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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Vingador do Futuro 1990 e 2012


Uma das mais sensacionais aventuras protagonizadas por Arnold Schwarzenegger, “Total Recall” talvez tenha sido o primeiro blockbuster a unir o kistch desavergonhado e charmoso dos anos 1980 com o cinismo (já típico no cinema do holandês Paul Verhoeven) que viria a definir uma certa postura da indústria nos anos 1990.
Como muitos filmes fantasiosos daquele período, “O Vingador do Futuro” exige certa cumplicidade dos expectadores de hoje, certo entendimento da maneira precariamente incisiva com que eram realizadas e compreendidas as coisas.
Só essa consideração já viabiliza em si a presença de Schwarzenegger interpretando um operário da construção civil no futuro –papel de homem comum que, em si, soaria incabível a alguém como ele, mas que o filme de Verhoeven faz com que seja uma das razões para a diversão.
Schwarzenegger é assim Douglas Quaid. Morador do planeta Terra do ano de 2048, casado com a bela e estranhamente condescendente Lori (Sharon Stone, pouco antes do sucesso de “Instinto Selvagem”, por sinal, do mesmo Verhoeven), ele começa a perceber estranhos indícios de que a vida que vive não lhe parece bastar.
Movido por essa despropositada indignação, Quaid decide encarar um inovador "pacote de férias" onde ao invés de uma dispendiosa viagem, a companhia encarregada lhe proporciona implantes de memória destinados a simular uma viagem para qualquer lugar do sistema solar.
Quaid escolhe ir para Marte, no entanto, algo sai errado e ele se vê perseguido por misteriosos agentes, muitos interessados em matá-lo de uma vez.
Ao que tudo indica, já haviam outros implantes de memória em sua mente, e ele nunca foi um mero operário. Em busca de respostas ele ruma para o planeta Marte de fato, onde um importante papel numa insurreição o aguarda.
Para os padrões de filmes que Schwarzenegger havia protagonizado –e mais ainda, para os padrões da platéia que ele construiu com esses filmes –a trama de “O Vingador do Futuro” é demasiada complexa e intrincada; e sendo ela baseada em livro de Phillip K. Dick, com seus costumeiros questionamentos sobre quem e o que somos, não poderia ser mesmo diferente.
A junção de facetas tão aparentemente incompatíveis (um roteiro melindroso cheio de ramificações e reviravoltas que confundem a elucidação e um filme de ação de aparência descerebrada, com um astro de filmes de ação notoriamente descerebrados) parece ser, contudo, o grande diferencial em torno do qual o diretor Paul Verhoeven revela de fato entusiasmo em trabalhar: A partir desses elementos absolutamente desconcertantes no que tange a um filme de intenções tão assumidamente comerciais, o holandês maluco entrega um filme sanguinolento, ágil, sensual e repleto de variados e à época realmente impressionantes efeitos especiais.


Ao orquestrar, em 2012, um corre-corre frenético abarrotado de efeitos especiais que buscava refilmar o sucesso dos anos 1990 com Schwarzenegger, o diretor Len Wiseman (de “Anjos da Noite”) realizou um produto comercial –exemplo perfeito do tipo de cinema que ele exerce –assombrado por diversas outras obras além daquela que ele tentou atualizar: Também oriundos da mente do escritor Phillip K. Dick, “Blade Runner” e “Minority Report” são talvez ainda mais determinantes para as opções visuais encontradas aqui, assim como a trama rocambolesca (ou talvez, pretensamente rocambolesca) costurada ao redor de mistérios nebulosos da mente que busca remeter à atmosfera hipnótica de “A Origem”.
Se Paul Verhoeven abraçou o inusitado de seu filme como uma escolha convicta de estilo, Wiseman quer optar vaidosamente pela elegância: No papel que antes soou tão desigual em Schwarzenegger aqui está o (bom) ator Colin Farrell que, justamente por sua adequação, nada acrescenta ao personagem.
A trama continua a se ambientar num futuro distante (e as maravilhas tecnológicas, agora materializadas por efeitos digitais de última geração, cuidam de distanciar ainda mais esse mundo da realidade). Nada de Marte desta vez: Por mais que a Terra encontre-se quase inabitável, as únicas regiões povoadas do planeta são a F.U.B. (a metrópole rica e elitizada) e a "Colônia" (uma espécie de favela high-tech), ambas conectadas por um grande elevador que atravessa o núcleo do planeta.
Em meio a uma dissidência entre o governo opressor que impõe subserviência ao proletariado e a resistência daqueles que buscam igualdade, o operário Doug Quaid (Farrell) descobre que as memórias que possuía até então lhe foram implantadas, e que sua real identidade é a de um importante agente da resistência, o quê pode explicar a violenta perseguição da qual ele passa a ser vítima.
A diferença mais pontual entre os dois filmes (e a que têm mais inspiração também) surge aí. A melhor sacada de Wiseman foi fundir dois personagens do filme anterior num só: O perseguidor vilanesco vivido por Michael Ironside e a esposa de embuste interpretada por Sharon Stone são combinados na personagem sarcástica, implacável e divertida de Kate Beckinsale (por sinal, esposa de Len Wiseman e também protagonista de “Anjos da Noite”).
Pena que, talvez como conseqüência disso, os outros personagens careçam tanto de brilho: A mocinha tão bem intencionada que dá sono de Jessica Biel (particularmente muito má empregada na reformulação de uma das cenas mais interessantes do filme original) e o líder dos perseguidores, um vilão completamente raso vivido pelo normalmente excelente Bryan Cranston.
Este novo “Total Recall” foge dos enigmas intrincados do filme anterior, optando por uma trama de perseguição que, em sua maior parte, soa mais inteligível e acessível. E todas as escolhas do diretor Wiseman vão, aos poucos, impondo uma atmosfera que de fato afasta-se do trabalho de Verhoeven.
Entretanto, chega um ponto em que Wiseman precisa e deve dizer a quê seu filme veio afinal –é quando o novo “Vingador do Futuro” dá suas mais espetaculares escorregadas: Se o tom kistch imposto pelo diretor Verhoeven funcionava muito bem no filme de 1990, aqui a seriedade de Len Wiseman lhe tira muito da graça que poderia ter tido.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Top Gun - Ases Indomáveis

No meio cinéfilo existe aquele conhecido termo chamado “prazer culposo” que define um filme que o expectador gosta muito –ou pelo menos, nutre um grande carinho –mas, tem vergonha de admitir para as outras pessoas.
Dentre diversos filmes dessa categoria, talvez, o mais famoso, o que representa o estado de arte mais pura a que o “prazer culposo” pode chegar é provavelmente “Top Gun-Ases Indomáveis”.
Uma aventura a um só tempo arrojada e brega que, nos anos 1980 lançou a carreira de Tom Cruise ao estrelato, “Top Gun” une um clima único de romantismo e cafonice somado à seqüências de batalhas aéreas envolvendo caças que impressionam até hoje.
Mesmo seus deslizes técnicos e artísticos (e eles existem aos borbotões) só servem para ampliar o seu fascínio aos olhos de seus admiradores que se deleitam com o visual impecável (ainda que datado em alguns aspectos), com a trilha sonora melodiosa e com os rompantes escandalosos do herói mimado e seu relacionamento narcisista –travestido de história de amor –com uma mulher que age menos como uma cara metade apaixonada e mais como uma babá tentando administrar os caprichos de uma criança.
Seu protagonista é o impetuoso Maverick (Tom Cruise numa clara evolução de seu papel anterior, o rapaz de “Negócio Arriscado”), jovem piloto da força aérea incluído, ao lado do melhor amigo Goose (Anthony Edwards que mais tarde faria a série “Plantão Médico”), no seletivo curso denominado Ases Indomáveis. O comportamento rebelde e impertinente de Maverick colide com o piloto mais idolatrado do curso, o arrogante Iceman (Val Kilmer, um antagonista por quem o personagem principal parece estranhamente obcecado), e ele ainda se apaixona por uma bela mulher (Kelly McGillis, espetacularmente bem fotografada), pouco antes de descobrir que ela é uma das instrutoras.
Tais conflitos e tensões muitas vezes acabam por serem extravasados nos ares, em meio a espetaculares batalhas de caças aéreos.
Não há muitas dúvidas de que o estrondoso sucesso obtido nos anos 1980 se deve pelo tratamento estilizado, algo publicitário, que o hoje falecido diretor Tony Scott (irmão mais novo de Ridley) deu às cenas de batalha aérea extraordinariamente filmadas (a prodigiosa fotografia é de Jeffrey Kimball), o real mérito da produção, que ainda arrebatou o Oscar de Melhor Canção para "Take My Bread Away", do grupo Berlin, uma das baladas mais populares daquela década.
Em meados dos anos 1990, graças à uma observação de Quentin Tarantino, “Top Gun” passou também a ser muito lembrado e avaliado por suas sucintas referências homossexuais que passaram despercebidas por muitos machões que idolatraram (e ainda idolatram) o filme: Detalhes ocasionais como a inusitada energia erótica que parece convergir das cenas inusitadas em que o diretor Scott registra os cadetes na sauna, com seus corpos suados, em embates verbais (!); elementos quase imperceptíveis como o fato de que a personagem de McGillis só parece ganhar a atenção de fato do protagonista quando se veste com as mesmas roupas dos homens; e também o detalhe (possivelmente um exagero dramático do roteiro que virou pretexto para esses argumentos) de que, na narrativa, as reações genuinamente emocionais do personagem principal só ocorrem quando envolvem seu melhor amigo Gooze.
Características até banais na década de 1980, mas que sob o prisma dos novos tempos transformam-se em uma curiosidade a mais que vem a justificar a inúmeras revisões que este trabalho recebeu do público ao longo dos anos, e que faz dele o supra-sumo absoluto a que os “prazeres culposos” podem chegar.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

X-Men Primeira Classe

Ao se conhecerem, o jovem sobrevivente dos campos de concentração Erik Lensherr e o aristocrata Charles Xavier imediatamente percebem uma conexão que os torna melhores amigos, unidos no ideal de encontrar e recrutar as pessoas oriundas da proeminente raça dos mutantes (pessoas que nascem com assombrosos e diferenciados poderes, o que os tornam vítimas de discriminação por parte dos humanos comuns) que surgem no mundo em meados dos anos 1960 de então. Mas um inimigo poderoso surgirá na forma de Sebastian Shaw, que usará desses mesmos mutantes para arremessar o mundo numa Terceira Guerra Mundial, valendo-se do episódio da Crise dos Mísseis de Cuba, o quê, entre outras coisas, levará Erik e Charles a um rompimento irreversível.
Após o fiasco não só em termos de bilheteria, mas de crítica também, do filme solo do Wolverine as coisas rapidamente mudaram nos estúdios da Fox: Um novo projeto envolvendo os mutantes rapidamente foi iniciado, com toda a cara de reformulação da série (um elenco de novos atores –Michael Fassbender, James MacAvoy e Jennifer Lawrence, em destaque –incorporando uma versão mais jovem dos personagens Magneto, Charles Xavier e Mística, e um retrocesso no tempo para contar o início da história), e mais uma vez Bryan Singer estava envolvido (agora como roteirista e produtor), além da bem-vinda euforia cinética que o novo diretor, o talentoso Matthew Vaughn (de “Kick Ass”), trouxe para a narrativa.
O resultado foi “X-Men Primeira Classe”, um filme vibrante que excedeu expectativas e não apenas devolveu o brilho aos mutantes no cinema, resgatando a profundidade de suas histórias e do pertinente estudo sobre o preconceito, mas cuja qualidade cinematográfica obtida praticamente em todas as áreas técnicas e artísticas logo o colocou como o melhor filme da série (posto que ele ocupa até hoje).
Um novo e promissor futuro aguardava os mutantes, mas a grande questão era: Será que a saga sofreria uma reinvenção, ou este era tão somente o passado dos filmes originais?