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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Como Eliminar Seu Chefe

Bem antes de “O Diabo Veste Prada”, esta comédia deliciosa e ágil já divertia o público amparada em observações irônicas sobre o papel da mulher no ambiente trabalhista moderno.
Leva um tempo até que as protagonistas Judy (Jane Fonda), Violet (Lilly Tomlin) e Doralee (Dolly Parton, cantora country que se arriscava como atriz) –todas fabulosas –componham um trio de fato e se unam no objetivo principal do filme.
Judy é recém-divorciada e sua inclusão no mercado de trabalho vem com certa melancolia e assombro –ela ainda não conhece (mas, irá conhecer) as tremendas injustiças inerentes à condição da mulher na vida profissional.
Já, Violet é nisso uma veterana. Há doze anos ela engole sapos diariamente enquanto aguarda com paciência uma promoção que fará seu cargo valer a pena.
Doralee, por sua vez, estaria até em situação satisfatória não fosse o estranho fato –completamente inexplicável para ela –de todas as colegas de escritório lhe olharem pelas costas, crentes de que ela é amante do patrão.
Para todas elas –e para praticamente todos no andar em que trabalham –seus aborrecimentos profissionais veem de um único indivíduo: O arrogante, egoísta e dissimulado chefe de seu departamento, Franklin Hart (Dabney Coleman, de “Tootsie”, “Os Heróis Não Têm Idade” e “Sem Jeito Para Morrer”).
Quando finalmente se tornam amigas, as três compartilham a mesma vontade de dar cabo em grande estilo do intolerável patrão: Judy se vê caçando-o dentro do escritório (!), com direito a tiros de espingarda e tudo; Doralee quer laçá-lo e amarrá-lo à moda do Texas; enquanto que Violet –num delírio que envolve até mesmo desenhos animados mesclados aos atores, como “Uma Cilada Para Roger Rabbit” –gostaria de surpreende-lo com uma poção especial no café que ele, ignorando a dignidade do cargo dela, lhe pede todos os dias.
Pois eis que a sua maneira, algo maniqueísta, o filme escrito e dirigido pelo falecido Colin Higgins, irá proporcionar a realização indireta de cada um desses sonhos: Numa distração favorecida pela indignação, Violet troca, sem querer, o açúcar do café por veneno para rato (!), e acredita que foi isso que despachou Hart para o hospital. Não foi: Antes de tomar um gole, ele caiu da cadeira e bateu com a cabeça (!).
No hospital, ela, Judy e Doralee armam uma confusão tremenda quando têm a ideia de encobrir o que acreditam ser um crime, roubando o cadáver –que, na verdade, é um cadáver de uma testemunha da polícia, e não Hart!
Elas resolvem um problema, mas arrumam outro, quando Hart toma conhecimento de todo esse mal-entendido, obrigando Doralee, ao fim do expediente, a amarrá-lo em sua sala (!), e logo mais, Judy, a detê-lo com um tiro quase fulminante (!).
Quando as três decidem deixa-lo preso em uma casa até bolarem um plano para tira-lo de cena sem que comprometa suas vidas, o filme o Higgins começa a perder consideravelmente seu fôlego e seu ritmo –que, em sua primeira parte, ele ostentou com vibração e fulgor.
O desfecho, embora satisfatório e simpático, não consegue escapar de soar forçado e sem muito nexo ao depositar a resolução das principais questões da trama no personagem interpretado pelo veterano Sterling Hayden, parecendo providencial demais –aparenta nem ser o mesmo roteiro perspicaz e astucioso com o qual o filme começou.
Se há, porém, uma qualidade que se mantém intocável e cintilante do início ao fim de “Como Eliminar Seu Chefe”, é o carisma e o timing cômico impecável de seu maravilhoso trio de protagonistas. Juntas –e exibindo cada uma um estilo sensacional e específico –Jane Fonda, Lilly Tomlin e Dolly Parton carregam o filme nas costas e elevam o nível mediano de sua comédia.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Short Cuts - Cenas da Vida

Dentre todos os diretores norte-americanos, aquele que mais logrou o objetivo de realizar um painel, um afresco acerca dos micro-cosmos que abordava, sempre foi Robert Altman. 
Oriundo do teatro, de onde tirou muitos dos artifícios que pôs em prática em sua carreira cinematográfica, ele era adepto de elencos numerosos, e de um clima de improviso constante no set: Não à toa, isso atraia grandes nomes para seus filmes. 
Por uma série de razões, “Short Cuts” é um de seus trabalhos mais memoráveis, em meio a tantas obras essenciais como “O Jogador”, “Nashville”, “O Perigoso Adeus” e “Assassinato em Gosford Park”.
Aqui, Altman mergulha na adaptação de vários contos de Raymond Chandler, descobrindo no processo o quando esse escritor (cronista nato da angústia corriqueira da sociedade americana) é tão similar a ele. 
São cerca de vinte e dois contos, mesclados uns aos outros, até o ponto de parecerem indivisíveis. Juntos formam um painel de três horas de duração das idiossincrasias ocultas nas entranhas de personagens vingativos, cruéis, perversos até, mas que se travestem de pessoas absolutamente normais.
Não é fácil para o frustrado Jerry (Chris Penn) acompanhar a rotina de sua esposa Lois (Jennifer Jason Leight) que, ao mesmo tempo em que cuida da casa e dos filhos, divide-se no serviço de atendente de sexo por telefone a fim de completar a renda mensal. Uma raiva reprimida cresce dentro dele. Assim como também cresce em seu amigo, Bill (Robert Downey Jr.) que busca extravasar a própria crueldade fazendo maquiagens de agressão violenta e sanguinária na própria mulher, a passiva Honey (Lily Taylor).
Já, a dona de casa Ann (Andie MacDowel) experimenta aborrecimentos inesperados na forma de inconvenientes ligações do padeiro Andy (Lyle Lovett) enquanto tem de lidar com uma tragédia inominável, ao mesmo tempo em que seu pai reaparece (Jack Lemmon); diretamente envolvida nisso, a frustrada garçonete Doreen (Lily Tomlin) tenta dar a volta por cima numa happy hour com o marido Earl (Tom Waits); e por falar em happy hour, a tensão pode comprometer a descontração na festa planejada por Marian (Julianne Moore) e Ralph (Matthew Modine) ao lado dos amigos Claire (Anne Archer) e Stuart (Fred Ward), quando uma inesperada discussão de relação se inicia, tudo por conta da tensão sexual resultante do fato de ela pintar quadros com a própria –e exuberante –irmã nua (Madeleine Stowe) em frente ao marido (!).
Alheios a tudo isso, os amigos pescadores Vern (Huey Lewis) e Gordon (Buck Henry), junto do próprio Stuart, não permitem que nem a descoberta de um cadáver interfira em sua pescaria de fim de semana.
Por outro lado, Stormy (Peter Gallagher) planeja transformar a vida de Betty (Frances McDormand) sua iminente ex-esposa, em um inferno.
Um apanhado espetacular de histórias intrinsecamente conectadas (através de seu tom, de sua proposta, de pequenos detalhes e de múltiplas co-relações que se podem ser estabelecidas) onde a sondagem oferecida fornece um notável e raro panorama para interiores psicológicos imensamente intrigantes: Essa sempre foi uma das grandes qualidades de Robert Altman, montar uma encenação na qual sentimentos como o rancor, a rejeição, a aflição e até mesmo a fúria em sua expressão mais palatável, se revelam impulsos astutos para os pequenos desenlaces dos dramas humanos.