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quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Arnold


 Tornado uma minissérie pela Netflix, que o divide em exatos e bem delineados três episódios, este documentário faz a alegria dos fãs de Arnold Schwarzenegger ao dar-lhe voz e oportunidade para contar os inúmeros percalços de sua incomum trajetória de vida. Em ordem relativamente cronológica –e contando, claro, com os providenciais depoimentos de pessoas, algumas famosas, presentes em sua trajetória –o documentário começa na Áustria, onde Arnold relembra a infância na distante localidade de Thal, junto do irmão mais velho, do pai e da mãe, e da sensação incômoda de enxergar-se preso num vilarejo medíocre sem escapatórias. Da convivência com o irmão, Arnold conta que herdou a competitividade, sempre muito incentivada pelo pai, contudo, não tardou ao jovem Arnold vislumbrar uma vida fulgurante fora da Áustria e, para isso, ele dedicou-se, desde muito novo ao fisioculturismo, a despeito da ocasional desaprovação paterna. O primeiro episódio incumbe-se, basicamente, de relatar essa primeira parte da vida de Schwarzenegger; e a forma com que ele tornou-se mundialmente conhecido: Ele conta sobre a primeira vez em que assistiu “Hércules” no cinema, interpretado pelo fisioculturista Reg Park, seu ídolo. O mesmo Reg Park que, anos depois, ele mesmo encontra quando já vivenciava os primeiros passos de sua própria carreira no fisioculturismo; curiosamente, o próprio Arnold interpretaria, anos depois, o mesmo personagem em “Hercules In New York”, numa experiência que ele mesmo confessa ter sido lamentável. Migrando para a América –para onde ele sempre alimentou o sonhou de ir –Arnold passa a treinar com Joe Weider na Califórnia e, a medida que avança a década de 1960 e a de 70, seu status e sua fama como fisioculturista vão crescendo a ponto dele vencer treze competições seguidas!

No segundo episódio, talvez o mais significativo para muitos dos expectadores de Schwarzenegger, ele revela que, como fisioculturista, havia sentido que chegara no limite –não haviam mais metas a serem superadas e ele queria mais. Foi seu fascínio pelo cinema, e a vontade de lá sagrar-se um astro que o atraiu aos filmes. No entanto, como é comum acontecer, ele enfrentou oposições e dificuldades. Muitos foram os que implicaram com seu sotaque austríaco, de difícil entendimento (ele logo foi atrás de aulas de atuação e dicção), com seu físico avantajado, inapropriado para protagonistas identificáveis com o público de então, e com seu perfil, nada relacionado ao de John Wayne (ainda o astro de cinema por excelência daqueles tempos, fim dos anos 1970), além da sempre ranzinza reprovação da crítica.

Foi pouco a pouco, projeto a projeto, que Arnold foi vencendo essas barreiras: Primeiro com o filme “Stay Hungry”, dirigido por Bob Rafelson, com Jeff Bridges (hoje raríssimo), num protagonista escrito especialmente para um fisioculturista, depois com o documentário “O Homem dos Músculos de Aço” e então, já na década de 1980, com o protagonista do épico “Conan-O Bárbaro” no qual, embora tenha inicialmente desagradado o produtor Dino DeLaurentis, teve a sorte de contar com o apoio irrestrito do diretor John Milius.

Em 1984, ao ter, junto do diretor James Cameron, a inspiração iluminada para interpretar o andróide antagonista de “O Exterminador do Futuro” –a ideia inicial era Arnold interpretar o herói, Kyle Reese –Schwarzenegger ingressou definitivamente no cinema, no mesmo período em que desposou sua namorada, Maria Shriver, membro da Família Kennedy.

As produções seguintes refletiram, em grande medida, uma curiosa rivalidade com outro astro do período, Sylvester Stallone (cuja vida foi retratada, por sua vez, no documentário “Sly”). Foi graças à presença desse adversário, Arnold reconhece, que ele empenhou-se em filmes que, com o tempo, passaram a redefinir o cinema comercial norte-americano do período: “O Predador” –premissa nascida de um comentário em Hollywood segundo o qual “Rocky” haveria de lutar contra algum alienígena num projeto vindouro ; “Irmãos Gêmeos” –ideia surgida de um encontro com o diretor Ivan Reitman, onde Arnold almejou, por meio de uma comédia, atender novas demandas de seu público; e, já nos anos 1990, “Exterminador do Futuro 2”, quando testemunhamos um comentário profético de uma apresentadora de TV da época ao afirmar que, ao interpretar um andróide ‘do bem’ nessa continuação, Arnold parecia estar de olho numa provável carreira política (!).

A década de 1990, ainda trouxe o eventual fracasso de “O Último Grande Herói”, o que levou Arnold a correr atrás do prejuízo com as realizações de “True Lies” –refilmagem do filme francês “La Totale” que ele mesmo recomendou à James Cameron –e a comédia “Júnior”. Contudo, já ao fim da década de 1990 (e tendo passado por uma cirurgia cardíaca que o deixou um ano sem filmar), Arnold entregou uma série de produções genéricas, ainda que indicativas de seu status inconteste de astro cinematográfico –o terror “Fim dos Dias”, e as produções de ação “Efeito Colateral” e “O 4º Dia”.

Como no fisioculturismo duas décadas antes, Arnold sentia que havia chegado num auge profissional e que nada restava a ele, exceto se repetir. Era o momento de seguir em direção à outro desafio, outra jornada.

É assim que, no terceiro episódio, testemunhamos Arnold Schwarzenegger se lançar numa das mais arrojadas manobras de sua carreira e de sua vida: A candidatura para governador do estado da Califórnia. Ainda no turbilhão da divulgação de “Exterminador do Futuro 3-A Ascensão das Máquinas”, ele é assaltado por eventuais impressões acerca de sua capacidade para fazer a diferença no estado das coisas, sobretudo, na catastrófica administração do então governador Gray Davis, alvo de um descontentamento tal entre os eleitores que estava em votação a sua remoção do cargo. Diante de uma certa apreensão da parte de sua esposa –afetada, afinal, pela trágica trajetória política que perseguiu praticamente todos os membros de sua família –Arnold confirma sua candidatura em rede nacional, no programa do entrevistador Jay Leno, e dá início à um circo caótico e midiático que se estenderia pelo ano de 2003. Eleito governador (mesmo diante de uma súbita polêmica envolvendo denúncias de assédio sexual ocorrido décadas antes desenterradas pelo The Times), Arnold enfrenta altos e baixos na sua administração enquanto tenta (e muitas vezes consegue) implantar políticas de reformulação, leis tributárias empacadas no senado (impulsionadas por um esforço inédito de colher assinaturas dos contribuintes), conciliar equipes antagônicas de membros democratas e republicanos, e conter (entre outros contratempos) os terríveis incêndios de Los Angeles em outubro de 2007, quando foi decretado estado de emergência em sete municípios.

No decurso desse período como governador –durante o qual experimentou uma reeleição –ele também teve seu casamento com Maria Shriver desfeito pela descoberta de uma infidelidade com uma governanta, anos antes, da qual o fruto foi seu filho, Joseph Baena. Arnold não se furta de comentar, lamentar e pedir desculpas por essa passagem em sua vida, embora não deixe de reiterar o amor pelo filho e por toda sua família.

“Arnold” é um documentário bastante lúcido e explicativo acerca da espetacular jornada de vida desse astro formidável do entretenimento, e suas incisivas considerações do alto de seus 75 anos de vida. Até pela personalidade pouco afeita à dramatizações de seu biografado, é uma obra cheia de objetividade e clareza (o documentário sobre Stallone, por exemplo, reserva mais emoção e melancolia ao expectador), ainda que vez outra, se permita algumas pequenas omissões em aspectos mais espinhosos de sua história.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

O Demolidor


 Nas décadas recentes, surgiu uma espécie de listagem, na internet, apontando todos os tópicos em que esta ficção científica de ação lançada em 1993 conseguiu acertar acerca de como supostamente o ‘futuro’ seria. Tal precisão notável, não provém, de forma alguma, do quanto o filme se propôs sério, nem tampouco profético, mas da curiosa e inesperada predisposição para a comédia que surge quase involuntariamente no roteiro, escrito entre outros, por Daniel Waters (o mesmo do cáustico, questionador e sarcástico “Atração Mortal”) –ao dar asas à imaginação e conceber um futurismo social aludido pelas improváveis considerações de autores como Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”) e George Orwell (“1984”), o roteiro de “O Demolidor” satiriza os indivíduos criados numa sociedade oriunda de regras progressivas sob um prisma politicamente correto que corresponde a muito do que se tornou corriqueiro nos dias de hoje. E isso, além do eficiente divertimento que ele promove, deu ao filme um improvável e surpreendente aspecto profético.

No ano de 1996 –três anos, portanto, afrente do ‘presente’ no qual “O Demolidor” foi lançado –o policial John Spartan (Sylvester Stallone) e o bandidão Simon Phoenix (Wesley Snipes, ótimo), ainda que inimigos mortais e de lados opostos da Lei, são sentenciados a uma mesma e inovadora pena, a Crio-Prisão –graças à uma armação de Phoenix na qual seus reféns terminam mortos e Spartan, acusado. A Crio-Prisão trata-se de uma sentença futurista na qual criminosos condenados são congelados por criogenia, até que os anos da pena acabem passando e, ao final, são libertados, descongelados, e têm implantes de memória que os fazem se integrar com mais facilidade à sociedade.

Entretanto, no ano de 2032, quando uma fusão entre duas metrópoles cria a pacífica e utópica San Angeles –na qual o crime inexiste e, portanto, as forças policiais já não têm ideia de como lidar com ele! –o perigoso Simon Phoenix é tirado de sua animação suspensa e, dotado da fúria psicótica com a qual ficou conhecido, passa a promover um terror injustificado na pacata cidade. A saída para os perplexos e ineficientes policiais do futuro é descongelar o único homem que foi capaz de detê-lo no passado, o também condenado policial John Spartan.

Embora o filme dirigido pelo diretor Marco Brambilla não fique a dever aos fãs de Stallone no quesito cenas de ação, é na sua gaiata e divertida tentativa de adaptação àquele bizarro mundo futurista que a trama de “O Demolidor” mais parece se concentrar, e é nesses momentos que encontra um êxito mais nítido –a interação dele com a policial Lenina Huxley (a sempre maravilhosa Sandra Bullock, ainda desconhecida, numa personagem que leva o sobrenome de Aldous Huxley e o nome da protagonista de “Admirável Mundo Novo”, Lenina Crowne) é hilariamente deliciosa justamente pelo choque e contraste de comportamentos entre o jeito despachado, inofensivo e asséptico dela e das pessoas de 2032, e a atitude brucutu, mal-humorada e indignada de Spartan, absolutamente inconformado com os rumos tomados pelo futuro, no qual as pessoas são multadas automaticamente por falar palavrões (!), a comida se converteu numa dieta saudável, alienada e irredutível (alguém lembrou do movimento vegano?) e as maneiras minimamente ríspidas (que o diga a agressividade propriamente dita) foram abolidas.

Digno de encabeçar com facilidade qualquer lista dos melhores filmes de Stallone na década de 1990, “O Demolidor” oferece aos fãs tudo o que se pode esperar de um filme de Sylvester Stallone –ação bem conduzida e bem realizada, pancadaria e um enredo nítido e bem delineado da Lei contra o crime, o bem contra o mal –contudo, seu grande diferencial e a surpresa com a qual acometeu expectadores daqueles tempos vem do delicioso desmazelo de seu humor futurista e suas piadas que, por mais que pudessem soar fantasiosas até mesmo aos realizadores na época, terminaram antecipando alguns elementos hoje bem reais. Logo abaixo, uma singela lista de alguns tópicos que “O Demolidor” acertou em cheio na sua despreocupada sátira futurista:

-Pessoas buscando auto-estima (e outras soluções práticas da vida) nos recursos digitais.

-Reuniões virtuais feitas por home-office.

-A carreira política de Arnold Schwarzenegger (!).

-Comando ativado por voz em residências.

-Moeda digital.

-Comprimidos substituindo a alimentação comum.

-Telefones portáteis que acessam a internet.

-Carros elétricos autônomos.

-Leis antifumo.

-Polícia de pensamento (ou Patrulha Ideológica).

-Germafobia (ou o medo patológico de germes, a hipocondria crônica).

-Controle de armamento.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Sly


 Dirigido por Thom Zimny, este documentário da Netflix dá ao astro Sylvester Stallone a oportunidade de assumir a voz de sua própria narrativa de vida, não apenas jogando luz em várias facetas não muito conhecidas da trajetória dele, mas expondo os bastidores às vezes inusitados de muitas produções conhecidas, cobrindo com isso, pouco mais de quatro décadas de história do cinema norte-americano, por um ponto de vista muito específico.

Depoimentos de Arnold Schwarznegger, Henry Winkler, Quentin Tarantino e outros ajudam a temperar esse material com observações bem-humoradas e, não raro, cheias de admiração.

Stallone começa relembrando sua infância, nascido no bairro nova-iorquino de Hell’s Kitchen, e mudando de cidade mais tarde quando seus pais se divorciaram; Stallone foi criado pelo pai, enquanto seu irmão, Frank, foi criado pela mãe –nesse trecho, o astro não se furta de revelar os primeiros esboços da violência doméstica exercida pelo pai que, em inúmeros aspectos, viria a interferir em seu trabalho e em sua arte.

Logo, segue-se a vontade de se tornar ator, incentivada por professores que notaram sua inclinação às artes cênicas e até mesmo um certo anseio por ser adorado pela plateia. Com isso em mente, Sly –como é chamado por amigos –regressa para Nova York, onde enfrenta várias dificuldades; seu biotipo era propício somente para interpretar brutamontes e vilões de quinta categoria nas produções de então. Um dos poucos momentos em que obtém trabalho foi no hoje cult-movie “Os Lordes de Flatbush”, foi durante aquelas filmagens que Sly descobre um pendor incomum para improvisar e criar em cena –ele não apenas era capaz de atuar, mas de escrever também. Curiosamente, o documentário omite completamente o famigerado início de carreira em que Stallone flertou com o universo underground cinematográfico no pornô “O Garanhão Italiano”.

Numa outra decisão súbita e radical, Sly arrisca tudo para empreender uma viagem até a Costa Leste, até Hollywood, em Los Angeles, a fim de obter emprego no cinema, no entanto, também lá a discriminação inicial com seu físico avantajado lhe faz perder mais oportunidades do que obtê-las. Até ele decidir trilhar seu próprio caminho: Escrever pessoalmente o filme que iria estrelar.

O roteiro de “Rocky-O Lutador” surge da influência do clássico instantâneo, “Caminhos Perigosos”, de Martin Scorsese, mesclado às lembranças de “Sindicato de Ladrões”, com Marlon Brandon, que Sly tanto assistiu na juventude, quando se refugiava da intolerância paterna nas salas de cinema. Ele precisou, porém, de muita tenacidade para suportar a pressão e as propostas que lhe ofereciam para que vendesse o seu roteiro, sem que ele fosse escalado como protagonista.

Após uma longa e penosa jornada, o filme é realizado e –com a vitória espetacular no Oscar 1977 –Stallone, enfim, se sagra como um astro de cinema. Ainda assim, seus contratempos não haviam acabado: Se Stallone havia atingido o topo, certamente, seria ainda mais desafiador tentar manter-se lá nos anos seguintes.

Ao sucesso de “Rocky” seguiu-se a recepção algo duvidosa do esforçado ainda que limitado “F.I.S.T.”, de Norman Jewinson, e o pouco visto e ainda menos memorável “Paradise Alley”, escrito, dirigido e produzido pelo próprio Stallone, o sucesso só voltou a brilhar sobre ele quando assumiu as rédeas para realizar a aguardada continuação “Rocky II-A Revanche”. Já eram então os anos 1980, e além da série “Rocky”, Stallone viu-se transformar num dos emblemáticos heróis de ação do período, quando resolveu desempenhar o papel principal em “Rambo-Programado Para Matar”, inicialmente, um suspense de ação sobre as celeumas existenciais do Vietnam, no qual Stallone, sem saber, acendeu um estopim para uma nova franquia ao repudiar o final original, onde o personagem se suicidava. Ao protagonizar as novas e turbinadas aventuras de Rambo (que Stallone interpretou, pelo menos no primeiro filme, com as neuroses domésticas de seu pai, veterano da Segunda Guerra Mundial, em mente), Sly entrou para o mesmo time de Schwarzenegger (com quem por um tempo ele manteve uma notória rivalidade), Jean Claude Van Damme e outros, como um dos grandes astros da ação e da pancadaria da década de 1980.

Ele até tentou diversificar, sobretudo nos anos 1990, quando flertou com a comédia com resultados improváveis (“Oscar-Minha Filha Quer Casar”) ou simplesmente vergonhosos (o vexaminoso “Pare, Senão Mamãe Atira!”), filmes de ação ligeiramente diferenciados (“O Demolidor”, com uma ainda jovem Sandra Bullock) e ao menos uma grande obra elogiada pela crítica, mas pouco vista pelo público (o hoje quase desconhecido “Cop Land”),contudo, pouco mudou o fato de que, ao longo de sua carreira, os fãs queriam vê-lo fosse como Rocky, ou Rambo, ou como algum outro herói de ação.

Após um hiato de alguns anos –quando seus filmes estagnaram e ele ficou um tempo sem aparecer nos cinemas, trecho que o documentário também parece respeitosamente contornar –Sly voltou às telonas com “Rocky Balboa”, o sexto filme da série. Se o primeiro e o segundo filmes eram uma mesma história de amor e perseverança a envolver um personagem no qual Sly derramou muito de si, o terceiro e o quarto, nos anos 1980, eram sobre os excessos de auto-afirmação da Era Reagan, e o quinto uma tentativa falha e pouco convincente (ainda que, ao meu ver, válida) de voltar às origens, então, o sexto filme de Rocky era uma forma de Stallone se enxergar na árdua adaptação aos novos tempos, ao fato de que a idade havia o alcançado, e de como lidar com a inexorável passagem do tempo.

Ficamos sabendo também de sua insistência em ainda manter o personagem Rambo vivo ao final de “Rambo-Até O Fim” e das severas complicações físicas enfrentadas por ele durante as filmagens de “Os Mercenários”, franquia mais recente que resgatou a memória dele e de outros grandes astros da ação do passado.

Aos fãs incondicionais de Stallone, “Sly”, o documentário pode representar uma obra imperdível e emocionante, aos expectadores menos engajados, ainda é um trabalho sempre interessante sobre as histórias de bastidores do cinema na qual, por uma questão muito particular, somos convidados a conhecer a mente, os anseios, os altos e baixos de uma celebridade com uma proximidade rara, e sermos surpreendidos por sua inesperada história de vida a envolver talento, obstinação e resiliência.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Guardiões da Galáxia Volume 3


 Já dissera Tony Stark (Robert Downey Jr.) em “Vingadores-Ultimato”: O fim faz parte da jornada. Pois é exatamente isso que vem reiterar este terceiro volume da trilogia concebida por James Gunn, também ela dentro do Universo Marvel Cinematográfico, cujo mérito maior talvez seja o de ter provado, perante toda a indústria, que sim, personagens outrora obscuros e absolutamente desconhecidos, quando tratados com refinamento, talento e uma equipe competente à frente e atrás das câmeras podem converter-se em ícones pop de tanto ou mais sucesso que os personagens já famosos e estabelecidos. “Volume 3” representa, em inúmeros aspectos, o fim da jornada. É o fim dessa equipe que conduziu fãs e expectadores casuais pelos recônditos do espaço sideral do MCU, e é, acima de tudo, uma despedida do próprio James Gunn à esses personagens –aos quais ele não deixa de declarar em cada instante de filme um amor incondicional –prestes à assumir a importante função de chefe da DC Studios, concorrente da Marvel.

Para tanto, vindo todos esses personagens de dois longa-metragens anteriores –e da expressiva participação em pelo menos outros dois filmes dos “Vingadores” –“Volume 3” acaba tendo assim muitas pontas soltas para unir. Existe, por exemplo, a situação romanticamente incerta entre Peter Quill (Chris Pratt) e Gamorra (Zoe Saldana), ela assassinada por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita”, mas, tendo retornado como uma versão alternativa (e nada benigna) de si mesma de outra realidade –e, portanto, sem qualquer vínculo com a equipe que antes virou sua família e sem qualquer memória do romance que construiu, aos trancos e barrancos, com o apaixonado Quill; há também a situação de Adam Warlock (Will Poulter), ser poderoso ainda que ingênuo, criado pela alienígena Ayesha (Elizabeth Debicki), como nos foi mostrado numa das cenas pós-crédito do “Volume 2”, com o intuito inicial de vingança contra os Guardiões da Galáxia. Mas, acima de tudo, há Rocket Racoon (voz de Bradley Cooper), o guaxinim humanóide e cibernético que, ao lado do homem-árvore Groot (voz de Vin Diesel), é um dos personagens favoritos dos fãs desde o primeiro filme. James Gunn foi providencial ao reservar toda a triste e dolorosa história de origem de Rocket para este último capítulo: É seguro afirmar, Rocket é o coração de “Guardiões da Galáxia-Volume 3”.

Sua história –contada em pontuais flashbacks que revelam sua criação pelas mãos do cruel, detestável e poderoso Alto-Evolucionário (Chukwudi Iwuji, num dos mais odiosos vilões da Marvel) –é de uma tristeza, uma angústia e um desamparo que chega a espantar quem está habituado à galhofa e ao humor constante de James Gunn. Mal dá pra acreditar que um personagem praticamente gerado por computador em sua íntegra seja capaz de comover de tal maneira. Rocket precisa de ajuda. Para salvá-lo, os Guardiões da Galáxia –que, mais que um grupo, se consolidaram praticamente como uma família –formados por Quill, Nebula (Karen Gillan), Drax (Dave Bautista), Manthis (Pom Klementieff) e Groot, partem, de seu reduto em Luganenhum, para a Contra-Terra, planeta-laboratório onde o Alto-Evolucionário conduz seus experimentos atrozes brincando de Deus com a vida de incontáveis criaturas inocentes, tendo uma delas sido Rocket, no passado.

Contudo, o tempo mostrou que Rocket é mais do que um experimento imperfeito como seu criador acreditava: Sua inteligência evoluiu, diante da necessidade de viver e de sobreviver, tornando-o algo mais do que o Alto-Evolucionário almejava. Agora, porém, ele quer Rocket de volta, pois, na ânsia de trilhar o caminho de sonhou, apesar de todas as suas perdas e decepções, Rocket foi capaz de evoluir –e o Alto-Evolucionário não sabe como ele o fez, nem como repetir isso em suas outras criações; só sabe que irá dissecar cada fibra de Rocket para descobrir.

No caminho para tentar salvar a vida de Rocket –infectado por uma espécie de vírus plantado nele por Adam Warlock num ataque –os Guardiões da Galáxia, obviamente, vão se cruzar com Gamorra, agora aliada aos Saqueadores, piratas espaciais liderados por Stakar (Sylvester Stallone, numa ponta de puxo), cujos laços com Quill (como namorada) e com Nebula (como irmã) podem, quem sabe, serem restaurados nesse percurso.

É claro que, sendo este o alardeado Volume Final, espera-se deste filme, sobretudo, em sua parte final, as imprevistas guinadas definitivas que haverão de selar o desfecho da maior parte dos personagens (e a Marvel Studios já se provou capaz de fazê-lo com emoção e contundência em “Ultimato”) e, possivelmente, até mesmo uma morte impactante a marcar este como o encerramento da história que começou no primeiro filme. Hábil, travesso e inteligente, James Gunn –em estado de graça, seja no roteiro, seja na direção –brinca, inclusive, com isso o tempo todo. Ele nos leva de uma emoção à outra, saltando com inédita e elevada habilidade do casual e confortável bom humor à emoção incontida e inebriante, e revela, neste terceiro trabalho com os Guardiões, uma nova faceta: A capacidade de realizar uma obra inesperadamente tensa.

Elaborado com a usual e reconhecida profusão de efeitos visuais que a Marvel Studios habitualmente entrega, e para tanto, dono de uma amplitude técnica invejável, “Guardiões da Galáxia-Volume 3” tem uma trama recheada de idas e vindas frenéticas, ora divertidas, ora atordoantes, e vale-se brilhantemente do fato –um trunfo sem igual para a Marvel –de que já conhecemos esses personagens, nos importamos com eles, sentimos com mais empatia e eficácia suas agruras e lamentamos com muito mais autenticidade suas tristezas, e isso faz com que sua última aventura seja, afinal, uma despedida nossa também. Uma emoção verdadeira, da qual partilhamos com imenso prazer.

Obrigado pela aventura, Guardiões.

segunda-feira, 21 de março de 2022

Stallone Cobra


 Em meados de 1986, Sylvester Stallone era um dos astros cotados para participar do projeto “Beverly Hills Cop” –“Um Tira da Pesada” que terminou estrelado por Eddie Murphy –e, como sempre foi habitual ao processo de trabalho de Stallone, ele acrescentava suas próprias ideias ao conceito, talvez para melhor adequar cada trabalho à sua personalidade como ator e, sobretudo, à sua persona como astro.

Não tendo dado certo a negociação com “Beverly Hills Cop”, Stallone acabou aproveitando as ideias que teve neste “Stallone Cobra” que novamente o reuniu ao diretor George P. Cosmatos que o tinha dirigido no bem-sucedido “Rambo 2”.

Entretanto, as referências, as personalidades dos envolvidos ou mesmo as origens desiguais do projeto não chegam a dar uma ideia da peculiaridade de “Stallone Cobra” –trata-se de uma obra cuja história passa completamente à parte do mundo real. Se Rambo era o exército de um homem só que ganhava sozinho a Guerra do Vietnam, Marion Cobrette (esse é o nome do personagem de Stallone!) é o policial sem obstáculos ou impedimentos que promove uma limpeza indiscriminada na criminalidade.

“Você é uma doença, eu sou a cura” diz ele para um meliante logo na cena que inicia o filme.

Agente da Lei numa metrópole  suja, perniciosa e afundada em crime, Cobrette, ou Cobra como prefere ser chamado, é um policial truculento, de poucas palavras e de ações que, se nos anos 1980 de então, pareciam empolgantes aos olhos de seu público, hoje soam absurdas de tão politicamente incorretas –numa cena bastante sintomática do estilo brutucu do cinema de ação da época, Cobra bate com seu porsche estiloso na traseira do carro de um vizinho latino de seu apartamento. O homem, indignado, tenta lhe tirar satisfações. E Cobra, bronco que só ele, lhe rasga a camisa que usava. Na caracterização que recebe (de alguém petulante, desleixado e marginal), o imigrante latino não precisa sequer ser o responsável pelo delito (quem o fez foi o próprio herói!) para ser o saco de pancadas em cena.

A trama de “Stallone Cobra”, que segue adornada por momentos dessa orientação, mostra Cobra seguindo as pistas do que parece ser um serial-killer e, de novo, a narrativa parece ir na contramão do usual e, por que não, do lógico –são, na realidade, os colegas e parceiros de Cobra quem de fato fazem o trabalho árduo, à ele cabe a pose, as frases feitas e os momentos de diversão, como distribuir bordoada nos outros e arregaçar as mangas para agir. É quase o extremo a que se pode chegar a mentalidade algo republicana do cinema da era Reagan: Um herói completa e declaradamente despido de sutilezas, carregando em si o discurso da ação em detrimento da reflexão. E os que são opostos à sua atitude são assim tratados como empecilhos irritantes e coadjuvantes dignos de antipatia. Nas últimas consequências a que essa postura é levada aqui –pois em “Rambo”, digamos, isso foi tratado com bem mais requinte e convicção –o protagonista concebido dentro desses paradigmas agrega uma involuntária aura cômica: Cobra faz lembrar, a sua maneira, o Inspetor Clouseau da série “A Pantera Cor-de-Rosa” (!), um personagem insípido, vaidoso e iludido na sua inexistente competência que, entre trapalhadas, arroubos e floreios acaba deixando o trabalho de fato para os outros ao seu redor.

É o que acontece: Lá pelas tantas, o serial-killer em questão acaba ganhando uma testemunha ocular para suas ações, a modelo fotográfica Ingrid (Brigitte Nielsen, então casada com Stallone). Na estruturação previsível do roteiro, Ingrid não é somente a peça irrisória que faz a narrativa avançar para algum lugar; ela é, também, um interesse romântico do herói plantado da forma mais desavergonhada possível! E nem mesmo nesse quesito o roteiro parece saber o que fazer: No enredo que assim se constrói, não existem situações por meio das quais Cobra e Ingrid criam um relacionamento. Ela é colocada num programa de proteção às testemunhas, sob a proteção do pra lá de taciturno Cobra e, embora o enlace amoroso lá pelas tantas aconteça por imposição do roteiro, mal trocam uma ou duas palavras (!).

São convenções que só enrolam o filme até chegar onde ele realmente quer: Eis que então descobrimos, num dado ponto, que o serial-killer em questão (interpretado por Brian Thompson) é, na realidade, o líder de uma ceita de serial-killers –e, com isso, Cobra, nosso herói implacável, tal qual Rambo antes dele, ganha todo um exército para poder dizimar sozinho no megalomaníaco e apoteótico desfecho!

Se um dia “Stallone Cobra” foi um filme levado à sério –e creio que na década de 1980 houve, sim, quem tivesse levado o filme muito à sério! –hoje em dia, assisti-lo é uma experiência de rachar o bico: Em sua truculência contextualizada com desleixo, em sua falta de noção completa e, sobretudo, nos erros crasos de realização que o tempo transformou em divertidas preciosidades de uma mentalidade antiquada, a produção de Stallone e Cosmatos acaba resultando tão ou mais hilária do que a grande maioria das comédias assumidas feitas no mesmo período.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Rambo III


 Tendo causado certa surpresa com a premissa até certo ponto original do primeiro filme (o cinema de ação norte-americano, na época, estava ainda a tatear suas próprias características) e arrebatado o público com uma mudança de tom do personagem na megalomaníaca e bem-sucedida segunda produção, a série “Rambo”, na chegada de seu terceiro longa-metragem, já havia caído nas graças da plateia. Com efeito –como costuma ocorrer em inúmeras trilogias –foi nesse terceiro filme que a pressão das altas expectativas do público se fez sentir.

Se em “Rambo I”, o personagem de Stallone empreendeu um catártico acerto de contas com as mazelas existenciais da sociedade norte-americana (relacionadas ao Vietnam) e, no segundo, lançou-se numa batalha ainda mais emblemática e despida de sutilezas contra o próprio Vietnam, em “Rambo III”, tendo exaurido as possibilidades dessa questão, o contexto sócio-político da nova trama voltou-se para um conflito mais atual: A situação dos rebeldes do Afeganistão, colhidos num fogo cruzado de ideologias entre os EUA e a União Soviética que remetia aos interesses da Guerra Fria de então. Esse detalhe, torna “Rambo III” estranhamente significativo –trata-se de um dos pouquíssimos trabalhos dentro do cinema hollywoodiano a tratar desse período da Guerra do Afeganistão –assim como, hoje, brutalmente anacrônico –é pois, de uma ironia atroz que, naquele final dos anos 1980, os russos (sempre eles) sejam colocados como vilões e, por consequência, os rebeldes insurgentes do Afeganistão (que eram então armados pelo próprio governo dos EUA) sejam retratados como guerreiros honrados e desejosos de justiça.

É uma moldura que, na opinião dos realizadores, traz profundidade e seriedade ao filme, entretanto, acrescenta muito pouco na opinião do público indiferente que foi ao cinema conferí-lo. Nesse sentido, a notícia de que Stallone fizera 100% das cenas de ação sem nenhum dublê pesou muito mais na campanha de marketing.

A terceira aventura do soldado-símbolo da Era Reagan começa com John Rambo exilado numa espécie de mosteiro, buscando fugir de seus fantasmas a exemplo do que ele dera a entender em seu discurso ao final de “Rambo II” –essa filosofia, contudo, não o impede de ingressar num torneio de lutas brutais com vidro quebrado colado às luvas da mão, na cena que abre o filme. Assim, Rambo é mais uma vez procurado pelo Coronel Trautman (Richard Crenna) que, como antes, requisita suas, digamos, habilidades: Ele quer que Rambo participe de uma incursão no Oriente Médio, onde ele e outros soldados norte-americanos devem ajudar os afegãos em sua luta contra os invasores soviéticos. No entanto, Rambo não deseja envolver-se em mais guerras e recusa o pedido, obrigando Trautman a agir por conta própria. Mas, durante a dita operação, o outrora mentor de Rambo acaba capturado pelos inimigos. Com o amigo prisioneiro, resta à Rambo fazer algo que não queria: Envolver-se em mais um conflito.

Ele vai, assim, ao Afeganistão –onde uma miríade de coadjuvantes francamente desinteressantes e discursivos aparecem –com a intenção de encontrar Trautman e livrá-lo do jugo dos vilões e, como no segundo filme, acaba lutando (e vencendo!) pelos EUA toda uma guerra que, até então, eles não conseguiam vencer.

Contudo, na única consideração que o filme parece deixar bem clara, os novos  conflitos políticos e bélicos do Século XX (e que adentrariam com ainda mais complexidade o Século XXI) não se revelam tão preto no branco quanto as guerras de antes –talvez, a guerra do Vietnam tivesse sido o último combate às claras da era moderna, pouco antes do surgimento de um novo tipo de guerra, na qual conceitos distintos, territoriais e existenciais moldaram inimigos invisíveis, não dotados de uma nacionalidade ou mesmo de um rosto, mas de um propósito sombrio e, com frequência, incompreensível. Refletir a esse respeito passa longe de qualquer intenção em “Rambo III” –ele é, quando muito, um filme de ação usual, como muitos que Stallone realizou e certamente infinitamente menos envolvente e eletrizante do que os dois primeiros filmes –e seus responsáveis estavam muito longe de serem capazes de profetizar o quanto irônico ele soaria algumas décadas depois quando os mesmos afegãos, aqui pintados como rebeldes amigáveis, exóticos e oprimidos, acabariam por gerar facções, milícias e  organizações como aquela que viria a deflagrar o atentado ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001.

Há, portanto, uma verdadeira coleção de inusitadas ironias a cercar “Rambo III” –o fato de que os rumos alheios e amargos da História o fizeram um retrato involuntário de uma circunstância com a qual o governo dos EUA equivocou-se por completo, pagando um alto preço por isso –mas, a maior delas é que, não fosse por isso, seria um filme banal e esquecível (possivelmente o mais fraco de toda a série) cuja eventual escolha de seu contexto o faz um dinossauro de curiosa observação aos olhos de toda uma nova geração de expectadores.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Rambo II - A Missão


 A continuação do filme singelo, incisivo e eficiente de Sylvester Stallone de 1982 –e cujo argumento, em sua sólida unidade, deixava pouca margem para uma continuação de fato –lançada em 1985, encontrou seu astro, numa fase já diferente de sua carreira, encontrou também uma plateia (em especial, a norte-americana) com uma mentalidade distinta  e, por fim, encontrou, na década de 1980, uma percepção de se fazer e consumir cinema que se distinguia da adotada por Ted Kotcheff no primeiro filme. Todos esses fatores levaram “Rambo II-A Missão” a tornar-se uma obra completamente diferente do filme que a originou, estabelecendo, para o bem e para o mal, os conceitos que passaram a definir o personagem, e com os quais foi inserido na cultura pop –e não à toa, é o mais cultuado e influente de toda a série.

Roteirizado por um iniciante James Cameron (já dando vazão à veia megalomaníaca que o definiria em ambiciosos projetos vindouros como diretor) e dirigido por George P. Cosmatos, com uma compreensão intrínseca do cinema de ação pancadaria do período, e bem pouco interessado no entendimento mais íntimo do personagem exercido por Kotcheff no filme anterior, “Rambo II” se inicia com John Rambo na penitenciária, a pagar por seus atos deflagrados no primeiro filme. Nessa situação, ele torna a ser procurado pelo seu mentor, Coronel Trautman (Richard Crenna), para uma missão na qual somente sua habilidade será capaz de dar conta: Rambo deve regressar às selvas do Camboja e tirar fotos dos combatentes norte-americanos ainda mantidos como prisioneiros pelos vietcongues. Naquela época, o governo Ronald Regan ainda insistia nos assim chamados M.I.A., Missing In Action, soldados não declarados como mortos em combate que supostamente estariam  em cárcere no Vietnam pós-guerra. Ao longo da década de 1980, muitos foram os filmes de ação pauleira (como “Braddock”) que usaram desse plot, gerando praticamente um sub-gênero.

Nesse sentido, “Rambo II” é a pedra fundamental do conceito –se o primeiro filme escancarava demônios pessoais ligados ao Vietnam presentes no subconsciente da sociedade norte-americana (ainda que a sutileza passe longe de qualquer postura), este segundo, vai de encontro aos anseios, vamos dizer assim, dessa mesma sociedade. A Era Reagan foi caracterizada por um enfrentamento espartano das mazelas americanas por meio de um ufanismo populista que contaminou sua cultura pop em geral e transformou Rambo, em particular, numa espécie de garoto-propaganda dessa mentalidade –não à toa, surgiu até mesmo uma série de desenho animado envolvendo o personagem (que no cinema, é bom lembrar, tinha características fatalistas e ambíguas, nada apropriadas a um protagonista infantil!).

Pois então, eis que, no decurso de sua missão, Rambo não se contenta em tirar as ditas fotos dos prisioneiros que, de fato, ele encontra presos no Vietnam; Rambo, na verdade, resgata um deles. O problema: Não era, necessariamente de interesse dos homens no comando da missão –como Murdock, vivido por Charles Napier, de “O Silêncio dos Inocentes” –que Rambo voltasse com algo mais do que meras fotos, que podiam ser varridas para baixo do tapete, caso a ineficiência do governo ficasse evidente. Diante dessas circunstâncias, Rambo é abandonado e recapturado pelos mesmos vietcongues que um dia enfrentou. E acaba submetido a novas torturas –nas mãos, inclusive de um coronel soviético interpretado por Steven Berkoff –até conseguir escapar e, sozinho, exterminar todo o exército de vietcongues, libertar seus compatriotas e levá-los de volta para casa, em suma, Rambo ganha a guerra, aos olhos de um público entretido e satisfeito de pirotecnia, que os EUA, anos antes, não foram capazes de ganhar.

Essa última sentença, no entanto, não resume de maneira adequada a segunda metade do filme: No cinema de ação que consolida, na excelência técnica verdadeiramente impecável das cenas que entrega, e no entusiasmo eletrizante que suscitou em toda uma geração, “Rambo II” é o “exército-de-um-homem-só” materializado em filme, mais até do que “Comando Para Matar”, com Arnold Schwarzenegger (um rival, por muito tempo reconhecido, de Stallone) ou “Duro de Matar”, com Bruce Willis, ambos à sua maneira certeiros em sua execução, mas que não atingem esse caráter especialmente icônico de Rambo.

O discurso de Ronaldo Reagan jamais viu-se tão espetacularmente ilustrado, e o personagem (bem como o próprio Stallone) adquiriu uma aura e um aspecto que, para o bem e para o mal, seriam sua definição dali para frente.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Rambo - Programado Para Matar


 Na transição da década de 1970 para a de 80, Sylvester Stallone experimentava uma aclamação da crítica que iria minguar gradativamente nos anos seguintes, a medida que seu estrelato junto ao público se consolidava: Ele havia lançado anos antes “Rocky-Um Lutador”, pelo qual, é bom lembrar, foi indicado aos Oscar de Melhor Ator e Melhor Roteiro. A imagem de Stallone, no período, era de um ator realmente talentoso, e não do truculento marombado com a qual ele passou a ser relacionado –essa mudança de percepção iniciou-se, certamente, com “Rambo-Programado Para Matar”.

É curioso perceber assim que, junto com seu intérprete, o próprio personagem também experimenta uma metamorfose muito parecida ao longo de seus filmes.

Adaptado do romance “First Blood”, de David Morrell, “Rambo” tratava de questões um tanto pertinentes na época, como a discriminação da sociedade norte-americana pelos veteranos da Guerra do Vietnam, viés explorado com outras variações também em “O Franco Atirador”, “Taxi Driver” e muitos outros daquele mesmo período. Na direção estava o australiano Ted Kotcheff, vindo de um ozploitation inquieto, desigual e singular chamado “Pelos Caminhos do Inferno” (e que quase foi dado como perdido durante um tempo), que valeu-se do clima da Nova Hollywood de então para adornar o drama discriminatório e a circunstância intolerável que o roteiro constrói com doses maciças, crescentes e francamente hiperbólicas de suspense e ação.

Mochileiro norte-americano, John Rambo (Stallone, fazendo um protagonista taciturno cujos coadjuvantes têm mais falas que ele próprio) começa o filme procurando por um amigo dos tempos em que serviram no exército e lutaram nas selvas do Camboja. O amigo, entretanto, ele logo vem a descobrir, faleceu, e o filme estabelece a situação, constantemente mantida, na qual o protagonista se vê sempre sozinho.

Assim, John acaba peregrinando nas proximidades de uma pequena cidade dos EUA, onde é abordado pelo xerife local Will Teasle (o ótimo Bryan Dennehy). Apesar da conversa amistosa e afável, as intenções de Teasle são claras: Ele não quer John em ‘sua’ cidade e lhe dá carona até o cruzamento do outro lado, para que siga de uma vez o seu caminho. Incomodado com aquilo (e com razão), John resolve voltar, nem que seja para comer em alguma lanchonete qualquer; entretanto, Teasle vê nisso justificativa para prendê-lo e botá-lo atrás das grades.

Na delegacia, John é maltratado, torturado e afrontado pelos policiais, visivelmente contrariados com sua presença. No entanto, é somente alguns dias depois, quando tentam imobilizá-lo para fazer sua barba à força, que o stress pós-traumático dele finalmente aflora (no Vietnam, ele foi torturado com navalhas de barbear!): John agride os policiais e consegue escapar da delegacia, tomando uma moto e fugindo para as florestas locais.

Os policiais, insensíveis, truculentos e guiados pela tensão do momento –além de uma nítida implicância para com o protagonista –transformam aquilo então em uma caçada humana, levando John Rambo a acionar seus instintos de sobrevivência para escapar.

É uma aventura que coloca o personagem excluído e incompreendido (e por essa razão, dono de plena identificação com a plateia) contra toda uma apática comunidade que o antagoniza –e o crescente de perigos e contratempos bélicos estabelecidos pelo diretor, embora flerte com o improvável, é apesar disso, ou justamente por isso, espetacular!

Vez ou outra, essa ação –aqui, mais econômica nos filmes que vieram depois –se deixa interromper para deliberações dialogadas entre os coadjuvantes (curiosamente, as reflexões nunca brotam do protagonista), sobretudo, Teasle e, mais tarde, o Coronel Trautman (Richard Crenna, de “Corpos Ardentes”), oficial que treinou John Rambo e que, em razão disso, o conhece como ninguém.

Nas continuações subsequentes (que atravessariam as quatro décadas seguintes), John Rambo iria, de um personagem trágico para um herói de ação anabolizado e com frequência inverossímil, marcando a própria carreira de Sylvester Stallone com essas características. É necessário recordar, porém, a notável construção, a envolvente simplicidade e a objetividade cativante presente neste primeiro e despretensioso filme.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

O Esquadrão Suicida


 Os percalços que levaram às telas esta nova versão de O Esquadrão Suicida são um exemplo das voltas que o mundo dá: Sucesso de público e fracasso de crítica (um fenômeno muito mais comum do que pode parecer), “Esquadrão Suicida”, dirigido por David Ayer, foi um dos muitos filmes que comprometeram a viabilidade do Universo Compartilhado da DC Comics almejado pela Warner Studios.

Era consenso geral que o trabalho de Ayer foi incapaz de capturar o sarcasmo necessário aos personagens –um grupo de heróis formado por vilões –o que transformou o filme numa sucessão de incoerências e frustrações, longe da intenção inicial de fazer dele uma espécie “Guardiões da Galáxia” da Distinta Concorrência. Contudo, quis o destino que James Gunn, justamente o cérebro por trás da originalidade palpitante daquele filme da Marvel Studios, ficasse em maus lençóis com os executivos da Disney devido ao aparecimento de twits polêmicos que ele escrevera muitos anos atrás. Demitido (por pouco tempo, já que foi recontratado), James Gunn ficou assim disponível para ser recrutado pela própria Warner Bros, que não pestanejou diante da oportunidade de ciscar no terreno do vizinho.

E assim, Gunn incumbiu-se de dirigir e roteirizar um novo “Esquadrão Suicida” que a um só tempo é continuação, reinvenção, derivado e reformulação do filme anterior (a única modificação no título é o acréscimo do artigo “O”). Sob muitos aspectos, ele deixa aquele filme completamente de lado para alçar voo próprio diante das possibilidades instigantes que descobre. Roteirista e diretor brilhante (anos-luz à frente de David Ayer, diga-se), James Gunn é um conhecedor intrínseco de histórias em quadrinhos, logo, ele compreende o contexto, a proposta e a dinâmica dos personagens reunidos em “O Esquadrão Suicida” de uma forma que David Ayer jamais conseguirá. E, como diretor, possuir também uma apurada percepção de cinema também ajuda muito.

Arrojado que só, “O Esquadrão Suicida” já começa num enquadramento de câmera absolutamente audacioso, mostrando Savant (Michael Rooker), um prisioneiro que, nos moldes dos personagens do filme anterior, é recrutado pela impiedosa Amanda Waller (Viola Davis que aqui não rouba a cena porque simplesmente todos estão sensacionais) para integrar o Esquadrão Suicida –um grupo de força-tarefa cujos membros, na falta de heróis superpoderosos, são escolhidos entre os vilões mesmo.

Único personagem minimamente nobre entre eles é o Coronel Rick Flag (Joel Kinnaman), oriundo do filme anterior –também são de lá o ardiloso Capitão Bumerangue (Jai Courtney) e, claro, a doce e psicótica Arlequina, personagem que, à essa altura, a australiana Margot Robbie já tornou tão antológica quanto indissociável dela própria.

O grupo é despachado para a republiqueta sul-americana de Corto Maltese (nome que, em si, já representa uma das muitas e sensacionais referências plantadas por Gunn na trama) para um missão algo nebulosa e, logo na chegada, são atacados. E eis que a obra de Gunn revela, já aí, toda a coragem, habilidade e excelência que faltou no outro filme: Salvo Rick Flag e Arlequina todos os outros personagens acabam mortos –até mesmo o personagem de Michael Rooker, até então sugerido pela narrativa como os olhos do público!

É só o começo, literalmente –tudo isso ocorre antes mesmo dos créditos iniciais!

Em “O Esquadrão Suicida”, mais que qualquer coisa, James Gunn exercita sua capacidade de se fazer imprevisível. O andamento da trama, as mortes que se sucederão ou não, e a guinada de roteiro seguinte são elementos que dificilmente os expectadores serão capazes de prever.

Um pouco longe dali, um segundo grupo também foi recrutado e enviado, grupo este composto pelo Sanguinário (o ótimo Idris Elba), o Pacificador (John Cena, de "Bumblebee", cada vez melhor), o Homem-Bolinhas (David Dastmalchian, de “Homem-Formiga”), a Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior) e o simultaneamente fofo e amedrontador Tubarão-Rei (voz de Sylvester Stallone).

Com habilidade insuspeita, o diretor James Gunn conduz a trama alternando esses dois grupos a medida que vai revelando algumas surpresas referentes à missão incumbida. Isso permite à Gunn explorar o termo ‘suicida’ presente em seu título –o desapego com que o diretor descarta muitos personagens ao longo do filme acrescenta um toque inesperado de suspense às situações de perigo –e operar com uma liberdade que não usufruía nem mesmo na Marvel Studios –produtora de filmes bem comportados, para todos os públicos, muito diferentes deste daqui onde Gunn enche a boca de seus personagens com impropérios e palavrões, pisa no acelerador no quesito da violência e emprega sanguinolência num nível similar somente ao que ele havia feito na produtora Troma em seu início de carreira.

De fato, “O Esquadrão Suicida” tem tudo isso; ação, violência, pancadaria, tiros e mortes, mas, é também um filme cheio de poesia: Na concepção irretocável em termos de um maior requinte cinematográfico, na escolha sublime e primordial das músicas que integram a trilha sonora (milagre que ele já havia executado em “Guardões da Galáxia”), na construção finalmente apropriada, ácida e vibrante dos personagens politicamente incorretos que tem em mãos, James Gunn finalmente mostra como fazer um filme de verdade com o Esquadrão Suicida, e de quebra entrega uma das melhores produções baseadas em histórias em quadrinhos de todos os tempos.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Formiguinhaz


 Nos anos de transição da década de 1990 para 2000, o estúdio Dreamworks, fundado por Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen, entrou numa série de projetos, disposto a fazer estardalhaço no cinema. Certamente, um desses projetos, “Formiguinhaz”, haveria de envolver animação, a grande especialidade do produtor Katzenberg –que esteve a frente da reformulação dos Estúdios Disney com “A Pequena Sereia” e “A Bela e A Fera”, dez anos antes. A ironia foi que “Formiguinhaz”, numa dessas coincidências inconvenientes que vez ou outra acontece em Hollywood, estreou na mesma temporada que outra animação, também ela tendo o mundo miniatura dos insetos como foco central, “Vida de Inseto”, da Pixar.

Na comparação com o divertido e descontraído trabalho da Pixar, “Formiguinhaz” é pleno de escolhas curiosas, indicativas do quanto os realizadores vão muito além de entregar uma obra para crianças, mas uma produção pontuada por detalhes que chamam a atenção dos adultos.

A começar pela escolha de Woody Allen para dar voz ao personagem principal, a formiga operária Z que, no início do filme, surge num divã, relatando suas neuroses num tom hesitante e tímido que Allen domina completamente. Com isso parece haver uma relação estabelecida pelos realizadores entre as formigas e o povo de Nova York –cosmopolitas, numerosos, incapazes de prestar atenção uns nos outros, colhidos numa série de ciclos viciosos e, como Z, sujeitos a ocasionais vazios existenciais.

Z se pergunta porque deve ser mais um dentre tantos. A mediocridade o incomoda quando parece não perturbar todos os outros, indiferentes e dóceis para com sua rotina.

Assim, Z propõe uma ligeira troca com seu melhor amigo, Weaver (voz de Sylvester Stallone): Ele, que é soldado, trocará de lugar com Z, e assim saberá como é o dia-a-dia de um operário –enquanto que Z poderá experimentar a emoção diferenciada de partir em batalha. Para o azar de Z, porém, o General Mandíbula (Gene Hackman) organiza uma ataque aos cupins, moradores de um formigueiro próximo –repare na cena em que Z encontra a cabeça decepada, mas ainda viva e falante, de um amigo no campo de batalha (!), exemplar do quanto a animação não ameniza em cenas até um tanto violentas.

Por suas dimensões reduzidas para um soldado, Z acaba sendo o único sobreviventes da batalha –o que coloca  certo imprevisto nos planos do General Mandíbula. Quando seu embuste é descoberto, contudo, resta a Z improvisar e, com isso, ele escapa para fora do formigueiro junto da Princesa Bala a quem tentou fazer, muito atrapalhadamente, de refém.

Paralelamente, a animação acompanha então a aventura de Z e da Princesa Bala às voltas com os perigos do agigantado mundo exterior –onde testemunhamos mais cenas intensamente violentas, como a cauterização de uma formiga com o raio solar de uma lupa; ou a morte de um inseto fêmea esmagada por meio de um mata-moscas –e a crescente fama de Z entre seus pares do formigueiro, em meio aos quais corre a história da audácia do operário em decidir ocupar o lugar de um soldado, e tornar-se herói de guerra com isso.

Vai ficando também claro o plano maligno do General Mandíbula, e nele, a mensagem de individualismo difundida nas peripécias de Z entre as demais formigas acaba sendo prejudicial.

Surpreendente devido ao seu sucesso de bilheteria na época de seu lançamento, “Formiguinhaz” não aparenta obter uma conciliação na preferência de público; sua trama ostenta complexidades demais para crianças pequenas, seu senso estético (ainda que obedeça os padrões da animações em geral) constrói cenas um tanto quanto particulares em seu realismo, seu elenco inacreditável (onde, é bom lembrar, somente as vozes são de fato aproveitadas) sinalizam a vontade de impressionar a parte mais crescida da plateia, a flagrante humanização dos personagens insetos proporciona certa estranheza, mais comum em animações europeias, e sua mensagem final –na sofisticação de sua abordagem –parece inacessível ao seu suposto público-alvo.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Os Embalos de Sábado Continuam


 Lá pelos idos de 1982 e 83, dando asas ao seu ímpeto realizador por detrás das câmeras, o astro Sylvester Stallone surpreendeu a indústria do cinema ao assumir a co-produção, o co-roteiro e a direção da inesperada continuação de “Os Embalos de Sábado À Noite”.

Há muito o que se falar de “Os Embalos de Sábado Continuam”, todavia, se trata-se de algo bom a ser falado... isso já é outra história: Não obstante o fato de ciscar numa trama que já se sustentava sozinha, e cujos começo, meio e fim estavam bem definidos e determinados naquele filme, Stallone, ao assumir as rédeas de uma pouco justificada continuação criou uma contraparte monstruosa do filme anterior: Se “Embalos de Sábado À Noite” era um honesto retrato de celeumas e percepções sociais dos anos 1970, “Embalos de Sábado Continuam” envereda por um retrato do excesso luxuriante, colorido e brega dos anos 1980. E, na caracterização desse painel, Stallone exagera em tudo e por tudo, indicando plenamente alguns dos revezes que sempre definiram seu irregular processo criativo.

Num início que remete alguns dos elementos mais vulgares e afetados de “O Show Deve Continuar”, de Bob Fosse –as apresentações de dança erotizadas ao máximo, o clima competitivo e decadente dos bastidores –o filme mostra, em tom quase de videoclip, a nova rotina de Tony Manero (John Travolta), cinco anos após os acontecimentos do primeiro filme, depois que ele se decidiu por deixar a casa da família no Brooklyn e tentar a sorte em Manhattan: Tony almeja brilhar na Broadway como dançarino e, para tanto, submete-se à árduas audições enquanto se reveza entre aulas de danças e sub-empregos em danceterias da madrugada.

Fã do primeiro filme, Stallone, que foi convidado a dirigir o projeto pelo produtor e pelo roteirista do filme original (respectivamente, Robert Stigwood e Norman Wexler) e pelo astro Travolta, exibe um interesse genuíno em poder conduzir os prolongamentos dramáticos dessa nova fase da vida de Tony –para quem Travolta oferece uma atuação desta vez mais carregada em maneirismos de sangue quente latino –e isso é o melhor que se pode falar do filme; pois, como diretor e roteirista, Stallone involuntariamente caminha na direção do banal. O filme, tão ambicioso nas suas entrelinhas, no retrato implacável que parece fazer do processo seletivo nos palcos da Broadway e da difícil vida dos assalariados e aspirantes ao estrelato na Grande Maçã, no decurso de sua própria premissa acaba por enfatizar tão somente o triângulo amoroso ao qual a trama termina por restringir-se.

No rumo algo prepotente de seus sonhos, Tony conhece a rica e arrogante Laura (Finola Hugues), bailarina cheia de contatos e regalias que, ele sabe, pode ser seu passaporte mais rápido para brilhar na ribalta. A atração de Tony por ela é genuína, mas suas segundas intenções são igualmente aparentes; enquanto que Laura dá corda aos devaneios narcisistas de Tony, ao mesmo tempo que deixa ele (e o público) indeciso quanto à sua índole.

De outro lado, Tony tem uma ‘amiga especial’, a adorável, paciente e disponível Jackie (Cynthia Rhodes, da ficção “Runaway-Fora de Controle”), com quem ele poderia até namorar, não fossem suas próprias vaidades a impedir que o relacionamento avance.

É maniqueísta a forma com que esse triângulo amoroso é tratado: Laura é sensual e diabólica –e assim é retratada na apresentação teatral que se sucede no clímax –enquanto que Jackie é bondosa, compreensiva e angelical; características que soam tão improváveis nela quanto inverossímeis na outra! Resta ao Tony Manero de John Travolta oferecer um registro humano mais coerente ao qual o expectador possa se ancorar, no entanto, Travolta não se acha, aqui, tão inspirado quando no filme anterior. Na verdade, tanto seu astro principal como o elenco coadjuvante como um todo (em especial, a descontrolada Finola Hugues), seja pela forma como são dirigidos, seja pelos diálogos que o roteiro lhes constrói, oferecem atuações que espelham completamente alguns arroubos artificiais que o próprio Stallone exibiu em suas performances.

O resultado é um filme de estilo tão duvidoso quanto espalhafatoso, que perde-se por completo a partir de determinado ponto ao trocar quase involuntariamente seus objetivos iniciais –de retratar a busca de um lugar ao sol, sob o prisma do fervilhante showbuziness –por clichês compulsivos que representam o lado mais obscuro, afetado e excessivo da década de 1980.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Oscar - Minha Filha Quer Casar


 A adentrar os anos 1990, a carreira de Sylvester Stallone –assim como a de outros astros de ação dos anos 1980, como Arnold Schwarzenegger ou Bruce Willis –viu-se numa necessidade de reinvenção (afinal, músculos e disposição física não são atributos eternos). E uma das suas primeiras incursões num gênero diferenciado, como a comédia, ocorreu neste divertido e curioso “Oscar-Minha Filha Quer Casar” –lembrado por uns como um hilário passatempo da década de 1990, e por outros como um destoante, e até lamentável, título na filmografia do astro, “Oscar” estranhamente divide opiniões.

Stallone vive o gangster Angelo ‘Snaps’ Provolone que, já na primeira cena, assiste consternado a morte do pai (Kirk Douglas, numa ponta luxuosa); antes de morrer, contudo, ele leva Snaps a fazer uma promessa: Deixar os negócios escusos de lado e virar um homem honesto, dando assim o ponto de partida para as confusões.

Passa-se um mês, e o filme então inicia-se de fato, a transcorrer sua trama de idas e vindas e graciosos mal-entendidos em um único dia: O dia em que Snaps –ou melhor, o Sr. Provolone –haverá de tornar-se um empresário honesto, ao selar, ao meio-dia, um acordo com um grupo de banqueiros em plenos anos 1930.

Entretanto, é nesse dia que todos os problemas acarretados por sua família virão bater a porta de Provolone: A começar por Anthony Rossano (Vincent Spano, ator de alguns filmes dos Irmãos Tavianni), seu desaforado contador que aparece para exigir um aumento considerável de salário (!) e a mão de sua filha em casamento (!).

Entretanto, o que Provolone ainda não sabe –e que descobrirá aos trancos a barrancos ao longo do dia –é que Rossano não se refere à sua filha de fato, Lisa (Marisa Tomei), que realmente está grávida, só que do ex-chofer, Oscar (!), mas à meiga Theresa (Elizabeth Barondes), garota pobre que mentiu ser sua filha.

Como Rossano apropriou-se de uma considerável soma em dinheiro a fim de devolvê-la à Provolone só quando este lhe cedesse a mão da filha em matrimônio, ele não pode dizer-lhe ainda a verdade, e talvez, nem queira: Afinal, a despeito de Theresa e Rossano se amarem, ele precisa providenciar um marido para Lisa, já que Oscar (um personagem que só aparece no final, interpretado pelo roteirista Jim Mulholland, mas sobre quem todos falam e cujas ações movimentam toda a trama) alistou-se no exército.

Durante as confusões que se sucedem na mansão de Provolone, do lado de fora, policiais de tocaia (liderados por Kurtwood Smith) e gangsters rivais (comandados por Richard Romanus) organizam suas próprias investidas contra Snaps, certos de que ele está armando das suas.

Ainda que rocambolesca, a sinopse não dá conta das trapalhadas e do fluxo ininterrupto de gags que se passam ao longo do filme, tornando-o, para aqueles capazes de apreciar a comédia que ele é, um tanto saboroso e engraçado –e o diretor John Landis, além de aproveitar esses desenlaces típicos para ambientar seu filme numa direção de arte primorosa em acabamento cenográfico, pontua sua narrativa com belíssimas e arrojadas participações, como a linda e macarrônica esposa de Provolone (a italiana Ornella Muti), o solícito e perplexo padre local (o veterano Don Ameche), o avoado e prestativo fonoaudiólogo (o ótimo Tim Curry), os hilariantes capangas de Snaps, Aldo (Peter Riegert, de “O Máskara”), indignado com sua ‘promoção’ à mero mordomo, e o engraçadíssimo brutamontes Connie (o sensacional Chazz Palminteri).

O que talvez explique uma certa indisposição com este filme por parte do público, seja justamente a presença nele de seu protagonista, Sylvester Stallone: Embora acha graça genuína em sua participação –o que talvez se deva mais pelo biotipo improvável de Stallone do que por sua interpretação de fato –alguns expectadores certamente esperavam dele o mesmo que ele entregou em todos os seus filmes; e “Oscar”, apesar disso, não traz uma única cena de ação, mostrando, em vez disso, um humor de bases quase teatrais –foi inspirado em uma produção francesa homônima de 1967 escrita por Claude Magnier –com suas entradas e saídas de cena potencializadas em seu humor e em seu ritmo pelo dinamismo da música “O Barbeiro de Sevilha” servindo de elemento instigante da narrativa.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Trilogia Os Mercenários

Durante boa parte dos anos 1980 e 90, os fãs de filmes descerebrados de ação cultivaram a ideia de ver reunidos em cena alguns de seus heróis prediletos do período, sendo estes os mais requisitados Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger.
Isso não ocorreu naquelas décadas –inclusive porque, durante algum tempo, os dois alimentaram uma espécie de rivalidade antes de virarem bosn amigos e se tornarem sócios da cadeia de restaurantes Planet Hollywood –entretanto, os aficcionados tiveram a oportunidade de ver isso acontecer primeiramente em “Os Mercenários”, que reuniu os dois e mais um punhado considerável de  marombados daquela época, como Bruce Willis e Dolph Lundgreen.
Dirigido pelo próprio Stallone, o primeiro “Os Mercenários” não fazia maior esforço além de incitar o público com esse apelo –o de reunir em primeira mão os astros da pancadaria do passado, no que pode ser visto como uma das primeiras produções a se valer de um certo saudosismo dos anos 1980 que desde então dominou inúmeras obras.
Assim, Stallone é Barney Ross, líder de um grupo de mercenários de aluguel composto por Lee Christmas (Jason Statham, talvez o único verdadeiro astro de ação da atualidade), Toll Road (Randy Culture), Gunnar Jens (Lundgreen, que curiosamente se destaca no elenco), Hale Caesar (Terry Crews) e o ágil Yin Yang (o chinês Jet Li) –além deles, há também a ponta ilustre de Mickey Rourke como um barman cheio de histórias para contar.
Como era ainda governador da Califórnia na época do filme, Schwarzenegger não faz mais do que uma participação especial ao lado de Bruce Willis, numa cena em que encontram Barney em uma igreja –momento breve que, porém, foi o bastante para fazer a alegria dos apreciadores de filmes de ação protagonizados pelos três.
Na trama absurdamente genérica, o grupo de mercenários liderado por Barney deve completar uma missão numa republiqueta sul-americana. Entretanto, em algum momento a ombridade típica de herói de ação em Barney e Christmas irá falar mais alto, e eles decidirão destituir o impiedoso ditador do lugar, vivido com canastrice premeditada por Eric Roberts, convencidos pela candura da mocinha indefesa da vez, interpretada –veja só –pela atriz brasileira Gisele Itié.
Embora essa receita soasse infalível, o tratamento narrativo dado por Stallone –talvez, por essa mesma excessiva confiança –foi tão genérico e impessoal que quase o filme não passa do ponto de corte: “Os Mercenários”, ainda que com uma razoável bilheteria, concorreu ao Framboesa de Ouro de Pior Diretor (!), o que levou os produtores a tomarem um cuidado maior na continuação.

Em “Os Mercenários 2”, o diretor escolhido foi Simon West que, tendo no currículo “Con Air-A Rota da Fuga” e o primeiro “Tomb Raider”, com Angelina Jolie, ostentava vasta experiência e conhecimento no gênero. De fato, ele contribui com um ritmo vertiginoso, um humor revigorante e um tremendo entendimento sobre os aspectos que tornam esse tipo de filme empolgante aos olhos de seus apreciadores –“Os Mercenários 2” é, sem sombra de dúvida, a produção que, dentre toda a trilogia, tira melhor proveito dos elementos que usa como chamariz.
Sobretudo no que diz respeito às participações de astros famosos e veteranos da ação: Além de todos os integrantes do primeiro filme (à exceção de Mickey Rourke que não voltou), aparecem também Jean Claude Van Damme, no papel do vilão Jean Vilain (!?!), o lendário Chuck Norris (que recebe da narrativa um tratamento que faz jus à sua lenda!) e participações mais estendidas e suculentas de Schwarzenegger e Bruce Willis (com direito à infindáveis referências aos seus grandes sucessos); de lambuja, ainda temos a presença do jovem Liam Hemsworth, de “Jogos Vorazes”.
É ele quem, de certa maneira, dá a ignição à trama, quando um encontro com o perverso Jean Vilain (Van Damme sempre interpreta vilões num divertido tom canastrão e provocativo) termina mal para o rapaz, por quem Barney estava se apegando –reza a lenda que originalmente este seria o destino reservado ao personagem de Mickey Rourke.
Barney e sua equipe, com o auxílio de Trench Mauser (Schwarzenegger) o rival salvo na cena inicial convertido em aliado, seguem assim numa missão mais pessoal com o intuito de frustrar os planos inescapavelmente malignos de Vilain e vingar a morte do jovem..
Aqui, os heróis ouvem a todo o instante que já estão velhos e obsoletos para seu ofício. Nada mais que provocação: “Os Mercenários 2” é um dos melhores e mais divertidos filmes de ação dos últimos tempos e seus protagonistas, astros inquestionáveis do gênero.

É nesse sentido –no do segundo exemplar ter resultado tão memorável –que o terceiro filme acaba sendo uma curva descendente.
Os produtores julgaram que chamando um diretor mais jovem –Patrick Hughes, da comédia adolescente “Imaginem Só” e o faroeste contemporâneo “Busca Sangrenta” –a energia e o frescor da produção se manteria. Contudo, “Os Mercenários 3”, se não chega a ser de qualidade duvidosa como o primeiro filme (que beneficiou-se, sobretudo, da novidade) também passa longe do equilíbrio e do ajuste acertado do segundo.
Os acréscimos ao elenco (fatores que passaram assim a definir a série) foram Wesley Snipes (chapa de Stallone desde que fizeram “O Demolidor”), Antonio Banderas (chapa de Stallone desde que fizeram “Assassinos”), Kelsey Grammer (o Fera de “X-Men O Confronto Final”), novo gerente de missões e Harrison Ford, além do vilão interpretado com fleuma e vigor por Mel Gibson. Por outro lado, o filme não conta com Terry Crews (reduzido à uma participação ínfima), Chuck Norris e Bruce Willis (esses nem sequer aparecem).
Há também outro grupo, de integrantes jovens que estão lá mais para atender aos propósitos da trama.
No encalço de Conrad Stonebanks (Gibson), um adversário que ajudou a fundar o grupo dos ‘expendables’, Barney se depara com a necessidade de recrutar integrantes mais novos diante da ineficácia de seus velhos companheiros. Esses novos mercenários são John Smilee (Kellan Lutz), Thorn (Glen Powell, de “Estrelas Além do Tempo”), Marte (Victor Ortiz) e a durona Luna (Ronda Rousey, ex-lutadora de MMA), além do personagem de Banderas, um histriônico alívio cômico.
É previsível ao extremo o fato de que o jovem grupo falhará miseravelmente, virando reféns do próprio vilão, fazendo com que o grupo da velha guarda retorne para salvar a situação –e nisso a direção de Patrick Hughes encontra suas grandes fraquezas. Ele simplesmente não se satisfaz em realizar um filme digno de ação amparado nas presenças icônicas de que dispõe. Quer porque quer preencher suas entrelinhas de significado e com isso espalha sequências vazias e desanimadoras por todo o filme; como por exemplo o aproveitamento nada criativo do personagem de Schwarzenegger convertido numa espécie de ‘voz da consciência’ do personagem Barney, de Stallone, aparecendo em momentos pontuais sem nunca ter relevância de fato, e esse problema se estende tanto ao personagem de Harrison Ford (um coadjuvante sem o brilho e sem a razão de ser que um astro merecia) quanto ao de Wesley Snipes (que, salvo a cena de abre o filme, passa todo o resto da trama sem qualquer serventia).
Composta por dois filmes medianos e apenas um verdadeiramente empolgante, a “Trilogia dos Mercenários” ocupa um lugar especial na memória afetiva de seus fãs mais pelo apelo no conceito em ver reunidos em cena diversos ícones vivos do gênero pancadaria, do que por sua execução final.
E tal é o seu apreço que até hoje alimentam expectativas para uma vindoura “Parte 4”.