Uma animação francesa realizada nos anos 1970 e que pode ter, ou não, influenciado James Cameron e seu “Avatar” (sabe-se que foi nessa década que o diretor teve o vislumbre do esboço inicial do roteiro): As semelhanças vão desde a cor azul dos alienígenas em ambos os filmes, como também o antagonismo –proporcionando uma reflexiva inversão de valores –que surge entre eles e a raça humana.
Se em “Avatar”, a inversão de valores se dá
porque são os humanos os invasores alienígenas na trama, em “La Planète
Sauvage” –seu título original –isso ocorre porque são os humanos (chamados Oms)
as criaturas usadas como animais de estimação pelos Draags (os tais alienígenas
azuis, e gigantescos), recebendo inclusive aquele mesmo tratamento de cruel
paternalismo que, por vezes, usamos para tratar nossos próprios animais de
estimação.
Adaptado de um romance escrito em 1957 pelo
autor francês Stefan Wul, intitulado "Oms", "Planeta
fantástico" se passa no planeta Ygam, onde os Draags sequestram humanos
terráqueos (ou, pelo menos, seres muitíssimo parecidos com humanos, aqueles que
chamam de Oms), para os criarem como animais de estimação. Consequentemente, os
Oms são muito maltratados pelos Draags, fazendo com que inúmeros deles acabem
morrendo, enquanto outros ainda conseguem fugir. Ainda um bebê, o jovem
protagonista Teer tem sua mãe cruelmente morta por crianças Draags. Acolhido
como um animal de estimação, Terr cresce sempre próximo de uma jovem Draag
chamada Tiwa. Ao longo do tempo em que convive com os Draags, Teer acaba
aprendendo ensinamentos semelhantes aos de Tiwa, se tornando um ser humano
consciente –algo semelhante, como dá pra notar, ao enredo da superprodução de
James Cameron, embora lá ele não se furte de trazer os humanos como
antagonistas, é provável que, nos anos 1970, mesmo em obras experimentais,
ainda se cultivasse uma certa esperança na Humanidade.
Enfim, continuando a trama: Já crescido, Teer
consegue fugir de seus captores Draags e encontra outros humanos refugiados da
sociedade Draag. Munido de seus conhecimentos, Teer acaba ensinando aos outros
humanos tudo aquilo que aprendeu, fomentando entre eles a ideia de um levante,
uma guerra contra os Draags. Entretanto, diante da superioridade física dos
Draags, os Oms precisam se unir para valer-se de inteligência emocional e
estratégia a fim de sobrepujar seus agigantados inimigos.
Embora haja certa complexidade no
desenvolvimento do diretor René Laloux para esta animação frequentemente
filosófica, não há muitas dúvidas acerca de suas reflexões finais –no embate
dos reduzidos e oprimidos Oms contra os imensos e indiferentes Draags, “Planeta
Fantástico” fala sobre o desleixo humano no trato com outras formas de vida (os
animais); sobre a luta de classes entre desfavorecidos e a elite; e sobre como
o subconsciente coletivo consegue facilmente desumanizar um oponente quando as
diferenças e divergências apagam qualquer chance de identificação.

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