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quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Rambo - Programado Para Matar


 Na transição da década de 1970 para a de 80, Sylvester Stallone experimentava uma aclamação da crítica que iria minguar gradativamente nos anos seguintes, a medida que seu estrelato junto ao público se consolidava: Ele havia lançado anos antes “Rocky-Um Lutador”, pelo qual, é bom lembrar, foi indicado aos Oscar de Melhor Ator e Melhor Roteiro. A imagem de Stallone, no período, era de um ator realmente talentoso, e não do truculento marombado com a qual ele passou a ser relacionado –essa mudança de percepção iniciou-se, certamente, com “Rambo-Programado Para Matar”.

É curioso perceber assim que, junto com seu intérprete, o próprio personagem também experimenta uma metamorfose muito parecida ao longo de seus filmes.

Adaptado do romance “First Blood”, de David Morrell, “Rambo” tratava de questões um tanto pertinentes na época, como a discriminação da sociedade norte-americana pelos veteranos da Guerra do Vietnam, viés explorado com outras variações também em “O Franco Atirador”, “Taxi Driver” e muitos outros daquele mesmo período. Na direção estava o australiano Ted Kotcheff, vindo de um ozploitation inquieto, desigual e singular chamado “Pelos Caminhos do Inferno” (e que quase foi dado como perdido durante um tempo), que valeu-se do clima da Nova Hollywood de então para adornar o drama discriminatório e a circunstância intolerável que o roteiro constrói com doses maciças, crescentes e francamente hiperbólicas de suspense e ação.

Mochileiro norte-americano, John Rambo (Stallone, fazendo um protagonista taciturno cujos coadjuvantes têm mais falas que ele próprio) começa o filme procurando por um amigo dos tempos em que serviram no exército e lutaram nas selvas do Camboja. O amigo, entretanto, ele logo vem a descobrir, faleceu, e o filme estabelece a situação, constantemente mantida, na qual o protagonista se vê sempre sozinho.

Assim, John acaba peregrinando nas proximidades de uma pequena cidade dos EUA, onde é abordado pelo xerife local Will Teasle (o ótimo Bryan Dennehy). Apesar da conversa amistosa e afável, as intenções de Teasle são claras: Ele não quer John em ‘sua’ cidade e lhe dá carona até o cruzamento do outro lado, para que siga de uma vez o seu caminho. Incomodado com aquilo (e com razão), John resolve voltar, nem que seja para comer em alguma lanchonete qualquer; entretanto, Teasle vê nisso justificativa para prendê-lo e botá-lo atrás das grades.

Na delegacia, John é maltratado, torturado e afrontado pelos policiais, visivelmente contrariados com sua presença. No entanto, é somente alguns dias depois, quando tentam imobilizá-lo para fazer sua barba à força, que o stress pós-traumático dele finalmente aflora (no Vietnam, ele foi torturado com navalhas de barbear!): John agride os policiais e consegue escapar da delegacia, tomando uma moto e fugindo para as florestas locais.

Os policiais, insensíveis, truculentos e guiados pela tensão do momento –além de uma nítida implicância para com o protagonista –transformam aquilo então em uma caçada humana, levando John Rambo a acionar seus instintos de sobrevivência para escapar.

É uma aventura que coloca o personagem excluído e incompreendido (e por essa razão, dono de plena identificação com a plateia) contra toda uma apática comunidade que o antagoniza –e o crescente de perigos e contratempos bélicos estabelecidos pelo diretor, embora flerte com o improvável, é apesar disso, ou justamente por isso, espetacular!

Vez ou outra, essa ação –aqui, mais econômica nos filmes que vieram depois –se deixa interromper para deliberações dialogadas entre os coadjuvantes (curiosamente, as reflexões nunca brotam do protagonista), sobretudo, Teasle e, mais tarde, o Coronel Trautman (Richard Crenna, de “Corpos Ardentes”), oficial que treinou John Rambo e que, em razão disso, o conhece como ninguém.

Nas continuações subsequentes (que atravessariam as quatro décadas seguintes), John Rambo iria, de um personagem trágico para um herói de ação anabolizado e com frequência inverossímil, marcando a própria carreira de Sylvester Stallone com essas características. É necessário recordar, porém, a notável construção, a envolvente simplicidade e a objetividade cativante presente neste primeiro e despretensioso filme.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

A Minha Versão do Amor

 


A vida a partir da perspectiva de sua finitude já era o prisma pelo qual se descortinava o belo best-seller de Mordecai Richler, e essas impressões são preservadas aqui, na medida do possível, pela narrativa atenta, dedicada e minimalista do diretor Richard J. Lewis.

Por meio dela, acompanhamos Barney Panofsky, protagonista que tem diferentes fases da sua vida investigadas –e em todas elas sua verve politicamente incorreta ganha a excelência de Paul Giamatti.

Do alto de sua velhice, ainda a frente de uma certa Tottaly Unnecessary Productions (!), ele é abordado por um policial frustrado e amargurado (Mark Addy, de “Ou Tudo Ou Nada”), escritor de um livro obscuro e fracassado sobre uma implicante teoria que colocaria Barney como principal culpado da morte de seu melhor amigo, Boogie (Scott Speedman, de “Anjos da Noite”). Essa é a senha para o filme retroceder cerca de quarenta anos no tempo, até 1972, na Itália quando, na companhia do próprio Boogie e dos outros amigos, Cedric (Clé Bennett) e Leo (Thomas Trabacchi), Barney encontra sua primeira esposa, a instável Clara Chambers (Rachelle Lefevre, de “Crepúsculo”), com quem acaba se casando devido à súbita gravidez dela. A criança infelizmente nasce morta e Barney descobre na mesma ocasião que não era o pai –e o abandono ressentido dele leva Clara ao suicídio.

Anos depois, já trabalhando em Nova York, Barney conhece sua segunda esposa, vivida por Minnie Driver (de “Gênio Indomável”), uma moça da família rica –cujo comportamento do pai e da mãe gera imediato contraste com o jeitão despreocupado e desmazelado do pai dele (Dustin Hoffman).

É durante sua cerimônia de casamento que Barney conhece aquela que ele se convence ser a mulher sua vida (!), a austera, sublime e encantadora Miriam (Rosamund Pike). Entretanto, Barney é casado e, embora lhe mande flores toda a semana, Miriam se recusa a ceder aos seus avanços.

Curiosamente, é o próprio Boogie quem lhe dá a deixa para se divorciar: Transando com sua esposa na casa de campo (!). Apesar de não sentir-se exatamente revoltado com ele, Barney encena, no calor da hora, algumas recriminações triviais de velhos amigos, quando, num incidente cercado de incertezas, Boogia cai no lago e nunca mais é visto (Ele teria se afogado ao se jogar? Teria sido atingido pela bala da arma de Barney que disparou sem querer? Teria, afinal, morrido mesmo? Já que o corpo nunca foi mais achado?).

Após essa estranha circunstância, Barney vai atrás de Miriam com quem, após alguma insistência, consegue enfim se casar e ter dois filhos ao longo de alguns bons anos de um casamento feliz.

No entanto, no livro de Richler e no filme de Lewis, o final não corresponde necessariamente ao momento em que o protagonista alcança o ápice de sua felicidade –como o seria em tantas outras histórias de formato convencional –e com isso, a trama avança até a meia-idade, quando a insegurança e os anseios egoístas de Barney o levam a perder a mulher que ama.

Acompanhamos também sua velhice –ou seja, uma fase até além daquela em que presenciamos o filme começar –e testemunhamos a angustiante constatação de Barney diante da própria senilidade e, portanto, do fim da vida.

Os minutos finais do personagem, já quase privado de si mesmo, e na companhia dos filhos adultos, o levam ao alívio de descobrir, enfim, toda a improvável verdade sobre o desaparecimento de Boogie –um elemento inusitado da narrativa que a engrandece com sua brilhante e curiosa atenção aos detalhes mais inesperados.

sábado, 25 de julho de 2020

Exótica

Culturalmente o Canadá é um país curioso, próximo dos EUA, no entanto, existencialmente distante devido à ruptura entre suas duas populações, anglófona e francófona, uma condição que gera expressões autorais voltadas às mais imprevistas idiossincrasias.
Ao lado de David Cronenberg, o diretor Atom Egoyam é certamente um realizador que representa muito bem esse olhar incomum sobre a condição humana, sobre a manifestação e a manutenção do drama e de como esses elementos agem, interagem e reagem.
Em “Exótica”, as sub-tramas que constituem sua história principal parecem fios soltos num infinito vazio, inicialmente determinados a convergirem pelo que parece ser uma série de caprichos casuais e menos uma determinância do roteiro –embora certamente o seja.
Talvez por isso, seu princípio se dá com personagens que não têm grande importância à trama (dois guardas alfandegários travando um diálogo), galga para um coadjuvante dotado de um pouco mais de significado (Thomas, vivido por Don McKellar, de “O Gênio e Excêntrico Glenn Gould Em 32 Curtas”) e só então desliza na direção de seus protagonistas.
“Exótica”, à propósito, é o nome do strip-club que o personagem principal, Francis (Bruce Greenwood), frequenta. Em torno desse lugar, basicamente, orbitam as almas perdidas cujas trajetórias Egoyam tratará de colidir.
Francis é o cliente fidedigno da dançarina Christina (a bela Mia Kirshner, de “Dália Negra”), para quem ela faz sua dança sensual (ao som de “Everybody Knows”, de Leonard Cohen) todas as noites –desde que seja cumprida a regra irrevogável do clube de que clientes não podem tocar as dançarinas. Francis é também um auditor fiscal, e durante seus dias refaz a contabilidade da loja de peixes que Thomas herdou do pai.
Assolado por tendências homossexuais, Thomas aceita a inércia de sua existência encontrando satisfação em pequenos atos de excentricidade: Vai à apresentações de balé onde paga o ingresso de alguns rapazes com quem flerta mal-disfarçadamente e, sobretudo, contrabandeia ovos raros de espécimes aquáticas.
Logo, Thomas se torna um instrumento para Francis quando ele cai numa armadilha elaborada por Eric (Elias Koteas), o D.J. do Exótica que, secretamente apaixonado por Christina, incita Francis a tocá-la, como pretexto para expulsa-lo do lugar.
Em sua angústia insondável, Francis tem motivos para alimentar hábitos que soam inicialmente injustificáveis: Ele perdeu a filha pequena e, talvez, a pureza sugerida nas apresentações de Christina lhe proporcione algum alívio em sua dor.
Não é só: Todas as noites, Francis também paga para que Tracey (Sarah Polley), filha de seu irmão (Victor Garber, de “Argo”), fique em sua casa como babá, cuidando de uma criança que não se encontra mais lá...
São essas pequenas disfunções de ordem dramática que compõem o panorama elaborado por Atom Egoyam que, a julgar por suas obras, não se prende à expedientes convencionais para expor a dor e a agonia de seus personagens, preferindo um tortuoso e labiríntico jogo narrativo de descobertas –é por isso que, a quebrar seguidamente o fluxo urbano e soturno da história, há um flashback ensolarado num campo aberto, onde vemos Eric e Christina conhecendo-se pela primeira vez; são fagulhas que, somadas ao longo do filme, irão esclarecer melhor o fino véu que une todas essas almas aflitas num único rumo de existência.
Os detratores poderão dizer que Atom Egoyam transfigura um drama humano conceitualmente simples numa floreada e pretensiosa miríade de histórias paralelas, mas a verdade é que, na elegância enigmática de suas diversas sub-tramas assim encenadas, “Exótica” emprega o conceito do próprio clube que lhe dá o nome como alegoria suprema: Os dramas pessoais de cada personagem, assim como as conexões inesperadas entre eles estabelecidas em seu passado e em seu presente, nos são reveladas como em um striptease no qual a descoberta gradual se faz do belo domínio narrativo de seu diretor.

domingo, 5 de abril de 2020

Orquídea Selvagem

Zalman King ganhou certo renome após o sucesso colossal de seu roteiro para “9 e ½ Semanas de Amor”, filmado por Adrian Lyne –de repente, ele, que havia escrito pouco mais que um romance modernoso sobre pulsões sexuais inusitadas, era um profissional considerado a última palavra em erotismo.
Ele soube aproveitar a maré lançando-se como o próprio diretor de seus scripts (no longa “Um Toque de Sedução”) e –sem o estilo visualmente extravagante de Lyne –as suas características autorais começaram a ficar mais claras: King tinha o objetivo de conceber um misto elegante e excitante de dramaturgia nada usual com erotismo em níveis desafiadores para o mercado convencional de então, numa postura que lembrava um pouco os projetos fetichistas do italiano Tinto Brass.
Lançado em 1990, “Orquídea Selvagem” reuniu Zalman King novamente com o astro de “9 e ½ Semanas...”, Mickey Rourke, prometendo uma obra de sexualidade forte e singular tanto quando foi o cultuado filme de Lyne.
“Orquídea Selvagem” começa com sua protagonista de fato, Emily (a modelo Carré Otis) rumando para Nova York a fim de vencer na vida –ponto de partida mais clichê, impossível!
Lá, ela obtém emprego como advogada na empresa da poderosa Claudia Liones (Jacqueline Bisset, absolutamente sensacional) e de pronto as duas seguem para o fechamento de um negócio a ser realizado em terras brasileiras envolvendo chineses e um edifício antigo.
A distinção da realização de Zalman King para os filmes eróticos mais convencionais –mesmo os de hoje –é, sobretudo, o tempo prolongado que ele demanda para elaborar sua premissa. Uma pena que esse período anormalmente longo permite ficarem evidentes os lapsos de sua produção: Se Jacqueline Bisset rouba com facilidade cada uma das cenas em que aparece, a novata Carré Otis é tão inexpressiva que nem falar ela consegue direito que o diga atuar! O próprio Zalman King, como diretor, deixa bastante claro que seu outro roteiro funcionou bem porque um diretor perspicaz como Adrian Lyne soube enfatizar elementos do filme que camuflavam a fragilidade da trama; já, aqui, cada detalhe colabora para evidenciar sua superficialidade.
Desde a ambientação no Rio de Janeiro (onde conta com a presença do ator Milton Gonçalves) passando pelas despropositadas inserções de bailes de máscaras sem o menor sentido (ao que parece, um fetiche de King) e pelo apático personagem de Mickey Rourke “Orquídea Selvagem” soa todo jocoso e improvável.
E, por falar em Rourke: Seu personagem, de nome Wheller, é um dos empresários envolvidos na tal negociação. Emily assim, recebe de Claudia a incumbência de acompanhá-lo (e, se possível, vigiá-lo de perto) a fim de garantir que ele não cometa nenhuma travessura antes que seja fechado o negócio.
Sedutor nato, envolto em mistério e cheio de manhas, Wheller logo enreda Emily –que desde o início ostenta adjetivos entre ‘frígida’ e ‘travada’ –numa espécie de jogo de provocação, identificando muitos dos desejos ocultos dela; alguns deflagrados por uma cena de sexo que ela testemunhou no tal edifício antigo envolvendo um casal de negros (a mulher particularmente é estupenda!).
Engana-se, todavia, aquele expectador que deduzir que eles logo partem para os finalmentes –protelar, ao menos em seus primeiros trabalhos, parece ser o maior joguete de King –Wheller, na realidade, tem ao que parece um bloqueio emocional (nunca devidamente esclarecido) onde não tolera ser tocado; daí sua incapacidade de consumar suas conquistas deixando as mulheres sempre em expectativa (algo um pouco parecido com o que é mostrado com o personagem principal de “Cinquenta Tons de Cinza”, mais de vinte anos depois). Dessa forma, impossibilitado de extasiar-se diretamente com um toque, Wheller resolve experimentar tal sensação indiretamente, através de Emily, levando ela a deixar-se seduzir por um outro turista americano (uma ponta meio cafajeste de Bruce Greenwood).
Ela se torna de tal forma uma obsessão para ele, que Wheller chegar a comprar o edifício antigo, interferindo nos negócios, apenas para mantê-la por perto mais algum tempo.
Entre floreios excessivos a pavimentar o caminho da sugestão até o fato, o filme de Zalman King oferece um erotismo pulsante e revelador quando é chegada a hora –uma pena o fato dele submeter o expectador a um considerável teste de paciência antes disso: Porque as noções cinematográficas de King como diretor são rudimentares e equivocadas (e não aparentam terem melhorado em trabalhos posteriores), porque o retrato que ele pinta das noites cariocas (assim como do carnaval) é tão bisonho que chega a resvalar na comédia involuntária e porque, salvo Jacqueline Bisset, os demais atores não mostram a menor veracidade em seus papéis, nem mesmo Mickey Rourke (que certamente iniciou sua decadência profissional com esta obra) ou Carré Otis, que se casaram na vida real depois deste filme, ainda que em cena não apresentem maiores compatibilidades.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Treze Dias Que Abalaram O Mundo

É curioso como os filmes que tenho escolhido, mesmo que sem essa intenção, acabam refletindo a situação atual: Foi assim com “Contágio”, foi assim com a minissérie “Chernobyl”, e é assim com “Treze Dias Que Abalaram O Mundo” –cada um deles, à sua maneira, evocava um aspecto desses dias incertos que vivemos.
Lançado em 2007, “Treze Dias...” representava um das inúmeras tentativas de reinvenção que a carreira de Kevin Costner experimentou ao longo dos anos. Vindo de dois fracassos homéricos de bilheteria e crítica nos anos 1990 –“Waterworld-O Segredo das Águas” e “O Mensageiro” –o astro aceitou dividir o protagonismo deste eletrizante thriller político (por anos incluso na lista de melhores roteiros jamais filmados a circular em Hollywood) que esmiúça o fato real da Crise dos Mísseis de Cuba –pano de fundo histórico usado em “X-Men Primeira Classe”.
Outubro de 1962. Sobrevoando Cuba, uma avião U2 da Força Aérea Norte-Americana registra fotos de uma atividade em solo cubano que os especialistas de Washington não tardam a identificar: São bases militares erguidas por soviéticos, construindo mísseis balísticos cujo local estratégico permite aos russos um ataque imediato em várias cidades no solo americano.
A Casa Branca fica alarmada e o presidente John F. Kennedy (vivido com precisão estudada por Bruce Greenwood) chama seus homens de maior confiança, seu irmão Bobby (Steven Culp) e seu principal assessor e melhor amigo Kenny O’Donnell (Costner). Os militares esperam que o presidente declare guerra contra a URSS, e que dê a ordem para a invasão de Cuba, no entanto, Kennedy e seus assessores estão cientes do perigo que ronda a situação.
A Primeira Guerra Mundial gerou condições sócio-políticas que terminaram deflagrando a Segunda Guerra Mundial, como ele bem leu no livro “Armas de Agosto”, e agora, poucas décadas depois, circunstâncias da guerra anterior empurravam novamente o mundo em direção à Terceira Guerra Mundial. Um ciclo vicioso que eles precisavam interromper com bom senso e diplomacia, caso contrário, a Humanidade não chegaria a terminar o Século XX.
Diante de indecisões, dilemas e uma pressão política absurda, Kennedy acata uma controversa sugestão do Secretário de Defesa Robert McNamara (Dylan Baker, de “Homem-Aranha 2 e 3”): Realizar um bloqueio marítimo em Cuba, impedindo assim os navios enviados da URSS com utensílios para que os mísseis fossem terminados e se tornassem operacionais.
A situação do bloqueio, porém, é extremamente desvantajosa e sujeita a toda sorte de erro humano –é, entretanto, a melhor alternativa entre as opções radicais que podem culminar numa bola de neve cujo desfecho será a guerra.
Diante disso, os EUA precisam obter o aval unânime das Nações Unidas (o quê eles conseguem!), e Kennedy, Bobby e O’Donnell precisam conter a sanha por combate de seus militares que inventam pretextos para levar ao conflito: Como sucessivos voos rasantes sobre as bases cubanas sob a justificativa de tirar novas fotos de reconhecimento –na verdade, os militares aguardam que um piloto americano seja abatido para poderem atacar Cuba.
Durante duas semanas, o mundo nunca esteve tão próximo de um verdadeiro apocalipse deflagrado pelos senhores da guerra; e para tanto, além do temor irreprimível dos personagens, o filme registra também a comoção pública, as prateleiras de mercado sendo esvaziadas por pessoas querendo estocar alimento em casa, as filas nas igrejas de fiéis querendo prestar suas últimas confissões –uma atmosfera muito familiar, não?
Conduzido pelo veterano Roger Donaldson (que dirigiu Kevin Costner em “Sem Saída” nos anos 1980), “Treze Dias...” é uma reconstituição eletrizante dos mais diversos aspectos ocasionados no gabinete presidencial durante aquele tenso episódio. Sua narrativa vale-se de muitas cenas documentais (perceptíveis, sobretudo, na resolução full HD) e de um aparato informativo extremamente rico que dá conta de dezenas de personagens pertinentes, além de um belo roteiro que amarra essa miríade de fatos e informações com admirável polimento dramático.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Doutor Sono

Dentre as inúmeras adaptações cinematográficas de Stephen King, “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, exerce um papel curioso: É abertamente repudiado por seu autor devido às liberdades drásticas tomadas por Kubrick em relação à obra original, ao mesmo tempo que é cultuado por cinéfilos do mundo todo como um dos grandes filmes de terror de todos os tempos.
Daí, portanto, a dificuldade na abordagem do diretor Mike Flanagan ao adaptar para cinema a sua continuação, “Doutor Sono” –continuação esta que, até há bem pouco tempo, pouca gente sabia que existia: Ser fiel ao trabalho de Stephen King, dando continuidade ao ‘seu’ “Iluminado” –cujo desfecho é completamente distinto do filme –ou manter-se próximo da obra de Kubrick?
Talvez por sua própria influência afetiva (não há dúvidas de que, por sua orientação no terror, Flanagan cresceu inspirado pelo filme), talvez pela lógica comercial (certamente, a grande maioria do público tem mais familiaridade com a história contada no filme que na do livro), Flanagan optou por fazer um filme que remete, em inúmeros sentidos ao trabalho primordial de Kubrick.
É, assim, com todo o sabor de continuação do filme de Stanley Kubrick (inclusive, com direito à referências explícitas, rimas visuais diretas, aproveitamento da trilha sonora e até de enquadramentos de câmera imediatamente relacionáveis), que o trabalho de Flanagan começa: Após os trágicos eventos no Hotel Overlook, o pequeno ‘iluminado’ Danny Torrance e sua mãe passam a morar na Flórida. Nos anos que se seguem, ele aprende a lidar com seu dom –que lhe permite ver seguidamente os fantasmas que o assombravam –o que não o impede de crescer transtornado. Com trinta e poucos anos, e já interpretado por Ewan McGregor que faz um excelente trabalho, Dan Torrance chega à cidadezinha de Frasier onde aparentemente encontra alguma paz em serviços comunitários e reuniões de abstêmicos.
Todavia, numa cadência pausada, paciente e minimalista que espelha a narrativa ampla e detalhada do livro de King, o filme (que, não à toa, atinge suas três horas de duração), desde seu início, acompanha outros personagens também: O grupo obscuro denominado o ‘Nó’; seres sobrenaturais e virtualmente imortais, cujos poderes e vida eterna são garantidos graças ao consumo constante do vapor que emana dos ‘iluminados’ quando morrem.
São como vampiros moldados dentro dessa mitologia concebida por Stephen King.
A líder deles, a mais poderosa e onisciente, é Rose (a sensacional Rebecca Ferguson, numa personagem cujo visual remete à falecida cantora do grupo “4 Non Blondes”, dos anos 1990) tão sedutora quando amedrontadora.
Sem pressa e sem intenção de evitar os inúmeros detalhes que povoam a premissa, o diretor Flanagan acompanha o protagonista e seus antagonistas por anos, numa introdução que se estende muito mais do que estamos habituados em cinema, quando então, é apresentada a personagem que fornece o gatilho real para a trama. A jovem Abra (Kyliegh Curran), uma das poucas ‘iluminadas’ –já que, por alguma razão, eles estão escasseando no mundo –detentora de um poder fenomenal; o que significa vapor mais que suficiente para saciar a fome que começa a levar os indivíduos do ‘Nó’.
Enquanto Rose tenta descobrir o encalço de Abra, ela estabelece um vínculo com Dan que achava ter deixado para trás os problemas acarretados por sua ‘iluminação’.
Contudo, Rose e o ‘Nó’ representam um perigo do qual ele terá de salvar Abra –e para confrontar Rose, ele precisa revisitar forças sobrenaturais que podem significar um perigo para ela também. Ou seja: Regressar até o Hotel Overlook, e submeter-se às mesmas assombrações (e memórias) de antes.
Nesse trecho final –quando nos transporta de volta à ambientação do filme original –o diretor Flanagan dá completa e absoluta vazão à sua admiração por Stanley Kubrick, emulando diversas sequências memoráveis de “O Iluminado”, com direito à recriação de algumas cenas –de forma até mais minimalista do que o próprio Steven Spielberg (amigo pessoal de Kubrick) já havia feito numa sequência de “Jogador Nº 1” –além da reescalação de novos atores para interpretar o também ‘iluminado’ Dick Hallorann (Carl Lumbly substituindo Scatman Crothers), a mãe Wendy Torrance (Alexandra Essoe substituindo Shelley Duvall) e até mesmo o pai Jack Torrance (Henry Thomas substituindo o insubstituível Jack Nicholson).
Uma carta de amor implícita à obra extraordinária de Stanley Kubrick, “Doutor Sono” usa de seus desdobramentos para, ao final, honrar seu autor, Stephen King, e manejar os elementos de forma à chegar até o desfecho que ele tinha, de fato, planejado para sua criação.
No final, o talento, o bom senso, e o profundo entendimento do gênero do diretor Mike Flanagan conseguiu respeitar e homenagear os dois gênios criativos por trás de “O Iluminado” –por mais que, durante um longo tempo, suas visões tivessem se mantido incompatíveis.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Doutor Sono

Crítica do amigo Fabricio Gurski
Quando falamos dos melhores filmes de terror já feitos, sou capaz de apostar minha alma por um bom uísque, que de cada dez, oito irão mencionar “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, pois, se trata de uma das maiores obras da história do cinema, mesmo por muito anos gerando controvérsia (devido à alardeada insatisfação do autor Stephen King com o resultado final).
Além de chamar a atenção pela direção e pelo roteiro primoroso do ícone do cinema Stanley Kubrick e contar com o astro Jack Nicholson, se trata de uma história baseado em um livro de Stephen King (mestre do horror na literatura), então quando se pretende adaptar para cinema a continuação literária desse que é um dos filmes mais emblemáticos da história, o que fazer com a ansiedade?
Controlar e esperar.
Foi anunciado o diretor Mike Flanagan para continuação (criador cuidadoso da excelente série “A Maldição da Residência Hill” e diretor de “O Sono da Morte”) e as expectativas foram só aumentando até chegar o último fim de semana, quando fui  ao cinema conferir o exemplar; e lhe digo meus amigos: Sensacional! O cuidado de Flanagan se repete cena a cena, assim como em seus trabalhos anteriores, criando uma atmosfera fantasmagórica, misteriosa e assustadora, muito desse clima impresso pela edição minuciosa com inspiração na obra de Kubrick.
O elenco todo muito afinado, assim como já esperado pelo quilate dos selecionados –Ewan McGregor; Rebeca Ferguson; Kyliegh Curran; Carl Lumbly; Zahn McClarnon; Bruce Greenwood.
Cenas marcantes, lindas, pesadas e emocionantes numa coleção de homenagens e criatividade, que fazem uma continuação belíssima da obra prima “O Iluminado”.
Aposto com vocês que, assim como antecessor, vai criar muita controvérsia, mas acima de tudo, será um filme lembrado por muito tempo. Não é uma mera coincidência, sim Flanagan se dedicou a fazer um filme de terror digno da obra de King e Kubrick, e me emocionou!
Então aposto um bom uísque, que temos mais um grande filme adaptado da obra de Stephen King.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O Vôo


Reconstituído com mais minúcia e fidelidade em “Sully-O Herói do Rio Hudson” (dirigido por Clint Eastwood, com Tom Hanks), o episódio em que a habilidade do veterano piloto salvou as vidas dos passageiros de um Boeing serviu de inspiração para este filme de Robert Zemeckis, lançado uns anos antes, onde ele regressou às narrativas mais realistas depois de quase uma década fazendo experiências em animações com captura de performance.
Aproveitando brilhantemente o fato de ser uma obra de ficção –e com esse expediente usar de suas ferramentas para surpreender o público –e basear-se apenas por alto no episódio real, “O Vôo” oferece, acima de tudo, uma oportunidade e tanto para Denzel Washington mostrar sua capacidade na plenitude de seu talento.
Ele é Whip Whitaker, um piloto já tão habituado ao seu compulsivo alcoolismo que tal vício lhe serve mais para ser socialmente desenvolto e profissionalmente destemido.
No acidente aéreo que ocupa os quinze minutos iniciais do filme –e que Robert Zemeckis elabora com virtuosismo acachapante –o vício etílico de Whip não surge como um problema, e nem o impede de fazer um pouso milagroso num campo aberto, salvando muitos passageiros quando todos podiam ter morrido.
Na verdade, se revela um problema mais tarde: Quando as investigações protocolares se iniciam, e a necessidade de um bode expiatório paira sobre corporações preocupadas como a construtora do avião, o alcoolismo de Whip, até então despercebido, ameaça torná-lo um alvo de severa punição. E alguns aliados como o amigo e consultor de vôo Charlie Anderson (Bruce Greenwood) e o relutante advogado Hugh Lang (Don Cheaddle) farão o possível para que os indícios do vício de Whip passem batidos no julgamento, a despeito do fato desconcertante de que o próprio Whip parece afundar cada vez mais nesse lamaçal.
Muito mais bem resolvido cinematograficamente, e bastante superior em termos de narrativa e realização do que “A Travessia”, o filme seguinte de Zemeckis, “O Vôo” talvez goze de tal posição em sua filmografia justamente por contar como seu ponto alto o fator humano (não somente Washington está magistral como também estão a linda Kelly Reilly, de “Sra. Henderson Apresenta”, e o grande John Goodman) na obra de um cineasta reconhecido pela atenção às vezes excessiva que ele dá às facetas técnicas de suas produções.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

The Post - A Guerra Secreta


Como em “Lincoln”, Steven Spielberg inicia “The Post” com uma poderosa cena de guerra (e nesse sentido, não há como superestimar o diretor que entregou a obra-prima “O Resgate do Soldado Ryan”) para então mergulhar num tipo completamente diferente de batalha.
A guerra do Vietnam segue seu curso controverso dividindo a opinião pública. O governo Nixon estabelece uma relação autoritária e intransigente com a imprensa como nenhum outro governo o fizera antes. É o princípio da década de 1970 quando o jornal The New York Times publica uma matéria bombástica: Um apanhado inicial de páginas –cuja origem é revelado no prólogo do filme, anos antes –que integra um estudo encomendado pelo então Secretário Norte-Americano de Defesa, Bob McNamara (Bruce Greenwood), sobre os rumos catastróficos tomados pela Guerra do Vietnam e que foram previstos por inúmeros especialistas a despeito da irredutibilidade do governo (e dos vários governantes que por ele passaram) em continuar enviando tropas americanas àquele combate.
O foco da narrativa de Spielberg, no entanto, nãos está nas pessoas de dentro do New York Times –que, quando muito, ganham a face mais ou menos reconhecível do ator Michael Stuhlbarg –mas, sim em seus concorrentes do Washington Post.
A editora Katharine Graham (Meryl Streep, soberba) se equilibra entre as melindrosas negociações com relutantes investidores –tão mais arredios por ver uma mulher à frente da empresa –o tenso e conturbado momento político –que termina fornecendo as mais inesperadas manchetes –e sua amizade genuína e longeva com o próprio ex-secretário McNamara –o que confere às suas decisões acerca das publicações um dilema a mais.
O redator-chefe Ben Bradlee (Tom Hanks, num papel que remete um pouco ao de “Ponte de Espiões”, sua colaboração anterior com Spielberg), junto de sua equipe. persegue por informações essenciais relativas ao envolvimento do governo dos EUA na situação do Vietnam, no que é sempre frustrado pela antecipação do pessoal do New York Times.
Entretanto, na segunda ocasião em que o jornal publica partes do estudo de McNamara, o New York Times recebe um intimidador processo da parte do governo dos EUA. Legalmente, os homens a serviço de Nixon os impedem de prosseguir com sua publicação.
Por uma ironia do destino, esse estudo, quase em sua totalidade, acaba indo parar nas mãos de alguns dos jornalistas do Washington Post, desejosos de perseguir a mesma fonte notável do New York Times.
Agora, porém, Katharine e o Washington Post como um todo têm um problema nas mãos: Devem publicar o estudo de McNamara dando prosseguimento à uma denúncia bombástica que o New York Times foi impedido de fazer, ou deve se omitir a fim de evitar um processo do governo Nixon, o quê poderia prejudicar sua própria funcionalidade como empresa e comprometeria seu futuro e o de seus funcionários.
Embora haja esse pano de fundo inescapavelmente político, o diretor Spielberg –cada vez mais hábil na condução de trama sérias, intrincadas e de linguajar elitista –molda um urgente e empolgante thriller sobre a importância da liberdade de expressão onde seu maior mérito é não somente lançar luz a uma história real brilhante e importante como também fazê-la completamente inteligível ao público, tornando cada guinada de sua história compreensível sem ser didática.
Ele ilustra brilhantemente a circunstância opressora de Katharine e sua constante tentativa de se impor com graciosidade num ambiente empresarial predominantemente masculino, bem como a busca incansável por transparência de Bradlee (aproveitando a oportunidade para capturar cada pérola da reunião em cena de Meryl Streep e Tom Hanks), enquanto registra, com economia louvável de maniqueísmo, os procedimentos adotados pelo governo Nixon durante essa crise optando por um genial desfecho onde termina seu filme no exato instante em que começa “Todos Os Homens Do Presidente” –uma reconstituição, por sua vez, do escândalo de Watergate, com o qual este filme de Spielberg tem imensa proximidade.
Talvez, o mais impressionante de tudo é que praticamente poucos meses antes de entregar um produto escapista e que, ao seu jeito, representa um marco na cultura pop (“Jogador N° 1”), o mesmo Spielberg teve o fôlego incansável para conceber um sério e poderoso thriller político no qual as concessões cada vez mais rasas da indústria pesam bem menos do que a força e o significado de sua história e mensagem: De que a imprensa, em sua obrigação para com o público, não deve e não pode se submeter à vontade de seus governantes.
Uma lição e tanto para a nossa condescendente mídia brasileira.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

O Doce Amanhã


O diretor e roteirista Atom Egoyan emprega aqui toda a peculiaridade com a qual uma parcela do público e da crítica passaram a enxergar o cinema canadense em meados dos anos 1990, em grande parte graças a obras estranhamente sofisticadas do próprio Egoyan (“Exótica”) e de outros realizadores como Denis Arcand (“O Declínio do Império Americano”, “Jesus de Montreal” e “As Invasões Bárbaras”).
Desse período em diante, o cinema canadense passou a inspirar uma dramaturgia de reflexão sobre a inadequação, sobre os fluidos conceitos de realidade e sobre as torções possíveis de uma experimentação narrativa.
O fato de Egoyam, aqui, elaborar esses princípios com habilidade e consciência artística foi reconhecido com uma indicação ao Oscar 1998 de Melhor Diretor –conquistado, por sua vez, por James Cameron e seu “Titanic”.
O grande Ian Holm vive Mitchell Stevens, um advogado cínico e desiludido que chega a uma cidadezinha do Canadá cujos moradores ainda estão em vias de se recuperar de uma tragédia: Um acidente com um ônibus escolar que matou várias crianças da região.
A intenção de Stevens é passar por cima de sua dor e propor-lhes um negócio lucrativo ao mover um processo judicial por negligência contra autoridades locais.
O filme de Egoyan oscila entre várias perspectivas, entrecortando inclusive a percepção de tempo (há acontecimentos que se passam bem antes, e outros bem depois do acidente) sempre registrando seus personagens com uma genuína tristeza: Dolores (Gabrielle Rose), a devastada motorista do ônibus na ocasião; os Walkers, cuja mulher, Risa (Alberta Watson), nutre um caso com Billy Ansell (Bruce Greenwood), pai de duas crianças mortas no acidente; Nicole (Sarah Polley), uma das sobreviventes e peça fundamental no desenlace do processo; e mesmo o próprio Mitchell, que tem na filha, viciada em drogas, sua própria fonte de angústia.
Como fez David Lynch em “Twin Peaks” e no primordial “Veludo Azul”, Egoyan usa desse expediente para vislumbrar facetas de sordidez por trás das convenções da pequena comunidade, como adultério e até mesmo incesto, administrando esses detalhes sombrios com uma abordagem dúbia e desconcertante.
O livro de Russell Banks no qual se inspira é uma observação da conciliação em contraponto ao inconformismo natural que se segue ao luto, e essa idéia até se encontra presente no filme, embora o roteiro escrito também por Egoyan passeie por outras considerações –ele utiliza os versos do poema “O Flautista de Hamelin” como uma forte alegoria que dá um eixo em torno do qual as reflexões existenciais da narrativa giram, observando, dessa forma, a dor dilacerante de adultos cujas crianças (e a inocência em última instância) foram irreversivelmente arrancadas de suas vidas.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Kingsman - O Círculo Dourado

Durante algum tempo, o diretor Matthew Vaughn evitou envolver-se em continuações. Embora tenha entregue filmes extremamente bem-sucedidos, ele não esteve na continuação do ótimo “Kick Ass-Quebrando Tudo”, nem na seqüência do igualmente ótimo “X-Men Primeira Classe”. Essa postura só veio a mudar quando ele resolveu encarar também este “Círculo Dourado” que vem a dar seqüência ao seu divertidíssimo “Kingsman-Serviço Secreto” –talvez, influenciado pela queda de qualidade ocasionada nas continuações de suas próprias obras, em especial, em “Kick Ass 2”.
Como em “Kick Ass”, “Kingsman” partia de uma história em quadrinhos escrita por Mark Millar. Uma redefinição dos conceitos tradicionais de agente secreto ao estilo James Bond, mas transfigurada com elementos muito atuais, como a avançada tecnologia, a ultra-violência, além do cinismo e do sarcasmo que tão bem definem os jovens.
Na continuação, Vaughn não faz a menor questão de fugir desses elementos: “Círculo Dourado”, em todos os aspectos possíveis, dá continuidade natural ao que foi visto em “Serviço Secreto”: Eggsy (o ótimo Taron Egerton) evoluiu de agente em treinamento (no primeiro filme) para um dos poucos agentes da Kingsman em atividade (lembre-se que a maioria morreu!). Seu rival durante o treinamento, o almofadinha Charlie Hesketh (Edward Holcroft) retorna como um dos vilões e surge, já na primeira cena, para dar dor de cabeça ao herói –uma cena insana e eletrizante de ação, diga-se, daquelas que poucos realizadores, como Vaughn, são capazes de orquestrar.
Também a princesa Tilde (Hanna Alström), vista brevemente no filme –e num rápido take, já no final, surpreendente e revelador –agora aparece aqui como namorada séria de Eggsy; essa manobra provavelmente foi uma forma de responder a algumas críticas que apontaram o primeiro filme como excessivamente machista (embora a objetificação da mulher seja uma característica constante também neste segundo filme).
Já confortável na função de agente da Kingsman –uma organização inglesa de espionagem avançada –Eggsy descobre uma ameaça tremenda na forma de Poppy Adams (Julianne Morre, se esbaldando no papel), uma mega-traficante de drogas profundamente frustrada com o anonimato que sua ocupação impõe ao seu serviço –que ele sabe executar com sucesso inquestionável. Disposta a obter o reconhecimento como uma das mulheres mais poderosas do mundo, ela engendra um plano para chantagear o presidente dos EUA (uma ponta de Bruce Greenwood cheia de crítica e acidez) obrigando-o a legalizar todas as drogas.
Psicótica e implacável, ela trata de tirar de seu caminho os possíveis obstáculos, no caso, os agentes da Kingsman que são dizimados num atentado destruidor –e, diferente do filme anterior, agora todos morrem! Todos, não: Apenas Eggsy resta vivo (ele estava, por acaso, jantando com os pais da namorada!) e o analista Merlin (Mark Strong) –isso obriga os dois a procurar apoio e recursos entre os Stateman, a contraparte americana da Kingsman, capitaneados por Champ (Jeff Bridges) e que incluem Ginger (Halle Berry), Uísque (Pedro Pascal, de “A Grande Muralha”) e Tequila (Channin Tatum).
Junto com os aliados da Stateman vem também uma revelação: Gallahad (Colin Firth, sempre digno), o mentor de Eggsy morto no filme anterior está vivo! –e infelizmente, graças ao desleixo do departamento de marketing essa revelação não é surpresa pra ninguém já que o personagem aparece em todos os trailers e pôsteres.
Talvez a maior surpresa deste novo “Kingsman” seja assim a honorável e hilária ponta de Elton John.
Há muito da competência de Matthew Vaughn trabalhando em prol da diversão, mas ele não escapa aqui de inúmeras armadilhas oriundas justamente –vejam a ironia! –do fato de estar fazendo aquilo qual até então tentou fugir: Uma continuação.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O Lugar Onde Tudo Termina

Um personagem. Um motociclista. De índole tão inconseqüente e auto-destrutiva que, de início, sabemos que ganha a vida arriscando-se em apresentações num globo da morte. Esse é o estopim narrativo que principia este trabalho do diretor Derek Cianfrance, mais ambicioso do que o elogiado “Namorados Para Sempre” –ou “Blue Valentine” –tornando aqui a trabalhar com o ator Ryan Gosling, intérprete justamente desse personagem, Handsome Luke, e dele arrancando uma notável atuação.
Na interpretação de Gosling, Luke desafia o público: Dentre os vários personagens é, de longe, aquele que mais monopoliza o expectador, apesar de tudo que ainda virá, ele obtém facilmente sua afeição, embora cometa o tempo todo atos que não o fazem merecedor.
Que o diga Romina (interpretada por Eva Mendes) uma antiga aventura que Luke descobriu carregar um filho seu.
Disposto a arcar com a paternidade, Luke entra em atrito com o então marido de Romina, Kofi (Mahershala Ali, de “Moonlight-Sob A Luz do Luar”), e termina associando-se ao escuso Robin (Ben Mendelsohn, de "Rogue One”) com quem envereda para o crime, assaltando bancos.
Por sua personalidade e por sua necessidade, esses serão atos que ele não será capaz de interromper.
Em algum momento, portanto, o caminho de Luke cruza-se com o do policial Avery Cross (Bradley Cooper, ótimo) e então o filme o abandona, por assim dizer.
Num recurso bastante inesperado, é Avery quem assume o centro da trama quando o filme já abandona seu primeiro ato e, embora os elementos do plot anterior jamais sejam esquecidos, a obra de Cianfrance, em alguns momentos, parece ter se metamorfoseado num outro filme, desta vez acerca das aflições de um jovem policial ambicioso cercado de corrupção por todos os lados.
Mais a frente, com habilidade inata, também essa premissa irá se modificar, restabelecendo o caráter humano de sua história.
Dito isso, é realmente notável como a narrativa transfere com surpreendente naturalidade o protagonismo de um personagem para o outro (primeiro, Ryan Gosling, uma lembrança que persiste por todo o filme; depois, Bradley Cooper; e, por fim, o jovem Dane Deehan) numa trama sobre culpa, destinos que se entrecruzam e conseqüências do passado, que se estende por décadas.
Neste filme, assim como no anterior “Blue Valentine” e no posterior “A Luz Entre Os Oceanos”, o diretor Derek Cianfrance demonstra grande interesse por laços familiares que se formam por caminhos tortos, bem como o sinuoso e corrosivo efeito que eles desenvolvem nas vidas dos envolvidos ao longo dos anos.
A maneira hábil com que ele consegue compreender tais desdobramentos dramáticos e a forma certeira e talentosa como os expressa em cena é o grande brilho deste filme.

sábado, 10 de setembro de 2016

Star Trek - Além da Escuridão

A segunda incursão de J.J. Abrahams na famosa saga trazia a pressão de superar o primeiro filmes, que satisfez bastante os fãs antigos e os não-iniciados.
E Abrahams foi bastante esperto e sábio ao conceber este novo filme, não só por concentrar-se na figura bastante popular do vilão Khan (um dos antagonistas mais louvados pelos fãs da série), rimando bastante com a estrutura dos filmes clássicos de cinema, dois quais o segundo exemplar também trás a presença de Khan, mas também por escolher com precisão e austeridade do intérprete desse personagem: O magnífico Benedict Cumberbath (que na época gozava de uma aclamação um pouco restrita por sua ótima personificação do protagonista da série inglesa “Sherlock”).
Após uma audaciosa operação para salvar a vida de moradores de um planeta instável e fora da Federação dos Planetas Unidos, o capitão da U.S.S.Enterprise, James Kirk (Chris Pine, muito mais à vontade no papel, a exemplo de todos os outros atores), é removido de seu posto. Sua patente só lhe é restituída, porém, quando a própria Federação sofre um ataque promovido pelo desconhecido Khan (Cumberbath, elevando o nível do filme com seu vilão sensacional), que após matar, entre outros, o comandante Pike (Bruce Greenwood), refugia-se no planeta Kronos, no sistema dominado pelos Klingons. Para vingar a morte de seu mentor, Kirk terá de ir lá, e arriscar-se a envolver toda a Federação em uma guerra.

Dessa forma, o diretor J. J. Abrahams dá continuidade à sua notável reformulação de "Jornada Nas Estrelas" (agora "Star Trek") com um filme melhor e mais sombrio, agora brincando com ótimas referências à série clássica de TV e ao longa "Jornada Nas Estrelas - A Ira de Khan".

Star Trek

Em meados de 2009, a icônica saga “Jornada Nas Estrelas” começava a pedir uma repaginação, com seu elenco original já sexagenário, e a glória e sucesso dos filmes de cinema (oriundos da célebre série de TV), lembrados numa longínqua década de 1980.
A Paramount incumbiu, então, o bem-sucedido J.J. Abrahams de reformular a franquia, dando a ela novas caras, novas direções, e uma nova abordagem para toda uma nova geração, sem esquecer claro o fundamental respeito a um material tão amado pelos fãs, e pelo legado do criador Gene Rodenberry.
“Star Trek” –preservado o título original –é, portanto, um esforço criativa dos mais louváveis no sentido de honrar tudo o quê antes foi feito, e ao mesmo tempo, valer-se da premissa e dos personagens para se realizar ao novo em folha. E seu bom resultado é um testemunho ao talento e à competência de Abrahams.
A escolha do elenco, como não podia deixar de ser, foi um trabalho minucioso e preciso: O jovem Chris Pine, substituindo William Shatner, como Cap. James Kirk; Zachary Quinto, no lugar de Leonard Nimoy (que faz uma ponta ilustre) como Senhor Spock; a bela Zoe Saldana (que se tornaria uma atriz assídua em filmes de ficção científica com sua participação também em “Avatar” e “Guardiões da Galáxia”) como Uhura; John Cho como Sulu; Anton Yelchin como Chekov; e Simon Pegg como Montgomery Scott.
No vôo inaugural da Nave USS Enterprise, vemos assim, essa inusitada e familiar tripulação se formar quando por acaso, a nave se vê envolvida os planos de vingança do romulano Nero (um vilanesco e eficiente Eric Bana). Contudo, Nero veio do futuro, e sua presença cria uma espécie de bifurcação no tempo, originando uma nova realidade alternativa: E nessa sacada de gênio, Abrahams consegue manter intactos todos os acontecimentos que abrangem as produções com o elenco original, enquanto obtém liberdade para seguir em frente com este novo elenco.
Nem tudo, porém, são flores nesta reinvenção da franquia conhecida por "Jornada Nas Estrelas": Ao mostrar a "origem" de personagens icônicos como o Capitão Kirk, o Senhor Spock e muitos outros, o diretor e seus atores não escapam da sensação de que estão ‘pisando em ovos’ e muitas vezes ostentam uma superficialidade às vezes irritante, sobretudo quando o roteiro explora algumas dinâmicas de relação entre certos personagens.
Quando o filme mergulha em questões mais práticas –a tensão das batalhas, as táticas de combate e o militarismo implícito na premissa –o filme parece ganhar mais descontração.
Pode-se dizer que este primeiro “Star Trek”, como espetáculo comercial, e sobretudo em função da catástrofe que poderia ter sido, cumpre seu papel: O elenco mais jovem, e no geral todos bastante parecidos com os atores originais, dá uma nova roupagem aos clássicos personagens, dando ênfase à rivalidade inicial, e posterior amizade, que se forma entre Kirk e Spock.
Era o início de algo, que viria a melhorar muito nos filmes seguintes.