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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Ender's Game - O Jogo do Exterminador


 O diretor sul-africano Gavin Hood ganhou do Oscar de Filme Estrangeiro por "Infância Roubada" e, em seguida, quase destruiu a própria carreira ao dirigir “X-Men Origens Wolverine”, o primeiro (e catastrófico) filme solo do personagem. Ao encarar esta adaptação austera, equilibrada e interessante de uma série conhecida de livros juvenis, ele tentou –e de certa forma conseguiu –provar que é um bom realizador.

Ender’s Game” passa longe de ser uma obra-prima, mas deixa evidente a condução sensata, a noção de ritmo e o entendimento de uma história que Gavin Hood pode ter quando não há todo um estúdio dando pitaco em seu trabalho.

A trama se passa no futuro, onde toda uma geração de crianças é treinada para uma provável guerra contra uma raça alienígena que tentou uma invasão fracassada a Terra no passado.

Uma dessas crianças é o jovem e promissor Ender (Asa Butterfield), cujo irmão mais velho não soube desenvolver seu potencial, fazendo com que a mesma descrença caísse agora sobre ele.

Sua rotina na academia militar situada no espaço é penosa: além de enfrentar desafiadoras provas simuladas, Ender precisa lidar com o bullying de inúmeros colegas e rivais que aparecem em seu caminho.

Dois são os mentores que pavimentam seu caminho rumo à uma certa auto-descoberta e à transição da perplexidade adolescente até a consciência estrategista e ética de um vida adulta inicial, e eles são o Coronel Graff (Harrison Ford) e o lendário Mazer Rackhan (Ben Kingsley, que fez, anos antes, “A Invenção de Hugo Cabret”, também ao lado de Asa Butterfield), além de outras personagens evidentemente plantadas com o nítido objetivo de guiá-lo ao amadurecimento pessoal, como atestam as presenças demagógicas, ainda que inebriantes de Hailee Stenfeld e Abigail Breslin; todavia, o personagem mais marcante do filme é o breve antagonista Bonzo, vivido por Moises Arias (da série "Hannah Montana" e de "Kong-A Ilha da Caveira") –ele responde pelo trecho mais envolvente, sólido e reflexivamente esclarecedor de todo o filme. Esse acerto particular (e possivelmente involuntário) em todo um único bloco narrativo (pois, Bonzo não tarda a ser descartado da trama), em detrimento das outras partes, boas mas não tanto, fornecem um estranho desequilíbrio ao filme de Gavin Hood. Ele flerta seriamente com a grande obra que poderia ter sido, para então, praticamente em toda sua segunda metade, investir em aspecto que nunca funcionam –sua elaborada reviravolta final, por exemplo, é um bocado fácil de antecipar.

No saldo geral, “Ender’s Game” termina como uma experiência positiva para o expectador, ainda que seu curto fôlego como trabalho antológico tenha feito sua repercussão, seja de público, seja de crítica, ser merecidamente muito aquém do que se esperava. Fato que termina condenando o gancho final –explicitamente necessitado do respaldo de uma continuação –a jamais ser concluído em outros filmes.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Shang-Shi e A Lenda dos Dez Anéis


 Conhecido nos quadrinhos como Mestre do Kung-Fu, o personagem Shang-Chi, da Marvel, é mais antigo do que pode parecer: Introduzido neste filme, o primeiro provavelmente a adentrar a nova fase da Marvel Studios, iniciada após o retumbante “Vingadores-Ultimato” e o gracioso “Homem-Aranha Longe de Casa” –“Viúva Negra” não conta visto que a trama retrocede em outro ponto da cronologia –o protagonista chega tardiamente ao Universo Marvel Cinematográfico quando outros heróis igualmente antigos nas HQs, como Capitão América, Thor ou Homem de Ferro, já estavam pra lá de estabelecidos.

Surgido em meados dos anos 1970, quando as artes marciais viraram uma coqueluche graças ao sucesso de Bruce Lee, o personagem girava em torno de influências que iam desde as criações literárias do escritor Sax Rohmer (criador original do vilão Fu Manchu) até seriados de kung-fu. Fruto de outra época, de outros anseios criativos e de outras inspirações artísticas, a versão moldada para cinema difere consideravelmente daquela contraparte dos quadrinhos; e nesse ensejo, a Marvel manuseou uma série de interessantes ideias a fim de harmonizar ainda mais seu universo compartilhado nos cinemas.

Agora não mais filho de Fu Manchu –os direitos autorais do personagem há tempos já não estavam mais com a editora –Shang-Shi (vivido pelo carismático Simu Liu) agora vem a ser (como, aliás, o próprio título do filme já sugere) filho do vilão conhecido como Mandarim, ou quase isso...

O Mandarim era sempre relacionado ao Grupo Terrorista dos Dez Anéis, que marcou presença no primeiro filme da Marvel Studios, “Homem de Ferro”, num já longínquo 2008. O Mandarim propriamente dito deu as caras em “Homem de Ferro 3”, interpretado por Ben Kingsley, numa manobra narrativa que gerou polêmica entre alguns fãs: O diretor e roteirista daquele filme, Shane Black, resolveu a delicada questão em torno do fato do vilão ser uma caricatura racista com um pouco de galhofa e desprendimento. Os fãs mais xiitas, porém, acharam inadequada a brincadeira e a Marvel Studios, em resposta, ventilou a existência do verdadeiro Mandarim num curta-metragem “Todos Saúdem O Rei”, de 2014. Existência esta que este longa-metragem, agora, vem a ratificar, explicar e justificar em seu enredo.

Mas, por que eu falei tanto sobre o Mandarim (que aqui, sequer é chamado por essa alcunha) se o personagem principal é Shang-Shi? Simples: Numa manobra bastante espirituosa, os realizadores, tendo transformado aquele vilão no pai de Shang-Shi em lugar no inadequado Fu Manchu, e sendo ele interpretado pela lenda-viva Tony Leung, conferem ao personagem, de nome Wenwu, uma dimensão trágica, um propósito e um respaldo que além de dissipar qualquer suspeita de  estereótipo racista, o iguala em importância ao próprio protagonista.

Portanto, “Shang-Shi and The Legend of The Ten Rings” é, no fundo, sobre uma problemática relação de pai e filho –temática na qual o diretor Destin Daniel Cretton já trabalhara em “Castelo de Vidro” –contrapondo então Wenwu e Shang-Shi. O pai corrupto e corruptível cuja aura lendária esmaga o filho, desejoso, por inúmeras razões de sair de sua sombra, e de trilhar um caminho que não o desvirtue. Apesar de trazer um prólogo bastante explicativo, a cena de dá o estopim à este filme é uma referência bastante explícita e inteligente ao primeiro “Homem de Ferro”: A câmera circunda um carro de luxo para mostrar seu ocupante (que no filme original era o próprio Tony Stark) e então, num movimento inesperado, foca no manobrista ao fundo da cena; e, este sim, trata-se do protagonista Shang-Shi (!). trabalhando em sub-empregos nos EUA, Shang-Shi busca ficar longe da influência paterna, sendo Wenwu um lendário chefe de organização criminosa no Oriente, controle este garantido por cinco ‘anéis’ (estão mais para argolas, na verdade, uma das traduções possíveis para rings) dotados de poder místico que ele trás em seus braços –e que lhe conferem imortalidade.

Perseguido e ameaçado junto de sua amiga Kate (a divertida Awkwafina, de "Oito Mulheres e Um Segredo", numa personagem que com frequência se resume a ser o alívio cômico do filme), Shang-Shi deve procurar sua irmã (Meng'er Zhang), para tentarem descobrir quais são as intenções de seu pai –o que incluem, certamente, o acesso, há tanto tempo almejado, à vila mítica de Tai Lo.

Inerente à sua proposta, o filme de Destin Cretton incorpora ao seu invariável catálogo de cenas de ação (algo no qual a Marvel procura se superar a cada projeto) o manejo hábil das artes marciais, com coreografias que, ao longo dos anos graças à obras como “O Tigre e O Dragão” e “O Clã das Adagas Voadoras”, foram se tornando cada vez mais complexas e elaboradas. À esse repertório, a produção agrega também um característico acabamento visual herdado desses filmes citados, evocando um Oriente belíssimo, mitológico e estilizado. Esses predicados emolduram uma trama sobre laços familiares que introduz um personagem bastante interessante (e representativo) entre as fileiras do Universo Marvel; ao lado dos personagens já reconhecidos e ainda disponíveis (sem falar de outros mais que ainda virão), Shang-Shi deve protagonizar algumas aventuras individuais e coletivas no futuro.

Pode apostar.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Gandhi


À título de curiosidade, no ano de 1993, Steven Spielberg realizou o sucesso de público “Jurassic Park” contando no elenco com Richard Attenborough, diretor de “Gandhi”, e logo em seguida, fez o sucesso, desta vez de crítica, “A Lista de Schindler” contando, por sua vez, com Ben Kingsley, ator principal de “Gandhi”, no elenco.

Embora tenha ganhado mais fama como ator –e ele próprio insistia que nunca teve maiores pretensões em ser diretor –Richard Attenborough assumiu a direção do projeto que almejava levar a vida de Mohatma Gandhi para as telas; um objetivo pessoal que Attenborough, como produtor, acalentava desde a década de 1960. Nos letreiros iniciais, o filme já esclarece que a vida de uma pessoa dificilmente pode ser resumida com exatidão e fidelidade num único filme, embora hajam intenções salutares de que nele seja preservado seu espírito. Se isso soa como uma prova da humildade genuína com que Attenborough abraçou a produção, pro outro lado, o escopo épico empregado –e manejado com muito brilho –sugere o oposto.

Após o prólogo que já mostra a morte de Gandhi, em 1948, por meio de um atentado contra sua vida, regressamos até 1893, quando, ainda um jovem advogado indiano em viagem pela África do Sul, Mohandas K. Gandhi (Kingsley, estupendo no papel) se depara com a segregação imposta ao seu povo no convívio degradante com os colonizadores ingleses.

Gandhi se rebela, sobretudo, contra a prática de distribuírem passes aos indivíduos indianos e, a predisposição revolucionária descoberta ali passa então a definir o homem que ele se torna, seja em esfera íntima ou política –Gandhi descobre uma nova forma de protesto, aquela na qual a violência como resposta à própria violência não é considerada.

Munido dessas ideias, ele cria uma comunidade ao regressar para a Índia, e inicia um longo e árdua caminho para obter a independência de seu país do jugo da Inglaterra, que inclui a paralisação ante as leis opressores inglesas e a abnegação perante a retaliação violenta por seus protestos.

Ele encoraja a povo a fabricar suas próprias roupas (ele próprio dá o exemplo vestindo-se como um mendigo com vestimentas de algodão confeccionadas por ele mesmo!) e a preparar seu próprio sal, interferindo no ciclo vicioso que levava o próprio povo indiano a reabastecer a economia dos colonizadores ingleses.

Num cinema que remete à David Lean (por sinal, um dos diretores cogitados para o trabalho antes do próprio Attenborough assumir), somos testemunhas da trajetória de vida de Gandhi –então já nomeado ‘Mohatma’, cujo significado é Grande Espírito –em conjugação com sua abrangente influência sobre o povo indiano, e o irônico e doloroso detalhe de que, ao pregar a não-violência, acabam sendo exatamente o inverso, muitos dos efeitos suscitados por suas escolhas.

Gandhi é mostrado fazendo jejum até os extremos da desnutrição para convencer seu povo dos reais objetivos pelos quais estão lutando –e não por uma mera revanche contra seus dominadores.

Quando finalmente obtém a tão sonhada independência da Índia, Gandhi se depara com outra celeuma: Os muçulmanos (majoritários no país) não aceitam os hindus, o que coloca a Índia à beira de uma guerra civil para que seja oficializado o território do Paquistão –e para convencer todos a cessar hostilidades, lá vai Gandhi fazer mais uma greve de fome (esta, quase fatal, uma vez que já estava em avançada idade) até que a paz se instaura-se completamente.

“Gandhi” levou oito Oscar na cerimônia de 1983, incluindo Melhor Diretor para Attenborough e Melhor Ator para Ben Kingsley (cuja carreira apesar do incomensurável talento, demorou até desvencilhar-se da sombra esmagadora deste grande trabalho). São três horas e dez minutos onde presenciamos as contundentes renúncias e escolhas de vida de um personagem singular na História da Humanidade, sobre quem Albert Einstein disse: “As gerações futuras custarão a acreditar que alguém como ele, em carne e osso, realmente existiu neste mundo.” 

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Expresso Transiberiano

Talvez a maior surpresa de “Expresso Transiberiano” seja o fato de que, embora ostente em seu elenco os consagrados Woody Harrelson e Ben Kingsley, sua protagonista de fato seja mesmo a não muito conhecida Emily Mortimer, atriz de ampla experiência (esteve em “A Sombra e A Escuridão”, “Harry Brown”, “O Idiota do Meu Irmão”, “Um Lugar Chamado NottingHill”, “Ilha do Medo” e “A Invenção de Hugo Cabret”), mas longe de conseguir reunir predicados que a façam uma estrela.
E, se esse é o dado mais surpreendente num suspense que tem por objetivo surpreender a todo o momento o expectador, já detectamos aí a primeira das muitas falhas no trabalho do diretor Brad Anderson.
Começamos com o personagem de Ben Kingsley, um investigador russo do departamento de narcóticos investigando a cena de uma queima de arquivo. Imediatamente, ele percebe que lá estão faltando as drogas e a soma em dinheiro que justificou as mortes, e então decide partir em uma viagem com objetivos suspeitos.
Corta então para o casal Roy e Jessie (Woody Harrelson e Emily Mortimer) em Pequim, na China, fazendo um trabalho voluntário que proporcionou-lhes ao mesmo tempo uma viagem a outros recôncavos do mundo e o sabor de aventura ao estagnado casamento.
Em regresso para os EUA, eles decidem tomar o tal ‘expresso transiberiano’ –Roy é particularmente fascinado por trens –cuja rota parte da China através da Mongolia e passa pela Sibéria até a Europa atravessando a Rússia. Eles dividem o vagão-leito com outro casal viajante, o espanhol e expansivo Carlos (Eduardo Noriega, de “Preso Na Escuridão” e “A Espinha do Diabo”) e a americana Abby (Kate Mara, de “Perdido Em Marte” e “127 Horas”).
Há um elemento suspeito no casal que não passa despercebido de Jessie a medida que os dois vão ganhando mais a proximidade (e a intimidade) dela e de Roy ao longo da viagem.
Numa parada de estação, Roy parece perder o trem, obrigando Jessie a esperá-lo na estação seguinte –naquele fim de mundo, o atraso dos trens envolve um dia inteiro –na companhia de Carlos e Abby.
Enredada pelas propostas aparentemente casuais de Carlos, Jessie o acompanha numa viagem de ônibus até um vila imersa na neve. Lá ele tenta consumar o flerte que vinha fazendo, mas Jessie o rejeita e, diante do assédio forçado dele, ela acaba o matando (!).
Mas, e quando ao personagem de Ben Kingsley do começo do filme? Para onde foi? Que relação tem com todo o resto? É preciso esperar, porque de fato leva um tempo desgraçado para essas duas partes do filme enfim se juntarem.
Toda abalada por ter inadvertidamente cometido um assassinato, Jessie reencontra Roy na estação e tomam o trem com ela disposta a esquecer de tudo e deixar Abby (que ficou na estação) para trás.
Eis, contudo, o pulo do gato: Roy fez amizade, nesse meio tempo, com o detetive Grinko (justamente o personagem de Kingsley!) que não tarda a notar os pontos nebulosos nos relatos estranhamente evasivos da esposa do norte-americano. Grinko diz a eles estar atrás de um casal de traficantes de drogas –certamente, Carlos e Abby –que teriam escondido seu carregamento de drogas em algum material para despistar a polícia –os bibelôs que ele trazia às dezenas em sua mala e que, numa oportunidade ladina, Carlos colocou na mala de Jessie antes de sua morte.
Este é, portanto, o paradeiro das drogas mencionadas na cena de crime do começo.
Com o carregamento de drogas em mãos, Jessie tem muito o que esconder e –além de perceber isso –Grinko tem interesse nelas e no dinheiro que Carlos supostamente trazia consigo, um interesse que vai bem além de seu mero dever policial; algo perceptível no conluio violento que ele estabelece com o perigoso Kolzak (Thomas Kretschmann) junto do qual pode deixar completamente a camaradagem de lado para extrair a verdade de Jessie e de Roy de formas bem mais contundentes.
É possível acompanhar os desdobramentos da trama sem ofender-se em demasia com as conveniências do roteiro graças à condução –cuja direção de fotografia, valorizando as belas paisagens da Sibéria, e o traquejo nervoso dos movimentos de câmera, responde pelo quesito mais bem aproveitado da produção –e ao trabalho competente de todo elenco em geral.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Êxodo - Deuses e Reis

Apesar da lembrança ainda poderosa do épico clássico de Cecil B. De Mille, o diretor Ridley Scott arriscou em 2014, uma nova versão de “Os Dez Mandamentos”.
Vindo de uma tentativa controversa de retomar a série “Alien” (“Prometheus”), Scott moldou um projeto com deliberada aparência de Oscar: História mítica e grandiosa; diretor e equipe técnica renomados; elenco de astros talentosos; até mesmo a data de lançamento nos cinemas era estrategicamente propícia –meados de dezembro, fácil, portanto, de ser lembrado pelos votantes da Academia.
Deveras, Scott também tinha um objetivo bem claro em relação a essa nova repaginação: Abordar a jornada de Moisés (Christian Bale), o filho adotivo do Faraó que descobre ser o prometido libertador do povo hebreu, com um realismo táctil e desmistificador que ia de encontro aos tratamentos anteriores dados à história.
É razoável então que o retrato de Moisés, aqui, seja tão distinto da famosa personificação messiânica de Charlton Heston –Moisés quase ganha um viés de líder terrorista, enfatizado nas manifestações alucinatórias que ele alegadamente tem de Deus (que, na narrativa de Scott, adquirem a possibilidade de ser um mero surto).
E, dessa forma, são também abordados os outros momentos vultuosos da trama: As sete pragas do Egito (cujo respaldo científico de cada uma delas fornecido pelo roteiro faz lembrar o terror “A Colheita do Mal”, lançado pouco antes); a travessia do Mar Vermelho (da qual é removido o teor milagroso de que o mar se abriu, substituído por uma alternação ocasionada por maré alta e maré baixa); a concepção dos 10 mandamentos (mostrados como tendo sido esculpidos pelo próprio Moisés).
No raciocínio dos realizadores, essa é uma ideia que agrega audácia e originalidade à produção (e ainda uma chance de dar à história de Moisés toda uma reflexão ambígua), mas, no final das contas, isso resulta, em grande parte, frustrante.
Há, por exemplo, um premeditado clima de preparação quando o filme adentra seu último terço, no qual se cria expectativa para uma inédita batalha entre os oprimidos hebreus e os opressores egípcios.
Nada, porém, acontece: Scottt, apesar dos lampejos pouco contundentes de subverter a história conhecida, termina por segui-la com proximidade.
“Êxodo” é assim uma superprodução indefinida entre a intenção reverente de manter-se algo fiel ao filme clássico (almejando com alguma pretensão o reconhecimento que ele desfruta) e o ímpeto transgressivo (mais na teoria que na prática...) de oferecer um viés inesperado do famoso episódio bíblico.

sábado, 28 de abril de 2018

Os Vencedores do Oscar 1983

A Academia gosta mesmo de premiar atores que se aventuram atrás das câmeras. Foi assim na cerimônia do Oscar de 1983 onde saiu vitorioso o veterano ator inglês Richard Attenborough por sua empreitada como diretor no épico pacifista “Gandhi” –só isso para justificar mesmo sua vitória sobre diretores renomados e em trabalhos fabulosos que concorriam ao mesmo prêmio como Sidney Pollack, por “Tootsie” (que, pelo menos, levou a estatueta de Atriz Coadjuvante para a belíssima Jessica Lange) e Steven Spielberg, por “E.T. O Extraterrestre” (que ficou com quatro prêmios técnicos), ou o alemão Wolfgang Petersen em “O Barco-Inferno No Mar” que entregava um trabalho notável e sufocante.
“Gandhi” também deu o Oscar de Melhor Ator ao grande Ben Kingsley –o curioso é que Kingsley só passou a ter uma carreira regular em bons projetos quase uma década depois de sua premiação.
A cerimônia de 83 também marcou a vitória inquestionável e inevitável da extraordinária Meryl Streep por aquele que talvez seja o grande trabalho de toda sua carreira, o poderoso e doloroso “AEscolha de Sofia”.

MELHOR FILME
"Gandhi"

MELHOR DIREÇÃO
"Gandhi", Richard Attenborough

MELHOR ATRIZ
Meryl Streep, "A Escolha de Sofia"

MELHOR ATOR
Ben Kingsley, "Gandhi"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jessica Lange, "Tootsie"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Louis Gosset Jr., "A Força do Destino"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Gandhi"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Começar de Novo" (Espanha)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"E.T. O Extraterrestre"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"E.T. O Extraterrestre"

MELHOR MAQUIAGEM

MELHOR FIGURINO
"Gandhi"

MELHOR SOM
"E.T. O Extraterrestre"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Gandhi"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“E.T. O Extraterrestre"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Up Where We Belong", de "A Força do Destino"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Gandhi"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Desaparecido"

MELHOR MONTAGEM
"Gandhi"

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Bugsy

Então na crista da onda graças aos Oscar conquistados por “Rain Man”, o diretor Barry Levinson se achava numa situação em que podia viabilizar projetos seus antes tidos como improváveis, e ele tratou de aproveitar isso para realizar primeiro o dramático e ambicioso “Avalon”, e depois esta biografia do gangster Benjamin ‘Bugsy’ Siegel (interpretado com brilho por Warren Beatty), um mafioso com espírito sonhador e empreendedor –ainda que com uma lúgubre e normalmente oculta faceta violenta –que foi o responsável pela iniciativa que gerou os cassinos da cidade de Las Vegas.
Entretanto, tudo começa mesmo em meados dos anos 1940, quando o gangster Benjamin Siegel é despachado de Nova York para a ensolarada Los Angeles com a instrução de expandir os negócios da Máfia da Costa Oeste. Uma vez na Califórnia, Siegel se associa à Mickey Cohen (personagem interpretado primorosamente por Harvey Keitel e que foi vivido por Sean Penn em “Caça Aos Gangsteres”) e se apaixona pela atriz Virginia Hill (Annette Bening, deslumbrante).
Tentadora e promíscua, porém, perspicaz e inteligente, Virginia incentiva em Siegel o desejo de ser reconhecido não pelo temor que os gangsteres inspiravam, mas pelo fascínio dos astros de cinema com quem convivia e confraternizava –Siegel chegou a ser amigo de Cary Grant e Gary Cooper! –o que leva ele (adepto do glamour e da vaidade) a ter assim uma visão: Com a construção da Represa Hoover, promovida pelo então presidente Roosevelt, uma considerável parte do deserto de Nevada receberia água e eletricidade em abundância. Siegel vislumbrou os benefícios que traria a construção de um misto de hotel e cassino naquela região, e as fortunas que transeuntes haveriam de depositar ali. Com um investimento de um milhão de dólares obtido de seus sócios mafiosos –e auxiliado por seu grande amigo e mentor Meyer Lanski (Ben Kingsley) –Siegel inaugura o Hotel Flamingo plantando as sementes do que viria a ser Las Vegas.
Na ironia extrema que vislumbra em seu próprio protagonista –um empreendedor oriundo das questionáveis fileiras do crime –e na execução tecnicamente brilhante atenta ao fascínio humano pela ilusão da beleza, o filme de Levinson é certeiro e hábil no arremate que executa de facetas aparentemente tão distintas, mas relacionadas, nesta obra e em seu improvável personagem principal, com um reflexo e uma simetria tão geniais quanto inesperados.

domingo, 26 de março de 2017

Suspeito Zero

O diretor de “Suspeito Zero”, E. Elias Merhige, realizou dois filmes que chegaram, em épocas e de maneiras distintas, a chamar a atenção: O perturbador e desconcertante “Begotten”, em 1991, e o metalingüístico e interessante “A Sombra do Vampiro”, em 2000.
Ambos são bastante diferentes deste suspense policial, o quê torna difícil encontrar um padrão, um tema ou um estilo no trabalho de Merhige, ainda mais quando percebemos que neste filme (tal e qual como em “A Sombra do Vampiro”) a premissa e o argumento não pertencem a ele, mas, neste caso, aos roteiristas Zak Penn (atualmente responsável pelos roteiros da série “X-Men”) e Billy Ray (roteirista de “Jogos Vorazes” e “Capitão Phillips”).
“Suspeito Zero” começa com uma situação padrão dos filmes americanos sobre psicopata: Um assassino promove uma série de crimes e logo tem em seu encalço uma dupla de agentes do FBI, neste caso em questão, os agentes MacKelway (Aaron Eckhart) e Fulok (Carrie Anne Moss, de “Matrix”), que já foram casados.
Há uma ligeira quebra de convenções –e que desperta algum interesse –quando vemos que eles não fazem questão alguma de esconder a identidade do assassino: Ele é Benjamin O’ Ryan, interpretado com bastante presença pelo ótimo Ben Kingsley.
A medida que o filme avança e novas informações vão sendo agregadas à narrativa (como o histórico conturbado do próprio agente; as reais motivações do assassino, e o mistério envolvendo sua nebulosa relação com o FBI) fica cada vez mais difícil ignorar o imenso apreço que o roteiro e a produção parecem fazer da obra-prima “Seven-Os Sete Crimes Capitais”, de David Fincher –eles emulam seu estilo, sua iluminação, seu clima de sugestão macabra, a estética detalhada e monocromática das cenas e diversos outros elementos, até mesmo Ben Kingsley, careca e de olhar penetrante faz lembrar o personagem de Kevin Spacey naquele filme.
O que redime, em parte, “Suspeito Zero” é a condução esmerada de Merhige, que impõe, sobretudo na primeira metade, enquadramentos incomuns, movimentos de câmera insólitos, takes inesperados, cortes inventivos e uma postura distinta, compondo uma narrativa cheia de particularidades, que intriga o expectador.
Não escapou, contudo, de ser o mais fraco de seus trabalhos até aqui.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Ilha do Medo

Com a consolidação de sua grande carreira, Martin Scorsese se viu cada vez mais na confortável posição de poder realizar os grandes filmes que sempre fez, ao mesmo tempo em que prestava homenagem a seus ídolos, realizadores que hoje, aos olhos de uma platéia mais jovem e menos afoita a esmiuçar um passado longínquo que lhes é desinteressante, correm o sério e injusto risco de serem esquecidos.
É o caso de, entre outros, o grande Jacques Tourneau, um dos artesãos que ganha uma apaixonada referência neste “Ilha do Medo”, quarta colaboração de Martin Scorsese com o astro Leonardo Dicaprio (as outras três foram “Gangs de Nova York”, “O Aviador” e “Os Infiltrados”, e ainda haveria uma quinta, “O Lobo de Wall Street”) e uma de suas poucas incursões no gênero de terror (outra seria “O Cabo do Medo”), por meio do qual ele resgata uma narrativa preocupada com sugestão e caracterização –elementos em baixa no descerebrado cinema realizado e consumido hoje.
É 1954. Dois agentes federais (interpretados por Dicaprio e Mark Ruffalo) chegam à soturna Shutter Island, manicômio isolado numa ilha remota, famoso por reunir técnicas inovadoras para tratar doentes mentais, e também, por trazer entre seus pacientes criminosos de altíssima periculosidade.
Um mistério paira no ar.
Segundo seu ladino e ligeiramente afetado diretor-chefe (Ben Kingsley, numa atuação cheia de engenhosidade e sentido), uma das pacientes desapareceu de seu quarto, simplesmente como se tivesse evaporado, a despeito da extrema segurança do lugar. Durante sua investigação, os agentes frustram-se ao bater de frente com imposições de protocolo, e com uma estranha apatia de todos a sua volta.
O final, de uma manobra roteirística que soa francamente imprevisível, reitera uma questão subjacente em outro filme estrelado por Leonardo Dicaprio, "A Origem", de Christopher Nolan, no qual, assim como aqui, as diferentes pressuposições de realidade pesam de modo irreversível nas escolhas finais de seus personagens.
A impecável direção de Martin Scorsese deposita muita de sua confiança nas reviravoltas constantes da trama, que reúne psicanálise, traumas de guerra, e elementos sobrenaturais, e se vale de pontas pra lá de significativas de Jackie Earl Haley e Patricia Clarkson.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Homem de Ferro 3

Jon Favreau, o diretor dos dois primeiros filmes do Homem de Ferro sentia-se esgotado em lidar por tanto tempo com aquele mesmo material –e seu cansaço na condução de “Homem de Ferro 2” é particularmente visível.
Tendo ele então recusado a direção do terceiro filme de Tony Stark, e antes disso, também recusado a direção do filmes dos Vingadores, a Marvel Studios foi em busca de um novo diretor (essa prática passou a ser bastante benéfica para o estúdio e suas produções, não deixando que um mesmo diretor se sobrecarregasse com sucessivos filmes).
Foi o astro Robert Downey Jr. quem interveio, sugerindo para o cargo seu grande amigo Shane Black, realizador do ótimo “Beijos e Tiros”, provavelmente a obra inicial do retorno de Downey Jr. ao estrelato.
Também ator (participou de “O Predador”), além de conceituado roteirista (criou a premissa e escreveu o roteiro dos dois primeiros filmes da série “Máquina Mortífera”), Shane Black contribuiu com seu senso de espetáculo, seu humor pontual e seu gosto por ramificações rocambolescas na trama, proporcionando ao personagem de Tony Stark um filme interessante que dá continuidade aos eventos de "Os Vingadores", mas que gerou uma controvérsia entre o público. Certamente, a maior dentre todos os filmes da Marvel: Os expectadores basicamente se dividem entre aqueles que o consideraram ótimo, tão bom quando os filmes anteriores, e aqueles que repudiaram completamente as escolhas (polêmicas é bem verdade) da história, cujas reviravoltas mostram-se desafiadoras no que tange a alguns elementos canônicos dos quadrinhos, além do humor afiado, incisivo e constante que fizeram muitos imaginar que este era um filme que não se levava a sério –e isso é tema para infindáveis debates.
Quando “Homem de Ferro 3” começa, portanto, Tony Stark (Downey Jr como sempre dando o seu melhor), o Homem de Ferro em pessoa, goza de seu status de celebridade na Costa Oeste após a Batalha de Nova York –ocorrida na segunda metade de “Vingadores” –torná-lo  famoso no mundo inteiro, junto com os outros heróis. Enquanto mantém um relacionamento relativamente sólido com Peper Potts (Gwyneth Paltrow), Tony lida, ao seu jeito, com o stress pós-traumático provocado por aquele conflito: Constrói novas armaduras sem parar!
Já, seu melhor amigo, James Rhodes (o ótimo Don Cheadle), que em “Homem de Ferro 2” assumiu a alcunha de Máquina de Combate, segue atuando agora como Patriota de Ferro. Entretanto, quando um certo Aldrich Killian (Guy Pearce) aparece, Tony começa a suspeitar de seu envolvimento em uma série de atentados relacionados a uma droga experimental, a Extremis, e que levam diretamente a um terrorista disposto a ameaçar a vida do próprio presidente dos EUA: o misterioso Mandarim (Ben Kingsley, numa atuação soberba).
Gozando do privilégio de ser o primeiro filme a iniciar a "fase 2" da Marvel Studios, ou seja, todos os planos envolvendo o Universo Marvel após o estrondoso filme dos Vingadores, “Homem de Ferro 3” foi audacioso nos rumos inventivos que buscou dar para personagens já estabelecidos –ao mesmo tempo que ele reinventou por completo o celebradíssimo arco “Extremis”, dos quadrinhos, o roteiro não se intimidou de subverter a lógica e a origem do vilão Mandarim (um personagem muito aguardado pelos fãs), dando a ele um background metalingüístico inesperado (para não dizer desconcertante!) que chocou o público, frustrando alguns expectadores e surpreendendo outros tantos.
O filme de Shane Black também mostra audácia na maneira com que amarra pontas soltas dos filmes anteriores do Homem de Ferro, firmando-se como um “final de trilogia” –ainda que todos sabiam, a trajetória de Tony Stark não tenha se acabado.
O mais controverso filme da Marvel Studios, o sarcástico e espetacular “Homem de Ferro 3” mostrou, pelo menos, que o estúdio tinha muita lenha pra queimar, mesmo depois de “Vingadores”.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A Lista de Schindler

Durante boa parte de sua carreira Steven Spielberg viu-se reduzido à pecha de diretor de filmes de fantasia, ainda que sua genialidade tenha se mostrado, desde sempre, incontestável. Suas incursões na área da dramaturgia séria eram, em geral, recebidas com intriga e um certo ar de desconfiança: Quando ele lançou “A Cor Púrpura” e “Império do Sol”, na segunda metade dos anos 1980, a excelência reconhecida desses filmes não impediu que muitos observassem o curioso desconforto de ver o estilo de Spielberg versar em torno de questões adultas, distantes das aventuras infanto-juvenis que àquela altura já tinham se tornado a sua marca.
Em 1993, contudo, Spielberg deu um basta nesse ciclo vicioso que parecia querer confiná-lo num só rotulo –valendo-se, é bem verdade, de uma campanha de marketing bem planejada e oportuna: Nesse mesmo ano, ele lançou o arrasa-quarteirão (hoje, também ele, um clássico) “Jurassic Park”, que retomou para si, durante alguns anos, o posto de maior bilheteria da história do cinema (que outrora, ele já tinha obtido com “E.T.-O Extraterrestre”) e, numa dobradinha digna de um dos grandes realizadores de todos os tempos, entregou também um filme adaptado do romance de Thomas Kennealy, ainda que dotado de características autorais, sério, sombrio até, profundamente enraizado no registro histórico da Segunda Guerra Mundial (ainda que, a rigor, não fosse um filme de guerra), filmado numa fotografia em preto & branco das mais deslumbrantes de todos os tempos e imbuído de uma emoção poderosa e irrestrita, que ainda tinha os méritos de evitar o sentimentalismo fácil, além de ultrapassar as três horas de duração.
Surgia assim “A Lista de Schindler”, um filme com tantos predicados notáveis que seria impossível que a Academia de Artes Cinematográficas (leia-se, o Oscar) o deixasse passar batido. E a campanha de marketing (que salientava o fato hercúleo de Spielberg ter entregado “Schindler” e “Jurassic” num mesmo ano) não deixava ninguém esquecer isso, aliada ao fato de que o filme tinha qualidades reais e inquestionáveis. 
Durante a ocupação nazista na Europa o magnata Oskar Schindler (Liam Neeson, sensacional) chega à Krakóvia disposto a fazer fortuna. Contando com a conivência de oficiais nazistas (cujo favoristismo ele obtém entre seus membros valendo-se de seu charme de bom-vivant), ele abre uma fábrica de panelas inicialmente com investidores judeus e mais tarde patrocinada pela própria Gestapo, sempre valendo-se das circunstâncias da guerra.
Seu grande aliado na empreitada é o relutante contador Isaac Stern (Ben Kingsley, num trabalho primoroso), que aos poucos começa a tímida, e cada vez mais constante, iniciativa de usar a fábrica para preservar vidas.
Quando toda a Polônia é tomada, e grande parte da Krakóvia convertida em um campo de concentração, regido pelo perigoso e irascível Amos Goethe (Ralph Fiennes, magnífico e ameaçador), Schindler passa a usar como mão-de-obra os judeus vindos do próprio campo. Não demora muito para que sua fábrica passe a ser chamada de refúgio.
No recorrer dos anos que fizeram a Segunda Guerra Mundial, Schindler ajudou a salvar a vida de milhares de judeus.
São muitos os momentos que o talento de Spielberg consegue tornar antológicos (a interminável e brutal seqüência da evacuação do gueto de Varsóvia; a cena em que um oficial ameaça um senhor judeu com uma pistola que insiste em não disparar; o momento emocionante em que Schindler percebe o valor da vida, e reconhece em lágrimas que podia ter salvo muito mais pessoas), mas poucos se igualam à magnífica seqüência final quando seu diretor converte o preto & branco à cores, e paralelamente o registro fictício ao documental, mostrando uma cena na qual todos os verdadeiros personagens do filme, ao lado dos intérpretes que os viveram, depositam uma pedra no túmulo de Oskar Schindler (num costume judeu) –uma única rosa é colocada ao fim, pelo próprio ator Liam Nesson.

Longo, emocionante, técnica e artisticamente irrepreensível, e não raro espetacular, “A Lista de Schindler” terminou conseguindo aquilo que todos esperavam, proporcionando a consagração de Steven Spielberg, e assim conquistando 7 prêmios Oscars em 1993, incluindo as cobiçadas estatuetas de Melhor Filme e Melhor Diretor. Hoje, ele tem uma honraria talvez ainda mais inestimável: É um dos melhores filmes da década de 1990.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Mogli - O Menino Lobo

A criatividade visual esbanjada pelo diretor Jon Favreau pulsa em cada fotograma desde seu novo trabalho, mais um da série onde os estúdios Disney transportam para a encenação live-action seus clássicos animados.
E é com satisfação que se conclui que “Mogli” é, até agora, o melhor de todos eles.
Após o início, com “Alice No País das Maravilhas”, de Tim Burton arriscando efeitos em 3D pós-“Avatar” (e a continuação “Alice Através do Espelho” foi lançada este ano, mas essa é uma outra história...), e os subseqüentes “Malévola”, com Angelina Jolie, e "Cinderella", o estúdio está pronto para (re) explorar o filão de suas marcas: Estão engatilhados uma versão de “A Bela e A Fera”, e “A Pequena Sereia” para os próximos anos.
Mas é “Mogli” que vem mostrar (a despeito da bilheteria imensa do açucarado “Malévola”) que isso tudo pode funcionar.
Orfão encontrado na selva pela pantera Baquera (a voz apropriada e solene do grande Ben Kingsley), o filhote de homem, Mogli (o surpreendente garotinho Neel Sethi), é levado para ser criado pelos lobos, os mais adequados à essa tarefa. Mas, com o passar dos anos, Mogli atrai a fúria do tigre Shere Khan (na voz poderosa e amedrontadora de Idris Elba), que usa o medo para controlar toda a selva, e obriga Mogli a tentar regressar às aldeias dos homens, buscando refúgio.
Nessa tentativa de fuga da sanha de Shere Khan, Mogli encontra o urso Balu (a voz divertida e reconfortante de Bill Murray), cuja despojada filosofia de vida oferece uma alternativa amena aos dilemas que as circunstâncias lhe impõem.
Não há como negar que “Mogli” oferece uma bela evolução do talento de Jon Favreau como realizador. Após dar o pontapé inicial no bem-sucedido Universo Marvel Cinematográfico com “Homem de Ferro”, Favreau viu seu estilo ficar cada vez oprimido pelas diretrizes da indústria na sua continuação e no caótico e equivocado “Cowboys & Aliens”. Voltando às suas raízes do cinema independente, Favreau encarou espontaneamente uma produção quase de guerrilha com o singelo e simpático “Chef”, belo trabalho que pareceu lhe restaurar as energias para este projeto, por natureza, imerso nas logísticas complexas da computação gráfica: Durante grande parte do filme, tudo é gerado por computador, tanto os animais, quanto a exuberante floresta que os envolve, exceto seu pequeno protagonista, o quê só salienta o notável trabalho do jovem Neel Sethi, e a austeridade da direção de Jon Favreau.

O projeto em si faz muito lembrar, por isso mesmo, o premiado “As Aventuras de Pi” de Ang Lee, onde também vemos um jovem protagonista hindu às voltas com personagens e todo um mundo de situações inusitadas que jamais ganhariam forma senão pela magia proporcionada pelos milagrosos efeitos visuais da atualidade.

sexta-feira, 18 de março de 2016

A Casa de Areia e Névoa

O sentimento de posse ou de materialismo parece nortear os personagens durante toda trajetória a que são submetidos em “House Of Sand And Fog”. E esse sentimento materializa-se na composição das cenas, nos meandros das ricas interpretações, vastas em emoções que flutuam no ar, na forma com que o diretor Vadim Perelman expõe a situação como um artifício que nubla a percepção e o bom senso dos personagens.
Não à toa a névoa surge como um dos personagens, a envolver ou desanuviar este ou aquele cenário como um véu invisível que descortina uma coisa para encobrir outra.
É uma das muitas metáforas a que este filme, de considerável carga alegórica, se permite.
Perelmam leva um olhar estrangeiro, inquisitivo, desmistificador ao conceito do sonho americano, como o fizeram muitos diretores não-americanos no passado. É uma visão europeizada sobre elementos tão norte-americanos. É curioso, portanto, que haja uma certa superficialidade no retrato da família de imigrantes sírio-libaneses. Eles são definidos por detalhes de culturas diferentes que aparecem a olhos mais atentos. E Perelman insiste num verniz mainstream (reforçado pela trilha sonora) para um projeto incontornavelmente autoral.
É o elenco, contudo, o grande brilho de “Casa de Areia e Névoa”. Apesar da caracterização hesitante, Ben Kingsley e Shorei Aghdashloo são presenças excelentes. Ele; a um só tempo agressivo e dócil, marido e pai convulsionado pela vontade implacável de dar uma vida confortável a sua família, pouco a pouco consumido pela angústia de ver-se fracassando nesse intento. Ela; a personificação da esposa tradicional do oriente médio, incapaz de livrar-se dos estigmas arraigados. Mesmo sendo imigrante num mundo novo, seu olhar silencioso é o de quem tenta, em vão, entender o que se passa (seja no nível emocional ou regulamentar), afinal os fatos que se desdobram dizem respeito a leis, valores e implicações de um país que lhe é estranho.
Shorei tem pouco tempo em cena, é bem verdade.
Mas, se falta algo nos coadjuvantes, o esmero para fazer uma protagonista completa é concretizado. Jennifer Connelly, recém-saída de “Uma Mente Brilhante”, onde venceu o Oscar de Atriz Coadjuvante em 2001, tem aqui a oportunidade de ampliar suas percepções acerca da capacidade de uma atriz em achar o tom de sua personagem. E a protagonista de “Casa de Areia e Névoa” é desafiadora.
Sou suspeito para julgar, visto que Jennifer Connelly é uma de minhas atrizes prediletas, e sem dúvidas, uma das mulheres mais lindas do planeta. Mas é admirável o fato de que ela busca filmes incomuns, complexos, não raro sombrios, para crescer como intérprete, a despeito das comédias românticas da vida que, se quisesse, ela faria fácil, fácil. Aqui, como em muitos títulos de sua carreira, ela encara uma mulher devastada pela depressão, pelo abandono do marido, pelo retorno iminente ao alcoolismo, e a soma de circunstâncias desfavoráveis que a levaram a tornar-se uma sem-teto. Em suma, em torno de Jennifer Connelly respira uma trama sobre a mais absoluta sensação de desamparo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A Travessia

Se neste “A Travessia” o diretor Robert Zemeckis logrou fazer uma experiência sensorial para seu público, então, certamente a sensação mais objetizada é a da vertigem. Todas as escolhas parecem levar à essa finalidade, desde os conflitos presentes em sua dramaturgia, até o uso propriamente dito dos efeitos digitais, o que Zemeckis executa, aliás, como um mestre. 
O resultado pode não ser tão certeiro como em “O Vôo”, afinal, aqui ele não dispõe de um craque como Denzel Washington, nem tampouco o roteiro consegue ter todo aquele polimento e excelência de seu trabalho anterior, mas ainda assim, Zemeckis entrega uma obra bela e plena cheia de significados e de boas intenções. 
Há de se levar em conta o tom de fábula que ele emprega no ínicio, e que dali até o final, irá soar desnecessário ao expectador (talvez, como forma de imolar certos aspectos lúdicos do cinema francês, o quê, à propósito, os franceses o sabem fazer muito melhor...), para contar a história do jovem Phillipe Petit (o bom Joseph Gordon-Levitt), que desde cedo pegou gosto pelas apresentações acrobáticas de rua e que o levou a uma desafiadora travessia na corda bamba da catedral de Notre Dame, culminando no plano ousado de atravessar, dessa mesma forma, as recém-inauguradas torres do World Trade Center. 
Toda a história que Zemeckis quer contar converge para esse momento, e tão claro isso fica, que muito do que se passa antes dos genuinamente sensacionais vinte minutos finais, parece uma mera distração, seja a presença sempre notável de Ben Kingsley como o mentor Papa Rudy, seja a gaita primeira parte onde se tenta ensaiar uma quase biografia de Petit, seja o entrecho central, tomado pelos preparativos sempre precários para realizar o audacioso plano. No final, depois de tanta elaboração ao armar o cenário para seu ato principal, Zemeckis entrega a cena na qual tanto suspense fez para chegar, e ela aparece com todos os predicados e recursos que se poderia dispor, firmando-se como uma bela homenagem de seu diretor Robert Zemeckis ao ato travesso de Petti como uma reafirmação da arte, e principalmente, à cidade de Nova York. Os movimentos de câmera e os efeitos em 3D colocam o expectador ali, sob aquela corda bamba, com todas as intensas sensações de vertigem à que se tem direito, e nesse sentido, o êxito do diretor acaba sendo completo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Invenção de Hugo Cabret

Dentre os grandes cineastas em atividade, poucos são tão cinéfilos quanto Martin Scorsese –ele provavelmente compete pau a pau com Quentin Tarantino!
Todavia, enquanto Tarantino, de uma outra geração de expectadores, enaltece obras dos anos 1970 (leia-se algumas já assinadas pelo próprio Scorsese), filmes de artes marciais, cinema poeira e outras pérolas dos seus tempos de jovem frequentador de videolocadora, as orientações e inspirações cinematográficas de Scorsese dizem mais respeito à época áurea do cinema e, certamente, às obras que são hoje vistas como pioneiras.
Realizando um qüiproquó dos mais curiosos com a produção que com ele disputou o Oscar de Melhor Filme em 2011, “O Artista” –um filme francês que homenageava o cinema mudo norte-americano –este “A Invenção de Hugo Cabret” é, portanto, uma homenagem norte-americana ao cinema francês em geral e à obra de George Mélies (o célebre realizador de “Viagem À Lua”) em particular.
É na Paris da década de 30 que vive o pequeno orfão Hugo Cabret (Asa Butterfiled, adequado e cativante). Ele tem por objetivo elucidar o propósito de um autômato legado à ele por seu pai (Jude Law) pouco antes de morrer: De alguma forma, ele sabe que consertá-lo está relacionado com o velho Papa Georges (Ben Kingsley, maravilhoso), o desiludido dono de uma relojoaria localizada na estação de trem em que Hugo vive clandestinamente.
Em busca das respostas de seu passado, ele encontra também a própria história do cinema.
Num de seus primeiros trabalhos longe dos contemporâneos retratos da violência urbana, Martin Scorsese urge uma emocionante, pulsante e vívida homenagem à Sétima Arte, em especial ao pioneiro Georges Mélies cujos experimentos deram o pontapé inicial à concepção dos efeitos visuais no cinema (e parece ser então apropriado que um dos prêmios Oscar que esta obra sem igual conquistou seja o de Melhores Efeitos Visuais).
Composto de cenas esplêndidas com os recursos tecnológicos de 3 dimensões –e no topo da lista, ao lado do deslumbrante “Avatar”, de raríssimos filmes que conseguiram elevar a experiência 3D de cinema a um novo patamar –este lindo trabalho recebeu outros cinco Oscars que, entretanto, não parecem bastar para premiar a magnitude técnica deste filme inesquecível.