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domingo, 25 de setembro de 2022

O Juiz


 O sucesso sempre costuma ser uma faca de dois gumes: Notadamente relacionado ao Homem de Ferro, da Marvel Studios, que interpretou ao longo das últimas duas décadas (e cuja identificação intérprete/personagem salvou sua carreira), o astro Robert Downey Jr., como em outros casos, a despeito de seu colossal e reconhecido talento, encontrou dificuldades em ir além da sombra de seu famoso personagem, sobretudo, aos olhos de uma nova geração de expectadores que não conferiram suas brilhantes atuações numa fase mais jovem (como, por exemplo, “Chaplin”).

Assim sendo, este drama de tribunal “O Juiz”, dirigido por David Dobkin (diretor de “Eu Queria Ter A Sua Vida” e de “Penetras Bons de Bico”) contraria as tendências notavelmente cômicas de seu realizador –ainda que em menor grau elas estejam lá –para explorar as sutilezas dramáticas de seu astro principal.

De volta à cidadezinha onde cresceu –e para onde pretendia nunca mais voltar –em razão do falecimento de sua mãe, Hank Palmer (Downey Jr. provando amplamente sua funcionalidade), um ambicioso advogado retoma a complicada relação com o pai, Joseph (Robert Duvall que, em 2014, cravou ironicamente uma indicação ao Oscar que a campanha promocional tanto tentou obter para Downey Jr.), um juiz rígido e linha dura.

Dias depois, surge uma acusação de atropelamento e homicídio contra Joseph que se vê então no banco dos réus. O filho irá defendê-lo, trazendo a tona, assim, vários rancores do passado que podem ou não ajudar a elucidar o ocorrido.

Acima de tudo, este eficiente (ainda que bem longo) drama de tribunal é um veículo para o astro Robert Downey Jr. cuja participação parece onipresente em cena –potencializada possivelmente pelo fato dele ser um dos produtores executivos e de sua esposa, Suzan Downey, ser produtora do filme.

Ele faz por merecer: sua atuação, como sempre, é afiada, equilibrada, temperada de lampejos espirituosos de humor, e nunca fora do tom. Ele é auxiliado pelo sempre excelente Robert Duvall e pelo ótimo elenco de apoio.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Proposta Indecente


 O diretor inglês Adrian Lyne sempre foi adepto de uma certa sem-vergonhice pincelada em tons de requintado cinema, ao mesmo tempo, ele também era adepto de experimentos em torno da interação com o público –isso nas décadas de 1980 e 90 quando tal ideia era de um arrojo inédito. Seu “Atração Fatal”, por exemplo, dos primeiros filmes a abordar o adultério sem amenidades, deixou-se orientar por seções-testes com o público para definir o desfecho que teria maior aceitação. Prática que passou a ser adotada no cinema comercial. Algo um pouco parecido veio a ocorrer com “Proposta Indecente” lançado em 1993.

Grande responsável pelo símbolo sexual fulgurante no qual Demi Moore se tornou pelo restante daquela década (a atriz já havia feito imenso sucesso em “Ghost-Do Outro Lado da Vida” mas, nele o público não a tinha enxergado ainda por um viés de sensualidade), o filme se municiou de uma campanha de marketing onde a grande e escandalosa questão que permeia toda premissa era dirigida ao público, incitando-o a dar seu parecer e a conferir o que ocorria no filme em si.

E todos os envolvidos fizeram bem seu dever de casa: Pela beleza e sex-appeal então revelados de Demi Moore, pelo tratamento visualmente acachapante do diretor Adrian Lyne, pela divulgação promocional astuta e instigante e pelo filme bastante sedutor que resultou, “Proposta Indecente” foi muito debatido e comentado na época e, consequentemente, fez imenso sucesso.

O casal de pombinhos apaixonados Diana e David (Demi Moore e o ainda pouco conhecido Woody Harrelson) estão enfrentando uma fase economicamente complicada na relação –e Lyne gasta um tempo demasiado, além de inúmeros recursos estilísticos e melodramáticos para salientar simultaneamente o perrengue que vivenciam e o amor que os une.

A saída para eles parece ser juntar alguma grana e partir para Las Vegas tentar a sorte nos jogos de cassino. Entretanto, as coisas vão mudar quando cruzarem-se com um personagem que representa, digamos, o terceiro vértice desse triângulo amoroso: John Gage, um milionário interpretado por Robert Redford, ainda firme, forte e convicto em sua fase de galã maduro.

Ao vê-la imediatamente John cai de desejos por ela –e, na tentativa de levar o público (em especial o masculino) à compactuar com esta faceta do personagem, o diretor Lyne não economiza maneirismos em sua hábil fotografia para tornar Demi Moore assombrosamente linda e desejável (além das caras e bocas da parte dela própria) –o que leva John, gradualmente, a aproximar-se do casal, a esboçar suas libidinosas intenções para com a moça (despertando diferenciadas reações de indignação no casal, ainda que pouco convincentes) e a propor o acordo que ocupa o cerne da narrativa: Endinheirado e entediado, John enxerga em Diana mais do que uma bela mulher –claro, ele TAMBÉM enxerga isso! –ele enxerga em Diana uma chance de aventurar-se na imponderabilidade de uma relação com riscos e possibilidades que ele a algum tempo não usufrui mais. Sua proposta é a de que ela passe uma noite de amor com ele, com o consentimento de ambos (dela e do marido) e, com isso, ele lhes dará a soma de um milhão de dólares; o suficiente para pagar todas as dívidas que o casal tem.

É desse dilema, e da maneira como se dá sua resolução, que se abastece a narrativa.

Parte de um nicho comercial improvável surgido no cinema hollywoodiano em meados dos anos 1990 –os thrillers eróticos, depois do fenômeno acarretado por “Instinto Selvagem” –“Proposta Indecente” tinha seu pedigree na direção estilosa de Adrian Lyne e na revelação pertinente e válida de Demi Moore, porém, seu resultado final é oscilante em satisfação, sobretudo, em sua cambaleante capacidade de envolver o público, sobretudo, o feminino: O romance nunca engrena por razões que, vistas hoje, parecem um tanto quanto patentes; afinal, se Robert Redford, o milionário desavergonhado e cara-de-pau é charmoso e atrativo, o marido indeciso vivido por Woody Harrelson é desengonçado e feioso. Na narrativa melodiosa e romantizada –aclimatada pela densa e tristonha trilha sonora de John Barry –a escolha de Diana pelo segundo em detrimento do primeiro se dá pela justificativa do amor, mas infelizmente, para demérito da produção, esses rumos moralistas tomados pelo filme jamais se conciliam com a torcida do público.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Armageddon

Quando foi lançado no final da década de 1990, a trama de “Armageddon” mostrou-se um primor do absurdo: Perfuradores de petróleo norte-americanos eram selecionados para uma missão espacial (!) onde teriam de introduzir uma bomba nuclear num asteróide prestes a colidir com a Terra (!).
O filme, na verdade, representava uma espécie de reafirmação do estilo extravagante do diretor Michael Bay que havia entregado pérolas inacreditáveis da ação ininterrupta em “Bad Boys” e “A Rocha”, mas criou seu verdadeiro cartão de visitas aqui.
Bruce Wiilis, num papel que parece moldado para ele, é Harry Stamper, líder de uma equipe texana de perfuração –e tal equipe inclui figuras como Steve Buscemi, Michael Clarke Duncan, Ben Affleck, Will Patton e Owen Wilson.
Veja bem: Dizer qe Bruce Willis foi moldado para o papel, deveras, não significa que ele entrega uma boa atuação –fator que passa longe das obras de Michael Bay –significa, na realidade, que o papel foi pensado e escrito para ele; e à ele se encaixa em suas canastrices e limitações dramáticas.
O governo dos EUA identifica o grande asteróide que, sem sombra de dúvidas, colocará fim à vida no planeta Terra, e põe em prática um plano para salvar a raça humana: Enviar uma equipe ao espaço, com escalas entre diversas estações internacionais para chegar em tempo ao meteoro e nele implantar uma bomba capaz de reduzi-lo a fragmentos menores –mas, que ainda proporcionam as insanas sequências de destruição do filme.
Os homens selecionados para tal missão terminam sendo o grupo peculiar e grosseiro de Stamper que, nas inserções cômicas inapropriadas que também caracterizam o estilo de Bay, não se adequam de modo algum ao bom senso esperado dos astronautas.
Como o destino da humanidade depende deles –como se não existissem no planeta Terra alternativas melhores do que os norte-americanos! –o programa espacial os aceita mesmo assim; e lá vão eles em direção do espaço, aprontar lá as mesmas presepadas que aprontam na Terra: Heróis de ação, supinos, irônicos e patriotas, que passam todo o filme enfrentando os perigos indizíveis e improváveis do espaço –além da truculência e falta de visão dos militares (é claro!) capazes de pôr em risco a missão e a vida na Terra porque são obtusos o bastante para insistir nas próprias ideias fixas.
Uma obra irredutível nos altos níveis de decibéis que se propõe a entregar, “Armageddon” representou, com seus ostensivos clichês, o cinema comercial em estado bruto, em contraponto a um cinema mais autoral que, naquele ano de 1998, começou a aflorar no circuito comercial: De repente, obras barulhentas como esta começaram a dar espaço para trabalhos construídos com inteligência (como o suspense “Irresistível Paixão”) ou sensibilidade (o inesperado sucesso de bilheteria “Encantador de Cavalos”). Entretanto, o público afoito de filmes de ação ao qual se dirigia ficou satisfeito (e até hoje ainda se satisfaz) com essa receita tão formulaica, da qual Michael Bay costuma ser um dos mais célebres manejadores.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Controle Absoluto

Rendendo uma bem azeitada parceria em “Paranoia”, o jovem astro Shia LaBeouf e o diretor D.J. Caruso tornaram a reunir-se sob a asa do produtor Steven Spielberg neste projeto consideravelmente mais ambicioso.
Houve quem dissesse, na época, que se “Paranoia” era uma versão modernizada de “Janela Indiscreta”, então, “Controle Absoluto” era uma versão modernizada de “Intriga Internacional”.
Não é bem assim.
Co-produzido por Alex Kurtzman e Robert Orcci e roteirizado por Dan McDermott (autor da ideia original), John Gleen, Hilary Seitz e Travis Adam Wright, “Controle Absoluto” era uma trama de espionagem e aventura das mais mirabolantes a tentar unir, num único pacote, elementos da então festejada “Trilogia Bourne”, o reverberante temor americano pós-11 de setembro, tecnologia de ponta (com o vasto aparato de câmeras de segurança, redes de network e aparelhos celulares surgindo como ferramentas fundamentais no roteiro), ação ininterrupta, uma discussão algo rasa sobre a vigilância governamental e referências pós-modernas ao Grande Irmão de “1984 de Orwell”.
Uma das pontas soltas do emaranhado de fios narrativos que vai se construindo ao longo do filme, o personagem de Shia LaBeouf, Jerry Shaw, recebe a devastadora notícia da morte de seu irmão gêmeo.
Paralelamente, outras coisas acontecem, como o fato de Rachel, a mãe solteira vivida por Michelle Monaghan, deixar seu filho pequeno ir, de trem, a uma apresentação musical de sua escola, na cidade de Washington.
No mesmo dia, Jerry recebe em seu apartamento, uma misteriosa remessa de armas e apetrechos que o tornam um suspeito de terrorismo aos olhos da lei –uma das muitas manobras sem muita lógica do roteiro que parece mais interessado em justificar o corre-corre do que em estruturar uma trama sem furos. Na delegacia, Jerry recebe o telefonema de uma mulher desconhecida (na voz da atriz Julianne Moore, à propósito) que lhe instrui, de forma quase premonitória, à perpetrar uma fuga inacreditável: Um guindaste arromba a parede da sala onde ele se encontra, e a tal voz parece ser capaz de controlar o fluxo dos trens do metrô para faze-lo seguir o rumo que ela deseja.
O mistério acerca de quem ou o quê é a voz no telefone não se sustenta do modo como poderia se imaginar –ou porque, em sua empolgação, o diretor Caruso não demanda maior atenção a isso, ou porque lhe falta perspicácia para realizá-lo: A voz é, pois, de uma inteligência artificial operando de dentro do próprio Pentágono e, no plano nebuloso que ela parece desenvolver, estão incluídos não só os perplexos Jerry e Rachel (que, coagidos cada qual à sua maneira, logo se veem lado a lado), como também o Agente do FBI Thomas Morgan (Billy Bob Thornton), a Investigadora da Força-Aérea Zoe Pérez (Rosario Dawson), o Major Bowman (Anthony Mackie, antes de virar o Falcão em “Capitão América-Soldado Invernal”) e o Secretário de Defesa Callister (Michael Chiklis, da série “The Shield” e do filme “Parker”).
Acelerado, dotado de uma produção ostensiva à cargo de Spielberg, e orgulhoso das reviravoltas que entrega minuto e minuto num ritmo perigosamente enervante e quase inverossímil, “Controle Absoluto” é um filme de ação high-tech a demonstrar, acima de tudo, um comando bastante seguro e convicto de D.J. Caruso, que não perde a mão, nem mesmo quando o filme ameaça ruir diante das próprias pretensões narrativas na sua parte final.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

O Dom da Premonição

Perto do fim da década de 1990, após um hiato de tempo sem filmar, o diretor Sam Raimi pareceu enveredar por um cinema mais sério, sinalizando uma espécie de amadurecimento como cineasta. Exemplificando essa fase, o suspense “Um Plano Simples” surpreendia pela austeridade e pela solidez narrativa mesmo guardando, nas entrelinhas, elementos que ainda agregavam o estilo de Raimi –ele parecia enfim estar tomando o rumo que seus grandes amigos, os Irmãos Coen, também tomaram.
Insistindo nesse caminho, ele deu prosseguimento a realização de obras mais adultas com este “O Dom da Premonição” que, de fato, na filmografia de Raimi, só encontra similaridades mesmo com “Um Plano Simples”.
Todavia, “O Dom...” já recupera os elementos sobrenaturais do início de sua carreira.
Numa variação de sua colaboração em “Um Plano Simples”, o roteiro é escrito pelo ator Billy Bob Thornton (que a maioria lembra de seus trabalhos como ator, mas, vale lembrar, ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 1997, por “Na Corda Bamba”).
É, pois, uma notável reunião de talentos: Além de Raimi e Thornton atrás das câmeras, o elenco reúne a espetacular Cate Blanchett, a oscarizada Hillary Swank (ela tinha acabado de ganhar o Oscar de Melhor Atriz por “Meninos Não Choram” e ainda ganharia outro, anos depois, por “Menina de Ouro”), o badalado astro de “Matrix” (lançado um ano antes), Keanu Reeves, o ótimo Gregg Kinnear e a jovem Katie Holmes (que, neste filme, tem uma cena de nudez!).
Na trama –que remete a uma ambientação do sul da Flórida muito similar à “Na Corda Bamba”, de Thornton –acompanha Annie Wilson (a sempre excelente Cate Blanchett), uma moradora de uma pitoresca cidade sulista e, nas características que a definem, amplamente inspirada na mãe do próprio Billy Bob: Annie é mãe solteira e cria os filhos valendo-se de clientes interessados em suas habilidades premonitórias como uma espécie de vidente.
Em sua inata experiência para elaborar um bom suspense, o diretor Sam Raimi, muito à vontade no gênero, cerca essa protagonista de personagens coadjuvantes pitorescos e peculiares que justificam plenamente esse elenco estelar (que normalmente um diretor gabaritado como Raimi atrai) e que constituem uma galeria de suspeitos para a colcha de retalhos que a premissa costura: Há o limitado e infantil mecânico Buddy (Giovanni Ribisi), a dona de casa Valerie (Hillary), completamente displicente e passiva em relação à violência que sofre do marido (Keanu Reeves, inesperadamente assustador, é talvez a melhor presença do elenco) e até mesmo o diretor da escola (Gregg Kinnear), por quem Annie nutre uma simpatia especial embora ele seja noivo de Jessica King (Katie), uma garota promiscua que se envolveu co quase todos os homens da cidade.
As habilidades paranormais de Annie tornam-se uma maldição quando suas visões começam a revelar para ela assassinatos iminentes, ou que podem até já ter acontecido –relacionados, inclusive ao súbito desaparecimento de Jessica.
“O Dom da Premonição” é assim quase um meio termo entre a sutileza brilhante de "Um Plano Simples" e as desconcertantes inserções sobrenaturais de "Evil Dead" –com uma nítida inclinação de Raimi para com a seriedade do primeiro, certamente, visando alguma aclamação por esse esforço em amadurecer (“Um Plano Simples”, é bom lembrar teve duas indicações ao Oscar).
Entretanto, como logo ficou claro, Raimi não conseguiu deixar de lado suas paixões de juventude: Ao contrário dos Coen, que souberam conduzir tramas e atmosferas de cunho adulto com o mesmo brilho e entusiasmo de suas obras frenéticas do início da carreira, Raimi não sustentou por muito tempo essa sua tentativa de reinvenção (e este trabalho realmente se ressente de tentar emular o mesmo tipo de narrativa de “Um Plano Simples”) e voltou para os filmes mais fantasiosos com os quais se identificava –logo em seguida, ele assinou contrato para dirigir a aguardada adaptação de “Homem-Aranha” (cujo sucesso desdobrou-se numa trilogia que o ocupou por quase uma década) e realizou um filme de terror nos moldes mirabolantes de “Evil Dead”; o divertido “Arraste-Me Para O Inferno”.
Lá no fundo, o diretor Sam Raimi não queria mesmo crescer.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Um Plano Simples

À época, não apenas o falecido ator Bill Paxton como também o diretor Sam Raimi –anos antes de dirigir a Trilogia “Homem-Aranha” –tinham dificuldade para expor seus talentos ao público e à crítica; Paxton estava atrelado aos personagens histriônicos com algo de engraçado, que ele viveu em “Aliens-O Resgate”, “Quando Chega A Escuridão” e “O Predador 2”, o quê normalmente lhe relegava ao cargo de coadjuvante (e, não raro, o aprisionava num único papel); já Raimi estava a uma década digerindo a repercussão do cult “Evil Dead”, às voltas com suas estranhas continuações –ele havia feito também o notável “Darkman-Vingança Sem Rosto” e seu último trabalho, antes de hiato de tempo considerável, havia sido a irregular homenagem aos faroeste spaghetti “Rápida e Mortal”, com Sharon Stone.
A chance para ambos, ator e diretor, mostrarem o alcance de suas capacidades veio com “Um Plano Simples”, adaptado do livro de Scott Smith pelo próprio autor com um roteiro fenomenal.
Na trama, que se inicia numa sutil narração em primeira pessoa, descobrimos que a rotina e a mediocridade da vida numa cidadezinha esbranquiçada de neve pesa sobre Hank –papel que Bill Paxton incorpora com minúcia e austeridade inéditas em sua carreira.
Numa manobra narrativa que irmana esta produção à “Fargo”, dos Irmãos Coen, lançado poucos anos antes (e com o qual este belo trabalho guarda, de fato, algumas semelhanças que vão além da ambientação gélida, o visual branco monocromático e a modernização do suspense noir), o diretor Raimi estabelece a constante pontuação de ironia e crueldade do filme ao iniciar a premissa com um avião caído no meio da neve.
A chance de Hank escapar de sua vida medíocre está lá: Dentro desse avião, uma maleta de dinheiro, fruto provavelmente de uma venda de drogas, parece estar à disposição dos afortunados que primeiro achá-la. E eles vêem a ser Hank, seu irmão Jacob (Billy Bob Thornton, numa performance estupenda) e o amigo dele Lou (Brent Briscoe).
Como o título sugere, o procedimento para que todos se dêem bem é de uma simplicidade irresistível, e tal plano é incentivado e acrescido de opiniões e sugestões incisivas pela esposa de Hank, Sarah (Bridget Fonda, cujo rosto de boa moça esconde a personagem mais manipuladora da trama).
E, de novo, há uma curiosa analogia para com “Fargo”: Sarah está grávida, assim como a protagonista de Frances McDormand naquele filme –na visão concordata de ambos os realizadores (Raimi e os Coen) parece haver uma concessão entre os habitantes desses enredos sórdidos, onde suas convicções se enfraquecem diante de uma mulher e seu poder singular de gerar a vida; e essa concessão pode ser usada em favor da justiça (como em “Fargo”) e em prol da ganância pessoal (como aqui).
A decisão conjunta de todos é que Hank guarde o dinheiro por um tempo –pelo menos, um ano –e depois, todos o dividirão e farão aquilo que quiserem.
Mas, Lou não permite que esse plano siga com tranqüilidade: Beberrão, endividado e inconveniente, ele quer dinheiro o quanto antes e, diante das negativas que eventualmente recebe, se torna mais e mais instável, ameaçando o comprometimento do plano (e até mesmo usando isso como chantagem).
Isso e mais o aparecimento de alguns traficantes disfarçados de policiais –e muito interessados em reaver o dinheiro –mostram a eles como seu plano, antes tão simples, tinha potencial de sobra para se complicar.
Demonstrando habilidade em uma percepção adulta para com o traquejo dramático da tensão –que suas obras no gênero de terror e de fantasia jamais dariam indicação que ele tinha –Raimi conduz brilhantemente este trabalho envolvente e palpitante, onde ele contrapõe as personalidades de Hank e Jacob, cada um magnificamente defendido por seu intérprete (Thornton chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), como os grandes catalizadores das situações que surgem.
Terminando de maneira surpreendente nas mesmas cenas com as quais se iniciou, “Um Plano Simples” assombra o expectador com um desfecho que amarra os acontecimentos do início de uma forma atroz, genial e perfeita para os propósitos da trama e do próprio gênero em si: O film noir, como atestam os grandes realizadores –mesmo os pós-modernos –trata quase sempre da queda sem retorno, sem folga e sem ressalvas em um grande abismo moral.

“Há dias em que eu consigo não lembrar de nada. Nem do dinheiro. Nem dos assassinatos. Nem de Jacob. Dias em que eu e Sarah conseguimos fingir ser pessoas normais. Mas esses dias... são raros.”

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Última Ceia

Embora famoso por conter uma das mais poderosas e bem realizadas cenas de sexo do cinema (com a espetacular Halle Berry no auge da beleza), esse detalhe acabou ofuscando os inúmeros méritos deste ótimo filme independente que chamou uma certa atenção para o trabalho do diretor Marc Forster que, nos anos seguintes, enveredou por vários gêneros diferentes, embora este tenha se mantido como seu melhor trabalho (à exceção do belíssimo “Em Busca Da Terra Do Nunca”).
O trabalho de guarda no corredor da morte acompanha a família de Hank (Billy Bob Thornton) a gerações: Outrora seu pai (Peter Boyle), agora aposentado e senil, trabalhou lá, e agora, Hank trabalha ao lado de seu filho (Heath Ledger).
É lá que Hank conhece um dos próximos condenados à cadeira elétrica, Lawrence (Sean Combs), um criminoso negro que esconde uma certa sensibilidade artística. Após sua execução, Hank conhece Letícia (Halle Berry), a ex-esposa do prisioneiro, com quem ele teve um filho. Quando ambos enfrentam coincidentemente um momento muito trágico, ele se envolve com ela, a despeito da natureza extremamente preconceituosa de sua família, sobretudo seu pai.
É uma parábola pesada e lúgubre sobre o conformismo social perante discriminações arraigadas na sociedade norte-americana e a busca perene por uma libertação dessa injusta realidade. Muito bom que o estilo seco da narrativa possa contar com a vantagem de uma interpretação brilhante de Halle Berry, premiada com o Oscar.

domingo, 26 de março de 2017

Reviravolta

De vez em quando, o diretor Oliver Stone gosta de dar um tempo nas pretensas especulações políticas e históricas de suas produções e fazer um filme só para se divertir. Em 2012, quando isso lhe ocorreu, o resultado foi o mediano “Selvagens”, anos antes, em 1997, um rompante parecido com esse aconteceu, e ele realizou este um pouco esquecido “Reviravolta”.
Num ímpeto de irmanar-se ao cinema comercial norte-americano a que pertence, Stone criou uma narrativa nos moldes do film noir que sua geração apreciou, mais embutiu nele seu gosto pessoal por texturas despojadas e mundanos, seu senso de urgência e realismo, sua visão particular do próprio cinema –refletidos nas mesmas convulsões de câmera que testemunhamos no esquizofrênico “Assassinos Por Natureza”.
Diretor renomado que é, Stone atraiu um elenco dos mais notáveis para seu projeto: Billy Bob Thornton, Jon Voight, Joaquim Phoenix, Claire Danes, Nick Nolte, Jennifer Lopez, Sean Penn.
É esse último que responde pelo protagonista, um trambiqueiro que transporta uma fortuna por uma estrada poeirenta da fronteira entre os EUA e o México, a mando de algum chefão do crime.
Ele pára numa cidadezinha desolada para consertar o carro e, quando o dinheiro lhe é roubado, seus problemas começam a se acumular um a um, em ritmo e lógica quase desafiadores.
O estilo noir até que cai bem em Oliver Stone nos melhores momentos deste filme –ele se vale de sua irrestrita predileção por motivações ambíguas para narrar viradas pontuais na trama com naturalidade, sem no entanto, privar o expectador do espanto (e isso se percebe, sobretudo, na personagem de Jennifer Lopez, esposa do milionário interpretado por Nolte, que se revela a “femme fatale latina” deste filme, em sua segunda metade) –nos piores momentos, porém, tudo o que faz de Stone um diretor insuportável se faz presente em seu filme: Os atores, ainda que bem dirigidos, reagem com cacoetes desagradáveis e degradantes, característicos da visão excessivamente mundana que ele impõe aos personagens. Sua vontade de chocar o expectador e oferecer um sopro de renovação por meio do mais árido dos registros não raro exagera no teor, resultando questionável.
Tornados amantes pelas circunstâncias, mas impossibilitados de confiar um no outro pelos detalhes, os personagens de Penn e Lopez fogem com o dinheiro no desfecho do filme, mas terminam vítimas da própria tendência em querer estar em vantagem sobre o outro. Stone mescla tragédia e comédia nesse desenlace, assim busca mesclar seu cinema peculiar e ácido com um cinema de orientação mais comercial numa obra onde essas duas metades nem sempre se harmonizam –ainda que a montagem, a fotografia e a trilha sonora (de Ennio Morricone) sejam exemplares.

Como diz o personagem de Jon Voight em um determinado momento:
“Suas mentiras são velhas. Mas, você as conta muito bem.”