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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Incontrolável


 Baseado em fatos reais – o incidente do trem CSX 8888 transcorrido no estado de Ohio, no dia 15 de maio de 2001 – “Incontrolável” foi o último trabalho do falecido diretor Tony Scott (irmão mais novo de Ridley Scott), enaltecido por Quentin Tarantino como um dos melhores filmes daquele ano de 2010 (Tony Scott e Tarantino trabalharam junto no cult-movieAmor À Queima-Roupa”).

Sucedido num único dia, o enredo do filme tem início quando dois idiotas (interpretados por T.J. Miller, de “Cloverfield”, e Ethan Suplee, de “A Outra História Americana”, atores realmente habituados a interpretarem idiotas!) cometem uma série de pequenos deslizes que culminam, pouco a pouco, numa calamidade: Logo de manhã, no início do expediente, identificam um defeito a ser corrigido nos freios de emergência da imensa locomotiva deixada sob sua responsabilidade (“Deixe como está! Ao voltarmos para o pátio consertamos esse problema!”); em seguida, quando o personagem de Ethan Suplee é deixado sozinho conduzindo a máquina (que levava uma carga desconhecida mas consideravelmente pesada de 47 vagões), eis que tem a ideia de jerico de acionar os freios manuais (que não paravam o trem, mas mantinham uma velocidade baixa) e sair da locomotiva (!) para correr a pé na frente da máquina e mudar pessoalmente o engate dos trilhos, desviando o trem para o rumo correto. No entanto, ele se esqueceu (ou, de repente, nem sabia!) que no caso de uma carga com tanto peso, a velocidade necessária para manter o motor funcionando impede que os freios fiquem acionados por muito tempo – ele ainda estava correndo fora do trem quando os freios automaticamente se desligam e a máquina começa a avançar mais e mais rápido.

Não há tempo de alcança-la – até porque o idiota tropeça e cai!!!

Quando a supervisora do funcionamento de toda a complexa rede ferroviária local Connie Hooper (Rosario Dawson) é alertada, inicialmente, sua reação é manter a calma, ela sabe, afinal, que locomotivas são projetadas para acionar automaticamente seus freios de emergência a partir de determinada velocidade – o problema é que os freios de emergência não foram consertados (lembra do começo do parágrafo anterior?) e agora, a locomotiva desgovernada não tem nada que consiga pará-la.

Ao verificar qual é o conteúdo de seus vagões, um outro problema – o trem levava toneladas de Fenol Fundido, um material tóxico e altamente inflamável, e em seu trajeto quando, em poucas horas chegar na cidade de Stanton, na Pensilvânia, uma curva fechada pode fazê-lo descarrilar (na verdade, na velocidade em que se encontra o descarrilamento é certo!) e mandar a cidade inteira pelos ares.

São dois meros funcionários da ferrovia que se tornam inadvertidamente os heróis dessa quase catástrofe: O veterano Frank Barnes (o sensacional Denzel Washington, em sua quinta colaboração com o diretor Scott) e o novato Will Colson (Chris Pine), por sinal, em seu primeiro dia de trabalho naquele turno. O humor dos dois não se encontra no melhor estado – semanas antes, devido à gravidez da esposa Will não havia aderido a uma greve sugerida pelo sindicato e, por causa disso, Frank está para se aposentar com o que ele considera um salário insuficiente – e, enquanto os dois lutam contra a animosidade mútua, o destino os coloca como uma frágil esperança para evitar o pior: Depois de diversas tentativas – uma locomotiva se colocando a frente da máquina desgovernada tentando pará-la com seus próprios freios, o que não funcionou; e até uma tentativa de forçar um descarrilamento que também não funcionou (àquelas alturas o trem desgovernado estava numa velocidade grande demais) – o Centro de Controle Ferroviário descobre que a máquina de Frank e Will, naquele ponto já sem nenhum vagão, está nos trilhos em rota de colisão com o trem desgovernado! Eles têm uma chance de escapar por um triz entrando numa linha adjacente, mas Frank tem um plano ainda mais ousado – ele quer voltar de marcha ré, engatar sua própria máquina no último vagão da máquina desgovernada, e puxá-la para trás, forçando sua velocidade a diminuir, e com isso, evitando a catástrofe em Stanton.

Roteirizado com brilhantismo – as questões notáveis do funcionamento ferroviário são expostas e esclarecidas através de diálogos espertos e pontuais, e as circunstâncias trabalhistas ajudam a aprofundar os personagens – e oferecendo ao público um senso de ação e espetáculo que cresce gradualmente, este belo trabalho de Tony Scott dá uma ótima ideia ao público do excelente diretor que ele era – sempre orientado por uma inclinação contundente ao cinema comercial (ainda mais do que seu irmão mais velho), mas plenamente capaz de organizar os elementos desse mesmo cinema para a construção de um produto salutar, vibrante e sólido, como este aqui.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Os Últimos Na Terra


 Há uma visão que persegue inúmeros autores no sub-gênero da ficção científica distópica e pós-apocalíptica: Nessa visão persistem, num conflito moral e existencial, três protagonistas (um negro, um branco e uma mulher) a lidarem com os esmagadores sentimentos que a solidão e a obliteração da civilização lhes impôs. O encontro de tais personagens, aparentemente, ressuscita o microcosmos de intolerância que sempre norteou as instintivas ações do ser humano.

Pode parecer uma hipérbole, mas, em torno dessas circunstâncias se construíram obras como o neo-zelandês “Terra Tranquila” e o clássico “O Diabo, A Carne e o Mundo”. Cada um desses –e mais o livro homônimo “Z for Zachariah”, de Robert C. O’Brien –serve de base para o argumento, escrito por Nissar Modi, deste filme. Seu início –e, por que não, todo o desenvolvimento do resto... –segue uma linha à qual a ficção científica já habituou seus expectadores: As cenas iniciais mostram cidades norte-americanas abandonadas em sua exuberante desolação, qual as cenas já famosas do ótimo “Eu Sou A Lenda”. A personagem vestida e isolada dos pés à cabeça que perambula esses escombros, logo descobriremos, é a jovem Ann (Margot Robbie, então conhecida apenas por sua participação em “O Lobo de Wall Street”). Descobrimos também que é a radiação o grande mal que selou o destino da maior parte dos seres humanos. Habitante de regiões interioranas deste antes da tragédia, Ann mora numa fazenda localizada em um vale montanhoso, e lá, por uma série de favoráveis circunstâncias geográficas, ela se manteve segura. E solitária.

Suas incursões no mundo colapsado e sem vida à qual a civilização foi reduzida se dão em busca de comida (cada vez mais escassa) e mediante todas as devidas precauções –os sobreviventes, se é que existem, são pessoas contaminadas, doentes e desesperadas, que podem atacá-la. Em algum lugar, ela acredita, pode estar seu irmão mais novo, que saiu de casa pouco antes de tudo acontecer. Certo dia, contudo, outro sobrevivente cruza o caminho de Ann: O engenheiro pesquisador John Loomis (Chiwetel Ejiofor), depois de uma árdua caminhada dentro de um exaustivo traje de proteção, encontra o caminho até o vale e se banha nas águas do riacho próximo.

Ann o adverte a tempo de que as águas veem de fora do vale e, portanto, estão contaminadas com radiação. Ele se salva por muito pouco, adoece, e acaba padecendo por dias a fio antes de se curar. Durante todo esse tempo, Ann, que era filha do pastor local, reza pela sua melhora, ávida que estava por um mínimo de companhia humana.

John, porém, é mais arredio que ela. Sua aproximação é hesitante, cautelosa e bem pouco afetiva, para desânimo dos expectadores que esperarem uma expressão maior de romance –o que torna a escalação da lindíssima Margot Robbie algo um tanto contraditório e absurdo em relação à essa marcha engatada pela narrativa. Em grande medida, a justificativa para essa relutância sentimental é porque John é negro, e Ann, é branca.

É o terceiro vértice desse triângulo que trará sentimentos mais urgentes à relação: Lá pelas tantas aparece, como quem não quer nada, o matuto Caleb (Chris Pine). Embora abertamente obsequioso e pretensamente humilde, Caleb é voluntarioso, cheio de charme, e partilha com Ann, várias características que a diferenciam de John: Foi morador da mesma região quando menino, é devoto da mesma religião e das mesmas orações que Ann (enquanto que John só consegue esboçar seu desconforto com a fé da moça) e, para complicar, é branco!

Diante dessas questões, e da desvantagem clara, John até tenta abrir mão da mal-esboçada relação que construíra antes com Ann, mas a chegada de Caleb só evidenciou o quanto a jovem se tornou importante para ele.

Pouco interessado nas questões que levaram o mundo à uma derrocada, o filme dirigido com contenção e contemplação por Craig Zobel prefere se concentrar nas pequenas tensões, oriundas dos mínimos detalhes, a nascer entre esses personagens, todos eles, apresentando índoles distintas que conduzem à disputas, embates e discussões de natureza íntima, ancorando essa premissa no profissionalismo dos três atores em cena –dentre os quais, facilmente se destaca Margot Robbie. Algo dessa introspecção remete ao excelente “A Estrada”, de John Hilcoat, na maneira com que justapõe o comportamento e a moralidade do ser humano com a consciência de um mundo, e uma civilização, portanto, que não existem mais.

O desfecho de “Z For Zachariah” para suas celeumas intimistas e dramáticas é apropriadamente elíptico sugerindo a barbárie germinando na índole mais improvável, impelida por todas as condições favoráveis; há uma diferença, afinal, entre viver e sobreviver.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Mulher-Maravilha 1984


 O fato deste segundo filme da heroína da DC Comics ser radicalmente diferente, em proposta e atmosfera, à obra anterior parece ter gerado polêmica entre o público –uns adoraram; outros simplesmente repudiaram o resultado. A verdade é que, em tudo e por tudo, “Mulher Maravilha 1984” rema contra a corrente de austeridade apresentada no primeiro filme.

Se “Mulher Maravilha” era uma bem amarrada trama de origem (além de um satisfatório exemplar de qualidade a brotar em meio aos duvidosos títulos cinematográficos da DC), “1984” –ao menos, antes de seu lançamento –era visto como uma produção que poderia colocar nos trilhos a cronologia daquele universo de super-heróis: Recapitulando algo bastante confuso, já haviam os filmes solos do Superman, da Mulher-Maravilha, do Aquaman, do “Shazam!” e da Arlequina (o insano “Aves de Rapina”), além de “Batman Vs Superman”, “Esquadrão Suicida” e “Liga da Justiça” –esses três últimos terrivelmente mal recebidos por público e crítica.

O sinal vermelho de fracasso comercial acendeu nos estúdios da Warner e algumas providências foram tomadas: Iniciou-se a produção de um novo filme do Batman, desta vez vivido por Robert Pattinson e não por Ben Affleck; James Gunn (de “Guardiões da Galáxia”, da Marvel) foi contratado para realizar o que parece ser um reboot de “Esquadrão Suicida”; e nesse ínterim, foi lançado (e aclamado) um filme do “Coringa” estrelado por Joaquim Phoenix (e não por Jared Leto, seu intérprete em “Esquadrão Suicida” e “Liga da Justiça”).

Foi durante essa indefinição que “WW 1984” foi realizado. E pelo fato do filme surgir em meio à essa incerteza quanto à cronologia canônica desse universo, aliado ao fato dele não se ambientar no presente, mas na década de 1980, muito se especulou que seria ele quem daria o pontapé inicial a uma reformulação na cronologia DC, apagando tudo o que deu errado e dando origem às novas linhas narrativas que seguiriam a partir daqui (como o novo Batman e o novo Esquadrão Suicida), o que gerou uma certa expectativa ao projeto.

E muita expectativa, como se sabe, não faz bem a um filme. Especialmente quando o que se entrega é uma obra que não corresponde, em nada, aos anseios de seu público.

Inciando, como o título já diz, em 1984 –esqueça qualquer referência à “1984 de Orwell” –o novo filme protagonizado por Gal Gadot (de longe, a melhor coisa do filme, léguas a frente de todo o resto) mostra Diana Prince vivendo em meio à humanidade com bastante discrição, buscando ocultar seus poderes prodigiosos e o fato de que ela é praticamente uma imortal.

Aqui e ali, Diana comete alguns atos de heroísmo enquanto ainda lamenta a morte de seu amado Steve Trevor (Chris Pine) ocorrida no filme anterior, na época da Primeira Guerra Mundial.

Surge então, no museu em que Diana trabalha –ao lado da desengonçada Dr. Minerva (Kristen Wiig) –uma pedra misteriosa imbuída do poder dos deuses, capaz de realizar qualquer desejo, cobrando um preço sempre traiçoeiro por tal pedido.

Para Diana, ela realiza o desejo de ter seu amado Steve de volta –levando-o a assumir o corpo de um desconhecido (!?) –para Minerva, ela atende ao pedido de tornar-se tão hábil, poderosa e forte quanto Diana; e para cada vontade realizada, há um porém: Diana, em troca de seu amor, vai perdendo seus poderes, Minerva, por sua vez, perde sua humanidade, convertendo-se cada vez mais na vilanesca Mulher Leopardo.

As coisas esquentam, porém, quando entra em cena Maxwell Lord (interpretado com destreza por Pedro Pascal) cujo desejo é, nada mais nada menos, ter os poderes da própria pedra! Ou seja: Ele é capaz de realizar os desejos de qualquer um, e definir o que vai deles tomar para benefício próprio. Cheio de lábia, Lord ainda consegue manipular as pessoas que encontra, levando-os a desejar aquilo que ele próprio almeja de antemão.

E nesse aspecto –nos antagonistas desenhados com propriedade –“WW 1984” encontra o único quesito no qual supera o filme anterior e sua insatisfatória caracterização do vilão Ares. Em tudo o mais, “1984” soa tão incrivelmente desleixado que parece até inacreditável que seja a mesma e competente Patty Jenkins a capitaneá-lo: Embora hajam diversos elementos interessantes que poderiam ter rendido um filme inteligente e vibrante –a forma como a premissa afunila suas problemáticas ao mostrar o caos quando todos têm seus desejos mais profundos realizados é um achado –a trama é contada com irrelevância, gastando um tempo desnecessário com sequências banais, como aquelas em que Steve Trevor tenta se inteirar do período futurista (para ele) em que acabou reencarnando.

Na verdade, eis o grande problema que Patty Jenkins adquiriu com este trabalho (e que ela precisa aprender a controlar em suas realizações futuras): Os vícios de linguagem por meio dos quais uma cena, ou um aspecto do roteiro, acaba ganhando demasiada e enervante elaboração, passando do ponto –em alguns momentos esse estilo que ela adotou (e que talvez tivesse a intenção de refletir a afetação da década de 1980) lembra muito os exageros de Michael Bay, cuja falta de noção e percepção entre momentos de clímax e baixa voltagem representa uma das maiores auto-sabotagens em sua obra.

“WW 1984” poderia ser relevante, emocionante e festivo, mas ao invés disso, é acomodado, cansativo e insosso. Graças a Deus que Gal Gadot está lá para com seu encanto fora do comum disfarçar boa parte desses imbróglios.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A Qualquer Custo

A melhor atuação de cinema do ator Chris Pine se dá nesta espécie de faroeste contemporâneo, ambientado nos tempos atuais, mas definido por todos os arquétipos e artifícios narrativos que compõem os grandes trabalhos daquele gênero.
Pine não está, nem de longe, isolado nessa excelência –magníficos também estão Ben Foster (com quem Pine filmou a aventura “Horas Decisivas”), no papel de seu irmão instável, e o sempre espetacular Jeff Bridges, como o providencial homem da lei no encalço dos criminosos.
Os irmãos Toby (Pine) e Tanner (Foster) possuem um plano que colocam em prática após a morte da mãe. Inicialmente pouco claro, esse plano, à medida que o grande filme do diretor David Mackenzie avança rumo ao seu intenso desfecho, vai se esclarecendo perante o expectador que começa até mesmo a simpatizar com esses personagens com a chegada dessas novas informações.
Eles roubam bancos. De forma austera, meticulosa e sem rompantes: Esperam as agências abrirem da manhã, recolhem somente do troco que existe nas gavetas (nada de grandes quantias ou notas marcadas), estritamente não roubam das pessoas que lá estão. Eles têm um propósito.
Ocasionalmente, o equilibrado e inteligente Toby precisa conter –e nem sempre consegue fazê-lo –o ímpeto criminoso e até homicida de Tanner (detalhe que os afastou por algum tempo, quando o próprio Tanner cumpriu pena na cadeia).
Eventualmente, suas ações chamam a atenção da polícia, e os oficiais enviados na sua cola são o xerife em vias de se aposentar Marcus (Bridges, num papel que mescla o cinismo decadente de seu personagem em “Coração Louco” com os maneirismos peculiares do cowboy de “Bravura Indômita”) e seu parceiro meio comanche meio mexicano Alberto (Gil Birmingham). A relação entre os dois é um adendo de constante humor inteligente na narrativa: São notáveis as farpas preconceituosas e ferinas –não, contudo, destituídas de algum carinho –de Marcus dirigidas à Alberto. E são também essenciais para com os rumos que o filme tomará em seu desenlace.
A prodigiosa intuição investigativa de Marcus logo o colocará em rota de colisão com a prudência astuta de Toby e o fervor irrequieto de Tanner quando o plano dos dois irmãos estiver prestes a se concluir –um plano que, de uma maneira torta, visa fazer justiça à negligência com que a classe média baixa é tratada pelo sistema bancário no sul do Texas –e então os maiores e melhores paradigmas no faroeste são assim empregados no desenlace de uma narrativa formidável.
Sem inovações, mas fazendo brilhantemente o que se presta a fazer, “A Qualquer Custo” é pois um apanhado de pontas inicialmente soltas cuja habilidade com que são unidas pelo roteiro e pela direção responde pela grande qualidade do filme, culminando na cena final (Que cena! Que cena!), onde antagonistas se justapõem naquela simetria ímpar que os enquadramentos do gênero permitem, e colocam as cartas na mesa a cerca de quem são e qual seu propósito.
Um momento brilhante que une respeito, honra e coragem na oposição entre a lei e o crime, e na facilidade circunstancial que esses fatores têm de se imbricar e se confundir.
Uma grande cena entre as muitas que este filmaço oferece.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Horas Decisivas

Belamente conduzida pelo talentoso diretor Graig Gillespie (de “Lars And The Real Girl” e a refilmagem de “A Hora do Espanto”), esta produção tem toda uma roupagem e um esforço artístico na tentativa de emular um filme de antigamente, com todos os trejeitos e aspectos das produções à moda antiga: Não apenas os figurinos e a direção de arte se esmeram nesse objetivo, como também a própria postura narrativa resgata elementos de um cinema mais antiquado e não menos charmoso, com takes mais prolongados do que o habitual, onde é capturada –enquanto é possível –a sutileza da encenação, assim como a maneira com que os atores (como Chris Pine, Casey Affleck e Ben Foster) são orientados a entregar uma atuação de mais languidez e lentidão gestual.
Chris Pine, aliás, é o tipo de ator cujo semblante clássico de bom-mocismo convence como alguém que pertence à uma época antiga; prova disso é o seu bom trabalho como Steve Trevor em “Mulher Maravilha”.
Não é à toa, pois tudo o que vemos em cena pertence realmente à outra época: O ano de 1952.
O inverno se abate sobre a costa de Cap Cod, região da Nova Inglaterra onde trabalham os guardas navais Bernie Webber (Pine), Richard Lievesey (Foster) e Andy Fitzgerald (Kyle Gallner). Eles são designados, ao lado do voluntário Ervin Maske (John Magaro), por seu comandante, o capitão Cluff (Eric Bana) a usar um barco de pequeno porte e tentar encontrar a localização do S.S. Pendelton, enquanto todos os outros barcos da guarda costeira se ocupam do resgate à outro barco, o Fort Mercer, que acidentou-se em outro lugar.
Mas, a situação do Pendelton é extremamente periclitante: Partido ao meio devido à força do mar bravio, a embarcação obrigou seu engenheiro, Ray Sybert (Casey Affleck), à uma decisão desesperada –fazer com que o barco encalhasse num banco de areia, retendo por algum tempo seu afundamento e permitindo esperar por socorro; os botes salva-vidas revelaram-se inviáveis naquele mar intempestivo.
Neste trecho, quando a narrativa sem pressa de Gillespie já chegou quase à metade de sua duração, o filme revela outra faceta, menos envolvente, porém certamente mais comercial: A do filme de aventura marítima vislumbrado pelo estúdio, que lembra bastante, diga-se, a produção “Mar Em Fúria”, com George Clooney, inclusive ostentando o mesmo uso imodesto de efeitos visuais que recriam, com eficácia, a impressão alarmante de se ver jogo em meio à uma tempestade de vento e água.
Bernie e seu pequeno grupo, para desespero de sua noiva Miriam (a bela Holliday Grainger, da série “Os Bórgias”), decidem enfrentar as tormentas inacreditáveis do mar revolto e encontrar a embarcação naufragada. O problema: O pequeno barco que possuem abriga somente doze pessoas, e os sobreviventes do Pendelton contam trinta e dois (!).
“Ou todos viveremos! Ou todos morreremos!” argumenta Bernie, convicto de que deve tentar salvar e levar à terra firme cada um deles.
Esse gesto levou ao que é, até hoje, considerado o maior resgate naval em um barco de pequeno porte de toda a história da guarda costeira norte-americana, como atesta a história real na qual este belo filme é baseado.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulher-Maravilha

Dentre os intérpretes escolhidos para dar vida aos personagens heróicos da DC Comics, Gal Gadot mostrou-se com folga, a mais perfeita.
Melhor que Henry Cavill como Superman e melhor que Ben Affleck como Batman, ela já conseguiu mostrar a que veio numa aparição de uns dez minutos, porém arrasadora, como Mulher-Maravilha em “Batman Vs Superman”.
De lá pra cá, após os críticos torcerem o nariz para o logo posterior “Esquadrão Suicida”, o filme solo de sua personagem tornou-se a grande esperança para que o universo de heróis da DC Comics, transposto dos quadrinhos para o cinema a exemplo do Universo Marvel, viesse a dar certo.
Mais do que isso: Falou-se, e muito (na maioria das vezes, com receio da parte dos estúdios) a respeito desta ser a primeira produção estrelada por uma heroína –e, de quebra, também ela, dirigida por uma mulher, no caso, Patty Jenkins, de “Monster-Desejo Assassino”.
Foi um passo tão duro e hesitante de ser dado pela cultura pop, mas quando foi feito –agora, com o lançamento de “Mulher-Maravilha” –revelou-se então certeiro, necessário e, muito provavelmente, determinante dos rumos que não só a DC Comics seguirá daqui por diante, mas, da postura da própria indústria: “Mulher-Maravilha” funciona brilhantemente, revelando-se tão ou mais sensacional do que se tivesse um homem à frente ou atrás das câmeras.
A Mulher-Maravilha de Gal Gadot já tinha se mostrado a melhor coisa em “Batman Vs Superman” –e, é bem possível que venha a ser a melhor coisa no ainda vindouro “Liga da Justiça” –levando a crer que seu filme solo seria magnífico.
Ela não fez por menos: Como protagonista, Gal Gadot confirma o magnetismo singular que demonstrou naqueles inebriantes minutos no outro filme, mostra-se habilmente capaz de abranger, com todo o talento necessário a uma atriz, o arco dramático objetivo, criterioso e eficaz dado aqui a sua personagem, e ostenta, nas cenas de ação, uma mistura nunca menos que apaixonante de graça, beleza, energia e força cinética.
Em outras palavras: Perfeita no papel.
A sutileza embutida em sua atuação já se percebe desde o começo, quando ela é mostrada despida da seriedade e da desilusão para com o mundo que se podia ver em seu semblante no filme anterior (que, é bom lembrar, passa-se, depois desta história). Quando começamos a acompanhar o início de sua jornada, por volta de 1918 –período, portanto da Primeira Guerra Mundial –Diana é uma jovem ávida pela oportunidade de se provar ao mundo e dele fazer um lugar melhor, ainda que o registro da atriz e a condução da diretora nunca a deixem cair em qualquer clichê possível.
A ilha de Themyscira, onde ela vive isolada e protegida do mundo junto com todas as outras amazonas, recebe então um inesperado visitante: O Capitão Steve Trevor (Chris Pine, um austero e generoso coadjuvante), espião do exército inglês, fugindo dos inimigos alemães.
A guerra –“para acabar com todas as guerras” como ele diz –chega então a Themyscira, o quê obriga Diana a tomar uma decisão: Partir para o mundo dos homens ao lado de Trevor, tentar por um fim ao conflito insano que coloca os homens uns contra os outros e, à propósito, confrontar o deus da guerra, Ares, que, em sua pureza e ingenuidade, Diana tem certeza ser o responsável pela selvageria que consome os homens.
O processo de descoberta de Diana –do mundo injusto e, não raro, incompreensível dos homens e do dever que cabe a si própria –é a grande jornada elaborada aqui por Patty Jenkins, e ela, em momento algum, foge desse princípio: Tudo em seu filme, vilões, cenas íntimas e grandiosas, personagens maiores e menores, manobras de roteiro, cenas de ação e efeitos especiais, menções e situações, tudo está a serviço dessa história e da possibilidade de engrandecê-la e à sua radiante protagonista.
Numa época tão incrivelmente tomada por heróis mundanos, anti-heróis plenos de cinismo e a insistente ênfase nas características defeituosas de seus protagonistas –algumas delas,  ilustradas pela própria DC Comics em seus filmes anteriores –“Mulher-Maravilha” vem para restaurar os valores como eles deveriam ser; tão absurdamente pertinente se faz essa narrativa de Patty Jenkins que nem mesmo a pecha de “à moda antiga” cabe em seu filme: Ele é sim, poderosamente atual,moralmente necessário e profundamente emocional.
Um misto de eficácia narrativa, brilhantismo cinematográfico (artístico, inclusive) com a escolha certeira de uma protagonista tão cativante, forte e hipnótica que não se via no cinema desde... oras, desde “Superman-O Filme”, com Christopher Reeve!
Vai se tornar um chavão, mas “Mulher-Maravilha” é o filme que parece finalmente colocar o Universo Cinematográfica da DC nos trilhos. E é a pura verdade.

sábado, 10 de setembro de 2016

Star Trek - Sem Fronteiras

Quando resolveu assumir a direção de “Star Wars-O Despertar da Força”, J.J. Abrahams deixou uma lacuna incômoda para muitos fãs de outra franquia: Quem seria o diretor que conduziria, com a mesma excelência dele, a terceira parte da renovada “Star Trek”?
O escolhido foi Justin Lin, que revitalizou muito da franquia “Velozes e Furiosos” quando assumiu a série a partir da parte 4. Entretanto, era natural que um realizador oriundo de um produto tão diferente (e, para alguns, bem mais vulgar) despertasse desconfiança.
Os detratores antecipados queimaram a língua: Justin Lin (contando, é bem verdade, com o sensacional roteiro do ator Simon Pegg) fez o que é, até aqui, o melhor filme de toda a saga!
Ainda na metade da “missão de cinco anos” (iniciada ao fim do filme anterior), o Capitão James Kirk (Chris Pine, revelando-se perfeito no papel) e sua tripulação da nave U.S.S. Enterprise chegam aos limites conhecidos da Federação Interplanetária, na base espacial de Yorktown (um primor de cenário espacial concebido pelos mais arrojados efeitos visuais em colaboração com uma imaginativa direção de arte).
Para além dessa estação, uma missão arriscada os aguarda: Um resgate num planeta desconhecido onde as hordas do beligerante Krall (Idris Elba, uma bela adição aos vilões memoráveis da saga) prepararam uma cilada, e aguardam com um plano sinistro para destruir Yorktown e, em breve, toda a Federação.

Primoroso do ponto de vista do roteiro e da direção (Lin consegue obter alguns enquadramentos insanos que são um verdadeiro deleite para a apreciação nas telas de cinema), o filme ainda acrescenta uma nova personagem (a sensual alienígena Jaylah, interpretada por Sofia Boutella), tão plena de carisma e de graça, que desde já anseio para que esteja nos próximos filmes!

Star Trek - Além da Escuridão

A segunda incursão de J.J. Abrahams na famosa saga trazia a pressão de superar o primeiro filmes, que satisfez bastante os fãs antigos e os não-iniciados.
E Abrahams foi bastante esperto e sábio ao conceber este novo filme, não só por concentrar-se na figura bastante popular do vilão Khan (um dos antagonistas mais louvados pelos fãs da série), rimando bastante com a estrutura dos filmes clássicos de cinema, dois quais o segundo exemplar também trás a presença de Khan, mas também por escolher com precisão e austeridade do intérprete desse personagem: O magnífico Benedict Cumberbath (que na época gozava de uma aclamação um pouco restrita por sua ótima personificação do protagonista da série inglesa “Sherlock”).
Após uma audaciosa operação para salvar a vida de moradores de um planeta instável e fora da Federação dos Planetas Unidos, o capitão da U.S.S.Enterprise, James Kirk (Chris Pine, muito mais à vontade no papel, a exemplo de todos os outros atores), é removido de seu posto. Sua patente só lhe é restituída, porém, quando a própria Federação sofre um ataque promovido pelo desconhecido Khan (Cumberbath, elevando o nível do filme com seu vilão sensacional), que após matar, entre outros, o comandante Pike (Bruce Greenwood), refugia-se no planeta Kronos, no sistema dominado pelos Klingons. Para vingar a morte de seu mentor, Kirk terá de ir lá, e arriscar-se a envolver toda a Federação em uma guerra.

Dessa forma, o diretor J. J. Abrahams dá continuidade à sua notável reformulação de "Jornada Nas Estrelas" (agora "Star Trek") com um filme melhor e mais sombrio, agora brincando com ótimas referências à série clássica de TV e ao longa "Jornada Nas Estrelas - A Ira de Khan".

Star Trek

Em meados de 2009, a icônica saga “Jornada Nas Estrelas” começava a pedir uma repaginação, com seu elenco original já sexagenário, e a glória e sucesso dos filmes de cinema (oriundos da célebre série de TV), lembrados numa longínqua década de 1980.
A Paramount incumbiu, então, o bem-sucedido J.J. Abrahams de reformular a franquia, dando a ela novas caras, novas direções, e uma nova abordagem para toda uma nova geração, sem esquecer claro o fundamental respeito a um material tão amado pelos fãs, e pelo legado do criador Gene Rodenberry.
“Star Trek” –preservado o título original –é, portanto, um esforço criativa dos mais louváveis no sentido de honrar tudo o quê antes foi feito, e ao mesmo tempo, valer-se da premissa e dos personagens para se realizar ao novo em folha. E seu bom resultado é um testemunho ao talento e à competência de Abrahams.
A escolha do elenco, como não podia deixar de ser, foi um trabalho minucioso e preciso: O jovem Chris Pine, substituindo William Shatner, como Cap. James Kirk; Zachary Quinto, no lugar de Leonard Nimoy (que faz uma ponta ilustre) como Senhor Spock; a bela Zoe Saldana (que se tornaria uma atriz assídua em filmes de ficção científica com sua participação também em “Avatar” e “Guardiões da Galáxia”) como Uhura; John Cho como Sulu; Anton Yelchin como Chekov; e Simon Pegg como Montgomery Scott.
No vôo inaugural da Nave USS Enterprise, vemos assim, essa inusitada e familiar tripulação se formar quando por acaso, a nave se vê envolvida os planos de vingança do romulano Nero (um vilanesco e eficiente Eric Bana). Contudo, Nero veio do futuro, e sua presença cria uma espécie de bifurcação no tempo, originando uma nova realidade alternativa: E nessa sacada de gênio, Abrahams consegue manter intactos todos os acontecimentos que abrangem as produções com o elenco original, enquanto obtém liberdade para seguir em frente com este novo elenco.
Nem tudo, porém, são flores nesta reinvenção da franquia conhecida por "Jornada Nas Estrelas": Ao mostrar a "origem" de personagens icônicos como o Capitão Kirk, o Senhor Spock e muitos outros, o diretor e seus atores não escapam da sensação de que estão ‘pisando em ovos’ e muitas vezes ostentam uma superficialidade às vezes irritante, sobretudo quando o roteiro explora algumas dinâmicas de relação entre certos personagens.
Quando o filme mergulha em questões mais práticas –a tensão das batalhas, as táticas de combate e o militarismo implícito na premissa –o filme parece ganhar mais descontração.
Pode-se dizer que este primeiro “Star Trek”, como espetáculo comercial, e sobretudo em função da catástrofe que poderia ter sido, cumpre seu papel: O elenco mais jovem, e no geral todos bastante parecidos com os atores originais, dá uma nova roupagem aos clássicos personagens, dando ênfase à rivalidade inicial, e posterior amizade, que se forma entre Kirk e Spock.
Era o início de algo, que viria a melhorar muito nos filmes seguintes.