Se há um filme atrelado à expectativas, esse filme é “Avatar”. Não há como se preparar para assisti-lo sem esperar por uma experiência visual sem precedentes. Esse é, pois, o fantasma que assombra as suas continuações. A primeira delas, “O Caminho da Água”, lançada catorze anos depois do filme original, revelou-se uma obra um pouco menos ambiciosa, no sentido de que se debruçava sobre uma trama mais voltada aos seus protagonistas, Jake Sully e Neittiry, e aos filhos de tiveram nesse interim, e menos ao mundo vasto, imaginativo e alienígena que os cercam. O senso de proporções épicas e míticas volta, porém, a dar o tom neste terceiro filme, “Fogo e Cinzas”, num esforço genuíno e nítido para ir além do segundo filme – e, se possível, do festejado primeiro filme também.
É curioso que James Cameron, o criador, parece
consciente de que são justamente os personagens novos, criados a partir de “O
Caminho da Água”, bem como as inusitadas dinâmicas entre eles, que trazem um
sopro de ar fresco à trama, uma vez que ela se atreve a repetir alguns tópicos
do filme original.
Após os acontecimentos do filme anterior (que,
diferente do filme de 2009, se sucedem simultaneamente neste daqui, sem saltos
temporais), Lo’ak, o filho de Jake e Neittiry, ainda se sente culpado pela
morte do irmão, enquanto Jake e Neittiry vivenciam o luto, cada um ao seu jeito:
Jake reúne armamento obcecadamente, preparando-se para as hostilidades por vir;
Neittiry se refugia na oração e na fé.
O lugar onde estão instalados –lar do Clã
Metkayina, os Na’Vi aquáticos –está por receber comerciantes vindos das grandes
florestas –e para lá destinados a voltar. É quando Jake decide enviar com eles
Spider (Jack Champion), o humano que ele e Neittiry criaram como filho. Spider
é, na verdade, filho biológico de Miles Quaritch (Stephen Lang), grande vilão
da história (ainda que os conceitos de vilão comecem, aqui, a serem pouco a
pouco revistos), e como Spider depende de máscaras de oxigênio para não sufocar
com o ar do planeta Pandora, a decisão visa deixa-lo em segurança.
A família (Jake, Neittiry, Lo’ak e as filhas
Kiri –na verdade, nascida do corpo Na’Vi da Dra. Augustine, do primeiro filme –e
Tuk) toda o acompanha nessa espécie de despedida. São atacados (pelo próprio
pessoal de Quaritch), e muitos perdem-se nas florestas de Pandora. Descrevendo,
parece uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, mas, a narrativa de “Fogo e
Cinzas” evoca um tom de contemplação por meio do qual, por um tempo
considerável de filme, não registramos necessariamente nenhum acontecimento –ainda
que a habilidade de James Cameron na direção mantenha o andamento sempre
impecável –não à toa “Fogo e Cinzas” é o mais longo dentre todos os três filmes
produzidos até então.
À beira da morte quando seu oxigênio por fim se
esvai, Spider é salvo quando Eywa, a divindade que habita Pandora, resolve
salvá-lo modificando seu sistema nervoso, tornando-o o único humano capaz de
respirar a atmosfera de lá.
Contudo, agora o Povo do Céu –como os nativos
de Pandora apelidaram os insensíveis invasores humanos –quer encontrar Spider
de qualquer forma: Eles compreendem que ele tem a chave para que a Humanidade
possa, de uma vez por todas, se estabelecer em Pandora para extrair suas
riquezas naturais. A missão de Quaritch, portanto, além da vingança contra Jake
Sully esboçada no filme anterior, é também encontrar e capturar seu próprio
filho.
No escopo épico (para além dos filmes
anteriores) que almeja para sua obra, Cameron não se restringe somente à esse
conflito: Ele também explora (tornando este o grande diferencial de “Fogo e
Cinzas”) uma outra beligerante e agressiva tribo de Na’Vi em Pandora, o Povo
das Cinzas, cuja cultura repele a predominante adoração à Eywa, para abraçar um
culto ao fogo e à destruição que ele é capaz de promover. Sua líder é a
psicótica Varang (Oona Chaplin) que, num acordo fechado com Quaritch, acaba
munindo seus guerreiros com armas pesadas na intenção de sobrepujar todos os
outros Na’Vi.
O outro conflito de “Fogo e Cinzas” que ganha
força na metade final (e serve, de modo geral, para amarrar as pontas soltas do
enredo) é a tentativa dos humanos em empreender um último ataque aos Tulkun (as
gigantescas e inteligentes baleias alienígenas que sofrem dos humanos a mesma
crueldade insana que as baleias reais aqui na Terra) o que pode levar à
extinção da espécie –essa batalha grandiloquente ocupa todo o longo clímax
final, justapondo os Na’Vi da floresta e dos mares num combate contra os
exércitos dos humanos e do Povo das Cinzas (um confronto que espelha bastante a
batalha final do primeiro “Avatar”), e num nível mais íntimo, temos também cada
um dos personagens protagonistas, e suas peculiaridades, sendo trabalhadas ao
longo do acontecimento: Lo’ak e sua complicada relação com o pai; Neittiry e
sua tentativa de equilibrar a natureza de guerreira e de mãe; Spider dividido
entre sua humanidade (que o relaciona aos próprios inimigos que enfrenta,
incluindo o pai) e a lealdade ao povo Na’Vi; Kiri e a descoberta de suas
origens e de uma conexão ainda mais profunda com Eywa.
Aliás, o aspecto espiritual é um fator da
mitologia de “Avatar” que surge muito melhor explorado aqui (embora, de novo,
muitas dessas ideias terminem levando à cenas de ação que correm o risco de
soarem repetitivas em relação aos filmes anteriores) o que sinaliza caminhos um
bocado interessantes a serem explorados nas continuações.
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