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quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Teoria da Conspiração


 O cinema comercial –em especial, o hollywoodiano –sempre valeu-se do ostensivo apelo de público no qual eram reunidas duas (ou mais) grandes estrelas em cena; em torno disso girou a própria premissa do sucesso “Onze Homens e Um Segredo”, por exemplo. A despeito da qualidade –alguns filmes tinham muita, outros não tinham nenhuma... –esse era um recurso que parecia funcionar muito bem e instigava a curiosidade dos expectadores. E por volta da década de 1990, não haviam estrelas tão reluzentes quanto Mel Gibson e Julia Roberts, e foram justamente os dois quem o diretor Richard Donner reuniu no interessante, envolvente e descontraído “Teoria da Conspiração”.

Na época, o diretor Donner e o astro Mel Gibson estavam aproveitando ao máximo uma sintonia rara descoberta em pleno set de filmagens: Donner não apenas havia dirigido, com largo êxito, Gibson na série “Máquina Mortífera” –naquele ano, 1997, os três primeiros filmes já haviam sido feitos, e o quarto seria lançado no ano seguinte –como também dirigiu Gibson no faroeste “Maverick”. Na sua colaboração, portanto, Donner sabia precisamente o que poderia extrair das capacidades de Gibson e disso se vale para construir a trama engenhosa deste filme.

Flertando até que um bocado com a comédia –na qual Gibson se sai muito bem na sua dosagem de tiques nervosos –o roteiro de Brian Helgeland (roteirista de “Los Angeles-Cidade Proibida” cujo apreço sempre foram tramas intrincadas) apresenta o paranóico e catatônico personagem Jerry Fletcher, vivido por Mel Gibson. Fletcher é um motorista de táxi de Nova York, no entanto, essa ocupação não chega exatamente à defini-lo; seu objetivo, como taxista, parece ser mais o de passar despercebido às autoridades governamentais que, em seu íntimo, ele crê conspirarem o tempo todo contra o cidadão comum a fim de estabelecer um controle sempre maior sobre o mundo. Para tanto, Fletcher tem uma rotina regida pelos mais extremos pormenores do transtorno obsessivo-compulsivo (trancas e fechaduras, por exemplo, são uma eterna fonte de dúvida), publica clandestinamente um jornal subversivo destinado à apontar as mais improváveis conspirações praticadas pelo governo (o “Conspiracy Theory”) e atazana a vida da advogada do Departamento de Justiça dos EUA Alice Sutton (Julia Roberts) que, solícita, até dá um pouco de corda às suas sandices.

Entretanto, numa noite, Jerry é capturado por homens misteriosos liderados pelo obscuro Dr. Jonas (Patrick Stewart, sensacional numa quase recriação do personagem de Laurence Olivier em “Maratona da Morte”). O motivo, ainda que nebuloso, não tarda a se esclarecer: Em algum momento, dentre tantas teorias aleatórias veiculadas em seu jornalzinho clandestino, Fletcher acertou uma delas em cheio, o problema é, qual delas? Tentando escapar dos homens perigosos e treinados que agora o perseguem (em uma cena, numa divertida brincadeira do diretor Donner, Gibson refugia-se num cinema que exibe “O Feitiço de Áquila”, um de seus clássicos dos anos 1980), Fletcher acaba envolvente a sensata Dra. Sutton em suas enrascadas e, nesse percurso tortuoso, descobre que havia sido, ele próprio, vítima de uma espécie de lavagem cerebral previamente realizada; o que em parte explica seu comportamento paranóico e cheio de T.O.C. além de sua obsessão inexplicável pelo livro “O Apanhador No Campo de Centeio”.

Frenético, dono de um ritmo que somente um mestre da ação e da aventura escapista como Richard Donner seria capaz de imprimir na tela, “Teoria da Conspiração” surpreende o público, sobretudo, pela imprevista complexidade do seu enredo que, para as pretensões modestas de seu projeto, se torna até desafiador e rocambolesco em demasia a partir de certo ponto. O encontro em cena entre Julia Roberts e Mel Gibson pode não suscitar tantos suspiros quanto o público interessado exclusivamente nisso gostaria –até porque o filme não é e nem quer ser um romance –mas, ele oferece diversão, ação, mistério e enigmas intrigantes em profusão, para uma agradável sessão de passatempo noventista; e um casal central que não deixa de exibir química e carisma em níveis admiráveis.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Doutor Estranho No Multiverso da Loucura


 Nos quadrinhos, as inúmeras tramas paralelas que se sucedem e que convergem, muitas vezes, aos mesmos personagens, ambientes e situações raramente acabam despertando nos fãs a minúcia para encontrar detalhes contraditórios ou erros de continuidade. É curioso, pois que, em sua bem-sucedida tentativa de levar esse mesmo status narrativo ao cinema, a Marvel Studios, volta e meia, se defronte com esse problema: Fãs, um tanto quanto chatos e minimalistas, apontando esta ou aquela imperfeição nas amarras de suas histórias.

Já contando mais de vinte produções em sua filmografia –além de algumas séries! –a Marvel começa a enfrentar esta e outras velhas questões, já antigas nos quadrinhos, a respeito de quanto material o expectador deve assim ter conhecimento para compreender na íntegra o filme que irá ver no cinema. E a verdade a ser encarada, hoje, é que... não, não há como assistir a tudo, saber de tudo, ter conhecimento de tudo. E, se esse é um fato bem aceito aos leitores de quadrinhos, com o tempo, os expectadores de cinema, ainda que bem mais exigentes, terão de aceitar também.

Tomemos “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura” como exemplo. A princípio, as maiores referências adotadas em sua trama são o filme “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, com participação do Dr. Estranho (o ótimo Benedict Cumberbatch) e do qual é continuação quase direta, a série “WandaVision” que, em função da participação fundamental de Wanda Maximoff (a sensacional Elizabeth Olsen), acaba também dando continuidade à sua trama, e a série “Loki”, cuja abordagem do Multiverso, ainda que indiretamente, influencia todos os desdobramentos que veremos neste filme; e não tenha dúvidas, em outros projetos futuros também! Há também de se considerar o primeiro “Doutor Estranho” –a introdução, afinal, de muitos dos personagens presentes aqui –e o próprio “Vingadores-Ultimato” –ponto crucial para quase todas as histórias desenvolvidas pela Marvel daqui para frente –mas, a verdade é que, dentro em breve, será impossível acompanhar a tudo.

Como ocorre nos quadrinhos, meu conselho é o expectador  desencanar e curtir a viagem, aproveitar a trama, construída pelos roteiristas a fim de ser o mais satisfatória possível bastando em si mesma, mas certamente dependente (e referente) a várias outras vindas antes e depois. Os enredos da Marvel Studios serão, assim, uma miríade de narrativas que acontecem para frente (os filmes vindouros), para trás (os filmes que já foram feitos) e para os lados (alguns casos de obras que se passam quase simultaneamente aos eventos deste), e aos poucos, se não foram todos conferidos, com tempo, haveremos de descobrí-los.

“Multiverso da Loucura” traz Stephen Strange às voltas com uma jovem literalmente única: America Chavez (a carismática Xochiti Gomez) dotada do raro poder de teleportar-se entre uma realidade paralela e outra. Tal poder a torna alvo de ninguém mais, ninguém menos que Wanda, a Feiticeira Escarlate, que desde os eventos atribulados de “WandaVision” –onde sequestrou toda uma cidade para criar uma ilusão feliz onde vivia ao lado do trágico Visão (Paul Betany) e de seus dois filhos pequenos, materializados pelo poder incomensurável de sua magia –almeja pegar os poderes de America para si a fim de reaver seus filhos perdidos, nem que seja tirando-os de outra realidade alternativa.

Na batalha que se segue, Estranho é obrigado a valer-se inadvertidamente dos poderes de America –os quais ela não sabe controlar –e pular para outros universos, tentando escapar de Wanda.

Astuta que só, a Marvel Studios vale-se desse mote para presentear os fãs com momentos vibrantes e referências a outros personagens, numa manobra um pouco parecida com a aparição-surpresa de Andrew Garfield e Tobey Maguire em “Sem Volta Para Casa”. Uma dessas surpresas –só para ficarmos naquelas que os expectadores já tinham ideia de antemão –é a presença de Charles Xavier (Patrick Stewart), o Professor X, anunciando que, em algum lugar do horizonte, os X-Men estão bem próximos de aparecer no Universo Marvel.

E quanto ao filme em si? Embora inquieto, envolvente, visualmente esplendoroso e tecnicamente impecável, é necessário guardar as devidas proporções ao apreciarmos “Multiverso da Loucura”, sobretudo tendo como expectativa os incondicionalmente arrebatadores “Vingadores-Guerra Infinita” e “Ultimato”. A Marvel, como foi dito em outras ocasiões, estabeleceu com com esses dois trabalhos, um patamar tão alto que representa um desafio, e um empecilho, para todas as produções que vieram depois deles igualar tamanha excelência. E com “Multiverso da Loucura” não é diferente. A saída, um tanto brilhante, da Marvel Studios aqui é focar na diferenciação; este novo filme estrelado por Stephen Strange é, pela primeira vez no UCM, um filme de terror, cortesia da desenvoltura de gênero do diretor Sam Raimi, substituindo o diretor anterior, Scott Deriksson (aqui como produtor executivo). De um estilo forte e personalíssimo –o que curiosamente não colide com as predisposições muito comerciais da Marvel –Raimi (que realizou, além dos cultuados filmes de série “Evil Dead”, a “Trilogia Homem-Aranha” com Tobey Maguire e o primeiro “filme-quadrinho” da era moderna, “Darkman-Vingança Sem Rosto”) acrescenta à narrativa os elementos que tanto ama trabalhar, como os movimentos inusitados de câmera, os jump-scares, e o apreço por ícones tenebrosos como zumbis (o desfecho final é impagável!), olhos fulgurantes de possessão (Elizabeth Olsen, grande atriz, consegue ficar assustadora apesar da grande beleza) e um senso de humor muito peculiar a temperar toda essa morbidez.

A assinatura de Raimi, assim sendo, é nítida e constante neste filme, embora ele seja, nítida e constantemente, um filme também da Marvel Studios.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Duna


 O clássico da ficção científica concebido por Frank Hernert foi –e até prova em contrário, continua sendo –uma espécie de desafio para o cinema: Poucas obras enfrentaram tantas dificuldades para ser adaptada (em grande medida, por sua complexidade, pelo gigantismo de sua premissa, incapaz de ser simplificada, e pela difícil conjugação entre uma obra comercialmente viável e artisticamente concisa), gerando ao longo dessas tentativas, exemplares inusitados que, em sua maioria, geraram polêmica entre os expectadores.

Há, entre esses, o esforço lendário de Alejandro Jodorowsky em meados dos anos 1970, cujos contratempos, ambições, planos, ideias e frustrações (culminando no abandono do projeto) foram compilados e registrados no formidável documentário lançado em 2013 por Frank Pavich.

Algo próximo de uma adaptação real de “Duna” só foi mesmo perpetrada –e ganhou as telas de cinema –em 1984, quando o produtor Dino De Laurentis e o diretor David Lynch uniram forças para tal empreitada. De Laurentis vinha de uma fase na qual ao produzir material de cinema hollywwodiano tentou de tudo um pouco (ao longo daqueles últimos dois anos, ele realizou o formidável “Na Época do Ragtime”, de Milos Forman, o bem-sucedido “Conan”, de John Milius, a irregular refilmagem de “O Grande Motim”, “Rebelião Em Alto-Mar”, de Roger Donaldson, e o cultuado “A Hora da Zona Morta”, de David Cronenberg), já, David Lynch vinha de um projeto aclamado (“O Homem-Elefante”, seu primeiro trabalho para cinema depois do desafiador “Eraserhead”) e havia sido, por algum tempo, sondado pelo produtor George Lucas para dirigir “Star Wars-O Retorno de Jedi”, sendo preterido por Richard Marquant.

Talvez tenha sido esse episódio que incentivou David Lynch a experimentar a direção de uma ficção científica, aceitando pela primeira, e única vez em sua carreira, o comando de um projeto grandioso e endinheirado.

“Duna” começa –como os leitores do livro gigantesco de Herbert já poderiam supor –aos atropelos, deixando inúmeras informações literárias pelo caminho a fim albergar toda a trama numa obra de cento e trinta e sete minutos de duração: David Lynch insistiu numa edição bem mais extensa, refutada pelos produtores.

No planeta Arrakis, o Clã Atreides –do qual fazem parte o pai, Leto (Jürgen Prochnow), o filho Paul (Kyle Mac Lachlan, protagonista do filme e alter-ego de Lynch), e a mãe Jessica (Francesca Annis, de “Macbeth”) –assume o controle do lugar, tendo sobre si a desdenhosa supervisão de toda galáxia: Arrakis é o único planeta em todo o universo que fornece a especiaria Melange, um material essencial para a execução de viagens interplanetárias, pela capacidade que promove de fazer com que alguns cérebros atinjam uma elevação quântica, perceptiva e sensorial.

Entretanto, como é inerente a esse sistema feudalista espacial, os Atreides sofrem uma conspiração. Leto é assassinado, a família é deposta, restando à Paul e sua mãe refugiarem-se no grande deserto que envolve o planeta, morada do hostil povo nativo, os Fremen. Entre eles, Paul deve conquistar um lugar na tribo aprendendo a domar os Vermes, criaturas gigantescas sobre o dorso das quais os mais valentes Fremens são capazes de cavalgar.

Esses e outros percalços conduzem Paul a um duelo derradeiro contra o perigoso representante de seus traidores, Feyd-Rautha, vivido por Sting.

Turbulento em sua realização, errático na adaptação instintiva e frequentemente equivocada que faz do tomo de Frank Herbert –cujo excesso de detalhes, personagens, informações e sub-tramas representava um desafio a qualquer roteirista –“Duna” tem a seu favor a direção sempre inventiva e original de David Lynch e... nada mais.

As passagens pontuais da trama transcorrem com aleatoriedade maçante, e a ausência dos detalhes suprimidos em função da adaptação enfraquecem a relevância de tudo o que foi preservado. O expectador que adentrar o conceito idealizado por Herbert unicamente baseado na produção de De Laurentis e Lynch corre o sério risco de julgar que “Duna” não passa de uma obra estranha, inconstante e incoerente, e não o marco referencial do gênero que ele de fato é.

Após a mal-fadada repercussão do “Duna” de David Lynch, o livro ainda tentou ser adaptado numa pra lá de mediana minissérie do canal SyFy no ano 2000 que, se por um lado preservava a riqueza de detalhes do livro com seus duzentos e sessenta e cinco minutos de duração, por outro falhava miseravelmente no quesito primor narrativo.

Ainda durante esta pandemia pode haver uma esperança para a realização de Frank Herbert ganhar uma adaptação merecidamente válida: O diretor canadense Denis Vileneuve (em quem até hoje os cinéfilos do mundo inteiro não se arrependeram de depositar a confiança) prepara uma nova versão, desta vez, dividida em dois vultuosos longa-metragens.

Aguardaremos.

terça-feira, 14 de julho de 2020

As Panteras

Em seu formato originário de série de TV, “As Panteras” seguia –até por imposições orçamentárias –uma linha mais detetivesca e investigativa. Quando foi vertido para o cinema no ano 2000, estrelado por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu e dirigido por McG, “As Panteras” adquiriu escopo mais extravagante e assimilou uma miríade de referências cinematográficas de sua época (algumas pouco apropriadas ao seu próprio material) como lutas de kung-fu ao estilo “Matrix” (!) e todo o arsenal visual e estilístico de seu um tanto histriônico diretor. Ainda assim, seu sucesso rendeu uma continuação em 2003.
Já passados quase vinte anos daquele esforço inicial, “As Panteras” voltam a dar as caras no cinema, desta vez dirigidas pela também atriz Elizabeth Banks que aproveitou a oportunidade para agregar novas atitudes comportamentais à nova obra, relativas, como não poderia deixar de ser, ao contundente movimento de empoderamento feminino, a exemplo do recente “Aves de Rapina”.
As novas Panteras são ainda mais audaciosas, independentes e auto-suficientes em relação aos homens do que suas antecessoras, e caso não tenha ficado bem claro, isso já é explicitado no diálogo da cena inicial –ambientada no Rio de Janeiro, olhe só! –entre a personagem de Kristen Stewart e um alvo qualquer.
Kristen Stewart, por sinal, é uma das boas surpresas do filme: Enérgica, eufórica e incontrolável, sua personagem, Sabina, não lembra em nada a caracterização sorumbática que ela dá à protagonista Bella, de “Crepúsculo”.
Junto dela, está também a eficiente agente de campo Jane, vivida pela deslumbrante Ella Balinska.
Completando o trio principal, está Elena, interpretada pela maravilhosa Naomi Scott, conhecida da diretora Banks desde que trabalharam juntas no set de “Power Rangers”. Naomi, ou melhor, Elena é o que se pode chamar de protagonista do filme: A narrativa adota sua ótica subjetiva para, na maior parte do tempo, mostrá-la adentrando e descobrindo esse novo mundo. Elena é uma das brilhantes programadoras que trabalha na empresa milionária de seu patrão, o Sr. Brok (Sam Claffin, que trabalhou com a diretora Banks no set de “Jogos Vorazes-Em Chamas”). Inteligente, Elena descobre um pequeno problema colateral na nova e revolucionária tecnologia que Brok irá revelar ao mundo: Ao mesmo tempo em que é um programa capaz de operar em qualquer mainframe, é também capaz de gerar um poderoso pulso eletro-magnético tão forte que pode matar vidas humanas.
Inicialmente, ela tenta alertar seus superiores sobre isso –e é reprimida naquele tipo e encenação padrão que gosta de sublinhar a avareza e a insensatez masculina.
Depois, de posse de um cartão da Agência Towsend (que representa as Panteras), Elena contata os famosos investigadores (ou investigadoras) e, nesse processo, descobre que sua vida está em perigo.
Agora, na qualidade de ‘pantera em treinamento’, Elena terá de contar com Sabina e Jane, além da chefe Bosley (a própria diretora Banks, num papel pela primeira vez interpretado por uma mulher), para impedir misteriosos mal-feitores de vender o programa dotado do poder de matar no mercado negro de armas.
Tal e qual foi tentado nos filmes de 2000 e 2003, este novo “As Panteras” assume ares de filme grandioso de ação, e sua trama adquire reflexos condicionados dos thrillers de espionagem pós-modernos, como “Missão Impossível” (também ela uma série televisiva convertida em série cinematográfica) e “007”. Nessa reafirmação convicta de gênero, “As Panteras” apresenta os cacoetes de sempre –locações européias refinadas (começando em Hamburgo, na Alemanha, e daí para frente), cenas de perseguição e tiroteio, bugigangas tecnológicas e sequências de luta empenhadas num rigor físico coreografado –contudo, sai-se muito bem no resultado porque a direção de Elizabeth Banks é mais competente, equilibrada e sensível que a do histérico McG, e porque suas três protagonistas encontram facilidade em fazerem-se maravilhosas: A dinâmica de provocações verbais, camaradagem e rivalidade entre Kristen Stewart e Ella Balinska é um divertimento só, e Naomi Scott está encantadora e sensacional na pele da aprendiz de Pantera, para quem esse mundo novo de espionagem que se descortina à sua frente é quase como um clube restrito e exclusivo ao qual ela teve a sorte de ser convidada.
Um ponto interessante no filme de Elizabeth Banks é que ele reconhece todas as obras relativas às Panteras –desde o seriado dos anos 1970 e 80, até os filmes dos anos 2000 –como sendo parte do mesmo universo: E por isso, há em alguns momentos, referências aos filmes e à série, sobretudo, nas divertidas cenas pós-créditos, que contam entre outras com a participação de uma das panteras originais Jaclyn Smith.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Jornada Nas Estrelas - A Saga

Jornada Nas Estrelas-O Filme
Com o sucesso esmagador do primeiro “Star Wars”, na década de 1970, não tardou para que cada um dos estúdios de Hollywood procurassem por sua própria saga espacial. Possivelmente a única franquia com pedigree nesses termos era “Jornada Nas Estrelas” –ou “Star Trek” –dos estúdios da Paramount, que tratou de abortar os planos da uma nova temporada para a série e expandiu o escopo e a ambição para fazer o primeiro longa-metragem para cinema adaptado da cultuada obra televisiva criada por Gene Rodenberry.
Para dirigi-lo, um suposto especialista no assunto, o veterano Robert Wise, co-diretor (e ganhador do Oscar) de “Amor, Sublime, Amor”, e realizador da clássica ficção “O Dia Em Que A Terra Parou” –certamente o crédito que o gabaritou para este trabalho.
Sua trama, bastante esquemática, sofre as pressões do sistema de produção comercial de então e da tentativa em tatear em cinema uma linguagem que antes pertencia à telinha: A nave interplanetária USS Enterprise, totalmente reformada e de volta à atividade com sua tripulação original comandada pelo almirante Kirk (William Shatner), é atraída em pleno espaço por força maligna que ameaça a Terra.
Faltou, neste primeiro filme, aos produtores a sensatez de entender que Robert Wise, por mais inspirador que tivesse sido em seus filmes anteriores, não pertencia às novas gerações de cineastas capazes de urgir conceitos e narrativas que falassem a essa nova geração de expectadores –às quais George Lucas e sua saga se conectaram com primor.

Jornada Nas Estrelas-A Ira de Khan
Ainda assim, esse novo esforço em verter “Star Trek” para os cinemas interessou o público e sensibilizou a crítica o suficiente para que um segundo filme fosse planejado e, desta vez, aos trancos e barrancos, os produtores estavam dispostos a resgatar, na tela grande, os valores que faziam da marca um fenômeno na TV e, especialmente, conceber a partir daqui, um esqueleto narrativo que não se restringisse a um filme só, sinalizando uma ampla saga estendida por vários outros filmes.
Daí o grande vilão deste segundo filme ser oriundo direto do seriado e um dos prediletos dos fãs: O inimigo jurado da Federação Galáctica, até então exilado num planeta arenoso, Khan, vivido com fulgor canhestro por Ricardo Montalban.
Passado alguns anos de seu exílio, Khan planeja um golpe brutal contra seus inimigos, sobretudo o Almirante James T. Kirk, comandante da nave Enterprise, e seu grande adversário do passado.
É neste segundo filme para cinema que se inicia uma espécie de reformulação capitaneada pelo diretor Nicholas Meyer: A de militarizar muitos dos conceitos até então pacifistas da série televisiva imaginada por Gene Rodenberry, obtendo um resultado bem superior ao filme anterior.

Jornada Nas Estrelas-À Procura de Spock
Embora houvessem declarações esporádicas inclusive do próprio Leonard Nimoy, o honorável intérprete do Dr. Spock, de que cada filme de “Star Trek” deveria ter sido o último, são inegáveis os elementos de “A Ira de Khan” que funcionam como ganchos narrativos que levam diretamente a este terceiro filme: A trágica morte do Senhor Spock. O misterioso procedimento que ele fez, pouco antes de morrer, em McCoy (DeForest Kelley) e a pouco explorada questão do planeta artificial Gênesis.
Assumindo o posto de direção deixado vago por Nicholas Meyer, o ator Leonard Nimoy conduz este trabalho com alguma cautela excessiva, mas com admirável noção de ritmo e de desempenho.
Após a perda de Spock no fim do filme anterior, a tripulação da nave Enterprise parece ligeiramente fora de rumo.
Entretanto, talvez haja uma esperança muito remota e arriscada para, de alguma forma, reaver Spock. Antes de sacrificar-se ele deixou sua consciência e suas memórias na mente do Doutor "Magro" McCoy, que desde então parece ter perdido uns parafusos. Agora, clandestinamente e sem o aval da Federação, Kirk e os outros precisam confiscar uma nave e rumar para o misterioso planeta Gênesis, onde aparentemente se encontram as respostas para o retorno de Spock.

Jornada Nas Estrelas-A Volta Para Casa
Continuando basicamente do ponto de interseção em que “À Procura de Spock” acabou (com a tripulação lidera por Kirk desobedecendo ordens oficiais numa condição de renegados), e retomando a função como diretor –desta vez, visivelmente mais a vontade ao lidar com o material –Leonard Nimoy realizou um entretenimento divertido, ágil e saboroso, dominando prodigiosamente a fórmula dos filmes da série e entregando uma mescla equilibrada de aventura, ação e humor.
É, com méritos, um dos filmes de "Jornada Nas Estrelas" mais festejado pelos fãs.
Sem saber como seus membros serão recebidos, a outrora tripulação da USS Enterprise, liderada pelo ex-almirante Kirk, retorna para a Terra a bordo de uma nave Klingon –pilotada pelos vilões derrotados no filme anterior.
Contudo, a Terra enfrenta complicações: Uma raça alienígena sitiou nosso planeta ameaçando bombardeá-lo caso não recebam uma resposta. O idioma dos alienígenas, porém, lembra a comunicação feita por baleias que a muito já estão extintas.
Sendo assim, cabe a Kirk e sua tripulação voltar no tempo, no presente (que, para todos os efeitos era a década de 1980), para encontrar as tais baleias, e levá-las ao futuro, onde poderão fazer o papel de "diplomatas da Terra".

Jornada Nas Estrelas-A Última Fronteira
O enredo iniciado em “A Ira de Khan” havia sido maravilhosamente aproveitado e ramificado nos últimos três (e ótimos) filmes da saga.
Embora não houvesse material previsto para dar continuidade, o sucesso de bilheteria e o carinho dos fãs levaram o estúdio a logo encaminhar um quinto filme, desta vez, a estréia na direção de William Shatner, o próprio capitão Kirk.
Uma pena que, ao contrário de Leonard Nimoy, Shatner não possuía maiores noções de espetáculo, ou mesmo de plausibilidade e coerência –todos são elementos essenciais que faltam à narrativa deste filme frouxo, equivocado e banal.
A bordo da USS Enterprise, o capitão Kirk e sua tripulação deparam-se com um grupo dissidente de vulcanos (a mesma raça do Senhor Spock) que não só reclamam para si o direito sobre a plenitude das emoções como querem também partir para o que seria o centro do universo, e lá encontrar Deus.
Dono da ingrata tarefa de suceder uma das mais aclamadas produções de toda a saga (porém, ineficaz e falho mesmo destituído desse fator), este novo episódio foi tido como o mais fraco dos filmes da série.

Jornada Nas Estrelas-A Terra Desconhecida
Já no início da década de 1990 –e com seu elenco cada vez mais envelhecido –o diretor de “A Ira de Khan”, Nicholas Meyer, voltou para fazer uma espécie de despedida da saga e dos seus personagens.
Uma cataclisma ameaça seriamente de extinção a raça dos Klingons –um evento histórico para o cânone da saga (cortesia do roteiro escrito pelo próprio Leonard Nimoy) que começava a conectar esta versão com acontecimentos presentes na série “Jornada Nas Estrelas-A Nova Geração”, que fez sucesso na TV nos anos 1980 e 90.
Outrora inimigos da Federação dos Planetas Unidos, a raça de guerreiros rudes agora deve se submeter às regras diplomáticas da Federação Galáctica para sobreviver uma vez que seu planeta fora destruído. Um dos oficiais requisitados para mediar o histórico encontro é o capitão James Kirk, que já tivera muitos atritos com os Klingons no passado, e se encontra a beira da aposentadoria.
No entanto, durante a ocasião, uma sabotagem na Enterprise provoca um mal-estar diplomático cuja culpa recai sobre Kirk e seu médico, o Doutor McCoy. Spock e os outros devem, portanto, salvar Kirk e McCoy, descobrir o sabotador entre a tripulação e ainda deter uma conspiração para minar o acordo de paz entre os Klingons e a Federação.
Certamente uma despedida digna e com uma cena final emocionante, contudo, apesar da sugestão a frente e atrás das câmeras de que este seria o último filme, não foi bem assim...

Jornada Nas Estrelas-Gerações
Como forma de fazer uma espécie de transição –e nada mais que isso –entre a velha geração (leia-se, Kirk e sua turma) e a nova (o Capitão Jean Luc Piccard e novos personagens que protagonizavam a nova e bem-sucedida série televisiva) foi lançado em 1994, sem maiores alardes este filme transitório dirigido pelo inexpressivo David Carson.
Isso porque, da tripulação original da Enterprise, sobrou pouco mais que o Capitão Kirk –Nimoy, como Spock, e DeForest Kelley, o McCoy, não voltaram por questões de contrato sobrando apenas os intérpretes de Scotty (James Doohan) e Chekov (Walter Koenig) –o que torna este encontro entre personagens distintos como Kirk e Piccard (separados por cerca de 100 anos, o que exige do roteiro uma explicação meio furada de viagem no tempo) um exercício de expectativa desperdiçada.
Em perseguição ao vilão Soran (Malcolm McDowell que, depois de “Laranja Mecânica” e “Calígula” só se encaixa à perfeição nesse tipo de papel), o capitão Piccard e sua tripulação chegam até o misterioso lugar denominado Nexus, uma região feita de energia onde o espaço e o tempo não estão completamente definidos –recurso narrativo que permite assim o encontro entre os dois núcleos tão cronologicamente longínquos de protagonistas.
É lógico, portanto, que a mesma região Nexus irá atrair Kirk e, em determinado ponto, ele e Piccard irão unir forças para enfrentar o vilão.
Mais: A tocha, digamos, de heroísmo da série enquanto cinema será assim passado oficialmente de um para outro. E sobram assim pouquíssimas coisas, neste filmes dos mais irregulares, que de fato peguem de surpresa o expectador: Os lances pretensamente mais importantes de seu roteiro –como a morte de Kirk –são também os mais óbvios.

Jornada Nas Estrelas-Primeiro Contato
Após o pra lá de mediano filme anterior, a equipe da nova geração, devidamente introduzida ganhou um filme para chamar de seu.
E o diretor Jonathan Frakes, um dos membros do elenco, não economizou esforços para fazer deste um trabalho de insuspeita qualidade, recorrendo inclusive ao mesmo artifício que garantiu à série de TV, da qual todos eram oriundos, uma sobrevida que o alavancou para além das comparações com a série original: Os temíveis e vilanescos Borgs, cuja peculiar característica é a da converter todos os organismos vivos em entidades similares a eles mesmos.
Responsáveis por rechaçar um ataque menor desses tenebrosos alienígenas à Terra, o capitão Jean Luc Piccard (Patrick Stewart, o Prof. Xavier de “X-Men”) e sua tripulação à bordo da nave Enterprise, vêem-se na condição de serem os únicos capazes de deter um plano muito maior de dominação da Terra: Os Borgs planejam voltar no tempo, no dia do histórico primeiro contato da raça humana com outras inteligências extra-terrestres, o que incluirá a Terra na Federação Galáctica dos Planetas Unidos, e impedir que isso aconteça, deixando a Terra muito mais suscetível a uma invasão alienígena.
Piccard conduz assim a Enterprise ao passado, a fim de frustrar os planos inimigos, bem como também acertar uma antiga richa que tem com os Borgs.
Embora passe longe do brilhantismo visto, sobretudo, em “A Ira de Khan” e “A Volta Para Casa”, este primeiro longa-metragem inteiramente pertencente à Nova Geração de "Star Trek", foi muito bem sucedido e realizado, viabilizando novos filmes protagonizados por Piccard e sua tripulação.

Jornada Nas Estrelas-Insurreição
O diretor Jonathan Frakes (e que, numa curiosa tradição de “Star Trek” vinha a ser intérprete também de um dos personagens, o oficial William T. Riker) retornar para dirigir este novo filme disposto a mudar uma outra e curiosa ‘tradição’ da série: A de que os filmes de número ímpar (este é o nono) seriam sempre ruins e os de número par são sempre bons.
E este novo filme já traz um enredo que faz referência direta a uma das principais diretrizes da Federação Galáctica, desde os tempos da antiga tripulação: A de que nenhuma tripulação de uma nave da Frota Estelar deve interferir nos rumos de uma cultura ou civilização.
É, portanto, um tremendo impasse com o qual o Capitão Piccard se defronta: Cumprir suas ordens e ignorar a ameaça aos habitantes do planeta Ba’ Ku? Ou seguir sua consciência e ajudá-los, rompendo com a própria Federação Galáctica no processo?

Jornada Nas Estrelas-Nêmesis
Neste que é o décimo longa-metragem de "Jornada Nas Estrelas", a produção lança mão de alguns elementos para se adaptar às novas fórmulas do cinema comercial, como a escalação do diretor de ação Stuart Baird (realizador de “Momento Crítico” e montador de obras como “007-Cassino Royale” e “Máquina Mortífera”), do dramaturgo John Logan como roteirista e (a mais equivocada de todas) uma campanha de marketing na qual “Nêmesis” era vendido ao público sem detalhes mais informativos de que fazia parte de “Star Trek”.
A indiferença generalizada do público nas bilheterias terminou fazendo deste o último filme desse segmento de “Star Trek”.
Em meio às festividades do casamento de William Riker e Deanna Troi (Marina Sirtis), um casal de membros da tripulação da USS Enterprise, o capitão Jean-Luc Piccard recebe uma grande notícia: seu nome foi apontado para servir de porta-voz da Federação durante o aguardado e importantíssimo acordo de paz dos Romulanos.
Os eventos, porém, como rege a cartilha do cinema comercial, não serão tão simples e nem tão tranqüilos. De tocaia nas proximidades do Império Romulano estão inimigos que têm engendrados planos para ameaçar esse acordo. Mais que isso eles têm um às na manga: Um jovem que na realidade é o próprio Piccard clonado! –repare num ainda muito jovem Tom Hardy no papel de clone.
Encerrando de forma um pouco desapercebida e não muito digna essa fase de “Star Trek” nos cinemas, “Nêmesis” foi o último filme realizado tendo por esteio todos os anteriores –partindo do princípio que eles todos se conectavam.
Só em 2009 (portanto, sete anos depois deste filme), “Star Trek” seria reiniciada com todas as letras ganhando uma nova e turbinada versão pelo diretor J.J. Abrahams, enfim atrevendo-se a trazer um novo elenco (e, por que não, uma nova abordagem) para tão icônicos personagens.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Força Sinistra

Quem era adolescente em 1986, quando foi lançada nos cinemas a ficção científica de terror “Força Sinistra” dificilmente conseguiu tirar da memória a imagem de uma escultural Mathilda May caminhando completamente nua pelo cenário, ainda que, no contexto e no fim das contas, ela representasse a encarnação do mal.
O apelo erótico da atriz é a forma como muitos conseguem olhar, com mais indulgência, para este filme que hoje, certamente muito mais do que na época, pode-se notar ser uma salada de efeitos especiais baratos, alienígenas, vampiros, mortos-vivos e um prenúncio do fim do mundo.
Ainda que sua primeira metade, mais caprichada e instigante, apontasse na direção de algo muito melhor.
Pegando uma bela carona na repercussão do cometa Halley (que passava pela Terra naquela mesma época), a trama mostra a tripulação de uma nave espacial prestes a interceptar o cometa que, com a proximidade, revela-se também ele, uma nave espacial. Lá dentro, além de carcaças alienígenas, três corpos misteriosamente humanos. Dois homens e uma mulher (Mathilda May, um desbunde). Trazida para a Terra, ela desperta e mostra-se capaz de absorver violentamente a energia daqueles homens que a tocam.
Único sobrevivente da nave que a trouxe do espaço, o Coronel Tom Carsen (Steve Railsback, um ator típico de filmes B que em 2000 protagonizou “Ed Gein-O Serial Killer”) sabe que ela tem poder para subjugar e por fim à raça humana, e por isso tenta detê-la.
Restrições orçamentárias do período devem ter impedido que o filme mantivesse os elevados valores de produção que ele sugere em sua primeira metade, o quê pode vir a explicar a redundante guinada que ele dá quando se encaminha para uma conclusão: Se o filme do diretor Tobe Hooper (um diretor de filmes de terror de baixo orçamento, e já está aí a dica!) começa muito bem, com um clima tenso e elegante que remete a “Alien” –e os produtores picaretas Menahem Golan e Yoram Globus não contrataram o mesmo roteirista daquele filme, Dan O’ Bannon, à toa –ele lança mão de outros subterfúgios depois de um tempo, convertendo-se espontaneamente em um filme de terror fuleiro e redundante, comprometendo o que poderia ter sido sensacional.
Eis um caso de equívoco que poderia ser espetacularmente corrigido em uma providencial refilmagem.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Logan

Já de começo se pode perceber algo de diferente em “Logan”. Diferente até mesmo de “Deadpool” cujo imenso sucesso propiciou a alta censura da qual este filme também se beneficiou: Os fãs podem, enfim, ver Wolverine no auge de sua selvageria, estraçalhando os inimigos e extraindo litros de sangue que suas garras afiadas não tiveram a chance de fazer em nenhum dos filmes anteriores.
Entretanto,”Logan” é também adulto em sua proposta, em seu intimismo, na decisão convicta do diretor James Mangold e do astro Hugh Jackman em finalmente construir um filme que fizesse jus à ambigüidade moral e à angústia que o personagem principal apresenta de maneira tão exuberante nos quadrinhos.
Uma pena que, ao buscar inspiração na graphic-novel “O Velho Logan” (ambientada num futuro algo pós-apocalípitico onde o herói se vê em uma fase crepuscular da vida e muitos dos personagens conhecidos já morreram), a premissa afasta a possibilidade de ter os demais X-Men a participar desse projeto (o único remanescente deles é um envelhecido e decadente Prof. Charles Xavier, aqui sofrendo de uma doença degenerativa mental): O ano é 2029. Já contam décadas que não nascem novos mutantes no mundo (e tal detalhe já aproxima bastante o filme de Mangold, também da memorável ficção “Filhos da Esperança”, de Alfonso Cuarón). Logan, outrora conhecido como Wolverine (Jackman, fazendo valer cada instante desta sua despedida do papel), agora trabalha quase anônimo como motorista particular. Junto com ele moram o mutante Caliban (Stephen Merchant, substituindo o ator que fazia uma versão mais agressiva deste mesmo personagem em “X-Men Apocalypse”) e seu antigo mentor, o agora senil Xavier (Patrick Stewart, entregando uma inspirada atuação).
Os poderes de Logan já não são mais os mesmos, e sua perspectiva de vida envolve a possibilidade de um suicídio –ele trás consigo uma única bala de adamantium na eventual chance de usá-la em si mesmo –porém, ainda assim, ele guarda algum dinheiro para comprar um barco e partir para o mar.
Neste cenário inóspito, surge uma garotinha, Laura (a surpreendente Dafne Keen), com poderes similares até demais aos de Wolverine –e ele logo descobrirá qual a espantosa origem dela –e perseguida pelo caçador de recompensas cibernético Donald Pierce (Boyd Holbrook) a mando de uma corporação tão suspeita quanto perigosa.
Logan deve conduzi-la a um refúgio em algum lugar da Dakota do Norte e até lá, certamente, se exasperar com seus perseguidores naquele que pode ser último ato de heroísmo.
O entardecer do herói é, assim, emoldurado por uma produção que se distancia muito dos elementos que definiram a série “X-Men” –e que ainda estavam presentes nas incursões solo do personagem –“Logan” guarda elementos de um road-movie, de um épico pós-apocalíptico que lembra “Mad Max”, de drama e de faroeste: Sua referência mais explícita por sinal é o épico de George Stevens, “Os Brutos Também Amam” que aparece literalmente na cena em que Xavier e a garotinha assistem ao próprio filme num quarto de hotel, pontualmente na própria dinâmica dos personagens (a relação entre Logan e Laura guarda diversos paralelos entre a do pistoleiro Shane e o garotinho, no clássico), e explicitamente na menção magistral feita durante o prólogo poderosamente emocionante e corajoso.

Hugh Jackman não é mais o Wolverine, e será certamente um desafio para o estúdio encontrar um intérprete à sua altura para o personagem que ele interpretou de modo tão perfeito nos últimos dezessete anos. Como consolo, nos resta este filme desigual, lúgubre, dramático e formidável que, em sua despedida, ele fez questão de nos entregar.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

X-Men Dias de Um Futuro Esquecido

Num obscuro futuro para a raça mutante, os robôs sentinelas já dizimaram quase toda a população da Terra, restando a Charles Xavier e Magneto (os veteranos Patrick Stewart e Ian McKellen), reunir os remanescentes x-men para um último e desesperado recurso: valer-se do poder da jovem Kitty Pride (Ellen Page) para enviar Wolverine (Hugh Jackman, sempre impecável) ao passado, onde ele deve entrar em contato com o então jovem Prof. Xavier (James McAvoy), e juntos impedir o atentado que deflagrou aquele futuro terrível, o assassinato do inventor Bolivar Trask (Peter Dinklage, de "Game of Thrones") pelas mãos da transmorfa Mística.
Após dez anos, Bryan Singer volta a sentar na cadeira de diretor, e honrando um legado que ele mesmo ajudou a criar, elabora uma trama que une passado e presente na qual os mutantes têm uma chance de fazer algo que todos nós, de um modo ou de outro, ansiamos como seres humanos: reescrever a história a nosso próprio favor.
Quem nunca pensou em voltar para salvar Martin Luther King de ser assassinado? Ou John Lennon? Ou deter Hitler, e o nazismo?
Neste filme soberbo Wolverine é obrigado a lidar com isso na prática quando é enviado pelos velhos Xavier e Magneto a encontrar, nos anos 1970, suas contrapartes jovens, promovendo assim o encontro da série original com os novos integrantes de “X-Men Primeira Classe”.
O resultado é de encher os olhos, graças ao impecável minimalismo cinematográfico do diretor Bryan Singer, ainda que o roteiro contenha furos homéricos que comprometem muito a suposta continuidade entre este novo filme e a primeira trilogia. Nesse sentido ele pode ser um pouco falho como continuação, mas como cinema, porém, é um senhor entretenimento.

Embora pareça ser Wolverine, é Jennifer Lawrence, como Mística, o verdadeiro catalisador do filme, impressão, aliás, que parece se reforçar nos trailers do vindouro "X-Men Apocalypse".
Aguardaremos para ver...

terça-feira, 3 de maio de 2016

X-Men O Confronto Final

Cientistas desenvolvem uma vacina que elimina as habilidades e modificações físicas provocadas naturalmente nos chamados "mutantes". A notícia cria uma celeuma dramática entre os mutantes que dividem-se entre aqueles que querem desesperadamente ser aceitos e portanto abdicar de sua mutação, e os que rejeitam por completo uma medida preconceituosa que os torna aquilo que não são. Tudo isso ocorre, num momento complicado para os X-Men, quando Jean Grey, dada como morta no filme anterior ressurge, agora como a quase onipotente Fênix, e Magneto planeja seu golpe de misericórdia contra a humanidade.
 A saída do diretor Bryan Singer (dando espaço para a entrada de Brett Ratner, diretor de “A Hora do Rush”) causou uma leve baixa na qualidade, ainda que a série continue fascinante, tocando nos mesmos aspectos que fazem os X-Men fazer tanto sucesso nos quadrinhos. Este exemplar está longe de ser um filme ruim, mas é muito aquém do resultado que teria tido se Singer tivesse permanecido na direção.
Embora tenha algumas belas cenas de ação, este terceiro filme encerra os arcos dramáticos deixados pelo filme anterior de forma nem sempre satisfatória, matando inclusive alguns personagens-chave da trama.



X-Men 2

Continuação de "X-Men-O Filme". Wolverine busca descobrir quem é e como se transformou numa máquina de matar. Suas buscas o levam a um complexo militar no Canadá e a um certo coronel Striker. Enquanto isso, os outros X-Men se desdobram para identificar um mutante dotado de capacidade de teleporte que tentou assassinar o presidente dos EUA, e que piorou muito a já abalada imagem da comunidade mutante. Na Casabranca, as repercussões desse atentado podem fazer com que o presidente autorize uma invasão à Escola de Superdotados do Prof. Xavier, o que pode então levar Wolverine a se defrontar com Striker.
 Mais fiel, mais eletrizante, mais inteligente e mais marcante que a primeira parte. Os X-Men nunca foram histórias de heróis contra vilões. E a sorte da franquia foi que, ao ser convertida em cinema, seu realizador Bryan Singer compreendeu perfeitamente isso. No primeiro filme, ele colocou as personalidades de Xavier e Magneto em contraponto, numa sensacional alegoria a Martin Luther King e Malcoln X. Aqui, em “X-Men 2” ele prosseguiu com esse trabalho analisando outras questões sobre o preconceito: O quê nos torna diferentes? A partir de que momento, e por quê, isso passa a incomodar outras pessoas? A busca por conciliação é um sinal de força ou de fraqueza?
 A brilhante resposta de “X-Men 2” é que não há resposta: No fim das contas não existe diferença, pois somos todos iguais.

X-Men

Num futuro próximo, pessoas aparentemente normais desenvolvem poderes extra-ordinários que assombram as pessoas comuns. Denominados mutantes, eles passam a sofrer discriminação por conta de serem diferentes. Nessa polêmica que assume proporções globais, dois homens surgem como antagonistas da mesma questão: o Professor Charles Xavier, poderoso telepata que prega a integração das espécies, e seu ex-melhor amigo Magneto, líder de um clã terrorista a favor da supremacia mutante sobre a humanidade. Na guerra que parece se iniciar, o feroz mutante canadense Wolverine surge como um ponto de desequilíbrio nos planos dos dois.

Quando o diretor Bryan Singer lançou “X-Men-O Filme” no ano 2000, era um projeto arriscado. Talvez seja difícil perceber nos dias de hoje, mas até os anos 90 ninguém sabia ao certo o quê esperar de adaptações de histórias em quadrinhos, ou como fazê-las. Foi Bryan Singer quem mostrou o caminho estabelecendo as mais simples bases: um bom roteiro, uma boa direção e um ótimo elenco.
Seu filme surpreendia por ser extremamente austero, enxuto (apenas uma hora e meia de duração) e por trazer atores magníficos em seus personagens, em especial, o desconhecido e surpreendente Hugh Jackman no icônico papel de Wolverine.

domingo, 15 de novembro de 2015

Excalibur

Grande mestre, esse John Boorman. Diretor de magistrais trabalhos nos anos 1970 e 1980, como “Amargo Pesadelo” e “Esperança e Glória”, ele é também realizador da melhor (e provavelmente jamais igualada) versão da lenda do Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda: “Excalibur”. 
A primeira parte da história, narrada num tom épico que depois serviria aos propósitos narrativos de filmes como “Gladiador” ou “Senhor dos Anéis”, mostra a obsessão de Uther Pendragon (Gabriel Byrne) em tornar-se rei, após obter a fabulosa espada Excalibur, das mãos da Dama do Lago. Ao alcançar seu objetivo, ele apenas troca uma obsessão por outra: Uther deseja Igraine, a esposa do homem que antes foi seu aliado em batalha. Fazendo um pacto com o mago Merlin (Nicol Williamson), e com o demoníaco dragão que lhe fornece poder, Uther tem uma noite fugaz de amor com Igraine enquanto seu marido cai morto no campo de batalha. Mas, Merlin volta, nove meses depois, para cobrar a dívida pelo favor prestado, e seu preço é Arthur, o recém-nascido, fruto daquela mesma noite. Uther arrepende-se do pacto, mas é interceptado por inimigos de seu reino antes de alcançar Merlin. Eles matam Uhter, que antes de cair crava a espada Excalibur em uma pedra, impedindo qualquer de empunhá-la (numa cena fantástica, bem feita, bem filmada, bem dirigida e bem interpretada). 
A trama avança, assim, algumas décadas e, na segunda parte, encontraremos Arthur (Nigel Terry) já rapaz, trabalhando como escudeiro para o filho de seu pai adotivo (Merlin entregou-o para que um camponês o criasse). Acidentalmente, Arthur remove a espada da pedra, tornando-se rei. 
Nos anos por vir ele se apaixonará pela bela Guinevere (Cherie Lunghi), a filha de um de seus maiores aliados, consolidará seu castelo, unificará seu reino, em Camelot, e criará a Távola Redonda, em homenagem à honra que une seus cavaleiros. Mais tarde, Arthur conhecerá Lancelot (Nicholas Clay), nobre cavaleiro cuja honradez em combate irá surpreender o próprio Arthur. Após uma breve contenda, eles tornar-se-ão amigos, porém, numa reviravolta do destino, Lancelot e Guinevere se apaixonarão, traindo Arthur e deixando o reino de Camelot à mercê dos feitiços malignos da vingativa meia-irmã de Arthur, a bruxa Morgana (Helen Mirren). Uma época negra que somente a descoberta do Santo Graal irá dissipar. 
Mesmo a mais elaborada sinopse talvez não dê conta da complexidade à que “Excalibur” consegue chegar. Seus personagens são multifacetados, e isso é maravilhosamente refletido no trabalho minucioso do elenco. Também é digna de aplausos a direção de John Boorman que emprega uma sucessão de decisões brilhantes nesta sua versão tão pessoal da lenda. A primeira delas é certamente a de jamais render-se a uma tendência comercial (na qual, sem dúvida, as cenas de sangue ou de nudez seriam sensivelmente reduzidas, além do conteúdo bastante dramático e trágico da história); a segunda, é adotar o tom ímpar que adotou, o de em princípio, desmistificar a lenda (infligindo reações muito humanas e ambíguas em seus personagens) o quê termina apenas por valorizá-la; e a terceira é finalmente colocar alguns dos mais brilhantes atores britânicos para vivenciá-los, como Hellen Mirren (bonitona pra caramba!) como Morgana, ou Gabriel Byrne com Uther Pendragon, há até mesmo um jovem Liam Neeson e um ainda desconhecido Patrick Stewart (porém a grande presença vem a ser mesmo Nicol Williamson, esplêndido num registro desigual de Merlin). 
Uma das grandes obras de fantasia do cinema.