Mostrando postagens com marcador Stephen Lang. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stephen Lang. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de maio de 2026

Avatar - Fogo e Cinzas


 Se há um filme atrelado à expectativas, esse filme é “Avatar”. Não há como se preparar para assisti-lo sem esperar por uma experiência visual sem precedentes. Esse é, pois, o fantasma que assombra as suas continuações. A primeira delas, “O Caminho da Água”, lançada catorze anos depois do filme original, revelou-se uma obra um pouco menos ambiciosa, no sentido de que se debruçava sobre uma trama mais voltada aos seus protagonistas, Jake Sully e Neittiry, e aos filhos de tiveram nesse interim, e menos ao mundo vasto, imaginativo e alienígena que os cercam. O senso de proporções épicas e míticas volta, porém, a dar o tom neste terceiro filme, “Fogo e Cinzas”, num esforço genuíno e nítido para ir além do segundo filme – e, se possível, do festejado primeiro filme também.

É curioso que James Cameron, o criador, parece consciente de que são justamente os personagens novos, criados a partir de “O Caminho da Água”, bem como as inusitadas dinâmicas entre eles, que trazem um sopro de ar fresco à trama, uma vez que ela se atreve a repetir alguns tópicos do filme original.

Após os acontecimentos do filme anterior (que, diferente do filme de 2009, se sucedem simultaneamente neste daqui, sem saltos temporais), Lo’ak, o filho de Jake e Neittiry, ainda se sente culpado pela morte do irmão, enquanto Jake e Neittiry vivenciam o luto, cada um ao seu jeito: Jake reúne armamento obcecadamente, preparando-se para as hostilidades por vir; Neittiry se refugia na oração e na fé.

O lugar onde estão instalados –lar do Clã Metkayina, os Na’Vi aquáticos –está por receber comerciantes vindos das grandes florestas –e para lá destinados a voltar. É quando Jake decide enviar com eles Spider (Jack Champion), o humano que ele e Neittiry criaram como filho. Spider é, na verdade, filho biológico de Miles Quaritch (Stephen Lang), grande vilão da história (ainda que os conceitos de vilão comecem, aqui, a serem pouco a pouco revistos), e como Spider depende de máscaras de oxigênio para não sufocar com o ar do planeta Pandora, a decisão visa deixa-lo em segurança.

A família (Jake, Neittiry, Lo’ak e as filhas Kiri –na verdade, nascida do corpo Na’Vi da Dra. Augustine, do primeiro filme –e Tuk) toda o acompanha nessa espécie de despedida. São atacados (pelo próprio pessoal de Quaritch), e muitos perdem-se nas florestas de Pandora. Descrevendo, parece uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, mas, a narrativa de “Fogo e Cinzas” evoca um tom de contemplação por meio do qual, por um tempo considerável de filme, não registramos necessariamente nenhum acontecimento –ainda que a habilidade de James Cameron na direção mantenha o andamento sempre impecável –não à toa “Fogo e Cinzas” é o mais longo dentre todos os três filmes produzidos até então.

À beira da morte quando seu oxigênio por fim se esvai, Spider é salvo quando Eywa, a divindade que habita Pandora, resolve salvá-lo modificando seu sistema nervoso, tornando-o o único humano capaz de respirar a atmosfera de lá.

Contudo, agora o Povo do Céu –como os nativos de Pandora apelidaram os insensíveis invasores humanos –quer encontrar Spider de qualquer forma: Eles compreendem que ele tem a chave para que a Humanidade possa, de uma vez por todas, se estabelecer em Pandora para extrair suas riquezas naturais. A missão de Quaritch, portanto, além da vingança contra Jake Sully esboçada no filme anterior, é também encontrar e capturar seu próprio filho.

No escopo épico (para além dos filmes anteriores) que almeja para sua obra, Cameron não se restringe somente à esse conflito: Ele também explora (tornando este o grande diferencial de “Fogo e Cinzas”) uma outra beligerante e agressiva tribo de Na’Vi em Pandora, o Povo das Cinzas, cuja cultura repele a predominante adoração à Eywa, para abraçar um culto ao fogo e à destruição que ele é capaz de promover. Sua líder é a psicótica Varang (Oona Chaplin) que, num acordo fechado com Quaritch, acaba munindo seus guerreiros com armas pesadas na intenção de sobrepujar todos os outros Na’Vi.

O outro conflito de “Fogo e Cinzas” que ganha força na metade final (e serve, de modo geral, para amarrar as pontas soltas do enredo) é a tentativa dos humanos em empreender um último ataque aos Tulkun (as gigantescas e inteligentes baleias alienígenas que sofrem dos humanos a mesma crueldade insana que as baleias reais aqui na Terra) o que pode levar à extinção da espécie –essa batalha grandiloquente ocupa todo o longo clímax final, justapondo os Na’Vi da floresta e dos mares num combate contra os exércitos dos humanos e do Povo das Cinzas (um confronto que espelha bastante a batalha final do primeiro “Avatar”), e num nível mais íntimo, temos também cada um dos personagens protagonistas, e suas peculiaridades, sendo trabalhadas ao longo do acontecimento: Lo’ak e sua complicada relação com o pai; Neittiry e sua tentativa de equilibrar a natureza de guerreira e de mãe; Spider dividido entre sua humanidade (que o relaciona aos próprios inimigos que enfrenta, incluindo o pai) e a lealdade ao povo Na’Vi; Kiri e a descoberta de suas origens e de uma conexão ainda mais profunda com Eywa.

Aliás, o aspecto espiritual é um fator da mitologia de “Avatar” que surge muito melhor explorado aqui (embora, de novo, muitas dessas ideias terminem levando à cenas de ação que correm o risco de soarem repetitivas em relação aos filmes anteriores) o que sinaliza caminhos um bocado interessantes a serem explorados nas continuações.

Desnecessário dizer que visualmente “Fogo e Cinzas” é um espetáculo atordoante (por mais incrível que possa parecer, James Cameron continua bem sucedido em superar a si mesmo, filme a filme, em termos visuais e técnicos), sobretudo, àqueles que forem conferir seu primoroso aparato em 3D, e só isso já vale, em si, toda a experiência de assistir ao filme nos cinemas, a sua trama, entretanto, carece de polimento e ostenta consideráveis lapsos de imperfeição apesar dos visíveis esforços. Mas, bem... essa já era uma característica presente desde o primeiro “Avatar” –e nunca resultou numa preocupação maior da parte de James Cameron.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Avatar - O Caminho da Água


 Vencedor de 3 Oscars, uma transformação na maneira de se ver (e fazer) cinema com seus revolucionários efeitos 3D, e como se não bastasse, a maior bilheteria da história da sétima arte. “Avatar”, lançado num já longínquo 2009 (lá se vão treze anos!) não é uma façanha das muito fáceis de ser equiparada. Entretanto, é algo assim que almeja o sempre ambicioso James Cameron com “Avatar-O Caminho da Água”, continuação de seu formidável épico de ficção científica na qual ele vem trabalhando desde o filme anterior.

Aqueles que forem conferir o filme podem até afirmar que o ineditismo de seus efeitos visuais, ainda que assombrosos, ainda que irretocáveis, não traz o mesmo espanto de antes; que as cenas em 3D, ainda que fenomenais, não acrescentam tanto assim ao filme anterior, mas, a verdade é que “O Caminho da Água” é uma sequência pensada com sensatez, talento e perícia incontestáveis –tal qual fez com “Exterminador do Futuro 2” e “Aliens-O Resgate” (as duas únicas continuações que foram capazes de adicionar elementos realmente novos e instigantes às suas franquias originais), Cameron deu uma continuidade válida, auspiciosa e empolgante para a brilhante aventura no planeta Pandora.

Quando “O Caminho da Água” começa, descobrimos que quase vinte anos se passaram desde os acontecimentos retumbantes do filme original. Agora convertido definitivamente em um guerreiro alienígena Na’Vi, o ex-soldado Jake Sully (Sam Worthington) e a nativa Neytiri (Zoe Saldana) se casaram e tiveram uma prole da filhos: O primogênito Neteyam (Jamie Flatters); o impetuoso e descuidado Lo’ak (Britain Dalton); a caçula Tuk (Trinity Jo-Li Bliss), além de uma filha adotiva, Kiri, nascida do corpo avatar da falecida Dra. Augustine, vivida por Sigourney Weaver (e também ela, interpretada pela mesma atriz), e da inesperada presença humana do jovem Spider (Jack Champion), encontrado ainda bebê na base abandonada pelos homens, cujo crescimento se deu entre os próprios Na’Vi.

Esse núcleo de novos personagens haverá de predominar no filme, a despeito até mesmo do casal protagonista do original, então convém prestar atenção neles. Um esforço que, se em princípio parece difícil, logo, a habilidade notória de James Cameron como diretor transforma num deleite; pode ser difícil de acreditar, mas, ele consegue transformar os novatos em indivíduos carregados de carisma e empatia, pelos quais a plateia torce e vibra, ansiando para que fiquem em segurança e se exasperando quando ficam em perigo.

Tudo começa de fato –e isso, demora muito pouco –quando naves gigantescas despontam no espaço (na primeira de inúmeras cenas embasbacantes que virão): O chamado “povo do céu”, ninguém mais, ninguém menos, que os seres humanos, (os verdadeiros alienígenas invasores, numa das mais sensacionais inversões de valores promovida pela obra de Cameron) finalmente voltou para uma revanche. E voltaram armados! Não apenas com seu poderio bélico e tecnológico extremamente mortal para a fauna e flora de Pandora, como também com o surpreendente retorno do protagonista do filme anterior, Coronel Quaritch (Stephen Lang, uma vez mais brilhante) agora com todas as suas memórias salvas dentro da consciência de um corpo Na’Vi, um avatar tal e qual Jake Sully no primeiro filme.

Ciente de que seu corpo original foi morto por Jake e Neytiri, Quaritch busca por sua vingança, o que ele quase consegue quando captura os filhos de Jake e Neytiri, assim como Spider, ao lado de sua tropa –vários soldados, também eles tombados na batalha final de “Avatar” agora com novos corpos Na’Vi.

Jake e Neytiri conseguem resgatar as crianças –exceto por Spider, que é levado prisioneiro, só para descobrir que seu pai era o próprio Quaritch (!) –mas, não deixam de experimentar a possibilidade amarga de perdê-los. E, com isso, Jake decide então que, ao contrário de antes, esta é uma batalha que ele não deseja lutar. Porque antes, a luta envolvia os Na’Vi brigando pelo direito de viver em seu próprio mundo, e agora, tudo se resume ao desejo de vingança de Quaritch. E porque antes, ele não tinha toda uma família que poderia ser tirada dele.

Diante dessa decisão –um tanto difícil para a corajosa e orgulhosa guerreira Neytiri –ele deixa o comando da Tribo da Floresta, e juntos partem para brigar asilo nas longínquas tribos que vivem além. Na’Vis também, mas ligeiramente diferentes tendo seus corpos alterados pelo ecossistema para se adaptar ao ambiente aquático.

Para Jake Sully e seus filhos, crescidos e acostumados no ambientes florestal, a adaptação será um desafio, assim como o fato de serem aceitos pelos inicialmente arredios e agressivos integrantes dessa nova tribo, comportamento pouco hospitaleiro que reflete o da esposa do chefe, a linha-dura Ronal (vivida em captura de performance por Kate Winslet, mesma atriz com quem Cameron trabalhou em “Titanic”).

Se mesmo nas cenas corriqueiras e em baixa voltagem onde vemos o esforço da Família Sully em serem aceitos naquele novo lugar, tentando aprender novos costumes e novas condutas, as sequências que são elaboradas surgem espetaculares em seu acabamento visual, o que dizer, então, do assombro quando as inúmeras tensões e os notáveis conflitos plantados com relativa inteligência pelo roteiro culminam nas cenas climáticas de seu último terço?

Se haviam aqueles que acreditavam na possibilidade de Cameron manchar o belíssimo e bem lapidado filme anterior com uma continuação vazia e sem sentido, ele entrega aqui uma obra ainda mais poderosa em sua capacidade insuspeita de arrebatar e encantar em igual medida.

Os novos personagens são extraordinariamente cativantes –a ponto de eclipsarem facilmente as figuras conhecidas do filme original –e as dinâmicas novas que surgem entre eles não apenas adicionam emoções mais complexas à trama (caso da relação cheia de ambiguidade, desconfiança, antagonismo e um imprevisto laço de afeto entre Spider e o Coronel Quaritch) como também levantam questões que certamente culminaram nos próximos filmes ainda vindouros (como a capacidade metafísica de Kiri em acessar Eywa, a divindade ancestral de Pandora).

Como fizera em 2009, James Cameron entrega, em “O Caminho da Água”, um atestado técnico e artístico sobre como os limites assim presumidos do cinema podem (e devem) ser testados, forçados e superados por autores indomáveis, incapazes de aceitar o que é comum e possível, e com isso estabelece, para todos os desafortunados outros filmes, um nível estratosférico de qualidade que certamente levará alguns anos para ser igualado.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Conan - O Bárbaro

Parecia absurdo (e realmente era) que um filme memorável e bem-sucedido como “Conan-O Bárbaro”, de 1982, tivesse se restringido apenas a uma pífia continuação (“Conan-O Destruidor”, de 1984, além de “Guerreiro de Fogo”, um derivado muito do sem-vergonha...).
A indústria até tentou compensar esse lapso (tardiamente, é bem verdade) fazendo uma espécie de refilmagem em 2011. Melhor dizendo: Fazendo uma nova versão do personagem, extraído de uma série de quadrinhos da Marvel dos anos 1970, por sua vez, inspirados nos contos escritos na década de 1930, pelo autor Robert E. Howard.
De fato, o personagem Conan, o Bárbaro, é tão rico, marcante e antológico que é de se admirar a pouca atenção dada a ele na cultura pop recente.
Parecia que, em 2011, isso estava prestes a ser compensado. A produção tinha no comando o diretor especialista em videoclips, Marcus Nispel que, se havia feito um trabalho entre o medíocre e o constrangedor no reboot de “Sexta-Feira 13” e no épico “Desbravadores”, ao menos havia entregado algo minimamente interessante na nova versão de “O Massacre da Serra Elétrica”.
No papel principal outra boa notícia: Fora escalado o samoano Jason Momoa (que então havia se destacado num papel menor na série “Game Of Thrones”) e, embora Conan fosse um personagem intrinsecamente relacionado à Arnold Schwarzenegger, as reações à escalação de Momoa foram bastante positivas pela adequação de sua fisionomia ao personagem, sobretudo, às suas caracterizações nos quadrinhos.
A expectativa, porém, é sempre uma faca de dois gumes, e o filme que Nispel entregou naquele ano não equiparava o que alguns fãs dele esperavam; compará-lo com a ótima realização de John Millis, de 1982, então, era uma covardia.
Numa variação até razoável do que está nas HQs, no filme original e do que é esboçado nos livros, a origem do personagem –que ocupa os primeiros vinte minutos –se dá pelo massacre de seu povo, os cimérios, perpetrado pelas tropas do maníaco Khalar Zym (o normalmente competente Stephen Lang, aqui afetado), grande vilão da trama que praticamente substitui, sem o mesmo peso dramático, o Thulsa Doom, de James Earl Jones, no filme de 82.
Conan, então um menino na ocasião, que inclusive teve o pai (Ron Perlman) assassinado –numa sequência feita para ser original, mas que resulta ridícula –passa o resto da vida em busca de vingança.
Anos depois (e já então personificado pela presença bastante impressionante de Jason Momoa), Conan finalmente encontra uma pista de Khalar Zym e parte em seu encalço; descobre assim que o vilão passou as últimas décadas dedicado a encontrar um artefato místico, algo que pode arremessar toda a Era Hiborana (o mundo imaginado por Robert E. Howard onde as aventuras de Conan se passam) num reino de trevas.
Para cada boa decisão tomada pelo filme, há um lapso que o compromete. Exemplo: Se foi bastante positivo manter-se mais fiel às características originais do personagem do que no filme de 82 –um bárbaro selvagem, porém, astuto e articulado na comparação ao guerreiro taciturno de Schwarzenegger –o filme de Nispel ao mesmo tempo comete equívocos grotescos e ginasianos ao coloca-lo em situações risíveis como o forçado enlace amoroso com a jovem indefesa Tamara (Rachel Nichols, interpretando sem um pingo de boa vontade).
Outro: Se por um lado a direção de Nispel capricha no quesito visual (uma de suas especialidades, vide seu currículo), incluindo o aproveitamento da tecnologia 3D (o sucesso “Avatar”, com o próprio Stephen Lang no elenco, havia pegado o mundo de assalto há apenas dois anos), por outro, seu roteiro é incapaz de conceber sequências tão extraordinariamente memoráveis como aquelas que o filme de 82 entrega simultaneamente –todas extraídas das HQs do personagem –o diálogo sobre o Enigma do Aço; a sequência da Grande Roda da Dor; a cena da crucificação e outras.
Além disso, na ânsia por sagrar-se um sucesso de bilheteria –e ser assim acessível a uma plateia de faixa etária o mais ampla possível –o filme padece de uma auto-censura que o despe de todas as singularidades do filme original, como sua audaciosa inclinação para a nudez, para uma sexualidade e uma sanguinolência que soavam (e ainda soam) incomuns nos filmes comerciais de aventura. Algumas cenas até embrincam nessa direção desvanecendo em clichês muito antes de algum resultado válido aparecer na tela.
O filme de 2011, tão promissor que era na oportunidade de recolocar nos cinemas um personagem que merecia e merece a evidência da qual desfrutam hoje ícones como James Bond ou Indiana Jones, padeceu perante um diretor que não soube manter a solidez narrativa de seu filme, e principalmente um roteiro que revelou incompetência absurda ao desperdiçar os conceitos e elementos riquíssimos que tinha a sua disposição.

sábado, 10 de setembro de 2016

O Homem Nas Trevas

O uruguaio Fede Alvarez já demonstrou alguma competência na improvável refilmagem de “Evil Dead” –que contra todas as previsões, trazia certa sofisticação em sua execução.
É sua técnica esmerada e caprichada que salva este filme (também ele produzido por Sam Raimi) do que poderia ser um fiasco.
A trama (simplória e simplista) acompanha três marginais, dois rapazes e uma garota, que vivem de assaltar residências. Um delas surge como uma verdadeira mina de ouro: Única moradia localizada num bairro tomado por casas desabitadas, ela é residência de um veterano do exército cego (Stephen Lang, muito bom) e que recentemente recebeu uma gorda indenização em dinheiro.
Em busca dessa grana (e concluindo que as circunstâncias do delito são favoráveis) eles resolvem invadir a casa do indivíduo de madrugada.
Mas, as coisas serão muito mais complicadas do que eles podem imaginar.
Fã de clássicos de terror que é, o produtor Raimi deixa óbvia a inspiração deste roteiro em “As Criaturas Atrás das Paredes” de Wes Craven, embora o diretor Alvarez passe todo o filme impondo energia à narrativa para que ela se sustente sozinha. E é esse seu grande mérito: A cada momento em que o roteiro parece perder o fôlego e empatar a história (e esses momentos são abundantes), ocorre uma reviravolta que restabelece o ritmo e o interesse do expectador.
A postura em relação aos personagens também é fonte de curiosidade: O filme evita com habilidade as posturas sócio-políticas que poderiam suscitar dessa premissa politicamente incorreta (na qual, é bom lembrar, os ‘heróis’ são ladrões residenciais e o ‘vilão’ é um deficiente visual) deixando pontas soltas que podem ser preenchidas com suposições pessoais do público.

Está longe de ser um grande trabalho, mas é um entretenimento bastante razoável.

sábado, 30 de julho de 2016

Avatar

   No que diz respeito à sua técnica narrativa, James Cameron sempre encontrou sua força na simplicidade: É óbvio para qualquer um que ele não busca as questões metafísicas de Andrei Tarkoski (ainda que seja ele o produtor da refilmagem norte-americana de “Solaris”) nem as dilacerações teológicas da alma de Ingmar Bergman.
   O gênio de James Cameron encontra paralelo na solidez quase rústica de autores como John Ford (cujas obras reduzem a reflexão à sua essência), ou na pretensão técnica e artística de gigantes como Kubrick ou Coppola.
   Á exemplo deles, Cameron almejou um cinema de materialização técnica anos-luz a frente de seu tempo. Dentre seus megalomaníacos trabalhos, é “Avatar” que parece chegar próximo do que ele almejava. Para tanto, Cameron se torna o deus absoluto e todo-poderoso de seu próprio mundo, e por meio dele (e da trama esboçada com simplicidade que ele usa para apresentá-lo) começa a construir o que parece ser uma mitologia.
   O ano é 2154. Os humanos deixam o planeta Terra superpopuloso e exaurido para trás e buscam agora os vastos recursos naturais da longínqua lua Pandora, um planeta de ambientação florestal como nunca se viu no cinema.
  Mas lá, eles encontram seus habitantes, os Na'Vi, uma raça alienígena com uma cultura própria (similar em postura e intenção aos índios nativos norte-americanos), extremamente protecionista com relação a sua floresta e bastante hostil quanto aos invasores humanos. Dispostos a contornar esse problema, cientistas criam o programa Avatar, que permite a um usuário humano transferir sua consciência para um corpo Na'Vi.
   O voluntário é o mariner Jake Sully (Sam Worthington), ex-militar paraplégico que aceita a missão pela chance de andar de novo. Uma vez livre em Pandora ele conhece os Na'Vi, e acaba apaixonando-se por uma nativa, Neytiry (personificada por meio de um processo milagrosa de captura de perfomance pela atriz Zoe Saldana).
   Mas, uma guerra se aproxima, entre os invasores humanos e os nativos Na’Vi, o quê obrigará Jake Sully a escolher um lado em definitivo desse conflito.
   Não é por acaso a imediata sensação de familiaridade que a trama desperta: Ela já foi contada, centenas de vezes, e inúmeros contextos e ambientações diferentes, seja no épico “Dança Com Lobos”, ou na animação “Pocahontas”. Contudo, os mesmos que correm para apontar a ingenuidade (para não dizer falta de absoluta de originalidade) de seu roteiro, são também os que admitem que, do ponto de vista visual, poucas vezes o cinema testemunhou uma revolução técnica como a deste filme impressionante.
   Na verdade, visual é uma palavra restrita para definir o que James Cameron criou: “Avatar” é, ele todo, uma poderosa experiência sensorial. Desde o efeito 3D obtido com a tecnologia desenvolvida especialmente para o filme até a criação minuciosa da fauna e flora de seu ecossistema alienígena (com um batalhão de especialistas científicos garantindo a plausibilidade), a obra de Cameron é, do início ao fim, um convite estupendo e exuberante à imersão em um outro mundo.

   Uma idéia que, se pensarmos, nasceu junto com a própria magia do cinema, mas que James Cameron (mesmo numa época onde quaisquer tentativas de inovação narrativa soam como artifícios já explorados) soube elevar a um patamar nunca antes imaginado.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Inimigos Públicos

A precisão de perceber uma época que se transforma é o retrato nunca menos que sublime que nos proporciona o diretor Michael Mann. 
Tal qual é inerente em sua filmografia, os protagonistas e seus asseclas surgem como seres humanos mergulhados nos meandros de suas profissões: Assaltante de banco, no caso do John Dilinger de Johnny Depp; Agente federal, no caso do Neal Purvis de Christian Bale. Mas o registro de Mann, feito com câmera digital do próprio gênero de gangster é que é verdadeiramente desconcertante. A beleza de enquadramentos assimétricos é logo arrebatada pela imprevisibilidade da percepção que a imagem granulada nos provoca. Não há dúvida, aquele é um mundo prestes a mudar. 
E como toda mudança, esta certamente será dolorosa. Os tiroteios a céu aberto em praça pública do Velho Oeste ficaram para trás, mas ainda não longe o suficiente. As leis, a indústria e o progresso tomam de assalto os EUA (assim como a Grande Depressão, seu efeito colateral) e acabam domesticando os homens e regulamentando as cidades. Mas ainda há resquícios desses cowboys de arma na cintura nesses homens civilizados da década de 1930. E Neal Purvis é um deles. O selvagem pistoleiro agora em contato com o homem moderno dentro de si, um certo receio ao ser posto a frente do ainda embrionário Bureau de Investigação. Purvis, porém, tem pouco tempo de cena. É Dilinger a fonte real do fascínio da narrativa. E Johnny Depp, após vinte anos de carreira, e tantos ótimos filmes, aqui parece revelar um novo ator, uma nova forma de interpretar, um novo Johnny Depp, imerso num realismo de pólvora e sangue. Assistir um ator encontrar algo assim é uma jornada incrível. 
Seria injustiça não citar a linda Marion Cotillard, perfeita no contraponto humano e lúdico de uma história que é quase lendária. Em seus momentos centrais “Inimigos Públicos” tem a visceralidade da câmera digital que Michael Mann usou e aprimorou desde o fantástico “Colateral”. No seu princípio e no seu fim, porém, ele retorna às câmeras de cinema, onde o formato widescreen parece emoldurar essa trajetória que não é apenas de John Dilinger, mas de toda uma nação, a caminho de uma nova época, durante a qual só ali, naquele instante, se percebia os efeitos da mudança, e num outro nível, de todo um gênero cinematográfico que nascia então, por meio de homens que, como Dilinger, morriam para se tornarem lendas.