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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Incontrolável


 Baseado em fatos reais – o incidente do trem CSX 8888 transcorrido no estado de Ohio, no dia 15 de maio de 2001 – “Incontrolável” foi o último trabalho do falecido diretor Tony Scott (irmão mais novo de Ridley Scott), enaltecido por Quentin Tarantino como um dos melhores filmes daquele ano de 2010 (Tony Scott e Tarantino trabalharam junto no cult-movie “Amor À Queima-Roupa”).

Sucedido num único dia, o enredo do filme tem início quando dois idiotas (interpretados por T.J. Miller, de “Cloverfield”, e Ethan Suplee, de “A Outra História Americana”, atores realmente habituados a interpretarem idiotas!) cometem uma série de pequenos deslizes que culminam, pouco a pouco, numa calamidade: Logo de manhã, no início do expediente, identificam um defeito a ser corrigido nos freios de emergência da imensa locomotiva deixada sob sua responsabilidade (“Deixe como está! Ao voltarmos para o pátio consertamos esse problema!”); em seguida, quando o personagem de Ethan Suplee é deixado sozinho conduzindo a máquina (que levava uma carga desconhecida mas consideravelmente pesada de 47 vagões), eis que tem a ideia de jerico de acionar os freios manuais (que não paravam o trem, mas mantinham uma velocidade baixa) e sair da locomotiva (!) para correr a pé na frente da máquina e mudar pessoalmente o engate dos trilhos, desviando o trem para o rumo correto. No entanto, ele se esqueceu (ou, de repente, nem sabia!) que no caso de uma carga com tanto peso, a velocidade necessária para manter o motor funcionando impede que os freios fiquem acionados por muito tempo – ele ainda estava correndo fora do trem quando os freios automaticamente se desligam e a máquina começa a avançar mais e mais rápido.

Não há tempo de alcança-la – até porque o idiota tropeça e cai!!!

Quando a supervisora do funcionamento de toda a complexa rede ferroviária local Connie Hooper (Rosario Dawson) é alertada, inicialmente, sua reação é manter a calma, ela sabe, afinal, que locomotivas são projetadas para acionar automaticamente seus freios de emergência a partir de determinada velocidade – o problema é que os freios de emergência não foram consertados (lembra do começo do parágrafo anterior?) e agora, a locomotiva desgovernada não tem nada que consiga pará-la.

Ao verificar qual é o conteúdo de seus vagões, um outro problema – o trem levava toneladas de Fenol Fundido, um material tóxico e altamente inflamável, e em seu trajeto quando, em poucas horas chegar na cidade de Stanton, na Pensilvânia, uma curva fechada pode fazê-lo descarrilar (na verdade, na velocidade em que se encontra o descarrilamento é certo!) e mandar a cidade inteira pelos ares.

São dois meros funcionários da ferrovia que se tornam inadvertidamente os heróis dessa quase catástrofe: O veterano Frank Barnes (o sensacional Denzel Washington, em sua quinta colaboração com o diretor Scott) e o novato Will Colson (Chris Pine), por sinal, em seu primeiro dia de trabalho naquele turno. O humor dos dois não se encontra no melhor estado – semanas antes, devido à gravidez da esposa Will não havia aderido a uma greve sugerida pelo sindicato e, por causa disso, Frank está para se aposentar com o que ele considera um salário insuficiente – e, enquanto os dois lutam contra a animosidade mútua, o destino os coloca como uma frágil esperança para evitar o pior: Depois de diversas tentativas – uma locomotiva se colocando a frente da máquina desgovernada tentando pará-la com seus próprios freios, o que não funcionou; e até uma tentativa de forçar um descarrilamento que também não funcionou (àquelas alturas o trem desgovernado estava numa velocidade grande demais) – o Centro de Controle Ferroviário descobre que a máquina de Frank e Will, naquele ponto já sem nenhum vagão, está nos trilhos em rota de colisão com o trem desgovernado! Eles têm uma chance de escapar por um triz entrando numa linha adjacente, mas Frank tem um plano ainda mais ousado – ele quer voltar de marcha ré, engatar sua própria máquina no último vagão da máquina desgovernada, e puxá-la para trás, forçando sua velocidade a diminuir, e com isso, evitando a catástrofe em Stanton.

Roteirizado com brilhantismo – as questões notáveis do funcionamento ferroviário são expostas e esclarecidas através de diálogos espertos e pontuais, e as circunstâncias trabalhistas ajudam a aprofundar os personagens – e oferecendo ao público um senso de ação e espetáculo que cresce gradualmente, este belo trabalho de Tony Scott dá uma ótima ideia ao público do excelente diretor que ele era – sempre orientado por uma inclinação contundente ao cinema comercial (ainda mais do que seu irmão mais velho), mas plenamente capaz de organizar os elementos desse mesmo cinema para a construção de um produto salutar, vibrante e sólido, como este aqui.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Dias de Trovão


 “Top Gun sobre rodas” foi e continua sendo a mais perfeita definição para esta aventura ambientada nas pistas de corrida de stock-car, não apenas pela reunião do astro (Tom Cruise), do diretor (Tony Scott) e dos produtores (Jerry Bruckheimer e Don Simpson) daquele sucesso, mas também por trazer as mesmas junções de gêneros cuja receita se revelou bem-sucedida: Um retrato estiloso de um ambiente regido pela adrenalina, muita ação com um pouco de romance e drama humano. Desnecessário dizer que, com seu notório arrojo visual, o diretor Scott transforma as corridas de stock-car num espetáculo à parte.

O curioso é que, tendo chamado o gabaritado Robert Towne (de “Chinatown”) para escrever o roteiro, o projeto terminou ganhando novas características e elementos mais particulares. Para começar, quem dá o ponto de partida à trama é, na realidade, o personagem de Robert Duvall, Harry Hogge. Ele é tão protagonista quanto o personagem de Tom Cruise. Harry é um engenheiro de automóveis afastado do ofício devido a um acidente.

Ele é trazido da fazenda onde enfurnou-se para novamente atuar nas pistas como chefe de equipe pelo empresário Tim Daland (Randy Quaid). Entretanto, a estratégia de Daland para se sobressair na temporada e vencer a Copa Winston é financiar duas equipes distintas –o que acirra ainda mais a competitividade entre elas!

De um lado, a equipe chefiada por Harry, na qual o piloto é, afinal, o impulsivo Cole Trickle vivido por Tom Cruise; de outro, a equipe do habilidoso piloto Rowdy Burns (Michael Rooker).

Se quiserem conquistar a vitória, Harry e Cole precisam, portanto, superar animosidades dentro e fora das pistas, e Cole, principalmente, vencer seus demônios internos, o que inclui um repentino temor pela própria vida após sobreviver a um terrível acidente.

Menos lembrado pelo sucesso razoável que obteve no início da década de 1990, e mais por reunir em cena, pela primeira vez, o casal Tom Cruise e Nicole Kidman (eles passaram a namorar quando se conheceram no set de filmagem), “Dias de Trovão” ainda guarda eficiência e alta voltagem para empolgar expectadores mesmo nos dias de hoje, incluindo suas inesperadas qualidades enquanto cinema –o que o coloca até mesmo acima de “Top Gun”, seu mais incontornável objeto de comparação –como o roteiro de Towne que surpreende pela atenção criteriosa aos detalhes narrativos mais pertinentes, como a constante manutenção da relevância do personagem de Duvall, o complexo laço de amizade que se constrói a partir da rivalidade entre os personagens de Cruise e Rooker, o romance entre Cole e a Dra. Lewicki, personagem de Nicole –encaixado à trama com eficiência o bastante para disfarçar sua aleatoriedade –e a maneira com que todos esses elementos vão convergindo o filme para o seu clímax apoteótico na aguardada pista de Daytona.

Se “Dias de Trovão” não conquistou a mesma importância junto à cultura pop, nem o apreço junto a um tipo de público que passou a cultuá-lo da mesma forma que “Top Gun” ao longo dos anos, isso se deve menos aos seus predicados técnicos e artísticos e mais a uma série de fatores culturais referentes, inclusive, à época em que foram feitos: Os anos 1990, mais cínicos, já não tinham aquela mesma ingenuidade conceitual que tornou tão fascinantes algumas das obras dos anos 1980.

sábado, 18 de julho de 2020

Amor À Queima-Roupa

“True Romance” é aquele tipo de filme que conquistou com honras o direito de ser chamado cult movie: Reúne características intrínsecas do cinema (e de toda cultura pop, por que não) realizado nos anos 1990 (e, com isso, evoca também algo dos anos 1980...), traz uma sucessão de maravilhosos achados em suas sequências, em sua trama e em seu elenco, reúne duas forças criativas atrás das câmeras que numa primeira impressão parecem incompatíveis (o aqui roteirista Quentin Tarantino e o diretor Tony Scott) e, além de saboroso e envolvente consegue, com frequência, ser memorável.
Em meados de 1993, Tarantino ainda estava prestes a se sagrar como um dos grandes abalos sísmicos do cinema; embora “Cães de Aluguel” já estivesse causando burburinho, “Pulp Fiction” só seria lançado no ano seguinte, e a fama de Tarantino, em Hollywood, corria mais como a de um roteirista tremendamente descolado e talentoso –muito se falava de seu controverso roteiro para “Assassinos Por Natureza”, de Oliver Stone.
Foi então que o diretor Tony Scott, um artesão que sempre cultivou o hábito de oscilar entre o cinema indiscutivelmente comercial de estúdio (“Top Gun”) e as audazes experimentações possibilitadas por um cinema mais autoral (“Fome de Viver”), resolveu dirigir um roteiro que Tarantino havia escrito na época em que ainda trabalhava de balconista numa videolocadora e nele derramou todo seu apreço por filmes de gangster, linguagem cinematográfico, referências culturais, diálogos afiados e altas doses de violência urbana.
Sua trama é algo formidável que se constrói alimentada por clichês (eu diria até por improbabilidades típicas da ficção!), mas cuja esperta percepção do roteirista consegue enxergar os meandros por meio dos quais esses clichês podem ajudar a trama, bem como o momento de subvertê-los para que não a prejudiquem.
Tomemos por exemplo o início, onde vemos o protagonista, Clarence Worley (Christian Slater) num cinema furreca vendo filmes de Sonny Chiba –uma lenda com quem Tarantino trabalhou em “Kill Bill” –e é subitamente abordado pela linda e maravilhosa Alabama (Patricia Arquette, um espetáculo!). Tudo soa tão improvável quanto um garoto que imagina uma fantasia erótica e o roteiro de Tarantino faz disso a grande brincadeira no ponto de partida: Ela (deliciosa que só) puxa conversa. Os dois descobrem afinidades. Resolvem sair juntos para um lanchonete. E logo estão na cama para os finalmentes (!).
Aí então que, acometida de uma espécie de pesar de consciência, Alabama confessa a Clarence que é garota de programa (!) e que foi paga por amigos seus para lhe proporcionar uma noite dos sonhos. Entretanto, agora, Alabama e Clarence estão apaixonados.
E seu amor é, por assim dizer, o estopim que coloca fogo no filme inteiro!
Instigado pelo espírito de Elvis Presley, com quem volta e meia conversa (uma ponta algo ostensiva de Val Kilmer, cujo rosto nunca aparece diretamente), o quê já indica que não é lá muito bom da cabeça, Clarence vai até o cafetão de Alabama para negociar a saída dela daquela vida. Tal cafetão (uma ponta efusiva e eletrizante de Gary Oldman), envolvido até o pescoço com crime e tráfico de drogas, não recebe a notícia com passividade e tudo descamba para a violência, que termina com Clarence fazendo uma chacina no lugar.
A surpresa fica por conta dele, sem querer, levar para casa um mala cheia de cocaína (ao invés de uma mala com as roupas dela!), justamente o que estavam ali negociando.
Clarence e Alabama têm assim um plano: Partir da cinzenta Detroit onde estão para a radiante Los Angeles e lá vender a droga que lhes caiu em cima do colo para com ela financiar sua lua-de-mel e, se possível, viver de brisa para o resto da vida.
Contudo, Clarence não contava com o fato do gangster dono da droga (Christopher Walken) estar em seu encalço e num breve diálogo com seu pai (Dennis Hopper) acabar descobrindo seu paradeiro –a cena do diálogo entre Walken e Hopper é um daqueles momentos antológicos que somente o cinema consegue entregar, graças à atores em ponto de bala como os dois que duelam aqui.
Em Los Angeles, Clarence entra em contato com o amigo Dick Ritchie (Michael Rapaport, de “Poderosa Afrodite”), cujo apartamento ele divide com o maconheiro Floyd (Brad Pitt; já deu para perceber o elenco absurdamente estelar que foi reunido para este filme, não?!).
Dick consegue negociar a droga em posse de Clarence com um figurão de Hollywood (vivido por Saul Rubinek, de “Os Imperdoáveis”), mas, então tudo começa a dar tremendamente errado: Os mafiosos (encabeçados por James Gandolfini e por Victor Argo) chegam à cidade atrás deles; o próprio contato de Dick acaba sendo preso, e entrega para dois policiais (interpretados por Chris Penn, de “Os Chefões” e Tom Sizemore, de “Falcão Negro Em Perigo”) a hora e o local da transação e todos eles –bandidos violentos e vingativos, policiais truculentos e sem noção –se encontram debaixo do mesmo e instável teto, quando Clarence e Alabama tentam vender a mala de drogas, naquele que é um dos desfechos mais apoteóticos do cinema nos anos 1990.
Há fortes momentos que registram o estilo publicitário do diretor Tony Scott em ação (a iluminação estourada na luz difusa; os enquadramentos refinados; o tratamento dramático, quase lírico, dado às cenas), contudo, tão marcante é a personalidade de Quentin Tarantino e seu gosto apurado de cinema que, apesar da função de roteirista, é seu estilo que acaba pesando muito mais em “True Romance”: A verborragia inteligente e minimalista nos diálogos, as guinadas irônicas e auto-conscientes da trama, os embates físicos que fazem referências, ora a Sam Peckinpah (a cena em que Patricia Arquette é atacada por James Gandolfini no motel), ora à John Woo (certamente o grande homenageado no tiroteio final), e a habilidade singular para amarrar todos esses elementos aparentemente tão improváveis e inusitados num todo harmonioso, equilibrado e eficaz.
E, neste caso em questão, vibrante como pouquíssimos filmes da década de 1990 foram capaz de ser.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Vingança

As cenas iniciais deste misto de drama, suspense e ação não negam ser este um trabalho do mesmo diretor de “Top Gun”, o falecido Tony Scott: Tomadas aéreas habilmente montadas (à cargo de Chris Lebenzon) e fotografadas (à cargo de Jeffrey Kimball) que estranhamente nada dizem a respeito do filme que se segue depois.
Aqui, Scott reuniu-se com um astro emergente do período, Kevin Costner (que tinha acabado de fazer “Sorte No Amor” e “Campo dos Sonhos”) após um resultado mediano dirigindo “Um Tira da Pesada 2”, em 1987. Costner iniciou por aqui seu hábito de interferir também no resultado final atrás das câmeras (em “Vingança”, ele é produtor executivo), o que à medida que seu estrelato foi se consolidando lhe garantiu ainda mais controle sobre seus projetos, chegando inclusive à ele próprio dirigir (e ganhar um Oscar por) “Dança Com Lobos”.
Entretanto, essa é outra história –que, por sinal, segue pela década de 1990 adentro, e vai até as catástrofes que comprometeram a carreira de Costner, “Waterworld” (como astro e produtor) e “O Mensageiro” (como astro e diretor) –voltemos, portanto, à “Vingança”: Costner vive Jay Cochran, piloto da Força Aérea Norte-Americana em vias de se aposentar –daí as sequências que abrem o filme.
Livre para ir aonde quiser e fazer o que quiser, Cochran decide dar uma passada pelo México onde mora um milionário de quem ficou amigo jogando tênis.
Tiburon ‘Tibey’ Mendez (o veterano Anthony Quinn) vive numa mansão que é uma verdadeira fortaleza, cercada de suspeitos seguranças armados –e, embora os indícios de alguma periculosidade estivessem lá desde o começo (numa cena inicial, Tibey, num rompante de fúria, arremessa seu cão dentro da piscina), Cochran não vê problema em aceitar a hospitalidade do amigo.
Tibey é casado com uma mulher muito mais jovem e infinitamente mais atraente do que qualquer outra, Miryea (a maravilhosa Madeleine Stowe). Por conta de tais divergências, o casamento entre os dois tem seus atritos –Miryea se ressente por Tibey não desejar ter filhos –minimizados somente pelo medo genuíno que ela (e todos os outros à sua volta) sentem dele.
À princípio, Miryea imagina que Cochran será um amigo com as mesmas características que os demais amigos de Tibey ostentam: Espalhafatoso, grosseiro, arrogante e sarcástico –características que não só parecem fazer parte da visão estereotipada que o filme tem do povo mexicano, como também definem o comportamento mafioso em geral.
Contudo, Cochran revela-se alguém diferente, sensível e gentil –adjetivos que levam Miryea a se sentir atraída cada vez mais por ele. Essa circunstância –a do romance proibido –embora de importância fundamental à trama, é um dos empecilhos do filme em face da incapacidade atroz do roteiro em construir diálogos sentimentalmente expressivos para consolidar a situação, do fracasso em esboçar motivações válidas aos personagens (mesmo que essa seja uma premissa que já rendeu infindáveis exemplares à serem referenciados), e da química praticamente inexistente entre Costner e Madeleine que, em cena, deixam até vislumbrar um palpável constrangimento um com o outro em alguns momentos.
Mas, ainda que esse seja o calcanhar de Aquiles do filme... vida que segue: Os dois se envolvem, tornando-se amantes quando percebem que não vão resistir à atração mútua que experimentam –e qualquer expectador e coadjuvante consegue notar a confusão que isso vai render, menos o casal central...
Quando Tibey descobre o adultério, o lado ‘gangster mexicano’ que ele não deixava que Miryea nem Cochran notassem –embora, como eu disse, houvessem pistas bem óbvias disso desde o início –cai sobre os dois com a força de um furacão: Cochran é espancado por seus capangas e deixado numa estrada quase morto, sua cabana (onde o flagra ocorreu) é toda queimada, e Miryea, com o rosto dilacerado, é despachada para um prostíbulo, onde a rotina forçada de meretriz servirá de castigo para sua traição.
No entanto, Cochran não morreu. Ele é resgatado de seu estado moribundo por um camponês e, contando com uma ajuda aqui, outra ali, nos meses que se seguem (o viajante tuberculoso que lhe dá carona e dinheiro; os providenciais capangas ‘do bem’ vividos por Miguel Ferrer e um jovem John Leguizano; e até mesmo uma desvairada e sexy cantora interpretada por Sally Kirkland, que infelizmente não aparece o bastante), vai se recuperando e reconstituindo a trilha de indícios que deverá levá-lo ao paradeiro de Miryea.
Consequentemente, essas investigações esbarram em Tibey, e num definitivo acerto de contas entre ele e Cochran.
Dono de uma premissa calcada em estruturas totalmente manjadas –desde o adultério passando pelo arco dramático da vingança e do amigo que vira inimigo –o filme só escapa da mesmice porque Tony Scott lhe dá um tratamento diferenciado no estilo imediatamente identificável que impõe: Iluminação difusa contra as fontes de luz, enquadramentos a lembrar videos publicitários, cenas nada realistas estilo videoclip e muitos tratamentos de fotografia.
Embora isso torne muito do andamento enfadonho, sobretudo, na primeira parte, também confere alguma identidade ao material, sabendo encontrar em suas pontuações de roteiro, as mais relevantes referências cinematográficas possíveis; na primeira metade, as cenas emulam “O Poderoso Chefão” no registro agressivo e icônico que se tenta fazer dos gangsteres mexicanos, já a segunda metade, faz claras alusões ao faroeste mantendo um ritmo cadenciado do início ao fim. Uma pena que a junção dos elementos propostos –drama romântico, visual estilizado, violência extrema, fatalismo –não resulte numa narrativa completamente apetecível.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Inimigo do Estado

Thrillers de espionagem são, em geral, uma faca de dois gumes: Exigem, no mínimo, diretores hábeis e experientes capazes de administrar com eficiência os expedientes requeridos pela narrativa. No entanto, com frequência, acabam rendendo produções charmosas e sedutoras que, em sua condução envolvente, costumam ostentar o melhor do gênero suspense.
Falta pouco para “Inimigo do Estado” atingir esse objetivo.
Um diretor com experiência, ele tem. O falecido Tony Scott, afinal, fez de quase tudo: Um dos mais emblemáticos sucessos comerciais dos anos 1980 (“Top Gun”, cujo astro, Tom Cruise, era a escolha inicial para este projeto, terminando substituído por Will Smith); um dos mais formidáveis e originais filmes de vampiros da mesma década (“Fome de Viver”); uma longa parceria com Denzel Washington (“Maré Vermelha”, “Chamas da Vingança” e tantos outros) –mas, nunca escapou de ser lembrado mesmo como o irmão mais novo de Ridley Scott.
Se não chega a ter estatura de obra-prima, “Inimigo do Estado” prova, ao menos, a capacidade de seu diretor para compor um belo e envolvente trabalho.
Tomando por base uma das realizações fundamentais desse sub-gênero –o brilhante “A Conversação”, de Francis Ford Coppola –o filme de Tony Scott faz dignamente o que poderia se esperar dele: Contextualiza o conceito da espionagem para os novos e modernosos tempos, imprime ação vertiginosa em suas cenas e tecnologia de ponta em seu argumento (não deixando de lado um molho sócio-político para valorizá-lo), e ainda se sai com uma vistosa participação especial de Gene Hackman, astro daquele filme.
Numa ponta ilustre que não vai além do prólogo, o grande Jason Robards é um senador prestes a vetar um lei que libera a vigilância eletrônica, postura que o leva a ser assassinado a mando de Reynolds (Jon Voight), um figurão da Agência de Segurança Nacional.
O assassinato ocorre em um parque bucólico, casualmente em frente a uma câmera programada para captar a migração de pássaros. O dono da câmera (Jason Lee, também ele numa breve ponta) não tarda a ser perseguido pelos homens de Reynolds e, antes de sua trágica morte, deixa uma cópia do flagrante em meio aos pertencentes de um conhecido que encontrou por puro acaso, o advogado Robert Clayton Dean (Will Smith, numa presença tão cuidadosamente descuidada na trama quanto costumam ser os protagonistas de ação).
Sem saber o que tem em mãos, Dean tem sua vida virada de pernas para ar pelos recursos tentaculares da Agência: Eles plantam escutas em suas roupas e em toda sua casa; o levam a ser demitido da firma em que trabalha; anulam todos os seus cartões de crédito e fecham o cerco em torno dele. Tudo para fazê-lo recorrer à quem eles imaginam que possa estar por trás disso tudo, o ex-agente Brill (Gene Hackman, sempre ótimo), que cai de para-quedas no meio da trama tanto quanto Dean.
Brill, cujo background lembra, não por acaso, o personagem do mesmo Gene Hackman em “A Conversação”, já trabalhou com a Agência no passado, e por isso, tem pleno conhecimento da extensão de seus recursos –e representa, para Dean, a única alternativa de como transitar por esse novo e traiçoeiro mundo da espionagem, e nele encontrar um meio de revidar.
Nessa trama recheada de reviravoltas até bem pontuadas, o diretor Scott se esbalda nas situações que se constroem às vezes num ritmo mais frenético do que o adequado. Como é comum em suas obras, o caprichado visual publicitário se revela um empecilho para que sua premissa seja por inteiro levada a sério, mas ele tem experiência o suficiente para administrar ação e suspense em quantidades necessárias que o façam envolvente até o apoteótico final: Um tiroteio orquestrado com sinergia, sangue e alta voltagem.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Domino - A Caçadora de Recompensas

O grupo de realizadores reunido em torno de “Domino” é dos mais inusitados e curiosos: Além do falecido diretor Tony Scott –cuja eclética carreira reúne filmes de vampiro (“Fome de Viver”), aventuras oitentistas clássicas (“Top Gun”) e infindáveis colaborações com Denzel Washington (“Maré Vermelha”, “Chamas da Vingança”, “De Já Vu”, “Incontrolável” e outros) –temos também, o roteirista Richard Kelly, autor e diretor de “Donnie Darko”, um dos mais desafiadores filmes dos anos 2000, e a inquieta inglesinha Keira Knightley, atriz que, apesar da aparência bela e delicada, se identifica bastante com a personagem real Domino Harvey, filha do ator Lawrence Harvey; e que, à propósito, faleceu em meio às filmagnes desta produção.
Filha de uma celebridade, Domino estudou nos melhores colégios e teve a melhor educação que uma menina de classe alta poderia receber. Contudo, isso não deteve seu espírito rebelde que fez com que ela fosse expulsa de todas as escolas por onde passou. Quando já tinha idade adulta, Domino encontrou, por acaso, a única atividade para a qual sentia-se perfeita: A de caçadora de recompensas! Ao lado de sua equipe, o experiente e calejado Ed (Mickey Rourke), e o temperamental Choco (Edgar Ramirez), ela se tornou uma lenda entre os profissionais do ramo.
Por meio de flashbacks, inserções narrativas, momentos de delírio, cenas justapostas de efeito irônico e inúmeros outros recursos usados por Scott (num de seus filmes mais desiguais), enxergamos toda essa trajetória sob o prisma de uma de suas missões mais arriscadas e mirabolantes: A captura de um fugitivo legal que, graças à ramificações que se estenderam a uma dezena de personagens envolvidos, terminou num explosivo banho de sangue numa das torres mais altas de Las Vegas, de propriedade de um mafioso.
Esquia, ainda que um bocado sensual e bela, Keira Knightley se entrega com garra ao papel de Domino, que exige dela, inclusive breves cenas eróticas –no que parece ser um esforço para afastar-se dos papéis de mocinha com o qual iniciou seu estrelato, como em “Piratas do Caribe” e “Orgulho e Preconceito”.
Não obstante sua base numa história real, este filme toma uma quantidade tal de ‘liberdades poéticas’ que o resultado termina sendo uma aventura quase descerebrada, ocasionada por francos absurdos, reviravoltas deliberadamente dramáticas e acarinhada por lampejos de realidade.
Devido, em grande parte à natureza audaciosa da equipe aqui reunida, o filme do diretor Tony Scott não parece querer ser uma biografia no sentido convencional do termo e o roteiro fragmentado de Kelly (sem dúvida mais contido que em "Donnie Darko", mas ainda assim cheio de elementos absurdos e de desordem narrativa) por vezes brinca com o realismo (ou falta de) da sua história.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Top Gun - Ases Indomáveis

No meio cinéfilo existe aquele conhecido termo chamado “prazer culposo” que define um filme que o expectador gosta muito –ou pelo menos, nutre um grande carinho –mas, tem vergonha de admitir para as outras pessoas.
Dentre diversos filmes dessa categoria, talvez, o mais famoso, o que representa o estado de arte mais pura a que o “prazer culposo” pode chegar é provavelmente “Top Gun-Ases Indomáveis”.
Uma aventura a um só tempo arrojada e brega que, nos anos 1980 lançou a carreira de Tom Cruise ao estrelato, “Top Gun” une um clima único de romantismo e cafonice somado à seqüências de batalhas aéreas envolvendo caças que impressionam até hoje.
Mesmo seus deslizes técnicos e artísticos (e eles existem aos borbotões) só servem para ampliar o seu fascínio aos olhos de seus admiradores que se deleitam com o visual impecável (ainda que datado em alguns aspectos), com a trilha sonora melodiosa e com os rompantes escandalosos do herói mimado e seu relacionamento narcisista –travestido de história de amor –com uma mulher que age menos como uma cara metade apaixonada e mais como uma babá tentando administrar os caprichos de uma criança.
Seu protagonista é o impetuoso Maverick (Tom Cruise numa clara evolução de seu papel anterior, o rapaz de “Negócio Arriscado”), jovem piloto da força aérea incluído, ao lado do melhor amigo Goose (Anthony Edwards que mais tarde faria a série “Plantão Médico”), no seletivo curso denominado Ases Indomáveis. O comportamento rebelde e impertinente de Maverick colide com o piloto mais idolatrado do curso, o arrogante Iceman (Val Kilmer, um antagonista por quem o personagem principal parece estranhamente obcecado), e ele ainda se apaixona por uma bela mulher (Kelly McGillis, espetacularmente bem fotografada), pouco antes de descobrir que ela é uma das instrutoras.
Tais conflitos e tensões muitas vezes acabam por serem extravasados nos ares, em meio a espetaculares batalhas de caças aéreos.
Não há muitas dúvidas de que o estrondoso sucesso obtido nos anos 1980 se deve pelo tratamento estilizado, algo publicitário, que o hoje falecido diretor Tony Scott (irmão mais novo de Ridley) deu às cenas de batalha aérea extraordinariamente filmadas (a prodigiosa fotografia é de Jeffrey Kimball), o real mérito da produção, que ainda arrebatou o Oscar de Melhor Canção para "Take My Bread Away", do grupo Berlin, uma das baladas mais populares daquela década.
Em meados dos anos 1990, graças à uma observação de Quentin Tarantino, “Top Gun” passou também a ser muito lembrado e avaliado por suas sucintas referências homossexuais que passaram despercebidas por muitos machões que idolatraram (e ainda idolatram) o filme: Detalhes ocasionais como a inusitada energia erótica que parece convergir das cenas inusitadas em que o diretor Scott registra os cadetes na sauna, com seus corpos suados, em embates verbais (!); elementos quase imperceptíveis como o fato de que a personagem de McGillis só parece ganhar a atenção de fato do protagonista quando se veste com as mesmas roupas dos homens; e também o detalhe (possivelmente um exagero dramático do roteiro que virou pretexto para esses argumentos) de que, na narrativa, as reações genuinamente emocionais do personagem principal só ocorrem quando envolvem seu melhor amigo Gooze.
Características até banais na década de 1980, mas que sob o prisma dos novos tempos transformam-se em uma curiosidade a mais que vem a justificar a inúmeras revisões que este trabalho recebeu do público ao longo dos anos, e que faz dele o supra-sumo absoluto a que os “prazeres culposos” podem chegar.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Amor À Queima - Roupa

O início da carreira cinematográfica de Quentin Tarantino teve muito mais expressão como roteirista do que como diretor. Roteiros assinados por ele –e que já traziam toda uma nova percepção pop do cinema –já transitavam pelos estúdios gerando burburinho (tais como “Assassinos Por Natureza”, “Maré Vermelha” e este “Amor À Queima-Roupa”), antes de seu reconhecimento também como diretor em “Cães de Aluguel”, ainda que, em se tratando de lançamento comercial, estes filmes tenham ganhado as salas de cinema quase ao mesmo tempo –e, em alguns casos, anos depois.
Tamanho é o peso do estilo e da personalidade de Tarantino como autor, que ele chega a influenciar “Amor À Queima-Roupa” até mais que seu próprio diretor, o falecido Tony Scott.
Contudo, Scott tratou de incorporar ao filme uma série de elementos notáveis que o fizeram rapidamente ganhar aspectos cult: E dentre estes, certamente, o elenco assombroso é um dos que chama imediatamente a atenção.
É até inconcebível, hoje, um filme de ares independentes, no qual Christian Slater é o protagonista e conta com coadjuvantes do quilate de Brad Pitt, Gary Oldman, Val Kilmer (embora ele não apareça, fazendo o papel do fantasma elíptico de Elvis Presley!), James Gandolfini, Dennis Hopper e Christopher Walken.
Tudo começa quando, dentro de uma sala de cinema, assistindo a um filme de artes marciais (uma das inúmeras e pontuais referências cinematográficas que Tarantino colocará na trama), o descolado Clarence Worley (Slater) é abordado casualmente por uma loira espetacular chamada Alabama Whitman (a maravilhosa Patrícia Arquette). Após ficarem juntos, e descobrir uma sintonia singular, ela lhe confidencia ser uma garota de programa. Os dois decidem fugir de tudo e de todos, assim que o rapaz resolver as pendências com o cafetão dela (Gary Oldman, na época bastante marcado por esses tipos surtados e belicosos).
Tudo dá errado e Clarence termina com um pacote de heroína nas mãos e um cadáver às suas costas.
Quando o casal apaixonado ganha a estrada então, uma fileira de policiais corruptos, gangsteres e personagens esquisitos estarão atrás deles.
O roteiro de Tarantino é hábil em tecer uma confusão das mais caprichadas, fazendo a narrativa culminar num tiroteio infernal e explosivo, e o diretor Scott faz sua parte, emoldurando tudo com um capricho visual característico –ainda que sua estética videoclip e sua iluminação estilizada soem estranhos a esse registro quase suburbano da criminalidade.

Esses fatores somados, ao invés de tornarem o filme indigesto, lhe conferem uma atmosfera pouco usual, intrigante até, que por vezes levou alguns cinéfilos a reassistí-lo (eu incluso) várias e várias vezes.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Fome de Viver

Vampiros nunca saíram e jamais sairão de moda. Seu apelo junto à cultura pop é tão sedutor que não conseguem ser arruinados nem por repaginações de gosto duvidoso como a série “Crepúsculo”. Nos anos 1980, as mais famosas contribuições aos chupadores de sangue no cinema provavelmente foram “A Hora do Espanto” e este “Fome de Viver”.
Catherine Deneuve é Miriam Blaylock uma vampira que singra as ruas de Nova York em busca de sangue. Não apenas sangue, ela precisa também de uma espécie de companheiro, junto do qual o peso dos séculos que transcorrem se torna suportável. Esse companheiro até outro dia era David Bowie, ou melhor, John. Mas a juventude que até então se achava estampada em seu rosto –preservada noite após noite com o sangue de suas vítimas –começa a desvanecer: Todos os anos vividos parecem de repente querer cobrar seu preço, fazendo-o envelhecer subitamente. 
Com medo, ele procura por uma médica especializada em uma doença degenerativa (Suzan Sarandon) e tudo o que consegue é torná-la sucessora de seu lugar ao lado de Miriam, como amante. 
O tratamento que o diretor Tony Scott dá ao gênero e à figura do vampiro em si transborda elegância neste filme muitas vezes frio, mas paradoxalmente carregado de voltagem erótica, não à toa, uma de suas cenas mais lembradas é o interlúdio sexual de Suzan Sarandon e Catherine Deneuve.
Responsáveis por essa atmosfera desigual, carregada de inusitada natureza, são as escolhas que o falecido diretor Scott (à época, estreando no cinema) fez -todas inesperadas para um estreante: O elenco de presenças incomuns como Deneuve e Bowie. O tratamento formal, com estilizado uso de luz. E a trilha sonora onde se destaca a cena inicial ao som de Bela Lugosi's Death.
Com Bowie presente não dava mesmo para errar nesse quesito.