Mostrando postagens com marcador Hayley Atwell. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hayley Atwell. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de junho de 2025

Missão Impossível - Acerto Final


 Este oitavo longa-metragem da franquia cinematográfica estrelada e produzida por Tom Cruise foi alardeado como o último da série e, de fato, um elemento que se sobressai constantemente na narrativa é o senso de urgência e de encerramento que o diretor Christopher McQuarrie habilmente imprime, a todo o momento –ele faz questão de lembrar ao público que as aventuras de Ethan Hunt (o protagonista vivido por Cruise à cerca de três décadas) estão chegando ao seu fim. Com efeito, “Acerto Final” é também uma recapitulação e uma reafirmação de todo o legado deixado por essa série. Na trama sempre intrincada, concebida aqui pelo diretor McQuarrie em parceria com Erik Jendresen, encontramos referências à praticamente todos os filmes anteriores: O hoje clássico “Missão Impossível” original é lembrado na constante menção à memorável cena em que Ethan Hunt invade um escritório ultra-confidencial da CIA pendurado em cabos (inclusive, um personagem importante dessa sequência é recuperado aqui), e até mesmo no reaproveitamento de Jim Phelps (vivido por Jon Voight) relembrado por meio de uma profunda ligação com outro personagem. O misterioso elemento Pé-de-Coelho, jamais devidamente explicado em “Missão Impossível 3” ganha finalmente uma razão de ser. Tudo isso e mais diversas citações, alusões e recordações de personagens mais ou menos importantes que participaram de todos os filmes.

“Acerto Final” começa, como se esperava, pegando o gancho do filme anterior, “Acerto de Contas”, no qual Ethan Hunt e sua equipe precisavam encontrar uma Chave parte de um aparato que pode neutralizar o perigo representado por uma poderosa inteligência artificial, A Entidade. Agora, a situação se acirrou ainda mais: Valendo-se de um controle tentacular e insidioso a nível mundial, a Entidade criou conflitos ao redor de todo o mundo, mergulhando a civilização em caos. Para piorar, seu sistema começou um processo gradual onde está assumindo o controle de todo o armamento nuclear das potências militares espalhadas pelo mundo. A previsão é que a Entidade consiga acessar todas as ogivas atômicas em quatro dias –e quando o fizer, ela fará com que os países ataquem uns aos outros, provocando consequentemente a extinção da raça humana.

Enquanto esse impasse só se agrava, Ethan Hunt se encontra foragido: Tendo obtido a Chave à duras penas no filme anterior, Ethan precisou sacrificar colegas (como Ilsa, vivida por Rebecca Fergunson) e se voltar contra seus superiores da Impossible Mission Force (personafinicados no personagem de Henry Czerny, também ele oriundo do primeiro “Missão Impossível”). E agora recebe um pedido diretamente da presidente dos EUA, Erika Sloane (Angela Basset, sempre magnânima), outrora a diretora da CIA em “Efeito Fallout

A missão de Ethan, como sempre, acaba sendo espinhosa: Ele tem o prazo desses quatro dias para convencer oficiais da marinha americana à levá-lo até os recôncavos mais longínquos da calota polar no Ártico, onde um submarino americano encalhou anos atrás (isso foi visto no prólogo de “Acerto de Contas”), lá a Entidade tratou de selar um dispositivo capaz de eliminá-la. Sem garantia nenhuma de que tal empreitada lhe oferece a chance de voltar com vida (e o roteiro astuto de McQuarrie não se cansa também de plantar sucessivos empecilhos para seu sucesso), Ethan ainda precisará rastrear seu nêmesis pessoal, Gabriel (Esai Morales) de posse de outro dispositivo que, combinado com o McGuffin obtido no submarino naufragado será capaz de pôr fim ao perigo da Entidade –no entanto, Gabriel deseja tirar de Ethan esse dispositivo a fim tentar, em vão, controlar a própria Entidade.

Para tentar concluir esse objetivo, Ethan conta com um grupo forjado meio ao acaso que inclui seu amigo Benji (Simon Pegg), a assassina francesa Paris (Pom Klementieff, de “Guardiões da Galáxia Vol. 3”), o agente Degas (Greg Tarzan Davis), e a habilidosa prestidigitadora Grace (Hayley Atwell, de “Capitão América-O Primeiro Vingador”).

Em sua quarta direção dentro da série “Missão Impossível” –que a partir de “Nação Secreta” ele praticamente ajudou a consolidar como a brilhante cinessérie que é –Christopher McQuarrie realiza um trabalho formidável dentro de um contexto que, à essas alturas, ele conhece como a palma da mão: Essa compreensão instintiva da narrativa, dos meandros da trama e dos maneirismos dos personagens resulta numa obra grandiosa, bem acabada, feita com profissionalismo e, vez ou outra, capaz até de emocionar.

domingo, 9 de julho de 2023

Missão Impossível - Acerto de Contas Parte 1


 Há quase três décadas atrás (vinte e sete anos, para ser mais exato), o astro Tom Cruise debutou como produtor tentando transpor um conceito de série de TV para o cinema. Hoje, sete longa-metragens depois, podemos dimensionar os frutos rendidos por sua tenacidade. Ainda que hajam exemplares oscilantes em qualidade (tal qual o segundo filme), e que, deveras, os acertos mais expressivos tenham demorado a chegar (sendo “Protocolo Fantasma” o momento em que isso finalmente aconteceu), a franquia entrou nos eixos de fato com a adição do diretor e roteirista Christopher McQuarrie ao projeto (em “Nação Secreta”). Até então um realizador subestimado (a despeito do Oscar de Melhor Roteiro Original por “Os Suspeitos”) e relegado pelos estúdios à ingrata tarefa de polir roteiros produzidos por terceiros, McQuarrie caiu nas graças de Tom Cruise quando se conheceram no set de “Operação Valquíria”, mais tarde trabalhando juntos no ótimo “Jack Reacher-O Último Tiro”. McQuarrie passou a integrar o, digamos, time de confiança de Tom Cruise, e a trabalhar com ele em praticamente todos os seus projetos –é dele, por exemplo, o excelente roteiro para “Top Gun-Maverick” –e tornou-se oficialmente o capitão da franquia “Missão Impossível”. Seu talento e habilidade moldaram em “Nação Secreta” uma obra pulsante sobre as verdades e mentiras do mundo da espionagem e, no longa-metragem seguinte, “Efeito Fallout”, um tratado de cinema tanto dramático quanto cinético sobre as consequências de não se tolerar o sacrifício de um amigo em ação. Hoje, é seguro afirmar, toda uma nova geração de expectadores cresceu testemunhando a exuberância de “Missão Impossível” como uma franquia inquestionavelmente cinematográfica –e certamente, muitos nem sabem que tudo começou com um seriado até bem modesto dos anos 1960.

Agora, contudo, chegou a hora de Tom Cruise e Christopher McQuarrie darem sua cartada final. Prepararem o palco para uma despedida em grande estilo, conscientes talvez de que não é possível contar aventuras de Ethan Hunt (personagem de Cruise) para sempre –o astro, é bom lembrar, já está com 61 anos.

A trama concebida por McQuarrie (sempre um entusiasta apaixonado e hábil de enredos intrincados, perfeitos ao gênero de espionagem) para tal despedida é rocambolesca, povoada de personagens dotados das mais variadas motivações (e algumas ainda mudam ao sabor das circunstâncias!), cheias de surpresas de última hora, guinadas improváveis e/ou inesperadas e um esperto componente de paranóia bastante característica desses novos tempos: Em meio a discussões sobre um advento inesperadamente incontrolado da tecnologia de ponta, o grande vilão de “Acerto de Contas Parte 1” é uma Inteligência Artificial.

Criado inicialmente como um formidável algoritmo para manejo de informações nas redes sociais pelos centros mundiais de inteligência, o programa denominado ‘A Entidade’ se aperfeiçoou de tal forma em meio às vastas possibilidades da internet que acabou criando autonomia própria e tornou-se perigoso demais. Na surdina, as grandes potências mundiais (entre as quais, é claro, os EUA) querem mobilizar agentes para encontrar assim as duas partes do que seria um mecanismo conhecido como ‘A Chave’ capaz de desligar a ‘Entidade’ ou (como eles preferem) controlá-la. O agente de campo mais próximo de concluir tal façanha aparentemente é Ethan Hunt, membro da IMF (Impossible Mission Force), cujo senso moral e considerável independência operativa ordena que a ‘Entidade’ seja destruída imediatamente.

E é nesse ponto –ainda nos primeiros quinze minutos dos sensacionais cento e sessenta e três minutos de filme –que a obra de McQuarrie engata uma nova marcha e complica consideravelmente a vida de nossos heróis: Cegos para o perigo da ‘Entidade’ e unicamente interessados no poder abrangente de controle sem precedentes de dados digitais que ela oferece, o Diretor de Inteligência Americana (Cary Elwes, de “Tempo de Glória”) e o diretor adjunto da própria IMF (Henry Czerny) renegam Hunt e seu grupo –formado pelos agentes de campo Luther (Ving Rhames) e Benji (Simon Pegg), além do constante auxílio da agente britânica Ilsa (a sempre maravilhosa Rebecca Fergunson) –e despacha um novo grupo na sua cola, comandados pelo nada amistoso e muito truculento Jasper (Shea Whigham, de “O Lado Bom da Vida” e “O Abrigo”).

Entretanto, aqueles que de fato dificultam a situação de Hunt são a jovem prestidigitadora Grace (a linda e fulgurante Hayley Atwell) imbuída do talento para deixar o Agente Hunt para trás, à serviço da tentacular e manipuladora Allana Mitsopolis (a fantástica Vanessa Kirby), e o misterioso e perigoso Gabriel (Esai Morales, de “Rapa Nui-Uma Aventura No Paraíso”), agente sombrio e assassino, grande responsável pela tragédia que empurrou em definitivo Ethan Hunt na vida de agente secreto.

Tantos personagens a ir e vir, e a enganar uns aos outros (muitas vezes numa profusão vertiginosa que deliberadamente engana o próprio público) poderia representar uma verdadeira armadilha para um realizador mais despreparado, mas, McQuarrie usa a abusa do talento mais que comprovado que ele ostentou nos dois últimos longas da franquia e transforma “Acerto de Contas Parte 1” numa obra-prima do entretenimento hollywoodiano. Seu filme tem relevância, autenticidade, competência técnica e arrojo artístico em níveis que muitos críticos duvidavam ser capazes de serem atingidos por uma superprodução atual. Os quarenta minutos finais trazem uma sucessão de cenas de ação e suspense que farão qualquer expectador grudar na poltrona, e ainda compõem uma espirituosa referência ao clímax à bordo de um trem do primeiro “Missão Impossível” –é, no entanto, preciso alertar os mais ansiosos: Como já é sugerido em seu título, “Acerto de Contas Parte 1” deixa margem para a vindoura “Parte 2”, terminando com um instigante sabor de ‘quero mais’, tal e qual “Duna-Primeira Parte” e “Homem-Aranha Através do Aranhaverso”, só para citar os exemplos mais recentes.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Doutor Estranho No Multiverso da Loucura


 Nos quadrinhos, as inúmeras tramas paralelas que se sucedem e que convergem, muitas vezes, aos mesmos personagens, ambientes e situações raramente acabam despertando nos fãs a minúcia para encontrar detalhes contraditórios ou erros de continuidade. É curioso, pois que, em sua bem-sucedida tentativa de levar esse mesmo status narrativo ao cinema, a Marvel Studios, volta e meia, se defronte com esse problema: Fãs, um tanto quanto chatos e minimalistas, apontando esta ou aquela imperfeição nas amarras de suas histórias.

Já contando mais de vinte produções em sua filmografia –além de algumas séries! –a Marvel começa a enfrentar esta e outras velhas questões, já antigas nos quadrinhos, a respeito de quanto material o expectador deve assim ter conhecimento para compreender na íntegra o filme que irá ver no cinema. E a verdade a ser encarada, hoje, é que... não, não há como assistir a tudo, saber de tudo, ter conhecimento de tudo. E, se esse é um fato bem aceito aos leitores de quadrinhos, com o tempo, os expectadores de cinema, ainda que bem mais exigentes, terão de aceitar também.

Tomemos “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura” como exemplo. A princípio, as maiores referências adotadas em sua trama são o filme “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, com participação do Dr. Estranho (o ótimo Benedict Cumberbatch) e do qual é continuação quase direta, a série “WandaVision” que, em função da participação fundamental de Wanda Maximoff (a sensacional Elizabeth Olsen), acaba também dando continuidade à sua trama, e a série “Loki”, cuja abordagem do Multiverso, ainda que indiretamente, influencia todos os desdobramentos que veremos neste filme; e não tenha dúvidas, em outros projetos futuros também! Há também de se considerar o primeiro “Doutor Estranho” –a introdução, afinal, de muitos dos personagens presentes aqui –e o próprio “Vingadores-Ultimato” –ponto crucial para quase todas as histórias desenvolvidas pela Marvel daqui para frente –mas, a verdade é que, dentro em breve, será impossível acompanhar a tudo.

Como ocorre nos quadrinhos, meu conselho é o expectador  desencanar e curtir a viagem, aproveitar a trama, construída pelos roteiristas a fim de ser o mais satisfatória possível bastando em si mesma, mas certamente dependente (e referente) a várias outras vindas antes e depois. Os enredos da Marvel Studios serão, assim, uma miríade de narrativas que acontecem para frente (os filmes vindouros), para trás (os filmes que já foram feitos) e para os lados (alguns casos de obras que se passam quase simultaneamente aos eventos deste), e aos poucos, se não foram todos conferidos, com tempo, haveremos de descobrí-los.

“Multiverso da Loucura” traz Stephen Strange às voltas com uma jovem literalmente única: America Chavez (a carismática Xochiti Gomez) dotada do raro poder de teleportar-se entre uma realidade paralela e outra. Tal poder a torna alvo de ninguém mais, ninguém menos que Wanda, a Feiticeira Escarlate, que desde os eventos atribulados de “WandaVision” –onde sequestrou toda uma cidade para criar uma ilusão feliz onde vivia ao lado do trágico Visão (Paul Betany) e de seus dois filhos pequenos, materializados pelo poder incomensurável de sua magia –almeja pegar os poderes de America para si a fim de reaver seus filhos perdidos, nem que seja tirando-os de outra realidade alternativa.

Na batalha que se segue, Estranho é obrigado a valer-se inadvertidamente dos poderes de America –os quais ela não sabe controlar –e pular para outros universos, tentando escapar de Wanda.

Astuta que só, a Marvel Studios vale-se desse mote para presentear os fãs com momentos vibrantes e referências a outros personagens, numa manobra um pouco parecida com a aparição-surpresa de Andrew Garfield e Tobey Maguire em “Sem Volta Para Casa”. Uma dessas surpresas –só para ficarmos naquelas que os expectadores já tinham ideia de antemão –é a presença de Charles Xavier (Patrick Stewart), o Professor X, anunciando que, em algum lugar do horizonte, os X-Men estão bem próximos de aparecer no Universo Marvel.

E quanto ao filme em si? Embora inquieto, envolvente, visualmente esplendoroso e tecnicamente impecável, é necessário guardar as devidas proporções ao apreciarmos “Multiverso da Loucura”, sobretudo tendo como expectativa os incondicionalmente arrebatadores “Vingadores-Guerra Infinita” e “Ultimato”. A Marvel, como foi dito em outras ocasiões, estabeleceu com com esses dois trabalhos, um patamar tão alto que representa um desafio, e um empecilho, para todas as produções que vieram depois deles igualar tamanha excelência. E com “Multiverso da Loucura” não é diferente. A saída, um tanto brilhante, da Marvel Studios aqui é focar na diferenciação; este novo filme estrelado por Stephen Strange é, pela primeira vez no UCM, um filme de terror, cortesia da desenvoltura de gênero do diretor Sam Raimi, substituindo o diretor anterior, Scott Deriksson (aqui como produtor executivo). De um estilo forte e personalíssimo –o que curiosamente não colide com as predisposições muito comerciais da Marvel –Raimi (que realizou, além dos cultuados filmes de série “Evil Dead”, a “Trilogia Homem-Aranha” com Tobey Maguire e o primeiro “filme-quadrinho” da era moderna, “Darkman-Vingança Sem Rosto”) acrescenta à narrativa os elementos que tanto ama trabalhar, como os movimentos inusitados de câmera, os jump-scares, e o apreço por ícones tenebrosos como zumbis (o desfecho final é impagável!), olhos fulgurantes de possessão (Elizabeth Olsen, grande atriz, consegue ficar assustadora apesar da grande beleza) e um senso de humor muito peculiar a temperar toda essa morbidez.

A assinatura de Raimi, assim sendo, é nítida e constante neste filme, embora ele seja, nítida e constantemente, um filme também da Marvel Studios.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O Sonho de Cassandra


Sempre envolvente, esta obra pertence àquela segunda vertente de filmes que Woody Allen logrou ao longo de sua carreira, em contraponto às suas comédias sobre neuroses e relacionamentos humanos –aquelas realizações mais sérias de orientação quase hitchcockiana das quais o exemplar recente mais cultuado é provavelmente “Match Point-Ponto Final”.
Dele, “O Sonho de Cassandra” empresta também sua ambientação e cenário, Londres.
Os Irmãos Blaime, Ian e Terry (Ewan McGregor e Colin Farrel, intérpretes adequados) surgem na primeira cena cobiçando um barco ao qual, depois da compra, dão o nome de “Sonho de Cassandra” –a cobiça é apenas o primeiro dos pecados capitais que pontuam a trajetória dos protagonistas.
Há a vaidade –na soberba da mãe quando continuamente elogia o sucesso do irmão Howard (Tom Wilkinson), sobretudo, em comparação à mediocridade crônica do resto da família –a luxúria –quando Ian, que trabalha num modesto restaurante com o pai, almeja ambições maiores e, num reflexo disso, se envolve com uma atriz inglesa (Hayley Atwell), o que o obriga a manter as aparências de um luxo ostensivo –e a inveja –por meio da qual, Terry cede ao vício da jogatina que, no início, lhe permite mais dinheiro do que tem, mas depois, o leva a contrair um dívida alta e perigosa com inescrupulosos agiotas para desespero de sua esposa (Sally Hawkins).
A ira, de uma certa maneira, surge na figura do próprio Tio Howard, enxergado muitas vezes como a solução para a maioria dos problemas da família, devido à sua riqueza. Howard só tem um empecilho: Se consome de ódio por uma testemunha que pode entrega-lo a justiça por ações ilícitas –e que pode colocá-lo atrás das grades!
O acordo, em princípio, é simples: Ian e Terry poderão dar cabo do indivíduo (no caso, mata-lo), e assim Howard quitará a dívida de Terry, e irá investir em todos os planos grandiosos de Ian.
Eis, pois, o thriller hitchcockiano que Woody Allen monta amparado em paradigmas das tragédias clássicas, e que ruma da direção da ilusão do crime perfeito, cujos detalhes insistem em provar o oposto. De modo desengonçado, mas obstinado, Ian e Terry cometem o homicídio, apesar de todos os percalços agonizantes de quem nunca experimentou algo assim. Nos dias que se seguem, entretanto, a reação dos irmãos é diferente: O ambicioso Ian procura seguir sua vida, adequando-se cada vez mais ao meio de vida da namorada, enquanto que o proletário Terry se descobre consumido pela culpa –a memória do crime não lhe abandona em momento algum, atormentando-o e até mesmo tirando-lhe a sanidade.
Quando Terry começa a se tornar perigoso demais para os planos de Ian e do próprio Howard, uma atitude drástica é cogitada –e Ian pode ter de executá-la num mero passeio ao lado do irmão, a bordo do próprio “Sonho de Cassandra”.
O desenvolvimento da premissa, orientado por influências literárias e culturais que Woody Allen trabalha desde o início de sua carreira, pode soar anacrônico aos expectadores habituados com as obras de suspense com características mais modernas, no entanto, há extremo profissionalismo no modo com que é narrado este conto moral sobre escolhas éticas tão sombrias quanto irreversíveis.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

A Duquesa


A atriz Keira Knightley se tornou assídua em filmes de época, provavelmente devido ao positivo êxito de “Orgulho e Preconceito” –pelo qual ela até foi indicada ao Oscar.
Pois, aqui está ela de novo, contribuindo com seu carisma (inabalável), sua beleza (inconteste) e seu talento dramático (claudicante...) para mais uma produção desse gênero.
Keira é Georgiana, garota que, como muitas das jovens nos idos de 1774, foi negociada pela família em casamento. Mas, não um casamento comum –ela casou-se com a Majestade da Inglaterra, o Duque de Devonshire em pessoa (vivido com a perícia habitual por Ralph Fiennes).
Como de praxe, a função primordial de Georgiana é gerar um herdeiro homem para o Duque, o quê, nos anos que se seguem, não vem a acontecer: Georgiana dá à luz apenas a meninas.
As ocasionais escapadas extra-conjugais do Duque também não ajudam em nada à situação de Goergiana. É quando então ela encontra na aristocrata Bess Foster (Hayley Atwell, de “Capitão América”) a amizade e o apoio para superar seu dia-a-dia. Todavia, Bess torna-se, também ela, amante do rei –e, sendo mãe de três meninos negligenciados pelo pai, lhe toma boa parte da importância doméstica no palácio.
Na frustração da aridez afetiva que encontrou no casamento ou  na quase circunstância de aprisionamento que descobriu em sua condição de realeza, o filme do diretor Saul Dibb não disfarça a mais evidente de todas as analogias que quer estabelecer: Na dicotomia central em que observa Georgiana como uma aristocrata amada pelo povo (tratada inclusive como celebridade, tendo a capacidade de lançar moda entre seus súditos) e repudiada por sua classe (e especial o marido que dedica a ela –e a quase tudo o mais –uma indiferença lancinante), o paralelo com a trajetória e os percalços da Princesa Diana é mais do que claro.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Capitão América - O Soldado Invernal

Vinda de uma sucessão bastante impressionante de sucessos de crítica e de bilheteria, a Marvel Studios, assim como o público, via uma incógnita em “Capitão América-O Soldado Invernal”.
A razão era de natureza humana: Como membro mais íntegro dos vingadores, o Capitão América corria o risco de ser visto como um personagem de valores antiquados pelos acelerados e desprendidos expectadores de blockbusters atuais, tão afeitos aos anti-heróis da moda. Afinal de contas, o primeiro filme do Capitão América, que funcionou às mil maravilhas, era, ele próprio, ambientado na Segunda Guerra Mundial, contextualizando assim todas as características “à moda antiga” do herói: Era um filme de época.
Na sequência, o Capitão funcionou também no filme dos Vingadores, já arremessado para os dias de hoje, mas ali, ele era um membro de toda uma equipe, numa trama que balanceava as diferenças e idiossincrasias uns dos outros (afinal, lá estavam também o Hulk e o Thor, só para citar alguns exemplos).
O segundo filme era, portanto, o primeiro no qual Steve Rogers seria o protagonista de um trama inteiramente passada nos tempos atuais.
Para a empreitada, a Marvel ainda fez uma escolha curiosa: os irmãos diretores Anthony e Joe Russo, cujo filme mais conhecido era a mediana comédia “Dois é Bom, Três É Demais”.
Era, de certa forma, um risco. Como eles fariam, afinal de contas, um personagem como o Capitão América soar relevante e interessante em uma época tão cínica como a nossa?
A genial resposta que eles deram em “Capitão América-O Soldado Invernal” era: Não mudando absolutamente nada!
Explica-se: Num longa-metragem realizado nos moldes dos bons filmes de espionagem, onde não se podia confiar em praticamente ninguém, a presença de um protagonista transparente e íntegro como o Capitão América acabava sendo a âncora perfeita na qual a platéia podia se segurar.
E que filmaço de espionagem eles fizeram!
Trabalhando como um agente de campo da S.H.I.E.L.D. em Washington depois dos acontecimentos ocorridos em “Os Vingadores”, Steve Rogers caminha a passos largos para elucidar uma conspiração após um atentado à vida do diretor Nick Fury. O quê ele descobrirá é inclusive de nível pessoal: A Hidra, organização criada pelo Caveira Vermelha, está inflitrada na S.H.I.E.L.D. e um de seus mais preciosos operativos vem a ser o Soldado Invernal, identidade secreta de seu grande amigo Bucky, que ele considerava morto.
Revelando uma solidez narrativa das mais surpreendentes, os Irmãos Russo enfatizaram todos os aspectos que já sabiam funcionar: A atuação certeira de Chris Evans como Capitão América, sua química com Scarlett  Johansson (que aliás é uma das melhores coisas do filme!), e a diversidade e sinergia do Universo Marvel Cinematográfico.
Eles também deram uma contribuição inestimável: Um tom sombrio acachapante, um enfoque mais realista, fazendo do Capitão América uma espécie de “Jason Bourne da Marvel”, e ainda trouxeram para o elenco a presença mais do que significativa de Robert Redford.
O resultado é o melhor filme da Marvel Studios até então, e um longa de super-heróis que rivaliza em pé de igualdade, com qualidade e mérito com aquele considerado a melhor adaptação de HQ do cinema, o também realista “Batman-O Cavaleiro das Trevas”. 

domingo, 24 de abril de 2016

Capitão América - O Primeiro Vingador

Um dos mais saborosos filmes produzidos pela Marvel Studios é o do Sentinela da Liberdade. Há nele um charme todo especial, muito advindo da bela ambientação retrô dos anos 1940, que lhe dá um clima de filme de matinê. Some a isso o trabalho apaixonado e apropriado do diretor Joe Johnston (de "Querida, Encolhi As Crianças", "Jumanji" e "Rocketeer") que, como dá para perceber, é muito bom em resgatar esse tipo de nostalgia.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o franzino Steve Rogers (Chris Evans, ótimo no papel) pena para conseguir ser aceito no exército americano. Quando isso ocorre, ele passa a integrar um misterioso projeto que visa criar uma espécie de supersoldado: Em uma complicada experiência, seu corpo é anabolizado e ele torna-se forte e ágil.
De início usado como garoto-propaganda para os EUA, o Capitão América (como passa a ser chamado) logo integra as frentes de batalha, tornando-se fundamental na luta contra os nazista, sobretudo, contra os planos maléficos do Caveira Vermelha (Hugo Weaving, sempre fantástico interpretando vilões).
"Capitão América-O Primeiro Vingador" compõe a primeira leva de filmes da Marvel Studios, a chamada Fase 1, que culminou com o filme dos Vingadores, onde todos os heróis apresentados até então foram reunidos. Dentre todos, "Capitão América" foi o que mais demorou, e não é para menos: O estúdio sabia que um personagem como ele -em princípio, de valores tão antiquados -precisava de um cuidado todo especial para chegar às telas de cinema.
O resultado, feito com cuidado, critério e minúcia, é excelente.

domingo, 26 de julho de 2015

Homem-Formiga

A Marvel se sai maravilhosamente bem naqueles filmes em que o público a subestima.
Explico: Em “Guardiões da Galáxia”, por exemplo, no qual muita gente torcia o nariz para um filme protagonizado por uma árvore que se mexia, ou por um guaximim falante, personagens nem um pouco conhecidos do grande público, eles foram lá e entregaram uma de suas melhores produções.Um sucesso esmagador de bilheteria, e de crítica, também.
Hoje, é até estranho lembrar que, antes de 2011, muita gente tinha o pé atrás em relação ao projeto de Os Vingadores.
"Tantos personagens?" "Como farão para que tudo funcione?" "Não vai ser confuso?"
O resultado, todo mundo sabe, foi um fenômeno de bilheteria, e também, um dos filmes de maior qualidade do estúdio.
Quando a Marvel lida dentro de sua zona de conforto, porém (leia-se, continuações de seus sucessos) a coisa normalmente soa um pouco preguiçosa (ainda que, até hoje, a Marvel jamais tenha entregue um filme realmente ruim): “Homem de Ferro 2” e 3, “Thor-O Mundo Sombrio”, e até mesmo o eficiente, ainda que não completamente satisfatório, “Vingadores-A Era de Ultron”.
Daí, temos este “Homem-Formiga”, que só vem reforçar essa teoria, uma vez que trata-se de um herói pouco conhecido fora do meio dos quadrinhos, mas que termina sendo um dos mais mais vibrantes e empolgantes trabalhos do estúdio.
Como em “Homem de Ferro”, a química do elenco funciona incrivelmente bem (escolhas como Paul Rudd, Evangeline Lilly e até Michael Douglas, revelam-se certeiras!), como em Vingadores, a dicotomia entre o ritmo da trama e das cenas de ação é prazeroso. E assim como em Guardiões da Galáxia, aqui, a Marvel encontra um equilíbrio entre o humor, a seriedade e a ação que torna a trama e os personagens, apaixonantes.
Seríssimo candidato a melhor do ano.