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sábado, 30 de julho de 2022

Quatro Casamentos e Um Funeral


 A sacada formidável –e à época algo inédita –do roteirista Richard Curtis (que, nesta obra, foi revelado como grande especialista em comédias românticas) foi estruturar, com rigor, a sua narrativa nos cinco eventos determinados em seu título (só fazendo uma exceção num único momento, um encontro breve e casual): Dentro dessa proposta, e mantendo-se leal a ela, o roteiro esbanja inventividade e inspiração, desenvolvendo ótimos personagens e valendo-se de seu formato para construir diversas sacadas espirituosas.

É, portanto, com um sorriso no rosto que acompanhamos o simpático protagonista, um inglês solteirão (Hugh Grant, perfeito no papel) que atravessa as cinco cerimônias, em todas, acompanhado dos mesmos e sarcásticos coadjuvantes.

Lá pelas tantas, porém, ele encanta-se por uma bela jovem norte-americana (Andie MacDowell, também ela perfeita ao estilo adocicado do filme), assim como ele, presença assídua em todos esses eventos.

Esta graciosa comédia romântica inglesa dos anos 1990 obteve tanto sucesso que revelou uma série de talentos britânicos como o diretor Mike Newell e o ator Hugh Grant, além do roteirista Curtis. É seguro dizer que são os grandes responsáveis –Newell por sua condução serena e inspirada; Grant por sua presença adequadíssima além de seu impecável timing para o humor; e Curtis devido ao roteiro primoroso, a jóia da coroa neste excelente filme –pelo prazer contagiante que este descontraído e despretensioso trabalho até hoje ainda provoca no expectador.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Magic Mike XXL


 Apesar de não contar com os personagens Dallas (de Matthew McConaughey) e Kid (de Alex Petiffer), a grande ausência que determina o resultado da continuação de “Magic Mike” é a do diretor Steve Sodenbergh. Felizmente, quem ocupa o lugar dele é o produtor Gregory Jacobs que escapa astuciosamente da armadilha de tentar emular Sodenbergh e concebe a este filme um brilho e uma personalidade próprios.

Cerca de três anos depois de ter abandonado os palcos, o ex-stripper Mike (Channing Tatum, de volta num dos personagens mais marcantes de sua carreira) segue realizando suas aspirações profissionais afrente de uma empresa de móveis personalizados.

De repente, ele recebe um telefonema de seus antigos colegas: Os também strippers Ritchie (Joe Manganiello), Ken (Matthew Bomer), Tito (Adam Rodriguez) e Tarzan (Kevin Nash) o chamam para um reencontro.

Ao contrário de Mike, eles continuaram como strippers, e agora, largados ao léu por Dallas –que partiu para o estrangeiro levando Kid à tiracolo –querem fazer uma última apresentação numa convenção em Macau, antes de receberem dinheiro o suficiente para todos partirem em busca de seus próprios sonhos.

Assaltado de uma súbita nostalgia, Mike decide acompanhá-los, numa forma de celebrar a última oportunidade em que esses grandes amigos estarão todos juntos.

Como diretor, Jacobs troca a observação inquisitiva e analítica da vida moderna executada por Sodenbergh por uma visão mais desprendida, onde predomina o alto-astral, e as emoções mais universais a acompanhar o reencontro dos amigos –o primeiro reflexo bastante positivo é que o filme acaba dando espaço muito maior para os coadjuvantes e suas vulnerabilidades.

Se no primeiro “Magic Mike” todo o staff de strippers servia mais para uma caracterização esmerada do universo das casas noturnas, bem ao gosto a um só tempo niilista e meticuloso de Sodenbergh, aqui, os anseios e emoções desses personagens entram em foco, proporcionando a eles a humanidade que não tiveram a chance de expor: Ritchie é fanfarrão, carismático e, na leveza que compartilha com todos, um amigo crucial à união do grupo (e possivelmente o melhor personagem do filme); Ken tem seus próprios anseios e objetivos, mas antes de tudo precisa superar um ligeiro ressentimento pelo abandono de Mike; Tito é hábil cozinheiro e planeja obter dinheiro com essa derradeira apresentação para se lançar no ramo; e Tarzan –ou Ernest –encobre com imponência e seriedade sua vontade casar e constituir família.

Essa mudança de enfoque, do cinismo para a ternura, revela facetas novas de todos os personagens e, sobretudo, de suas dinâmicas: No trajeto de Miami até Macau, confissões afloram, lembranças animadas são colocadas em pauta e todos saboreiam a sensação agridoce de estarem juntos uma última vez, o que transforma “Magic Mike XXL” num autêntico road-movie.

E como tal, o trajeto de seus protagonistas até seu destino final é registrado nas minúcias de seu humor e de seu drama: O trailer que os leva sofre uma acidente, obrigando-os a apelar para os favores de uma conhecida (Jada Pinkett Smith num papel originalmente feito para ser masculino), e na sequência, encontrar breve refúgio na mansão de uma ricaça carente (ponta de Andie MacDowell); não sem antes Mike e seu pessoal pararem numa loja de conveniência e, num desafio oferecido ao divertido Ritchie –arrancar um sorriso de uma soturna atendente –produzirem a melhor cena do filme.

Quase um musical na evocação irrestrita que promove da descontração inerente aos seus personagens, “Magic Mike XXL” é uma continuação que troca sem pudores o drama circunspecto por uma atmosfera leve, irrequieta e contagiante. E faz disso seu grande mérito.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias


 Tendo perpetrado um dos mais adorados cult movies dos anos 1990 –o inebriante “Feitiço do Tempo” –o diretor e roteirista Harold Ramis enveredou por uma premissa muito parecida, de novo extraindo humor e uma certa ternura de um tema que girava em torno da repetição.

Se “Feitiço do Tempo” era sobre um dia que se repetia, “Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias” era sobre um homem que se replicava. Tal homem é Doug Kinney vivido com compreensão singular de comédia por Michael Keaton, ainda que a parceria certeira e bem azeitada do diretor com Bill Murray, protagonista da obra anterior, não se repita. Todavia, Ramis recrutou mais uma vez a adorável Andy MacDowell para o papel feminino principal; ela é Laura, casada com Doug, com quem têm dois filhos.

As atribulações de Doug começam quando ele se apercebe de que as tarefas domésticas, profissionais, familiares e matrimoniais lhe sobrecarregam: Para dar conta de todas elas sem estafa, ele precisa se dividir em vários. A questão, existencial para muitos pais da família, é resolvida de forma literal por Doug: Ele conhece um inventor (Harris Yulin, de “O Lugar Onde Tudo Termina”) capaz de fazer um clone seu, uma cópia com sua aparência, suas memórias e seu comportamento. Assim surge o Nº 2 a quem Doug incumbe de encarregar-se do seu emprego como construtor civil em Los Angeles.

Entretanto, a comodidade de desdobrar-se em mais de um leva Doug a encomendar mais um clone, Nº 3, desta vez, incumbido dos serviços do lar, enquanto o Doug original tenta harmonizar as coisas em seu casamento com Laura (tudo isso, diga-se, sem o conhecimento dela!). O curioso é que as cópias, a partir do momento em que são instruídas a uma única ocupação desenvolvem uma personalidade específica: Imerso no trabalho, Nº 2 se torna uma versão fria e ranzinza de Doug, amargurado pelo distanciamento da mulher e dos filhos e tornado anti-social; Nº 3, por sua vez, segue o caminho oposto, ganhando ares mais sensíveis devido ao constante traquejo doméstico. E há, ainda, um Nº 4 (!), uma cópia da cópia que resulta numa versão debilóide de Doug, requisitado para auxiliar 2 e 3 em suas tarefas –e todos são interpretados com versatilidade e primor por Keaton, um ator naquela época ainda lembrado tão somente pelo sucesso de “Batman”, de Tim Burton, mas que sempre ostentou insuspeito brilhantismo inclusive no difícil gênero da comédia.

“Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias” não atinge a mesma genialidade em todas as frentes que “Feitiço do Tempo” –um trabalho cujo primor visivelmente Harold Ramis busca reprisar –e nem teria como fazê-lo mesmo, diante dos acertos tão raros e improváveis que aquela pérola consegue obter; no entanto, se não proporciona o mesmo elevado fascínio, este bom trabalho de Ramis consegue levantar um divertido questionamento sobre as atribulações da vida moderna amparado em recursos admiráveis e francamente surpreendentes de efeitos visuais que conseguem replicar o ator Michael Keaton diversas vezes em cena, de uma maneira realista e sem traços visíveis da ilusão praticada, num resultado à época, sem precedentes no cinema –e olha que o tema da multiplicação de um protagonista em cena não era nem nunca foi algo muito novo ao cinema como atestam projetos distintos como o autoral “Gêmeos-Mórbida Semelhança”, a comédia “Cuidado Com As Gêmeas”, a ação “Duplo Impacto” ou o quintessencial “Um Corpo Que Cai”.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Objeto do Desejo

Uma daquelas produções datadas do início dos anos 1990 que ficaram mais conhecidas em homevideo do que em cinema, este filme do diretor Michael Lindsay-Hogg faz uma curiosa observação entre os conceitos de beleza e valor.
Pivô para esse olhar e esse discurso é uma escultura em busto concebida pelo artista Henry Moore que movimenta toda a trama.
Inicialmente, ele pertence à Tina (a inebriante Andie MacDowell), socialite que a ganhou de presente do ex-marido.
Tina agora está envolvida com Jake (John Malkovich), ao lado de quem quer desfrutar do bom e do melhor que a vida burguesa pode oferecer.
Há também a criada e surda-muda Jenny (Rudi Davies) que, em sua ignorância ingênua, dá o gatilho para as grandes complicações da trama, e para o próprio infortúnio.
Acontece que Tina e Jake já não têm como manter a vida de refinamento e conforto que tanto apreciavam. O dinheiro se foi. A única garantia, permanece sendo o busto deixado para Tina, uma obra preciosa cujo valor pode lhes preservar o patamar social.
Todavia, a estátua desaparece e tanto Jake quanto Tina se desesperam por seu sumiço por distintas razões e propósitos.
Para Jake (cuja relação com Tina começa a ruir por causa disso), é sua oportunidade de manter a vida de grã-fino que escapa misteriosamente por seus dedos; para Tina, é a inesperadamente agridoce lembrança do ex-marido (e estabilidade que outrora tinha) que se vai; já para Jenny, despida dos interesses financeiros ali envolvidos, a obra de arte exerce um fascínio a ela indescritível –de alguma forma, ela possui o poder de trazer encanto para sua vida atribulada e miserável.
Aparentando uma referência gaiata à “Esse Obscuro Objeto do Desejo”, de Luis Buñuel, em seu título nacional, o filme de Lindsay-Hogg, em sua ostensiva sofisticação, se contenta em oscilar entre uma comédia romântica, um ocasional drama sobre veleidades perdidas e uma farsa quase inconsequente sobre as frivolidades apáticas da burguesia e do materialismo.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A Musa


Embora situado na Costa Oeste americana –mais precisamente em L.A., Hollywood –e, por isso mesmo, uma oportunidade nem um pouco desperdiçada para uma sátira ao mundo do cinema, o humor realizado pelo ator e diretor Albert Brooks, em toda sua verve loquaz e sua observação auto-irônica, está fadado à injusta comparação com a obra de Woody Allen.
É bem verdade que ele não faz nada para ajudar: Numa série do que parecem ser reflexos condicionados, ele escala a si mesmo como protagonista; num personagem que ainda por cima, na reflexão sobre os dilemas da criação lhe é um perfeito alter-ego; cria diálogo intelectualizados em tom de galhofa; e discorre em seu roteiro um sem-fim de incertezas e neuroses acerca do processo criativo e, em última instância, da relação entre homens e mulheres.
Do jeito como está, Albert Brooks parece, portanto, clamar por ser visto como um herdeiro de Woody Allen.
Seu personagem é Steven Phillips, roteirista que acabou de receber um prêmio humanitário pela carreira em Hollywood –prêmio este apresentado por Cybill Sheperd.
Nem tudo, porém são flores: Já na manhã seguinte, Steven descobre o pouco interesse que seu nome desperta nos figurões de Hollywood. Seu último roteiro foi recusado por sua absoluta falta de graça e ele corre o risco de não conseguir mais emprego para sustentar sua mulher (Andie MacDowell) e seus filhos.
Ao procurar por um amigo (Jeff Bridges) para chorar suas pitangas, ele recebe uma sugestão improvável e estranha: Recorrer aos serviços de uma musa (!), uma mulher dotada de capacidades indescritíveis de inspirar outros indivíduos, descendente direta das nove musas da mitologia grega.
Interpretada por Sharon Stone com a exuberância de quem sabe ser a estrela do filme, a musa Sarah Little vai de encontro com o que se imagina dela: Já chega requisitando regalias como um luxuoso quarto de hotel, mordomias de superstar e extravagâncias culinárias dignas dos mais arrojados restaurantes.
Steven, que tem lá suas incredulidades em relação à musa sugerida pelo amigo, tem medo de que realmente sua inspiração não volte, e por isso submete sua predisposição a ser pão duro aos caprichos da musa –o que a leva, da suíte caríssima de hotel, a hospedar-se na casa dele próprio (!). Ironicamente, a presença da musa acaba inspirando a mulher de Steven que, incentivada pelos elogios aos seus biscoitos inicia uma bem-sucedida parceria com o chef de cozinha de um restaurante.
Acertando no gracioso quando mirava no ferino, o filme de Albert Brooks não destila a acidez contra o meio cinematográfico que ele gostaria (as pontas de Rob Reiner, James Cameron e Martin Scorsese são ilustrativas do deboche absolutamente inocente que ele faz), além de tratar a questão da “musa” de modo superficial, embora até guarde uma surpresa um pouco divertida em seu desfecho.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Feitiço do Tempo

Uma das melhores comédias realizadas nos anos 1990, este trabalho brilhante do diretor Harold Ramis equilibra certa reflexão filosófica com um humor irresistível e prazeroso, obtido graças ao fato do ator Bill Murray, assim como vários membros da equipe técnica e do elenco, estar em estado de graça.
Murray usa de seu impecável retrato do cinismo –cujo uso constante só não o rotulou porque Murray sempre ostentou uma insuspeita competência muito pouco reconhecida –para interpretar Phil Connors, o arrogante repórter de uma emissora de TV que, no dia registrado em questão, vê sua impaciência ser posta a teste durante o período em que, muito a contragosto, deve ir para a gélida cidadezinha de Punxsutawney (que nome, hein?!), na Pensilvânia, cobrir o evento chamado, Dia da Marmota.
Ele acorda –insatisfeito com as acomodações do hotel onde está hospedado –faz seu serviço (que basicamente resume-se a cobrir a evento em que a população assiste à uma marmota sair de dentro da terra) e dedica-se então a aporrinhar sua equipe (a produtora interpretada pela bela Andie McDowell e o cameraman interpretado por Chris Elliott) para ir embora logo de uma vez. Para sua indignação, não é o que acontece: A previsão do tempo alerta sobre uma nevasca, obrigando-os a ficar por lá.
É nesse ponto, contudo, que o filme de Harold Ramis dá sua maravilhosa guinada: Sem quaisquer explicações, sejam de ordem fantástica, literária ou até mesmo figurada, o dia se repete –Phil acorda na manhã seguinte e descobre que está vivendo novamente o dia anterior, e que somente ele parece se dar conta desse detalhe.
E no dia seguinte, tal loucura torna a acontecer, e no outro depois dele, sucessivamente. Phil se vê preso no que parece ser uma versão cômica de alguma premissa que ficaria muito bem num dos episódios da série de TV, “Além da Imaginação”.
Conforme se adapta à sua condição de existência contínua em um único dia, Phil experimenta as diferentes etapas que a mente humana atravessa rumo a uma espécie de amadurecimento: Perplexidade, euforia, graça, irritação, angústia, desespero e, por fim, aceitação.
“Feitiço do Tempo” não se enquadra naquela categoria de filmes, sobretudo comédias, que certos expectadores assistem com o superficial intuito de se divertir e depois esquecer (embora seja, sim, inapelavelmente divertido); ele se vale do humor para oferecer ao público uma noção descontraída e vívida do conceito de karma e dharma, o ciclo que engloba o objetivo de atingir equilíbrio e sabedoria e, por conseguinte, o domínio da psique, além de incluir o famoso conceito do Eterno Retorno, de Friedrich Nietzsche, nas entrelinhas graciosas de seu enredo.
Eis, então, o pulo do gato: Um filme divertido, otimista e contagiante, provido também de inúmeras camadas de interpretação.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sexo, Mentiras e Videotape

   Este brilhante e austero trabalho do ainda jovem diretor Steve Sodenbergh que, por seu domínio prodigioso de cena e impecável condução da trama conquistou a Palma de Ouro em Cannes em 1990, faz parte de uma tríade de grandes obras lançadas no fim da década de 1980 e começo da de 90 que promoveram uma transformação na percepção comercial e artística que público e crítica tinham então do cinema independente norte-americano: Foram elas, além deste “Sexo, Mentiras e Videotape”, “Faça A Coisa Certa”, de Spike Lee, e “Drugstore Cowboy”, de Gus Van Sant.
   O filme de Sodenbergh foi aquele que mais se beneficiou da generosidade das premiações do período, embora, por curiosidade, seu realizador viesse a encarar um consideravelmente longo período sem fazer nada relevante depois dele –foram necessários inúmeros projetos depois para que Sodenbergh voltasse a integrar, na década seguinte, com a sua bem-sucedida primeira parceria com George Clooney, o suspense “Irresistível Paixão”, a lista dos grandes diretores de Hollywood.
    Mas, isto é divagação. Voltemos ao filme em questão: Na trama ligeiramente inspirada em Douglas Sirk, mas carregada de um pertinente ímpeto de transgressão e renovação, Sodenbergh mergulha suas lentes (com indelével necessidade analítica) sobre as atitudes do bem-sucedido advogado John (Peter Gallagher) que mantém, ao mesmo tempo, um relacionamento distante com Ann, sua esposa frígida (Andie McDowell, mais linda do que nunca), e um caso adúltero com Cynthia, a cunhada fogosa (Laura San Giacomo), até que chega então um amigo dos tempos de escola, Graham (James Spader, numa sensacional e inspirada atuação), obcecado em gravar em vídeo os depoimentos mais íntimos das mulheres que conhece.
   Impotente, Graham encontra sua verdadeira fonte de excitação sexual ao assistir as imagens nas quais as mulheres com quem cruzou expõem suas experiências, confessam suas impressões acerca do sexo e revelam intimidades. Ele acaba assim se tornando um agente catalisador para uma série de reviravoltas que se operam a partir de seu envolvimento com o núcleo inicial de personagens.
     Esse viés ratifica a superficialidade de John, a fragilidade de Cynthia, e especialmente, o ímpeto de Ann, através da qual as mudanças mais dramáticas serão percebidas.

domingo, 5 de junho de 2016

Greystoke - A Lenda de Tarzan

Muitos foram os filmes que trataram das aventuras do homem-macaco. Tal qual Drácula e Sherlock Holmes, Tarzan é um herói tão icônico e arraigado na cultura pop que se tornou uma referência para tudo o quê, por ventura, lhe tenta se aproximar.
Filmes de Tarzan surgem desde os tempos do cinema preto e branco (a gloriosa fase dos filmes de Johnny Westmuller), chegando a existir até mesmo uma animação da Disney (de 1999, e uma das mais saborosas versões do personagem!).
Um novo filme está prestes a sair, com Alexander Skarsgard, como Tarzan, e a celestial Margot Robie, como Jane.
Mas, uma das versão mais inusitadas e curiosas do personagem surgiu, para variar, na década de 1980.
É chamada “Greystoke-A Lenda de Tarzan” (em referência ao Lorde de Greystoke, o título que Tarzan descobre pertencer à sua família quando tenta regressar à civilização), e trazia um campeão de natação no papel (como o fora Johnny Westmuller), em estréia no cinema, um certo Christopher Lambert, que depois ganharia fama com outro clássico oitentista, o divertido “Highlander-O Guerreiro Imortal”. Jane, por sua vez, era interpretada pela doce Andie MacDowell, num registro bem diferente da personagem visto em outras versões.
A trama, à rigor, é a mesma de sempre: Criado por macacos, após o desaparecimento e morte de seus pais em meio à selva africana, Tarzan é levado à Londres, onde conhece seu avô (Ralph Richardson) e passa a tomar conhecimento da origem aristocrática que lhe pertence.
Mas a civilização não tem um lugar para Tarzan, e ele nem mesmo deseja fazer parte dela.
Dessa forma, este filme intrigante se posiciona como uma releitura diferente, talvez, a mais desigual já realizada.
Pode-se dividi-lo em duas partes: A primeira, onde vemos a selva e a origem de Tarzan propriamente ganha forma, para logo conhecermos os outros personagens humanos.
Há um tom quase gore em muitas sequências que abusam da sanguinolência, o que vem a ser indicativo da direção escorregadia do inglês Hugh Hudson.
Com um prestígio meteórico adquirido pela consagração do drama esportivo “Carruagens de Fogo” junto ao Oscar 1981, Hudson foi escolhido pelo mesmo produtor daquele filme, David Puttman, para conduzir esta reformulação do personagem de Edgar Rice Burroughs. Mas, o próprio resultado final visto aqui demonstra que a aclamação ao diretor pode ter sido tão presunçosa quanto precipitada.
A segunda parte, quando Tarzan cede às instruções dos homens que o identificaram e vai para Londres agrega elementos mais dramáticos, com os quais o diretor Hudson se vê mais à vontade. É nessa parte (a despeito de cenas plasticamente admiráveis vistas no trecho da selva) que o foco da narrativa se evidencia ao observar o choque cultural do personagem e o esmero com que a caracterização de Christopher Lambert constrói um Tarzan mais visceral, e mais despojado, próximo de realidade animal.
O final surpreende na maneira com que ele encerra, num travo amargo a triste, o romance entre Tarzan e Jane, tão idealizado e feliz nas outras versões.

Dessa maneira, a despeito de suas inúmeras falhas, há em “Greystoke” uma série de elementos curiosos que diferenciam este trabalho do que pode ser considerado convencional. Eis aí um belo candidato à Cult.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Green Card - Passaporte Para O Amor

Um verdadeiro deleite este “Green Card”. Parece pertencer a uma classe cada vez mais rara de filmes desprovidos de cinismo que, hoje em dia, acabam rotulados de algo como “excessivamente ingênuos” justamente pelos cínicos. 
Desavisados poderão tomá-lo como uma mera comédia romântica e, embora o renomado diretor Peter Weir lhe dê indisfarçáveis características desse gênero, esse é um dado equivocado. “Green Card” é, primeiramente, uma jóia de roteiro, onde as situações, magnificamente arranjadas, se sucedem de maneira à evidenciar uma sinergia a interligar com ironia os feitos e efeitos do mundo, num processo cuja beleza só não passa, talvez, despercebida dos românticos. 
Não fosse isso, ainda seria um prazer constatar o elenco reunido para o filme. Andie MacDowell é linda, mas de uma beleza mais clássica, que não abre tanto espaço para conotações sexuais. Isso não aconteceu nem mesmo quando Steven Sodenbergh a colocou como um dos pivôs de seu drama humano em “Sexo, Mentiras e Videotape”. 
Sendo assim, é um contraponto, no mínimo, curioso, a presença de Gerard Depardieu como seu par. O francês, contudo, precisa de muito pouco tempo em cena para desabilitar o fato de que ela é bela e cativante, enquanto que ele é mundano, exótico e deliciosamente vulgar. Ele também é um músico e, vindo da França para fazer fortuna nos EUA, depende de um green card, fornecido aos estrangeiros casados com mulheres norte-americanas. Ela, por sua vez, precisa de um apartamento com estufa para o cultivo de suas plantas, dificílimo de achar em Nova York, mas cujo proprietário só aluga para inquilinos casados. Os dois completos estranhos fazem um arranjo, assim, que beneficia a ambos. Mas, aos poucos, complicações começam a aparecer, sobretudo, na tentativa de provar que, por mais improvável que possa parecer, eles são um casal. Seus encontros e desencontros são mágicos. A exemplo de alguns dos grandes filmes de romance do cinema, serão suas divergências que irão moldar a química por meio da qual se descobrirão feitos um para o outro.
Um filme perfeito para se assistir com o coração aberto.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Short Cuts - Cenas da Vida

Dentre todos os diretores norte-americanos, aquele que mais logrou o objetivo de realizar um painel, um afresco acerca dos micro-cosmos que abordava, sempre foi Robert Altman. 
Oriundo do teatro, de onde tirou muitos dos artifícios que pôs em prática em sua carreira cinematográfica, ele era adepto de elencos numerosos, e de um clima de improviso constante no set: Não à toa, isso atraia grandes nomes para seus filmes. 
Por uma série de razões, “Short Cuts” é um de seus trabalhos mais memoráveis, em meio a tantas obras essenciais como “O Jogador”, “Nashville”, “O Perigoso Adeus” e “Assassinato em Gosford Park”.
Aqui, Altman mergulha na adaptação de vários contos de Raymond Chandler, descobrindo no processo o quando esse escritor (cronista nato da angústia corriqueira da sociedade americana) é tão similar a ele. 
São cerca de vinte e dois contos, mesclados uns aos outros, até o ponto de parecerem indivisíveis. Juntos formam um painel de três horas de duração das idiossincrasias ocultas nas entranhas de personagens vingativos, cruéis, perversos até, mas que se travestem de pessoas absolutamente normais.
Não é fácil para o frustrado Jerry (Chris Penn) acompanhar a rotina de sua esposa Lois (Jennifer Jason Leight) que, ao mesmo tempo em que cuida da casa e dos filhos, divide-se no serviço de atendente de sexo por telefone a fim de completar a renda mensal. Uma raiva reprimida cresce dentro dele. Assim como também cresce em seu amigo, Bill (Robert Downey Jr.) que busca extravasar a própria crueldade fazendo maquiagens de agressão violenta e sanguinária na própria mulher, a passiva Honey (Lily Taylor).
Já, a dona de casa Ann (Andie MacDowel) experimenta aborrecimentos inesperados na forma de inconvenientes ligações do padeiro Andy (Lyle Lovett) enquanto tem de lidar com uma tragédia inominável, ao mesmo tempo em que seu pai reaparece (Jack Lemmon); diretamente envolvida nisso, a frustrada garçonete Doreen (Lily Tomlin) tenta dar a volta por cima numa happy hour com o marido Earl (Tom Waits); e por falar em happy hour, a tensão pode comprometer a descontração na festa planejada por Marian (Julianne Moore) e Ralph (Matthew Modine) ao lado dos amigos Claire (Anne Archer) e Stuart (Fred Ward), quando uma inesperada discussão de relação se inicia, tudo por conta da tensão sexual resultante do fato de ela pintar quadros com a própria –e exuberante –irmã nua (Madeleine Stowe) em frente ao marido (!).
Alheios a tudo isso, os amigos pescadores Vern (Huey Lewis) e Gordon (Buck Henry), junto do próprio Stuart, não permitem que nem a descoberta de um cadáver interfira em sua pescaria de fim de semana.
Por outro lado, Stormy (Peter Gallagher) planeja transformar a vida de Betty (Frances McDormand) sua iminente ex-esposa, em um inferno.
Um apanhado espetacular de histórias intrinsecamente conectadas (através de seu tom, de sua proposta, de pequenos detalhes e de múltiplas co-relações que se podem ser estabelecidas) onde a sondagem oferecida fornece um notável e raro panorama para interiores psicológicos imensamente intrigantes: Essa sempre foi uma das grandes qualidades de Robert Altman, montar uma encenação na qual sentimentos como o rancor, a rejeição, a aflição e até mesmo a fúria em sua expressão mais palatável, se revelam impulsos astutos para os pequenos desenlaces dos dramas humanos.