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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Eccho Valley


Com o apelo de trazer duas belas e talentosas atrizes de diferentes gerações, "Eccho Valley" se sustenta com um roteiro tensos, equilibrado entre revelações bombásticas, amparado no trabalho de um elenco ora funcional, ora básico que, na medida do possível, entrega um filme válido ao expectador que souber conter suas expectativas.

Julianne Moore é Kate Garrett, personagem às voltas com um cotidiano amargo, a sair de um período depressivo –não muito tempo atrás, ela perdeu a companheira, alguém por quem abandonou o casamento com Richard (Kyle McLachlan). O fruto de tal casamento é a jovem Claire (Sydney Sweeney, jovem estrela em ascensão, num papel que aparenta ser protagonista, mas que se revela quase uma coadjuvante), garota problemática, envolvida com drogas e companhias nada confiáveis.

Enquanto passa seus dias na fazenda de cavalos Eccho Valey, localizada no sul da Pensilvânia, dando aulas de equitação, e mantida financeiramente por Richard com cada vez mais relutância, Kate testemunha Claire ir e vir de sua vida sem maiores explicações. Quando Claire precisa de dinheiro ela aparece. Quando precisa de um celular novo, ou de qualquer outra coisa também; na sequência, ela retorna para a vida desregrada de sempre.

Numa dessas ocasiões, ela é seguida por Ryan (Edmund Donovan), seu namorado traficante, e por Jackie (Doomhall Gleeson), o perigoso fornecedor de drogas dele.

Embora os problemas, juntos desses personagens, sinalizem à distância com sua chegada, para o público, e até mesmo para a própria Kate, ela não evita sua aproximação –porque Claire é sua filha, e o fato de amá-la a torna conivente para com todos os seus lapsos.

As coisas começam a se complicar de verdade quando Claire aparece numa noite completamente abalada, afirmando ter matado Ryan acidentalmente –e deixado seu cadáver envolto em plástico dentro do carro!

O diretor Michael Pearce consegue construir um clima de tensão relativamente satisfatório e intenso durante toda a duração do filme, sua grande conquista é manter o público alheio às pontuais guinadas narrativas que começam a se suceder na segunda metade (algumas delas, muito bem-vindas), todavia, “Eccho Valley” está anos-luz de ser uma obra perfeita: Embora conte com intérpretes funcionais e competentes na maior parte do tempo (além dos já citados, temos também Fiona Shaw, de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”, num papel fundamental), os personagens são construídos com um rigor que lhe drena todo o magnetismo, levando o expectador, na maior parte das situações esboçadas, a irritar-se com suas falhas, os exemplos mais usuais e frequentes são, claro, as protagonistas, a mãe conivente, muitas vezes omissa e repetidamente passiva de Julianne Moore, e a filha problemática, dissimulada, manipuladora e vitimista de Sydney Sweeney –o carisma e o encanto natural das duas atrizes por muito pouco sobrevive à essa dura prova de fogo!

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O Grande Lebowski


 A premissa do “homem errado” rendeu alguns dos melhores filmes de Alfred Hitchcock, mas nas mãos dos Irmãos Coen ela representa o ponto de partida de uma de suas obras mais notáveis: O quê passa longe de ser pouca coisa.

Mais conhecido como Dude pelos amigos que, como ele, freqüentam o mesmo bar de boliche, Jeff Lebowski (Jeff Bridges, sensacional) descobre da pior maneira que tem um homônimo milionário: Enrascadas relacionadas a esse outro Lebowski vêem até ele atrapalhar sua tranqüilidade movida à maconha e ócio –a pra lá de jovem esposa desse velho magnata desapareceu (ou foi raptada) e os responsáveis por esse ocorrido não o deixam em paz.

De um lado, o outro Lebowski (David Huddleston, de “Banzé No Oeste”), milionário cadeirante e assoberbado, o quer como intermediário no momento de pagar o resgate –afinal, o Dude é o único capaz de dizer se os sequestradores e os homens violentos que inutilizaram seu precioso tapete da sala são as mesmas pessoas.

Para ajudá-lo (ou seria atrapalhá-lo?), Dude conta com o insano Walter (John Goodman, hilário), parceiro do torneio de boliche e completamente pinel devido à sua experiência na Guerra do Vietnam –reza a lenda que os Coen basearam esse personagem divertidíssimo, irredutível e impagável no diretor John Milius (de “Conan-O Bárbaro”).

Tentar descrever “O Grande Lebowski” é uma tarefa relativamente ingrata: Os Coen valeram-se de seu talento desigual para criar uma obra engraçadíssima, cuja natureza ligeiramente intrincada remete ao estilo detetivesco do autor Raymmond Chandler por pura graça, mas cuja trama a envolver crime e suspeita fica, por assim dizer, em segundo plano. O destaque quase sempre são exatamente seus personagens, um mais bizarro e idiossincrático que o outro, e as circunstâncias nas quais diferentes dinâmicas se estabelecem a partir de encontros movidos por distintos interesses, sempre com o personagem de Jeff Bridges como uma espécie de mestre de cerimônias.

Além de Dude e Walter, o velho milionário Lebowski e sua jovem e nada confiável esposa (Tara Reid, de “American Pie”), temos o braço-direito do velho rico, vivido com sofisticação caricata por Phillip Seymour Hoffman, o  pacato amigo do boliche Donnie (Steve Buscemi), o adversário do torneio Jesus Quintana (John Turturo, numa participação breve, irrequieta e antológica), o arremedo de ator pornô travestido de bandido de meia-tigela vivido por Peter Stormare (de “Fargo” e “Minority Report-A Nova Lei”), a artista plástica, excêntrica e egocêntrica, filha do Velho Lebowski (Julianne Moore), o gangster da pornografia interpretado com fleuma inacreditável por Ben Gazarra, e o cowboy –e também narrador do filme –que calmamente interfere vez ou outra na narrativa como quem não quer nada (Sam Elliot, formidável).

Originário de um culto quase sem precedentes no cinema –há relatos até mesmo de uma religião surgida a partir dos preceitos e da filosofia de vida do Dude (!?) –o filme dos Irmãos Coen foi um fracasso comercial na época de seu lançamento em 1998, mas foi redescoberto pelo público ao longo dos anos até se tornar um fenômeno cultural. Isso se deve, sem sombra de dúvidas, ao fato de que os expectadores de então não perceberam de imediato seu humor tão complexo quanto irresistível, sua abordagem desigual de comportamentos esquisitos (mas que depois ditaram moda) e na manutenção imprevista de uma trama tão carregada de nuances originais que foi precipitadamente tachada de non-sense.

Em resumo: Que filme sensacional os Coen fizeram!

domingo, 23 de agosto de 2020

Virada No Jogo

Julianne Morre venceu o Oscar 2015 de Melhor Atriz por “Para Sempre Alice”, contudo, muitos são os que afirmam que o ponto alto de sua carreira predominantemente cinematográfico foi, por ironia do destino, o filme televisivo “Virada No Jogo”, pelo qual ela conquistou diversos prêmios anos antes, incluindo o Emmy Awards 2011 de Melhor Atriz.
Se “Virada de Jogo” tivesse sido feito para cinema é quase certo que o Oscar seria dela.
O filme também marca a consagração do premiado roteirista Danny Strong (que depois escreveria “Jogos Vorazes-A Esperança”), desenvolvendo uma trama sólida, eficiente e instrutiva a partir de eventos reais de ramificações escorregadias com personagens que não raro resvalam em certa ambiguidade; e ainda configura mais um belo exemplo da faceta desconhecida do diretor Jay Roach, mais conhecido por comédias deliberadamente grosseiras (como “Entrando Numa Fria”) e menos por suas austeras e elogiadas incursões na história da política norte-americana –entre as quais se insere “Virada de Jogo”.
Em 2008, os partidos americanos Republicano e Democrata iniciaram mais uma disputa à presidência da nação tendo como candidatos o veterano John McCain (Ed Harris) de um lado, e Barack Obama, de outro. Logo, ficou claro a grande vantagem populista que o carisma de Obama lhe garantia perante seu adversário.
Tentando compensar o tradicionalismo republicano sugerido pela figura de McCain, o seu principal conselheiro político Steve Schmidt (Woody Harrelson, sempre ótimo) sugeriu uma escolha estratégica para o candidato à vice-presidência: Alguém que despertasse a identificação dos eleitores e eleitoras indecisos, aos quais McCain não tinha apelo.
Entre várias opções logo surge o nome de Sarah Palin (Julianne Moore), governadora do estado do Alasca.
Cristã, ex-prefeita de sua cidade-natal e exercendo o cargo de governadora à 18 meses, Sarah surge como uma escolha providencial: Tinha predicados republicanos o bastante para agradar os ainda reticentes membros conservadores do próprio partido e representava uma opção diferenciada de inclusão capaz de fazer frente à proposta que tornava Obama tão fascinante aos olhos do público.
A aprovação de McCain e de todo o seu comitê eleitoral chegou quando ficou comprovado também que Sarah Palin tinha tanto carisma junto ao público norte-americano quanto seu adversário.
Entretanto, na pressa em realizar um opção bombástica que arrebatasse a eleição, o conselho de McCain deixou passar indícios que, ao longo da campanha, se tornaram gritantes: Nada familiarizada com política externa, a governadora Palin mostrou-se de um despreparo desconcertante em entrevistas que só fizeram abastecer às críticas à campanha de McCain e as várias sátiras que ela própria sofreu no processo –a famosa imitação de Tina Fey é mostrada inúmeras vezes.
Contudo, a própria Sarah não desejava desistir: Por sua competividade natural, pelo desejo de não desapontar McCain e por uma crença legítima (e ingênua) na qual queria o melhor para os EUA, ela submeteu-se a todo o escrutínio da máquina política norte-americana, o que incluiu o circo midiático formado em torno dela e que logo a transformou na figura central da oscilante derrocada da campanha de McCain.
Ela até tentou –seu debate vice-presidencial vitorioso contra o Senador Biden, recriado com primor e euforia é grande exemplo disso –mas, a forte pressão logo cobrou seu preço: Sarah ficou a beira de um colapso nervoso passando à ignorar as orientações de seus auxiliares de campanha.
Quando uma crise era superada, outra surgia: Na reta final da campanha, ciente de que seu apelo junto ao público carregava a popularidade (e os votos) de McCain nas costas, Sarah deixou que um certo estrelismo a afetasse; passou a mudar deliberadamente as decisões do roteiro eleitoral e a contradizer várias alegações feitas no começo à luz de alguma humildade.
O filme de Jay Roach revela detalhes peculiares e novelescos sobre esses bastidores, sempre mantendo um equilíbrio raro e impecável entre o gracejo, a crítica e a compaixão –Sarah Palin é recriada em minimalismos pontuais pela atuação brilhante de Julianne Moore sem cair na armadilha da caricatura e sem ceder à tentação do enaltecimento.
Pode parecer simples numa primeira impressão, mas o que é obtido em “Virada de Jogo” está longe de ser algo fácil ou comum: Um olhar sem retoques das imbricações éticas e circunstanciais da corrida eleitoral, onde seus retratados adquirem humanidade e dignidade, sem no entanto perder o viés de desleixo e falha que os levou à derrota.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Controle Absoluto

Rendendo uma bem azeitada parceria em “Paranoia”, o jovem astro Shia LaBeouf e o diretor D.J. Caruso tornaram a reunir-se sob a asa do produtor Steven Spielberg neste projeto consideravelmente mais ambicioso.
Houve quem dissesse, na época, que se “Paranoia” era uma versão modernizada de “Janela Indiscreta”, então, “Controle Absoluto” era uma versão modernizada de “Intriga Internacional”.
Não é bem assim.
Co-produzido por Alex Kurtzman e Robert Orcci e roteirizado por Dan McDermott (autor da ideia original), John Gleen, Hilary Seitz e Travis Adam Wright, “Controle Absoluto” era uma trama de espionagem e aventura das mais mirabolantes a tentar unir, num único pacote, elementos da então festejada “Trilogia Bourne”, o reverberante temor americano pós-11 de setembro, tecnologia de ponta (com o vasto aparato de câmeras de segurança, redes de network e aparelhos celulares surgindo como ferramentas fundamentais no roteiro), ação ininterrupta, uma discussão algo rasa sobre a vigilância governamental e referências pós-modernas ao Grande Irmão de “1984 de Orwell”.
Uma das pontas soltas do emaranhado de fios narrativos que vai se construindo ao longo do filme, o personagem de Shia LaBeouf, Jerry Shaw, recebe a devastadora notícia da morte de seu irmão gêmeo.
Paralelamente, outras coisas acontecem, como o fato de Rachel, a mãe solteira vivida por Michelle Monaghan, deixar seu filho pequeno ir, de trem, a uma apresentação musical de sua escola, na cidade de Washington.
No mesmo dia, Jerry recebe em seu apartamento, uma misteriosa remessa de armas e apetrechos que o tornam um suspeito de terrorismo aos olhos da lei –uma das muitas manobras sem muita lógica do roteiro que parece mais interessado em justificar o corre-corre do que em estruturar uma trama sem furos. Na delegacia, Jerry recebe o telefonema de uma mulher desconhecida (na voz da atriz Julianne Moore, à propósito) que lhe instrui, de forma quase premonitória, à perpetrar uma fuga inacreditável: Um guindaste arromba a parede da sala onde ele se encontra, e a tal voz parece ser capaz de controlar o fluxo dos trens do metrô para faze-lo seguir o rumo que ela deseja.
O mistério acerca de quem ou o quê é a voz no telefone não se sustenta do modo como poderia se imaginar –ou porque, em sua empolgação, o diretor Caruso não demanda maior atenção a isso, ou porque lhe falta perspicácia para realizá-lo: A voz é, pois, de uma inteligência artificial operando de dentro do próprio Pentágono e, no plano nebuloso que ela parece desenvolver, estão incluídos não só os perplexos Jerry e Rachel (que, coagidos cada qual à sua maneira, logo se veem lado a lado), como também o Agente do FBI Thomas Morgan (Billy Bob Thornton), a Investigadora da Força-Aérea Zoe Pérez (Rosario Dawson), o Major Bowman (Anthony Mackie, antes de virar o Falcão em “Capitão América-Soldado Invernal”) e o Secretário de Defesa Callister (Michael Chiklis, da série “The Shield” e do filme “Parker”).
Acelerado, dotado de uma produção ostensiva à cargo de Spielberg, e orgulhoso das reviravoltas que entrega minuto e minuto num ritmo perigosamente enervante e quase inverossímil, “Controle Absoluto” é um filme de ação high-tech a demonstrar, acima de tudo, um comando bastante seguro e convicto de D.J. Caruso, que não perde a mão, nem mesmo quando o filme ameaça ruir diante das próprias pretensões narrativas na sua parte final.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Psicose

Hoje soa algo absurdo, mas em 1998, um estúdio de cinema, um produtor, uma equipe técnica e todo um elenco não chegaram a achar que a ideia do diretor Gus Van Sant em refilmar o clássico “Psicose”, de Alfred Hitchcock, fosse assim tão equivocado.
Mais: Van Sant não tinha em seus planos uma recriação, uma reinvenção ou mesmo uma repaginação (isso também foi feito, anos depois, na série “Bates Motel”), não, sua intenção era refazer a obra de Hitchcock frame a frame, repetindo os enquadramentos de câmera, mantendo a única iniciativa de acrescentar cores à fotografia outrora preto & branco.
Seu pretexto era a apresentação de uma obra fundamental à uma nova geração criada a base de MTV –e, ao qua parece, tão alienada que era incapaz de procurar um filme mais antigo em alguma locadora que o tivesse à disposição...
O filme até começa promissor, com um take de câmera ininterrupto (um traveling de helicóptero sobrevoa São Francisco e entra dentro da janela de um apartamento) que estava nos planos de Hitchcock, mas que na época as restrições técnicas não permitiram a ele sua viabilização. Assim, na personagem antes vivida por Janet Leigh, temos Anne Heche interpretando Marion Crane, a secretária prestes a passar a perna no próprio chefe; e destinada a pagar caro por isso. A fim de obter o mesmo resultado pretendido por Hitchcock (o de descartar em pleno filme a personagem que aparentava ser a principal), Van Sant tinha a intenção de escalar Nicole Kidmam para o papel (ela havia filmado com ele o ótimo “Um Sonho Sem Limites”), mas os conflitos de agenda não permitiram.
Durante sua fuga, de posse do dinheiro roubado do patrão, Marion chega no Bates Motel onde conhece seu estranho proprietário, Norman Bates.
Incorporado com tamanha adequação ao papel por Anthony Perkins que sua carreira custou a desvencilhar-se da sombra do personagem, Norman Bates é aqui vivido por Vince Vaughn que revela-se uma escolha bastante estranha: Grandalhão feito um jogador de basquete e inexpressivo, Vaughn em nada corresponde ao Norman de Perkins, cujas características errádicas, hesitantes e socialmente ineficazes escondem sua periculosidade sobre um verniz de timidez extrema.
Em vez disso, o Norman de Vaughn é claramente ameaçador, suspeito no sentido genérico do termo e lembra, por vezes, o capanga de um bandidão de fato.
Se você conhece “Psicose”, você sabe o que se sucederá –em nada o filme de Van Sant altera a ordem dos acontecimentos do filme de Hitchcock, revelando somente uma incapacidade mambembe de preservar a mesma maestria: A montagem magistral da cena da morte no chuveiro (estudada por alunos e professores de cursos de cinema) é recriada com cacoetes questionáveis e claudicantes; o desenho de som (responsável pela tensão de inúmeras passagens) é negligenciado a ponto de banalizar muitos momentos outrora antológicos; e o que resta do elenco –Julianne Moore, Viggo Mortensen (antes do “O Senhor dos Anéis”!) e William H. Macy –se esforça em vão para acrescentar credibilidade a um caso perdido.
Por conta de todos esses erros, quando chegamos ao trecho final –que na obra de Hitchcock abriga uma das mais eletrizantes e estarrecedoras reviravoltas do cinema –a reação do público ainda interessado aos acontecimentos é mais de chacota que de assombro.
Involuntariamente, a única serventia do “Psicose” de Gus Van Sant foi provar o quanto inestimável e inimitável era o “Psicose” de Alfred Hitchock e sua técnica então prodigiosa –pois, o enquadramento podia ser o mesmo, o roteiro, com suas sequências e diálogos, poderia ser o mesmo, até a mecânica das cenas poderia se repetir, mas havia uma magia na concepção daquela, e de outras obras-primas do cinema, que o mero e vazio esforço de reprodução não conseguiam replicar.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Pecados Inocentes

Neste filme de conotações extremamente perturbadoras, Julianne Moore, sempre maravilhosa, entrega uma atuação que remete a ecos de seus trabalhos inquisitivos em “Longe do Paraíso” e “À Salvo”, além de também se perceber uma observação similar a de sua personagem em “Boogie Nights” onde os erros cometidos parecem ser incapazes de fazer uma personalidade irredutível compreender aonde errou.
“Pecados Inocentes”, dirigido por Tom Kalin com um distanciamento antropológico que chega a lembrar vagamente Martin Scorsese em “A Época da Inocência”, se incumbe de relatar um chocante caso real ocorrido em meados de 1969.
Antes disso, ele sedimenta a estranha e obcecada relação de dependência psicológica formada entre a socialite Barbara Baekeland (Julianne) e seu único filho, Tony.
O casamento entre Barbara e o marido Brooks (Stephen Dillane, de “As Horas”) era um amálgama de ressentimentos, tédio e provocações constantes.
Intempestiva e ocasionalmente atrevida, Barbara não se encaixava na burguesia francesa da Paris dos anos 1950 onde durante um bom tempo eles moraram. O nascimento do filho, Tony, preencheu a lacuna deixada pelas amizades fracassadas e pela frustrante vida social; no entanto, por conta disso, Barbara criou com o filho, desde tenra idade, uma relação simbiótica que tornou-se doentia a medida que ele foi crescendo –e que, no filme, na maior parte das vezes ganha um registro até ameno e elíptico.
Quando Tony já tem dezoito anos (e é, pois, interpretado por Eddie Redmayne) e suas tendências homossexuais começam a ficar mais evidentes, os acontecimentos diretamente relacionados à tragédia começam a se suceder: Entre outros jovens amantes, ele arruma uma namoradinha de verão, Blanca (vivida pela espanhola Elena Anaya) que, um ano depois, torna-se amante de seu pai (!) e pivô da separação definitiva dele e de sua mãe.
A indignação com tal situação leva Barbara a buscar alento primeiro nos braços de Sam (Hugh Dancy, de “Histeria”, “Martha, Marcy, May, Marlene” e “Falcão Negro Em Perigo”) que torna-se amante de Tony também (!!), e depois, a mudar-se para Londres a fim de dar vazão ao seu lado artístico.
Nesse ponto, porém, Barbara e Tony já partilham de uma natureza sexual tão insólita que sua relação não tarda a galgar para o incesto (!) e então para uma psicopatia latente que o rapaz ainda não havia conseguido extravasar.
Realizado com um distanciamento emocional que torna o filme por vezes indigesto, o trabalho do diretor Kalin flutua com pretensa elegância pelos momentos incômodos (que se intensificam consideravelmente na meia hora final) ostentando uma atenção nem sempre apropriada ao elaborado detalhamento cênico. E sua abordagem do incesto entre mãe e filho não surge displicente, como em “La Luna”, nem nostálgica, como em “O Sopro do Coração”, mas imbuída de um distúrbio torpe e corrosivo.
Se Eddie Redmayne entrega uma interpretação carente de maiores retoques, a produção teve a sorte de contar com Julianne Moore, aquele tipo de atriz que consegue tirar leite de pedra: Ela trabalha magnificamente as facetas dessa personagem complexa e ingrata, sabendo enfatizar os aspectos mais apetecíveis aos olhos do público em cada etapa para que o teor trágico da premissa não se torne de pronto insuportável: Na primeira parte, ela é inesperadamente sensual; na segunda, sua perplexidade ganha até um pouco de simpatia (podendo até enganar expectadores desavisados com o filme); e na terceira e última, sua composição evidencia os esforços vazios, quase à beira da insensatez, de Barbara em manter sólida uma estrutura familiar que se espatifa em pedaços.
É aquele caso em que a atriz está anos-luz a frente do filme que protagoniza.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Longe do Paraíso

“Logo além do pecado, se encontra um mundo encantado”
Era inevitável a constatação de que o cinema de Todd Haynes, atento ao contraponto entre a normalidade das superfícies e o caos das profundezas, se ombreasse de alguma forma, à obra de Douglas Sirk, o diretor norte-americano que dedicou seu olhar à expor com forte melodrama as condenações implícitas da sociedade nos anos 1950.
Ao emular Sirk em “Longe do Paraíso”, Todd Haynes leva sobre ele a vantagem de pertencer ao presente, e com isso ter liberdade autoral para tratar abertamente de temas que na filmografia exigidamente discreta dele seriam completamente velados e absolutamente sugeridos, tais como o homossexualismo.
A vida de Cathy Whitaker (Julianne Moore, tão maravilhosa quanto na primeira colaboração com Haynes, “À Salvo”) aparenta ser imaculada –e tal perfeccionismo a leva a ilustrar capas de notícias enaltecendo sua vizinhança.
Entretanto, o filme de Haynes não tarda a revelar fissuras em meio à suposta perfeição. O marido de Cathy, Frank (Dennis Quaid, excelente) é ausente, cria justificativas tolas para não voltar para casa e, em instantes tratados com elegante elipse, Haynes vai deixando claro que algo está errado na harmonia do lar.
Num flagra tão doloroso quanto desconcertante, Cathy descobre o porquê: Frank é homossexual e muitas vezes não consegue conter seu ímpeto para buscar outros parceiros noite afora.
Ainda assim, ele tem consciência de que muita coisa depende da fachada de perfeição erguida em seu lar: Sua família (composta também por um casal de filhos pequenos e carentes de atenção paterna); seu emprego e, por consequência, seu futuro.
Frank se dispõe a submeter-se a todos os procedimentos médicos e psiquiátricos que supostamente poderiam tratar esse comportamento, como bem sinalizava a ciência dos anos 1950 de então, por meio do prisma preconceituoso da época.
No entanto, embora seja Frank e seu tormento o gatilho narrativo para as mudanças da premissa, é em Cathy que o eixo dramático de fato se concentra, pois, embora não seja ela o pivô de todo o drama, é ela quem sofre as mais injustas e indiretas consequências –e Haynes demonstra sua compaixão pela protagonista evidenciando a intensa e crescente tristeza nas circunstância que ela experimenta: Deixada de lado pelo marido, esmagada pelas obrigações e afazeres domésticos e sufocada pela necessidade de aparentar felicidade (quando, na verdade, por dentro desatina), ela encontra um consolo inesperado na amizade com Raymond (Dennis Haysbert), seu jardineiro negro.
A relação, definida por carência da parte dela e fascínio evidente da parte dele, progride inevitavelmente para um interesse romântico que as imposições não permitem que deixe de ser platônico –o que não impede que as fofocas resultantes dos menores gestos e dos mais inocentes indícios coloquem Cathy em maus lençóis junto da desumana concepção de sua comunidade.
Ao fim, Haynes ratifica mais do que apenas o drama: Ele mostra que, mesmo tendo sido Frank o transgressor por natureza, por assim dizer, foi Cathy quem teve de sofrer todos os revezes.
Mais do que um louvável retrato do homossexualismo em meio à um âmbito de considerações totalitárias (algo que Todd Haynes concretizou com “Carol”), “Longe do Paraíso” é um comentário sutil e inteligente sobre o papel sempre desfavorável da mulher nas injustas crises sociais.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A Fortuna de Cookie

Sempre interessado em voltar suas câmeras para o registro de uma comunidade em convulsão –e, não raro, povoando seu elenco plural com diversas presenças espetaculares –o diretor Robert Altman trata aqui de ambientar a trama de sua comédia de humor negro na cidadezinha de Holly Springs.
Lá, como fica claro já nas primeiras cenas, todos se conhecem. Uma reunião comunitária trivial, como o ensaio de uma peça teatral a ser exibida na igreja, é capaz de reunir quase toda a população. E poucas pessoas se sentem tão satisfeitas em ser o cerne de uma reunião comunitária quanto Camille (Glenn Close, cujo notável currículo como vilã em tantos filmes é usado aqui numa espécie de sugestão subconsciente).
Ela vem a ser –ao lado da irmã abilolada Cora (Julianne Moore, magnífica) –as duas únicas parentes da idosa Cookie (Patricia Neal, de “O Indomado” e “O Dia Em Que A Terra Parou”) que vive num casarão e faz questão de tê-las longe!
Minto: Na verdade há outra parente; a jovem e desajustada Emma (Liv Tyler), filha de Cora, que chegou recentemente à cidade. A pôr panos quentes entre Cookie e seus conflitos familiares ácidos está sempre o atencioso Willis (o fabuloso Charles S. Dutton) que não tarda a revelar-se o verdadeiro protagonista dessa trama tortuosa.
Pois Cookie, tanta falta tem de seu saudoso marido Buck que, numa manhã, decide se suicidar (!). Para complicar as coisas, são Camille e Cora, por acaso, quem descobrem isso primeiro, e de pronto, a primeira resolve dali tirar uma vantagem: Ela mastiga e engole o bilhete de suicídio deixado pela morta (!!), convence Cora de que o quê viu era a cena de um assalto seguido de homicídio e dessa forma relatam o acontecimento à polícia, para logo em seguida se apropriar da mansão da falecida.
A polícia dá início às suas investigações –conduzidas com os detalhes irônicos que caracterizam uma comunidade provinciana –e logo têm por principal suspeito o inocente e bem-intencionado Willis.
Como lhe é habitual, o diretor Altman praticamente presenteia seu elenco com uma sucessão de ótimos personagens que oscilam de ótimas presenças à participações memoráveis: Além dos protagonistas, há o chefe policial vivido por Ned Beatty, cuja infalível bússola moral está relacionada à sua paixão por pescaria; o aparvalhado jovem policial (Chris O’ Donnell) que, além de enamorado da garota desajustada, se reveza como ator na peça teatral; o advogado da cidade que conhece (e desperta a desconfiança em) todo mundo (Donald Moffat); o investigador vindo de outra cidade (Courtney B. Vance) cujos depoimentos peculiares dos moradores locais deixam mais perdido que cego em tiroteio; o dono da oficina (Lyle Lovett) de raciocínio tão lento quanto alarmante, e tantos outros.
A grande sacada de Altman neste projeto aqui é expor toda essa fauna caótica e colorida defendida por um elenco sólido e empenhado, para então subverter suas próprias índoles colocando-os em face de um crime inesperado, e mostrar, com isso, as máscaras de desonestidade e desprezo caírem.
Longe de ser um pessimista (mas, subversivo demais para ser considerado um otimista), Altman dá à sua trama rocambolesca um desenlace que reserva devida punição aos inescrupulosos, mas o faz com habilidade suficiente para que isso soe sarcástico, saboroso e destituído de cinismo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

A Salvo/Mal do Século


Lançado nos anos 1990, com sua trama ambientada nos anos 1980, este filme de Todd Haynes pode ser considerado o primeiro a tratar a década de 1980 como um período cuja atmosfera e percepção cultural (e não somente a reconstituição visual) são resgatadas.
Tal situação é necessária para que a premissa singular que ele possui faça sentido.
Julianne Moore (sempre de uma magnitude habitual) é Claire White, esposa de um executivo de classe média-alta (Xander Berkeley) e, como tal, tem uma bela casa para suprir do bom e do melhor.
Algo, entretanto, está errado com Claire: Ela tem crises inexplicáveis; sofre uma ansiedade repentina; falta-lhe ar subitamente (e de maneira atroz); seu corpo reage de maneira muitas vezes dramática e contundente.
Os médicos não conseguem achar nada de errado com ela. Não têm um diagnóstico para o quê a aflige. E, paralelamente, Claire só vê essa aflição piorar.
É um mero folheto de academia que parece sinalizar a ela com uma resposta: Em uma palestra, ela descobre um grupo de pessoas que adoece sem que a medicina de então tenha uma explicação para seus males. São pessoas cuja sistema imunológico foi comprometido pelo uso indevido de substâncias químicas corriqueiras no mundo moderno.
Em geral, essas substâncias não representam perigo para a maioria, mas uma pequena porcentagem (entre as quais, Claire está inclusa) é severamente afetada por elas.
Numa radical mudança de ambientação, o filme acompanha Claire, em seu terço final, a uma colônia onde tais pessoas se uniram e se refugiaram de tudo o que lhes transtornava.
Um local que exala estranheza à qual Claire se esforça para se adaptar. Mais do que uma bizarrice latente que a caracterização conduzida por Haynes faz questão de indicar, o quê perturba de fato o expectador nesse trecho é a sensação –reforçada por uma ausência de maiores informações –de que esse afastamento de Claire da família, da vida que tinha antes, de tudo é uma condição que ela terá de aceitar como irreversível.
Moldando um drama de características incomuns mas nem por isso menos contundentes, Todd Haynes entrega uma obra profética em relação à comportamentos que surgiriam de fato a medida que a humanidade caminhou para a virada do milênio.
Embora desconhecido do grande público, este é um dos grandes filmes (senão o único) a abordar com coragem e firmeza tais elementos.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Hannibal


No que diz respeito à obra-prima “O Silênciodos Inocentes”, público e crítica durante muito tempo aguardaram por uma continuação, visto que essa continuação já existia nos livros escritos por Thomas Harris –dos quais “O Silêncio...” sequer é a primeira história...
A despeito do sucesso daquela obra, de sua inclusão perene no subconsciente da cultura cinematográfico e de sua consagração junto ao Oscar (de onde “Silêncio dos Inocentes” saiu com um número espantoso de cinco prêmios principais), demorou um pouco mais do que o ideal, e quando tal continuação veio, o público teve de se satisfazer com o mero fato do ator Anthony Hopkins voltar a dar vida a Hannibal Lecter; tudo o mais que fazia daquele filme uma experiência inigualável foi substituído: O diretor Jonathan Demme foi trocado pelo especialista em épicos Ridley Scott (recém-saído, por sinal, de “Gladiador”) e –talvez, o detalhe que mais incomodou os expectadores –a espetacular Jodie Foster (que pelo filme original arrebatou o Oscar de Melhor Atriz) não aceitou reprisar o papel da agente do FBI Clarice Starling, sendo substituída por Julianne Moore, uma atriz interessante e competente que não merecia essa ingrata tarefa.
Dez anos depois de ter fugido de seu cárcere, o brilhante e psicótico Dr. Hannibal Lecter reaparece em Veneza usufruindo da boa vida de homem culto que é.
Torna-se alvo de um plano vingativo movido por uma de suas vítimas do passado, Mason Verger, um raro caso de sobrevivente de um encontro com Lecter –todavia, ele foi terrivelmente desfigurado (o quê torna irreconhecível o ator Gary Oldman, ou qualquer outro que tivesse sido posto neste papel) –ao mesmo tempo, notamos que pouco a pouco o destino torna a colocá-lo no caminho da agente do FBI, Clarice Staling, então num ponto algo decadente de sua carreira –ela encontra particular obstrução do promotor Paul Krendler, personagem de Ray Liotta que, perto do fim, protagoniza a cena mais assombrosa e absurda da produção.
Após uma década ninguém duvidava de que seria difícil para o Ridley Scott (ou qualquer diretor que viesse a assumir essa tarefa) recriar a mesma atmosfera impressionante do filme de Jonathan Demme, ainda mais que, para essa empreitada, ele contava apenas com Anthony Hopkins no papel-título e não com sua notável antagonista, Jodie Foster, como a agente Starling –consequência disso, Scott cede à tentação de amplificar –ou explicitar –tudo o quê no filme anterior era pleno de sutileza.
O resultado: O palpitante suspense psicológico que elevava aquele filme é convertido aqui, sobretudo, nos trinta minutos finais, num festival de bizarrices travestido de registro psicótico com intenção de chocar; a elegância mórbida dá lugar à vulgaridade do terror gore.
Não que tais elementos não façam de “Hannibal”, no fim das contas, um filme divertido, mas ele está se metendo a dar continuidade a uma das grandes obras do cinema.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

O Mundo Perdido - Jurassic Park


Foi em parte devido à “Tubarão” que Steven Spielberg decidiu por regressar ao seu filme de dinossauros para dar a ele uma continuação: Após o imenso sucesso de seu filme de 1975, Spielberg seguiu os rumos já conhecidos de sua carreira e não voltou para as continuações (que ao longo dos anos ficaram em mais ou menos meia dúzia de filmes) e, como consequência disso, “Tubarão 2” –assim como todos que o sucederam –foi uma catástrofe.
Foi esse pensamento que levou Spielberg, em 1997, a encarar mais um filme envolvendo os dinossauros na Ilha Nublar –a sede original do Jurassic Park.
Ian Malcolm, o personagem de Jeff Goldblum, foi promovido, de um quase alívio cômico, para o protagonista, e ao parece, isso promoveu no personagem uma alteração contrastante de personalidade: Se antes ele era despreocupado e despreendido, aqui ele se mostra aflito e perplexo.
Cinco anos depois dos eventos que levaram o Jurassic Park a ser abandonado antes mesmo de sua inauguração, os dinossauros continuam lá contra todas as expectativas –e completamente alheios aos humanos.
Fica claro, contudo, que uma providência deve ser tomada, sobretudo, depois que uma família acaba inadvertidamente ancorando com seu iate na ilha e a filhinha pequena (vivida por Camilla Belle, filha de brasileiros) é atacada por dinossauros menores.
O proprietário do lugar, John Hammond (mais uma vez vivido pelo veterano Richard Attenborough, com pouquíssimo tempo de cena), faz mais uma das suas e recruta para uma missão de reconhecimento a fotógrafa Sarah Harding (Julianne Moore, fazendo o que pode com uma personagem não muito bem construída), justamente a atual namorada de Ian Malcolm, que nesses últimos cinco anos buscou denunciar o descaso de Hammond em relação às criações na ilha.
Agora, Malcolm e uma equipe de resgate (incluindo um jovem Vince Vaughn, anos antes de reinventar-se como bem-sucedido comediante) devem voltar à Ilha Nublar a fim de encontrar Sarah.
A decisão de Spielberg em manter-se na direção não preservou a mesma qualidade a este segundo “Jurassic Park”: Ele até tenta ir além do filme anterior com tentativas de aprimoramento nos consagrados efeitos visuais (como as sequências em que os dinossauros digitais são materializados, desta vez, contra a luz do sol, cujo resultado não chega a acrescentar muito ao assombro desconcertante do filme original), novas adições no elenco (e embora Julianne Moore, assim como Vanessa Lee Chester, de “APrincesinha”, o veterano Pete Postlethwaite e Arliss Howard, de “Nascido ParaMatar”, façam sua parte, não existem justificativas plausíveis para não se ter aproveitado o ótimo protagonista do filme original, vivido por Sam Neil), e até mesmo um terceiro terço pretensamente eletrizante onde a ambientação é radicalmente modificada para a cidade grande, numa alusão à “King Kong”, mas nada disso afasta a forte sensação de que havia no filme original uma magia que esta continuação falhou em resgatar.
Não é um filme ruim, mas para aquilo que se espera de Spielberg é muito pouco.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

As Horas

Adaptação de uma obra literária do escritor Michael Cunningham, ganhador do prêmio Pulitzer, este “As Horas” pode não ser meramente acessível a quem não tem idéia do exercício narrativo proposto naquele livro –e, por conseqüência, neste filme, dirigido com eficácia e alguma frieza por Stephen Daldry (do ótimo “Billy Elliot”).
Cunningham parte de uma dissertação na forma de três histórias complementares uma à outra que versam sobre a premissa embutida no livro “Mrs. Dolloway”, de Virginia Woolf (onde são relatadas as 24 horas de sua protagonista, uma organizadora de festas às voltas as obrigações detalhistas de seu trabalho e o pungente fantasma da depressão) –“As Horas” é, por sinal, o título que a escritora inicialmente almejou para sua obra.
Em Los Angeles nos anos 1940, a dona de casa depressiva Laura Brown (Julianne Moore, impecável), não por acaso, uma leitora do livro "Mrs. Dolloway", ao mesmo tempo que é negligenciada pelo marido obtuso e relapso (John C. Reilly) passa toda uma tarde considerando a idéia de suicídio, para a aflição de seu filho pequeno que aos poucos vai se dando conta da infelicidade inominável da mãe.
Já, em Nova York nos anos 1990, a metódica Clarissa Vaughan (Meryl Streep, em sua excelência de sempre) por sua vez a própria personificação da personagem do livro (ela também é organizadora de festas), prepara o evento do aniversário de seu melhor amigo, um artista plástico homossexual (vivido por Ed Harris) cuja saúde se acha deteriorada pela AIDS.
Enquanto que, numa afastada mansão da Londres dos anos 1920, a própria Virginia Woolf (Nicole Kidman, irreconhecível e vencedora do Oscar de Melhor Atriz), às voltas com o ainda manuscrito do próprio "Mrs. Dolloway" questiona suas orientações como escritora e como mulher.
O resultado desse empenhado esforço em depositar a relevância literária numa narrativa cinematográfica que agregasse também seu valor artístico, acabou rendendo um filme denso e difícil, debruçado sobre a irreprimível depressão de suas personagens. Nada, nem mesmo as ocasionais e espirituosas transições de uma trama para outra, são capazes de amenizar a carga dramática que ele emana, fazendo deste um trabalho um tanto quanto inacessível e desgastante.
Toda essa austeridade e compromisso fizeram uma bela campanha na temporada de premiações e no Oscar 2002 (ainda que o prêmio de Melhor Atriz para Nicole tenha sido a única honraria que de fato recebeu).
Em tempo: Foi realizada em 1997, uma adaptação do próprio “Mrs. Dolloway”, estrelada por Vanessa Redgrave e dirigida por Marleen Gorris (de “A Excêntrica Família de Antonia”).

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Kingsman - O Círculo Dourado

Durante algum tempo, o diretor Matthew Vaughn evitou envolver-se em continuações. Embora tenha entregue filmes extremamente bem-sucedidos, ele não esteve na continuação do ótimo “Kick Ass-Quebrando Tudo”, nem na seqüência do igualmente ótimo “X-Men Primeira Classe”. Essa postura só veio a mudar quando ele resolveu encarar também este “Círculo Dourado” que vem a dar seqüência ao seu divertidíssimo “Kingsman-Serviço Secreto” –talvez, influenciado pela queda de qualidade ocasionada nas continuações de suas próprias obras, em especial, em “Kick Ass 2”.
Como em “Kick Ass”, “Kingsman” partia de uma história em quadrinhos escrita por Mark Millar. Uma redefinição dos conceitos tradicionais de agente secreto ao estilo James Bond, mas transfigurada com elementos muito atuais, como a avançada tecnologia, a ultra-violência, além do cinismo e do sarcasmo que tão bem definem os jovens.
Na continuação, Vaughn não faz a menor questão de fugir desses elementos: “Círculo Dourado”, em todos os aspectos possíveis, dá continuidade natural ao que foi visto em “Serviço Secreto”: Eggsy (o ótimo Taron Egerton) evoluiu de agente em treinamento (no primeiro filme) para um dos poucos agentes da Kingsman em atividade (lembre-se que a maioria morreu!). Seu rival durante o treinamento, o almofadinha Charlie Hesketh (Edward Holcroft) retorna como um dos vilões e surge, já na primeira cena, para dar dor de cabeça ao herói –uma cena insana e eletrizante de ação, diga-se, daquelas que poucos realizadores, como Vaughn, são capazes de orquestrar.
Também a princesa Tilde (Hanna Alström), vista brevemente no filme –e num rápido take, já no final, surpreendente e revelador –agora aparece aqui como namorada séria de Eggsy; essa manobra provavelmente foi uma forma de responder a algumas críticas que apontaram o primeiro filme como excessivamente machista (embora a objetificação da mulher seja uma característica constante também neste segundo filme).
Já confortável na função de agente da Kingsman –uma organização inglesa de espionagem avançada –Eggsy descobre uma ameaça tremenda na forma de Poppy Adams (Julianne Morre, se esbaldando no papel), uma mega-traficante de drogas profundamente frustrada com o anonimato que sua ocupação impõe ao seu serviço –que ele sabe executar com sucesso inquestionável. Disposta a obter o reconhecimento como uma das mulheres mais poderosas do mundo, ela engendra um plano para chantagear o presidente dos EUA (uma ponta de Bruce Greenwood cheia de crítica e acidez) obrigando-o a legalizar todas as drogas.
Psicótica e implacável, ela trata de tirar de seu caminho os possíveis obstáculos, no caso, os agentes da Kingsman que são dizimados num atentado destruidor –e, diferente do filme anterior, agora todos morrem! Todos, não: Apenas Eggsy resta vivo (ele estava, por acaso, jantando com os pais da namorada!) e o analista Merlin (Mark Strong) –isso obriga os dois a procurar apoio e recursos entre os Stateman, a contraparte americana da Kingsman, capitaneados por Champ (Jeff Bridges) e que incluem Ginger (Halle Berry), Uísque (Pedro Pascal, de “A Grande Muralha”) e Tequila (Channin Tatum).
Junto com os aliados da Stateman vem também uma revelação: Gallahad (Colin Firth, sempre digno), o mentor de Eggsy morto no filme anterior está vivo! –e infelizmente, graças ao desleixo do departamento de marketing essa revelação não é surpresa pra ninguém já que o personagem aparece em todos os trailers e pôsteres.
Talvez a maior surpresa deste novo “Kingsman” seja assim a honorável e hilária ponta de Elton John.
Há muito da competência de Matthew Vaughn trabalhando em prol da diversão, mas ele não escapa aqui de inúmeras armadilhas oriundas justamente –vejam a ironia! –do fato de estar fazendo aquilo qual até então tentou fugir: Uma continuação.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O Fugitivo

A ação primordialmente bem conduzida pelo diretor Andrew Davis se vale de uma série de escolhas inteligentes para funcionar: A montagem dinâmica e perspicaz, o ritmo espontâneo e informativo imposto pelo roteiro, enquadramentos inesperados em resposta aos panoramas americanos convencionais que, mais tarde, foram devidamente assimilados pela indústria.
Richard Kimble (Harrison Ford, fantástico no papel) é um homem injustiçado: No mesmo incidente em que teve a esposa assassinada (“foi um homem de um braço só” terminou virando um bordão na época da série em que este filme se baseia), ele também terminou condenado por seu homicídio.
Nos primeiros minutos, o diretor Davis já promove a reviravolta fenomenal que irá engatilhar o filme: O espetacular acidente sofrido pelo ônibus que conduziria Kimble a uma penitenciária –e que o permite fugir para encontrar uma forma de tentar provar sua inocência nos anos por vir, enquanto busca escapar do encalço obstinado do agente federal Gerard (Tommy Lee Jones, extraordinário no personagem que lhe deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante).

Além da condução prodigiosa, Andrew Davis não só demonstra habilidade ao ressaltar os predicados de seu roteiro e a astúcia de seus intérpretes, com freqüência perfeitos em seus papéis (além de Ford e Lee Jones, há Jeroen Krabbé, vilanesco como sempre, a participação da bela Sela Ward, como a esposa e até uma ponta sensacional e infelizmente muito pequena de uma ainda desconhecida Julianne Moore), como também enfileira uma cena antológica atrás da outra: O salto intrépido de Ford nas águas de um rio após uma aflitiva e labiríntica perseguição pelos túneis de um aqueduto; a fuga (por um triz) através de uma porta automática com vidro à prova de balas; o trecho em que a narrativa sugere um final iminente para então seguir por outro caminho; a inteligente e bem amarrada solução final.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Boogie Nights - Prazer Sem Limites

Em seus três primeiros filmes, Paul Thomas Anderson criou distorções perturbadoras de um mesmo tema: Um grupo de marginais, ora em atrito, ora em paralelo com o difícil fato de existir no contexto em que estão inseridos.
Se em seu primeiro trabalho, “Hard Eight”, seus personagens eram a fauna de caóticos habitantes de um cassino, e em seu terceiro, “Magnólia”, eles eram seres peculiares arremessados num pesadelo urbano da vida real, em seu segundo trabalho –aquele no qual a indústria e a crítica especializada começou a reparar nele –o exuberante “Boogie Nights-Prazer Sem Limites”, esses personagens eram personificações de bizarros seres humanos que vivem no universo do cinema pornô.
Apesar do grande número de personagens (característica em muitos dos filmes de Anderson), o centro do filme é o jovem aspirante a ator, Eddie Adams que, ao adotar o pseudônimo artístico de Dirk Diggler (Mark Whalberg, numa das primeiras chances em sua carreira de demonstrar talento real) mostra-se inicialmente deslumbrado com o fato de se tornar um astro pornô: Ele é apadrinhado pelo diretor Jack Horner (vivido com euforia renovada e genuína pelo veterano Burt Reynolds) que graças ao seu pênis descomunal (!) o coloca como astros em uma profusão de produções feitas por sua equipe que, ao lado do elenco regular de beldades (que inclui Julianne Moore e Heather Graham) e outras pessoas formavam todos uma espécie de família.
Aos poucos, Diggler se deixa levar pelos excessos daquele período, inclusive pelas drogas, numa clara referência ao ator John Holmes, ícone do gênero falecido na década de 1980, vítima da AIDS.

“Boogie Nights” é então um mosaico colorido e disforme, riquíssimo em dramaturgia e observação, um retrato meio cômico meio dramático da indústria pornô dos anos 1970 (trecho mais radiante e animado do flme) e início dos anos 1980 (sua parte mais sombria) quando a transição para as novas mídias de então (o Betamax e o VHS) trouxe a decadência aos astros daquele gênero.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Ensaio Sobre A Cegueira

Certamente, a obra de José Saramago se presta a infindáveis analogias da parte de quem a lê e, com efeito, o filme que Fernando Meirelles criou a partir dela preserva essa mesma carga filosófica.
Por quê as pessoas ficam cegas? Parece ser a pergunta –de cunho muitas vezes metafórico –que ele parece fazer e deliberadamente evita responder. Como num Buñuel pós-moderno, um mal imprevisto acomete os cidadãos comuns em suas medíocres circunstâncias, nivelando-os mesmo quando eles ainda encontram justificativas para se diferenciar.
É um surto de cegueira coletiva que assola a humanidade sem a menor explicação. Os infectados são todos isolados em quarentena. Uma mulher (Julianne Moore), aparentemente imune a essa epidemia finge-se de cega para poder ficar junto do marido (Mark Ruffalo), um médico dos primeiros a ser infectado.
Dentro desse complexo hospitalar (no qual uns dois terços do filme se passarão) que nada mais é que uma versão atual do “Vale dos Leprosos” –sem qualquer infra-estrutura e largados ao léu –alguns, os mais prepotentes entre eles, almejarão criar uma hierarquia; e como todo autor de tal plano, munidos da intenção de se colocar no topo da pirâmide.
A mulher do médico (cujo dom, prodigioso ali, de ainda enxergar ela procura não usar como vantagem sobre ninguém) e o sórdido Rei da Ala 6 (Gael Garcia Benal) antagonizam-se.
Meirelles usa transgressões típicas de realizadores europeus (não fazia muito tempo que Gaspar Noé havia lançado seu perturbador “Irreversível”, abalando público e crítica) sem, no entanto, ir a fundo no objetivo de chocar a platéia –a cena do estupro coletivo é um exemplo de sua difícil e estóica tentativa de se manter num equilíbrio entre o naturalista e o elegante.
Isolados do mundo, os indivíduos acometidos pela cegueira vão, portanto, regredindo aos estágios mais primários da civilização, assistidos e às vezes auxiliados pela mulher do médico.
Saído de um trabalho de aclamação sem precedentes (“Cidade de Deus”) e de uma aplaudida produção no cinema americano (“O Jardineiro Fiel”), Fernando Meirelles optou por uma escolha ousada neste projeto, não fugindo do teor contundente proposto no livro de Saramago e fazendo um filme poderoso, denso e difícil. Suas cenas, um tanto fortes para serem vistas por expectadores desavisados, esmiúçam a fragilidade das convicções morais humanas quando colocadas à prova diante de um realidade que soa cruel e absurda em igual medida: A perda da visão, na concepção de muitos dos personagens, significa a perda das amarras éticas (ninguém está vendo...), e tão mais intensa essa decadência ocorre quando não há uma explicação plausível para tal fato –no terço final, quando enfim saem de dentro do complexo para o mundo exterior, eles descobrem que a cegueira tomou conta das grandes cidades e das ruas. Não há mais lei ou ordem, somente caos e desolação. Os cegos pegam o que querem e o que precisam para suas necessidades básicas, indiferentes à presença de outrem. A violência é uma linguagem quase natural que adotaram.
Mesmo o grupo de personagens protagonistas (que ainda incluem Alice Braga e Danny Glover), liderados pelo médico e sua esposa, não fogem a um certo flerte com o que antes (quando viam) seria impróprio ou inadequado, na sugestiva –ainda que tímida –cena do banho feminino coletivo.
No desfecho, Meirelles parece remeter vagamente à Píer Paolo Passolini, em “Teorema”, quando restitui a visão aos personagens –da mesma forma como o italiano remove o sedutor misterioso do seio da família burguesa cujos membros foram seduzidos por ele –ao fim da euforia comemorativa que se segue virá a pergunta, “E agora?”.
Meirelles encerra seu filme com a expressão algo melancólica de Julianne Moore a contemplar todo o remorso e a ressaca moral que virá junto com a resposta.

sábado, 16 de setembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2015

(Todo o sábado, agora, haverá uma retrospectiva das cerimônias do Oscar de anos pregressos em ordem regressiva. Vamos ver até onde vai...)
Foi um ano que não teve grandes surpresas, exceto pela larga consagração nas categorias técnicas prestadas por “O GrandeHotel Budapeste” quando muitos acreditavam que os prêmios poderiam ir para Nolan e seu “Interestelar” –prestigiado apenas com o prêmio de Melhores Efeitos Visuais.
Como é habitual no Oscar, os prêmios principais foram previsíveis e sem maiores surpresas (uma pena, pois, Michael Keaton merecia ter arrebatado o prêmio de Melhor Ator das mãos de Eddie Redmayne), levando à consagração de “Birdman” (e lá se vão três anos consecutivos sem que um americano ganhe o Oscar de Melhor Diretor), ao pleno merecimento de J.K. Simmons e ao talvez tardio reconhecimento de Julianne Moore (afinal, houveram tantos grandes filmes pelo qual ela podia ter ganhado...), e ao prêmio para Patricia Arquette, a única menção à “Boyhood”, de Richard Linklatter, tido até então como um dos favoritos da noite.
Na categoria de Filme Estrangeiro foi uma pena não ver o argentino “Relatos Selvagens” ser premiado.
Menos mal que a justiça se fez com a conquista de três estatuetas para o primoroso “Whiplash”, talvez, o melhor dentre todos os indicados.

MELHOR FILME
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)"

MELHOR DIREÇÃO
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)", Alejandro Gonzales Iñarritu

MELHOR ATRIZ
Julianne Moore, "Para Sempre Alice"

MELHOR ATOR
Eddie Redmayne, "A Teoria de Tudo"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Patricia Arquette, "Boyhood-Da Infância À Juventude"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
J.K. Simmons, "Whiplash-Em Busca da Perfeição"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Citizen Four"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Crisis Hotline-Veterans Press 1"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Ida" (Polônia)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"Whiplash-Em Busca da Perfeição"

MELHORES EFEITOS VISUAIS

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
"O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR FIGURINO
"O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Sniper Americano"

MELHOR DESIGNER DE PRODUÇÃO
"O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR TRILHA SONORA
“O Grande Hotel Budapeste"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Glory", de "Selma"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"O Banquete"

MELHOR EDIÇÃO
"Whiplash-Em Busca da Perfeição"

MELHOR CURTA-METRAGEM


"The Phone Call”