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quarta-feira, 28 de junho de 2023

Transformers - O Último Cavaleiro


 Em seu quinto exemplar, a “Saga Transformers”, pode-se dizer, estava uma bagunça só: Na intenção de criar roteiros que fossem cada vez mais mirabolantes e surpreendentes em relação à sua mitologia, a franquia se contradizia convulsivamente. Se no primeiro filme, fica bastante clara a chegada dos Autobots na Terra como sendo seu primeiro contato com os seres humanos, logo, nos filmes subsequentes, essa ideia foi sendo deixada de lado, através de pequenas pistas que foram crescendo até chegarmos no radicalismo da proposta desta quinta produção: Os Transformers não só vieram para a Terra séculos antes, como participaram ativamente de inúmeros eventos fundamentais na história da Humanidade, e no caso dos Autobots, interagindo e colaborando diretamente com os seres humanos (!).

Se essa ideia –que parece muito agradar ao diretor Michael Bay, visto a forma com que ela veio ganhando força filme a filme –contraria muito do que foi estabelecido no começo, ao menos aqui, ela ganha respaldo total do roteiro.

Numa trama que os roteiristas insistem em tornar intrincada (mas, quando muito, é rasa, abilolada e pretensiosa), um planeta constituído de material cibernético –o assim chamado Unicron, elemento extraído do vibrante longa-metragem de animação “Transformers-O Filme” lançado em 1986 –está em deliberada rota de colisão com a Terra. A fim de impedir a destruição total de nosso planeta, os Autobots precisam da ajuda (por alguma razão que o filme não sabe bem explicar...) do humano Cade Yeager (Mark Wahlberg, regressando do filme anterior). Ao que tudo indica, os Autobots, desde sua imemorial interação com os seres humanos que remonta eras da Antiguidade (!?), sempre contaram com um Cavaleiro, portador de uma espada com poderes oriundos da tecnologia de Cybertron –e nessa salada indigesta de ficção científica descerebrada e mitologia de almanaque, sobram respingos até para a Lenda de Camelot e a espada Excalibur, supostamente entregue ao Rei Arthur por um dos Autobots (!?!) –é, a coisa fica bem esquisita mesmo...

Assim sendo, no percurso cada vez mais insano dessa premissa, os protagonistas –na verdade, o pra lá de perdido Cade Yeager e a historiadora inglesa Vivian Wembley (Laura Haddock, de “Guardiões da Galáxia”), um interesse amoroso dos mais aleatórios e despropositados –encontram o personagem de Sir Edmund Burton (Anthony Hopkins, coitado, manchando sua boa reputação), profundo conhecedor da história secreta dos Transformers e sua relação com a centenária linhagem dos cavaleiros –entre os quais, como nos é revelado em uma cena, Sam Witwick (Shia Labeouf) do filme original, que descobrimos estar morto (!!!) –da qual o último membro vem a ser o próprio Cade. Ou seja, Cade e a Dra. Wembley, em algum momento do turbilhão insano e caótico de tiros e explosões intermitentes que é a narrativa deste filme, devem encontrar as pistas do paradeiro da espada que seria Excalibur, uma vez que ela pode acionar uma ancestral nave alienígena localizada no fundo do Oceano Atlântico capaz de deter o avanço do Unicron.

Essa é a premissa do filme, mas, francamente, pouca história ou desenvolvimento de personagens ou de trama se consegue perceber neste filme barulhento, vertiginoso e ensurdecedor de Michael Bay –aqui, sua predisposição para sequências de ação está ligada no nível máximo e o filme não dá um minuto para o expectador tomar fôlego. Mais que isso: Ele não poupa nem sua própria narrativa; detalhes usuais como a elaborada investigação em busca do misterioso cajado de Merlin, por exemplo –que poderia remeter referências mais identificáveis como “Indiana Jones” ou "Código Da Vinci” –ou a manjada relação amor/implicância do casal central são completamente negligenciados pela direção que trata tudo como uma ferramenta à serviço da ação ininterrupta. Sua obra acaba sendo um atordoante teste de resistência aos expectadores que exigirem um mínimo de coerência em meio à essa sucessão apoteótica de pirotecnia.

A execração unânime da crítica e, principalmente, a indiferença maciça do público nas bilheterias referendaram “O Último Cavaleiro”, tal e qual seu irônico título, como o último capítulo dos filmes dos Transformers dirigidos por Michael Bay –ainda que ele tivesse se mantido por perto como produtor executivo –já no ano seguinte, 2018, uma espécie de reboot foi lançado (“Bumblebee”) visando resgatar um espírito mais contido, semelhante à cultuada série de animação, mas, essa é uma outra história...

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Transformers - A Era da Extinção


 Após “O Lado Oculto da Lua” e seus contratempos, um alerta vermelho acendeu nos corredores da Paramount Pictures e nos escritórios de Michael Bay: A franquia “Transformers” pedia por uma espécie de reboot e os realizadores precisavam compreender o momento certo de fazê-lo, se antecipando à reação negativa do público; que seriam bilheterias cada vez menores. Dessa forma, “A Era da Extinção” abriu mão de todo o núcleo de protagonistas humanos dos dois filmes anteriores –que, convenhamos, não serviam para muita coisa nos filmes e tinham ainda menos importância na série de desenhos de onde se inspiravam –focando em novos acréscimos ao elenco. Saia assim o histrionismo de Shia LaBeouf e entrava em seu lugar a seriedade apropriada e confiável de Mark Wahlberg, com quem Michael Bay havia trabalhado anteriormente no ótimo “Sem Dor Sem Ganho”.

É curioso notar como, dessa forma, “A Era da Extinção” apontou involuntariamente para um calcanhar de Aquiles que a franquia possuía desde seu início: A insistência dos roteiristas em privilegiar o ponto de vista dos personagens humanos (ainda que construídos com tanta rasura quanto os personagens não humanos...) e deixar num nada satisfatório segundo plano as verdadeiras estrelas do show, os robôs gigantes, Autobots e Decepticons, que se enfrentam numa guerra interminável.

Assim, entra em cena, Cade Yeager (Mark Wahlberg, recém-saído de uma indicação ao Oscar por “Os Infiltrados”), fazendeiro norte-americano com todas as características de herói involuntário de ação: É pai de uma jovem ávida por procurar encrenca (Nicola Peltz, de “Tempo”, uma candidata genérica à ‘nova Megan Fox’), é viúvo e solitário (gancho para o interesse amoroso, que veio no filme seguinte) e muito hábil em mecânica –conhecimento que vem a calhar quando acaba caindo em suas mãos a carcaça de um caminhão antigo pedindo para ser restaurado. Quando acontece de encaixar e ajustar as peças certas, Cade não apenas conserta o caminhão, mas restaura suas diretrizes, descobrindo assim que ele é Optimus Prime (!), o poderoso líder dos Autobots.

Como é perfeitamente previsível, isso arremessa Cade diretamente no centro da guerra entre as duas facções de robôs, sobretudo, depois que sua filha acaba indo parar numa nave pertencente aos alienígenas (!), o que leva Cade a ter de aturar o namoradinho metido à besta dela (Jack Reynor, de “Midsommar-O Mal Não Espera A Noite”) para poder salvá-la, indo parar do outro lado do mundo, na China (uma nada aleatória escolha de ambientação, visto a China abrigar um dos mais numerosos públicos do planeta), onde as batalhas demolidoras e barulhentas de praxe se seguem.

Mais do que a satisfação do público (ainda que, no geral, a cotação deste quarto longa-metragem tenha sido melhor que as dos dois últimos), e mais do que a aprovação da crítica (esta cada vez mais injuriada com os vícios de linguagem e as redundâncias da narrativa de Michael Bay), “A Era da Extinção” é considerado um exemplar bem-sucedido dentro da saga por ser um orçamento consideravelmente menor que os filmes anteriores (algo que Bay havia prometido já durante a pré-produção) e, mesmo assim, manter o bom desempenho nas bilheterias, o que proporcionou à “Franquia Transformers” uma sobrevida.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Transformers - O Lado Oculto da Lua


 Tivesse qualidade palpitante como entretenimento (tal qual o primeiro filme) ou fosse uma porcaria indefensável (tal qual o segundo), uma coisa ficou clara: A franquia “Transformers” era rentável. A crítica poderia expor, em minúcias, onde tudo estava errado –e quase sempre dizia respeito ao estilo histérico e espalhafatoso do diretor Michael Bay –mas, o público comparecia em peso nas bilheterias. Diante dessa constatação, não havia como não aprovar a realização de um terceiro filme tão logo o segundo fez dinheiro o suficiente para se pagar.

Embora tenha gerado relativamente menos expectativa do que o filme anterior –a parcela mais exigente do público já havia entendido que a qualidade se restringiu ao filme inaugural da saga –esta terceira produção não deixou de enfrentar alguns contratempos, além de vir pontuada com alguns indícios de que, sim, Michael Bay, apesar dos pesares, estava atento às reclamações dos expectadores e fez questão de compor um filme que se afastasse de muitas das notórias características negativas apontadas em “A Vingança dos Derrotados”. Em seu novo filme, por exemplo, ele deu uma ênfase mais dedicada aos personagens dos robôs (aqui, mais influentes na história); enxugou consideravelmente o excesso de piadinhas, tornando-as mais pontuais (embora, na boca de Shia LaBeouf, continuassem irritantes); aboliu completamente a ambientação insistente do deserto presente nos dois filmes anteriores; e acima de tudo, devolveu seu jovem protagonista, Sam Witwick (LaBeouf), ao status de perdedor nato –o que contraria, de forma um tanto incômoda, a postura de “bonzão” que ele ostentava na produção anterior.

Houve outro fator –este um pouco inesperado –que tornaram as coisas diferentes neste terceiro filme: A personagem de Megan Fox, Micaela (que, notamos, teria muito mais peso nesta trama) acabou sendo retirada. O motivo: Alegações meio inconsequentes da parte da atriz (afirmando que Michael Bay era um carrasco com o elenco e a equipe, comparando-o à Hitler) deixaram descontente o produtor Steven Spielberg que, imediatamente, ordenou o afastamento dela. Em seu lugar, foi escalada a modelo Rosie Huntington-Whiteley (namorada do astro de ação Jason Statham) a fim de interpretar o novo interesse amoroso de Sam, Carly –entretanto, é visto e perceptível que, embora mudasse o nome da personagem e a beldade que a interpreta, tudo o mais no roteiro de “O Lado Oculto da Lua” trata como se ela ainda fosse Micaela. Tanto é que Megan Fox realmente estava lá nas primeiras semanas de gravação!

Enfim vamos à história: Ingressando na vida adulta (e obviamente assumindo um cargo de simbólica inferioridade perante seu chefe interpretado por John Malkovich), Sam vive uma fase complicada. A namorada (agora, Carly) já não lhe dá atenção, ocupada que está com seu próprio emprego (e com as exigências do patrão vivido por Patrick Dempsey). E seu melhor amigo, Bumblebee, um dos Autobots, finalmente se deu conta de que é mais que um carro de estimação de um humano e agora se ocupa das missões junto dos demais Autobots, sem ter muito tempo para ele –atitude, diga-se, completamente oposta da demonstrada pelo personagem no outro filme.

Os Autobots, por sua vez, liderados por Optimus Prime, têm assuntos realmente sérios com os quais lidar: Atuando em parceria com o governo dos EUA –personificados na personagem pouco aproveitada da grande Frances McDormand –os Autobot acabam descobrindo que a relação entre sua espécie e a dos seres humanos remonta há mais tempo do que parecia, no caso, desde a chegada do homem na Lua (reconstituída num prólogo todo pomposo), onde foi descoberta toda uma base ocupada de Decepticons.

É preciso muita boa vontade do expectador para que seja comprada a proposta de “O Lado Oculto da Lua” ao fazer drama e suspense com a suposição realista de uma invasão alienígena, tantas vezes que esse filão já foi explorado pelo cinema. No que diz respeito ao estilo de Michael Bay, pouca coisa mudou de fato, não obstante seus esforços: As cenas de ação em geral brilham com sua execução exemplar –as técnicas 3D turbinaram os efeitos visuais, influenciados pelo fenômeno “Avatar” poucos anos antes –mas, toda essa extravagância perde qualquer respaldo quando a narrativa busca apoio nos quesitos que deveria ser sólidos, mas não são: Como o roteiro (redundante e, ocasionalmente, até vergonhoso), os personagens (construídos com visível preguiça) e o elenco (orientado de maneira grosseira e superficial). “O Lado Oculto da Lua” é o tipo de filme cujas falhas gritam muito mais alto que seus acertos.

quinta-feira, 9 de março de 2023

Transformers - A Vingança dos Derrotados


 Produzido por Steven Spielberg, o primeiro “Transformers”, quando aportou nas salas de cinema no ano de 2007, revelou-se um belo achado: Descobrimos que o estilo bombasticamente sinético de Michael Bay poderia se encaixar com certa propriedade num produto oriundo da cultura pop dos anos 1980; descobrimos o promissor potencial (depois de um tempo não consumado) do jovem protagonista Shia LaBeouf, além da formosura de Megan Fox. Também descobrimos as vastas possibilidades na área do entretenimento que poderia nos oferecer a arrojada combinação entre robôs gigantes e efeitos visuais de ponta. Um sucesso absoluto.

E como costuma ocorrer com sucessos absolutos, a continuação foi quase um reflexo espontâneo. O problema: Apesar das honoráveis exceções de “O Poderoso Chefão Parte II”, “O Império Contra-Ataca” e alguns outros, Hollywood pouco aprendeu sobre a fina arte de realizar continuações tão boas quanto seus originais. E não haveria de ser o ansioso, truculento e afoito cinema de Michael Bay que possuiria bom senso o bastante para dar uma pausa, observar tudo o que funcionou no primeiro filme (que seriam o carisma de alguns personagens e o apelo dos imensos robôs que viravam carros, combinados num roteiro profundamente referencial às aventuras dos anos 1980) e replicá-lo com critério, parcimônia e elegância no segundo. Em vez disso, Michael Bay –provavelmente agraciado com muito mais liberdade criativa aqui –potencializou tudo o que havia no filme anterior, tornando-o maior, mais longo, mais intenso e mais frenético, beirando assim o insuportável. As piadinhas (em especial, aquelas partidas de Sam, personagem de LaBeouf) se eram pontuais, espontâneas e genuinamente divertidas antes, se multiplicaram de forma a logo cansarem, tal é a frequência com que saem insistentemente (e agora sem tanta espontaneidade) da boca do protagonista (e, aqui neste caso, dos coadjuvantes também); os efeitos visuais flertando com o revolucionário, se representavam os maiores chamarizes daquela produção (similar ao que “Jurassic Park” fizera pouco mais de uma década antes), agora predominavam de tal maneira em cena (e com tamanha ausência de cuidado ao serem inseridos em qualquer contexto) que logo enjoavam, devido a profusão com que robôs de todas as cores, todos os formatos e tamanhos (até mesmo uns nanicos colocados na trama sem a menor relevância!) apareciam na tela.

Em sua trama pouco inspirada, também “A Vingança do Derrotados” se mostrava uma espécie de equívoco: Disposto talvez a não arriscar, os roteiristas Ehren Kruger, Roberto Orci e Alex Kurtzman trilhavam todos os segmentos narrativos do filme anterior, revisitando-os, e acrescentando adendos situacionais que não somavam em absolutamente nada ao enredo. É dessa maneira que o outrora perdedor, Sam Witwick, agora namorando a espetacular Micaela (Megan Fox) ingressa na faculdade para tristeza de seu melhor amigo, o autobot Bumblebee –e todas as piadas já recauchutadas do primeiro filme onde Bumblebee não consegue falar e usa das músicas do rádio para se comunicar são repetidas aqui, como se fossem novidade (!); também a questão um tanto estranha de um jovem adulto não se empolgar com a presença de um robô alienígena e nem de um sex-simbol ambulante como Micaela em sua vida é bastante forçada (tanto que esses elementos serão revistos e contrariados no filme seguinte, mas aí é outra história...). Em meio ao processo de  adequação à faculdade de sempre (mostrado com todos os clichés possíveis, incluindo os valentões da vez), Sam segue demonstrando mais interesse no tédio da vida estudantil acadêmica do que nas circunstâncias assombrosas com as quais se deparou no primeiro filme, até que os perversos Decepticons retornam com um plano de trazer seu líder, Megatron, de volta à vida. O que, em resumo, leva ao caos barulhento e visual que costuma acometer os filmes de Michael Bay –e que ele considera cenas de ação –atingindo seu clímax numa sequência em plenas Pirâmides do Egito.

Não se pode negar que haviam algumas boas intenções no projeto deste segundo “Transformers”: Ao abordar ligeiramente a subtrama da “morte de Optimus Prime”, o roteiro fazia uma ligeira referência ao longa-metragem de animação, “Transformers-O Filme” (lançado ainda durante a época gloriosa do desenho animado, em 1986) tomando emprestado um dos mais dramáticos e marcantes arcos narrativos acompanhados pelos fãs. Uma pena que, de tudo aquilo, muito pouco sobrou: O roteiro de Kruger, Orci e Kurtzman mal aproveita as circunstâncias esboçadas na animação oitentista –que, com não muita atenção, pode-se notar que era muito mais bem roteirizada, mesmo sendo um produto infantil, do que todos os mais recentes longa-metragens feitos para cinema, presumidamente feitos para adultos.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Armageddon

Quando foi lançado no final da década de 1990, a trama de “Armageddon” mostrou-se um primor do absurdo: Perfuradores de petróleo norte-americanos eram selecionados para uma missão espacial (!) onde teriam de introduzir uma bomba nuclear num asteróide prestes a colidir com a Terra (!).
O filme, na verdade, representava uma espécie de reafirmação do estilo extravagante do diretor Michael Bay que havia entregado pérolas inacreditáveis da ação ininterrupta em “Bad Boys” e “A Rocha”, mas criou seu verdadeiro cartão de visitas aqui.
Bruce Wiilis, num papel que parece moldado para ele, é Harry Stamper, líder de uma equipe texana de perfuração –e tal equipe inclui figuras como Steve Buscemi, Michael Clarke Duncan, Ben Affleck, Will Patton e Owen Wilson.
Veja bem: Dizer qe Bruce Willis foi moldado para o papel, deveras, não significa que ele entrega uma boa atuação –fator que passa longe das obras de Michael Bay –significa, na realidade, que o papel foi pensado e escrito para ele; e à ele se encaixa em suas canastrices e limitações dramáticas.
O governo dos EUA identifica o grande asteróide que, sem sombra de dúvidas, colocará fim à vida no planeta Terra, e põe em prática um plano para salvar a raça humana: Enviar uma equipe ao espaço, com escalas entre diversas estações internacionais para chegar em tempo ao meteoro e nele implantar uma bomba capaz de reduzi-lo a fragmentos menores –mas, que ainda proporcionam as insanas sequências de destruição do filme.
Os homens selecionados para tal missão terminam sendo o grupo peculiar e grosseiro de Stamper que, nas inserções cômicas inapropriadas que também caracterizam o estilo de Bay, não se adequam de modo algum ao bom senso esperado dos astronautas.
Como o destino da humanidade depende deles –como se não existissem no planeta Terra alternativas melhores do que os norte-americanos! –o programa espacial os aceita mesmo assim; e lá vão eles em direção do espaço, aprontar lá as mesmas presepadas que aprontam na Terra: Heróis de ação, supinos, irônicos e patriotas, que passam todo o filme enfrentando os perigos indizíveis e improváveis do espaço –além da truculência e falta de visão dos militares (é claro!) capazes de pôr em risco a missão e a vida na Terra porque são obtusos o bastante para insistir nas próprias ideias fixas.
Uma obra irredutível nos altos níveis de decibéis que se propõe a entregar, “Armageddon” representou, com seus ostensivos clichês, o cinema comercial em estado bruto, em contraponto a um cinema mais autoral que, naquele ano de 1998, começou a aflorar no circuito comercial: De repente, obras barulhentas como esta começaram a dar espaço para trabalhos construídos com inteligência (como o suspense “Irresistível Paixão”) ou sensibilidade (o inesperado sucesso de bilheteria “Encantador de Cavalos”). Entretanto, o público afoito de filmes de ação ao qual se dirigia ficou satisfeito (e até hoje ainda se satisfaz) com essa receita tão formulaica, da qual Michael Bay costuma ser um dos mais célebres manejadores.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

13 Horas - Os Soldados Secretos de Benghazi

Embora ele talvez viesse a negar, não dá para esconder a intenção de Michael Bay em trilhar um caminho parecido com o de Steven Spielberg (que para ele produziu a bem-sucedida adaptação dos “Transformers” para o cinema), de preferência com a mesma consagração e reconhecimento.
“Pearl Harbor” já representava toda uma intenção em emular, entre outros, “O Resgate do Soldado Ryan”. A grande obra bélica de Spielberg volta a servir de enorme referência à Michael Bay aqui, neste “13 Horas”, embora não apenas ela: Percebe-se também ecos poderosos do arrojado “Falcão Negro em Perigo”, de Ridley Scott.
Reencontrando um certo ímpeto que pareceu se dispensar na realização dos três primeiros filmes dos robôs que viram carros, Bay enveredou pela realização de seu melhor filme em muitos e muitos anos (o divertido e absurdo “Sem Dor, Sem Ganho”), e aqui realmente dedica-se na construção de uma obra vibrante e enérgica, sobretudo, em relação às suas cenas de tensão, de conflito e de perseguição.
O problema é a tentativa de Bay em soar um diretor amplamente capaz –coisa que ele não é –demandando tempo, na primeira metade, a desenvolver personagens que não são desenvolvidos e a aprofundar relações e motivações que não têm função narrativa exceto a de mostrar que ele saberia dirigir atores (não sabe...); se há algo positivo a se falar, é que ao menos desta vez Bay não se vale de piadinhas e trocadilhos engraçados para construir as cenas de baixa voltagem optando pela seriedade.
O filme foca num evento real ocorrido em 2010, quando uma embaixada americana em Benghazi, no Oriente Médio, ocupada por funcionários da Inteligência é sitiada por terroristas armadas disposto a promover uma carnificina. Seis ex-militares de elite recrutados para serviços de segurança são tudo o que aquelas pessoas têm para protegê-las dos inimigos ensandecidos. Não há muitos recursos. Não há transportes para uma ação evasiva. Não há tempo suficiente para uma operação de resgate vinda de fora. Tudo o que eles podem fazer é resistir até que algo seja feito.
Dividido em duas partes bem distintas, sendo a primeira –que se ocupa de relatar com calmaria o dia-a-dia na embaixada –consideravelmente mais fraca que a segunda, muito mais visceral, tensa e explosiva.
Embora conte com atores competentes –e conseguem se destacar, mais por mérito próprio do que por alguma ênfase no roteiro, o eficiente James Badge Dale (de “O Vôo”, “A Travessia” e “Homem deFerro 3”), o descontraído Pablo Schreiber (da série “Orange Is The New Black”) e o protagonista John Krasinski (normalmente mais associado a comédias) –o filme não trás personagens bem desenhados, e por isso mesmo, os momentos de tensão que os envolvem soam genéricos. O que Michael Bay faz bem (e isso ninguém duvida) é na questão estética: “13 Horas” é bem fotografado (Dion Beebe, seu diretor de fotografia, trabalhou em “Chicago” e em “Memórias de UmaGueixa”), bem montado e bem executado nos aspectos técnicos de suas cenas de batalha –e, nesse sentido, acaba também remetendo a todos os cânones do gênero ao qual Bay busca prestar tributo.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

A Ilha

Antes de ter seu nome atrelado à série cinematográfico em live-action dos “Transformers”, o diretor Michael Bay estava muito bem cuidado de seus projetos individuais.
Estava longe do reconhecimento de um James Cameron, era bem verdade, mas o público sempre abalizava trabalhos comerciais como “Armageddon”, “Bad Boys” e até mesmo “Pearl Harbor” –mesmo que seus detratores não economizassem nas críticas.
“A Ilha” representa assim uma tentativa de experimentar novos gêneros (a ficção científica distópica, neste caso) que nunca seguiu em frente –logo depois, ele foi convidado, pelo produtor Steven Spielberg, a dirigir o primeiro filme dos robôs que se transformam em carros.
A trama guarda ecos de “THX 1138”, de George Lucas, assim como de diversos outros filmes sobre um mundo futurista condicionado nos quais, na maioria das vezes, o realizador almeja uma discussão reflexiva acerca de algum tópico. Esse, contudo, não parece ser o objetivo de Bay, ou pelo menos, deixa de ser seu objetivo tão logo as perseguições e explosões inerentes ao seu cinema contaminam a tela.
Tudo começa num enorme complexo onde pessoas que lá vivem reclusas integram uma sociedade estética e estéril, com proibição do contato físico e da diferenciação –e nesse ponto, o roteiro já se debruça em cima da referência a inúmeros trabalhos como o já citado “THX 1138”, “Gattaca-A Experiência Genética”, “Fuga do Século 23” e outros.
Naquele lugar constituído de vidros e superfícies esterilizadas, onde as máquinas ultramodernas dizem o quê fazer, como comer e como proceder, todos têm como único divertimento a espera de uma loteria que sorteia ocasionalmente indivíduos a serem enviados à "Ilha", o último lugar do planeta ainda livre da radioatividade (que, segundo a história que lhes é paulatinamente contada, devastou todo o mundo exterior).
É aí que surge sintomaticamente o personagem questionador, na forma de Lincoln Six-Echo (Ewan McGregor), que dará o ponto de partida às transformações. Melhor amigo da linda Jordan Two-Delta (Scarlett Johansson, na crista da onda devido ao recente “Encontros de Desencontros” e à “Match Point” de Woody Allen, lançado naquele mesmo ano), ele se mostra insatisfeito ao ter de seguir ordens de computadores que controlam sua saúde física, mental e alimentar.
À esse ímpeto de inconformismo com o estado das coisas logo se seguem pequenos atos de contravenção –como escapar ora ou outra para os níveis superiores, habitados por trabalhadores sujos como James McCord (Steve Buscemi, um dos coadjuvantes preferidos de Bay) para conversar –quando então ele começa a descobrir muito mais do que deveria: Todos eles estão sendo ludibriados, e sua sociedade é monitorada por uma empresa que cria uma ilusão para enganá-los. Todos eles são, na verdade, clones de pessoas do mundo lá fora.
Ao lado de Jordan, Lincoln inicia uma audaz, acidental e inacreditavelmente bem sucedida fuga do lugar e, completamente desinformados do mundo exterior, são perseguidos por agentes de contenção liderados por Albert Laurent (Djimon Hounsou, um grande ator, em geral, sub-aproveitado).
É então a partir desse ponto que “A Ilha” deixa de ser a notável ficção científica que ameaçava ser, para tornar-se algo inerente ao tipo de produção que Michael Bay dirige: Um filme descerebrado de ação, com direito até mesmo aos habituais lapsos de inverossimilhanças de quando a tal ação se desdobra com tamanha empolgação que às vezes despreza a lógica.
O fato de Michael Bay, aqui, arriscar-se em um filme amparado numa história mais complexa lhe conta alguns pontos, ainda que esse objetivo seja claramente abandonado a partir de sua metade –fazendo-o parecer que toda a premissa interessante não era outra coisa senão um pretexto para a pirotecnia.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Pearl Harbor

Uma coisa é querer igualar o resultado de uma produção como “Titanic”, outra, bem diferente é obter sucesso com essa meta. E as pretensões de Michael Bay em “Pearl Harbor” iam até para além disso! Ele vislumbrava uma reedição do épico de James Cameron e, ao mesmo tempo, uma mescla com o mesmo cinema bélico com o qual Steven Spielberg tinha moldado seu “O Resgate do Soldado Ryan”.
Seu projeto, a partir do roteiro de Randall Wallace (de “Coração Valente”) almejava uma espécie de junção entre esses dois fenômenos cinematográficos.
Obedecendo as demarcações de um cinema à moda antiga –mesmo aquelas que a modernidade permitiu superar –o filme de Bay acompanha, antes de tudo, a amizade indissolúvel entre Rafe McCawley (Ben Affleck) e Danny Walker (Josh Hartnett). Amigos criados juntos. Irmãos na afinidade pelo fascínio de voar. A narrativa salta de uma fase para outra (infância numa fazenda, a juventude em meio ao sonho de ser piloto, a vida adulta) sem sutileza –ele o faz apenas porque milhões de filmes antes dele também o fizeram. Logo, os dois amigos estão servindo na Base Aérea de Pearl Harbor, no Hawaí.
Rafe se engraça com Evelyn (Kate Beckinsale), uma das enfermeiras locais, e Bay entrega cenas açucaradas o bastante para sabermos que esse romance será o pivô de toda a trama do filme –interessante notar também o quanto Bay confunde profundidade dramática com ênfase cômica (quando seu filme não é estupidamente romântico ou solenemente épico, ele adquire ares de comédia!).
Rafe é dado como morto durante um vôo à serviço dos ingleses.
Danny, que já tinha lá sua queda por Evelyn lhe presta mais do que apenas consolo.
E eis que, quando Evelyn se descobre grávida de Danny, vem a revelação de que Rafe não morreu –numa guinada digna de novela das oito! Quando o filme já está por atingir suas três horas de duração e Michael Bay introduziu o que ele supõe ser o grande conflito dramático do filme –não é, pois isso nunca chega a ser um triângulo amoroso, ficando claro desde o começo que Rafe e Evelyn serão o ‘casalzinho do filme’ –ele entrega então a grande vedete da produção: A seqüência extensa, ininterrupta e barulhenta do ataque japonês à Pearl Harbor, que ingressou em definitivo os EUA na Segunda Guerra Mundial –há até uma participação desnecessário e vexaminosa de Jon Voight como o presidente Theodore Roosevelt.
Até que chegar nesse ponto, o filme de Michael Bay já deixou bem claro o tipo de filme que quer ser –e também o tipo de filme que ele não consegue ser!
As cenas do ataque são bem editadas, frenéticas e envolventes o suficiente para justificar o interesse do expectador até ali, mas mesmo elas não vão além de um espetáculo filmado com o esmero técnico de sempre pelo cinema hollywodiano –se “Titanic” e “Soldado Ryan” eram as aspirações de Bay para seu projeto, então faltou ao realizador compreender que Cameron e Spielberg não amparavam suas grandes obras em meras exibições de pirotecnia: Seus trabalhos elevavam a sinergia da ação à uma arte maior pelo simples fato de forçarem os limites do que já foi feito em busca de ineditismo.
E não há qualquer ineditismo em “Pearl Harbor”, pelo contrário, há nele um esforço contumaz para se emular um cinema conservador, tradicional e, quem sabe, que viesse a falar junto à mentalidade da Academia de Artes Cinematográficas...
Mais do que um épico histórico sobre o episódio abordado, mais do que um romance hollywodiano com intenções suntuosas, porém, “Pearl Harbor” termina sendo mesmo um indicativo de todas as abissais deficiências de Michael Bay como diretor.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Transformers

Diretor cuja carreira é indissociavelmente atrelada aos filmes de ação (e dos mais descerebrados possíveis!), Michael Bay ganhou uma franquia à qual relacionar seu nome quando aceitou o convite do produtor Steven Spielberg para comandar a primeira adaptação cinematográfica dos famosos brinquedos de Hasbro (e que renderam uma bem-sucedida série de desenhos animados a partir dos anos 1980): Transformers, os robôs que viravam carros.
Spielberg demonstrou, com essa escolha, apurado faro mercadológico; ele percebeu que Bay, com seu estilo de filmar a ação, obcecado com o visual publicitário, daria a roupagem adequada ao filme –de fato, a maneira com que o diretor consegue fetichizar as máquinas já é meio caminho andado, dando aos robôs gigantes uma identificação humana que os formidáveis efeitos visuais só tratam de potencializar.
Ainda assim, o fio narrativo de Bay, por mais frágil que seja, necessita de uma contraparte humana de fato, que vem a ser Sam Witchwyck (personagem que Shia LaBeouf interpretada com improviso desesperado), um adolescente com uma única coisa em mente: Convencer seu pai a lhe comprar um carro e obter meios para assim impressionar a garota mais bela da escola, Michaela (a espetacular Megan Fox).
O carro em questão, porém, não é bem um carro: Trata-se de um robô alienígena (!), Bublebee, vindo do planeta Cybertron, consumido por uma guerra intergaláctica entre os honrados Autobots (dos quais Bublebee faz parte, assim como seu líder, Optimus Prime, e seus demais companheiros) e os perversos Decepticons (liderados pelo cruel Megatron). As duas facções de robôs gigantes trazem sua guerra para a Terra à procura de um artefato denominado “Allspark”, um cubo dotado do poder de atribuir vida às máquinas –ou algo assim...
E o quê um mero adolescente americano com hormônios em fúria tem a ver com um conflito que ameaça todo o planeta? Como é habitual aos filmes de Bay, tais amarras menos relevantes (!) o filme trata de realizar da forma mais rudimentar possível (e esse é o mesmo tratamento dado à dezena de outros personagens que surgem de forma um pouco aleatória na trama); o que interessa ao seu diretor é a ação ininterrupta –cujo elevado volume suplanta qualquer atenção à história, às motivações ou à dramaturgia –as imagens exuberantes captadas em filtros de câmera estilosos e, no caso deste filme em especial, prestar homenagem ao seu produtor, Spielberg, por meio de uma série de pequenas referências: A relação de amizade entre Sam e Bublebee remete (ou, pelo menos tenta remeter) ao afeto entre Elliot e o alienígena em “E.T. O Extraterrestre”; o caminhão no qual Optimus Prime se transforma faz alusão ao modelo usado no suspense “Encurralado”; o diminuto decepticon que cria um tumulto à bordo do Força Aérea Um parece uma referência aos “Gremlins”; e assim por diante.
Tremendo sucesso de bilheteria, “Transformers” foi o primeiro exemplar de uma franquia cujos títulos seguintes foram minguando no fato –óbvio desde o início –de que os filmes não tinham nada de novo a oferecer. Uma parcela do público, contudo, não se incomoda com isso, e a franquia “Transformers” goza de contínuas bilheterias rentáveis, apesar de contínua também ser sua queda de qualidade.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

As Tartarugas Ninja no Cinema

A recepção positiva que esses personagens receberam nas suas mais variadas aparições na mídia e na cultura pop é bastante indicativa do quão populares eles são junto ao público.
Criados no final da década de 1980 por Kevin Eastman e Peter Laird (produtores da revista “Heavy Metal”) para uma linha de quadrinhos alternativos com ligeira e debochada influência nos heróis da Marvel, as Tartarugas Ninja logo passaram a fazer sucesso ganhando, nos anos 1990, um desenho animado que as introduziu no subconsciente infantil de toda uma geração.
Em algum momento desse sucesso todo, foi realizado também um filme.
Dirigido pelo mesmo Steve Barron que realizou algumas produções cult dos anos 1980 (como o açucarado “Amores Eletrônicos”), o primeiro longa do quarteto de tartarugas tinha a bela atriz Judith Hoag como a repórter April O’ Neil –a melhor amiga humana das tartarugas –e Elias Koteas (de “Além da Linha Vermelha” e “Crash-Estranhos Prazeres”) como o vigilante Casey Jones. Para concretizar a tarefa inédita de materializar os quatro tartarugas ninja com realismo em um filme, a produção trazia uma hoje datada técnica de animatrônica, com atores usando imensas máscaras dos personagens nas quais a boca e os olhos se movimentavam. Nada disso impediu que a molecada da época ficasse fascinada com o filme e o transformasse num sucesso de bilheteria. Hoje, ainda dotado daquele charme nostálgico oitentista, ele é lembrado como mais um dos muitos “clássicos da sessão da tarde”.

Como era habitual ocorrer na época, a indústria não tinha uma ideia exata de como trabalhar os ingredientes de seu próprio produto e o filme ganhou anos depois uma continuação, em tudo e por tudo inferior: “As Tartarugas Ninja-O Segredo do Ooze”, dirigido pelo operário padrão de filmes B, Michal Pressman, no qual um dos destaques era uma ponta (vergonhosa como sempre!) do infame popstar Vanilla Ice.
O grupo formado por Leonardo, Michelangelo, Rafael e Donatelo defrontava-se, mais uma vez com o ninja Destruidor (num gancho que ligava mal e porcamente este com o filme original), e com as consequências de uma substância estranha -o Ooze! -capaz de criar humanóides: Este filme trás, portanto, a primeira tentativa em trazer alguns personagens da série animada de TV (ou pelo menos, pressupõe-se que aqueles capangas que aparecem tinham intenção de ser Rocksteady e Bee-Bop, já que a tosqueira absoluta que predomina na produção deixa as coisas meio... indistinguíveis!).
Por alguma razão, Judith Hoag não voltou para interpretar April (e penso que ela estava certíssima), e quem assumiu seu lugar para pagar esse mico foi a bela Paige Turco.

À essa continuação seguiu-se um filme para a TV ainda mais inferior (onde os personagens voltavam no tempo e viravam samurais!!!), e depois dele uma paupérrima série live-action, já no fim dos anos 1990. As Tartarugas Ninja começavam a cair numa certa obscuridade.
Na década que se seguiu muitas foram as tentativas de restabelecer as Tartarugas Ninja com o mesmo apelo de público avassalador que eles tiveram nos anos 1980, inclusive com uma ótima animação para cinema lançada em 2007, dirigida por Kevin Munroe.

Nela, Rafael, Michelangelo, Leonardo e Donatelo, o quarteto de tartarugas ninja mutantes que lutam contra o crime, retornava num longa-metragem de computação gráfica, que restaurava um pouco do clima violento da HQ underground da qual se originaram, deixando de lado o tom infantilizado que foi banalizando cada vez mais os personagens na sua série de animação convencional da década anterior. O resultado, embora não tenha a perfeição de um padrão "Disney", por exemplo, foi muito bom.
Uma pena não ter rendido o êxito esperado.

Em 2014, contudo, foi a vez de arriscar um novo filme live-action para cinema. O diretor era o jovem Jonathan Liebesman (do frenético e ensurdecedor “Invasão do Mundo-Batalha de Los Angeles”), mas controle técnico e criativo, em todos os aspectos, estava com seu produtor, o famigerado Michael Bay. É muito do seu estilo explosivo, alucinado e espalhafatoso que se vê em cena refletindo-se em escolhas um pouco equivocadas como a escalação bastante inadequada de Megan Fox (jovem atriz assídua em trabalhos de Michael Bay, como “Transformers”) para o papel de April O’ Neil –ainda que ela seja linda! –e na caracterização exageradamente anabolizada das tartarugas (que agora são enormes e brutamontes!). A grande novidade, em si, era o emprego de efeitos especiais de captura de performance, tal e qual eles eram utilizados, por exemplo, em “Planeta dos Maçados-A Origem”. A técnica, originada no épico “Avatar” de James Cameron, permitia que se criassem seres inumanos com as mesmas expressividades de seus intérpretes humanos, e isso caia muito bem num projeto envolvendo os tartarugas.
 A trama, como sempre, não mudou muito: A repórter April O' Neil investiga acontecimentos estranhos envolvendo vigilantes misteriosos que têm combatido a principal quadrilha criminosa de Nova York: A Gangue do Pé. Esses vigilantes, ela descobre, são tartarugas, e são ninjas! Criadas nos esgotos por um acidente químico, essas tartarugas (Leonardo, Rafael, Michelangelo e Donatelo) foram treinadas pelo rato (e mestre em artes marciais) Splinter, e preparam-se para o seu maior desafio: enfrentar o perigoso Destruidor (convertido do que deveria ser um ninja, numa espécie de vilão robotizado, no que deve ser o maior erro deste filme!), líder absoluto de toda a Gangue do Pé, que guarda planos terríveis envolvendo NY.
Não há como negar que a tecnologia de efeitos especiais aperfeiçoa e amplia as cenas de ação (embora seu exagero seja também um dos graves problemas do filme), mas a fraqueza do roteiro (e da atriz Megan Fox) compromete o resultado.
Entretanto, como costuma ocorrer com os filmes de Michael Bay, as características negativas do filme não impediram-no de ter uma boa bilheteria, garantindo uma continuação, “Tartarugas Ninja-Fora das Sombras”.

Numa manobra narrativa muito parecida com o que Michael Bay realizou em sua franquia dos “Transformers”, ele usa o segundo filme para trazer uma nova ameaça, à qual irá confrontar o quarteto de tartarugas (bem como suas distintas personalidades) com um dilema: Se expor ou não aos olhos dos nova-iorquinos, para que não atuem mais às escondidas, como é sugerido pelo “fora das sombras” do título.
Este segundo filme beneficiou-se de uma série de circunstâncias favoráveis. A principal delas: Michael Bay e os demais produtores aparentemente deram ouvidos às críticas do filme anterior, e removeram a pesada direção de Liebesman.
O novo diretor, o jovem Dave Green, trouxe muitos elementos oriundos da série animada de TV dos anos 1990, incluindo os vilões Krang (um alienígena interdimensional rosado e gosmento que quer dominar o mundo), Rocksteady e Bee-Boop (um rinoceronte e um javali humanóides a exemplo das próprias tartarugas ninja), além de finalmente caracterizar o Destruidor da maneira certa, como um mestre ninja maligno.
No elenco, além do retorno de Megan Fox (aqui mais à vontade que no filme anterior, e nitidamente menos influente na trama) e do engraçado Will Arnett, temos a adição do novo Casey Jones (Stephen Amell, da série “Arrow”, constrangedoramente falho em sua tentativa de agregar humor ao personagem) e da excelente Laura Linney, como uma investigadora policial.
As fraquezas ainda estão lá, e são todas as mesmas (cenas de ação barulhentas e excessivas de uma pirotecnia desmedida em detrimento à história e aos personagens, tratados de maneira rasa), mas o novo filme se aproxima muito mais da essência de seus personagens, e daquilo que fez deles uma diversão deliciosa na infância dos que são hoje a platéia adulta.

PS: Uma das cenas deletadas do filme (e que pode ser conferida nos extras do DVD), mostra uma participação especial da intérprete original de April O’ Neil, Judith Hoag, numa breve cena com Megan Fox. Ainda muito bonita, ela consegue ter mais a ver com a personagem em dois minutos de aparição do que Megan Fox em dois filmes inteiros!

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Sem Dor, Sem Ganho

Talvez, esta tenha sido a primeira vez em que vi a direção de Michael Bay trabalhar em função de um propósito narrativo, e não a favor de explosões e tiros no mais alto volume. Seus excessos ainda estão todos lá, é bem verdade, mas aqui parecem apoiar a própria proposta insana deste filme inspirado em fato verídico: A de que a realidade é ainda mais exacerbada e absurda do que a ficção!
Três ratos de academia (Mark Walhberg, Dwuaine ‘The Rock’ Johnson –engraçadíssimo –e Anthonie Mackie) decididos a pegar uma via mais simples para a realização de seu "sonho americano" resolvem sequestrar um dos mais endinheirados clientes da academia onde malham, para assim, através das mais gaiatas torturas, obrigá-lo a passar seus bens para o nome deles. O resulto conduzirá todos numa espiral de crimes que terminará de forma violenta, ainda que hilária!

Baseado no que é considerado o “julgamento mais bizarro da história da Califórnia”, este filme traz um argumento quase absurdo combinando a perfeição com o estilo espalhafatoso, exagerado e acelerado de Michael Bay, dando à trama o enfoque sensacionalista e morbidamente engraçado, sem o qual ela provavelmente não iria funcionar (em um determinado momento, a narrativa se interrompe para praticamente relembrar o expectador que esta ainda é um história real!), além de beneficiar-se de uma escolha muito feliz de elenco: Whalberg, Dwayne Johnson e Mackie estão perfeitos no equilíbrio de humor que seus personagens exigem. Junto deles, um elenco admirável comparece em diversas participações (vamos e venhamos, apesar de tudo, Bay quase sempre reúne atores interessantes em seus projetos...), como Ed Harris, Tony Shaloub e Rebel Wilson. O resultado é uma grata e inusitada surpresa.