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domingo, 4 de dezembro de 2022

Sem Saída


 Não obstante sua roupagem de suspense pós-moderno lembrar constantemente as intrigas literárias de Sydney Sheldon, este “No Way Out” –o título nacional genérico, “Sem Saída”, remete não só a este como a diversos outros filmes –trata-se de uma refilmagem de “O Relógio Verde”, de 1948, dirigido por John Farrow e estrelado por Ray Milland, Charles Laughton e Maureen O’ Sullivan, ambientado, por sua vez, na redação de uma revista.

No trabalho realizado por Roger Donaldson (que à época parecia especializar-se em refilmagens tendo dirigido “Rebelião Em Alto-Mar”, com Mel Gibson, refilmado do clássico “O Grande Motim”), a nova ambientação é uma circunstância imposta sem a menor sutileza já no travelling inicial de câmera quando, em meio aos créditos iniciais, somos levados a uma casa nos arredores de Washington. É lá que um flashback vai regressar aos eventos tortuosos de sua trama a envolver seu protagonista, o Comandante Tom Farrell, vivido pelo galã de então, Kevin Costner.

A história que é assim descortinada demora um pouco a engrenar de fato –o que testa a paciência dos expectadores mais imediatistas –se diluindo em idas e vindas que soam prosaicas numa primeira exibição, entretanto, as pistas e indícios ali plantados vão fazer importante diferença mais tarde.

Uma vez em Washington, as conexões pessoais de Farrell são poucas: Resumem-se ao seu grande amigo Scott Pritchard (Will Patton, num personagem manipulador, insidioso e desprezível) e ao homem que ele bajula acima de qualquer coisa, o Secretário de Defesa norte-americano David Brice (o grande Gene Hackman). Não tarda à Farrell envolver-se também com a mulher mais errada possível, Susan Atwell (a sensacional Sean Young, completamente diferente da sisuda personagem pelo qual mais é lembrada, de “Blade Runner”).

Acaba sendo que Susan, por quem Farrell se apaixona (e é correspondido!), é a amante de Brice. Após um episódio no qual é condecorado herói da marinha, Brice tem a ideia de chamar Farrell para trabalhar em seu gabinete no Pentágono, sem ter a menor ideia que é o próprio Farrell quem disputa com ele sua amante.

Numa noite de exaltação, quando Susan está prestes a dar um basta no caso extraconjugal com Brice, ele acidentalmente a joga da escada, matando-a. Está assim armada a confusão: A única forma de manter a integridade política de Brice –que alimenta planos ambiciosos dentro da conjuntura sócio-política americana –é jogar a culpa do assassinato sobre o outro amante de Susan, e para incrementar ainda mais a busca por sua identidade, Pritchard ventila nos corredores do Pentágono que ele vem a ser o Yuri, uma espécie de lenda urbana da contra-espionagem naqueles tempos de Guerra Fria, supostamente um infiltrado russo que cresceu nos EUA e fornece informações da Inteligência Norte-Americana de dentro de seu próprio sistema central.

Como Farrell trabalha diretamente com Brice e Pritchard, ele coordenada as tensas investigações, às quais, se não lutar contra o tempo e achar uma saída, haverão de levá-las diretamente até ele próprio!

Um dos vários sucessos de bilheteria que abrilhantaram a carreira de Kevin Costner nos anos 1980, “No Way Out” é um suspense vistoso, diferente, pontuado por bem manejadas e astuciosas reviravoltas de enredo (a revelação final é de uma ironia particularmente afiada) e ainda promove uma nada lisonjeira visão dos bastidores do poder em Washington, mostrados como um microcosmos onde não se pode confiar nem na própria sombra!

Entre essas intrigas de estado e conspirações de alta cúpula promovidas pelos personagens masculinos, quem se destaca mesmo é a beleza radiante de Sean Young, um tempero inesperadamente intenso de sensualidade (com pelo menos duas cenas bem marcantes, a da limusine e a da entrada no apartamento logo depois) que dá certo sabor à mistura.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Formiguinhaz


 Nos anos de transição da década de 1990 para 2000, o estúdio Dreamworks, fundado por Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen, entrou numa série de projetos, disposto a fazer estardalhaço no cinema. Certamente, um desses projetos, “Formiguinhaz”, haveria de envolver animação, a grande especialidade do produtor Katzenberg –que esteve a frente da reformulação dos Estúdios Disney com “A Pequena Sereia” e “A Bela e A Fera”, dez anos antes. A ironia foi que “Formiguinhaz”, numa dessas coincidências inconvenientes que vez ou outra acontece em Hollywood, estreou na mesma temporada que outra animação, também ela tendo o mundo miniatura dos insetos como foco central, “Vida de Inseto”, da Pixar.

Na comparação com o divertido e descontraído trabalho da Pixar, “Formiguinhaz” é pleno de escolhas curiosas, indicativas do quanto os realizadores vão muito além de entregar uma obra para crianças, mas uma produção pontuada por detalhes que chamam a atenção dos adultos.

A começar pela escolha de Woody Allen para dar voz ao personagem principal, a formiga operária Z que, no início do filme, surge num divã, relatando suas neuroses num tom hesitante e tímido que Allen domina completamente. Com isso parece haver uma relação estabelecida pelos realizadores entre as formigas e o povo de Nova York –cosmopolitas, numerosos, incapazes de prestar atenção uns nos outros, colhidos numa série de ciclos viciosos e, como Z, sujeitos a ocasionais vazios existenciais.

Z se pergunta porque deve ser mais um dentre tantos. A mediocridade o incomoda quando parece não perturbar todos os outros, indiferentes e dóceis para com sua rotina.

Assim, Z propõe uma ligeira troca com seu melhor amigo, Weaver (voz de Sylvester Stallone): Ele, que é soldado, trocará de lugar com Z, e assim saberá como é o dia-a-dia de um operário –enquanto que Z poderá experimentar a emoção diferenciada de partir em batalha. Para o azar de Z, porém, o General Mandíbula (Gene Hackman) organiza uma ataque aos cupins, moradores de um formigueiro próximo –repare na cena em que Z encontra a cabeça decepada, mas ainda viva e falante, de um amigo no campo de batalha (!), exemplar do quanto a animação não ameniza em cenas até um tanto violentas.

Por suas dimensões reduzidas para um soldado, Z acaba sendo o único sobreviventes da batalha –o que coloca  certo imprevisto nos planos do General Mandíbula. Quando seu embuste é descoberto, contudo, resta a Z improvisar e, com isso, ele escapa para fora do formigueiro junto da Princesa Bala a quem tentou fazer, muito atrapalhadamente, de refém.

Paralelamente, a animação acompanha então a aventura de Z e da Princesa Bala às voltas com os perigos do agigantado mundo exterior –onde testemunhamos mais cenas intensamente violentas, como a cauterização de uma formiga com o raio solar de uma lupa; ou a morte de um inseto fêmea esmagada por meio de um mata-moscas –e a crescente fama de Z entre seus pares do formigueiro, em meio aos quais corre a história da audácia do operário em decidir ocupar o lugar de um soldado, e tornar-se herói de guerra com isso.

Vai ficando também claro o plano maligno do General Mandíbula, e nele, a mensagem de individualismo difundida nas peripécias de Z entre as demais formigas acaba sendo prejudicial.

Surpreendente devido ao seu sucesso de bilheteria na época de seu lançamento, “Formiguinhaz” não aparenta obter uma conciliação na preferência de público; sua trama ostenta complexidades demais para crianças pequenas, seu senso estético (ainda que obedeça os padrões da animações em geral) constrói cenas um tanto quanto particulares em seu realismo, seu elenco inacreditável (onde, é bom lembrar, somente as vozes são de fato aproveitadas) sinalizam a vontade de impressionar a parte mais crescida da plateia, a flagrante humanização dos personagens insetos proporciona certa estranheza, mais comum em animações europeias, e sua mensagem final –na sofisticação de sua abordagem –parece inacessível ao seu suposto público-alvo.

quarta-feira, 17 de março de 2021

Superman 4 - Em Busca da Paz


 Em 1987, quando foi realizado o quarto e último filme do Superman interpretado por Christopher Reeve, as circunstâncias eram bem diferentes daquelas que cercaram o primeiro filme, capitaneado por Richard Donner. Desiludidos com o desempenho de público e crítica obtido com o irregular “Superman 3”, os produtores Alexander e Ilya Salkind venderam os direitos autorais do personagem para cinema aos produtores Menahem Golan e Yoram Globus.

Á frente da picareta Cannon Films –que, ao longo de toda década de 1980, popularizou os filmes caça-níqueis de ação pauleira estrelados por Chuck Norris e Jean Claude Van Damme –Golan e Globus não tardaram a garantir para seu novo filme as presenças de Reeve (Superman/Clark Kent em pessoa) e Gene Hackman (Lex Luthor), deixando a direção a cargo de um de seus operários-padrões, Sidney J. Furie, que havia contentado bastante seus empregadores fazendo muito com pouco orçamento na produção “Águia de Aço” –um primo pobre de “Top Gun”. Em outras palavras, o novo filme de Superman era um filme B com todas as letras, conduzido por um diretor moldado nessa orientação, dono de um orçamento irrisório e –consequência de tudo isso –resultou numa obra mambembe, oscilante entre a pretensão comercial e a auto-paródia involuntária.

Rumores indicavam o descontentamento imediato de Christopher Reeve já nas primeiras semanas de filmagem –consta que Golan e Globus conseguiram fisgá-lo para voltar ao papel protagonista prometendo a ele a direção da segunda unidade, além de uma participação determinante na construção do roteiro.

De fato, em sua trama, “Superman 4” apela para um viés político e pacifista que procura disfarçar a pobreza compulsiva de sua realização.

Herói magnânimo dos EUA e do mundo, Superman deixa de lado os percalços mais intimistas dos filmes anteriores para abraçar a figura que ele representa em larga escala: Inspirado pela carta de um garotinho, ele decide aderir ao movimento (real) de desarmamento nuclear de então e tenta abolir as ogivas atômicas em todo o mundo.

Talvez inspirado por isso, seu arqui inimigo, Lex Luthor, agora acompanhado de seu sobrinho à tiracolo (Jon Cryer, de “A Garota de Rosa Shocking” e da série “Two And A Half Men”, cujo personagem substitui, muito mal e porcamente, o Ottis de Ned Beatty), vale-se do DNA do Superman e, num plano maquiavélico, cria uma duplicata radioativa do Homem de Aço (vivido pelo brutamontes inexpressivo Mark Pillow).

É irônico que o filme de pretensões mais grandiosas da série, seja também aquele que mais flerta com o cinema poeira do período: Com o pouco que tem, Sidney J. Furie até faz o possível para emular o trabalho de Donner, embora não tarde para sua narrativa sentir a pressão e ceder, em sua segunda metade, a toda sorte de inverossimilhanças quando as cenas de ação e o uso recorrente de superpoderes exige do filme algo que ele não tem: Uma produção sólida e competente.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

O Jovem Frankenstein

Tendo entregue a quase genial sátira de faroeste “Banzé No Oeste” naquele mesmo ano de 1974, o diretor Mel Brooks concebeu logo em seguida outra genial paródia de mais uma linguagem cinematográfica específica: Mais do que cativar o expectador com suas piadas francamente hilárias, “O Jovem Frankenstein” surpreende pela maneira brilhante com que assimila as reflexões e inflexões do gênero de terror antigo à que pertencem a premissa e os personagens que ele quer parodiar não despido de carinho –os humoristas de hoje se esquecem disso, criando comédia que em seu humor desregrado fazem pouco mais do que ofender.
O personagem de Gene Wilder, Frederick Frankenstein, é neto do célebre Victor Frankenstein –de cuja história o diretor se aproveita do conhecimento subconsciente do público –e esse fato ocasionalmente lhe proporciona a desconfortável curiosidade dos alunos na aula de medicina que ministra –Frederick afirma e reafirma a insensatez nas experiências científicas que fizeram o nome da família infame; e na empolgação de sua defensiva até crava um bisturi no próprio joelho sem querer (!).
Entretanto, o neto irá migrar de uma aversão às descobertas do avô para uma espécie de retomada de suas questionáveis experiências quando descobrir que lhe foi deixado de herança um castelo na Transilvânia. Lá, Frederick conhece os personagens que o conduzirão ao seu propósito: A deliciosa Inga (Tery Gaar), mocinha insinuante da região; o estranho e atrapalhado Igor (Marty Feldman, um achado do próprio Mel Brooks), antigo (e impagável) assistente de seu avô; e a governanta do lugar a soturna e hilariante Frau Blücher (Cloris Leachman, sensacional), cuja pronúncia do nome aterroriza os cavalos de uma carruagem cada vez que é mencionado (e não importa onde esteja!).
De posse de um livro escrito por seu avô, Frederick reacende a chama de inventividade que levou seu parente a criar monstruosidades e, gaiatamente resolve dar continuidade aos seus projetos, criando assim um corpo, feito de partes, o qual irá preencher de vida.
A criatura (vivida com brilho por Peter Boyle, de “Enquanto Você Dormia”) só tem um problema: Dotada de um cérebro anormal graças a uma trapalhada (dentre muitas!) de Igor, a criação do Jovem Frankenstein é agigantada e forte, porém, destrambelhada e ingênua –quando escapa, seu encontro com um cego, por exemplo (vivido por Gene Hackman), só lhe acarreta prejuízos (o cego lhe derruba sopa quente nas pernas, quebra a taça de cerveja que ia beber e ainda acende seu dedo pensado ser um charuto!).
Está certo que o timing cômico e o ritmo do filme decaem um pouco ao adentrar seu terço final, quando ,assolado de súbita e improvável compaixão pela natureza singular e, portanto, solitária da criatura que criou, o Jovem Frankenstein resolve mover esforços para fazê-lo ser aceito pela população –o que não ocorre, rendendo uma reedição das cenas famosas (para não dizer clichês) dos filmes antigos de terror nas quais o monstro é perseguido dos aldeãos de tochas acesas em mãos.
Nesse ponto do filme, esse recurso da trama soa como uma alternativa que reduz sua graça e banaliza sua originalidade, entretanto, até chegar ali, o trabalho de Mel Brooks certamente já conquistou com ampla margem o público com uma primorosa primeira parte, inserindo-se entre as melhores e mais hilárias comédias já realizadas.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Inimigo do Estado

Thrillers de espionagem são, em geral, uma faca de dois gumes: Exigem, no mínimo, diretores hábeis e experientes capazes de administrar com eficiência os expedientes requeridos pela narrativa. No entanto, com frequência, acabam rendendo produções charmosas e sedutoras que, em sua condução envolvente, costumam ostentar o melhor do gênero suspense.
Falta pouco para “Inimigo do Estado” atingir esse objetivo.
Um diretor com experiência, ele tem. O falecido Tony Scott, afinal, fez de quase tudo: Um dos mais emblemáticos sucessos comerciais dos anos 1980 (“Top Gun”, cujo astro, Tom Cruise, era a escolha inicial para este projeto, terminando substituído por Will Smith); um dos mais formidáveis e originais filmes de vampiros da mesma década (“Fome de Viver”); uma longa parceria com Denzel Washington (“Maré Vermelha”, “Chamas da Vingança” e tantos outros) –mas, nunca escapou de ser lembrado mesmo como o irmão mais novo de Ridley Scott.
Se não chega a ter estatura de obra-prima, “Inimigo do Estado” prova, ao menos, a capacidade de seu diretor para compor um belo e envolvente trabalho.
Tomando por base uma das realizações fundamentais desse sub-gênero –o brilhante “A Conversação”, de Francis Ford Coppola –o filme de Tony Scott faz dignamente o que poderia se esperar dele: Contextualiza o conceito da espionagem para os novos e modernosos tempos, imprime ação vertiginosa em suas cenas e tecnologia de ponta em seu argumento (não deixando de lado um molho sócio-político para valorizá-lo), e ainda se sai com uma vistosa participação especial de Gene Hackman, astro daquele filme.
Numa ponta ilustre que não vai além do prólogo, o grande Jason Robards é um senador prestes a vetar um lei que libera a vigilância eletrônica, postura que o leva a ser assassinado a mando de Reynolds (Jon Voight), um figurão da Agência de Segurança Nacional.
O assassinato ocorre em um parque bucólico, casualmente em frente a uma câmera programada para captar a migração de pássaros. O dono da câmera (Jason Lee, também ele numa breve ponta) não tarda a ser perseguido pelos homens de Reynolds e, antes de sua trágica morte, deixa uma cópia do flagrante em meio aos pertencentes de um conhecido que encontrou por puro acaso, o advogado Robert Clayton Dean (Will Smith, numa presença tão cuidadosamente descuidada na trama quanto costumam ser os protagonistas de ação).
Sem saber o que tem em mãos, Dean tem sua vida virada de pernas para ar pelos recursos tentaculares da Agência: Eles plantam escutas em suas roupas e em toda sua casa; o levam a ser demitido da firma em que trabalha; anulam todos os seus cartões de crédito e fecham o cerco em torno dele. Tudo para fazê-lo recorrer à quem eles imaginam que possa estar por trás disso tudo, o ex-agente Brill (Gene Hackman, sempre ótimo), que cai de para-quedas no meio da trama tanto quanto Dean.
Brill, cujo background lembra, não por acaso, o personagem do mesmo Gene Hackman em “A Conversação”, já trabalhou com a Agência no passado, e por isso, tem pleno conhecimento da extensão de seus recursos –e representa, para Dean, a única alternativa de como transitar por esse novo e traiçoeiro mundo da espionagem, e nele encontrar um meio de revidar.
Nessa trama recheada de reviravoltas até bem pontuadas, o diretor Scott se esbalda nas situações que se constroem às vezes num ritmo mais frenético do que o adequado. Como é comum em suas obras, o caprichado visual publicitário se revela um empecilho para que sua premissa seja por inteiro levada a sério, mas ele tem experiência o suficiente para administrar ação e suspense em quantidades necessárias que o façam envolvente até o apoteótico final: Um tiroteio orquestrado com sinergia, sangue e alta voltagem.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas


Prova evidente da importância que este clássico de Arthur Penn conquistou para o cinema é a atitude dos membros da Academia de Artes Cinematográficas (assim como os organizadores da cerimônia do Oscar) da época em que foi lançado (1968), onde saiu somente com os prêmios de Melhor Fotografia e Atriz Coadjuvante e os do ano de 2017, quando reconheceram seu significado singular chamando seu casal protagonistas, Warren Beatty e Faye Dunaway, para apresentar o prêmio principal –e eles acabaram envolvidos indiretamente naquele vexame de envelopes trocados o quê levou o Oscar a chamá-los para apresentar o mesmo prêmio no ano seguinte, mas, enfim, essa é outra história...
Clássico como poucos filmes conseguirem a proeza de se tornar –a ponto de ter atrelado ao seu nome um arquétipo usado até por quem nem viu e nem conhece o filme –“Bonnie & Clyde” é tão sensacional, divertido e comercialmente eufórico que essas qualidades populares automaticamente fizeram alguns críticos duvidar de sua perenidade artística.
O filme de Penn acompanha com um interesse desigual a vida algo bucólica de Bonnie Parker (a quem a belíssima Faye Dunaway empresta uma caracterização irrepreensível), garota americana na década de 1930 tentando equilibrar-se entre a pobreza, a monotonia social e as limitações típicas de ser uma mulher no período.
Ela flerta com o inicialmente estranho Clyde Barrow (Warren Beatty, fantástico) e, embora no princípio ele não lhe passe a segurança de um relacionamento duradouro, logo essas impressões são deixadas para trás das maneiras mais inesperadas possíveis: Clyde é um foragido assaltante de bancos (o simbolismo fálico de sua arma na primeira vez que mostra à ela tem tudo a ver com isso). Ele vive de cidade em cidade, sempre arriscadamente e sse sabor de aventura prometido por Clyde fascina Bonnie e ela junta-se a ele.
A medida que o casal vai desbravando os EUA, os outros personagens somam-se a eles: O jovem arredio e empolgado C. W. Moss (Michael J. Pollard), o próprio irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman) e sua esposa Blanche (Estelle Parsons, a ganhadora do Oscar de Coadjuvante).
Eles ganham um antagonista na pele do xerife Hammer (Denver Pyle), o quê porá um ponto final em sua vida de assaltos.
Mais do que fazer um tratado moral sobre a criminalidade, Arthur Penn cria ao redor de seus protagonistas uma sedutora névoa ambígua de liberdade e rebeldia. É impossível não se deixar de cativar por esse casal protagonista que o diretor registra como párias fora do sistema em busca de uma felicidade desigual cercados por um mundo de cidadezinhas medíocres e estradas com campos verdejantes, ou até mesmo por amor tão puro e fulminante –ainda que a narrativa ocasionalmente ironize uma certa insatisfação sexual.
Ao refletir certas facetas de contestação de uma contracultura que então nascia, o diretor Arthur Penn moldou um das primeiras obras do cinema onde a ação adquiria importância narrativa e não como sequências à parte do contexto.

sábado, 21 de julho de 2018

Os Vencedores do Oscar 1972


Curioso como os filmes premiados pela Academia no início da década de 1970 refletiam pessimismo, crueza e desilusão.
A despeito de sua maestria, “Operação França”, de William Friedkin, o grande vencedor em 1972, era aquele que melhor ilustrava isso (ele ainda derrotou o inovador e caótico “Laranja Mecânica”, de Kubrick!).
Jane Fonda consagrou-se como Melhor Atriz por um papel denso e pesado no brutal “Klute-O Passado Condena” e ambos os coadjuvantes, Cloris Leachman e Ben Johnson vieram de um dos melhores filmes na competição, o magnífico “A Última Sessão de Cinema”, de Peter Bogdanovich.

MELHOR FILME
"Operação França"

MELHOR DIREÇÃO
"Operação França", William Friedkin

MELHOR ATRIZ
Jane Fonda, "Klute-O Passado Condena"

MELHOR ATOR
Gene Hackman, "Operação França"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Cloris Leachman, "A Última Sessão de Cinema"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Ben Johnson, "A Última Sessão de Cinema"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Um Violinista No Telhado"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Jardim dos Finzi-Contini" (Itália)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Se Minha Cama Voasse"

MELHOR FIGURINO
"Nicholas & Alexandra"

MELHOR SOM
"Um Violinista No Telhado"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Nicholas & Alexandra"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"Um Violinista No Telhado"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Theme From Shaft", de "Shaft"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Hospital"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Operação França"

MELHOR MONTAGEM
"Operação França"

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1993

A consagração de Clint Eastwood pelo fenomenal “Os Imperdoáveis” –pelo qual o grande Gene Hackman também levou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante.
Também foi um reconhecimento (para muitos, tardio) de Al Pacino por sua atuação em “Perfume de Mulher” em meio a uma carreira pontuada por trabalhos memoráveis, além da conquista do prêmio de Melhor Atriz por Emma Thompson por “Retorno A Howard’s End”.
Entretanto, o momento mais peculiar da noite foi o anúncio do prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante realizado por um atrapalhado Jack Palance –há quem diga que ele tinha tomado umas e outras no camarim! Após ler, como é de hábito, o nome das cinco indicadas que surgiam em ordem na tela do telemprompter (que eram Miranda Richarson, por “Perdas eDanos”, Vanessa Redgrave –até então a favorita e vencedora do Globo de Ouro –por “Retorno A Howard’s End”, Joan Plowright, por “Um Sonho de Primavera”, Judy Davis, por “Maridos e Esposas” e Marisa Tomei, por “Meu Primo Vinny”), Palance esqueceu seus óculos de leitura e, depois de alguns constrangedores segundos nos quais ficou claro que ele não conseguia ler o nome gravado da vencedora no envelope, ele disse o nome que apareceu por último no teleprompter: Marisa Tomei.
Uma das gafes mais lendárias nunca devidamente esclarecida do Oscar.

MELHOR FILME
"Os Imperdoáveis"

MELHOR DIREÇÃO
"Os Imperdoáveis", Clint Eastwood

MELHOR ATRIZ
Emma Thompson, "Retorno a Howard’s End"

MELHOR ATOR
Al Pacino, "Perfume de Mulher"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Marisa Tomei, "Meu Primo Vinny"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Gene Hackman, "Os Imperdoáveis"

MELHOR FOTOGRAFIA

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"The Panama Deception"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Educating Peter"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Indochina" (França)

MELHORES EFEITOS SONOROS

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"A Morte Lhe Cai Bem"

MELHOR MAQUIAGEM
"Drácula de Bram Stoker"

MELHOR FIGURINO
"Drácula de Bram Stoker"

MELHOR SOM
"O Último dos Moicanos"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Retorno A Howard’s End"

MELHOR TRILHA SONORA
“Aladim"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"A Whole New World", de "Aladim"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Retorno A Howard’s End"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Mona Lisa Descending A Staircase"

MELHOR MONTAGEM
"Os Imperdoáveis"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"Omnibus”

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

A Conversação

Talvez, não caiba dizer que o excelente “A Conversação” seja um filme menor de Francis Ford Coppola, entretanto, quando vemos que ele se situa entre “O Poderoso Chefão-Parte II” e “Apocalypse Now” em sua assombrosa filmografia dos anos 1970, este é o primeiro comentário que ocorre.
Muitos cineastas, normalmente quando envolvidos em projetos de escala épica, têm em geral o hábito de intercalar uma obra menor, de orçamento, prazo de produção e viabilização menor, como forma de restaurar as energias e recobrar o tino narrativo de produções altamente exigentes em termos logísticos –um exemplo disso é a realização de “Psicose”, por Alfred Hitchcock logo na seqüência da superprodução “Intriga Internacional”.
Do modo como se situa na trajetória artística de Coppola, “A Conversação” parece ter exercido esse tipo de papel para ele.
Coppola dá um tempo nas intrigas mafiosas da família Corleone para se focar em outro universo de segredos e meias verdades. Quando o filme começa testemunhamos um diálogo banal entre duas pessoas numa praça bucólica. A captação de som, os ruídos, o murmúrio do ambiente, tudo torna nebuloso o esforço para distinguir o verdadeiro teor da conversa.
Mas, é exatamente esse o ofício de Harry Caul (Gene Hackman, num de seus grandes papéis), um especialista em escutas, realizando mais um de seus trabalhos rotineiros.
Harry é uma versão ultra-realista do que se supõe ser um espião: Vive nas sombras, cercado de aparatos nada vistosos, mas potencialmente defeituosos, sua vida e ele próprio são completamente destituídos de glamour.
Talvez seja essa compreensão e autoconsciência da própria mediocridade que leva sua paranóia a deduzir que, no diálogo que capturou na primeira cena do filme, haja afinal um plano nebuloso para um iminente assassinato.
Ou talvez seja um perigo real e cabe somente a ele impedir que venha a acontecer.
Como no formidável “BlowUp-Depois Daquele Beijo”, de Michelangelo Antonioni –uma inspiração suprema aqui –o áudio em questão serve para que o protagonista realize um escrutínio constante e incessante em busca do que possa ser a verdade, e paradoxalmente com isso, acabar mergulhando na verdade a respeito de si mesmo.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Operação França

O grande problema de algumas produções que passaram à história como divisores de águas de seu tempo é que as futuras gerações, provavelmente, não irão conseguir enxergar neles a inovação que ostentaram em sua época, simplesmente porque as características pioneiras e meritórias de sua audácia foram assimiladas e repetidas por infindáveis outros filmes depois dele.
Tomemos “Operação França”, de William Friedkin, como exemplo.
Após pegar o cinema comercial norte-americano de assalto com uma revolução temática e estética na condução de um filme policial de ação –e conquistar 5 Oscars incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor –“Operação França” virou uma espécie de modelo a ser seguido, fazendo com que quarenta e tantos anos depois, ele se pareça muito com diversos filmes policiais realizados ao longo desse período: Até o próprio Friedkin tentou repetir sua bem ajustada fórmula com o eficaz “Viver e Morrer em Los Angeles”, nos anos 1980.
A abordagem de Friedkin –com lampejos audazes de elementos documentais, tendo ganhado pouco depois uma quase contraparte oriental na prodigiosa saga japonesa, “Os Documentos da Yakuza”, de Kinji Fukasaku –visava uma quase inversão de valores nos tópicos a que o público estava acostumado ver no gênero policial (ou em qualquer gênero): Uma distinção maniqueísta do bem e do mal, da lei e do crime.
Em “Operação França”, temos a cruzada obsessiva do policial Popeye Doyle (Gene Hackman, soberbo), detetive do departamento de narcóticos da Costa Leste, em Nova York, que leva a níveis pessoais a investigação para prender um metódico traficante de drogas francês (Fernando Rey, de vários filmes de Buñuel) que estabeleceu uma sofisticada conexão nos EUA para executar o seu tráfico.
Os dois antagonistas, Popeye Doyle e Alain Charnier, o traficante francês, recebem do roteiro e da direção, uma definição inesperada: Se o Popeye Doyle de Hackman é truculento e insensível –um exemplo pulsante do proletariado –o traficante de Fernando Rey exala suavidade e classe; nada nele soa como um vilão. Doyle não é um policial exemplar no sentido restrito do termo; com freqüência o vemos extravasar a linha do aceitável e nunca demonstrando tato; Charnier é educado, trata os aliados como amigos e nunca é visto cometendo atrocidades. Doyle chafurda no mundo cão que o diretor tão bem recria e, não raro, carrega Buddy Russo (Roy Scheider), seu grande amigo, para o fundo de suas obsessões; Charnier é refinado, freqüenta locais refinados, ostenta cultura. “Operação França” é, assim, um embate de duas figuras tão antagônicas e opostas quanto o são desafiadoras uma à outra; tal e qual no mais contemporâneo “Fogo Contra Fogo”, de Michael Mann, o filme não determina para qual dos dois o expectador deve torcer. É um eufemismo não muito sutil da luta de classes, sendo que o subúrbio depauperado e brutalizado é representado, na pessimista visão de Friedkin, pelo policial, enquanto que a elite corrupta e bem servida é representada por seu nêmesis –a criminalidade surge então como um fator apocalíptico inevitável trazendo a deterioração ao já combalido mundo urbano materializado na suja e cinzenta Nova York.
Prova dessa perda irreversível de valores acarretada pela barbárie é que, naquela que é a seqüência mais famosa do filme –a cena insana de uma perseguição de um carro à um metrô elevado montada então com um virtuosismo inédito no cinema –vemos, ao fim, não o bandido atirar pelas costas de seu inimigo, mas o próprio Popeye Doyle.
Duro, realista e memorável, o filme de Friedkin parece jogar algumas duras verdades para seu público valendo-se da poderosa reflexão propiciada pela ambigüidade. Quando o cerco em torno dos dois grandes adversários, Doyle e Charnier, aperta, contudo, o diretor Friedkin não teme levar essas caracterizações até as últimas conseqüências: Ele deixa de passar a mão na cabeça de Charnier, mostrando enfim que a imagem que ele passa é uma mera fachada: Na reação muito humana que ele e Doyle apresentam na palpitante seqüência final, somos obrigados a reconhecer que a lei e o crime não são conceitos relativos.
Mesmo que todo o resto o seja: “Operação França” se encerra num dos desfechos mais intrigantes, pessimistas e amargos do gênero.
Anos depois, como sugerido nesse final dúbio, “Operação França” ganhou uma continuação, desta vez dirigida por John Frankenheimer, mas o filme de William Friedkin já tinha estabelecido um patamar alto demais para que ela conseguisse igualar.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Os Excêntricos Tenenbaums

Mais uma ode à estranheza, aos marginalizados, aos tipos bizarros que Wes Anderson tanto aprecia enaltecer. Entretanto, há sempre uma particularidade nas singulares criaturas que o diretor gosta de transformar em centros de suas narrativas: Deles parte um ímpeto irreprimível para criar.
Assim é Max Fischer, o aluno fracassado, porém, entusiasta e incansável de “Rushmore”; ou o pesquisador de moral duvidosa, mas de inabalável gosto pelo desconhecido em “A Vida Marinha de Steve Sizou”.
Todos –e outros mais –buscam no intelecto uma fuga para as limitações da vida.
Assim, como os Tenenbauns.
Realizado logo após “Rushmore” ter surpreendido o mundo, “Os Excêntricos Tenenbauns” fala sobre uma família de crianças superdotadas e de como essa condição se transfigurou, na idade adulta, mais como uma sina do que como um dom. A figura paterna –aqui representada pelo espetacular personagem de Royal Tenenbaun, majestosamente vivido por Gene Hackman –surge como o catalisador principal das mazelas, mas a exemplo dos outros protagonistas de Anderson, ele é também um amálgama carinhoso, carismático e encantador de inúmeras falhas e defeitos humanos.
Longe da família por motivos que não tardam a ficar evidentes –como suas recorrentes falhas de caráter –Royal descobriu que tem câncer, ele deseja então reunir-se com sua ex-esposa (Angélica Hunston), agora de casamento marcado com o novo namorado (Danny Glover, hilário), e com seus filhos, o metódico Chas (Ben Stiller) cuja obsessão minimalista por segurança contamina seus filhos pequenos; a escritora prodígio Margot (Gwyneth Paltron), mesmerizada num casamento completamente apático com seu ex-professor (Bill Murray); e Richie (Luke Wilson) que exilou-se numa longa viagem de cargueiro pelo mar devido à atração incestuosa que nutre desde sempre por Margot (!).
Além deles, há também a ocasional presença de Eli Cash (Owen Wilson), amigo inseparável dos Tenenbauns desde a infância.
A reunião de familiares tão idiossincráticos rende um filme em si incomum, como é do agrado de seu realizador, um perspicaz observador das peculiaridades insignificantes que o olhar ordinário deixa passar.
Ao justapor duas facetas completamente diferentes da família –uma usina de neuroses e, ao mesmo tempo, um refúgio de empatia e amor –e vislumbrar por meio disso uma obra cinematográfica de notável ressonância emocional, o diretor Wes Anderson corrobora também com uma premissa que pareceu não conseguir deixar de lado: A família, e os esforços de seus membros em continuar encontrando um laço e uma unidade. Afinal de contas, vem a ser este enredo mais uma vez o foco de Wes Anderson no irregular e perdido “Viagem À Darjeling”, também ele com Angélica Huston.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Superman 2

O segundo filme estrelado pelo Superman de Christopher Reeve, após o sucesso arrebatador do primeiro, sofreu de alguns problemas de produção herdados do filme anterior: A visão intransigente do diretor Richard Donner –na verdade, responsável direto pela excelência até hoje flagrante daquele filme –encontrou a oposição dos produtores Alexander e Ilya Salkind, que se ressentiram de não poder opinar no resultado final. Como conseqüência disso, Donner foi afastado do segundo filme que já estava previsto durante as filmagens do primeiro (algumas cenas eram feitas simultaneamente), e cujo gancho narrativo se percebia já nos primeiros minutos de duração do filme original: Quando Jor-El (Marlon Brando) captura Zod (Terence Stamp) e seus asseclas e usa a tecnologia da Zona Fantasma para aprisioná-los.
Tendo Donner realizado cerca de 60 % do segundo filme, restou ao operário padrão Richard Lester concluir o projeto com um estilo burocrático e superficial que contrasta com a direção cheia de personalidade de Donner (não coma mosca, basta ficar atento às cenas com Gene Hackman, pois o ator deixou a produção quando Donner foi afastado!).
Nesta sua segunda aventura cinematográfica, Superman precisa assim enfrentar os três kryptonianos refugiados de seu planeta natal –libertados da Zona Fantasma por uma bomba nuclear que o próprio Superman se vê obrigado à arremessar no espaço na espetacular cena que abre o filme –e que, portanto, têm os mesmos poderes que ele. São eles, Ursa (Sarah Douglas), uma mulher fria e cruel; Non (Jack O’ Halloran), um brutamontes silencioso e amedrontador, e seu líder, o já citado General Zod (que Terence Stamp interpreta com vigor incomum), um bandido sanguinário e impiedoso que jurou vingança contra Jor-El e seus herdeiros.
Por uma alarmante ironia proporcionada pelo primorosamente bem ajustado roteiro escrito por Mario Puzo, David e Leslie Newman esses vilões chegam ao planeta Terra, dispostos a conquistá-lo exatamente quando o próprio Superman, usando os maquinários kriptonianos à disposição na longínqua Fortaleza da Solidão, abdica de seus poderes para finalmente consumar seu amor por Lois Lane (Margot Kidder).
Tão esmerado como cinema quanto a obra anterior e ainda mais elaborado como aventura, este segundo filme protagonizado por Christopher Reeve, apesar dos problemas que lhe acarretaram uma vaga oscilação em ritmo e tom, ainda é uma realização de primeira.

A ausência de Richard Donner só seria mesmo sentida (dolorosamente sentida) no filme seguinte, o pouco memorável “Superman 3”, este sim inteiramente realizado por Lester.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Superman - O Filme

Décadas antes das adaptações de histórias em quadrinhos virarem febre em Hollywood, houve um projeto –hoje, envolvido em merecida roupagem lendário –visto como algo arriscado: A intenção do produtor Ilya Salkind, em levar para as telas, ainda no fim dos anos 1970, uma versão cinematográfica do Superman.
Esse objetivo esbarrava num obstáculo técnico: Como mostrar, com absoluto realismo o personagem voando pelos céus?
A despeito desse problema –um pouco parecido com a dúvida ocasionada décadas depois, de como fariam, o Homem-Aranha se balançar em prédios de modo plausível, no filme de Sam Raimi –Salkind fez dessa expectativa uma das maiores armas do marketing da produção; a frase “Você vai acreditar que o homem pode voar!” foi muito difundida naquele período.
Tudo deu certo porque o produtor escolheu o diretor Richard Donner para o projeto. E Donner, conhecedor dos meandros cinematográficos, cercou-se de um time de primeira em frente e atrás das câmeras: Em especial, o diretor de fotografia de “2001-Uma Odisséia No Espaço”, Geoffrey Unsworth, a trilha sonora de John Williams (imediatamente transformada num ícone), e o roteiro de Mario Puzo (o mesmo de “O Poderoso Chefão”).
O grande acerto de Donner, contudo, foi no elenco –não somente nas presenças incrivelmente renomadas, como Gene Hackman ou Valerie Perrine, mas, acima de tudo, na escolha audaz e inigualável do inglês Christopher Reeve para viver o personagem principal.
O resultado: Uma versão que dificilmente será superada.
Ignorado pelas autoridades maiores de seu planeta Krypton, o cientista Jor-El (Marlon Brando, como sempre espetacular) alerta-os em vão de que o sol vermelho em torno do qual orbitam está prestes a explodir levando Krypton com ele.
Decidido a salvar a vida de seu único filho, o pequeno Kal-El, mesmo que em sacrifício da sua própria vida e a de sua esposa, Lara (Susannah York), Jor-El o coloca numa nave e o envia a um planeta chamado Terra, no qual os intensos estudos de Jor-El revelaram que o organismo de Kal-El cresceria forte, quase indestrutível, devido aos raios de seu sol amarelo.
Após a destruição de Krypton –uma cena filmada com extrema propriedade e valor artístico –e a longa jornada através do espaço sideral, o bebê kriptoniano enfim chega à Terra, onde é adotado pelo casal de fazendeiros, Jonathan (Glenn Ford) e Martha Kent (Phyllis Thaxter), que não têm filhos. Anos depois, já adulto e com o nome de Clark Kent (vivido nesta fase por Jeff East), ele parte para viajar o mundo e descobrir quem é, tendo como única pista um fragmento de cristal vindo de seu mundo. Isso o leva ao pólo norte onde é criada a Fortaleza da Solidão –uma espécie de templo tecnológico nos moldes das estruturas que existiam em Kripton, dentro do qual depoimentos e mensagens deixadas por seu pai, Jor-El, elucidam toda sua origem.
Clark (finalmente interpretado por Christopher Reeve, a personificação definitiva do personagem) então passa a morar em Metrópolis, sob a identidade de um pacato (e excessivamente aparvalhado) repórter do Planeta Diário, enquanto ocasionalmente assume a identidade de Superman, como o protetor maior do planeta que o acolheu, usando para isso seus assombrosos poderes kriptonianos, como a capacidade de voar, a invulnerabilidade e a superforça.
Não bastasse o cuidado assombroso com que moldou a história, o diretor Donner pontuou seu filme com momentos absolutamente antológicos que se sucedem quase sem parar: A destruição assombrosa de Krypton; a corrida do herói, ainda adolescente, para alcançar o trem; a primeira e espetacular aparição no salvamento do helicóptero em queda livre; a entrevista algo íntima com Louis Lane (Margot Kidder), impregnada de romantismo; a angustiante cena com a krytonita; o extraordinário salvamento de um trem –onde o herói serve de ponte no lugar dos trilhos caídos –e muitos outros!
É até possível aceitar o ator Henry Cavill como a mais nova personificação do herói, mas ele dificilmente conseguirá convencer as gerações que puderam ver Christopher Reeve voar.

sábado, 24 de junho de 2017

Mississipi Em Chamas

Pense nas melhores atuações da carreira de Gene Hackman. Pense no mais tenso filme policial. No mais brutal retrato do racismo. Agora coloque tudo em um só filme. Foi isso que o diretor Alan Parker basicamente fez neste antológico “Mississipi Em Chamas”.
Durante os anos 1960, nas rigidamente segregadas comunidades sulistas do Mississipi, três jovens estudantes idealistas (dois brancos e um negro) são assassinados. Para solucionar o caso que esbarra diretamente no predominante racismo local são designados dois agentes do FBI, um jovem e comprometido com as leis, as autoridades e a ética (Willen Dafoe, num trabalho admirável), e outro veterano, acostumado aos meandros nem sempre corretos, necessários para resolver um crime (Gene Hackman, estupendo).
Os dois batem de frente com a corrupção vigente no sistema local (e que, em função da natureza dos homicídios, revela-se um obstáculo ainda maior para o cumprimento da lei), com a complexidade da elucidação do que exatamente ocorreu e com a forte segregação sulista que não raro desemboca em ocorrências violentas.
Concebido nos anos 1980 –época provavelmente do auge criativo do diretor –e amparado numa alarmante história real (a partir da qual a produção elaborou um trabalho com poderosas inclinações de um cinema à moda antiga), este filme policial mostra-se brilhante nos mais diversos aspectos, a começar pelo fenomenal contraponto entre a interpretação de Gene Hackman e a caracterização bastante dedicada de um ainda jovem Willem Dafoe.
Em meio às imagens vigorosas captadas pela fotografia magistral (ganhadora do Oscar), o diretor Parker registra então uma série de embates: O novo contra o antiquado (e, em sua orientação de propósito, ele parece beneficiar a eficácia dos veteranos), a segregação contra a conciliação, a violência contra a racionalidade, enfim, a lei contra o crime.
Podem argumentar que existe uma série de opções de ordem demagógica que norteiam sua realização (sobretudo, no que diz respeito ao desfecho bem-sucedido das investigações oposto ao que aconteceu na realidade), mas não há como questionar a excelência cinematográfica que é atingida aqui.