh Jackman e Christian Bale em tornar ambígua a disputa implacável e incessante entre os mágicos ilusionistas Robert Angier e Alfred Borden. À despeito dessa disputa –mote central do filme –envolver os atores que viviam então Wolverine e Batman nas telas (e de ser esse embate uma clara referência aos olhos do público), não há distinção de bem e mal esboçada nas caracterizações; um elemento corajoso, mas que pode desanimar uma parte considerável da audiência.

Angier é frívolo, amargurado e rancoroso. Borden é arrogante, presunçoso e esnobe. São personagens construídos não para cativar de pronto o público, mas para enfatizar a ele suas características humanas e, não raro, reprováveis: Em ambos jaz uma obsessão injustificada de superar as realizações do outro.

Para cada truque de mágica que Angier elabora, Borden já tem um novo para arrebatar o público e lhe roubar alguns expectadores em plena Londres do Século XIX. Entretanto, sabemos que algo deu tremendamente errado: O filme já se inicia com Borden na cadeia por um crime estarrecedor. Os propósitos que levaram a esse crime são então esmiuçados num flashback –recurso que a narrativa de Nolan usa até levar o público a perder o fio da meada –e dizem respeito aos truques de mágica que, encenados noite após noite nos palcos londrinos, serviram de duelo entre dois homens dispostos a serem insuperáveis em seu ofício.

Levando o conceito de disputa às últimas consequências, Nolan arremessa seus protagonistas num empate que ganha circunstâncias cada vez mais fantasiosas e imprevisíveis –e, portanto, trágicas.

Há, no cinema de Christopher Nolan, esse inusitado resgate de temas masculinos por meio de um prisma onde gêneros improváveis são investigados. Disso se alimenta sua filmografia, incluindo a aclamada “Trilogia do Cavaleiro das Trevas”: Temos o temor do esquecimento (“Amnésia”), ou da dissolução do legado (“Interestelar”) e da imponderabilidade dos anseios (“A Origem”); em “O Grande Truque” está em pauta o medo da derrota perante um adversário, a tornar bastante humana a percepção de um filme todo incomum.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Link Perdido

Houve uma certa surpresa quando esta agradável animação venceu o Globo de Ouro 2020 tendo por competidores obras bem superiores como “Toy Story 4”, “Frozen 2” e “O Rei Leão”. Esse gesto jogou luz sobre uma obra simpática embora também lhe tenha aumentado injustamente suas expectativas perante o público e aguçado ainda mais o olhar da crítica que apontou problemas como o fato de ser a terceira animação a abordar o mito do Sasquatch em cerca de um ano (as outras foram “Abominável” e “Pé Pequeno”), e o visual mais pueril e pouco elaborado para uma animação vencedora de prêmios.
Realizado em stop-motion –conhecido como ‘o filme de massinhas’ –“Link Perdido” é, ao lado de “A Fuga das Galinhas”, o cultuado “O Estranho Mundo de Jack” e outros, uma tentativa de aprimorar uma técnica artesanal de animação e trazê-la para o mundo tecnológico de hoje.
Não é a toa então que, por todos os seus ângulos e percepções, podemos observar nesta realização do diretor Chris Butler a união entre o classicismo e o arrojo, bem como a quebra das antigas e engessadas convenções.
O herói da história é um aventureiro e explorador inglês –daqueles que se encaixariam com perfeição numa narrativa do escritor Jules Verne –chamado Lionel Frost (voz de Hugh Jackman) que tem por hábito viajar o mundo, em plena Era Vitoriana, para colher provas da existência de criaturas monstruosas e lendárias: A cena que abre a animação, envolvendo o Monstro do Lago Ness, já estabelece o tom divertidamente descontraído que a aventura terá.
Na sua próxima empreitada, uma aposta que desafia a arrogância do Lorde Dunceby (voz de Stephen Fry), o providencial vilão da trama, Frost pretende ir até as fronteiras do Canadá, seguir os indícios de uma misteriosa carta enviada por algum morador de lá, a fim de provar a existência do monstro conhecido como Pé Grande.
Entretanto, para a surpresa de Frost, a criatura, que ele encontra com surpreendente facilidade e rapidez, não se mostra como o esperado: Chamado Link (em referência ao ‘elo perdido’, lugar que supostamente sua desconhecida espécie ocuparia na escala evolutiva do homem), e dublado com a voz cômica e nada gutural de Zack Galifianakis, a criatura é articulada, inteligente e polida (!). Sua intenção é –veja só! –pedir ajuda à Frost, de quem ele ouviu falar lendo os jornais trazidos por viajantes (!), e tentar encontrar outros membros de sua ‘família’ a fim de aplacar sua enorme solidão. Membros estes que Link acredita serem os Yetis, do Nebal, conhecidos por sua vez como os Abomináveis Homens das Neves.
Inicialmente relutante –mas, certamente, construindo com Link uma bela amizade ao longo de tal jornada –Frost resolve ajudá-lo, empreendendo a viagem até as montanhas nevadas do Nepal, ganhando a companhia de Adelina (voz de Zoe Saldana), outrora esposa de um grande colega aventureiro de Frost no passado, agora falecido, e tendo em seu encalço os comparsas de Dunceby instruídos para impedi-lo de concluir sua missão.
Em maior e menor grau, todos os personagens representam uma inadequação aos rótulos que os definem: Se Frost, o aristocrata inicialmente presunçoso que se mostra boa gente, é o menos aprofundado deles, Link, o monstro de bom coração e boa educação, e Adelina, a providencial donzela em perigo desejosa de romper todas as suas amarras com o sexo masculino e viver sua própria aventura, são notáveis em seu inconformismo.
Trabalhando com perspicácia e criatividade a técnica antiquada que abraça, a própria animação esboça também uma espécie de quebra de padrões: Deliberadamente traça uma narrativa calcada em visuais que primam por se afastarem de pretensões realistas, mas agrega elementos e trucagens digitais de última geração na construção de seu escopo que, a medida que os protagonistas se aproximam da paradisíaca Shangri-lá, na parte final, vai ganhando cada vez mais intervenções da modernidade.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Os Miseráveis

Apesar de Anne Hathaway ter levado (com méritos) o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2013 pela sua poderosa presença como a trágica Fantine na primeira parte da trama (e ela de fato interpreta com esforço e primazia), o prêmio mais merecido para o filme de Tom Hooper foi mesmo o Oscar de Melhor Mixagem de Som.
Explica-se: “Os Miseráveis” é uma espécie muito incomum de musical; ele foi rodado com gravação sincrônica dos atores cantando para a câmera, a exemplo de muitas outras obras pregressas, no entanto, num escopo técnico antes tido por inimaginável, daí ser extraordinariamente notável a capacidade dos técnicos em capturar as vozes dos atores, filtrá-las de toda infinidade de sons poluentes e eventuais da cena e emoldurá-las com a melodia da trilha sonora para dali obter as músicas que compõem e ajudam sistematicamente a contar a história antes imaginada pelo escritor Victor Hugo no romance literário, e depois adaptada por Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, na versão teatral e musical que tanto sucesso fez nos palcos para então aqui ser vertida para o cinema.
O ano é 1817. Conhecemos o protagonista, Jean Valjean (Hugh Jackman, maravilhoso) um francês condenado à escravidão por ceder à fome; roubou um pedaço de pão para si a para a própria irmã. Durante sua liberdade condicional (que chega depois de 19 longos anos), Valjean aproveita e foge. Logo ele descobre que precisa abandonar sua identidade se tiver alguma intenção de prosperar naquela França do Século XIX: A discriminação para com ex-prisioneiros, como é o caso dele, chega a ser intolerável.
Descobre outra coisa também: O valor da solidariedade e do apego à Deus.
Cerca de oito anos se passam, e então Valjean (chamado agora pela nobre alcunha de Monsieur Prefeito!) é um homem rico, dono de uma tecelagem. É lá que trabalha Fantine (Anne), moça virtuosa (busca sempre fugir do assédio insidioso do contramestre) que não tarda a ter sua própria cota de drama: Mandada embora do emprego graças às crueldades perpetradas por suas colegas, Fantine não tem dinheiro para sustentar sua filhinha Cosette, e por conta disso, vende seus cabelos, depois seus dentes e, por fim, sua honra (se prostitui) para então perecer. Em seu leito de morte, Valjean –que sente-se culpado por não ter tido a oportunidade de ampará-la –lhe promete que será um pai para Cosette dali para frente, e a tira de seus insensíveis e inescrupulosos tutores, o casal Thénardier (interpretado com histrionismo por Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter).
Os anos tornam a se passar com Valjean sempre sob a sombra da rancorosa perseguição do obstinado Inspetor Javert (Russell Crowe, equilibrando a truculência do personagem com uma inesperada desenvoltura como cantor).
Então vivida por Amanda Seyfried, Cosette se apaixona por Marius (Eddie Redmayne), um jovem abastado que engrossa as fileiras da Revolução Francesa na luta pelos direitos do povo oprimido. Cosette e Marius formam com a filha dos Thénardier, Eponine (Samantha Banks, única oriunda da montagem teatral), um triângulo amoroso a movimentar a trama.
Neste ponto, Valjean se vê num dilema entre tornar a fugir (e recomeçar a vida), mais uma vez longe do encalço de Javert, ou finalmente separar-se Cosette, que ele ama como filha, deixando-a tentar a felicidade ao lado de Marius.
Não faltam tristezas em profusão a se abater sobre os personagens neste trabalho de Tom Hooper no qual o expectador deve saber, de antemão, que todos os diálogos são cantados ao invés de declamados –com isso, “Os Miseráveis” é uma sucessão de canções ocasionalmente antológicas, tão famosas que muitos talvez nem saibam que provêem desta obra, como é o caso da sofrida e ritmada “Look Down”, da célebre e visceral “I Dreamed A Dream”, da envolvente “My Life, A Heart Full Of Love”, e de várias outras.
Nesse sentido, o trabalho do diretor Hooper (que antes havia levado o Oscar de Melhor Filme por “O Discurso do Rei”) não prima por modéstia: Em sua exuberância rasgada e seu romantismo intoxicante, ele por vezes pode exaurir o expectador. Entretanto, para aqueles dentre o público que forem capazes de lhe fazer a travessia, “Os Miseráveis” reserva uma experiência de arrebatamento insuspeito e emoção irrestrita.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Chappie

A carreira de Neil Blomkamp padece de um problema parecido com a de Frank Darabont (diretor de “Um Sonho de Liberdade”): Seu filme inaugural (no caso, o vibrante e inventivo “Distrito 9”) ostenta tanto brilho que todas as suas obras subsequentes se revelam pálidas na comparação.
Assim como “Elysium”, este “Chappie” parece espernear na direção de uma temática diferenciada (ainda que também futurista) sem conseguir ocultar o fato de que é um filme feito nos mesmos moldes daquele.
Na mesma cidade sul-africana de Johanesburgo, em um futuro próximo, a população comemora a implantação de policiais robôs que reduzem dramaticamente o índice de criminalidade.
O jovem gênio por trás do projeto, Deon (Dev Patel), no entanto, não deseja se acomodar nesse êxito: Ele quer ir além e conceber o primeiro autômato dotado de inteligência e consciência artificial.
Quando seus ideais são inibidos pelo raciocínio corporativo de sua empregadora (Sigourney Weaver), Deon não hesita em testar a inteligência artificial na carcaça de um policial robô avariado. É assim que ele cria Chappie (personagem a quem o ator Sharlto Copley dá uma riquíssima e expressiva gama de maneirismos gestuais).
Deixado aos cuidados de um grupo marginal, Chappie –que ostenta em princípio, a ingenuidade e a inocência de uma criança –é colhido no fogo cruzado de interesses dos ‘adultos’ ao seu redor: Para Deon (que ele chama de ‘Criador’), ele é uma obra de arte que definirá o futuro, e deve ser instruído com zelo e critério; para Yo-landi (Yolandi Visser), que assume o papel de sua mãe, ele é alguém a ser protegido e em quem ela pode depositar seu frustrado instinto materno; e para o hostil Ninja (Watkin Tudor Jones), uma improvável e inclemente figura paterna, ele é um meio de arregimentar um indivíduo tão poderoso quanto os policiais robôs para seu próprio lado.
Em meio a tudo isso, Chappie deve aprender a encontrar seu próprio papel a ser desempenhado no destino de todos.
Ao fundir uma premissa que remete ao enredo básico do filme oitentista “Um Robô Em Curto-Circuito” com seu estilo arrojado e adepto de ação explosiva, Blomkamp certamente não realizou uma obra ruim –de modo geral, “Chappie” entretém e captura a atenção o bastante para não ofender nem a inteligência, nem o tempo investido do expectador –no entanto, mais do que qualquer outro filme, ele deixa bem evidente a pouca disposição de seu realizador em abandonar sua própria zona de conforto.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Para Maiores

Eis um filme que, em sua incontornável ruindade, é um caso para estudo. Afinal de contas, ainda assim, foi reunido, ao longo de seus esquetes, não só um elenco de fazer inveja a qualquer superprodução, mas também um time de diretores que se responsabilizam por cada, digamos, episódio que vai de nomes notáveis como Peter Farrelly (aqui arriscando a direção sem seu irmão Bobby), James Gun (de “Guardiões da Galáxia”), Steve Carr (de “Segurança de Shopping”), Griffin Dunne (astro de “Depois de Horas”, de Scorsese e diretor de “Da Magia À Sedução”), Bret Ratner (de “A Hora do Rush” e “X-Men O Confronto Final”) e outros! –e todos, sem exceção, passam uma tremenda vergonha em todas as seqüências deste filme cujo nível de mau gosto chega às raias do inacreditável.
Reza a lenda, que o produtor Charles B. Wessler (realizador dos filmes dos Irmãos Farrelly) conseguiu arregimentar tantos atores graças à sua influência e a um curta-metragem previamente gravado em 2009 com Hugh Jackman e Kate Winslet –quando o filme foi lançado em 2013, tal curta, por sinal, foi incluído como o trecho que inicia esta sucessão de absurdos intermináveis!
É uma antologia cômica calcada nas características pesadíssimas da comédia vulgar juvenil que aflorou nos anos 1980 e que ganhou, com as décadas que vieram, mais e mais escatologia. Uma exaltação do politicamente incorreto.
Sua trama une engenhosidade e grosseria de forma desconcertante: A fim de pregar uma peça de 1º de abril num garotinho metido a hacker, dois adolescentes pra lá de imbecis lhe distraem com a missão de procurar um filme na internet, difícil de achar por ter sido banido, cujo conteúdo é um mistério –o "Movie 43", que dá o título original à produção.
O problema é que durante a busca o tal filme revela-se real, e nos sucessivos vídeos que eles vão descobrindo surgem tramas curtas que, de uma maneira geral, destroem com o modo de vida norte-americano com um humor politicamente incorreto radical até mesmo para os padrões extremos que o gênero tem tomado atualmente (como "Ted").
No primeiro esquete –supostamente aquele que iniciou tudo! –uma moça (Kate Winslet) vai jantar em um restaurante com um solteirão charmoso e boa-pinta (Hugh Jackman), para descobrir, do pior jeito possível, porque ele continua solteiro: De alguma forma ridícula e mirabolante, ele possui os testículos no pescoço (acredite, isso já dá uma boa idéia do nível extremo de absurdo, escracho e nojeira que se seguirá a partir daqui!).
Noutro, o casal na vida real Naomi Watts e Liev Schreiber vive a mãe e o pai de um rapaz educado em casa –como é costume em alguns locais do EUA –entretanto, a fim de proporcionar ao filho uma educação com todas as variações de uma experiência escolar completa, eles decidem submeter seu filho até mesmo ao bullying impiedoso que seus colegas praticariam: Eles organizam festas e não o convidam (!), seu pai exerce forte tortura psicológica nas aulas de educação física (!), e sua mãe, na falta de outra, flerta com ele para ensinar-lhe as minúcias da rejeição (!!). O resultado é ultrajante.
Numa adaptação mambembe e debochada da “Liga daJustiça”, anos antes do filme de Zack Snyder e Joss Whedon, vemos em um restaurante, Robin (Justin Long) tentar se dar bem num encontro com a Supergirl (Kristen Bell), apesar das constrangedoras intromissões do inconveniente Batman (Jason Sudeikis) e, mais tarde, da espalhafatosa Mulher Maravilha (Leslie Bibb) e de uma neurótica Lois Lane (Uma Thurman).
Já, o casal formado por Chris Pratt e Anna Faris resolve temperar sua vida sexual quando a esposa faz uma inesperada proposta ao marido: Defecar nela (!!!).
A preparação para esse momento tão... especial (!) envolve o uso de um laxante poderoso que vai colocar o marido numa situação aflitiva.
Também em um encontro marcado num restaurante, Halle Berry e o comediante Stephen Merchant resolvem brincar de ‘desafio ou conseqüência’, o quê os leva a atitudes inacreditáveis.
Richard Gere faz o executivo de uma empresa cujo produto mais rentável, o I-Babe (um dispositivo que grava músicas em tamanho real e formato de uma mulher nua!) está levando compradores adolescentes à mutilação (!) por uma razão bem peculiar: No lugar onde seria a vagina fica uma hélice para ventilação (!!!).
Num dos episódios mais estranhos e non-sense, Emma Stone faz uma namorada impaciente e incompreensível disposta a discutir a relação com o namorado (Kieran Culkin), mesmo que seja na caixa de supermercado onde ele trabalha (!).
Um encontro catastrófico é o que experimenta a jovem Chloe Grace Moretz ao ir à casa do namoradinho e lá passar pela infelicidade de ter sua primeira menstruação (!), para o pânico de seu irmão mais velho, Christopher Mintz-Plasse.
Numa cabana, Johnny Knoxville e Seann William Scott encontram um ‘leprechaum’ –num registro deliberadamente destoante de efeitos visuais, do ator Gerard Butler –que não é exatamente aquilo que eles esperavam.
Um time de basquete composto por negros recebe de seu treinador, Terrence Howard, uma instrução bastante simples (e racista) para conseguir ganhar do time composto por brancos.
E por fim, no episódio escondido nos créditos finais, Elizabeth Banks tenta manter a harmonia de seu relacionamento com o namorado dos sonhos, Josh Duhamel, mas isso é perturbado pelo gato dele (um CG ainda mais porco que o do ‘leprechaum’), uma versão distorcida, psicopata e homossexual de Garfield (!!).

É bem provável que hajam até mesmo outros episódios além desses que consegui lembrar, mas a experiência de passar por este filme é tão desconcertante e perturbadora que vou ficar só nestes mesmos!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Os Suspeitos

“Prisoners” é um filme que levanta diversas questões: É justo que se estabeleça um limite ético para um pai que deseja salvar seus filhos? Até que ponto a lei pode ser torcida para salvar uma vida? Existe realmente culpa quando ela vem impelida por certa insanidade?
“Prisoners” é também mais um dos grandes trabalhos de Denis Villeneuve. Aqui, ele adota um tom inquietante, um ritmo parcimoniosamente lento (tão mais lento nos momentos em que não gostaríamos que fossem) e muitas das características que já o definem como cineasta para colocar isso tudo a serviço de uma obra de suspense.
Cidade de Boston. Duas meninas por volta dos sete anos de idade desaparecem para aflição de suas famílias. O detetive designado para o caso (Jake Gyllenhaal, excelente) logo prende o principal suspeito (Paul Dano), um rapaz esquisito com mentalidade debilitada. Em seu trailer não há indício algum do seqüestro o que obriga a polícia a libertá-lo, para desespero do pai de uma delas (Hugh Jackman, tão magistral quanto Gyllenhaal).
Villeneuve permite que a circunstância atroz em torno da qual a narrativa respira (as crianças foram raptadas? Continuam vivas?) tangencie o próprio tempo para perplexidade do expectador: Sente-se cada segundo de agonia que passa enquanto ele insiste em não revelar o paradeiro das meninas.
Este é, portanto, um filme que não poupa o público. Nem seu protagonista: Inconformado, o personagem de Hugh Jackman aprisiona o rapaz mentalmente incapaz (ainda que altamente suspeito) a fim de torturá-lo até confessar o paradeiro das crianças.
Mas, o angustiante silêncio dele torna os dias que se passam um suplício para todos os envolvidos.
O diretor encontra assim uma oportunidade impactante e poderosa para esmiuçar as engrenagens que conduzem à justiça com as próprias mãos em contraponto à lentidão alarmante das investigações, todavia, seu registro não privilegia posturas dando largo espaço para refletir à esse respeito numa obra carregada de pontas soltas que se amarram com primor nos trinta minutos finais.
O desfecho do filme oferece igualmente pouca margem para aspectos comemorativos –o quê indica a procedência nada americana do diretor (ele é canadense): O interesse de Villeneuve está nos extremos da dramaturgia, nos caminhos inéditos por onde pode levar seu elenco e na construção exemplar de uma narrativa vigorosa que mescla autenticidade e força emocional.

P/S: Não confundir este com o celebrado filme “Os Suspeitos”, de Brian Singer, dos anos 1990.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Logan

Já de começo se pode perceber algo de diferente em “Logan”. Diferente até mesmo de “Deadpool” cujo imenso sucesso propiciou a alta censura da qual este filme também se beneficiou: Os fãs podem, enfim, ver Wolverine no auge de sua selvageria, estraçalhando os inimigos e extraindo litros de sangue que suas garras afiadas não tiveram a chance de fazer em nenhum dos filmes anteriores.
Entretanto,”Logan” é também adulto em sua proposta, em seu intimismo, na decisão convicta do diretor James Mangold e do astro Hugh Jackman em finalmente construir um filme que fizesse jus à ambigüidade moral e à angústia que o personagem principal apresenta de maneira tão exuberante nos quadrinhos.
Uma pena que, ao buscar inspiração na graphic-novel “O Velho Logan” (ambientada num futuro algo pós-apocalípitico onde o herói se vê em uma fase crepuscular da vida e muitos dos personagens conhecidos já morreram), a premissa afasta a possibilidade de ter os demais X-Men a participar desse projeto (o único remanescente deles é um envelhecido e decadente Prof. Charles Xavier, aqui sofrendo de uma doença degenerativa mental): O ano é 2029. Já contam décadas que não nascem novos mutantes no mundo (e tal detalhe já aproxima bastante o filme de Mangold, também da memorável ficção “Filhos da Esperança”, de Alfonso Cuarón). Logan, outrora conhecido como Wolverine (Jackman, fazendo valer cada instante desta sua despedida do papel), agora trabalha quase anônimo como motorista particular. Junto com ele moram o mutante Caliban (Stephen Merchant, substituindo o ator que fazia uma versão mais agressiva deste mesmo personagem em “X-Men Apocalypse”) e seu antigo mentor, o agora senil Xavier (Patrick Stewart, entregando uma inspirada atuação).
Os poderes de Logan já não são mais os mesmos, e sua perspectiva de vida envolve a possibilidade de um suicídio –ele trás consigo uma única bala de adamantium na eventual chance de usá-la em si mesmo –porém, ainda assim, ele guarda algum dinheiro para comprar um barco e partir para o mar.
Neste cenário inóspito, surge uma garotinha, Laura (a surpreendente Dafne Keen), com poderes similares até demais aos de Wolverine –e ele logo descobrirá qual a espantosa origem dela –e perseguida pelo caçador de recompensas cibernético Donald Pierce (Boyd Holbrook) a mando de uma corporação tão suspeita quanto perigosa.
Logan deve conduzi-la a um refúgio em algum lugar da Dakota do Norte e até lá, certamente, se exasperar com seus perseguidores naquele que pode ser último ato de heroísmo.
O entardecer do herói é, assim, emoldurado por uma produção que se distancia muito dos elementos que definiram a série “X-Men” –e que ainda estavam presentes nas incursões solo do personagem –“Logan” guarda elementos de um road-movie, de um épico pós-apocalíptico que lembra “Mad Max”, de drama e de faroeste: Sua referência mais explícita por sinal é o épico de George Stevens, “Os Brutos Também Amam” que aparece literalmente na cena em que Xavier e a garotinha assistem ao próprio filme num quarto de hotel, pontualmente na própria dinâmica dos personagens (a relação entre Logan e Laura guarda diversos paralelos entre a do pistoleiro Shane e o garotinho, no clássico), e explicitamente na menção magistral feita durante o prólogo poderosamente emocionante e corajoso.

Hugh Jackman não é mais o Wolverine, e será certamente um desafio para o estúdio encontrar um intérprete à sua altura para o personagem que ele interpretou de modo tão perfeito nos últimos dezessete anos. Como consolo, nos resta este filme desigual, lúgubre, dramático e formidável que, em sua despedida, ele fez questão de nos entregar.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Fonte da Vida

Experimentação parecia ser a palavra de ordem no cinema de Daren Aronofsky em seus primeiros longa-metragens: Filmes como “Pi” e “Réquiem Para Um Sonho” não negam a procedência de um diretor faminto por explorar as possibilidades de seu ofício.
De uns tempos pra cá, contudo, essa necessidade de romper com os limites deu lugar à um trabalho mais austero, com características de um cinema mais, digamos, clássico: Prova disso é, inclusive, o bom desempenho junto à Academia de Artes Cinematográficas (que sempre priorizou trabalhos mais tradicionais) de obras como “O Lutador” (duas indicações ao Oscar) e “Cisne Negro” (vencedor do Oscar de Melhor Atriz, e outras quatro indicações). Embora, seu cinema nunca tivesse deixado de ser soberbo.
O meio-termo entre esses dois extremos da carreira de Aronofsky pode ser considerado este “Fonte da Vida”.
Ao mesmo tempo em que é uma trama que guarda algumas audácias formais (em voga naquele período de transição dos anos 1990 para 2000 devido à atividade de jovens diretores de perfil autoral como os Irmãos Wachowsky, “Matrix”, Spike Jonze “Quero Ser John Malkovich”, e David Fincher, “Clube da Luta”), este filme também se aproxima –talvez, por fatores não obstantes à Aronofsky –de um cinema mais comercial, que se permite enxergar uma finalidade mais branda para suas ousadias.
A verdade é que tudo se iniciou com uma história em quadrinhos planejada por Aronofsky (e inclusive lançada, quando o projeto era tido como uma grande produção). Um grande estúdio assumiu o projeto e escalou Brad Pitt para o papel principal, prevendo uma superprodução que trouxesse a mesma natureza inovadora –e sucesso acachapante, provavelmente –do recém-lançado “Matrix”.
Em algum momento, esses planos foram frustrados quando o orçamento mostrou-se a beira do estouro e o projeto adquiriu ares de obra complicada e megalomaníaca.
Com a equipe despedida e a tomada puxada, o diretor reinventou o projeto, agora bancado pelo ramo independente da 20 Century Fox, simplificando um ou outro elemento e enxugando drasticamente tudo aquilo que encarecia a produção, ou seja, as portentosas cenas de ação previstas pelo roteiro.
É assim que chegamos a esta ficção científica estrelada por Hugh Jackman, curiosamente semelhante ao clássico sci-fi de Gregory Roy Hill, “Matadouro 5”, e como ele, dotado de um estranho senso de romantismo.
Sua trama, de início enigmática, mas aos poucos costurada de maneira nem sempre satisfatória, começa com três personagens, em tempos e locais diferentes, mas, compartilhando de um mesmo dilema existencial: Thomás, desbravador espanhol apaixonado por sua rainha que, em meados do século XVI, submerge nas inóspitas florestas sul-americanas atrás da lendária "Árvore da Vida" que pode lhe dar imortalidade (e a mão de sua amada); Tom, renomado cirurgião, consumido pela frustração de ver o amor de sua vida morrendo de um câncer inoperável, a despeito dos recursos disponíveis da atualidade, mas que encontra esperanças de salvá-la na enzima milagrosa extraída de um vegetal da América do Sul; e, por fim, Tommy, um viajante espacial do futuro aguardando pacientemente em sua nave, acompanhado da já moribunda "Árvore da Vida", o momento em que chegará à Shibalba, a constelação mitológica que poderá trazer-lhe vida eterna.
Podem ou não esses três personagens ser todos a mesma pessoa. E essa percepção é paulatinamente encorajada pela narrativa, não apenas porque todos são interpretados (com brilhantismo, diga-se) pelo mesmo Hugh Jackman –e, também ele, se vê cercado pelos mesmos coadjuvantes que revezam-se em diferentes personagens, em especial, Rachel Weisz (esposa do diretor na época) que surge sempre personificando o amor inalcançável –como também os percalços dessa “busca” (distinta para cada um deles, mas no fim, equivalente) surgem como se fosse irônicos reflexos um do outro, como se Aronofsky quisesse fazer um poema no qual suas cenas, pela similaridade de acontecimentos,  rimassem como se fossem estrofes.
O resultado só não encontra o brilho superlativo de outros trabalhos do diretor porque ele insiste num desfecho explicativo e redundante, dando ao grande mistério que cerca à tudo e à todos uma explicação da qual não necessariamente estávamos precisando.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

X-Men Apocalypse

Uma cena emblemática: Os jovens saem de um cinema após uma sessão de “O Retorno de Jedi” –o filme-sensação do ano, então 1983 –e já estão a discorrer sobre sua qualidade.
“O melhor é ‘O Império Contra-Ataca’” comenta a garota chamada Jubileu.
“Tudo começou com o primeiro filme” diz Scott, o Ciclope (Ty Sheridan) “não haveriam continuações se não fosse o primeiro filme!”
Até que Jean Grey (Sophie Turner) faz uma afirmação categórica:
“Vamos, pelo menos, concordar que o último filme é o pior da trilogia!”
Talvez, uma piada interna da produção, talvez, um acaso carregado de sarcasmo, porém o quê a personagem diz se aplica ao filme no qual estão presentes, “X-Men Apocalypse”.
Dizer que ele é o mais fraco da trilogia iniciada em “Primeira Classe” (cuja austeridade e noção de ritmo do diretor Mathew Vaughn, permanecem a fazer dele o melhor dentre todos os filmes da série) e continuada em “Dias de Um Futuro Esquecido”, contudo, não é desmerecê-lo: “Apocalypse” ainda é um divertimento de qualidade, com interessantes predicados, o problema é que Bryan Singer se despiu de muitos elementos que davam equilíbrio ao conceito e tornavam os X-men tão singulares entre a infinidade de super-heróis que começam a abarrotar as salas de cinema.
Passaram-se dez anos desde os acontecimentos do filme anterior (parece ser uma espécie de tradição nessa nova versão dos mutantes que seus filmes se passem com uma década de intervalo entre um e outro, embora seu elenco principal não demonstre nenhum sinal de envelhecimento), e a Escola Para Jovens Superdotados do Prof. Charles Xavier recebe a cada dia novos alunos, como o novato Scott, que descobriu a pouco as rajadas devastadoras que saem sem controle de seus olhos, ou a instável Jean, cujo poder de telepatia e telecinese parece esconder uma ameaça maior dentro dela.
Dos antigos companheiros de Xavier, Raven, ou Mística (Jennifer Lawrence, catalizando parte das atenções da trama), se encontra pelo mundo, ajudando mutantes à sua própria maneira: É assim que ela chega até o jovem Kurt Wagner, ou Noturno (Kodi Smit-McPhee, tão bom quanto sua versão mais velha vista em “X-Men 2”), um teleportador de corpo azul.
Já, Eric, ou Magneto (Michael Fassbender, em uma bela interpretação) após os eventos pregressos, refugiou-se na Polônia onde buscou começar vida nova.
Todas essas trajetórias colidem quando um mutante ancestral, o milenar En Sabah Nur, ou Apocalypse (Oscar Isaac, cuja atuação esmerada não escapa ao tom canhestro desse tipo de personagem bidimensional), desperta no Oriente Médio, trazendo consigo sua determinada ânsia para varrer os humanos da face da terra.
Com uma habilidade que lhe é inerente, Bryan Singer, concebeu esse recomeço da série “X-Men”, antecipando e, por vezes, alterando os eventos da série original, não apenas enfatizando a pertinente questão do preconceito, mas atrelando a trama de cada filme à um evento histórico ocorrido em cada década respectiva; se em “Primeira Classe” havia o sensacional aproveitamento da crise dos mísseis de Cuba, e “Dias de Um Futuro Esquecido” foi hábil em utilizar como cerne narrativo o final da Guerra do Vietnam, a década de 1980, na qual se ambienta “Apocalypse” não possui nenhum acontecimento histórico importante a ser abordado; e esse é só um dos problemas enfrentados pelo filme.
Ao eleger, o onipotente e cartunesco Apocalypse como seu vilão principal, Singer também desproveu seu filme de um de seus mais encantadores trunfos: As motivações e ideologias, tão pertinentes e atuais, que norteiam seus personagens, inclusive seus vilões, o quê valorizava a trama e suscitava uma discussão sempre interessante.
Não há, porém, muito o que comentar sobre Apocalypse em si: Ele é um vilão somente. Quer a destruição, e cabe aos heróis aplacá-lo, o quê reduz o filme de Singer a um mero filme de ação onde os bons combatem os maus, e as áreas cinzas da personalidade dos adversários são deixadas de lado.
Claro que, mesmo no comando das cenas de ação, Singer continua um artesão de admirável apuro e requinte visual, embora seu uso de efeitos visuais (bastante imodesto na comparação com os enxutos filmes anteriores) fique excessivo na parte final, assim como seu exorbitante hábito de dilatar o tempo além da conta nos momentos de suspense (que já havia ficado provado em “Superman-O Retorno” ser um de seus defeitos).

Talvez, o grande problema de “Apocalypse” seja a condição na qual chega aos cinemas (como terceiro e mais simplório de uma trilogia na qual os dois capítulos anteriores, sobretudo o primeiro, foram magistrais), e também o timing com o qual isso se dá (depois de um mediano “Batman Vs Superman” e de um espetacular “Capitão América-Guerra Civil”, quando uma parte do público e boa parte da crítica já começa a falar sobre a defasagem de superheróis nas salas de cinema). 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

X-Men Dias de Um Futuro Esquecido

Num obscuro futuro para a raça mutante, os robôs sentinelas já dizimaram quase toda a população da Terra, restando a Charles Xavier e Magneto (os veteranos Patrick Stewart e Ian McKellen), reunir os remanescentes x-men para um último e desesperado recurso: valer-se do poder da jovem Kitty Pride (Ellen Page) para enviar Wolverine (Hugh Jackman, sempre impecável) ao passado, onde ele deve entrar em contato com o então jovem Prof. Xavier (James McAvoy), e juntos impedir o atentado que deflagrou aquele futuro terrível, o assassinato do inventor Bolivar Trask (Peter Dinklage, de "Game of Thrones") pelas mãos da transmorfa Mística.
Após dez anos, Bryan Singer volta a sentar na cadeira de diretor, e honrando um legado que ele mesmo ajudou a criar, elabora uma trama que une passado e presente na qual os mutantes têm uma chance de fazer algo que todos nós, de um modo ou de outro, ansiamos como seres humanos: reescrever a história a nosso próprio favor.
Quem nunca pensou em voltar para salvar Martin Luther King de ser assassinado? Ou John Lennon? Ou deter Hitler, e o nazismo?
Neste filme soberbo Wolverine é obrigado a lidar com isso na prática quando é enviado pelos velhos Xavier e Magneto a encontrar, nos anos 1970, suas contrapartes jovens, promovendo assim o encontro da série original com os novos integrantes de “X-Men Primeira Classe”.
O resultado é de encher os olhos, graças ao impecável minimalismo cinematográfico do diretor Bryan Singer, ainda que o roteiro contenha furos homéricos que comprometem muito a suposta continuidade entre este novo filme e a primeira trilogia. Nesse sentido ele pode ser um pouco falho como continuação, mas como cinema, porém, é um senhor entretenimento.

Embora pareça ser Wolverine, é Jennifer Lawrence, como Mística, o verdadeiro catalisador do filme, impressão, aliás, que parece se reforçar nos trailers do vindouro "X-Men Apocalypse".
Aguardaremos para ver...

domingo, 15 de maio de 2016

Wolverine - Imortal

Ainda em processo de recuperação dos eventos transcorridos em "X-Men O Confronto Final" Logan se refugia nas florestas do Canadá, quando é procurado por uma jovem japonesa que lhe resgata um episódio de seu passado: Quando salvou, durante a II Guerra Mundial, a vida de um jovem soldado japonês, no exato momento em que a bomba atômica foi detonada nos céus de Nagazaki. O soldado, agora um milionário, a beira da morte deseja compensar Logan por tê-lo salvo, dando-lhe a única coisa que depois de tanto tempo ele almeja: a chance de morrer.
Mesmo após os resultados pra lá de frustrantes do filme solo do Wolverine, os estúdios da Fox, felizmente, ainda não tinham desistido do personagem. Foi assim que, dessa forma, chamaram novamente o ator Hugh Jackman (sempre sensacional em sua caracterização), contrataram o diretor James Mangold (realizador do ótimo faroeste “Os Indomáveis”) e o colocaram na missão de adaptar a cultuada graphic-novel "Eu, Wolverine", uma notável história de tom mais realista que colocava Logan no Japão, conseguindo assim restabelecer Wolverine como o grande personagem que é após aquele filme frustrante. 
O resultado unia elementos de filmes de samurai (indo além de sua ambientação), com aspectos que remetiam a filmes clássicos de gêneros norte-americanos, como "Os Implacáveis", muito do agrado do diretor Mangold, tudo isso, mesclado a uma trama de histórias em quadrinhos que terminou funcionando bem na tela de cinema.
Embora possuísse suas fragilidades, o novo filme trazia pelo menos uma cena digna de nota: A bem elaborada e memorável cena de luta sobre um trem-bala em movimento.
Está certo que o filme poderia ter sido ainda mais fiel à saga dos quadrinhos e que aquele trecho final envolvendo o Samurai de Prata é esquisito e desnecessário, sem falar que a cena pós-créditos que faz a ligação com o filme seguinte (“Dias de Um Futuro Esquecido”) é melhor que o longa inteiro mas... bem, isso é uma outra história.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

X-Men Origens Wolverine

Com o encerramento do terceiro filme, tinha-se aberto uma possibilidade muito interessante para os mutantes no cinema: os filmes-solo.
E era óbvio que o primeiro e preferido de todos para ganhar um filme só seu seria o Wolverine.

Foi assim que, convidado pelo estúdio da Fox, o diretor sul-africano Gavin Hood (que havia conquistado até o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2006, por “Infância Roubada”) assumiu as rédeas para o filme que prometia jogar uma luz sobre todo o mistério envolvendo a origem de Logan (Hugh Jackman, independente de qualquer coisa, sempre perfeito no papel): Em meados do Século XIX, o jovem James Logan Howlett foge de casa com seu suposto meio-irmão Victor, ao descobrir uma mutação que o torna diferente. Nas décadas que virão eles perceberão que não envelhecem e que seus corpos curam-se extraordinariamente rápido, características que os tornam ótimos soldados. Assim, por volta dos anos 60, já no Século XX eles serão recrutados pelo General Striker, militar maquiavélico e manipulador que levará Logan, já com o codinome de Wolverine, a submeter-se a uma experiência em que seu esqueleto receberá enxertos de um poderoso metal chamado Adamantium.
Um dos muitos grandes problemas enfrentados pelo filme, foi a pressão exercida pelo estúdio (com a qual o diretor Hood, vindo de um ambiente criativo completamente distinto, não soube lidar), que sempre foi tirada de letra quando o diretor era Bryan Singer, sempre sagaz, firme e convicto da forma como queria fazer seu trabalho. Dessa forma (sem uma mente dotada de genuína visão artística para controlar o complexo processo de criação que resulta das filmagens), o filme que chegou aos cinemas, apesar das ótimas presenças de Hugh Jackman e de Liev Schreiber, era equivocado, desleixado, mal trabalhado e mal adaptado dos quadrinhos.
Hoje é lembrado como uma das piores adaptações já feitas e nem sequer foi considerado na cronologia pelos filmes seguintes.

terça-feira, 3 de maio de 2016

X-Men O Confronto Final

Cientistas desenvolvem uma vacina que elimina as habilidades e modificações físicas provocadas naturalmente nos chamados "mutantes". A notícia cria uma celeuma dramática entre os mutantes que dividem-se entre aqueles que querem desesperadamente ser aceitos e portanto abdicar de sua mutação, e os que rejeitam por completo uma medida preconceituosa que os torna aquilo que não são. Tudo isso ocorre, num momento complicado para os X-Men, quando Jean Grey, dada como morta no filme anterior ressurge, agora como a quase onipotente Fênix, e Magneto planeja seu golpe de misericórdia contra a humanidade.
 A saída do diretor Bryan Singer (dando espaço para a entrada de Brett Ratner, diretor de “A Hora do Rush”) causou uma leve baixa na qualidade, ainda que a série continue fascinante, tocando nos mesmos aspectos que fazem os X-Men fazer tanto sucesso nos quadrinhos. Este exemplar está longe de ser um filme ruim, mas é muito aquém do resultado que teria tido se Singer tivesse permanecido na direção.
Embora tenha algumas belas cenas de ação, este terceiro filme encerra os arcos dramáticos deixados pelo filme anterior de forma nem sempre satisfatória, matando inclusive alguns personagens-chave da trama.



X-Men 2

Continuação de "X-Men-O Filme". Wolverine busca descobrir quem é e como se transformou numa máquina de matar. Suas buscas o levam a um complexo militar no Canadá e a um certo coronel Striker. Enquanto isso, os outros X-Men se desdobram para identificar um mutante dotado de capacidade de teleporte que tentou assassinar o presidente dos EUA, e que piorou muito a já abalada imagem da comunidade mutante. Na Casabranca, as repercussões desse atentado podem fazer com que o presidente autorize uma invasão à Escola de Superdotados do Prof. Xavier, o que pode então levar Wolverine a se defrontar com Striker.
 Mais fiel, mais eletrizante, mais inteligente e mais marcante que a primeira parte. Os X-Men nunca foram histórias de heróis contra vilões. E a sorte da franquia foi que, ao ser convertida em cinema, seu realizador Bryan Singer compreendeu perfeitamente isso. No primeiro filme, ele colocou as personalidades de Xavier e Magneto em contraponto, numa sensacional alegoria a Martin Luther King e Malcoln X. Aqui, em “X-Men 2” ele prosseguiu com esse trabalho analisando outras questões sobre o preconceito: O quê nos torna diferentes? A partir de que momento, e por quê, isso passa a incomodar outras pessoas? A busca por conciliação é um sinal de força ou de fraqueza?
 A brilhante resposta de “X-Men 2” é que não há resposta: No fim das contas não existe diferença, pois somos todos iguais.

X-Men

Num futuro próximo, pessoas aparentemente normais desenvolvem poderes extra-ordinários que assombram as pessoas comuns. Denominados mutantes, eles passam a sofrer discriminação por conta de serem diferentes. Nessa polêmica que assume proporções globais, dois homens surgem como antagonistas da mesma questão: o Professor Charles Xavier, poderoso telepata que prega a integração das espécies, e seu ex-melhor amigo Magneto, líder de um clã terrorista a favor da supremacia mutante sobre a humanidade. Na guerra que parece se iniciar, o feroz mutante canadense Wolverine surge como um ponto de desequilíbrio nos planos dos dois.

Quando o diretor Bryan Singer lançou “X-Men-O Filme” no ano 2000, era um projeto arriscado. Talvez seja difícil perceber nos dias de hoje, mas até os anos 90 ninguém sabia ao certo o quê esperar de adaptações de histórias em quadrinhos, ou como fazê-las. Foi Bryan Singer quem mostrou o caminho estabelecendo as mais simples bases: um bom roteiro, uma boa direção e um ótimo elenco.
Seu filme surpreendia por ser extremamente austero, enxuto (apenas uma hora e meia de duração) e por trazer atores magníficos em seus personagens, em especial, o desconhecido e surpreendente Hugh Jackman no icônico papel de Wolverine.