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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Ensaio Sobre A Cegueira

Certamente, a obra de José Saramago se presta a infindáveis analogias da parte de quem a lê e, com efeito, o filme que Fernando Meirelles criou a partir dela preserva essa mesma carga filosófica.
Por quê as pessoas ficam cegas? Parece ser a pergunta –de cunho muitas vezes metafórico –que ele parece fazer e deliberadamente evita responder. Como num Buñuel pós-moderno, um mal imprevisto acomete os cidadãos comuns em suas medíocres circunstâncias, nivelando-os mesmo quando eles ainda encontram justificativas para se diferenciar.
É um surto de cegueira coletiva que assola a humanidade sem a menor explicação. Os infectados são todos isolados em quarentena. Uma mulher (Julianne Moore), aparentemente imune a essa epidemia finge-se de cega para poder ficar junto do marido (Mark Ruffalo), um médico dos primeiros a ser infectado.
Dentro desse complexo hospitalar (no qual uns dois terços do filme se passarão) que nada mais é que uma versão atual do “Vale dos Leprosos” –sem qualquer infra-estrutura e largados ao léu –alguns, os mais prepotentes entre eles, almejarão criar uma hierarquia; e como todo autor de tal plano, munidos da intenção de se colocar no topo da pirâmide.
A mulher do médico (cujo dom, prodigioso ali, de ainda enxergar ela procura não usar como vantagem sobre ninguém) e o sórdido Rei da Ala 6 (Gael Garcia Benal) antagonizam-se.
Meirelles usa transgressões típicas de realizadores europeus (não fazia muito tempo que Gaspar Noé havia lançado seu perturbador “Irreversível”, abalando público e crítica) sem, no entanto, ir a fundo no objetivo de chocar a platéia –a cena do estupro coletivo é um exemplo de sua difícil e estóica tentativa de se manter num equilíbrio entre o naturalista e o elegante.
Isolados do mundo, os indivíduos acometidos pela cegueira vão, portanto, regredindo aos estágios mais primários da civilização, assistidos e às vezes auxiliados pela mulher do médico.
Saído de um trabalho de aclamação sem precedentes (“Cidade de Deus”) e de uma aplaudida produção no cinema americano (“O Jardineiro Fiel”), Fernando Meirelles optou por uma escolha ousada neste projeto, não fugindo do teor contundente proposto no livro de Saramago e fazendo um filme poderoso, denso e difícil. Suas cenas, um tanto fortes para serem vistas por expectadores desavisados, esmiúçam a fragilidade das convicções morais humanas quando colocadas à prova diante de um realidade que soa cruel e absurda em igual medida: A perda da visão, na concepção de muitos dos personagens, significa a perda das amarras éticas (ninguém está vendo...), e tão mais intensa essa decadência ocorre quando não há uma explicação plausível para tal fato –no terço final, quando enfim saem de dentro do complexo para o mundo exterior, eles descobrem que a cegueira tomou conta das grandes cidades e das ruas. Não há mais lei ou ordem, somente caos e desolação. Os cegos pegam o que querem e o que precisam para suas necessidades básicas, indiferentes à presença de outrem. A violência é uma linguagem quase natural que adotaram.
Mesmo o grupo de personagens protagonistas (que ainda incluem Alice Braga e Danny Glover), liderados pelo médico e sua esposa, não fogem a um certo flerte com o que antes (quando viam) seria impróprio ou inadequado, na sugestiva –ainda que tímida –cena do banho feminino coletivo.
No desfecho, Meirelles parece remeter vagamente à Píer Paolo Passolini, em “Teorema”, quando restitui a visão aos personagens –da mesma forma como o italiano remove o sedutor misterioso do seio da família burguesa cujos membros foram seduzidos por ele –ao fim da euforia comemorativa que se segue virá a pergunta, “E agora?”.
Meirelles encerra seu filme com a expressão algo melancólica de Julianne Moore a contemplar todo o remorso e a ressaca moral que virá junto com a resposta.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Cidade de Deus

Primorosamente dirigido por Fernando Meirelles, o filme “Cidade de Deus” é a obra inigualável que é (sem sombra de dúvidas, um dos melhores filmes de todos os tempos) graças à capacidade de seu diretor em gerenciar e administrar o talento de específicos colaboradores envolvidos: A co-direção vigorosa de Kátia Lund, a preparação de elenco assombrosa de Fátima Toledo, o roteiro brilhantemente detalhado e minucioso de Braulio Mantovani, a fotografia cheia de imaginação de César Charlone e, aliado a todos esses predicados, a montagem carregada de sensibilidade e alta voltagem de Daniel Rezende.
Todos eles, em conjunto, transformam este filme num trabalho sem igual.
“Cidade de Deus” parte das reminiscências de um único personagem específico, Busca-Pé (vivido na infância por Luis Otávio, e na juventude, por Alexandre Rodrigues), para narrar a transformação da criminalidade na favela da Cidade de Deus desde o fim dos anos 1960 até o começo dos anos 1980 –a cena inicial que mostra o retrocesso no tempo de suas memórias é um exemplo poderoso da técnica cinematográfica de primeiro mundo empregada por Meirelles: Numa seqüência sensacional que lembra o arrojado “bullet time” de “Matrix”, dos Irmãos Wachowski (hoje, irmãs...) vemos a câmera circundar Busca-Pé, e regressar no tempo, rejuvenescendo os atores e transmutando o ambiente a sua volta.
Pelos olhos do perplexo Busca-Pé acompanhamos (entre outros notáveis personagens que vêem e vão) a ascensão e queda de Zé Pequeno (o jovem Douglas Silva, na fase “Dadinho”, e o ótimo Leandro Firmino, quando por fim assume essa alcunha), cruel rei do tráfico, cuja sanha psicopata é responsável por alguns dos mais inacreditáveis momentos do filme, como os confrontos insanos e sucessivos contra Mané Galinha (Seu Jorge, magnífico) e seu comparsa Cenoura (Matheus Nachtergaele) que dominam o explosivo trecho final do filme. O ímpeto narrativo de Meirelles remete ao fulgor vertiginoso de Martin Scorsese em “Os Bons Companheiros” –e esta não é, de forma alguma, uma comparação desmedida.
Paralelo à trajetória de Zé Pequeno, testemunhamos Busca-Pé, como todo morador da favela, em busca do seu próprio lugar ao sol, primeiro flertando atrapalhadamente com a criminalidade (ele só não entra para o crime graças à inépcia como criminoso) e depois descobrindo sua paixão pela fotografia (ele termina sendo responsável por uma das mais icônicas fotos de Zé Pequeno).
Sem dúvida, um dos grandes filmes nacionais de todos os tempos.
Por seu trabalho preciso e meticuloso na direção, Fernando Meirelles obteve aqui uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor, algo sem precedentes para um cineasta brasileiro (uma pena que, naquele ano, ele concorreu diretamente com o favoritismo implacável de Peter Jackson e seu “O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei”).
Pena: Seu retrato magistral da violência urbana e da combinação caótica de drogas, armas e adolescentes merecia todos os prêmios a que tinha direito.