Mostrando postagens com marcador Michael Douglas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Michael Douglas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Homem-Formiga e A Vespa - Quantumania


 O despachado Scott Lang (Paul Rudd, absoluto no papel) tem o poder de (na maioria das vezes) diminuir e (ocasionalmente) crescer, e ficar gigante. Na proposta peculiar de seus poderes e no temperamento resiliente e bem-humorado para com os revezes caóticos que cercam sua vida e sua família, Scott –ou, mais precisamente, Homem-Formiga –resume à perfeição os tópicos que nortearam o Universo Marvel, seja nos quadrinhos ou no cinema: Um herói imperfeito, muito longe de ser capaz de integrar o Panteão dos Deuses, a espelhar com descontração e espirituosidade, o próprio expectador. No terceiro longa-metragem que ganhou para si, “Homem-Formiga e A Vespa-Quantumania”, Scott já chega de uma jornada tumultuada e particular vinda de outros dois filmes (nos quais foi introduzida a mitologia por trás de seus poderes, no primeiro; e os potenciais desdobramentos a envolver o tal Reino Quântico, no segundo), e finalmente, de todo um esforço narrativo que o atrela ao Universo Marvel Cinematográfico do qual sempre fez parte, continuando, por sua vez, de onde herói parou em sua última aparição, o extraordinariamente marcante “Vingadores-Ultimato”.

Assim, na sua capacidade de crescer e diminuir, Scott é uma alegoria ambulante, falante e saltitante da capacidade muito humana de se desvencilhar dos problemas e dar a volta por cima –e tantos são os tópicos com os quais o bem-intencionado diretor Peyton Reed tem de lidar que ele já deixa, no início do filme, essa analogia completamente explícita ao público, no monólogo inicial do personagem, acompanhado de uma entrevista para a divulgação de um livro que ele mesmo escreveu: Ex-presidiário, ex-ladrão e outrora negligente pai de família, Scott tomou caminhos tortuosos que o fizeram um dos Vingadores e um dos vários heróis responsáveis pelo salvamento do planeta Terra. Agora, a andar pela rua Scott recebe tapinhas nas costas e copos de café gratuitos... ele também teve sua vida amorosa endireitada, graças a inebriante presença de Hope Van Dyne (Evangeline Lilly), convertida na heroína Vespa durante o segundo filme.

A questão de ser pai negligente, contudo, foi um pouco mais difícil de ser superada: Ao perder o contato por cinco anos com a filha Cassie (Kathryn Newton, substituindo a jovem Emma Fuhrmann que viveu a personagem em “Ultimato”), por conta dos acontecimentos dos filmes anteriores, Scott viu a filha saltar de uma criança para uma jovem mulher, e agora procura recuperar o tempo perdido. Mas, Cassie tem muito do pai: Na melhor das intenções, envolve-se em encrencas das quais padece para sair. É assim que, um tanto quanto auxiliada pelo gênio do Dr. Hank Pym (Michael Douglas), ela desenvolve um aparelho de acesso ao Reino Quântico, o universo microscópico referenciado nos filmes anteriores do Homem-Formiga e que, em “Ultimato”, serviu para executar uma audaz viagem no tempo. Isso, entretanto, acende o alarme em Janet Van Dyna (Michelle Pfeiffer), mãe de Hope e esposa de Hank –ela esteve presa, por trinta anos, no Reino Quântico, antes de ser resgatada, e mantêm em segredo as turbulentas peripécias que lá vivenciou. Mal ela tem tempo para alertar os demais personagens disso e são todos eles –Scott, Cassie, Hope, Hank e Janet –sugados para dentro do Reino Quântico, onde todo o restante do filme se passará.

Cumprindo uma promessa que pairava no ar desde “Homem-Formiga e A Vespa”, o filme mostra que havia toda uma civilização, com fauna, flora e tecnologia, dentro do Reino Quântico, e como a maioria esmagadora de filmes comerciais a retratar um outro mundo, “Quantumania” tem por referência-mor o incontornável “Star Wars”, de George Lucas. É impossível não associá-lo em cenas como a da cantina espacial, ou quando o herói e sua filha encontram os rebeldes alienígenas daquele lugar retratados com uma imodesta proliferação de efeitos visuais.

O elemento que, de fato, vem a trazer uma certa relevância à “Quantumania” –relevância essa que, sejamos honestos, ficou faltando na maior parte dos filmes e séries da Fase 4 da Marvel –vem a ser seu antagonista, Kang, o Conquistador, interpretado com presença majestosa, sólida e fascinante por Jonathan Majors. E o roteiro (a cargo de Jeff Loveness) e a direção até que se empenham em sua apresentação: Um ser vindo das intermináveis realidades alternativas do Multiverso, Kang é mostrado inicialmente como alguém amigável, embora seja a sutileza percebida no temor incontido dos personagens coadjuvantes e de Janet que vá acrescentando pouco a pouco algum suspense em sua iminente aparição. A questão é que Kang deve ser o grande vilão a complicar a vida dos Vingadores no próximos filmes –como o foi Thanos (Josh Brolin) na saga anterior –e, para tanto, sua introdução aqui é realizada com cuidado, planejamento e perspicácia: Exilado no Reino Quântico (por quem, ainda não fica exatamente claro), Kang dispõe de tecnologia avançada e inigualável –com a qual foi capaz de conquistar todo aquele mundo paralelo –e só não partiu de lá com seus vastos e ameaçadores recursos porque um detalhe irrisório no núcleo de energia de sua nave o impede de fazê-lo. Detalhe este que os poderes miniaturizadores de Scott são capazes de resolver. A fim de convercer Scott a ajudá-lo, portanto, Kang aprisiona e ameaça a vida de Cassie, obrigando o Homem-Formiga a elaborar um arriscado plano para salvá-la e sair, com todo seu pessoal, do Reino Quântico.

Embora seja redundante afirmar, “Quantumania” entrega a mesma junção frenética, colorida e descontraída de ação vertiginosa, efeitos visuais vastos e comédia rasgada com a qual a Marvel Studios já acostumou seu público. O manejo bem azeitado de seus realizadores e algumas presenças genuinamente inspiradas de seu elenco (sobretudo, os sensacionais Paul Rudd e Jonathan Majors) o elevam num nível acima de produções recentes da Marvel como “Shang Chi e A Lenda dos Dez Anéis”, “Eternos” ou “Thor-Amor & Trovão”, mas ele padece de um tom demasiado infanto-juvenil que muito agrada ao diretor Peyton Reed (e somente a ele...) e seu desfecho pede por um pouco mais de contundência e menos do final feliz a la Disney como nos é tão desconfortavelmente imposto. No saldo final, felizmente, seu acertos acabam contando muito mais que seus erros.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Linha Mortal


 Lançado bem no início da década de 1990, quando o diretor Joel Schumacher ainda se achava hábil o bastante para acrescentar elementos supostamente experimentais numa obra comercial –como luzes difusas, ângulos de câmera diferenciados e modismos do período que nada mais eram do que isso, modismos –este “Linha Mortal” trazia o requinte de ser produzido por Michael Douglas que, antes de alcançar o estrelato como ator, chegou a conquistar o Oscar de Melhor Filme como produtor em “Um Estranho No Ninho”. Isso jogava expectativas elevadas num filme que nunca chegava a ser uma obra-prima, mas conseguia sempre manter-se interessante.

Na trama, um grupo de alunos, residentes de medicina –entre os quais, os ainda jovens Kevin Bacon, Julia Roberts (antes do sucesso de “Um Linda Mulher”), Oliver Platt e William Baldwin –embarcam no arriscado plano de um colega vivido por Kiefer Sutherland: Instalados de madrugada, num porão das dependências do campus, eles irão parar o coração de um deles com um desfibrilador (o primeiro voluntário, é óbvio, será o personagem de Sutherland), e após um curto intervalo, ressuscitá-lo valendo-se dos recursos médicos.

O que eles testemunham nesse intervalo pós-morte é registrado através de depoimentos. A cada tentativa, o período com o coração parado –mostrado no monitor cardíaco com uma linha reta ininterrupta, o chamado “Flatlinners” do título original –é maior e cada vez mais perigosamente próximo dos cinco minutos (quando a morte pode se tornar cerebral), e por conta disso, cada vez mais difícil de trazer a ‘cobaia’ de volta à vida.

Contudo, eles não voltam sozinhos: Passada a empolgação dos primeiros testes relativamente bem sucedidos –afinal, trouxeram todos de volta sem maiores contratempos ou efeitos colaterais –eles passam a serem procurados pelo que parecem ser fantasmas, aparições que muito se parecem com lembranças que eles guardam da infância. São, na verdade, os pecados em vida que eles expiarão após a morte, mas que, pela circunstância da experiência, os estão castigando ainda vivos.

Percebe-se aqui e, sobretudo, em projetos que ele entregou nas décadas seguintes, que Joel Schumacher é bom em perfumaria: Seus filmes têm ritmo, visual relativamente elaborado e, não raro, são cercados de uma premissa sempre instigante e promissora, entretanto, Shcumacher não sabe enfatizar os predicados sublimes dessa premissa se eles já não vierem completamente organizados no roteiro. Sua direção é empenhada no aspecto técnico e rudimentar no aspecto instintivo e artístico –os atores particularmente se incumbe de tipos caracterizados mais do que de personagens necessariamente humanos; temos o protagonista ambíguo de Kiefer Sutherland, a mocinha padronizada de Julia Roberts, o personagem íntegro, estóico e sólido (e, como tal, enamorado da mocinha) vivido por Kevin Bacon, o conquistador barato (e bota barato nisso!) de William Baldwin, além do coadjuvante para fazer volume de Oliver Platt –um papel que, na verdade, ele interpretou em quase toda sua carreira.

Diante dessas simplificações conceituais, que reduzem a curiosa e reflexiva observação do roteiro dos percalços possíveis do pós-morte a um conto de terror cada vez mais convencional e previsível, o filme de Schumacher deixa de ser aquilo que poderia –e que é sugerido em sua envolvente e promissora hora inicial –para tornar-se, ao fim, um passatempo característico.

A comprovação de uma certa qualidade lhe surgiu com tempo: Em 2017, ele recebeu uma refilmagem, intitulada aqui no Brasil de “Além da Morte”, onde as ideias presentes em sua trama eram ainda mais pasteurizadas e banalizadas.

Se jamais chega a ser espetacular, “Linha Mortal”, de Joel Schumacher, ao menos, tem do início ao fim, uma aura de curiosidade e originalidade que lhe dá certa dignidade (além de argumentos fortes e convincentes para hoje ser considerado um cult-movie), mesmo diante do lamentável fato de que nunca cumpre suas promessas.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Garotos Incríveis

O largamente saboroso roteiro concebido por Steve Kloves (diretor de “Susie & Os Baker Boys” e roteirista da maioria dos filmes de “Harry Potter”), adaptado do livro de Michael Chambon, acompanha três dias na vida do meio professor, meio escritor Graddy Tripp interpretado por Michael Douglas.
Como é um professor, Tripp fala de  seus alunos e suas histórias –como o desajustado e potencialmente genial James Leer (Tobey Maguire, antes de virar o “Homem-Aranha” pelas mãos de Sam Raimi); ou a sedutora Hannah Green (Katie Holmes, antes de virar a Sra. Tom Cruise e dele divorciar-se), jovem a um passo de virar seu flerte.
E, como também é escritor, Tripp narra o próprio filme que protagoniza ora em tom de comédia, ora em tom de drama –por vezes diante do dilema, um tanto batido mas aqui muito prazeroso e envolvente, de ter sido um escritor de sucesso às voltas com o fato de ser incapaz, no presente, de recriar as obras-primas que todos esperam dele .
Saído da batuta então em estado de graça do diretor Curtis Hanson (seu projeto anterior havia sido o aclamadíssimo “Los Angeles-Cidade Proibida”), “Garotos Incríveis” não tem uma trama que possa ser esboçada numa sólida sinopse propriamente dita: Com desembaraço e talento sem igual, ele acompanha uma sucessão de incidentes que têm como elemento fixo o protagonismo de Tripp e que, de um jeito ou de outro, representam algum abalo ressonante em sua vida pessoal, sejam as divertidas enrascadas que vão se somando graças à sua  imprevista amizade com James –como quando tentam ocultar o cadáver de um cachorro que fulminaram sem querer (!), perdem um casaco que pertenceu à Marilyn Monroe (!!) ou quando se deparam com o irreprimível e espalhafatoso editor de Tripp, Terry Crabtree (o sempre fantástico Robert Downey Jr.) –sejam os contratempos acarretados pela notícia da gravidez de Sara Gaskell (Frances McDormand), a mulher que ele ama (casada com o chefe de seu departamento!) e que espera um filho seu, mas cujo compromisso leva o imaturo Tripp a ter de confrontar-se com todo o narcisismo, a inconsequência e o comodismo que sua condição de astro literário possibilitou cultivar.
Personagem suculento e tão cheio de camadas e elementos a serem refletidos quando o Lester Burnham de “Beleza Americana” –outro grande filme sobre crise de meia-idade a sair por aqueles tempos –Tripp, em alguns momentos, parece espelhar o próprio Michael Douglas, na tremenda adequação que se percebe entre ator e personagem: Um festejado galã nos anos 1980 (além de filho da lenda Kirk Douglas), Michael Douglas, ao lado de personalidades como Al Pacino, Clint Eastwood e outros, adentrou a década de 2000, sob a sombra da ingrata necessidade de reinventar-se com a chegada evidente e irreversível da idade.
Demonstrando o mesmo bom gosto que sempre norteou sua postura e escolha de projetos a mantê-lo em relevância na ribalta, Douglas compreendeu intimamente e sem amarguras o ônus e o bônus da passagem do tempo, e imprime essas espirituosas considerações na inspirada interpretação que entrega aqui –e tão luminosa ela é que certamente foi uma das grandes injustiças da Academia não ter-lhe indicado ao Oscar de Melhor Ator naquele ano.
Graças a ele, ao maravilhoso elenco coadjuvante que o cerca e ao trabalho empolgante de Curtis Hanson, “Garotos Incríveis” é um filme desprovido de embates explosivos, de decibéis elevados e confrontos acalorados, em vez disso, é algo tocante e engraçado, feito de pura e simples maestria.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

A Sombra e A Escuridão

Em meados da década de 1990, era comum no sistema hollywoodiano empregar uma mescla de conceitos para se vender um filme –na verdade, tal prática ainda persiste, nos dias de hoje –por exemplo, a ficção científica “Vida” (de 2017) era um conceito que unia “Gravidade” e “Alien-O 8º Passageiro”, ou “Velocidade Máxima” (daquele período) trazia o conceito de “Duro de Matar” a bordo de um ônibus.
Embora sua notável premissa tenha o respaldo de ser baseado num surpreendente episódio real (conhecido nos livros de história como Os Leões de Tsavo), o filme dirigido por Stephen Hopkins (de “O Predador 2”) não deixa de ser, por assim dizer, um conceito: Une o suspense visceral em torno de uma fera assassina de “Tubarão” com uma ambientação de cinema clássico e vistoso, nos moldes de “Lawrence da Arábia” ou “Gunga Dim”.
Com efeito, “A Sombra e A Escuridão” também remete inadvertidamente ao Eco-Horror (onde os animais normalmente se voltavam contra o homem), um sub-gênero do terror que deixou de ser realizado com o politicamente correto.
1898. O engenheiro inglês John Patterson (Val Kilmer) é enviado para a África, continente no qual a Inglaterra, a Alemanha e a França disputavam uma espécie de corrida na ânsia por colonizar suas regiões inexploradas. Uma vez lá, a tarefa de Patterson –como bem lembra tão rudemente seu superior, vivido por Tom Wilkinson –é construir uma ponte que permita aos ingleses transpor as corredeiras do Rio Tsavo e assim avançar na sua disputa com os alemães e os franceses.
Contudo, Patterson encontra um obstáculo inesperado: Dois grandes leões passam a aterrorizar os trabalhadores locais, demonstrando comportamento absolutamente incomum para leões; atacam seres humanos (e não presas animais) sistematicamente, aparentando fazê-lo por esporte e não por fome; invadem os acampamentos ignorando vestígios deixados para espantá-los; sobem em árvores e exibem força, resistência, ferocidade e atrevimento fora do normal.
Quando o número de mortos pelos leões atinge o número de quatro dezenas, essas características desiguais levam as feras predadoras a ganhar uma aura lendária entre os trabalhadores –são chamados de a Sombra e a Escuridão –que ameaçam rebelar-se contra Patterson em função do medo.
Para auxiliá-lo é chamado o mais próximo que se pode chegar de um especialista numa situação dessas: O caçador irlandês Charles Remington (Michael Douglas, no único personagem fictício do filme) cujo instinto e as técnica audazes de caçada podem dar cabo de feras tão imprevisíveis.
Esteta de reconhecido capricho visual, Stephen Hopkins não resiste à tentação de referenciar o cinema ostensivo e épico da Velha Hollywood, que tem em David Lean seu nome maior; na bela fotografia do especialista Vilmos Zsigmond, no vasto aparato técnico da produção e até mesmo na atuação rica em teatralidade de Michael Douglas que recria trejeitos de uma escola mais antiquada de interpretação (o que o destoa de seus pares em cena), o diretor transforma “A Sombra e A Escuridão” numa obra cheia de charme devido aos elementos inusitados que agrega.
Pena que nem tudo sejam flores: O roteiro do prestigiado William Goldman (de “Butch Cassidy”, “Todos Os Homens do Presidente” e “Chaplin”) não encontrou o escritor em seus melhores dias e as situações que ele constrói, bem como os diálogos que escreve oscilam entre o medíocre e o inspirado. Sem falar que há algo de muito errado com um filme quando percebemos que sua melhor cena é o breve trecho de um sonho (!).

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Síndrome da China

Michael Douglas é indiscutivelmente famoso como ator, mas na verdade, ele começou a carreira na indústria cinematográfica como produtor –talvez, desejoso de afastar-se de comparações com seu fulgurante pai, o astro Kirk Douglas –até mesmo o Oscar de Melhor Filme ele já havia conquistado (pela produção de “Um Estranho No Ninho”, em 1976).
Em “Síndrome da China”, o Douglas produtor tenta conciliar o Douglas ator, marcando presença num dos personagens fundamentais da trama.
Parte dos politizados esforços de desarmamento que moveram muitos veículos de mídia daquele período, “Síndrome da China” é dirigido por James Bridges que, de mais evidência, fez os filmes “Cowboy do Asfalto” e “Perfeição”, nos anos 1980, ambos com John Travolta.
E, se estamos falando de um projeto politizado, acaba sendo até espontânea a presença da estrela Jane Fonda. Ela vive Kimberly Wells, uma repórter televisiva constantemente frustrada na emissora em que trabalha: Bela e ruiva, ela é vista por seus superiores como uma apresentadora perfeita para noticiários banais em apresentações musicais e zoológicos. O sonho de cobrir um furo jornalístico de relevância parece-lhe um tanto distante.
Contudo, durante uma matéria corriqueira ao lado do cameraman Richard Adams (Michael Douglas) na usina nuclear de Verdana, Kimberly testemunha um acidente prontamente sanado pela equipe de manutenção.
A câmera de Richard, contra as orientações da empresa, filma toda a comoção da equipe cujos rostos assombrados e exacerbados indicam que a ocorrência foi muito mais séria do que sugere as atenuantes versões oficiais.
De seu lado, Kimberly e principalmente Richard, de natureza ativista e inconformista, tentam superar os inúmeros obstáculos para expor a verdade que aconteceu na usina nuclear.
Do outro, o veterano técnico Jack Godell (Jack Lemmon, fabuloso) descobre alarmantes indícios de que as certificações de segurança baseada nas quais a usina opera foram forjadas, ou seja, o funcionamento dos reatores nucleares pode acarretar uma catástrofe irreversível que os especialistas chamam de Síndrome da China.
Mais que uma realização brilhante de cinematografia (objetivo que ele atinge em partes), o filme de Bridges, em sua posição de denúncia, se faz notável pelo grau profético obtido por seu roteiro: Pouco depois de seu lançamento ocorreu o vazamento radioativo na usina nuclear de Three Miles Island, nos EUA, e logo mais tarde, deu-se o de Chernobyl, na União Soviética.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Atração Fatal


Muitos mestres já mostraram que a psicopatia é tão mais assustadora e alarmante quando se manifesta dentro de nossos lares.
Hoje pode parecer lugar comum, mas em 1985 era um tanto inesperada a ideia de que uma psicopata pudesse ser a própria amante –e com um conceito assim tão simples (porém, realizado com brilhantismo), o filme do inglês Adrian Lyne se colocou entre os clássicos do período.
Dan Gallagher (Michael Douglas, um ator que espertamente se envolve em projetos de saudável ousadia) é um homem bem casado com uma esposa bela e carinhosa (Anne Archer) e pai de uma garotinha. A estabilidade familiar não parece ser pretexto para que, quando se vê sozinho em casa num fim de semana, ele deixe de flertar com Alex Forrest (Glenn Close, espetacular) que ele conhece casualmente numa caminhada no parque.
O adultério se consuma, mesmo que diante das afirmações sensatas da parte de ambos de que tudo não passa de um caso. Tudo muda, porém, quando Alex engravida: Dan passa a ser perseguido por ela, que o acua física e psicologicamente –famosa é a cena em que ela entra inadvertidamente na casa dele e mata um inocente coelhinho e água fervente.
A situação se agrava conforme Alex vai se revelando cada vez mais psicótica; e nesse sentido, a atuação de Glenn Close é de um crescendo extraordinário em suas sutilezas.
Marcante pela forma como expôs o adultério e o encapsulou dentro do próprio gênero de suspense, “Atração Fatal” inovou, em sua época, pelo estilo sério mesclado a um visual publicitário oriundo da formação do diretor Lyne (que dava à aflição um viés inusitadamente sexy) e por agregar ao seu desfecho as sugestões e expectativas do público –foi uma das primeiras produções que, baseada em sessões-testes, modificou o próprio final do roteiro (no qual a amante terminava se suicidando) para corresponder aos seus expectadores.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Um Dia de Fúria


Em “Taxi Driver”, o mestre Martin Scorsese achou que seria dramaticamente contundente explorar a gradual transformação de um homem comum, já abalado por celeumas de seu tempo, num estopim de fúria psicopata que é revelada na antológica sequência final.
Da mesma maneira, o diretor Joel Schumacher partiu de reflexão parecida ao moldar este seu “Um Dia de Fúria”, com um diferencial mais objetivo: Nem tanto interessa a ele as motivações bem pavimentadas que o caminho de seu protagonista em direção ao surto apresenta; ele que mostrar são as consequências  e os desdobramentos do surto em si.
Por isso, o filme já começa com William (Michael Douglas, vibrante) dando um basta de dentro de um carro que não conseguia avançar devido ao engarrafamento; além de tudo o calor escaldante da Califórnia e o suor resultante lhe acirram os nervos –sua imediata ida (a pé mesmo) à uma loja de conveniência próxima só piora ainda mais o quadro. Indignado com uma pouco lisonjeira discussão com o dono do lugar, William inicia ali seu acerto de contas. Em seguida, ele promove um rastro de intolerância reagindo com violência a tudo e a todos que lhe cruzam o caminho, provocando um caos em sua ida para casa.
Aliás, uma ida para a casa que ele presume ser sua já que é onde sua ex-mulher está com sua filha.
Paralela a essa cada vez mais perigosa trajetória (e hoje munida de uma certa ingenuidade), estão as investigações do policial Prendergast (Robert Duvall) que, em seu último dia de trabalho, encara o inusitado caso de um homem que chegou ao cúmulo de sua injúria com o sistema –e é esse personagem quem vai juntar as peças, no decorrer do filme, a fim de esclarecer tudo, inclusive os motivos (mais pontuais do que se pode imaginar) para William querer extravasar sua fúria nos inadvertidos e alienados seres humanos que vê a sua frente.
De recepção popular consideravelmente calorosa –pode até ser definido assim como cult –este trabalho oscila entre cenas muito boas e alguns momentos bastante discutíveis e lamentáveis, todos eles preenchendo uma premissa das mais promissoras que rendeu um filme menos brilhante do que poderia ter sido.
Ainda assim, com a respeitável exceção da bela adaptação cinematográfica de “O Fantasma da Ópera”, este curioso conto sobre as neuroses reprimidas e, por fim, extravasadas do cidadão médio comum da década de 1990 é o melhor filme de toda a carreira do irregular diretor Joel Schumacher que, a bem da verdade, fez muita porcaria.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Homem-Formiga e A Vespa


“Capitão América-Guerra Civil”, lançado em 2016, provocou desdobramentos tão contundentes no Universo Marvel Cinematográfico que praticamente todos os filmes que lhe sucederam –à exceção de “Guardiões da Galáxia Vol. 2” e “Thor-Ragnarok” –são, de uma forma ou de outra, seqüências de seus acontecimentos.
É isso o que acontece nesta segunda aventura do Homem-Formiga que, embora resgate aspectos da trama de origem do primeiro filme do herói, acaba tendo que levar em conta a importante participação dele em “Guerra Civil”.
Dois anos depois, encontramos Scott Lang (o ótimo Paul Rudd) em prisão domiciliar –com rastreador no tornozelo e tudo o mais –após ter feito um acordo quando lutou ao lado do Capitão América e acabou preso.
Ao longo desses dois anos, seus parceiros no primeiro filme, o cientista Hank Pym (Michael Douglas, esbaldando-se no personagem) e a filha Hope Van Dyne (Evangeline Lilly, fantástica), trabalharam exaustivamente em torno de uma descoberta acidental do próprio Scott: Durante sua luta contra Jaqueta Amarela –que o obrigou a arriscar-se e diminuir seu tamanho em nível subatômico –Scott teve um vislumbre do chamado Mundo Quântico; um local indeterminado ao qual se chega quando a miniaturização é tão extrema que a pessoa vai para em uma outra dimensão.
Supunha-se, portanto, que ninguém conseguia voltar do Mundo Quântico. E foi esse destino que teve Janet Van Dyne (Michelle Pfeiffer, pra variar, maravilhosa), mãe de Hope e esposa de Hank, quando, à muito tempo precisou miniaturizar-se em nível subatômico para salvar vidas: Essa notável seqüência, esboçada por alto no primeiro filme, é melhor detalhada já na abertura desta continuação.
Contudo, como Scott foi capaz de retornar de lá, as esperanças de Hope e Hank se reavivaram, e nos dois anos que se seguiram, eles estiveram projetando o Túnel Quântico que permitiria a eles adentrar tal lugar com uma nave, e de lá, com alguma sorte, trazer Janet viva.
Em algum momento, eles precisarão da ajuda de Scott –cujos dois anos de prisão domiciliar estão prestes a expirar desde que se comporte –e da experiência sem precedentes que ele teve no Mundo Quântico; isso sem falar de suas habilidades como Homem-Formiga, habilidades estas que, empregadas em conjunto ao lado de Hope (que assume, por sua vez, o codinome e o uniforme de Vespa), formam uma dupla espetacular.
Dirigido pelo mesmo Peyton Reed que desde o filme anterior deu um salto qualitativo em relação aos seus outros trabalhos, e roteirizado com excelência por Adam McKay –cujo talento foi reconhecido com o Oscar de Melhor Roteiro Original por “A Grande Aposta” –“Homem-Formiga e A Vespa” é mais do que uma mera seqüência do filme anterior (embora, claro, também o seja): A narrativa faz verdadeiros malabarismos para amarrar com eficácia e descontração aos pontas soltas de “Homem-Formiga” e “Capitão América-Guerra Civil” que vêem a determinar muitos dos rumos que este filme toma –e que ainda por cima, sabe-se, levará, de uma forma ou de outra, aos eventos de “Vingadores-Guerra Infinita”, cuja trama se passa cronologicamente depois deste filme, embora tenha sido lançado antes.
“Homem-Formiga e A Vespa” curiosamente, ao dar conta das narrativas de tantos personagens (são cerca de três núcleos bem distintos costurados habilmente pela presença em comum de Scott Lang em todos eles), e por conta disso encontrar uma de suas poucas fragilidades, é um filme de super-heróis praticamente desprovido de um vilão (!): Nem o personagem de Walton Coggins (um criminoso mais oportunista do que ameaçador), nem mesmo a perigosa Fantasma (interpretada por Hannah John-Kamen, de “Jogador Nº 1”) chegam a ocupar esse posto –uma vez que na trama e no modo como é mostrada, seu papel é mais de uma vítima do que de uma antagonista.
Na comparação com o arrebatador “Guerra Infinita”, “Homem-Formiga e A Vespa” se revela mais despretensioso e pueril –e, talvez, isso justifique certa impaciência da crítica para com ele –mas, em sua diversão plena (e na heroína formidável que finalmente entregam nas formas sensacionais de Evangeline Lilly) é mais uma bela realização da Marvel Studios.

sábado, 24 de março de 2018

Os Vencedores do Oscar 1988

Talvez, esta tenha sido a cerimônia na década de 1980 em que a Academia de Artes Cinematográficas manteve-se mais diversificada, afinal, entre os indicados a Melhor Diretor estavam um italiano (Bernardo Bertolucci, por “O Último Imperador”, o grande vencedor da noite), dois ingleses (John Boorman, por “Esperança e Glória” e Adrian Lyne, por “Atração Fatal”), um sueco (Lasse Hallstrom, por “Minha Vida de Cachorro”) e um canadense (Norman Jewinson, por “Feitiço da Lua”) –não havendo nenhum norte-americano.
Não que isso tenha se repetido entre os intérpretes: Michael Douglas ganhou como Melhor Ator no icônico papel de Gordon Gekko, em “Wall Street-Poder e Cobiça” (papel que ele reprisou 13 anos depois), e a cantora Cher enfim viabilizou sua carreira como atriz ao conquistar o prêmio demonstrando garra em “Feitiço da Lua”.
A veterana Olympia Dukakis, pelo mesmo filme também conquistou o prêmio de Atriz Coadjuvante.
E, por “Os Intocáveis”, o escocês Sean Connery recebeu a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante que, apesar de ser um belo trabalho num grande filme, ficou parecendo um prêmio como reconhecimento por sua carreira.

MELHOR FILME
"O Último Imperador"

MELHOR DIREÇÃO
"O Último Imperador", Bernardo Bertolucci

MELHOR ATRIZ
Cher, "Feitiço da Lua"

MELHOR ATOR
Michael Douglas, "Wall Street-Poder e Cobiça"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Olympia Dukakis, "Feitiço da Lua"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Sean Connery, "Os Intocáveis"

MELHOR FOTOGRAFIA
"O Último Imperador"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Festa de Babette" (Dinamarca)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Robocop-O Policial do Futuro"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Viagem Insólita"

MELHOR MAQUIAGEM
"Um Hóspede do Barulho"

MELHOR FIGURINO
"O Último Imperador"

MELHOR SOM
"O Último Imperador"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Último Imperador"

MELHOR TRILHA SONORA
"O Último Imperador"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"The Time of My Life", de "Dirty Dancing-Ritmo Quente"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Feitiço da Lua"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Último Imperador"

MELHOR MONTAGEM
"O Último Imperador"

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Traffic

Após uma década inteira na qual explorou uma infinidade de gêneros e estilos, sempre evitando o cinema mainstream e conformista com projetos diferenciados como “O Inventor de Ilusões” ou “Schizopolis”, o diretor Steve Sodenbergh chegou num ponto da carreira em que tinha plena autonomia criativa e respaldo profissional para encarar uma obra com as exigências de “Traffic” que adaptava, num roteiro sucinto e pontual de Stephen Gagham, uma elogiada minissérie inglesa para o cinema.
É o épico de Sodenbergh sobre a guerra contra as drogas, mas, como é inerente ao seu cinema, nele as cenas de embate entre policiais e criminosos perdem toda a importância –são as imbricações pessoais de personagens direta ou indiretamente envolvidos na questão aquilo que de fato desperta a atenção do diretor.
Tratam-se de três tramas paralelas que expõem as complexas mazelas dessa guerra na fronteira entre o México e os EUA. Na primeira, um policial mexicano (Benicio Del Toro, no papel que lhe deu um merecido Oscar de Melhor Ator Coadjuvante; embora muitos afirmem, com certa razão, que ele é o ator principal do filme) busca manter seus princípios enquanto trabalha na fronteira, onde o tráfico e os cartéis –que lutam uns contra os outros –compram o auxílio da própria polícia.
Na segunda, um juiz da suprema corte (Michael Douglas) é nomeado o "novo czar das drogas", com a intenção de sanar o problema enfrentado nos EUA, mas não percebe que a própria filha (Erika Christensen) é viciada.
Na terceira, uma jovem grávida (Catherine Zeta-Jones) descobre que o marido é um barão das drogas no mesmo dia em que ele é preso e se vê obrigada a assumir os negócios da família.
Para distinguir cada uma dessas tramas –magnificamente encilhadas umas às outras pela primorosa montagem premiada com o Oscar –o diretor usa de um filtro que enfatiza três cores específicas para cada núcleo: A aridez do amarelo na primeira história, o azul formal dos escritórios em Washington, da segunda, e a normalidade cromática das ruas na terceira.

sábado, 19 de agosto de 2017

Última Viagem A Vegas

Um filme que reúne Morgan Freeman, Kevin Kline, Robert De Niro e Michael Douglas, além de Mary Steenburgen não deve ser jamais subestimado, ainda que seja tendência, sobretudo da crítica, subestimar tudo o que o diretor Jon Turteltaub (de filmes insípidos e inofensivos como a comédia romântica “Enquanto Você Dormia”, o drama “Fenômeno” e a aventura com Nicolas Cage “A Lenda do Tesouro Perdido”) acabe fazendo.
Ele alcança aqui um objetivo bem gracioso (ainda que longe de ser memorável) que deve satisfazer plenamente o público, embora certamente esse mérito não pertença a ele.
A trama fala sobre o reencontro de um grupo de amigos, inseparáveis na juventude, mas que, passados cinqüenta e oito anos, estão envelhecidos e dispersos. Há Sam (Kevin Kline, talvez o melhor em cena) que reage com o máximo de bom-humor possível –ainda que temperado de alguma amargura –ao fato de precisar ir com mais freqüência do que gostaria às clínicas, consultórios e hospitais; já Archie (Morgan Freeman, divertidíssimo), por sua vez, mal sai de casa sempre sob a vigilância neurótica preocupada e opressora do filho; e Paddy (Robert De Niro com uma imutável cara de rabugento) que, desde a viuvez, mantém-se enclausurado e sozinho em seu apartamento, evitando até mesmo a solidariedade das vizinhas. Há algum tempo sem se ver, eles são reunidos por Billy (Michael Douglas) o mais em visível crise de meia idade de todos que vai se casar com uma deliciosa jovem de trinta e dois anos (e tal fato serve de motivo para constante chacota dos outros) e deseja realizar uma despedida de solteiro fenomenal ao lado de todos eles em Las Vegas.
Uma vez lá a idéia é reviver, na medida do possível, a glória das farras de juventude e aproveitar a diversão (e as mulheres, as bebidas, as músicas) que a cidade de neon tem a oferecer. É claro que eventualmente, eles vão se deparar com suas inevitáveis limitações, com o fato de que o mundo mudou (e ficou mais cínico, mais desrespeitoso) desde que deixaram as festas para trás, e com circunstâncias que colocarão em teste sua própria amizade.
Não faltará também uma formosa cantora de palco (vivida com charme incontornável por Mary Steenburgen) que balançará as convicções de Billy com relação ao seu vindouro casamento e cuja afeição ele disputará com Paddy; uma situação que remete à um triângulo amoroso que ambos viveram na juventude.
É um argumento simples –e simples se mantém até o fim, com as mesmas guinadas previsíveis em seu humor e em seu drama –mas que serve ao propósito de colocar esses sensacionais atores lado a lado em situações que eles e sua verve de grandes intérpretes se encarregam de tornarem deliciosas.
Uma receita que não havia muito como dar errado.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Instinto Selvagem

O sexo sempre fez parte intrínseca das inquietações que moviam o ímpeto criativo do diretor holandês Paul Verhoeven. Obras como “Louca Paixão”, “O Amante de Kathy Typel” ou “O Quarto Homem” tinham por definição e princípio a maneira com que se debruçavam, sem pudores, a analisar as reações sexuais de seus personagens.
Tal postura, que chocava –e, provavelmente, enchia de admiração –os americanos, na verdade, refletia muito da mentalidade cultural de seu país, acrescido por um arrojo de sofisticação e uma predisposição para o atrevimento que era todo próprio de Verhoeven.
Era natural que, quando ele migrasse para Hollywood, ele levasse tal característica consigo.
E foi o quê ele fez! Ainda que no início, houvesse uma abordagem indireta, velada até, desses elementos: Trabalhos como “Robocop” e “O Vingador do Futuro”, no que diz respeito ao conteúdo sexual, estavam mais no terreno da sugestão que do fato –embora, seu magnífico “Conquista Sangrenta”, realizado de forma mais independente, tenha um erotismo todo acentuado.
Foi só com esta trama policial, escrita pelo roteirista Joe Ezsterhas –que, como Verhoeven, tinha lá suas obsessões com nudez e sexo! –que o “holandês maluco” pôde, por assim dizer, tirar suas garras de fora no cinemão hollywoodiano.
Já fica bem claro que não há nenhum traço de bom-mocismo no policial corrupto interpretado por Michael Douglas –e nessa manobra o filme irmana-se à todo o gênero noir, que comparece com inúmeros atributos e referências neste trabalho. Ele vê-se perplexo quando, ao investigar um hediondo assassinato com requintes sexuais, conhece uma das principais suspeitas: Catherine Trammell (Sharon Stone, absolutamente perfeita no papel que é o grande divisor de águas de sua carreira), uma extremamente sexy escritora de romances, que lhe abala as estruturas, nos mais diversificados sentidos.
Não demora a ficar claro que –seja ela culpada ou não do crime em questão –Catherine não é “flor que se cheire”; a seqüência de interrogatório dela pelos perplexos policiais –na qual Verhoeven obtém uma fortuita, reveladora e desconcertante tomada de suas partes íntimas! –deixa bastante evidente o poder até mesmo opressor que essa femme fatale exerce sobre os homens, incluindo o personagem de Douglas.
Ainda assim, sendo absurdamente atraente e linda, Catherine o seduz e faz dele seu amante –em uma cena de sexo que é indicativa não só do apelo sexual poderosíssimo que a atriz possui, como também do tarimbado traquejo técnico e artístico que o diretor tem para esse tipo de seqüência –para então mergulhá-lo num universo de libertinagem e masoquismo, que pode esconder uma série de pérfidos segredos.
Um dos mais marcantes filmes dos anos 1990, não apenas por seu largo êxito de público e crítica, mas porque também revelou o vulcânico símbolo sexual Sharon Stone (ela protagoniza cenas de nudez e sexo que são até hoje referências entre as produções mais erotizadas), “Instinto Selvagem” é acima de tudo um suspense eficiente e uma amostra muito mais peculiar e referencial do grande artesão que Paul Verhoeven é, do que o foi seus anteriores “Robocop” e “O Vingador do Futuro”.
Nos anos seguintes, seu cinema foi prejudicado por obras que pendiam com exagero para essas tendências à perversão que em muito o definem (sim, eu me refiro à “Showgirls”), e durante algum tempo, nem tentativas de retomar um cinema mais comercial –como “Tropas Estelares” ou “O Homem Sem Sombra” –foram capazes de trazê-lo à ribalta.
Pode-se afirmar então que “Instinto Selvagem” foi, até aqui, o momento mais brilhante de sua carreira.

sábado, 10 de outubro de 2015

Haywire - A Toda Prova

O diretor Steve Sodenberg costuma encarar seus trabalho com uma postura autoral e desafiadora. Tão mais desafiadora a medida que sua consolidação como grande realizador, com passar dos anos, passou a permitir.
Por isso mesmo, é bastante interessante o quê ele faz com um filme de ação propriamente dito, e propriamente construído na estrutura formal dos filmes comerciais, às quais nem os mais tarimbados artesãos costumam escapar. Como era de se esperar, ele dá um outro tipo de sensibilidade às cenas de ação, impregnando-as de auto-questionamento, e permitindo-se rir –nas entrelinhas –desse cinema tão descerebrado.
“Haymire” parte de uma série de entrechos nebulosos, para com o inevitável flashback, iniciar um recapitulação que ordenará e explicará todos os acontecimentos –e no processo, abrir margem para o desenrolar da ação. A questão, aqui, é levar a uma observação distinta da inércia tradicional que configura um filme de ação: Sodenberg tem, portanto, uma visão autoral sobre Gina Carano, o elemento primordial dentro de toda a ação deflagrada –os movimentos, o humor manifestado conforme a excitação ou frustração do momento, a coreografia das lutas, a maneira como paira pela geografia, ora urbana, ora natural, do filme; tudo se passa ao redor dela, ratificando sua condição intransformável de heroína de ação –e potencializando, pelo fato dela ser mulher (e bela) o fetiche que pouco a pouco Sodenberg descortina em sua narrativa. E por falar em narrativa, Sodenberg parece deitar e rolar com as possibilidades da manipulação dentro do cinema que vão surgindo cena a cena. Isso mantém uma elegância que diferencia “Haywire” das meras e usuais tentativas de se copiar a “Trilogia Bourne”, o quê, pouco disfarçadamente, é o que o roteiro teve intenção de fazer, e que teria rendido uma bela porcaria não tivesse o produtor encontrado Sodenberg pela frente.
Ele agracia o filme com sua direção humanamente reflexiva e sarcasticamente inflexiva, e com um elenco inacreditável (Ewan McGregor, Channing Tatum, Michael Douglas, Michael Fassbender, Antonio Banderas, Bill Paxton, Mathieu Kassovitz, Michael Anganaro) que cerca a inexperiência de Gina como atriz por um sem fim de coadjuvantes histriônicos e diversificados fazendo a quase inexpressividade dela soar como pontual sensatez.
Coisa de gênio.


domingo, 26 de julho de 2015

Homem-Formiga

A Marvel se sai maravilhosamente bem naqueles filmes em que o público a subestima.
Explico: Em “Guardiões da Galáxia”, por exemplo, no qual muita gente torcia o nariz para um filme protagonizado por uma árvore que se mexia, ou por um guaximim falante, personagens nem um pouco conhecidos do grande público, eles foram lá e entregaram uma de suas melhores produções.Um sucesso esmagador de bilheteria, e de crítica, também.
Hoje, é até estranho lembrar que, antes de 2011, muita gente tinha o pé atrás em relação ao projeto de Os Vingadores.
"Tantos personagens?" "Como farão para que tudo funcione?" "Não vai ser confuso?"
O resultado, todo mundo sabe, foi um fenômeno de bilheteria, e também, um dos filmes de maior qualidade do estúdio.
Quando a Marvel lida dentro de sua zona de conforto, porém (leia-se, continuações de seus sucessos) a coisa normalmente soa um pouco preguiçosa (ainda que, até hoje, a Marvel jamais tenha entregue um filme realmente ruim): “Homem de Ferro 2” e 3, “Thor-O Mundo Sombrio”, e até mesmo o eficiente, ainda que não completamente satisfatório, “Vingadores-A Era de Ultron”.
Daí, temos este “Homem-Formiga”, que só vem reforçar essa teoria, uma vez que trata-se de um herói pouco conhecido fora do meio dos quadrinhos, mas que termina sendo um dos mais mais vibrantes e empolgantes trabalhos do estúdio.
Como em “Homem de Ferro”, a química do elenco funciona incrivelmente bem (escolhas como Paul Rudd, Evangeline Lilly e até Michael Douglas, revelam-se certeiras!), como em Vingadores, a dicotomia entre o ritmo da trama e das cenas de ação é prazeroso. E assim como em Guardiões da Galáxia, aqui, a Marvel encontra um equilíbrio entre o humor, a seriedade e a ação que torna a trama e os personagens, apaixonantes.
Seríssimo candidato a melhor do ano.