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terça-feira, 16 de junho de 2026

Nas Montanhas dos Gorilas


 Calcada em cima da interpretação espetacular de Sigourney Weaver – pela qual ela foi premiada com o Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática e indicada ao Oscar de Melhor atriz ao lado de Glenn Close (“Ligações Perigosas”), Melanie Griffith (por “Uma Secretária de Futuro”, filme que também contava com Sigourney no elenco, tendo sido indicada, naquele ano, também a Melhor Atriz Coadjuvante por este trabalho), Meryl Strep (“Um Grito na Escuridão”) e, a vencedora, Jodie Foster (“Acusados”) – este belo trabalho reconstitui com alguma pomba e circunstância –e uma imodesta tendência à romantização –a vida de Dian Fossey, estudiosa pioneira em primatologia, o estudo dos primatas em geral e dos gorilas em particular.

1965. Os gorilas são uma espécie em extinção e não há, num futuro imediato, esperança de reverter esse quadro desesperador. Durante uma palestra do Dr. Louis Leakey (Iain Cuthbertson), a professora Dian Fossey (Sigourney), até então com experiência apenas com crianças portadoras de deficiência, se apresenta voluntariamente disposta a embarcar para a África e realizar o tão almejado e difícil senso dos animais restantes, a fim de colher dados para saber quantos haviam restado – e quanto tempo ainda existiriam.

Enfrentando severos obstáculos num primeiro momento, (a região escolhida para a pesquisa na África do Sul, se encontrava imersa numa violenta guerra civil, impossibilitando a permanência dela por lá), ela e o fiel carregador Sembagare (John Omirah Miluwi) encontram o lugar ideal numa afastada e enevoada montanha em Ruanda, na qual uma vasta família de gorilas estabeleceu morada.

Obtendo uma gradual aproximação dos animais, Fossey não apenas consegue o dados para a pesquisa como faz espetaculares descobertas sobre a vida animal e se torna uma defensora ferrenha de suas vidas, chegando  a ser tomada como uma bruxa pelos nativos locais, os Batwa, que até então caçavam gorilas para vender suas mãos e suas cabeças como troféu para caçadores no mercado negro.

Ela se envolve com o fotógrafo da financiadora da pesquisa, a National Geographyc, Bob Campbell (Bryan Brown, de “Os Pássaros Feridos”) e com o passar dos anos ganha reconhecimento entre núcleos acadêmicos por todo o mundo, a ponto de arregimentar – através de acordos com políticos – um grupo de seguranças para o perímetro das montanhas, e até mesmo novos estudantes dispostos a tentar seguir seus passos.

No entanto, para Dian, tudo o que importa são os gorilas e sua preservação e sobrevivência, um sacrifício que, até o fim, ela se dispôs a levar à extremos.

O diretor Michael Apted – em geral, um desenvolto operário-padrão que nunca se preocupou com expressões mais autorais – se equilibra entre uma realização assombrada por convencionalismo (e nesse sentido, há aspectos do filme que envelheceram mal, bem como passagens inteiras que se revelam extremamente datadas) e momentos bastante inspirados (há impressionantes imagens que capturam a desmedida Sigourney Weaver se aproximando realmente dos imensos gorilas e recriando muitos momentos experimentados pela verdadeira Dian Fossey).

Hoje considerado um clássico, “Nas Montanhas dos Gorilas” teve cinco indicações ao Oscar: Além de Melhor Atriz (Sigourney com sua brilhante atuação é sem sombra de dúvida o grande suporte da produção), Melhor Roteiro Adaptado (entre outros pequenos detalhes notáveis, repare na sutil crítica ao hábito tabagista da protagonista que vai deteriorando sua saúde ao longo dos anos), Melhor Montagem (cujo vencedor foi “Uma Cilada Para Roger Rabbit”), Melhor Trilha Sonora (acima de tudo, um gesto de homenagem ao veterano Maurice Jarre, de produções como “A Filha de Ryan” e “A Missão”) e Melhor Mixagem de Som.

sábado, 30 de maio de 2026

Avatar - Fogo e Cinzas


 Se há um filme atrelado à expectativas, esse filme é “Avatar”. Não há como se preparar para assisti-lo sem esperar por uma experiência visual sem precedentes. Esse é, pois, o fantasma que assombra as suas continuações. A primeira delas, “O Caminho da Água”, lançada catorze anos depois do filme original, revelou-se uma obra um pouco menos ambiciosa, no sentido de que se debruçava sobre uma trama mais voltada aos seus protagonistas, Jake Sully e Neittiry, e aos filhos de tiveram nesse interim, e menos ao mundo vasto, imaginativo e alienígena que os cercam. O senso de proporções épicas e míticas volta, porém, a dar o tom neste terceiro filme, “Fogo e Cinzas”, num esforço genuíno e nítido para ir além do segundo filme – e, se possível, do festejado primeiro filme também.

É curioso que James Cameron, o criador, parece consciente de que são justamente os personagens novos, criados a partir de “O Caminho da Água”, bem como as inusitadas dinâmicas entre eles, que trazem um sopro de ar fresco à trama, uma vez que ela se atreve a repetir alguns tópicos do filme original.

Após os acontecimentos do filme anterior (que, diferente do filme de 2009, se sucedem simultaneamente neste daqui, sem saltos temporais), Lo’ak, o filho de Jake e Neittiry, ainda se sente culpado pela morte do irmão, enquanto Jake e Neittiry vivenciam o luto, cada um ao seu jeito: Jake reúne armamento obcecadamente, preparando-se para as hostilidades por vir; Neittiry se refugia na oração e na fé.

O lugar onde estão instalados –lar do Clã Metkayina, os Na’Vi aquáticos –está por receber comerciantes vindos das grandes florestas –e para lá destinados a voltar. É quando Jake decide enviar com eles Spider (Jack Champion), o humano que ele e Neittiry criaram como filho. Spider é, na verdade, filho biológico de Miles Quaritch (Stephen Lang), grande vilão da história (ainda que os conceitos de vilão comecem, aqui, a serem pouco a pouco revistos), e como Spider depende de máscaras de oxigênio para não sufocar com o ar do planeta Pandora, a decisão visa deixa-lo em segurança.

A família (Jake, Neittiry, Lo’ak e as filhas Kiri –na verdade, nascida do corpo Na’Vi da Dra. Augustine, do primeiro filme –e Tuk) toda o acompanha nessa espécie de despedida. São atacados (pelo próprio pessoal de Quaritch), e muitos perdem-se nas florestas de Pandora. Descrevendo, parece uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, mas, a narrativa de “Fogo e Cinzas” evoca um tom de contemplação por meio do qual, por um tempo considerável de filme, não registramos necessariamente nenhum acontecimento –ainda que a habilidade de James Cameron na direção mantenha o andamento sempre impecável –não à toa “Fogo e Cinzas” é o mais longo dentre todos os três filmes produzidos até então.

À beira da morte quando seu oxigênio por fim se esvai, Spider é salvo quando Eywa, a divindade que habita Pandora, resolve salvá-lo modificando seu sistema nervoso, tornando-o o único humano capaz de respirar a atmosfera de lá.

Contudo, agora o Povo do Céu –como os nativos de Pandora apelidaram os insensíveis invasores humanos –quer encontrar Spider de qualquer forma: Eles compreendem que ele tem a chave para que a Humanidade possa, de uma vez por todas, se estabelecer em Pandora para extrair suas riquezas naturais. A missão de Quaritch, portanto, além da vingança contra Jake Sully esboçada no filme anterior, é também encontrar e capturar seu próprio filho.

No escopo épico (para além dos filmes anteriores) que almeja para sua obra, Cameron não se restringe somente à esse conflito: Ele também explora (tornando este o grande diferencial de “Fogo e Cinzas”) uma outra beligerante e agressiva tribo de Na’Vi em Pandora, o Povo das Cinzas, cuja cultura repele a predominante adoração à Eywa, para abraçar um culto ao fogo e à destruição que ele é capaz de promover. Sua líder é a psicótica Varang (Oona Chaplin) que, num acordo fechado com Quaritch, acaba munindo seus guerreiros com armas pesadas na intenção de sobrepujar todos os outros Na’Vi.

O outro conflito de “Fogo e Cinzas” que ganha força na metade final (e serve, de modo geral, para amarrar as pontas soltas do enredo) é a tentativa dos humanos em empreender um último ataque aos Tulkun (as gigantescas e inteligentes baleias alienígenas que sofrem dos humanos a mesma crueldade insana que as baleias reais aqui na Terra) o que pode levar à extinção da espécie –essa batalha grandiloquente ocupa todo o longo clímax final, justapondo os Na’Vi da floresta e dos mares num combate contra os exércitos dos humanos e do Povo das Cinzas (um confronto que espelha bastante a batalha final do primeiro “Avatar”), e num nível mais íntimo, temos também cada um dos personagens protagonistas, e suas peculiaridades, sendo trabalhadas ao longo do acontecimento: Lo’ak e sua complicada relação com o pai; Neittiry e sua tentativa de equilibrar a natureza de guerreira e de mãe; Spider dividido entre sua humanidade (que o relaciona aos próprios inimigos que enfrenta, incluindo o pai) e a lealdade ao povo Na’Vi; Kiri e a descoberta de suas origens e de uma conexão ainda mais profunda com Eywa.

Aliás, o aspecto espiritual é um fator da mitologia de “Avatar” que surge muito melhor explorado aqui (embora, de novo, muitas dessas ideias terminem levando à cenas de ação que correm o risco de soarem repetitivas em relação aos filmes anteriores) o que sinaliza caminhos um bocado interessantes a serem explorados nas continuações.

Desnecessário dizer que visualmente “Fogo e Cinzas” é um espetáculo atordoante (por mais incrível que possa parecer, James Cameron continua bem sucedido em superar a si mesmo, filme a filme, em termos visuais e técnicos), sobretudo, àqueles que forem conferir seu primoroso aparato em 3D, e só isso já vale, em si, toda a experiência de assistir ao filme nos cinemas, a sua trama, entretanto, carece de polimento e ostenta consideráveis lapsos de imperfeição apesar dos visíveis esforços. Mas, bem... essa já era uma característica presente desde o primeiro “Avatar” –e nunca resultou numa preocupação maior da parte de James Cameron.

domingo, 9 de junho de 2024

Uma Secretária de Futuro


 O saudoso diretor Mike Nichols sempre teve uma versatilidade desigual, essa capacidade, somada ao talento para sintonizar as sutilezas da atuação (oriundo de sua formação teatral) ajudou a moldar inúmeros projetos singulares que compõem a sua filmografia. Nela, há de tudo um pouco. Das raras comédias a concorrer à prestigiada estatueta de Melhor Filme na cerimônia do Oscar 1989 (prática que infelizmente perdura até hoje), “Uma Secretária de Futuro” é um título que se destaca: Por sua simpatia perene junto ao público que tornou-o um sucesso de bilheteria; pela escolha espetacular, primorosa e espirituosa de intérpretes, todos perfeitos (algo no qual Nichols era craque); e pela junção adequada, funcional e certeira de elementos, tais como um bom roteiro, boas atuações e uma ótima direção.

Interpretada com fulgor fora do comum por Melanie Griffith (uma atriz com algo de alternativo que, na época, dificilmente seria uma escolha convencional para um papel como este), Tess McGill é uma das muitas assalariadas que luta por ter lugar ao sol na disputada (e machista) Nova York da década de 1980. Todos os dias, ela pega a balsa que a leva da suburbana Nova Jersey –onde tenta levar uma vida doméstica, pacata e pretensamente estabelecida ao lado do noivo (Alec Baldwin) –para a competitiva e inclemente Manhattan, onde estão os tubarões corporativistas da bolsa de valores que normalmente atuam como seus patrões; Tess é secretária.

Um deles (Oliver Platt) não tarda a lhe preparar uma armadilha: Julgando ser uma entrevista de emprego para um cargo melhor, Tess acaba na limusine de um executivo disposto à seduzí-la –uma ponta de um ainda desconhecido Kevin Spacey, da época em que atuava mais como comediante. Como pedir demissão na situação financeira de classe média-baixa em que vive é um risco e tanto, Tess tem consciência da urgência em arrumar outro ganha-pão. E ela julga que sua sorte pode finalmente mudar quando começa a trabalhar para a empoderada e discursivamente encorajadora Katharine Parker (Sigourney Weaver, afiadíssima) –afinal, com uma mulher como chefe, imagina Tess, as chances de crescer profissionalmente se tornam reais, longe da indulgência tipicamente masculina, não é mesmo?

Contudo, não é exatamente isso que acontece: Ao sugerir uma ideia bastante original e arguta que teve para Katharine –a de investir, não em emissoras de TV, no ramo de propaganda, mas em emissoras de rádio, por conta dos valores e das complexidades de negociações serem infinitamente mais razoáveis –Tess descobre que Katharine tentou lhe passar a perna. Durante uma tumultuada semana em que Katharine sofre uma fratura andando de esqui, Tess fica sabendo que ela lhe roubou a ideia e iniciou negociações preliminares com um tal de Jack Trasker (Harrison Ford, no auge de sua fase galã). Ao aproveitar-se da ausência de Katharine para passar-se por uma das acionistas a fim de conduzir a negociação, Tess inicia uma relação profissional promissora ao lado de Jack, que acaba progredindo para uma relação mais íntima também –e em ambos os casos, Tess sabe que terá a competição acirrada e desleal de Katharine.

A narrativa que Mike Nichols constrói em “Uma Secretária de Futuro” é, até hoje, pra lá de saborosa: Não apenas ele faz uso imodesto dos elementos de comédia romântica presentes na trama (os encontros e desencontros entre Tess e Jack são simultaneamente deliciosos de se acompanhar) como também se vale de um expediente muito comum em obras graciosas dos anos 1980, onde um, ou uma, protagonista finge, por razões até que nobres, guardadas as proporções, ser aquilo que não é, e cria toda uma farsa a um só tempo divertida e tensa com data de validade para terminar (pois, mentira, apesar dos pesares, ainda tem perna curta!), premissa que funcionou para as mais diversificadas produções como “Tootsie”, “Quase Igual Aos Outros”, “Um Príncipe Em Nova York”, “Tocaia” e tantas outras, aliado a isso, ele ainda elabora uma observação contundente, envolvente e cheia de propriedade, do competitivo mercado de trabalho yuppie dos anos 1980, amparada numa personagem principal cheia de iniciativa, pioneira das personagens femininas a se posicionar com independência e auto-afirmação perante os homens em um universo predominantemente masculino.

Em tempo: Já a adentrar os anos 1990, algum executivo da NBC teve a ideia de criar uma série de TV inspirada em “Uma Secretária de Futuro” –ou “Working Girl”, seu título original –e a atriz que interpretou Tess McGill nos oito episódios que essa série pouquíssimo lembrada durou foi uma ainda desconhecida Sandra Bullock!

sexta-feira, 14 de abril de 2023

One Woman Or Two


 Raríssima comédia francesa dos anos 1980 que marca a primeira colaboração da estrela norte-americana Sigourney Weaver e o astro francês Gerard Depardieu (a segunda foi “1492-A Conquista do Paraíso”, de Ridley Scott). Para compreendermos um pouco melhor as origens deste projeto, vamos voltar à época da Velha Hollywood, em meados dos anos 1930, quando foi popularizado o gênero da comédia screwball. Levemente satírico, o screwball tinha como características chaves os enredos improváveis onde a classe alta (num reflexo do período da Grande Depressão) aprendia certos contextos específicos da realidade por meio de percalços graciosos, espirituosos e até românticos. Um dos inúmeros filmes muito lembrados desse nicho em particular é o clássico “Levada da Breca”, de 1938, a reunir em cena os astros Cary Grant e Katherine Hepburn. Pois eis que o filme francês “One Woman Or Two” vem a ser, portanto, uma refilmagem, em plenos anos 1980, de “Levada da Breca”!

Se a obra hollywoodiana dos anos 1930 tinha o viés ideológico de seu tempo como mensagem subliminar –as mulheres ascendendo como protagonistas tão dinâmicas quanto os homens, num mundo em que as bases sociais e econômicas enfrentavam turbulentas transformações –na realização francesa, está em foco uma espécie de percepção muito oitentista do que seria o entretenimento em geral, e a comédia em particular; o romance (como parecia inerente em muitos filmes até de outros gêneros daquela época) se apropria da premissa para gerar uma circunstância de estranhamento e comicidade que atende às demandas do público de então, mais interessado na curiosidade desconcertante da proposta em si do que na desconstrução de papéis comportamentais.

Dessa forma, temos então o arqueólogo interpretado por Gerar Depardieu, Dr. Julien Chayssac, realizando uma descoberta bombástica: Os restos mortais, datados de 2 milhões de anos atrás, do que seria o primeiro exemplar de uma mulher francesa! A descoberta do fóssil (logo apelidado Laura) transforma o tímido arqueólogo numa celebridade que, como costuma ocorrer em tais condições, não tarda a atrair aproveitadores. É dessa forma que se apresenta a ele a solícita, entusiasmada e petulante publicitária Jessica Fitzgerald (Sigourney Weaver, possivelmente, a única estrela americana dos anos 1980 capaz de igualar os trejeitos incomuns de Katherine Hepburn) representando uma organização de caridade disposta a usar da imagem de ‘Laura’ como campanha para uma marca de perfume (?!), contudo, Jessica é, na verdade, uma executiva da Madisson Avenue e seus interesses gananciosos no famoso fóssil passam longe de qualquer virtude. Isso fica claro quando aparece a Sra. Heffner (Ruth Westheimer), verdadeira representante de uma organização filantrópica, no caso, o Apadroamento Americano das Ciências. Nas confusões que se seguem, o atrapalhado e perplexo Dr. Chayssac e a voluntariosa americana Jessica encontram (claro!) uma inesperada afinidade amorosa.

Dirigido por Daniel Vigne (de “O Retorno de Martin Guerre”, por ironia, mais tarde, refilmado nos EUA como “Sommersby-O Retorno de Um Estranho”), “One Woman Or Two” –também reconhecido por seu título francês “Une Femme Ou Deux” –é um romance desigual e inusitado, muito similar à outras obras entregues por artesões da França naquela época (até mesmo fortuitas cenas de nudez da parte de Sigourney ele entrega!) que o tempo acabou por transformar quase numa lenda murmurada por poucos conhecedores em nichos cinéfilos mais específicos.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Avatar - O Caminho da Água


 Vencedor de 3 Oscars, uma transformação na maneira de se ver (e fazer) cinema com seus revolucionários efeitos 3D, e como se não bastasse, a maior bilheteria da história da sétima arte. “Avatar”, lançado num já longínquo 2009 (lá se vão treze anos!) não é uma façanha das muito fáceis de ser equiparada. Entretanto, é algo assim que almeja o sempre ambicioso James Cameron com “Avatar-O Caminho da Água”, continuação de seu formidável épico de ficção científica na qual ele vem trabalhando desde o filme anterior.

Aqueles que forem conferir o filme podem até afirmar que o ineditismo de seus efeitos visuais, ainda que assombrosos, ainda que irretocáveis, não traz o mesmo espanto de antes; que as cenas em 3D, ainda que fenomenais, não acrescentam tanto assim ao filme anterior, mas, a verdade é que “O Caminho da Água” é uma sequência pensada com sensatez, talento e perícia incontestáveis –tal qual fez com “Exterminador do Futuro 2” e “Aliens-O Resgate” (as duas únicas continuações que foram capazes de adicionar elementos realmente novos e instigantes às suas franquias originais), Cameron deu uma continuidade válida, auspiciosa e empolgante para a brilhante aventura no planeta Pandora.

Quando “O Caminho da Água” começa, descobrimos que quase vinte anos se passaram desde os acontecimentos retumbantes do filme original. Agora convertido definitivamente em um guerreiro alienígena Na’Vi, o ex-soldado Jake Sully (Sam Worthington) e a nativa Neytiri (Zoe Saldana) se casaram e tiveram uma prole da filhos: O primogênito Neteyam (Jamie Flatters); o impetuoso e descuidado Lo’ak (Britain Dalton); a caçula Tuk (Trinity Jo-Li Bliss), além de uma filha adotiva, Kiri, nascida do corpo avatar da falecida Dra. Augustine, vivida por Sigourney Weaver (e também ela, interpretada pela mesma atriz), e da inesperada presença humana do jovem Spider (Jack Champion), encontrado ainda bebê na base abandonada pelos homens, cujo crescimento se deu entre os próprios Na’Vi.

Esse núcleo de novos personagens haverá de predominar no filme, a despeito até mesmo do casal protagonista do original, então convém prestar atenção neles. Um esforço que, se em princípio parece difícil, logo, a habilidade notória de James Cameron como diretor transforma num deleite; pode ser difícil de acreditar, mas, ele consegue transformar os novatos em indivíduos carregados de carisma e empatia, pelos quais a plateia torce e vibra, ansiando para que fiquem em segurança e se exasperando quando ficam em perigo.

Tudo começa de fato –e isso, demora muito pouco –quando naves gigantescas despontam no espaço (na primeira de inúmeras cenas embasbacantes que virão): O chamado “povo do céu”, ninguém mais, ninguém menos, que os seres humanos, (os verdadeiros alienígenas invasores, numa das mais sensacionais inversões de valores promovida pela obra de Cameron) finalmente voltou para uma revanche. E voltaram armados! Não apenas com seu poderio bélico e tecnológico extremamente mortal para a fauna e flora de Pandora, como também com o surpreendente retorno do protagonista do filme anterior, Coronel Quaritch (Stephen Lang, uma vez mais brilhante) agora com todas as suas memórias salvas dentro da consciência de um corpo Na’Vi, um avatar tal e qual Jake Sully no primeiro filme.

Ciente de que seu corpo original foi morto por Jake e Neytiri, Quaritch busca por sua vingança, o que ele quase consegue quando captura os filhos de Jake e Neytiri, assim como Spider, ao lado de sua tropa –vários soldados, também eles tombados na batalha final de “Avatar” agora com novos corpos Na’Vi.

Jake e Neytiri conseguem resgatar as crianças –exceto por Spider, que é levado prisioneiro, só para descobrir que seu pai era o próprio Quaritch (!) –mas, não deixam de experimentar a possibilidade amarga de perdê-los. E, com isso, Jake decide então que, ao contrário de antes, esta é uma batalha que ele não deseja lutar. Porque antes, a luta envolvia os Na’Vi brigando pelo direito de viver em seu próprio mundo, e agora, tudo se resume ao desejo de vingança de Quaritch. E porque antes, ele não tinha toda uma família que poderia ser tirada dele.

Diante dessa decisão –um tanto difícil para a corajosa e orgulhosa guerreira Neytiri –ele deixa o comando da Tribo da Floresta, e juntos partem para brigar asilo nas longínquas tribos que vivem além. Na’Vis também, mas ligeiramente diferentes tendo seus corpos alterados pelo ecossistema para se adaptar ao ambiente aquático.

Para Jake Sully e seus filhos, crescidos e acostumados no ambientes florestal, a adaptação será um desafio, assim como o fato de serem aceitos pelos inicialmente arredios e agressivos integrantes dessa nova tribo, comportamento pouco hospitaleiro que reflete o da esposa do chefe, a linha-dura Ronal (vivida em captura de performance por Kate Winslet, mesma atriz com quem Cameron trabalhou em “Titanic”).

Se mesmo nas cenas corriqueiras e em baixa voltagem onde vemos o esforço da Família Sully em serem aceitos naquele novo lugar, tentando aprender novos costumes e novas condutas, as sequências que são elaboradas surgem espetaculares em seu acabamento visual, o que dizer, então, do assombro quando as inúmeras tensões e os notáveis conflitos plantados com relativa inteligência pelo roteiro culminam nas cenas climáticas de seu último terço?

Se haviam aqueles que acreditavam na possibilidade de Cameron manchar o belíssimo e bem lapidado filme anterior com uma continuação vazia e sem sentido, ele entrega aqui uma obra ainda mais poderosa em sua capacidade insuspeita de arrebatar e encantar em igual medida.

Os novos personagens são extraordinariamente cativantes –a ponto de eclipsarem facilmente as figuras conhecidas do filme original –e as dinâmicas novas que surgem entre eles não apenas adicionam emoções mais complexas à trama (caso da relação cheia de ambiguidade, desconfiança, antagonismo e um imprevisto laço de afeto entre Spider e o Coronel Quaritch) como também levantam questões que certamente culminaram nos próximos filmes ainda vindouros (como a capacidade metafísica de Kiri em acessar Eywa, a divindade ancestral de Pandora).

Como fizera em 2009, James Cameron entrega, em “O Caminho da Água”, um atestado técnico e artístico sobre como os limites assim presumidos do cinema podem (e devem) ser testados, forçados e superados por autores indomáveis, incapazes de aceitar o que é comum e possível, e com isso estabelece, para todos os desafortunados outros filmes, um nível estratosférico de qualidade que certamente levará alguns anos para ser igualado.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Êxodo - Deuses e Reis

Apesar da lembrança ainda poderosa do épico clássico de Cecil B. De Mille, o diretor Ridley Scott arriscou em 2014, uma nova versão de “Os Dez Mandamentos”.
Vindo de uma tentativa controversa de retomar a série “Alien” (“Prometheus”), Scott moldou um projeto com deliberada aparência de Oscar: História mítica e grandiosa; diretor e equipe técnica renomados; elenco de astros talentosos; até mesmo a data de lançamento nos cinemas era estrategicamente propícia –meados de dezembro, fácil, portanto, de ser lembrado pelos votantes da Academia.
Deveras, Scott também tinha um objetivo bem claro em relação a essa nova repaginação: Abordar a jornada de Moisés (Christian Bale), o filho adotivo do Faraó que descobre ser o prometido libertador do povo hebreu, com um realismo táctil e desmistificador que ia de encontro aos tratamentos anteriores dados à história.
É razoável então que o retrato de Moisés, aqui, seja tão distinto da famosa personificação messiânica de Charlton Heston –Moisés quase ganha um viés de líder terrorista, enfatizado nas manifestações alucinatórias que ele alegadamente tem de Deus (que, na narrativa de Scott, adquirem a possibilidade de ser um mero surto).
E, dessa forma, são também abordados os outros momentos vultuosos da trama: As sete pragas do Egito (cujo respaldo científico de cada uma delas fornecido pelo roteiro faz lembrar o terror “A Colheita do Mal”, lançado pouco antes); a travessia do Mar Vermelho (da qual é removido o teor milagroso de que o mar se abriu, substituído por uma alternação ocasionada por maré alta e maré baixa); a concepção dos 10 mandamentos (mostrados como tendo sido esculpidos pelo próprio Moisés).
No raciocínio dos realizadores, essa é uma ideia que agrega audácia e originalidade à produção (e ainda uma chance de dar à história de Moisés toda uma reflexão ambígua), mas, no final das contas, isso resulta, em grande parte, frustrante.
Há, por exemplo, um premeditado clima de preparação quando o filme adentra seu último terço, no qual se cria expectativa para uma inédita batalha entre os oprimidos hebreus e os opressores egípcios.
Nada, porém, acontece: Scottt, apesar dos lampejos pouco contundentes de subverter a história conhecida, termina por segui-la com proximidade.
“Êxodo” é assim uma superprodução indefinida entre a intenção reverente de manter-se algo fiel ao filme clássico (almejando com alguma pretensão o reconhecimento que ele desfruta) e o ímpeto transgressivo (mais na teoria que na prática...) de oferecer um viés inesperado do famoso episódio bíblico.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Chappie

A carreira de Neil Blomkamp padece de um problema parecido com a de Frank Darabont (diretor de “Um Sonho de Liberdade”): Seu filme inaugural (no caso, o vibrante e inventivo “Distrito 9”) ostenta tanto brilho que todas as suas obras subsequentes se revelam pálidas na comparação.
Assim como “Elysium”, este “Chappie” parece espernear na direção de uma temática diferenciada (ainda que também futurista) sem conseguir ocultar o fato de que é um filme feito nos mesmos moldes daquele.
Na mesma cidade sul-africana de Johanesburgo, em um futuro próximo, a população comemora a implantação de policiais robôs que reduzem dramaticamente o índice de criminalidade.
O jovem gênio por trás do projeto, Deon (Dev Patel), no entanto, não deseja se acomodar nesse êxito: Ele quer ir além e conceber o primeiro autômato dotado de inteligência e consciência artificial.
Quando seus ideais são inibidos pelo raciocínio corporativo de sua empregadora (Sigourney Weaver), Deon não hesita em testar a inteligência artificial na carcaça de um policial robô avariado. É assim que ele cria Chappie (personagem a quem o ator Sharlto Copley dá uma riquíssima e expressiva gama de maneirismos gestuais).
Deixado aos cuidados de um grupo marginal, Chappie –que ostenta em princípio, a ingenuidade e a inocência de uma criança –é colhido no fogo cruzado de interesses dos ‘adultos’ ao seu redor: Para Deon (que ele chama de ‘Criador’), ele é uma obra de arte que definirá o futuro, e deve ser instruído com zelo e critério; para Yo-landi (Yolandi Visser), que assume o papel de sua mãe, ele é alguém a ser protegido e em quem ela pode depositar seu frustrado instinto materno; e para o hostil Ninja (Watkin Tudor Jones), uma improvável e inclemente figura paterna, ele é um meio de arregimentar um indivíduo tão poderoso quanto os policiais robôs para seu próprio lado.
Em meio a tudo isso, Chappie deve aprender a encontrar seu próprio papel a ser desempenhado no destino de todos.
Ao fundir uma premissa que remete ao enredo básico do filme oitentista “Um Robô Em Curto-Circuito” com seu estilo arrojado e adepto de ação explosiva, Blomkamp certamente não realizou uma obra ruim –de modo geral, “Chappie” entretém e captura a atenção o bastante para não ofender nem a inteligência, nem o tempo investido do expectador –no entanto, mais do que qualquer outro filme, ele deixa bem evidente a pouca disposição de seu realizador em abandonar sua própria zona de conforto.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Os Caça - Fantasmas

Durante a década de 1980, o diretor Ivan Reitman e o roteirista (e também ator) Harold Ramis, comediantes da segunda geração do grupo “National Lampoon’s” –lembrando que a primeira geração contava com o impagável John Belushi –tiveram a ideia de conceber um filme que reeditasse grandes uniões cômicas do passado, como “O Gordo e O Magro” e “Os Três Patetas”. Aproveitaram para agregar à premissa um senso de aventura que predominava nos grandes sucessos do período e eis que surgiu a ideia de uma equipe de improváveis defensores do mundo contra ameaças sobrenaturais, revestido de certo cinismo que os fazia, na maior parte do tempo, encarar aquele como um trabalho regular, e ainda pontuado por um viés machista que, nos anos que se seguiram, foi ficando até mais evidente para as novas gerações de expectadores.
Dessa forma, encontramos assim o malandro e melindroso Peter Venkman (Bill Murray), o inventor intelectual Egon Spengler (Harold Ramis) e o teórico e inseguro Ray Stantz (Dan Akroyd), desacreditados professores de uma universidade (isso porquê insistiam numas pouco plausíveis teorias a respeito de aparições espectrais e sobrenaturais) que, ao serem demitidos e perderem financiamento para suas pesquisas, adotam uma forma inovadora e prática de ganhar dinheiro: Passam a compor um quarteto (finalizado pela presença do assalariado Winston Zedmore, interpretado por Ernie Hudson) e a oferecer seus serviços como caça-fantasmas, já que as almas de outro mundo não param de incomodar os nova-iorquinos, e não há ninguém disponível para fazer o serviço.
No entanto, as aparições fantasmagóricas têm um propósito –esclarecimento que virá durante a averiguação de um caso específico, o da aflita Dana Barrett, vivida pela bela e elegante Sigourney Weaver –e isso pode acabar levando os caça-fantasmas a terem de salvar o mundo todo.
Não obstante o clássico comercial que o filme se tornou a partir dos anos 1980, não restam dúvidas da inclinação insidiosamente machista nas entrelinhas do filme (que hoje respondem pelas maiores ressalvas feitas a este divertido filme): A personagem de Sigourney Weaver é tratada com interessado desprezo pelo protagonista, e tudo só piora quando é possuída pela entidade do mal na segunda metade do filme, virando um pastiche inverossímil de ninfomaníaca; isso sem falar na personagem rasa e ofensivamente caricata da secretária Janine (Annie Potts, de “Crimes de Paixão”); uma das cenas iniciais, com Peter Venkman tentando um acanalhada e discutível tentativa de sedução de uma estudante em meio a um projeto universitário; e, principalmente, uma cena injustificável (sobretudo, para um filme comercial supostamente indicado para toda a família) onde, durante o sonho do personagem Ray, vemos ele receber sexo oral de uma fantasma (!): Foram justificativas mais que suficientes para a viabilização de uma refilmagem, em 2016, que por sua vez trazia um time só de mulheres.
Se desconsiderarmos aquelas nítidas expressões de mau gosto –uma característica que sempre interferiu no trabalho de Ivan Reitman –sobra em “Os Caça-fantasmas” uma empolgante aventura cômica e sobrenatural, com enlaces de criatividade que nem sua malfadada continuação, nem sua refilmagem foram capazes de equiparar.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa


É provável que “Annie Hall”, de Woody Allen, seja a pedra fundamental para todas comédias românticas norte-americanas que infestaram as salas de cinema nas décadas seguintes a sua realização –e que, durante algum tempo, fizeram a fama de Meg Ryan e Julia Roberts.
Não que não tivessem existido comédias românticas antes de seu ano de lançamento, 1979, mas antes dele as comédias não tinham essa tendência analítica para com a dinâmica intrínseca do relacionamento –que oscila drasticamente em nível de perspicácia e sagacidade comportamental na medida do talento e da competência do realizador. Foi com esta obra de Woody Allen que tudo começou.
Ele narra com indisfarçável e até declarada parcialidade, as vicissitudes do relacionamento entre Alvy (o próprio Woody Allen) e Annie (Diane Keaton, fantástica) –com uma ênfase perplexa e autodepreciativa nas agruras de Alvy, a contraparte masculina que, neste filme e em outros mais que realizou, Allen não cansa de mostrar como alguém inseguro, titubeante, atrapalhado, tão excessivamente dedicado a elaborar suas certezas e razões por meio de seu loquaz intelectualismo que, de um ponto em diante, nem mais sabe se está sendo certo ou razoável.
E embora nunca deixe de fazê-lo por meio de sua imensa compreensão e cultura –assim como sua capacidade notável de apreender a relação a dois num roteiro –Allen tem o primor de soar inteligível e, acima de tudo, divertidíssimo na constante ilustração das situações que pouco a pouco transmutam um relacionamento.
Compreenda ou não as referências ou a abordagem intelectual desta ou daquela piada, o filme nunca deixa de ser incrivelmente engraçado.
É curioso e admirável que, por isso mesmo, a cereja no topo do bolo, seja mesmo o entrecho final, onde à galhofa e à graciosidade, o diretor introduz um outro elemento: O romance.
Ao fim, o filme de Allen, mesmo diante da implicação um com o outro, mesmo ante as diferenças abissais que cresceram até virarem obstáculos intransponíveis para a convivência, mesmo ante os equívocos inadmissíveis e os rancores impagáveis, ele quer lembrar que o quê existiu junto com tudo isso era, afinal, amor.
E o filme tão engraçado termina numa nota agridoce, deixando um pouco de calor no coração.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Alien - A Ressurreição

Inesperada continuação de "Alien 3",já que a tenente Helen Ripley morre no final daquele filme. Aqui, ela desperta algumas centenas de anos depois, clonada no futuro. Mas junto com ela, foi clonado também o alien que a usava como hospedeiro.
Os belos trabalhos realizados pelos outros diretores nos filmes anteriores sofrem um ligeiro abalo com a entrada do francês Jean Pierre Jenaut (que ao lado de seu colaborador Marc Caro realizou "Delicatessen" e "Ladrões de Sonhos", obras extremamente surreais e de orientação artística e, anos mais tarde, dirigiu o grande sucesso francês “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”). Na visão de Jenaut, a saga efetivamente amedrontadora e essencialmente sombria dos aliens ganha um viés de aventura intergaláctica, enfatizada na presença de uma trupe de “piratas espaciais” com sua superficial diversidade e senso de humor plural –e pensar que o estúdio se mostrou tão avesso ao bom resultado da direção de David Fincher no filme anterior.
Jenaut impõe uma atmosfera simbólica diferente de toda a orientação obedecida pelos filmes anteriores, onde os aliens aparecem expostos em planos definidos de detalhes e sob uma iluminação minimalista (ao contrário da predominante escuridão dos outros filmes) em uma trama repleta de personagens esquisitos e cheios de segredos –sem contar que é o primeiro deles onde Sigourney Weaver (aqui ainda creditada como produtora) não aparece com sua habitual excelência como Ripley, muitas vezes soando até caricata e exagerada.

O filme ainda mantém o alto padrão técnico da saga, mas perde, e muito, para os outros.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Branca de Neve No Cinema

Branca de Neve e Os Sete Anões
O primeiro longa-metragem de animação de Walt Disney, “Branca de Neve...” impressiona até hoje por, entre outras coisas, ser ainda considerado por muitos, o melhor.
Podemos apenas imaginar como deve ter sido o assombro e o maravilhamento de platéias inteiras na época de seu lançamento, quando foram presenteados com uma obra animada sem precedentes; Pois é isso que “Branca de Neve...” é, um produto de arte da tal maneira refinada que estava, em diversos aspectos, a frente de seu tempo: Técnicas como a animação em três telas justapostas –que garantia um efeito de foco que simulava a câmera real e permitia a elaboração de incríveis proezas óticas –só foram assimiladas pela indústria muitas décadas depois.
Branca de Neve é a mais bela do reino em que vive. Essa realidade, entretanto, é demais para ser aceita por sua madrasta malvada que, orientada por seu espelho mágico, ordena que um caçador a mate na floresta. O homem a desobedece, poupando Branca de Neve que, fugitiva, encontra refúgio numa casa de pequenas proporções em meio à floresta. Ela pertence a sete anõezinhos que moram nela e trabalham numa mina próxima. Eles acolhem Branca de Neve ao chegarem em casa e achá-la dormindo sobre a cama. Mas, a notícia de que Branca de Neve ainda vive enfurece sua madrasta a ponto dela transformar-se numa bruxa hedionda e planejar matá-la, valendo-se do artifício de uma maçã envenenada.

Histórias Que Nossas Babás Não Contavam
Era inevitável –como tudo o mais –que o enredo rendesse lá um ou outro filme erótico (e devem existir centenas!), mas eis que a história do conto de fadas acabou inspirando aquele que é lembrado como um dos melhores e mais apreciados exemplares do nosso infame subgênero de pornochanchadas!
Num mundo fictício cuja galhofa só poderia mesmo existir num filme nacional dos anos 1980, a princesa Clara das Neves (a deliciosa Adele Fátima que, num contraste malicioso e divertido com a personagem do conto de fadas, é uma mulata das mais charmosas, belas e voluptuosas) se torna rapidamente um empecilho para a rainha má (Meiry Vieira), inclusive lhe tirando o favoritismo do príncipe (Denis Derkian) como o rabo de saia real mais cobiçado do pedaço (!). Ao confabular com o afeminado e petulante conselheiro fantasma (!) que mora em seu espelho mágico (vivido por Renato Pedrosa), a rainha resolve incumbir um caçador de matá-la em plena floresta.
Primeiro, o caçador (uma participação simplesmente hilária do comediante Costinha) se esbalda nos encantos sexuais de Clara das Neves, e depois –talvez, por gratidão à ela! –deixa que ela fuja para a floresta onde encontra uma casa habitada pelos sete anões.
Dos sete, seis deles ficam extremamente satisfeitos (maravilhados seria a palavra mais apropriada!) em ter uma mulher absurdamente esplêndida –e que fica nua a cada cinco minutos por qualquer razão! –morando em sua casa. O único anão que não concorda com a idéia, Zangado se sente protelado pelos demais que agora têm uma mulher de verdade para acariciar (!?!).
A divertida seqüência em que os anõezinhos vão, um a um, entrar no quarto onde Clara das Neves dorme pelada, e se fartam dela, um de cada vez, é simplesmente antológica!
Produzido por Aníbal Massaini Neto e dirigido por Osvaldo de Oliveira, “Histórias Que Nossas Babás Não Contaram” cai na possível situação onde poderia –na distorção tão descarada que faz da história original –ter supostamente estragado a infância de muita gente, contudo, sua malícia empregada na medida certa, sua chacota irresistível e seu bom humor até hoje saboroso e, sobretudo, o apelo sexualmente inquestionável da bela Adele Fátima o tornam um exemplo perfeito do que foi (ou do que deveria ter sido) o subgênero das pornochanchadas.

Floresta Negra
Numa das mais admiráveis versões já realizadas na história, a Madrasta Malvada (aqui batizada de Claudia) ganha expressão na competência à toda prova de Sigourney Weaver, em um filme que se debruça sobre os meandros complexos na relação de Branca de Neve e sua madrasta –que, na ambigüidade e na proposta dramaticamente rica da direção tem um belo arco narrativo que justifica o fato dela ser tão malvada assim.
O diretor Michael Cohn reavalia o conto dos Irmãos Grimm sob um prisma macabro, fatalista e sombrio vislumbrando as fissuras irremediáveis entre os relacionamento das duas antagonistas –basicamente, as únicas personagens que permaneceram intocadas nesta versão.
Branca de Neve é assim chamada Liliana (a jovem Monica Keena, de “Freedy X Jason”), e seu pai, Lord Hoffman (Sam Neil) casa-se com Claudia sobre quem já pesou a suspeita de práticas de bruxaria –a trama se ambienta no Período das Cruzadas, quando discussões e reflexões acerca do que era misticismo e religião estavam relativamente em voga.
Quando o pai da jovem falece cabe à Claudia e Liliana estabelecerem um consenso entre suas divergências, mas, à medida que a jovem cresce –e afloresce não apenas sua beleza, mas também sua rebeldia e impetuosidade –as diferenças entre ela e sua madrasta adquirem um desequilíbrio ainda maior, e mais perigoso.
Em fuga pela famigerada Floresta Negra, Liliana encontra refúgio em meio aos parias que se escondem na floresta de toda sorte violenta de discriminações alheias: Não, não são os sete anões, mais sim um grupo de lenhadores deformados –entre eles, o jovem Will (Gill Bellows, de “Um Sonho de Liberdade”) que assume a função de interesse romântico na ausência deliberada de um providencial príncipe encantado.
Essa necessidade enfática de afastar-se do caráter lúdico do conto e abraçar um viés realista só encontra alguns percalços prejudiciais no trecho final, quando alguns artifícios do roteiro se mostram bem menos inspirados no momento de seu desfecho do que o eram em seu ponto de partida.

Branca de Neve (ESP)
Transpondo o conto dos Grimm para a Espanha no que parecem ser meados dos anos 1920, o diretor Pablo Berger esbanja ousadia e personalidade ao converter o filme num exemplar com todos os cacoetes e características do cinema mudo –a exemplo do oscarizado, “O Artista”.
Este “Branca de Neve” se passa em Sevilha onde um grande toureiro (Daniel Gimenez Cacho), além de ser atingido por um touro –o que lhe imobiliza o corpo –tem também a esposa falecida durante o parto, restando-lhe assim somente a filha pequena. Como fica bem claro nesse prólogo, esta nova e audaciosa versão é de uma dramaticidade sem fim.
O toureiro, apesar de sua condição, logo irá desposar sua própria enfermeira, Encarna (Maribel Verdú, de “E Sua Mãe Também” e “O Labirinto do Fauno”) –de olho na fortuna do famoso toureiro –o quê a torna madrasta da filha pequena dele, Carmen (que, ao crescer, ganhará as formas da bela Macarena García).
A vida de Carmen será assim se submeter às crueldades de Encarna: Morando na mansão que ela rege depois do falecimento de sua avó, a jovem testemunha o pai ser confinado e esquecido dentro de um quarto enquanto a madrasta estabelece uma violenta relação com o chofer.
Carmen aprende com o pai suas prodigiosas técnicas de tourada, o quê só aumenta o ódio de Encarna por ela que, em algum momento, sugere que o chofer a mate.
Ao fugir disso tudo, Carmen termina perdida (e sem memória) numa floresta onde encontra (desta vez) seis diminutos toureiros, os anões que lhe darão o apelido de Branca de Neve –e aqui cabe, também, uma referência ao cult “Monstros”, de Todd Browning. Eles a protegerão e cuidarão, inclusive, quando se abater sobre ela a trágica maldição da maçã envenenada: Ao contrário das outras versões, Pablo Berger não faz concessões a um final feliz com o surgimento de um príncipe que quebre o feitiço –seu filme se encerra numa angustiante cena de circo de horrores, onde o corpo imóvel e cadavérico de Carmen (ou Branca de Neve) está à disposição de uma interminável fileira de interessados a beijá-la, e nenhum deles sinaliza qualquer possibilidade de vir a desfazer o encanto.
Por mais angustiante e depressivo que seja o desfecho deste “Branca de Neve”, o mais inacreditável é que ele ainda soa ameno e pueril perto de outra versão de mesmo nome, portuguesa, lançada no ano 2000 e dirigida por João César Monteiro: Um filme, dizem, difícil, radical e perturbador.

Branca de Neve e O Caçador
Com o lançamento do irregular, porém, bem-sucedido “A Garota da Capa Vermelha” –que, por sua vez, pega carona na moda de “Crepúsculo” –os estúdios passaram a adotar uma nova tendência: As adaptações de contos de fadas (muitos deles materializados em animações no passado) convertidos em filmes de apelo mais sério e mais infanto-juvenil, não raro, com influência de outros filmes de sucesso.
Dessa forma, surgiu (pouco antes de “Malévola”, com Angelina Jolie) este “Branca de Neve e O Caçador” –realizado pelos estúdios da Universal e não pela Disney –como o nome sugere (e como os desdobramentos tornam explícito), buscando uma quase reinvenção da história clássica.
Até então a adorável filha do rei, Branca de Neve (Kristen Stewart, de “Crepúsculo”, certamente escolhida com interesse na legião de fãs daquela saga) perde seu pai na mesma noite em que tem seu reino tomado pela maquiavélica Ravena (Charlize Theron, numa atuação memorável). Anos mais tarde, feita rainha e com sua beleza intocada graças ao uso constante de magia negra, Ravena recebe a notícia de seu espectral espelho mágico de que não é a mais bela entre as mulheres, honra que cabe agora à Branca de Neve, desde então prisioneira na torre mais alta. Quando tentam matá-la, Branca de Neve escapa e ruma para os confins sombrios da floresta negra, lugar que só um homem destemido e atormentado como o Caçador (Chris Hemsworth, o “Thor” da Marvel Studios) se atreveria a adentrar. Ele vai atrás dela sob um acordo com a Rainha, mas decide aliar-se à Branca de Neve e ajudá-la na épica batalha pelo reino que está por vir.
O escolhido para a direção, o inglês Rupert Sanders, deixa bastante claras suas aspirações cinematográficas: Além dos filmes de sucesso aos quais a escolha do elenco principal remete, seu filme emula, em tom, visual e intenção, do início ao fim, as qualidades épicas de “O Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson –inclusive, era Viggo Mortensen, uma de suas escolhas iniciais para viver o Caçador!
Da trama tão conhecida e difundida pelo desenho de Walt Disney sobrou pouco mais que o esqueleto: Se o Caçador tinha um papel breve e irrisório no conto de fadas, aqui sua presença e importância chegam a suplantar o príncipe encantado (Sam Claffin, de “Jogos Vorazes-Em Chamas”), e os anões –agora oito, ao invés de sete –não são mais que um gracioso reforço nas cenas de combate.
É um filme bonito, cujos valores de produção são bem aplicados e eficientes em torná-lo um espetáculo charmoso, seu grande calcanhar de Aquiles é mesmo sua atriz principal, Kristen Stewart, cuja apatia implícita na interpretação tira um pouco do brilho que a personagem poderia ter. A atriz, inclusive, envolveu-se com o diretor Sanders (que era casado) durante a divulgação do filme, escândalo que comprometeu os planos para a continuação –sugerida no final vagamente aberto –a saída do estúdio foi remover a atriz o diretor (Sanders depois encarregou-se de realizar “Ghost In The Shell-Vigilante do Amanhã”) tentando, um tempo depois, remodelar a produção obtendo como resultado “O Caçador e A Rainha do Gelo” que, como seqüência revelava-se ligeiramente irregular e incoerente.

Espelho, Espelho Meu
Lançado no mesmo ano de “Branca de Neve e O Caçador” –e repetindo o estranho equívoco de filmes extremamente similares lançados no mesmo período –este “Espelho, Espelho Meu”, dirigido por Tarsem Singh Dhandwar (da aventura “Imortais”) tinha por diferencial um tratamento escancarado de comédia.
A angelical Branca de Neve (Lilly Collins, filha do cantor Phil Collins) está em apuros. Nutrida de inveja para com sua beleza, a malvada madrasta (Julia Roberts, aparentemente a razão de ser deste projeto), rainha do castelo desde a morte do pai de Branca de Neve a deseja morta, pagando para isso os serviços de um caçador. Ao invés disso, porém, Branca de Neve vai parar na floresta onde torna-se hóspede de sete anõezinhos.
O diretor elabora um caprichado senso visual, repleto de cor e exuberância para esta versão em comédia do conto imortalizado pelo desenho de Walt Disney, no qual seu principal trunfo parece mesmo ser a escalação da estrela Julia Roberts para o vilanesco e afetado papel de Rainha Má (cujos rompantes de divas parecem fazer alusão involuntária aos chiliques da atriz na vida real), em contraponto a doçura e fragilidade de Lilly Collins. Outro elemento que depõem a favor desse ‘diferencial cômico’ é o príncipe encantado (o vistoso Armie Hammer) cuja suavidade de sua participação, a pouca expressão na trama e a inclusão de uma vergonhosa sub-trama paralela (onde vira um cachorro...) ameaçam transformá-lo num coadjuvante quase obsoleto.
Comédia não é um gênero fácil em torno do qual trabalhar. O humor é um paladar complicado ao qual se ajustar em relação ao que espera o público, e o diretor Dhandwar –notadamente oriundo de produções sombrias (como o suspense “A Cela”) –já não tinha muita desenvoltura nessa área, o quê fica patente aqui na desmesurada confiança que ele deposita não na narrativa, no roteiro ou no elenco, mas no aparato amplo e endinheirado de seu designer de produção –e essa característica, de fato, se revela em todos os seus filmes –terminando por carregar esta versão do conto de fadas em elementos excessivamente cartunescos, tornando o filme um trabalho infantilizado e superficial.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A Vila

Durante a realização de “A Vila”, o diretor e roteirista M. Night Shyamalan ainda estava em estado de graça devido aos êxitos de seus três últimos trabalhos, “O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado” (cuja audiência inicial pareceu frustrante, mas, com o tempo se tornou um sucesso cult) e “Sinais”.
Ironicamente, este foi seu último grande filme pouco antes dele iniciar, com “A Dama Na Água”, uma espécie de banalização com o estilo que ele próprio havia difundido e enfileirar vários projetos equivocados. Seria necessário quase uma década para Shyamalan reencontrar o sucesso com “Fragmentado”.
“A Vila” reúne maravilhosamente bem as características que definem o realizador que Shyamalan é. Características que, quando harmoniosas e hábeis, rendem um belo trabalho.
O início já flagra, como é quase sintomático em Shyamalan, um registro dramático que não poupa seus personagens da tragédia como forma de ressaltar certa seriedade: Um enterro de alguém muito jovem. Um pai (Brendan Gleeson) inconsolável.
Chama a atenção o lugar: Um vilarejo extremamente longínquo e isolado de algum período antigo, como nos sugerem as moradias, as vestimentas e os costumes que veremos ao longo da narrativa.
O lugar possui toda uma sociedade que se desenvolveu baseada em regras seguidas à risca. E o combustível que dá eficácia a essas regras é o medo: A grande floresta que os cerca é habitada por criaturas estranhas e assustadoras com as quais a população mantém uma trégua milenar: Uns jamais devem invadir as fronteiras dos outros; as criaturas não entram na vila, e os aldeões não invadem a floresta.
Dessa forma, as pessoas conservam roupas e utensílios da cor amarela (considerada a cor boa que afasta as criaturas), e eliminam da vila qualquer vestígio de vermelho (a cor ruim que as atrai).
É nesse ambiente brilhantemente texturizado pelo roteiro e pela direção que conhecemos Edward Walker, o personagem de William Hurt, líder da vila, cuja filha mais jovem, Ivy (a sensacional Bryce Dallas Howard), é cega de nascença. Além dela, há também Lucius Hunt (Joaquim Phoenix, presente também no filme anterior de Shyamalan, “Sinais”), a mãe dele (Sigourney Weaver) e seu melhor amigo, o mentalmente debilitado Noah (Adrien Brody).
A vida, ora pacata, ora ocasionada por temores, na vila é justaposta assim pelo modo como cada um desses personagens reage à circunstância mirabolante em que estão inseridos: Na valentia imprevista ostentada por Lucius, as criaturas são um meio de se provar digno para proteger seus entes queridos; nas constantes dissertações de Edward, elas são um mistério com o qual conviver e ao qual respeitar; em sua aparentemente inofensiva alienação, Noah é incapaz de enxergar nelas o pavor que outros enxergam; já, Ivy acolhe com serenidade a maneira com que o mundo permite essa co-existência.
Entretanto, logo começam a surgir indícios preocupantes de que a trégua mantida por tanto tempo com as criaturas está por terminar.
E Shyamalan esbanja habilidade ao elaborar cenas de minúcia apaixonante que estabelecem uma bela dinâmica de personagens, ao mesmo tempo em que moldam suas já conhecidas cenas de sobressalto e suspense, amparadas em referências diversas: “A Vila” guarda elementos de “Tubarão”, de Steven Spielberg, de “O Morro dos Ventos Uivantes” e da série de TV, “Além da Imaginação” (fonte à qual o cinema de Shyamalan deve muito).
A grande reviravolta próxima do desfecho –e, à exemplo dos trabalhos anteriores de Shyamalan, este filme tem uma –coloca esta obra como uma metáfora, das mais intrigantes, sobre o protecionismo paranóico difundido pelo governo Bush em particular (pós-11 de Setembro) e sobre o medo pontual que leva os seres humanos ao distanciamento em geral.

domingo, 11 de junho de 2017

Uma Intriga Internacional

Não confundir, por favor, este thriller de espionagem melindroso e algo cafona com a obra-prima, “Intriga Internacional”, de Alfred Htichcock (que, aliás, não tem artigo no título!).
Sigourney Weaver –que nos anos 1980 era um verdadeiro mulherão –interpreta uma prostituta de luxo, de uma categoria bastante específica: Ela não lembra, em nada, uma garota de programa, o que lhe permite conciliar a vida dupla de funcionária pública altamente qualificada e prostituta, numa espécie de “A Bela da Tarde” versão espionagem.
O seu apelo erótico também funciona de forma distinta ao usual das damas de companhia: Ela se vale de sua inteligência e seu vocabulário sofisticado, o que faz dela uma acompanhante perfeita para as festas cheias de classe onde os diplomatas que lá usarem de seus serviços poderão valer-se de seu aspecto intelectual para manter as aparências.
Freqüentando tais ambientes, não demora para que esse acesso facilitado que a Dra. Lauren Slaughter, sua personagem, tenha à informações cruciais desperte o interesse de pessoas dispostas a obter esses segredos –isso a leva a ser recrutada por Sam Bulbeck (Michael Caine, num papel estilo galã maduro) com quem passa a nutrir uma afeição crescente, enquanto caminham juntos na elucidação de uma conspiração contra missão secreta dele: Mediar um acordo pacífico entre grupos opositores do Oriente Médio.
Embora esse roteiro acabe adequadamente se valendo de inúmeras armadilhas que a história apresenta em forma de guinadas pontuais, o diretor Bob Swain, muito adepto de uma roupagem que remete os thrillers de espionagem europeus, de um ponto em diante parece se satisfazer com o fato de seu filme entregar como diferencial a nudez de Sigourney Weaver, que neste filme soa ligeiramente deslocada, o quê interfere no sex-appeal que sua personagem deveria, mas não consegue, ostentar.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Tempestade de Gelo

Após brilhantes trabalhos em Taiwan ("Banquete de Casamento" e "Comer, Beber, Viver") e ainda mais brilhantes e celebrados trabalhos já nos EUA (o ótimo "Razão e Sensibilidade") o chinês Ang Lee, imediatamente antes da consagração com o assombroso épico "O Tigre e O Dragão", realizou aqui um perspicaz, competente e fluido estudo do comportamento sexual de uma época que, estranha e injustamente, não é muito lembrado em meio à suas tantas e excelentes obras.
Como em alguns de seus primeiros e elogiados trabalhos em Taiwan, a família é o inusitado foco da discussão quase impiedosa que ele levanta e, embora o sexo esteja presente e onipresente, a direção de Lee nunca se permite explícita ou deselegante preferindo o caminho da sugestão e do subtexto dramático.
É o ano de 1973. Num subúrbio de New Canaan, em Connecticut, EUA, as câmeras de Lee acompanham a história de várias famílias que vivenciarão diversas experiências diferentes movidas em grande parte pela ideologia vigente do período, que começava a transformar os comportamentos e atitudes, promovendo mudanças na sociedade. Ben (Kevin Kline) é casado com Elena (Joan Allen, ótima), mas tem como amante Janey (Sigourney Weaver).
Já, Elena se vê perplexa com os novos hábitos –que pendem espantosamente para a promiscuidade –de seu grupo de amizade, que culminam numa festa com conseqüências desastrosas.
Eles têm um casal de filhos, cada qual com seus próprios conflitos de ordem sexual e psicológica (ainda que insistam em esconder essas pulsões na forma de eventuais inconformismos políticos): Paul (Tobey Maguire) nutre uma atração por uma garota da universidade (Katie Holmes), mas tem de cuidar-se com um colega traiçoeiro que adora dormir com todas as garotas pelas quais ele se apaixona; Wendy (Cristina Ricci) adere cada vez mais à cleptomania enquanto realiza jogos de sedução com os dois filhos do vizinho, o introspectivo Sandy (Adam Hann-Byrd) e o questionador Mikey (Elijah Wood).
É curiosamente a analogia com uma família de super-heróis (o Quarteto Fantástico, na revista em quadrinhos que o personagem de Maguire lê na cena inicial) que dá o estopim para que uma série de flashbacks visitem um e outro personagem, tecendo uma objetiva, delicada e brilhante teia que registra tais comportamentos, e se propõe, despida de preconceitos e soluções fáceis, à avaliá-los e, quem sabe, extrair deles algum ensinamento: Troca de casais, perda de controle dos filhos, bebida. São os temas que entram em pauta de maneira sublime na sempre competente narrativa de Ang Lee.