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terça-feira, 8 de outubro de 2024

Ajuste Final


 Em seus primeiros projetos cinematográficos, os Irmãos Coen, Joel e Ethan, procuraram visitar distintos gêneros de cinema, a fim de testar suas aptidões e encontrar sua própria voz autoral dentro de expedientes já estabelecidos. É por isso que, em sua primeira fase, fomos brindados com obras como “Gosto de Sangue” (um neo-noir), “Arizona Nunca Mais” (comédia screwball) e “Barton Fink-Delírios de Hollywood” (drama de metalinguagem). À eles, soma-se este “Miller’s Crossing” com o qual os Coen levam um viés inusitado ao filme de gangster.

Ambientado numa cidade norte-americana indefinida (ainda que tenha sido filmado em Nova Orleans), e situado no ano de 1929 (o auge da Lei Seca), “Miller’s Crossing” possui um prólogo que parece um piscadela à “O Poderoso Chefão”, a referência-mor do gênero: Diante da câmera, um descendente de italianos (tal e qual no filme de Coppola) faz um monólogo quase que para a plateia –e para o poderoso ‘chefão’ deste filme, o irlandês Leo O’Bannon, vivido com ar supino por Albert Finney. O descendente de italianos, contudo, é outro gangster, Johnny Casper (Jon Polito, de “A Conquista da Honra”), e ele esboça seu descontentamento com um certo Bernie Bernbaum, um bookmaker clandestino que, apesar de sua insignificância, está incomodando a harmonia de seu negócio de apostas ilegais.

Casper quer Bernie morto. Leo recusa seu pedido. E está, assim, declarada a guerra.

Ouvindo tudo, está Tom Reagan (Gabriel Byrne), braço-direito de Leo e seu melhor amigo, o único aparentemente capaz de expor opiniões discordantes ao irascível Leo. Tom sabe que, ao negar um pedido relativamente sensato à Casper, Leo está pondo a paz de seu império mafioso à perder, mas, Leo se mantém irredutível e a resposta para isso não tarda à vir: Leo está enamorado  da charmosa vigarista Verna Bernbaum (Marcia Gay Harden, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Pollock”) que vem a ser irmã de Bernie Bernbaum (John Turturro). A pedido de Verna, portanto, Bernie goza da proteção indireta de Leo, e seus deslizes constantes, fonte de irritação de Casper, recebem vista-grossa do chefão. Tom, entretanto, sabe que essa paixonite de Leo pode levar à sua derrocada –e, para complicar ainda mais as coisas, Tom e Verna são amantes às escondidas de Leo (!),

Não obstante o requinte cinematográfica que pontua este filme –enfatizado na brilhante fotografia de Barry Sonnenfeld e na música climática, operística e lírica de Carter Burwell –a trama extremamente complexada e intrincada, abarrotada de informações ambíguas, traições, reviravoltas e alianças forjadas de última hora, é contada mesmo através de diálogos carregados de melindres entre os personagens. Nessa circunstância adornada de perfídia, não chega a ser inesperado quando, ao descobrir a traição do melhor amigo, Leo rompe com Tom e este passar para o lado de Casper –a fim de provar sua lealdade ao novo chefe, contudo, Tom é obrigado por seus capangas à levar o incauto Bernie para a floresta de Miller’s Crossing, local onde, pelo jeito, os mafiosos têm o hábito de levar para sacrificar suas incontáveis vítimas.

Amparados em seus valores cinematográficos à toda prova, os Coen dão uma grande contribuição ao conceito narrativo –difundido pela obra-prima de Francis Ford Coppola –no qual as intrigas e tramóias mafiosas, desenroladas num novelo elaborado de mortes e conchavos, ganham uma carregada aura de tragédia e ópera; exemplo disso, entre outras passagens tornadas memoráveis, é o ataque à mansão de Leo, cujo tratamento bastante estilizado e poético deixa um tanto quanto de lado as pretensões de realismo para ressaltar o ambiente em suas minúcias pictórias, como se todos os locais (a mansão, o escritório de Leo, o quarto de Tom, o Clube Shenandoah –olha a referência! –e a própria Miller’s Crossing) fossem palco dos desdobramentos irônicos de uma mitologia muito particular.

Essas considerações, envoltas numa rigidez acadêmica tanto técnica quanto artística, somadas ao inerente humor negro dos Coen, tornam pouco convincentes (ainda que sempre intrigantes) muitos dos desenlaces da trama –um pequenino lapso que, na maioria de seus excelentes trabalhos, os Coen souberam habilmente contornar.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Transformers - O Lado Oculto da Lua


 Tivesse qualidade palpitante como entretenimento (tal qual o primeiro filme) ou fosse uma porcaria indefensável (tal qual o segundo), uma coisa ficou clara: A franquia “Transformers” era rentável. A crítica poderia expor, em minúcias, onde tudo estava errado –e quase sempre dizia respeito ao estilo histérico e espalhafatoso do diretor Michael Bay –mas, o público comparecia em peso nas bilheterias. Diante dessa constatação, não havia como não aprovar a realização de um terceiro filme tão logo o segundo fez dinheiro o suficiente para se pagar.

Embora tenha gerado relativamente menos expectativa do que o filme anterior –a parcela mais exigente do público já havia entendido que a qualidade se restringiu ao filme inaugural da saga –esta terceira produção não deixou de enfrentar alguns contratempos, além de vir pontuada com alguns indícios de que, sim, Michael Bay, apesar dos pesares, estava atento às reclamações dos expectadores e fez questão de compor um filme que se afastasse de muitas das notórias características negativas apontadas em “A Vingança dos Derrotados”. Em seu novo filme, por exemplo, ele deu uma ênfase mais dedicada aos personagens dos robôs (aqui, mais influentes na história); enxugou consideravelmente o excesso de piadinhas, tornando-as mais pontuais (embora, na boca de Shia LaBeouf, continuassem irritantes); aboliu completamente a ambientação insistente do deserto presente nos dois filmes anteriores; e acima de tudo, devolveu seu jovem protagonista, Sam Witwick (LaBeouf), ao status de perdedor nato –o que contraria, de forma um tanto incômoda, a postura de “bonzão” que ele ostentava na produção anterior.

Houve outro fator –este um pouco inesperado –que tornaram as coisas diferentes neste terceiro filme: A personagem de Megan Fox, Micaela (que, notamos, teria muito mais peso nesta trama) acabou sendo retirada. O motivo: Alegações meio inconsequentes da parte da atriz (afirmando que Michael Bay era um carrasco com o elenco e a equipe, comparando-o à Hitler) deixaram descontente o produtor Steven Spielberg que, imediatamente, ordenou o afastamento dela. Em seu lugar, foi escalada a modelo Rosie Huntington-Whiteley (namorada do astro de ação Jason Statham) a fim de interpretar o novo interesse amoroso de Sam, Carly –entretanto, é visto e perceptível que, embora mudasse o nome da personagem e a beldade que a interpreta, tudo o mais no roteiro de “O Lado Oculto da Lua” trata como se ela ainda fosse Micaela. Tanto é que Megan Fox realmente estava lá nas primeiras semanas de gravação!

Enfim vamos à história: Ingressando na vida adulta (e obviamente assumindo um cargo de simbólica inferioridade perante seu chefe interpretado por John Malkovich), Sam vive uma fase complicada. A namorada (agora, Carly) já não lhe dá atenção, ocupada que está com seu próprio emprego (e com as exigências do patrão vivido por Patrick Dempsey). E seu melhor amigo, Bumblebee, um dos Autobots, finalmente se deu conta de que é mais que um carro de estimação de um humano e agora se ocupa das missões junto dos demais Autobots, sem ter muito tempo para ele –atitude, diga-se, completamente oposta da demonstrada pelo personagem no outro filme.

Os Autobots, por sua vez, liderados por Optimus Prime, têm assuntos realmente sérios com os quais lidar: Atuando em parceria com o governo dos EUA –personificados na personagem pouco aproveitada da grande Frances McDormand –os Autobot acabam descobrindo que a relação entre sua espécie e a dos seres humanos remonta há mais tempo do que parecia, no caso, desde a chegada do homem na Lua (reconstituída num prólogo todo pomposo), onde foi descoberta toda uma base ocupada de Decepticons.

É preciso muita boa vontade do expectador para que seja comprada a proposta de “O Lado Oculto da Lua” ao fazer drama e suspense com a suposição realista de uma invasão alienígena, tantas vezes que esse filão já foi explorado pelo cinema. No que diz respeito ao estilo de Michael Bay, pouca coisa mudou de fato, não obstante seus esforços: As cenas de ação em geral brilham com sua execução exemplar –as técnicas 3D turbinaram os efeitos visuais, influenciados pelo fenômeno “Avatar” poucos anos antes –mas, toda essa extravagância perde qualquer respaldo quando a narrativa busca apoio nos quesitos que deveria ser sólidos, mas não são: Como o roteiro (redundante e, ocasionalmente, até vergonhoso), os personagens (construídos com visível preguiça) e o elenco (orientado de maneira grosseira e superficial). “O Lado Oculto da Lua” é o tipo de filme cujas falhas gritam muito mais alto que seus acertos.

domingo, 29 de janeiro de 2023

Nomadland


 A princípio, pode-se perguntar a quais circunstâncias parece tentar obedecer a técnica e a estética da diretora Chloe Zhao em “Nomadland”? Provavelmente nenhuma que reserve a seu filme qualquer redundância ao drama ou ao melodrama, ainda que todos os caminhos indiquem essa finalidade à premissa. Há, assim sendo, a personagem protagonista Fern, de Frances McDormand, e sua infindável, desamparada e resignada trajetória através das facetas mais ásperas da América –aquela que Hollywood insiste em camuflar e que o cinema independente, de maneira geral, luta ao tentar expor. E falando em expor, há aqui também o acurado senso de realidade da diretora que, na escolha criteriosa da direção de fotografia, revela a vida real árdua em seu silêncio contemplativo, vasta em sofrimento e privação, árida, extensa e incontornável. O mundo parece um grande deserto no qual os personagens peregrinam sem ostentar esperanças de um dia dele escapar.

Fern é, como tantos outros mais que ela encontrará pelo caminho, uma das incalculáveis vítimas da crise financeira de 2008. Perdeu tudo o que materialmente tinha (casa, emprego, renda), e na esteira dessa desgraça, vieram também as perdas pessoais (casamento, família, dignidade). A ela restou, portanto, uma van dentro da qual cabe todos os seus irrisórios pertences, e um mundo inteiro para percorrer em estradas desérticas, a viver de subempregos que mal dão para comprar o alimento do dia e prover uma precária manutenção ao seu automóvel –e com ele, continuar na estrada, em perpétuo estado de transição. Ao encontrar essa circunstância específica –a do desamparo inapelável –Chloe Zhao parece enfim encontrar o filme que tanto queria discorrer; e sobre ele dedica a avidez de suas lentes do início ao fim.

Acaba que “Nomadland” é, pois, no drama convicto que evoca, uma avaliação de um certo aspecto da Grande Recessão de 2008, como foi “A Grande Aposta” ou “Margin Call”, entretanto, diferente dos brilhantes filmes de Adam McKay e de J.C. Chandor, o trabalho de Chloe Zhao não mostra qualquer interesse na gênese mais ampla da questão –o do porque essa mudança do status quo se deflagrou –na postura neo-realista que adota sem concessões, Zhao quer lançar seu olhar para os despossuídos, as pessoas reais para quem importou menos as complexas razões pelas quais seu mundo ruiu, e mais os revezes muito verdadeiros que tiveram de enfrentar, os percalços de natureza quase inacreditável que a pobreza lhes impôs, o caminho de desventuras alarmantes de onde vieram e o horizonte de imponderável desesperança para onde irão. Ao buscar essa verdade, Chloe Zhao então faz de “Nomadland” uma espécie de vitrine, e tem em Frances McDormand –não à toa também creditada como produtora –sua mais poderosa aliada: Única a interpretar um personagem fictício em cena (mas, ainda assim, ostentando tamanha autenticidade que lhe foi impossível negar o Oscar 2021 de Melhor Atriz), Frances segue o filme com a câmera na mão quase a enganchar-se em seu ombro, registrando tudo o que ela vê e por onde passa (lembra também, e muito, o estilo obstinadamente realista dos Irmãos Dardenne em “Rosetta”). E com sua personagem a servir como âncora, uma vasta gama de personagens coadjuvantes extraídos da mais pura realidade vão assim aparecendo e espontaneamente fornecendo suas impressões ao filme, vividos não por atores contratados, orientados, pagos e preparados, mas por pessoas reais que experimentaram de fato cada um dos exasperos que são relatados (ou sugeridos) na cena em que se apresentam.

Seguindo a honorável e clássica escola do neo-realismo à qual pertenceram Roberto Rossellini e outros grandes realizadores, “Nomadland” é o registro pertinente e frequentemente impressionante de um recorte do Mundo e da História que, como tantos outros recortes de momentos emblemáticos da Humanidade, haverá e chocar e espantar gerações futuras que não tiveram contato com tal acontecimento. Ele traduz tudo em um viés dramático e poético de difícil apreciação para expectadores desacostumados a esse cinema menos entretedor e mais esclarecedor.

Por isso, apesar de seus pesares, ele se faz muito necessário.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Os Vencedores do Oscar 2021


 A cerimônia de entrega do Oscar 2021 refletiu o ano atípico que 2020 foi (e que 2021 segue sendo...): Pandemia; cinemas fechados, filmagens interrompidas. Com a carência que filmes realmente diversos chegando ao circuito comercial, as premiações em geral, e o Oscar em particular, tiveram de contentar-se com um seleto número de obras de qualidade que conseguiram emergir desse cenário pouco produtivo –grande parte delas, oriundas da Netflix e de outras plataformas de streaming, onde o lançamento e o acesso ao público não foi prejudicado como o do cinema.

Embora a seleção de indicados deste ano tenha trazido filmes de qualidade, poucos deles arrebataram o público o suficiente para empolgá-lo, não à toa, o vencedor da noite foi o aclamado “Nomadland” que trazia a pecha de ‘favorito ao Oscar’ desde sua premiação no Festival de Veneza, proporcionando à Chloé Zhao um histórico Oscar de Melhor Direção –é a segunda vez na história do cinema em que o Oscar de Melhor Direção vai para uma mulher, antes disso, somente Kathryn Bigelow obteve tal honraria com “Guerra AoTerror”.

Não se pode dizer, contudo, que foi uma noite destituída de surpresas, em especial, nas categorias de intérpretes principais, onde o favoritismo de Viola Davis e do saudoso Chadwick Boseman (ambos por “A Voz Suprema do Blues”) foi posto de lado para premiar Frances McDormand, por “Nomadland” (vencendo seu terceiro Oscar de Melhor Atriz, agora bem próxima de igualar o recorde de Katharine Hepburn, com quatro estatuetas!), e o veterano Anthony Hopkins, por sua comovente entrega em “Meu Pai” (vinte e nove anos depois dele ter ganhado o prêmio por “O Silêncio dos Inocentes”).

Foi uma noite bastante democrática –praticamente todos os filmes saíram com um ou dois prêmios, incluindo os de Melhor Ator Coadjuvante para Daniel Kaluuya de “Judas e O Messias Negro” e Melhor Atriz Coadjuvante para a veterana Yuh-Jung Youn, de “Minari” –e espantosamente enxuta e emotiva: Distribuída em diferentes auditórios (alguns em outros países!), respeitando as normas de distanciamento social na medida do possível, despida de apresentações mais elaboradas (o que deu à esse Oscar um dinamismo que costuma lembrar mais as cerimônias do Globo de Ouro) e permeada do início ao fim por um forte discurso envolvendo inclusão e representatividade, a cerimônia do Oscar 2021 refletiu as mudanças e transtornos do novo mundo em que vivemos, revelando-se conciliatória e sábia ao trocar a amargura predominante nos discursos corriqueiros por uma celebração válida e necessária ao cinema e à vida.

MELHOR FILME

"Nomadland"

MELHOR DIREÇÃO

"Nomadland", Chloé Zhao

MELHOR ATRIZ

Frances McDormand, "Nomadland"

MELHOR ATOR

Anthony Hopkins, "Meu Pai"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Yuh-Jung Youn, "Minari"

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Daniel Kaluuya, "Judas e O Messias Negro"

MELHOR FOTOGRAFIA

"Mank"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM

"Professor Polvo"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

"Collete"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

"Druk-Mais Uma Rodada" (Dinamarca)

MELHORES EFEITOS VISUAIS

"Tenet"          

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM

"A Voz Suprema do Blues"

MELHOR FIGURINO
"A Voz Suprema do Blues"

MELHOR SOM
"O Som do Silêncio"

MELHOR DESIGNER DE PRODUÇÃO

"Mank"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

“Soul"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Fight For You", de "Judas e O Messias Negro"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

"Bela Vingança"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

"Meu Pai"

MELHOR ANIMAÇÃO

"Soul" 

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

"Se Algo Acontecer... Te Amo"

MELHOR MONTAGEM

"O Som do Silêncio"

MELHOR CURTA-METRAGEM

"Two Distant Strangers” 

segunda-feira, 15 de março de 2021

Os Indicados Ao Oscar 2021


 As indicações ao Oscar 2021 apontam, acima de tudo, as predisposições atuais da Academia de Artes Cinematográficas, e duas delas se destacam com ênfase: A inclusão e representatividade cada vez mais em voga (refletida nas indicações de “Judas e o Messias Negro” e “Minari” para Melhor Filmes; e de “A Voz Suprema do Blues” em outras categorias) e o advento implacável das obras vindas das plataformas de streaming (que, em função do ano de pandemia, alcançaram números sem precedentes tanto entre os indicados como no número de indicações; sendo o recordista deste ano, “Mank”, de David Fincher, com 10 indicações, oriundo da Netflix).

Eis os indicados:

MELHOR FILME

  • Meu Pai
  • Judas e o Messias Negro
  • Mank
  • Minari
  • Nomadland
  • Bela Vingança
  • O Som do Silêncio
  • Os 7 de Chicago

MELHOR ATOR

  • Riz Ahmed - O Som do Silêncio
  • Chadwick Boseman - A Voz Suprema do Blues
  • Anthony Hopkins - Meu Pai
  • Gary Oldman - Mank
  • Steven Yeun – Minari

Tal e qual Peter Finch (ganhador em 1977), Masimo Troisi (indicado em 1996) e Heath Ledger (ganhador, como coadjuvante, em 2009), foi a vez do falecido Chadwick Boseman ganhar uma indicação póstuma de Melhor Ator, e a comoção de sua partida já o faz favorito ao prêmio, embora seu trabalho seja de fato primordial.

Em outras circunstâncias haveriam chances reais para o surpreendente desempenho de Riz Ahmed (possivelmente o mais impactante dos cinco). No caso de “Mank”, seja o filme como um todo, seja o formidável trabalho de Gary Oldman, a opinião dos críticos tem se dividido, reduzindo suas chances ao mero reconhecimento respeitoso da indicação. Há quem diga que Anthony Hopkins ocupa a vaga que poderia ter sido de Delroy Lindo (por “Destacamento Blood”), agora, espantoso mesmo é ver Steven Yeun (mais conhecido pela série “The Walking Dead”) concorrendo ao prêmio.

MELHOR ATRIZ

  • Viola Davis - A Voz Suprema do Blues
  • Andra Day - The United States vs. Billie Holiday
  • Vanessa Kirby - Pieces of a Woman
  • Frances McDormand - Nomadland
  • Carey Mulligan - Bela Vingança

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

  • Maria Bakalova - Borat 2
  • Glenn Close - Era uma Vez um Sonho
  • Olivia Colman - Meu Pai
  • Amanda Seyfried - Mank
  • Yuh-Jung Youn – Minari

As duas categorias de atrizes devem movimentar as casas de apostas: Por hora, na categoria principal, tudo está bastante concorrido; Viola Davis se tornou, oficialmente, a atriz negra com mais indicações ao Oscar na história do cinema, mas são as outras quatro que disputam a tapa a estatueta; Frances McDormand é forte e tem o respaldo dos críticos (e do Festival de Veneza), no entanto, vem de uma premiação relativamente recente (em 2018, por “Três Anúncios Para Um Crime”), aumentando as chances das promissoras e fantásticas Vanessa Kirby e Carey Mulligan (a primeira é protagonista de uma obra contundente, dramática e desafiadora, e é dona de minha torcida; a segunda estrela um brilhante conto moral sobre retaliação e emancipação), no caminho das duas, a pouco conhecida Audra Day que traz consigo nada menos que o Globo de Ouro de Melhor Atriz.

Entre as coadjuvantes, chama a atenção a ausência de Jodie Foster, ganhadora do Globo de Ouro da categoria, fortalecendo as chances de Amanda Seyfried ver seu magnífico trabalho em “Mank” ser reconhecido, a despeito das surpresas de Glenn Close (num filme que os críticos não aprovaram com unanimidade) e de Maria Bakalova (com justiça, a grande surpresa da continuação de “Borat”).

MELHOR ATOR COADJUVANTE

  • Sacha Baron Cohen - Os 7 de Chicago
  • Daniel Kaluuya - Judas e o Messias Negro
  • Leslie Odom Jr. - Uma Noite em Miami
  • Paul Raci - O Som do Silêncio
  • Lakeith Stanfield - Judas e o Messias Negro

Curiosa a inclusão de Sacha Baron Cohen e Leslie Odom Jr. entre os coadjuvantes, eles que são praticamente os protagonistas de seus próprios filmes (Baron Cohen chegou a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Ator).

Apesar de tudo, parece um caminho tranquilo para Daniel Kaluuya chegar à vitória, ele que compete com o próprio colega de elenco, Lakeith Stanfield.

MELHOR FOTOGRAFIA

  • Judas e o Messias Negro
  • Mank
  • Relatos do Mundo
  • Nomadland
  • Os 7 de Chicago

MELHOR FIGURINO

  • Emma
  • A Voz Suprema do Blues
  • Mank
  • Mulan
  • Pinóquio

MELHOR DIREÇÃO

  • Thomas Vinterberg - Another Round
  • David Fincher - Mank
  • Lee Isaac Chung - Minari
  • Chloé Zhao- Nomadland
  • Emerald Fennell - Bela Vingança

A Academia sinaliza novos paradigmas ao indicar, pela primeira vez, duas mulheres ao prêmio de Melhor Direção, sem falar que uma delas, Chloe Zhao, desponta como favorita.

Seus mais fortes competidores ao longo da tempora de prêmios estão lá –David Fincher e Emerald Fennell –mas a grande (e feliz) surpresa dessa categoria é a inclusão do dinamarquês Thomas Vinterberg.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

  • Collective
  • Crip Camp
  • The Mole Agent
  • Professor Polvo
  • Time

MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM

  • Collete
  • A Concerto is a Conversation
  • Do Not Split
  • Hunger Ward
  • A Love Song for Latasha

MELHOR MONTAGEM

  • Meu Pai
  • Nomadland
  • Bela Vingança
  • O Som do Silêncio
  • Os 7 de Chicago

MELHOR FILME INTERNACIONAL

  • Another Round (Dinamarca)
  • Better Days (Hong Kong)
  • Collective (Romênia)
  • The Man Who Sold His Skin (Tunísia)
  • Quo Vadis, Aida? (Bósnia)

MELHOR ANIMAÇÃO

  • Dois Irmãos
  • A Caminho da Lua
  • Shaun, o Carneiro, o Filme-A Fazenda Contra-Ataca
  • Soul
  • Wolfwalkers

Não era muito difícil prever quais seriam as melhores animações do ano, e não é tão difícil prever que deve ser a vencedora: Até aqui, há poucas chances do Oscar negar a vitória ao belo e emocionante “Soul”, da Pixar, apesar dos honoráveis esforços de “Dois Irmãos” (também ele, da Pixar), de “A Caminho da Lua”, da Netflix (que apesar do capricho talvez seja o mais burocrático dos cinco) e dos inteligentes e criativos “Shaun, o Carneiro, o Filme-A Fazenda Contra-Ataca” e “Wolfwalkers” (surpresa mesmo seria a vitória –merecida –de um desses dois!).

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM

  • Emma
  • Era uma Vez um Sonho
  • A Voz Suprema do Blues
  • Mank
  • Pinóquio

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

  • Terence Blanchard - Destacamento Blood
  • Trent Reznor e Atticus Ross - Mank
  • Emile Mosseri - Minari
  • James Newton Howard - Relatos do Mundo
  • Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste - Soul

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

  • “Fight for You” - Judas e o Messias Negro
  • “Hear my Voice” - Os 7 de Chicago
  • “Husavik” - Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars
  • “Io Sí” - Rosa e Momo
  • “Speak Now” - Uma Noite em Miami

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

  • Meu Pai
  • A Voz Suprema do Blues
  • Mank
  • Relatos do Mundo
  • Tenet

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO

  • Burrow
  • Genius Loci
  • If Anything Happens I Love You
  • Opera
  • Yes-People

MELHOR CURTA-METRAGEM

  • Feeling Through
  • The Letter Room
  • The Present
  • Two Distant Strangers
  • White Eye

MELHOR SOM

  • Greyound
  • Mank
  • Relatos do Mundo
  • Soul
  • O Som do Silêncio

MELHORES EFEITOS VISUAIS

  • Amor e Monstros
  • O Céu da Meia-Noite
  • Mulan
  • O Grande Ivan
  • Tenet

"Tenet", a polêmica obra de Christopher Nolan que ousou desafiar em vão a pandemia, surge na categoria de Efeitos Visuais com uma de suas duas únicas indicações –prova de que o estilo de Nolan já não seduz, nem público, nem crítica como antigamente.

Foram lembradas produções inesperadas como o ótimo “Amor e Monstros”, com Dylan O’Brien (minha aposta!), o pouco acessível “O Céu da Meia-Noite”, de George Clooney, e duas produções da Disney, o claudicante “Mulan” e  o ecológico “O Grande Ivan”.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

  • Borat 2
    Meu Pai
    Nomadland
    Uma Noite em Miami
    O Tigre Branco

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

  • Judas e o Messias Negro
  • Minari
  • Bela Vingança
  • Som do Silêncio
  • Os 7 de Chicago

Os vencedores serão anunciados na noite de 25 de abril, numa cerimônia a ser realizada em circunstâncias bastante similares às do último Globo de Ouro: Onde vários procedimentos diferenciados visam contornar os complicações das normas de pandemia e afastamento social.

Será, no mínimo, curioso de acompanhar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Ilha dos Cachorros


 Wes Anderson tem uma forma toda especial de mostrar-se a um só tempo contundente, tocante, desconcertante e lúdico em suas narrativas. Essas características normalmente se ressaltam quando ele trabalha com animações. “Ilha dos Cachorros” é seu segundo trabalho dentro desse território, antecedido unicamente por “O Fantástico Senhor Raposo”.

Nele –num reflexo bastante crítico da concepção de Anderson ao olhar a sociedade moderna –os humanos são menos compreensíveis que os animais; isso porque os cães não só narram a trama e participam dela ativamente na maior parte do tempo (com diálogos existencialistas e tudo o mais), mas também porque tudo se ambienta no Japão, e os personagens humanos falam somente o idioma de lá, sendo que o filme propositadamente omite as legendas das passagens em japonês –com exceção, de trechos traduzidos por intérpretes, legendas pontuais (e raras), e uma única personagem (uma aluna de intercâmbio) que fala a língua ocidental.

E é curioso notar assim o fascínio  e a intransponibilidade comunicativa que o Japão exerce tanto em Wes Anderson, como em Sofia Coppola (e seu “Encontros e Desencontros”), eles que têm em seu cinema muitas coisas em comum; muito mais do que apenas a presença de Bill Murray em suas obras –que aliás, aqui aparece dublando o personagem Boss!

Sendo assim, de modo geral, a trama de teor político que se descortina ao público é, em grande medida, expressada pelo ponto de vista dos cachorros: Após uma breve introdução de uma lenda segunda a qual o Japão –ou mais precisamente a cidade de Megasaki –viu-se polarizado entre apreciadores de cães e adoradores de gatos, acompanhamos, no futuro, os cães se tornarem alvo de uma manobra política do prefeito Kobayashi para serem dizimados, ao levarem a culpa pela disseminação de um vírus.

Os cães são assim exilados numa ilha –a Ilha do Lixo –e por lá abandonados. Anos depois, um grupo de cães (entre os quais está o narrador da história) testemunha a chegada de uma aeronave à ilha. Ela trás o jovem Atari Kobayashi, sobrinho do prefeito, indo atrás do seu cão guarda-costas, Spots (voz de Liev Schreiber), o primeiro animal para lá enviado.

Todavia, o paradeiro de Spots não é fácil de ser encontrado: Tudo indica que (se sobreviveu...) ele foi parar em algum lugar do extremo oposto da ilha, dominado por um grupo de cães selvagens de hábitos canibais!

Enquanto Atari tenta chegar lá, auxiliado meio a contra gosto pelo desiludido vira-lata Chief (voz de Bryan Cranston), as autoridades de Megasaki preparam uma medida para exterminar de uma vez a mal-fadada ilha dos cachorros: A fim de abafar a descoberta de que o vírus é perfeitamente curável (o que torna assim o retorno dos cães para o continente possível), o prefeito Kobayashi, ignorante da presença do sobrinho por lá, quer aprovar uma erradicação total à ilha, onde cães-robôs disseminarão um composto venenoso a partir de wasabi (!) que matará todos os seres vivos que estiverem lá.

Datado de 2018, é incrivelmente curioso, como um elemento essencial da narrativa de “Ilha dos Cachorros” remete ao cenário de 2020: O do vírus usado para manipular os anseios da população com fins políticos e certamente unilaterais.

Para além desse viés visionário, o diretor Wes Anderson ainda criou uma animação emocionante e pertinente, sobre a intolerância, sobre a intoxicante incapacidade de comunicação, e sobre a necessidade fundamental da preservação animal e ambiental.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Garotos Incríveis

O largamente saboroso roteiro concebido por Steve Kloves (diretor de “Susie & Os Baker Boys” e roteirista da maioria dos filmes de “Harry Potter”), adaptado do livro de Michael Chambon, acompanha três dias na vida do meio professor, meio escritor Graddy Tripp interpretado por Michael Douglas.
Como é um professor, Tripp fala de  seus alunos e suas histórias –como o desajustado e potencialmente genial James Leer (Tobey Maguire, antes de virar o “Homem-Aranha” pelas mãos de Sam Raimi); ou a sedutora Hannah Green (Katie Holmes, antes de virar a Sra. Tom Cruise e dele divorciar-se), jovem a um passo de virar seu flerte.
E, como também é escritor, Tripp narra o próprio filme que protagoniza ora em tom de comédia, ora em tom de drama –por vezes diante do dilema, um tanto batido mas aqui muito prazeroso e envolvente, de ter sido um escritor de sucesso às voltas com o fato de ser incapaz, no presente, de recriar as obras-primas que todos esperam dele .
Saído da batuta então em estado de graça do diretor Curtis Hanson (seu projeto anterior havia sido o aclamadíssimo “Los Angeles-Cidade Proibida”), “Garotos Incríveis” não tem uma trama que possa ser esboçada numa sólida sinopse propriamente dita: Com desembaraço e talento sem igual, ele acompanha uma sucessão de incidentes que têm como elemento fixo o protagonismo de Tripp e que, de um jeito ou de outro, representam algum abalo ressonante em sua vida pessoal, sejam as divertidas enrascadas que vão se somando graças à sua  imprevista amizade com James –como quando tentam ocultar o cadáver de um cachorro que fulminaram sem querer (!), perdem um casaco que pertenceu à Marilyn Monroe (!!) ou quando se deparam com o irreprimível e espalhafatoso editor de Tripp, Terry Crabtree (o sempre fantástico Robert Downey Jr.) –sejam os contratempos acarretados pela notícia da gravidez de Sara Gaskell (Frances McDormand), a mulher que ele ama (casada com o chefe de seu departamento!) e que espera um filho seu, mas cujo compromisso leva o imaturo Tripp a ter de confrontar-se com todo o narcisismo, a inconsequência e o comodismo que sua condição de astro literário possibilitou cultivar.
Personagem suculento e tão cheio de camadas e elementos a serem refletidos quando o Lester Burnham de “Beleza Americana” –outro grande filme sobre crise de meia-idade a sair por aqueles tempos –Tripp, em alguns momentos, parece espelhar o próprio Michael Douglas, na tremenda adequação que se percebe entre ator e personagem: Um festejado galã nos anos 1980 (além de filho da lenda Kirk Douglas), Michael Douglas, ao lado de personalidades como Al Pacino, Clint Eastwood e outros, adentrou a década de 2000, sob a sombra da ingrata necessidade de reinventar-se com a chegada evidente e irreversível da idade.
Demonstrando o mesmo bom gosto que sempre norteou sua postura e escolha de projetos a mantê-lo em relevância na ribalta, Douglas compreendeu intimamente e sem amarguras o ônus e o bônus da passagem do tempo, e imprime essas espirituosas considerações na inspirada interpretação que entrega aqui –e tão luminosa ela é que certamente foi uma das grandes injustiças da Academia não ter-lhe indicado ao Oscar de Melhor Ator naquele ano.
Graças a ele, ao maravilhoso elenco coadjuvante que o cerca e ao trabalho empolgante de Curtis Hanson, “Garotos Incríveis” é um filme desprovido de embates explosivos, de decibéis elevados e confrontos acalorados, em vez disso, é algo tocante e engraçado, feito de pura e simples maestria.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Darkman - Vingança Sem Rosto


Numa jornada de origem das mais interessantes do cinema moderno –e que gabaritou o diretor Sam Raimi para assumir a direção de “Homem-Aranha”, anos depois –quando vemos o ator Liam Neeson personificar aquele que será conhecido como “Darkman”, lá quase na metade do filme, notamos que as influências de Raimi não poderiam se apresentar mais explícitas, declaradas e apaixonadas: O filme remete imediatamente à “O Fantasma da Ópera”, à “O Abominável Dr. Phibes”, e às histórias em quadrinhos de terror, e sua narrativa inventivamente visual, carregada de detalhes por quadro, com a qual Raimi conduz este seu verdadeiro espetáculo.
Lembrado então como o jovem que chacoalhou o mainstream cinematográfico americano com um produto de baixíssimo orçamento vindo das fileiras do terror alternativo (o emblemático “Evil Dead”), mas cuja repercussão foi forte o bastante para influenciar o cinema comercial, Raimi havia feito pouco mais que a alucinada comédia “Crime Wave” e a continuação de “Evil Dead” antes de realizar esta que pode ser enxergada como sua primeira incursão no cinema comercial de fato.
Nesse sentido, “Darkman”, apesar da estética anos 1990 que pulsa de suas transparentes intenções, é um filme até profético nas características que agrega para moldar seu apelo de público, já que elementos como personagens de histórias em quadrinhos, ou mesmo o teor divertidamente referencial que tempera a narrativa, só seriam assimilados, e empregados em profusão pela indústria, muitos anos depois.
Poucos anos antes de ter sua indicação ao Oscar de Melhor Ator por “A Lista de Schindler” –e décadas antes de redescobrir-se como um eficaz ator veterano de ação –Liam Neeson interpretou Peyton Westlake, o trágico herói que Raimi confronta com o tipo de tragédia mirabolante reservada aos seus protagonistas: Cientista, ele é atacado e seu laboratório, explodido. Sobrevivendo por milagre (ainda que dado como morto), Peyton tem seu rosto desfigurado e perde a capacidade de sentir dor –aspectos que Raimi usará convictamente para encaixar num contexto de ‘superpoderes’.
Pois, Peyton foge, reconstroí o que pode de seu antigo laboratório e busca dar continuidade à suas pesquisa para criar uma pele humana sintética. Agora, mais do que nunca, ele precisará disso se quiser se apresentar com um rosto humano à mulher que ama, intepretada pela sensacional Frances McDormand.
Entretanto, como cabe a um superherói, a personagem de McDormand tem também lá seus apuros dos quais ser salva: Ela é perseguida por um grupo de criminosos contratados, os mesmos, por sinal, que destruíram a vida de Peyton.
A vingança e a necessidade que salvar a amada são assim as motivações para Peyton iniciar um intrincado plano para minar e destruir um a um os integrantes daquela quadrilha; e é absolutamente espetacular ver o que o diretor Sam Raimi (no auge de sua empolgação e juventude criativa) faz para que o filme siga adiante: Ele não economiza técnicas, truques visuais e outros artifícios para fazer de cada cena uma surpresa visual aos olhos do público.
Divertidíssimo, agitado, certamente inventivo e vibrante –ainda que ocasionado por insensibilidades latentes de um diretor vindo dos extremos do terror –“Darkman” foi um sopro de renovação e ar fresco muito bem-vindo numa época em que o cinema (e o público) carecia de alguma novidade.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Três Anúncios Para Um Crime


O grande trabalho de Martin McDonagh promove a convergência de diversos gêneros harmonizados pela boa condução de um elenco primoroso: Passeia-se do drama genuíno e não raro pesado à comédia de intenções satíricas para com as autoridades e os discursos de empostação intransigente, chegando até o suspense e o gênero policial de investigação.
Dessa maneira, muitos foram os críticos que enxergaram nessa largueza de detalhes uma caricatura que contradizia as propostas sérias que a premissa inicialmente cultivava.
Quando um filme é bom demais, ele padece pelas prerrogativas exigentes de alguns expectadores para que ele seja, de fato, bom; esse problema se dá, com mais freqüência, com as obras indicadas ao Oscar, caso de “Três Anúncios Para Um Crime”, cujos prêmios de Melhor Ator Coadjuvante (para Sam Rockwell) e Melhor Atriz (para Frances McDormand), ele venceu.
Frances é Mildred Hayes, mãe de uma filha estuprada e morta na cidadezinha de Ebbing, no Missouri, cujo crime ainda não se solucionou: Depois de sete meses, o caso emperrou na incapacidade da polícia local.
Mildred, então, toma uma decisão radical: Resolve alugar três outdoors –localizados num trecho pouco movimentado da rodovia –e neles divulga três mensagens contundentes de apelo crítico à polícia.
A repercussão é fervorosa, em grande parte, porque o xerife, Will Willoughby (Woody Harrelson), além de ser uma figura querida na cidade, está padecendo de câncer no pâncreas. Ninguém se mostra favorável à Mildred; nem seu filho Robbie (Lucas Hedge, de “Manchester ÀBeira-Mar”) que trata o luto pela irmã silenciosamente; nem seu violento ex-marido, Charlie (John Hawkes); nem mesmo Welby, o jovem que lhe alugou os outdoors (interpretado por Caleb Landry Jones) e que, com isso, ganhou a antipatia de toda força policial; e muito menos do racista, impulsivo e irresponsável policial Dixon (Sam Rockwell), cujas atitudes encrenqueiras passam longe de espelhar o que se espera de um policial.
Se há, na trama que centraliza Mildred, algum potencial para o melodrama e para a comiseração, o roteiro primoroso de McDonagh e, em especial, a atuação estupenda, implacável e poderosa de Frances McDormand não permitem que aconteça: Essencial em uma galeria de ótimos e magníficos personagens, Mildred é a força que movimenta todos os núcleos, mesmo àqueles aos quais ela não parece incluída.
E o filme de McDonagh ainda esbanja perspicácia e inteligência ao brindar o expectador com sucessivas dinâmicas distintas e deliciosas de se acompanhar: A camaradagem cheia de graça, perplexidade e alguma tensão entre Dixon e Willoughby; a dor impronunciável que intoxica os momentos entre Mildred e Robbie; a violência ridícula que pontua os encontros entre Mildred e Charlie; a implicância potencialmente letal que surge quando Dixon se encontra com Welby e que, aos poucos, adquire inesperado afeto.
Nenhuma delas, contudo, supera, a relação de distância, antagonismo e incompreensão abissal que define os momentos que Mildred e Dixon dividem juntos, mas que, paulatinamente vão se modificando para uma das parcerias mais sensacionais do cinema recente, e que promove, no personagem de Sam Rockwell, uma sutil e brilhante metamorfose.
Diante de um filme tão bom, tão singularmente interessante e notável, parece irrelevante a discussão do quão realista ele se mostra em relação a ideologias de posturas políticas –o quê parte da crítica até andou fazendo –mas, mesmo assim, Martin McDonagh soube manter a sensatez com seu corajoso final, no qual se arrisca a contrariar as expectativas do público com um desfecho transitório onde ele se atreve a espelhar os anseios que cada expectador haverá de ter, em seus próprios termos.