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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Magic Mike

A realização de Steve Sodenbergh é um ponto de virada tanto na carreira de Matthew McConaughey quanto na de Channing Tatum, sobretudo, para este último: Em sua aparência superficial, “Magic Mike” pode até parecer com as bobagens que alavancaram a carreira de Tatum entre o público feminino, como o romance brega-dançante “Se Ela Dança, Eu Danço”, no entanto, a direção de Sodenbergh garante muito mais profundidade ao resultado, jogando luz sobre o bom ator que, quando quer, ele consegue ser.
Inicialmente dois personagens parecem representar as duas facetas de uma mesma moeda junto ao plot: São Mike (Tatum) e Adam (Alex Pettyfer, de “Eu Sou O Número Quatro”).
Mike é o astro de um clube de strip-tease para mulheres (profissão que Channing Tatum realmente tinha antes de virar ator, o que talvez explique a desenvoltura quase sobrehumana que ele demonstra em cena), no qual Adam, sob incentivo dele, passa a trabalhar também.
Mike é o veterano. Adam é o novato.
É pelos olhos de Adam que vemos esse novo mundo se descortinar à nossa frente, mas, logo ele é deixado de lado em prol de Mike que se impõe como o protagonista de fato à medida que a narrativa progride.
Os demais strippers do grupo são Ritchie ‘Bem Dotado’ (Joe Manganiello), Ken (Matt Bomer, de “Dois Caras Legais” e “Sete Homens e Um Destino”), Tito (Adam Rodriguez) e Tarzan (Kevin Nash, de “John Wick”).
Todos trabalham num show erótico promovido por Dallas (McConaughey, fantástico), um misto paternal de entusiasta e gerenciador –mas, também, como veremos à frente, impiedoso no que tange ao tino empresarial.
É notável a maneira com que Sodenbergh trabalha a incontornável exposição dos atores à nudez nas cenas de performance (executadas com toda exuberância que a teatralidade exige), construindo uma narrativa de propósitos e predisposições voltados para a história e não para um presumido erotismo: “Magic Mike” não é, deveras, um filme sobre homens nus em um palco!
Ele é, sim, sobre seu protagonista Mike, e sobre como os vícios de seu universo podem atingir mesmo aqueles teoricamente blindados contra eles.
Dentre todos os personagens a orbitar o astro solar e reluzente que é Dallas, o grande destaque da casa, Mike, policia-se a fim de estabelecer um meta para si: Aos 30 anos, ele não está ficando mais jovem; sabe que a garantia de seu vasto ganha-pão atual é fugaz, e deseja poupar para empreender. Nas fissuras ocasionais de suas atividades diurnas –mostradas em paralelo à agitação embriagante da noite e à amizade junto de Adam –se percebe o olhar carregado do drama humano, independente e austero que Sodenbergh lança às considerações tão norte-americanas, ao conceito do ‘way of life’, da ‘terra das oportunidades’.
Um futuro sólido, de estabilidade econômica, é um sonho frequentemente inatingível para todos, ao contrário, do que outras obras americanas, quase sempre voltadas para a ênfase do sucesso, insistem em reafirmar.
E Mike, articulado, boa-praça, genuinamente bem-intencionado e esperançoso, haverá de descobrir não só os revezes discriminatórios que servirão de obstáculos ao seu caminho, mas também encontrará a acidez  convicta do próprio diretor Sodenbergh que, munido do roteiro circunspecto e espirituoso de Reid Carolin, haverá de fazê-lo sofrer cada etapa de sua derrocada com compartilhada euforia dramática: Da companheira de cama pela qual nutria um sentimento que começava a adquirir afeto (Olivia Munn), ao próprio âmbito profissional, onde prevalecia como estrela, mas começa a declinar em função das sabotagens impessoais de Dallas e da ascensão de Adam (nuances que “Magic Mike” toma emprestado de narrativas clássicas como “A Malvada”, “Memórias de Uma Gueixa” e –pasmem –“Showgirls”!), o filme de Sodenbergh empenha-se, primeiro, em construir com brilho, minimalismo e êxtase o seu contexto para então submeter seu protagonista às provações árduas de sua desilusão.
Para tanto, em meio à sinergia desconcertante produzida pelas apresentações sistemáticas, insinuantes e pra lá de erotizadas de seu vigoroso e viril elenco masculino, Sodenbergh usa de seu talento para sublinhar as relações humanas de fato: A amizade com ares de mentoria entre Mike e Adam; a camaradagem, composta pelos mais variados improvisos, desenvolvida pelos strippers no camarim; a influência revitalizadora, mas corruptível de Dallas à todos ao seu redor e, sobretudo, a aproximação tensa, lenta, pontuada de conceitos e preconceitos entre Mike e a irmã de Adam, Brooke (Cody Horn, de “Twelve-Vidas Sem Rumo”), que vê nesse ofício e na vida presumidamente desregrada deles uma antítese da normalidade que anseia para si. Ainda assim, ela e Mike identificam-se em suas próprias esperanças, e na compreensão de que precisam entender para serem entendidos.
“Magic Mike” é assim, um desafio ao próprio preconceito do expectador: Ameaça ser vulgar, pecaminoso e cheio de fantasias femininas, mas se revela profundo, melancólico e recompensador.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Irresistível Paixão

Muito aclamada devido ao sucesso de público e crítica de “Onze Homens e Um Segredo” e suas continuações, a parceria entre o diretor Steve Sodenbergh e o astro George Clooney começou, de fato, neste sensacional “Irresistível Paixão”.
Aliás, astro pode ser termo, à época, precipitado para atrelar à George Clooney: Tendo deixado a série “Plantão Médico” para protagonizar o frustrante “Batman & Robin” –a mais catastrófica versão do Homem-Morcego para os cinemas –Clooney ainda não era um dos grandes nomes de Hollywood, mas, havia ganho tanto dinheiro para estrelar o mal-fadado filme que, na sequência, descobriu ter o privilégio de escolher a dedo seus projetos seguintes: Se colocar dinheiro no bolso já não era mais prioridade, ele podia passar a almejar a qualidade.
Foi assim que Clooney envolveu-se em trabalhos prestigiados como a aventura marinha “Mar Em Fúria”, o drama de guerra “Três Reis” e esta notável adaptação de Elmore Leonard, uma trama intrincada (bem ao gosto do autor) que, lá no fundo, versava sobre um caso de amor improvável entre um ladrão de bancos e uma oficial de justiça.
Clooney é Jack Foley, cujo orgulho é ter assaltado quase duzentos bancos sem jamais precisar sacar uma arma, em vez disso, Foley se valia de esperteza, inteligência e uma astúcia prodigiosa –características que ele põe em prática já na primeira cena.
Não adianta muito: Por um golpe de azar, ele vai preso mesmo assim.
Amargando mais algum tempo na prisão –e começando a concluir, por conta disso, que seu próximo golpe deve render sua aposentadoria definitiva desse negócio –Foley participa de uma fuga em massa, de cujo fracasso ele se desvencilha graças à cumplicidade do amigo Buddy (Vhing Rhames) e a casual aparição no local da agente federal Karen Sisco (a maravilhosa Jennifer Lopez, no papel que ajudou a construir sua imagem de símbolo sexual dos anos 1990) no carro de quem eles empreendem sua escapada.
Dividindo o porta-malas (eles a levam como refém), Foley e Karen trocam alguns minutos de conversa onde o diretor Sodenbergh permite-se vislumbrar com satisfação e exultação a química espetacular que Clooney e Jennifer compartilham em cena; é uma pena que eles não tenham feito outros filmes juntos.
A partir daí, revelando o gosto do hábil roteirista Scott Frank (de “Um Plano Simples” e “Minority Report-A Nova Lei”) para tramas elaboradas e fragmentadas, o filme se divide em duas linhas distintas de tempo, destinadas a se encontrar (e a se complementar) quando o filme de Sodenbergh atingir seu clímax: Numa delas, passada dois anos antes, vemos Foley em uma prisão da Flórida junto de outros detentos, entre eles, o estelionatário ricaço Ripley (Albert Brooks, de “A Musa” e “Bem-Vindo Aos 40”) e o ex-pugilista e bandidão barra-pesada Snoopy (o simpático Don Cheadle aqui, contudo, ameaçador). Na outra, evidentemente, acompanhamos os eventos subsequentes à fuga de Foley, suas tentativas de escapar ao jugo da polícia e do FBI e de prosseguir, ao lado de Buddy, com seu derradeiro golpe, aquele com o qual ele almejava se aposentar (assaltar a mansão de Ripley ao lado de Snoopy); além, é claro, das investigações por conta própria da esperta e persistente Karen Sisco que deseja reencontrar Jack, para prendê-lo novamente, ou quem sabe, descobrir o que é essa estranha atração que sentem.
Naquele ano, 1998, “Irresistível Paixão” chegou às salas de cinema capitaneando um formidável abalo sísmico no cinema comercial norte-americano, ao substituir as pirotecnias em voga nas produções de então por uma inteligência instigante e à toda prova –uma tendência inesperada e salutar que moldaria um pico insuspeito de qualidade entre as obras hollywoodianas naqueles anos –grande responsável pelo êxito deste filme foi também o tratamento sempre diferenciado de Steve Sodenbergh, um entusiasta nítido e confesso das narrativas antigas da Velha Hollywood, sobretudo, os filmes de gangster e os filmes noir. São tons e atmosferas que ele atribui à este brilhante e bem calibrado conto de polícia e ladrão, temperado com bem-vinda sensualidade, imprevisto requinte e palpitante virilidade: Sim, pois, em seu tumultuado, eletrizante e divertido desfecho não tenha dúvidas, o romance entre Jack Foley e Karen Cisco termina em bala!

quarta-feira, 18 de março de 2020

Contágio

Em tempos de Coronavírus, este filme lançado em 2011 (durante a comoção do H1N1, a gripe suína) voltou a ganhar relevância na lembrança dos expectadores. Trata-se de uma superprodução conduzida por Steve Sodenbergh com a mesma elegância que ele dedicou à sua obras menores e independentes.
Vitimada por um vírus desconhecido após uma viagem internacional, americana moradora de Minnesota (e interpretada por Gwyneth Paltrow) morre no leito hospitalar sem razões aparentes, logo seguida de seu filho de sete anos.
Ela deixa viúvo seu marido (Matt Damon, provavelmente o protagonista em meio à tantos astros) e os médicos com uma perturbadora interrogação acerca do quê a matou.
Nas cenas simultâneas mostradas por Sodenbergh fica claro que houve contágio: No aeroporto, uma estagiária em Londres, um assalariado de Hong Kong e um executivo do Japão também acabam infectados por ela.
O episódio em solo americano, imediatamente seguido de vários outros, aciona o Centro de Controle de Doenças dos EUA, cujos profissionais (entre eles, Laurence Fishburne, Kate Winslet, Bryan Cranston e Jennifer Ehle) correm para catalogar os efeitos da doença e conter seu rápido avanço identificando cada uma das pessoas contaminadas –que em poucos dias eles perceberão ser milhares.
Logo, um digital influencer (Jude Law) passa a valer-se do fato de ter sido um dos primeiros a noticiar o surto, e gera pânico com suas declarações bombásticas destituídas de embasamento e senso de responsabilidade.
São também enviados profissionais (Marion Cotillard e Chin Han) para investigar a origem do vírus (ao que tudo indica em Macau) enquanto equipes de geneticistas correm contra o tempo para criar uma vacina para o que logo se torna uma ameaça de nível global.
É curiosa a forma com que Sodenbergh aborda os desdobramentos humanos da crise –evidentemente acometida de características muito mais dramáticas do que os exemplos recentes da vida real –ostentando um elenco numeroso e estelar, mas, deixando claro em sua narrativa que essas presenças são, ainda assim, efêmeras diante das implicações ocasionadas de absurdo que se sucedem: A personagem de Marion é sequestrada por aldeões interessados em usá-la como refém para barganhar e tornarem-se os primeiros da fila quando houver uma vacina; o personagem de Jude Law, de olho em lucro pessoal, passa a coagir a população que segue suas orientações para não acreditar no Centro de Controle de Doenças, nem mesmo quando uma cura é finalmente processada; o vírus se alastra com mais intensidade devido à desorganização logística das autoridades locais que, a partir de determinado momento, têm de lidar até com uma greve de funcionários da área de saúde; todavia, nada gera mais caos do que o medo disseminado pela mídia sensacionalista (não dá uma sensação de déja-vú?), o que leva pessoas a estocar comida e o exército a fechar fronteiras; e a própria concepção da vacina (obtida no terço final do filme) se dá pela ação de personagens que desafiaram as normas e a burocracia (como o médico vivido por Elliott Gould e a sensacional personagem de Jennifer Ehle) para agilizar o salvamento de vidas humanas.
Com este filme austero e incisivo, Sodenbergh usa de seu talento para analisar os efeitos de uma epidemia, não tanto pelo aspecto científico e orgânico da doença em si, mas a partir das distintas ações e reações flagradas nos diferentes e diversos personagens que ele bota em cena que, de modo geral, representam os sentimentos cosmopolitas, evasivos e não raro egoístas do ser humano diante dessas situações.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O Estranho

Embora não possa ser considerado um astro, o veterano Terence Stamp tem uma carreira das mais notáveis: Participou de expressivas obras do cinema italiano, como “Teorema” e “Divina Criatura”, tem pelo menos um personagem bastante cultuado (o General Zod de “Superman 2”) e se mantém em atividade até hoje, sem jamais perder um certo prestígio.
Uma pena que sejam poucos os filmes como este “O Estranho” a colocá-lo na mira dos holofotes e fazê-lo protagonista.
Na pele de Wilson, um criminoso inglês que vem aos EUA para esclarecer a morte da filha, Stamp é metódico, irônico e contundente.
Também comparece para dar ao filme um notável adendo diferencial –uma vez que a premissa soa um tanto genérica –o traquejo desigual do diretor Steve Sodenbergh, um mestre em adulterar narrativas arrancando-as do convencionalismo.
Sodenbergh relata a trama atento aos pormenores inesperados, indo e vindo no tempo sem aviso, fragmentando os acontecimentos tornando-os nebulosos, desafiando o expectador a compreender sua história e acrescentando a ela um senso de humor dos mais peculiares –o sotaque britânico ‘cockney’ do personagem principal por vezes o leva a se perder em monólogos que soam incompreensíveis aos seus interlocutores americanos.
Sodenbergh usa dos improvisos perpetrados pelos atores de modo sistemático, intercalando cenas que, se parecem confusas de imediato, também adquirem um aspecto enigmático, intrincado. E são muitos os recursos que, nesse sentido, ele acaba por lançar mão: Wilson chega aos EUA tão logo sai da prisão onde esteve por nove anos. Eduardo (Luis Guzman), o homem que lhe informou sobre a morte de sua filha Jenny (Melissa George, de “30 Dias de Noite” e “Turistas”), insiste que ela morreu num acidente de carro.
Wilson sente nas entranhas que não.
Suas suspeitas recaem assim sobre Terry Valentine (Peter Fonda), o namorado de meia-idade de Jenny, um empresário do ramo fonográfico (e entusiasta dos anos 1960) cujo poder e influência o tornam quase uma espécie de gangster –e daí para o crime e a impunidade é só uma questão de uma ou outra coisa dar errado.
Ao lado de Eduardo e de Elaine (a maravilhosa Lesley Ann Warren, de “Victor Ou Victória”), amiga de Jenny, Wilson inicia as investigações definidas por seu temperamento truculento.
O que termina chamando a atenção do consultor de segurança de Valentine, Avery (Barry Newman, de “Corrida Contra O Destino”) que coloca no encalço de Wilson dois matadores de aluguel, seguidos, por sua vez, de agentes do Departamento de Narcóticos Norte-Americano, o DEA (numa ótima ponta do ator Bill Duke, de “O Predador”).
Sodendbergh adora referências cinematográficas incomuns de características ainda menos ortodoxas que Quentin Tarantino; aqui, ele menciona com frequência clássicos do cinema inglês, como “Carter-O Vingador” (na simplicidade da premissa onde ele enxerga um protagonista tão perverso e corruptível quanto os elementos que enfrenta, distinguido somente por seu desejo transparente de vingança), o clássico “À Queima-Roupa”, de John Boorman (na constante sobreposição de cenas da montagem), e o pouco conhecido “Poor Cow”, de Ken Loach, de cujas sequências, brilhantemente editadas e calibradas com cenas deste filme, ele se vale para mostrar um Terence Stamp jovem, como se fossem lembranças do passado ocasionadas por este mesmo personagem.
Na espiral de obsessão vingativa que o diretor registra com um raro senso de ironia, as cenas de enfrentamento de praxe, que poderiam amargar o filme na previsibilidade, são exatamente o que lhe confere ineditismo: Sodenbergh dirige com noção apurada do realismo a ser imposto à narrativa, com absoluta consciência das limitações etárias do seu protagonista (na verdade, de modo geral, grande parte de seu elenco traz talentos oriundos dos anos 1960 e 70) e com perene observação acerca do fatalismo inerente à dramaticidade de seu estilo.
Essa postura somada à edição autoral, extraída de saudáveis reflexos do cinema independente, fazem de “O Estranho” uma obra notável em sua inquieta solidez.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Onze Homens e Um Segredo


A discussão cerca do quão válida uma refilmagem é tem, nesta obra, um de seus melhores argumentos: Ao contrário do que é hábito em Hollywood –onde são refilmadas sucessivamente obras excelentes que não precisariam de uma refilmagem –o time de George Clooney e Steve Sodenbergh refez um filme não tão bom, não tão perfeito e não tão bem-sucedido (uma pequena aventura de assalto feita para aproveitar a fama do Rat Pac, grupo formado por Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford). Eles assim o fazem com perfeita consciência das limitações da obra original; e em tudo tentam melhorá-la.
É, pois o grande propósito de se realizar uma refilmagem: Repaginar um filme e aproximá-lo mais do potencial de qualidade que não havia sido alcançado da outra vez.
E o diretor Sodenbergh compreende com profunda perspicácia que toda essa premissa depende de charme: Cada personagem que marca presença, cena após cena, é de um carisma desigual.
A frente de todos eles, nesse e em outros quesitos, certamente está Danny Ocean (George Clooney tão eficaz quanto em sua primeira colaboração com Sodenbergh, o brilhante “Irresistível Paixão”). Recém-saído da prisão, ele chega a Las Vegas com um plano já previamente elaborado, por meio do qual visa retribuir toda a impunidade que o gangster Terry Benedict (Andy Garcia) exerce sobre os outros: Dele almeja roubar toda a féria de seu cassino principal.
Para tanto, Danny Ocean conta com um grupo extraordinário de outras dez pessoas com especialidades muito particulares: Seu braço-direito Rusty Ryan (Brad Pitt, que consegue ombrear o carisma e a desenvoltura superlativos de Clooney); o forte e desprendido Frank Catton (o saudoso Bernie Mac); o hábil e inteligente Basher Tarr (Don Cheaddle); o experiente e safo Reuben Tishkoff (Elliott Gould); o meticuloso e estrategista Saul Bloom (Carl Reiner); os experts em tecnologia Virgil e Turk Malloy (Casey Affleck e Scott Caan); o ágil e acrobático Yen (Qin Shaobo); o escorregadio Livingston Bell (Eddie Jemison); e o filho de um grande aliado do passado Linus Caldwell (Matt Damon).
A intenção de Ocean não é apenas de bancar o Robin Hood, roubando do milionário antagonista –no processo de seu intrincado golpe quer roubar dele também a atual companheira, Tess (Julia Roberts), ex-esposa de Ocean.
Como se pode constatar pelos nomes citados, o elenco que Sodenbergh reuniu para seu filme é tão, ou mais, ostensivo que o elenco do “Onze Homens e Um Segredo” original; e ele compensa essas presenças cintilantes dando a todos eles momentos memoráveis.
Contudo, seu grande feito é a execução do assalto propriamente dito que ocupa os últimas e sensacionais vinte minutos de filme: Uma aula de condução de roteiro, direção de cena e manutenção de ritmo, onde cada tomada surpreende o expectador e cada guinada deixa um sorriso no rosto.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento

Ainda mais notável do que um diretor emplacar um filme na cerimônia do Oscar, é esse mesmo diretor emplacar dois filmes numa só cerimônia. Assim como Francis Ford Coppola em 1975 e Herbert Ross em 1978, o diretor Steve Sodenbergh competiu, no ano 2000, com dois trabalhos ao Oscar de Melhor Filme: “Traffic” –que lhe deu o prêmio de Melhor Diretor –e este “Erin Brockovich-Uma Mulher de Talento”.
Na categoria de Melhor Diretor, aliás, esse feito foi ainda mais raro: Antes dele, apenas Michael Curtiz havia tido dupla indicação, em 1939, por “Anjos de Cara Suja” e “Quatro Filhas”!
Contudo, “Erin Brockovich” é mais lembrado mesmo como o filme que enfim deu o Oscar de Melhor Atriz a Julia Roberts, após ela reinar, na primeira parte da década de 1990 em Hollywood como a namoradinha da América, graças ao seu marcante papel em “Uma Linda Mulher”, passar por um período meio irregular na carreira –por escolhas um pouco equivocadas como “O Segredo de Mary Reilly” –e reconquistar público e critica já no fim da década com o mesmo gênero que a consagração, a comédia romântica, nos bem-sucedidos “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, lançado em 1998, e “Um Lugar Chamado Noting Hill”, em 1999. O passo mais natural para consolidar essa consagração seria a conquista de um Oscar e, nesse intento, ela não se fez de rogada ao encarar o papel protagonista deste filme inspirado em fatos reais, mais necessariamente na luta de Erin Brockovich, divorciada e desempregada com quatro filhos que consegue emprego em um escritório de advocacia e dedica-se com afinco e obstinação num caso onde os moradores de uma cidadezinha tentam processar uma grande empresa por danos à saúde e ao meio ambiente infligidos por uma fábrica poluente.

A despeito de ser uma pessoa real (ela é produtora executiva do filme), Erin Brockovich é uma personagem recorrente no cinema: Os anos 1980 tiveram diversos exemplares onde atrizes como Jessica Lange ou Suzan Sarandon desempenharam mulheres do povo, que não fugiam de uma briga e nem levavam desaforo para casa. Uma personagem feita sob medida para uma atriz brilhar –desbocada, presenteado com sucessivos monólogos explosivos, sensual ao seu modo brejeiro e contando com toda a veracidade de sua história como respaldo –não havia muito como tirar o Oscar de Julia Roberts, por mais que o filme e o próprio trabalho da atriz não fossem, a rigor, algo tão memorável assim, e mesmo que, dentre suas concorrentes, a superioridade artística e qualitativa de Ellen Bustyn, por “Réquiem Para Um Sonho”, fosse um detalhe constrangedor de tão evidente.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Traffic

Após uma década inteira na qual explorou uma infinidade de gêneros e estilos, sempre evitando o cinema mainstream e conformista com projetos diferenciados como “O Inventor de Ilusões” ou “Schizopolis”, o diretor Steve Sodenbergh chegou num ponto da carreira em que tinha plena autonomia criativa e respaldo profissional para encarar uma obra com as exigências de “Traffic” que adaptava, num roteiro sucinto e pontual de Stephen Gagham, uma elogiada minissérie inglesa para o cinema.
É o épico de Sodenbergh sobre a guerra contra as drogas, mas, como é inerente ao seu cinema, nele as cenas de embate entre policiais e criminosos perdem toda a importância –são as imbricações pessoais de personagens direta ou indiretamente envolvidos na questão aquilo que de fato desperta a atenção do diretor.
Tratam-se de três tramas paralelas que expõem as complexas mazelas dessa guerra na fronteira entre o México e os EUA. Na primeira, um policial mexicano (Benicio Del Toro, no papel que lhe deu um merecido Oscar de Melhor Ator Coadjuvante; embora muitos afirmem, com certa razão, que ele é o ator principal do filme) busca manter seus princípios enquanto trabalha na fronteira, onde o tráfico e os cartéis –que lutam uns contra os outros –compram o auxílio da própria polícia.
Na segunda, um juiz da suprema corte (Michael Douglas) é nomeado o "novo czar das drogas", com a intenção de sanar o problema enfrentado nos EUA, mas não percebe que a própria filha (Erika Christensen) é viciada.
Na terceira, uma jovem grávida (Catherine Zeta-Jones) descobre que o marido é um barão das drogas no mesmo dia em que ele é preso e se vê obrigada a assumir os negócios da família.
Para distinguir cada uma dessas tramas –magnificamente encilhadas umas às outras pela primorosa montagem premiada com o Oscar –o diretor usa de um filtro que enfatiza três cores específicas para cada núcleo: A aridez do amarelo na primeira história, o azul formal dos escritórios em Washington, da segunda, e a normalidade cromática das ruas na terceira.

sábado, 15 de julho de 2017

Solaris

A junção inesperada dos talentos de James Cameron (produtor) e Steven Sodenberg (diretor) rendeu um projeto, também ele, de natureza inesperada: Uma refilmagem norte-americana do fenomenal “Solaris”, de Andrei Tarkoski.
Para além do atrevimento em tentar recriar uma obra de tal magnitude, o filme de Sodenbergh se baseava, com algum bom senso, no mesmo romance de Stanislaw Lem que deu origem ao filme de Tarkovski; este novo filme é, portanto, realizado a partir da inspiração de Tarkovski e não do prestigiado filme que ele fez.
O americano Chris Kelvin (George Clooney, ator predileto de Sodenberg) é um psiquiatra às voltas com seus próprios problemas emocionais: Sua viuvez é recente, e as lembranças de Rheya (Natascha McElhone, de “O Show de Truman” e da série “Californication”), outrora sua esposa são ainda tão recentes quanto dolorosas –essas questões serão revistas mais tarde.
Ao contrário do reflexivo protagonista do outro filme, imerso nos questionamentos intelectuais de sua reclusão no campo, vista no início, o personagem de Clooney surge, nas cenas iniciais, desgastado por uma rotina urbana que ele parece enxergar como um remédio para sua angústia.
Há um tom ligeiramente formulaico no modo com que Sodenberg expõe essa condição.
Logo em seguida, Chris é chamado a uma estação orbital ao redor do desconhecido planeta Solaris.
Os tripulantes dessa estação sofrem males desconhecidos que levaram alguns deles ao suicídio ou ao desaparecimento –e a presença de Kelvin é requisitada por um dos tripulantes, Gibarian, afirmando ser ele o mais indicado para avaliar a situação.
Desde o início supõe-se que tudo seja provocado pela proximidade do estranho planeta. Ao chegar lá, Kelvin procura em vão por algumas respostas, que apenas se desdobram em mais e mais perguntas: Qual a razão do comportamento irrequieto e evasivo de um dos astronautas (vivido pelo já naturalmente irrequieto e evasivo Jeremy Davies, de “O Resgate do SoldadoRyan")? O que aconteceu com Gibarian (Ulrich Tukur) que, Kelvin descobriu ao chegar, terminou se suicidando? Por que a astronauta aparentemente mais lúcida do grupo, Gordon (a grande Viola Davis, muito antes da fama), é assolada por uma expressão de angústia constante?
À noite, enquanto ainda tenta absorver o estranho comportamento dos tripulantes, Kelvin se dá conta de que o lugar em que estão pode materializar o impossível: Rheya, sua esposa falecida aparece à sua frente, em carne e osso (!), oferecendo ao alarmado Kelvin a chance de remodelar o passado ou de viver sua aflição toda outra vez.
A descoberta de algo que contradiz as bases da realidade se torna assim o questionamento dos personagens –afinal, é a realidade a referência pela qual a ciência dos homens pensantes encontra uma âncora para jamais naufragar na loucura.
Todavia, apesar da suposta densidade imposta pela narrativa deliberadamente lenta e contemplativa, o filme de Sodenberg não adentra essas dúvidas de maneira tão fascinante e circunspecta quanto o filme de Tarkovski: Prefere os elementos mais prosaicos, o drama romântico que ronda os personagens de Clooney e Natascha, o senso de aventura sugerido (jamais, porém, explorado) nos portentosos efeitos visuais –empregados, contudo, de forma bastante discreta –e o suspense que parece brotar do mistério espacial; Qual é, afinal, a maldição que se abate sobre a nave?
O filme de Tarkovski abraçava isso tudo, e ainda se lançava em imponderáveis possibilidades de reflexão, fazendo tudo isso parecer fácil e simples; o grande mérito do filme de Sodenberg é mostrar, acima de tudo, que não, a realização estupenda de Tarkovski não tinha nada de simples.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sexo, Mentiras e Videotape

   Este brilhante e austero trabalho do ainda jovem diretor Steve Sodenbergh que, por seu domínio prodigioso de cena e impecável condução da trama conquistou a Palma de Ouro em Cannes em 1990, faz parte de uma tríade de grandes obras lançadas no fim da década de 1980 e começo da de 90 que promoveram uma transformação na percepção comercial e artística que público e crítica tinham então do cinema independente norte-americano: Foram elas, além deste “Sexo, Mentiras e Videotape”, “Faça A Coisa Certa”, de Spike Lee, e “Drugstore Cowboy”, de Gus Van Sant.
   O filme de Sodenbergh foi aquele que mais se beneficiou da generosidade das premiações do período, embora, por curiosidade, seu realizador viesse a encarar um consideravelmente longo período sem fazer nada relevante depois dele –foram necessários inúmeros projetos depois para que Sodenbergh voltasse a integrar, na década seguinte, com a sua bem-sucedida primeira parceria com George Clooney, o suspense “Irresistível Paixão”, a lista dos grandes diretores de Hollywood.
    Mas, isto é divagação. Voltemos ao filme em questão: Na trama ligeiramente inspirada em Douglas Sirk, mas carregada de um pertinente ímpeto de transgressão e renovação, Sodenbergh mergulha suas lentes (com indelével necessidade analítica) sobre as atitudes do bem-sucedido advogado John (Peter Gallagher) que mantém, ao mesmo tempo, um relacionamento distante com Ann, sua esposa frígida (Andie McDowell, mais linda do que nunca), e um caso adúltero com Cynthia, a cunhada fogosa (Laura San Giacomo), até que chega então um amigo dos tempos de escola, Graham (James Spader, numa sensacional e inspirada atuação), obcecado em gravar em vídeo os depoimentos mais íntimos das mulheres que conhece.
   Impotente, Graham encontra sua verdadeira fonte de excitação sexual ao assistir as imagens nas quais as mulheres com quem cruzou expõem suas experiências, confessam suas impressões acerca do sexo e revelam intimidades. Ele acaba assim se tornando um agente catalisador para uma série de reviravoltas que se operam a partir de seu envolvimento com o núcleo inicial de personagens.
     Esse viés ratifica a superficialidade de John, a fragilidade de Cynthia, e especialmente, o ímpeto de Ann, através da qual as mudanças mais dramáticas serão percebidas.

sábado, 10 de outubro de 2015

Haywire - A Toda Prova

O diretor Steve Sodenberg costuma encarar seus trabalho com uma postura autoral e desafiadora. Tão mais desafiadora a medida que sua consolidação como grande realizador, com passar dos anos, passou a permitir.
Por isso mesmo, é bastante interessante o quê ele faz com um filme de ação propriamente dito, e propriamente construído na estrutura formal dos filmes comerciais, às quais nem os mais tarimbados artesãos costumam escapar. Como era de se esperar, ele dá um outro tipo de sensibilidade às cenas de ação, impregnando-as de auto-questionamento, e permitindo-se rir –nas entrelinhas –desse cinema tão descerebrado.
“Haymire” parte de uma série de entrechos nebulosos, para com o inevitável flashback, iniciar um recapitulação que ordenará e explicará todos os acontecimentos –e no processo, abrir margem para o desenrolar da ação. A questão, aqui, é levar a uma observação distinta da inércia tradicional que configura um filme de ação: Sodenberg tem, portanto, uma visão autoral sobre Gina Carano, o elemento primordial dentro de toda a ação deflagrada –os movimentos, o humor manifestado conforme a excitação ou frustração do momento, a coreografia das lutas, a maneira como paira pela geografia, ora urbana, ora natural, do filme; tudo se passa ao redor dela, ratificando sua condição intransformável de heroína de ação –e potencializando, pelo fato dela ser mulher (e bela) o fetiche que pouco a pouco Sodenberg descortina em sua narrativa. E por falar em narrativa, Sodenberg parece deitar e rolar com as possibilidades da manipulação dentro do cinema que vão surgindo cena a cena. Isso mantém uma elegância que diferencia “Haywire” das meras e usuais tentativas de se copiar a “Trilogia Bourne”, o quê, pouco disfarçadamente, é o que o roteiro teve intenção de fazer, e que teria rendido uma bela porcaria não tivesse o produtor encontrado Sodenberg pela frente.
Ele agracia o filme com sua direção humanamente reflexiva e sarcasticamente inflexiva, e com um elenco inacreditável (Ewan McGregor, Channing Tatum, Michael Douglas, Michael Fassbender, Antonio Banderas, Bill Paxton, Mathieu Kassovitz, Michael Anganaro) que cerca a inexperiência de Gina como atriz por um sem fim de coadjuvantes histriônicos e diversificados fazendo a quase inexpressividade dela soar como pontual sensatez.
Coisa de gênio.