Mostrando postagens com marcador Gabriel Byrne. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gabriel Byrne. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Ajuste Final


 Em seus primeiros projetos cinematográficos, os Irmãos Coen, Joel e Ethan, procuraram visitar distintos gêneros de cinema, a fim de testar suas aptidões e encontrar sua própria voz autoral dentro de expedientes já estabelecidos. É por isso que, em sua primeira fase, fomos brindados com obras como “Gosto de Sangue” (um neo-noir), “Arizona Nunca Mais” (comédia screwball) e “Barton Fink-Delírios de Hollywood” (drama de metalinguagem). À eles, soma-se este “Miller’s Crossing” com o qual os Coen levam um viés inusitado ao filme de gangster.

Ambientado numa cidade norte-americana indefinida (ainda que tenha sido filmado em Nova Orleans), e situado no ano de 1929 (o auge da Lei Seca), “Miller’s Crossing” possui um prólogo que parece um piscadela à “O Poderoso Chefão”, a referência-mor do gênero: Diante da câmera, um descendente de italianos (tal e qual no filme de Coppola) faz um monólogo quase que para a plateia –e para o poderoso ‘chefão’ deste filme, o irlandês Leo O’Bannon, vivido com ar supino por Albert Finney. O descendente de italianos, contudo, é outro gangster, Johnny Casper (Jon Polito, de “A Conquista da Honra”), e ele esboça seu descontentamento com um certo Bernie Bernbaum, um bookmaker clandestino que, apesar de sua insignificância, está incomodando a harmonia de seu negócio de apostas ilegais.

Casper quer Bernie morto. Leo recusa seu pedido. E está, assim, declarada a guerra.

Ouvindo tudo, está Tom Reagan (Gabriel Byrne), braço-direito de Leo e seu melhor amigo, o único aparentemente capaz de expor opiniões discordantes ao irascível Leo. Tom sabe que, ao negar um pedido relativamente sensato à Casper, Leo está pondo a paz de seu império mafioso à perder, mas, Leo se mantém irredutível e a resposta para isso não tarda à vir: Leo está enamorado  da charmosa vigarista Verna Bernbaum (Marcia Gay Harden, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Pollock”) que vem a ser irmã de Bernie Bernbaum (John Turturro). A pedido de Verna, portanto, Bernie goza da proteção indireta de Leo, e seus deslizes constantes, fonte de irritação de Casper, recebem vista-grossa do chefão. Tom, entretanto, sabe que essa paixonite de Leo pode levar à sua derrocada –e, para complicar ainda mais as coisas, Tom e Verna são amantes às escondidas de Leo (!),

Não obstante o requinte cinematográfica que pontua este filme –enfatizado na brilhante fotografia de Barry Sonnenfeld e na música climática, operística e lírica de Carter Burwell –a trama extremamente complexada e intrincada, abarrotada de informações ambíguas, traições, reviravoltas e alianças forjadas de última hora, é contada mesmo através de diálogos carregados de melindres entre os personagens. Nessa circunstância adornada de perfídia, não chega a ser inesperado quando, ao descobrir a traição do melhor amigo, Leo rompe com Tom e este passar para o lado de Casper –a fim de provar sua lealdade ao novo chefe, contudo, Tom é obrigado por seus capangas à levar o incauto Bernie para a floresta de Miller’s Crossing, local onde, pelo jeito, os mafiosos têm o hábito de levar para sacrificar suas incontáveis vítimas.

Amparados em seus valores cinematográficos à toda prova, os Coen dão uma grande contribuição ao conceito narrativo –difundido pela obra-prima de Francis Ford Coppola –no qual as intrigas e tramóias mafiosas, desenroladas num novelo elaborado de mortes e conchavos, ganham uma carregada aura de tragédia e ópera; exemplo disso, entre outras passagens tornadas memoráveis, é o ataque à mansão de Leo, cujo tratamento bastante estilizado e poético deixa um tanto quanto de lado as pretensões de realismo para ressaltar o ambiente em suas minúcias pictórias, como se todos os locais (a mansão, o escritório de Leo, o quarto de Tom, o Clube Shenandoah –olha a referência! –e a própria Miller’s Crossing) fossem palco dos desdobramentos irônicos de uma mitologia muito particular.

Essas considerações, envoltas numa rigidez acadêmica tanto técnica quanto artística, somadas ao inerente humor negro dos Coen, tornam pouco convincentes (ainda que sempre intrigantes) muitos dos desenlaces da trama –um pequenino lapso que, na maioria de seus excelentes trabalhos, os Coen souberam habilmente contornar.

sábado, 1 de abril de 2023

O Menino, A Toupeira, A Raposa e O Cavalo


 O grande vencedor do Oscar 2023 de Melhor Curta-Metragem de Animação é de uma delicadeza sem fim. Ele conta a história de uma criança, um garotinho (na voz de Jude Coward Nicoll) que surge numa planície tomada pela neve. Ele não tem casa e esse é o desejo que habita seu coração, como ele bem relata a uma pequena toupeira (voz de Tom Hollander) que logo aparece (os personagens do filme podem, todos, conversar entre si). Unidos em sua solidão, os dois dividem impressões abstratas e se tornam amigos.

Aos poucos, um terceiro indivíduo surge para rondá-los, é a Raposa (voz de Idris Elba), arredia, desconfiada, beligerante, no entanto, ao ficar presa numa armadilha, ela descobre que a Toupeira e o Menino são seus amigos e estão ali para ajudá-la. Ela passa a segui-los, incapaz de expressar seus bons sentimentos com tanta espontaneidade quanto os outros, embora tais sentimentos estejam lá –na concepção generosa, esperançosa e carregada de espirituosidade dos realizadores, nenhum ser da Criação é maldoso em sua essência.

Em sua peregrinação pela floresta do mundo, os três terminam encontrando o Cavalo (voz de Gabriel Byrne) a contribuir com sua altivez para o núcleo familiar que muito aos poucos eles parecem compor. O Cavalo, contudo, guarda uma grande e maravilhosa surpresa.

Dirigido por Charlie Mackesy e Peter Baynton, o curta traz algumas mensagens morais de grande simplicidade e expostas com incontornável transparência no arquétipo imediatamente relacionável de seus quatro protagonistas –e disso, tira toda sua força. Na dinâmica que constroem, os personagens expoem diferentes vulnerabilidades, todas acalentadas com gentileza e empatia pelos demais. O Menino é carente e quer morar em uma casa, mas, entre os amigos que descobriu nenhuma concepção de lar haverá de ser mais poderosa que a presença deles; a Toupeira se vê pequeno diante da vastidão do mundo à sua volta, mas, seus companheiros lhe deixam clara a diferença que ele faz; a Raposa é relutante, fechada e temerosa, mas compreende melhor que qualquer um a tenacidade para atravessar os revezes da vida e aguentar firme; e o Cavalo se sente só na inveja que teme despertar em seus pares, mas encontra nos outros três uma família que lhe oferece apoio e compreensão.

Feito de inesgotável amor incondicional, o filme de Mackesy e Baynton faz muito lembrar as lições preciosas deixadas pelo escritor Antoine de Saint-Exupéry em sua obra-prima literária “O Pequeno Príncipe” (e é baseado, também ele, num livro, lançado em 2019, pelo próprio Mackesy), contando, inclusive, com um fenomenal e característico aparato visual que transforma cada frame animado em um quadro de encanto sem igual, nesta obra de imensa qualidade, grandeza e humanismo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Os 33

Era uma questão de tempo que o dramático episódio real envolvendo os trinta e três mineiros chilenos aprisionados de 5 de agosto à 13 de outubro de 2010 numa mina desabada acabasse rendendo um filme de Hollywood.
E ele saiu feito sob encomenda: Edificante, povoado por personagens emotivos e carismáticos, cheio de momentos arrebatadores, calibrado à perfeição para enaltecer a tenacidade daqueles que jamais perderam a esperança. Em suma: Os realizadores tiveram o bom senso de fazer um filme exatamente como o mundo gostaria de assisti-lo –caracterizado pela mesma percepção de senso comum triunfante presente nos noticiários da época que cobriram obstinadamente todo o drama.
E não consta, nessa equação deliberada, escolhas artísticas que pudessem atrair prêmios para a obra –“Os 33” se assume, do início ao fim, uma produção de apelo e orientação popular, como se tivesse sido feito (e, talvez, até tenha sido mesmo) para os próprios mineiros e suas famílias; é irônico, portanto, que muitos deles tenham se declarado insatisfeitos com o resultado.
A história inicia-se nas festividades que marcaram a aposentadoria de um deles, Mario Gómez (Gustavo Angarita) que, por uma ironia suprema do destino, tinha poucos dias a mais para então parar de trabalhar. Ali vemos brevemente todos eles e tomamos conhecimento dos personagens que ganharão mais expressão no filme, como Mário Sepúlveda (Antonio Banderas), o supervisor de segurança Luis ‘Dom Lucho’ Urzua (Lou Diamond Phillips), o aficcionado por Elvis Presley, Edison ‘Elvis’ Peña (Jacob Vargas), o mais jovem deles Alex Vega (Mario Casas), o evangélico José Henriquez (Marco Treviño) e Dario Segovia (Juan Pablo Raba).
Pelo reconhecimento da história que encenam, o elenco interpreta com incontida solenidade o que prejudica a veracidade dramática de muitas das relações, como a de Maria Segovia (Juliette Binoche) com Dario, seu irmão mais novo com quem não se dava até antes do acontecimento. Detalhes como esse, a discriminação sofrida pelo boliviano Carlos Mamani (Tenoch Huerta) da parte dos outros mineiros e o tumultuado casamento de Yonni Barrios (Oscar Nunez), que mantinha a amante Susi (Elizabeth De Razzo) morando na casa ao lado daquela em que vivia com a esposa Marta (Adriana Barraza), apenas ocupam tempo até o evento principal –o fatídico desmoronamento –mas, ao menos, a diretora Patricia Riggen (de “Sob A Mesma Lua”) é austera o suficiente para impor-lhes uma montagem dinâmica que chegue rapidamente onde interessa.
Assim, todos os personagens principais vão trabalhar em um mina de ouro no Deserto do Atacama no dia 5 de agosto quando ocorre o acidente: Recriado com a clareza de detalhes e o realismo permitido pelos efeitos visuais de última geração.
É nos dias que se seguem –e na adição de novos e importantes personagens –que o filme de Patricia Riggen vai encontrando alguns de seus méritos.
Sua primeira parte, quando o resgate é uma incógnita, quando a empresa privada insiste em tratar o acidente com negligência e quando muitos apostavam que nenhum deles estava mais vivo (quando na verdade estavam todos em um refúgio a mais de 580 metros abaixo do solo), é consideravelmente mais marcante e envolvente que o trecho seguinte, quando os mineiros são descobertos e o filme invade o ponto da história que o mundo todo já conhece –aquele em que os mineiros já viraram notícia mundial.
Até lá, a narrativa oscila entre os esforços realizados na superfície –com destaque para o Ministro de Minas, Laurence Golborne (Rodrigo Santoro) e o engenheiro André Sougarret (Gabriel Byrne) cuja perseverança garantiu uma continuidade nas operações até que os mineiros fossem finalmente encontrados –e a claustrofóbica agonia dos mineiros que, sem certeza de que serão resgatados, têm que racionar a comida suficiente para três dias por mais de uma quinzena (!), com inevitável ênfase na liderança de Mário Sepúlveda, cuja fé e destemor são mostrados como um norte que impediu os demais mineiros de sucumbirem ao desespero enquanto lá estiveram.
Da forma como se apresenta, a direção de Patricia Riggen não faz (ou não consegue fazer) maiores arroubos de inventividade narrativa, deixando a história falar por si –ela, quando muito, introduz elementos de melodramaturgia duvidosa como na cena em que, em sua última refeição, quando a comida racionada se esvaiu, o mineiros famintos têm uma alucinação coletiva onde encontram seus familiares e são presenteados por um banquete com seus pratos prediletos.
Os quarenta minutos finais de “Os 33” se contentam em mostrar a mesma trama que o mundo todo acompanhou por meio das coberturas de imprensa –e salvo alguns momentos intimistas é essa mesma linguagem informativa que ele adota.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Inimigo do Estado

Thrillers de espionagem são, em geral, uma faca de dois gumes: Exigem, no mínimo, diretores hábeis e experientes capazes de administrar com eficiência os expedientes requeridos pela narrativa. No entanto, com frequência, acabam rendendo produções charmosas e sedutoras que, em sua condução envolvente, costumam ostentar o melhor do gênero suspense.
Falta pouco para “Inimigo do Estado” atingir esse objetivo.
Um diretor com experiência, ele tem. O falecido Tony Scott, afinal, fez de quase tudo: Um dos mais emblemáticos sucessos comerciais dos anos 1980 (“Top Gun”, cujo astro, Tom Cruise, era a escolha inicial para este projeto, terminando substituído por Will Smith); um dos mais formidáveis e originais filmes de vampiros da mesma década (“Fome de Viver”); uma longa parceria com Denzel Washington (“Maré Vermelha”, “Chamas da Vingança” e tantos outros) –mas, nunca escapou de ser lembrado mesmo como o irmão mais novo de Ridley Scott.
Se não chega a ter estatura de obra-prima, “Inimigo do Estado” prova, ao menos, a capacidade de seu diretor para compor um belo e envolvente trabalho.
Tomando por base uma das realizações fundamentais desse sub-gênero –o brilhante “A Conversação”, de Francis Ford Coppola –o filme de Tony Scott faz dignamente o que poderia se esperar dele: Contextualiza o conceito da espionagem para os novos e modernosos tempos, imprime ação vertiginosa em suas cenas e tecnologia de ponta em seu argumento (não deixando de lado um molho sócio-político para valorizá-lo), e ainda se sai com uma vistosa participação especial de Gene Hackman, astro daquele filme.
Numa ponta ilustre que não vai além do prólogo, o grande Jason Robards é um senador prestes a vetar um lei que libera a vigilância eletrônica, postura que o leva a ser assassinado a mando de Reynolds (Jon Voight), um figurão da Agência de Segurança Nacional.
O assassinato ocorre em um parque bucólico, casualmente em frente a uma câmera programada para captar a migração de pássaros. O dono da câmera (Jason Lee, também ele numa breve ponta) não tarda a ser perseguido pelos homens de Reynolds e, antes de sua trágica morte, deixa uma cópia do flagrante em meio aos pertencentes de um conhecido que encontrou por puro acaso, o advogado Robert Clayton Dean (Will Smith, numa presença tão cuidadosamente descuidada na trama quanto costumam ser os protagonistas de ação).
Sem saber o que tem em mãos, Dean tem sua vida virada de pernas para ar pelos recursos tentaculares da Agência: Eles plantam escutas em suas roupas e em toda sua casa; o levam a ser demitido da firma em que trabalha; anulam todos os seus cartões de crédito e fecham o cerco em torno dele. Tudo para fazê-lo recorrer à quem eles imaginam que possa estar por trás disso tudo, o ex-agente Brill (Gene Hackman, sempre ótimo), que cai de para-quedas no meio da trama tanto quanto Dean.
Brill, cujo background lembra, não por acaso, o personagem do mesmo Gene Hackman em “A Conversação”, já trabalhou com a Agência no passado, e por isso, tem pleno conhecimento da extensão de seus recursos –e representa, para Dean, a única alternativa de como transitar por esse novo e traiçoeiro mundo da espionagem, e nele encontrar um meio de revidar.
Nessa trama recheada de reviravoltas até bem pontuadas, o diretor Scott se esbalda nas situações que se constroem às vezes num ritmo mais frenético do que o adequado. Como é comum em suas obras, o caprichado visual publicitário se revela um empecilho para que sua premissa seja por inteiro levada a sério, mas ele tem experiência o suficiente para administrar ação e suspense em quantidades necessárias que o façam envolvente até o apoteótico final: Um tiroteio orquestrado com sinergia, sangue e alta voltagem.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Hereditário

Notável a forma com que a narrativa do diretor Ari Aster sublinha a redundância humana através das miniaturas e maquetes que a protagonista cria o tempo todo: Elas, com frequência, se confundem com as cenas, sugerindo a trama e os personagens como brinquedos nas mãos de uma entidade maior. E mais cruel.
Não deixa de ser exatamente isso...
Do momento em que começa até o momento em que termina, “Hereditário” não poupa ninguém do drama dilacerante que logo estabelece.
O clima na casa afastada da família Grahan é de luto. Ellen, a avó, faleceu. Cada membro lida com a dor de forma distinta. Annie (Toni Collette, magnífica), a mãe, fica perplexa em sua sôfrega tentativa de normalidade; Steve (Gabriel Byrne), o pai, ostenta um semblante sereno que oculta sua angústia; Peter (Alex Wolff), o filho, imerge na apatia e na sonolência; e Charlie, a filha (cuja atriz, Milly Shapiro, tem a maquiagem do rosto empregada para ressaltar seus traços desconcertantes) se refugia em comportamentos bizarros –como guardar cabeças de pássaros mortos.
Numa escapadela para desabafar em um grupo de pessoas em auxílio ao luto, Annie comenta que seu pai sofreu de depressão psicótica enquanto seu irmão suicidou-se em decorrência da esquizofrenia –pela qual ele culpava a mãe! –e algumas pistas (em meio a tantas outras que nem sempre se revelam verdadeiras) começam a apontar para o real cerne da história.
Há um clima macabro que permeia até mesmo os momentos bucólicos de “Hereditário” –e ele, mais do que qualquer cena de horror explícito, deixa bem claro ao expectador que existe algo de muito errado na rotina daquela família.
Quase já em sua metade há uma guinada brusca (e corajosa) que ressalta os rumos de sua trama ao mesmo tempo que colide com as expectativas daqueles expectadores (aficionados de terror, em geral) que se metem a querer adivinhar os acontecimentos do filme –se há um mérito espetacular no trabalho de Ari Aster é a forma com que ele desconstrói tudo o que o público espera que vá acontecer.
Sua trama tinha tudo para ser simples e profundamente sinistra, entretanto, nas ênfases dramáticas que escolhe, pelo roteiro e pela direção, Aster faz de seu filme um enigma estranho, um pesadelo de dedução no qual enreda o público; certamente, nem todos chegarão ao final esclarecidos do que realmente se passou.
Essa admirável névoa de dúvida e mistério, assim como a característica sintomática de ampliar as cenas desconfortáveis numa técnica de dilatação de tempo empregada com rara perícia no cinema moderno, são, entre outras coisas, alguns dos elementos que diferenciam este ótimo trabalho dos exemplares corriqueiros do terror atual.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Os Suspeitos

“O grande truque do Diabo foi convencer o mundo de que ele não existia.”
“The Usual Suspects” revelou ao mundo, por meio da liberdade criativa plena do cinema independente, o diretor Brian Singer e o roteirista Christopher McQuarrie: O primeiro, um jovem cineasta depois estabelecido e reconhecido por sua contribuição aos filmes da saga “X-Men” que definiram o padrão de qualidade para as adaptações de quadrinhos no início dos anos 2000; o segundo, um escritor de hábil noção narrativa (e que, por este trabalho, levou o Oscar de Melhor Roteiro Original) muito famoso hoje por recuperar vários roteiros para a indústria: O trabalho de McQuarrie é notável, por exemplo, na série “Missão Impossível”, com Tom Cruise, cujo roteiro do 4º filme, “Protocolo Fantasma”, ele poliu até a perfeição, e o 5º (e melhor de todos), “Nação Secreta”, ele não só roteirizou como também dirigiu.
“The Usual Suspects” também deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante à Kevin Spacey, iniciando ali uma premiada carreira –pelo menos, até ele ser deixado de lado, devido à recentes denúncias de abuso sexual...
Muitos argumentam que Kevin merecia o Oscar de fato por “Seven-Os Sete Crimes Capitais” do mesmo ano, pelo qual ele não foi indicado porque seu personagem representava ao filme uma reviravolta que não devia ser divulgada.
Há também muitas reviravoltas aqui, porém, de outra natureza: O filme de Singer começa no cais de Nova York, quando a polícia se defronta com um barco transformado em palco de uma verdadeira chacina ocorrida entre criminosos. As cenas que abrem o filme –e que introduzem não só o protagonista Keaton (Gabriel Byrne) como também um importante e misterioso personagem –já deixam bem clara a referência noir que será fundamental ao filme, e a iminência de um flashback que haverá de rever aqueles fatos.
Movendo uma investigação imediata, o detetive Dave Kujan (Chazz Palminteri, sensacional) descobre, por meio da única testemunha sobrevivente, o manco e assustado Verbal (Kevin Spacey, magnífico), que o massacre pode estar relacionado com o lendário Keiser Soze.
Ele vem a ser o personagem misterioso que vislumbramos naquele início, e também fonte da grande questão que atravessa o filme. Quem é esse imperador do crime de características quase folclóricas que parece manipular todos os personagens? Quem é Keiser Soze?
Munidos dessas objetivas dúvidas –e atento a fazer delas o cerne em torno do qual toda a narrativa irá girar –Singer e McQuarrie não têm qualquer pudor em fazer desse personagem-fantasma um dos vilões mais intrigantes e memoráveis do cinema.
Nunca, contudo, a polícia esteve tão perto de decifrar a identidade de Keiser Soze; e para tanto, o depoimento do hesitante Verbal é imprescindível. Reconstituindo o modo como ele, Keaton e seus outros amigos (MacManus, vivido por Stephen Baldwin; Hoeney, interpretado por Kevin Pollak; Fenster, interpretado por Benicio Del Toro) se envolveram na situação, o detetive (e o público) desvenda uma trama movida por um grupo de trapaceiros que acabaram esbarrando onde não deviam.
O grande trunfo do filme é certamente seu argumento magistral, bem como a condução consciente e bem amarra do diretor conseguindo o mérito insuspeito de surpreender a cada cena, a cada nova informação e ainda reservando, ao final, uma revelação desconcertante que fez desta produção uma das mais comentadas nos anos 1990.

P/S: Não confundir este “Os Suspeitos” com o filme homônimo lançado em 2013, dirigido por Denis Vileneuve –e igualmente sensacional!

sexta-feira, 24 de março de 2017

Cool World - Mundo Proibido

Existem dois filmes diferentes que não se harmonizam nada bem em “Cool World-Mundo Proibido” de Ralph Bakshi, e isso diz respeito essencialmente ao seu próprio diretor: Um, é a animação irredutível, irreprimível e caótica, ocasionada por rompantes de absurdo e escatologia nitidamente impregnados em seus personagens e nas próprias regras (ou falta delas) no mundo a que pertence; o outro, é o filme com atores de carne e osso, cuja narrativa engessada, maniqueísta e insatisfatória chega a contrastar com os momentos em cartoon.
Como animador, Ralph Bakshi sabe ser exuberante, impetuoso, atrevido e revigorante (características muitas vezes associadas ao seu mais cultuado trabalho, o desenho para maiores “O Gato Fritz” de 1972), já como diretor de atores, sua técnica é tímida, seus enquadramentos são redundantes e a condução de seus atores soa quase indiferente.
Esse desequilíbrio é o grande problema do qual “Cool World” padece.
Por aí, nota-se então a imensa propriedade com que Robert Zemeckis soube, em 1989, mesclar numa narrativa plausível e gratificante os desenhos animados e os atores reais no seu revolucionário “Uma Cilada Para Roger Rabbit” –aliás, eis uma resenha que precisa ser feita dentro em breve!
Talvez, inspirado por essa nova possibilidade, Bakshi saiu de sua aposentadoria (anunciada em 1983) para, em 1992, realizar esta nova junção de animação e live-action, pegando carona no sucesso de “Roger Rabbit”, mas com um diferencial: Uma trama obscura, lúgubre até, que abria margem para uma saudável subversão, onde entravam como ingredientes muito adultos a sensualidade, a esquizofrenia e até mesmo a melancolia.
Na trama, mal sabe o cartunista Jack Deebs (Gabriel Byrne) que o mundo que criou no papel, Cool World, uma cidade animada e surreal povoada por seres destrambelhados, existe de fato. Quando vai parar dentro desse mundo, ele conhece a voluptosa Holly Would (uma versão animada –e igualmente sinuosa –de Kim Basinger, na época o grande símbolo sexual do cinema), que planeja aproveitar sua presença ali para escapar daquele lugar: Ela sabe que, ao transar com ele, um humano, ela irá se tornar uma pessoa de carne e osso (e aí, entra em cena a própria Kim Basinger, numa interpretação sensacional), podendo viver no mundo real, ainda que isso seja sumariamente proibido.
Um dos únicos personagens humanos a viver no Cool World vem a ser o amargo detetive Harris (Brad Pitt, cuja atuação coloca no bolso a do protagonista Byrne), ele próprio apaixonado por uma personagem de desenho, mas consciente do perigo que pode ser deflagrado ao se romper as regras: A harmonia entre os dois mundo pode ser quebrada, destruindo-os!
Apesar dessas idéias promissoras, e da francamente imperdível presença de Kim Basinger, pouca coisa em “Cool World” funciona de verdade. Até mesmo a animação, em termos técnicos, apesar da desenvoltura e experiência do diretor Ralph Bakshi, fica bastante aquém de muitas obras que foram produzidos naquele mesmo período.
Vale, sobretudo, pela curiosidade em ser um filme absolutamente fora dos padrões, objetivo que sempre pareceu nortear a busca criativa do eclético e incomum Bakshi.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Gothic

O quê o diretor inglês Ken Russel faz é puro cinema, na sua mais engajada necessidade de transgredir, e em sua exuberante convicção, sua arte não pode e não deve se prender às amarras de bom comportamento.
É dessa maneira, consciente de quem esse diretor controverso é (já vi “A Prostituta” e preparo o espírito para encarar o famigerado “Os Demônios”), que chego à este “Gothic”, certamente um dos trabalhos dele que mais gostei. Mas ele não é, de maneira nenhuma, para todos os públicos. É difícil, denso e provocativo, em níveis que um expectador de cinema normal definitivamente não está habituado.
Numa noite, em 1816, o poeta Lord Byron recepcionou o também poeta Percy Shelley, sua noiva Mary e sua cunhada Claire, além do amigo Dr. John Polidori.
Incitados pela verve niilista e desafiadora de Byron, os convidados mergulham numa jornada pavorosa e alucinógena noite adentro.
Como é habitual ao seu estilo e personalidade, o diretor Ken Russel cria um delirante espetáculo de terror ao reconstituir um episódio real, do qual teria surgido a inspiração para os clássicos literários “O Vampiro” de Polidori e, especialmente, “Frankenstein” de Mary Shelley. Os atores, seguindo uma orientação comum nos filmes de Russel, oscilam entre uma compenetração comedida e louvável e uma entrega visceral e desconcertante (e o mais particularmente empenhado nesse objetivo é Gabriel Byrne). Os momentos de pesadelo, sublinhados pela intrusiva trilha sonora, vão se intensificando numa progressão incontornavelmente perturbadora, culminando na seqüência final, de pleno delírio, intercalada pelas mais intensas rimas visuais que Russel já orquestrou.
Contra ele, pode-se dizer que as extravagâncias de Ken Russel são de gosto duvidoso (embora “Gothic”, apesar de tudo isso, continue um filme fascinante), a favor dele, pode-se dizer que é impossível ficar indiferente aos projetos que escolhe.

domingo, 15 de novembro de 2015

Excalibur

Grande mestre, esse John Boorman. Diretor de magistrais trabalhos nos anos 1970 e 1980, como “Amargo Pesadelo” e “Esperança e Glória”, ele é também realizador da melhor (e provavelmente jamais igualada) versão da lenda do Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda: “Excalibur”. 
A primeira parte da história, narrada num tom épico que depois serviria aos propósitos narrativos de filmes como “Gladiador” ou “Senhor dos Anéis”, mostra a obsessão de Uther Pendragon (Gabriel Byrne) em tornar-se rei, após obter a fabulosa espada Excalibur, das mãos da Dama do Lago. Ao alcançar seu objetivo, ele apenas troca uma obsessão por outra: Uther deseja Igraine, a esposa do homem que antes foi seu aliado em batalha. Fazendo um pacto com o mago Merlin (Nicol Williamson), e com o demoníaco dragão que lhe fornece poder, Uther tem uma noite fugaz de amor com Igraine enquanto seu marido cai morto no campo de batalha. Mas, Merlin volta, nove meses depois, para cobrar a dívida pelo favor prestado, e seu preço é Arthur, o recém-nascido, fruto daquela mesma noite. Uther arrepende-se do pacto, mas é interceptado por inimigos de seu reino antes de alcançar Merlin. Eles matam Uhter, que antes de cair crava a espada Excalibur em uma pedra, impedindo qualquer de empunhá-la (numa cena fantástica, bem feita, bem filmada, bem dirigida e bem interpretada). 
A trama avança, assim, algumas décadas e, na segunda parte, encontraremos Arthur (Nigel Terry) já rapaz, trabalhando como escudeiro para o filho de seu pai adotivo (Merlin entregou-o para que um camponês o criasse). Acidentalmente, Arthur remove a espada da pedra, tornando-se rei. 
Nos anos por vir ele se apaixonará pela bela Guinevere (Cherie Lunghi), a filha de um de seus maiores aliados, consolidará seu castelo, unificará seu reino, em Camelot, e criará a Távola Redonda, em homenagem à honra que une seus cavaleiros. Mais tarde, Arthur conhecerá Lancelot (Nicholas Clay), nobre cavaleiro cuja honradez em combate irá surpreender o próprio Arthur. Após uma breve contenda, eles tornar-se-ão amigos, porém, numa reviravolta do destino, Lancelot e Guinevere se apaixonarão, traindo Arthur e deixando o reino de Camelot à mercê dos feitiços malignos da vingativa meia-irmã de Arthur, a bruxa Morgana (Helen Mirren). Uma época negra que somente a descoberta do Santo Graal irá dissipar. 
Mesmo a mais elaborada sinopse talvez não dê conta da complexidade à que “Excalibur” consegue chegar. Seus personagens são multifacetados, e isso é maravilhosamente refletido no trabalho minucioso do elenco. Também é digna de aplausos a direção de John Boorman que emprega uma sucessão de decisões brilhantes nesta sua versão tão pessoal da lenda. A primeira delas é certamente a de jamais render-se a uma tendência comercial (na qual, sem dúvida, as cenas de sangue ou de nudez seriam sensivelmente reduzidas, além do conteúdo bastante dramático e trágico da história); a segunda, é adotar o tom ímpar que adotou, o de em princípio, desmistificar a lenda (infligindo reações muito humanas e ambíguas em seus personagens) o quê termina apenas por valorizá-la; e a terceira é finalmente colocar alguns dos mais brilhantes atores britânicos para vivenciá-los, como Hellen Mirren (bonitona pra caramba!) como Morgana, ou Gabriel Byrne com Uther Pendragon, há até mesmo um jovem Liam Neeson e um ainda desconhecido Patrick Stewart (porém a grande presença vem a ser mesmo Nicol Williamson, esplêndido num registro desigual de Merlin). 
Uma das grandes obras de fantasia do cinema.